Publicidade

Arquivo de outubro, 2013

segunda-feira, 28 de outubro de 2013 Poesia | 02:58

Citação do dia: “Só as casas explicam que exista uma palavra como intimidade”

Compartilhe: Twitter

Do poeta português Ruy Belo (1933-1978), que ganha este ano, no Brasil, os três primeiros volumes da sua bibliografia completa. Organizada pelo escritor e também poeta Manoel Ricardo de Lima, a coleção é editada pela 7Letras.

 

Oh as casas as casas as casas

as casas nascem vivem e morrem

Enquanto vivas distinguem-se umas das outras

distinguem-se designadamente pelo cheiro

variam até de sala pra sala

As casas que eu fazia em pequeno

onde estarei eu hoje em pequeno?

Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?

Terei eu casa onde reter tudo isto

ou serei sempre somente esta instabilidade?

As casas essas parecem estáveis

mas são tão frágeis as pobres casas

Oh as casas as casas as casas

mudas testemunhas da vida

elas morrem não só ao ser demolidas

ela morrem com a morte das pessoas

As casas de fora olham-nos pelas janelas

Não sabem nada de casas os construtores

os senhorios os procuradores

Os ricos vivem nos seus palácios

mas a casa dos pobres é todo o mundo

os pobres sim têm o conhecimento das casas

os pobres esses conhecem tudo

Eu amei as casas os recantos das casas

Visitei casas apalpei casas

Só as casas explicam que exista

uma palavra como intimidade

Sem casas não haveria ruas

as ruas onde passamos pelos outros

mas passamos principalmente por nós

Na casa nasci e hei-de morrer

na casa sofri convivi amei

na casa atravessei as estações

respirei – ó vida simples problema de respiração

Oh as casas as casas as casas

 

Autor: Tags: , , ,

domingo, 27 de outubro de 2013 Psicanálise | 13:50

Psicanálise no século XXI: Pare de culpar seus pais; a responsabilidade é sua

Compartilhe: Twitter

O mundo é triste, trágico e cruel, o futuro parece cada vez mais sombrio, as relações humanas são trabalhosas, falsas e frágeis, a esperança se revela a característica mais vã dos desinformados e, para completar, tudo o que você imaginava que sabia já não vale mais. Deslocado e perdido, restam-lhe o salvacionismo das novas religiões, o controle imposto pelo conservadorismo e a psiquiatria medicamentosa, sempre ansiosa por antidepressivos.

Será?

Se quiser questionar ou relativizar essas premissas, leia o livro “Inconsciente e Responsabilidade: psicanálise do século XXI”, do psicanalista Jorge Forbes. Lançado em 2012, a boa notícia para Forbes chegou há pouco mais de uma semana: sua obra foi uma das vencedoras do Prêmio Jabuti 2013, categoria Psicologia e Psicanálise. Editado pela Manole, o livro expõe o que Forbes pensa como uma psicanálise para o século XXI.

Como explica: “A grande maioria das pessoas ainda imagina que uma psicanálise sirva para se conhecer melhor. ‘Primeiro, eu me conheço e, em seguida, garantido nesse conhecimento, eu ajo’. Pois bem, não me parece mais sustentável essa forma de compreensão nos dias de hoje.”

Em tempos complexos, de fratura nas certezas, de mudanças vertiginosas, a profilaxia precisa ser vasta. É que Forbes faz. Contra o catastrofismo, o autocontrole. Contra o lugar-comum ancorado na visão do pandemônio público, a convicção de que não estamos assim tão desorientados. Contra o diagnóstico, a ação. Contra a culpa (e a falta dela, estampada na indiferença), a responsabilidade.

É uma espécie de chamamento à responsabilidade de cada um – Forbes ataca as psicanálises que cruzam Marx e Freud e se fixa nos embates do sujeito consigo mesmo, antes que com o objeto.  Como Jacques Lacan – de quem frequentou os seminários em Paris, entre 1976 e 1981, e se tornou um dos principais introdutores no Brasil – Forbes se apoia numa ideia elementar, porém complexa: não se trata de buscar nos outros a saída para nós mesmos. Os outros, que Lacan chamou de O Grande Outro, são a voz do senso comum. E senso comum é o contrário da libertação.

No século XXI, diz ele, não se faz análise para “se conhecer melhor”. Ao contrário. É para suportar o impossível de conhecer e de dar sentido ao mais fundamental de uma vida. A vida é risco, afirma, para quem não quer ser genérico, plastificado, irrelevante. A chamada “segunda clínica de Lacan” faz isso. A primeira clínica era a do significante, do simbólico, própria do mundo moderno, vertical, iluminista. A segunda clínica, por outro lado,  é a do real, que seria, na visão de Forbes, mais compatível com os novos sintomas da contemporaneidade – um mundo de relações mais horizontais, sem a presença dominadora da autoridade paterna detectada por Freud.

Responsabilidade 

O mal-estar, convém dizer, não é uma invenção pós-moderna (Freud e o seu livro “O mal-estar na civilização” que o digam). Mas a clínica psicanalítica para o século XXI, sugere Forbes, precisa levar-nos à libertação da culpa. Ele usa “responsabilidade” no lugar da “ética” e da “moral”. Acha o termo menos culpabilizante e melhor administradora da angústia que toda chamada à moralidade desencadeia em quem é chamado. (Não é uma tese consensual. Nomes respeitáveis como o psicanalista Jurandir Freire Costa, por exemplo, argumentam que nosso ideário ético fundamental, baseado nos valores judaico-cristãos, não foi perdido, e que essa matriz deve ser apropriada com veemência.)

Um trecho do livro de Forbes é ilustrativo de sua escolha: “O título Inconsciente e Responsabilidade junta duas palavras que habitualmente não se frequentam, a ponto de ser comum ouvirmos, frente a um questionamento, uma pessoa se defender dizendo: ‘Ah, só se foi o meu inconsciente’, como se o inconsciente não fosse de sua responsabilidade.” Pois bem, continua ele, somos, sim, responsáveis frente ao acaso e à surpresa.

Um exemplo prático dessa visão: ouvindo alguém dizer, em uma sessão de segunda-feira, que ficou pensando no fim de semana e que concluiu ser “um péssimo marido, um pai meia-boca e um amante infeliz”, o analista clássico perguntaria “O que o levou a essa conclusão?”. A psicanálise do século XXI não traria uma pergunta, mas um comentário mais ou menos assim: “O fato de o senhor dizer que é um péssimo marido, um pai meia-boca e um amante infeliz não diminui em nada o fato de o senhor ser um péssimo marido, um pai meia-boca e um amante infeliz”.

Jorge Forbes acha que o homem “desbussolado” do presente (como bom lacaniano com formação francesa, ele tirou do coloquial “déboussolé”) continuará sem rumo se não lhe oferecermos a responsabilidade diante do acaso, da surpresa, do seu inconsciente, da sua família, do trabalho.

Nada de explicar seus erros e seus problemas, portanto, com o dedo em riste para seus pais. A responsabilidade é sua.

 

 

Autor: Tags: , , , , ,

terça-feira, 22 de outubro de 2013 Filosofia | 23:10

Citação do dia: O amor, segundo Nietzsche

Compartilhe: Twitter

Do livro “100 aforismos sobre o amor e a morte”, de Nietzsche (que faz parte da coleção Grandes Ideias, da Penguin & Companhia das Letras, com seleção e tradução de Paulo Cézar de Souza), separo três aforismos:

27. Amor e reverência
O amor deseja, o medo evita. Por causa disso não podemos ser amados e reverenciados pela mesma pessoa, não no mesmo período de tempo, pelo menos. Pois quem reverencia reconhece o poder, isto é, o teme: seu estado é de medo-respeito. Mas o amor não reconhece nenhum poder, nada que separe, distinga, sobreponha ou submeta. E, como ele não reverencia, pessoas ávidas de reverência resistem aberta ou secretamente a serem amadas.

37. A fonte do grande amor
De onde se origina a súbita paixão de um homem por uma mulher, aquela profunda, interior? Apenas da sensualidade, certamente não: mas, se o homem encontra debilidade, necessidade de ajuda e petulância ao mesmo tempo, nele sucede como se a sua alma quisesse transbordar: no mesmo instante ele se sente tocado e ofendido. Nesse ponto é que brota a fonte do grande amor.

47. Amostra de reflexão antes do casamento
Supondo que ela me ame, como se tornaria incômoda para mim, com o passar do tempo! E supondo que não me ame, como aí então se tornaria incômoda para mim, com o passar do tempo! – Trata-se apenas de duas diferentes espécies de incômodo: – casemos, portanto!

 

 

Autor: Tags: ,

segunda-feira, 21 de outubro de 2013 Filosofia do cotidiano | 21:44

Citação do dia: “Beleza exposta dá tédio”

Compartilhe: Twitter

Do livro “A filosofia da adúltera”, do filósofo Luiz Felipe Pondé, recém-lançado pela editora Leya. O capítulo chama-se “Uma mulher interessante”, iniciado a partir de Nelson Rodrigues, seu guru intelectual:

(…)”O desejo precisa de seu claustro”. A beleza é sempre necessária, mas escondida por detrás de sua discrição. As pernas das mulheres são mais lindas quando pressentidas na sua totalidade do que quando expostas ao sol. Por isso, mulheres belas na mídia acabam por nos entediar, assim como todas aquelas que vivem graças à indústria da beleza.

Mas isso tampouco significa que devemos nos esquecer da necessidade da beleza sufocando em definições “cabeça” de mulher bonita. Uma mulher bonita dispensa manuais. O silêncio e a reverência bastam. E o desejo que pinga sobre ela. Se você der sorte.

Quando se esquece que a beleza é melhor vista fora da luz, esquece-se que a beleza exposta dá tédio, e o corpo é o órgão por excelência do tédio. Nele, o tédio não é uma ideia da falta de sentido da vida, é a matéria mesma por onde passam as horas da falta de sentido.

 

 

Autor: Tags: , , , , ,

Política, Sociedade | 13:57

Cid Benjamin e as memórias de um militante torturado: “Pessoas normais são capazes de torturar”

Compartilhe: Twitter

Narrativa envolvente e objetiva, detalhes cruéis de uma memória prodigiosa, histórias surpreendentes e análise que revisa, com crítica e autocrítica, premissas e atos desde a luta contra a ditadura militar (1964-1985) até a política posterior à redemocratização – eis o que o jornalista e escritor Cid Benjamin exibe no sensacional “Gracias a la vida: Memórias de um militante”, livro editado pela José Olympio, que ele lança nesta terça-feira (22), na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, Rio de Janeiro.

Está tudo lá: pesquisa, lembranças em detalhes das torturas que ele e seus companheiros de luta sofreram nas mãos dos militares, memória em torno dos nove anos de exílio e reflexões sobre o PT e a política partidária. O iG publica amanhã uma entrevista com Cid Benjamin sobre o livro e suas memórias, portanto a coluna se concentra aqui em dois momentos-chave de sua narrativa: a prisão e a tortura.

O jornalista Cid Benjamin:  Enquanto torturadores não forem punidos, haverá quem a pratique

O jornalista Cid Benjamin: “Enquanto torturadores não forem punidos, haverá quem a pratique” (Foto: Divulgação)

A descrição do inferno parte da sala principal de torturas do temido DOI-Codi, do I Exército. Rua Barão de Mesquita, bairro da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro. Espaço amplo, sem janelas. Encostado a uma parede, um pau-de-arara. Uma mesa,  cadeiras e um falso espelho por onde se poderia acompanhar, sem ser visto, o que acontecia ali dentro. Sobre a mesa, telefones de campanha, que funcionavam com manivela. Fios compridos com as pontas desencapadas eram presos aos aparelhos, usados para dar choques elétricos. “Aqui é o lugar em que o filho chora e a mãe não vê”, dizia um dos cartazes desenhados à mão. “Advogado aqui só entra preso”, anunciava outro.

Tenebroso, mas leia mais. O preso recebe um capuz de lona grossa, preto. Malcheiroso, tinha resquícios de sangue, vômito e saliva. Os torturadores começam a sessão, com choques longos, ora com os telefones, ora com uma das extremidades dos fios amarrados em parte do corpo do torturado com as outras extremidades enfiadas diretamente na tomada – o “choque de parede”. Se o preso estivesse no chão, dava saltos como vítima de uma convulsão. Se pendurado no pau-de-arara, corcoveava, num rodeio às avessas. “Esse vai ficar brocha pelo resto da vida”, diziam os torturadores.

Ato de uma alma monstruosa?

Um monstro? Nem tanto, diz, surpreendentemente, o autor do livro. Para ele, a tortura que sofreu não foi praticada apenas por psicopatas sádicos, jovens militares obcecados pelo “combate ao comunismo”, policiais civis experientes que já haviam torturado presos comuns e passaram a torturar presos políticos. Os torturadores eram também cidadãos “normais”: bons maridos, pais amorosos, vizinhos simpáticos, descreve Cid. Gente comum que passou a achar a tortura uma prática natural, mas que encontrou no suplício e até assassinato de seus semelhantes sua rotina profissional.

Pode levar uma vida “normal”, mas derrotado ou vitorioso o algoz jamais se afirmará como ser humano, sublinha Cid, lembrando que o único papel do torturador ali é o de tentar esmagar a humanidade alheia. Antes de viver a experiência, diz ele, achava que eram princípios ideológicos que faziam um torturado calar-se para não denunciar amigos e dar informações úteis ao torturador. “Já não creio que seja só isso”, afirma. “Muitas vezes é algo mais primário: o sentido de lealdade pessoal, a dignidade e – por que não? – o amor próprio.

A análise exposta no livro sobre a figura do torturador leva à lembrança da descrição de um burocrata banal feita pela filósofa Hannah Arendt para o criminoso nazista Adolph Eichmann. Verdugos que, em alguns casos, se permitiam até sinais de admiração por suas vítimas, pela coragem que demonstravam diante da dor – mesmo que não deixassem de fazê-las sofrer mais. Na síntese de Cid: “Pessoas normais são capazes de torturar”.

Esse reconhecimento não significa relevar o que seus algozes fizeram. “Enquanto torturadores não forem punidos, haverá quem a pratique. Por isso, é importante que os executores diretos e, ainda com mais razão, os mandantes sejam levados ao banco dos réus”, escreve ele, para quem “queiramos ou não,  o futuro da tortura está ligado ao futuro dos torturadores”. Palavra de quem, de tão torturado, reconhecia o suplício pelo tipo de gemido da vítima. Os gritos de quem estava levando choque eram longos e muito fortes. Quando eram pancadas, os gritos não se mostravam contínuos. No caso de afogamento, não havia gritos, mas soluções e tosse, muita tosse.

A prisão

Cid Benjamin começa sua envolvente narrativa no dia 21 de abril de 1970. Tinha 21 anos e exibia o codinome Paulo Alves. Não era um estudante qualquer, mas o chefe da Frente de Trabalho Armado (FTA) do Movimento Revolucionário 8 de Outubro, o MR-8. Era, na verdade, a bola da vez: tratava-se do principal dirigente da organização e um dos cabeças da linha de frente na luta armada – na contabilidade militar, o recordista na participação de ações de guerrilha urbana no Rio até aquele momento, incluindo o sequestro do embaixador dos Estados Unidos, Charles Elbrick.

“Tá em cana”, ouviu ao ser agarrado por trás numa gravata por um sujeito forte. Em reação, Cid aplicou-lhe um golpe de judô com a eficiência de um faixa preta (fora campeão brasileiro juvenil). Ao que se seguiu uma longa briga contra “15 ou 20 sujeitos”, a maioria com fuzis, que destruiu a padaria no Lins de Vasconcelos, Zona Norte do Rio, “aparelho” onde Cid se encontraria com um companheiro.

Brigou muito antes de, ensanguentado, ser jogado em um carro. Foram 20 minutos, segundo seus captores – todos agentes à paisana do DOI-Codi do I Exército. Suas ordens eram pegá-lo vivo. “Eles queriam me prender vivo, em busca de informações que pudessem ser extraídas na tortura”, escreve Cid. “Por isso não atiraram. Os fuzis foram usados como porretes, para me desferir pancadas, principalmente na cabeça”. Com gritos de triunfo, narra Cid, a caravana partiu em direção ao quartel da Polícia do Exército, na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, onde funcionava o DOI-Codi. “Se não temia a morte, eu temia a tortura. Mais do que o sofrimento físico, temia acabar dando informações que pudessem levar à prisão ou à morte de companheiros. Preferiria morrer”.

Cid conheceria o inferno naquela noite.

Engana-se, porém, quem achar que tais descrições equivalem à autocelebração. Como afirma o colega Milton Temer no prefácio, Cid não mitifica a valentia, nem supervaloriza a coragem; não produz um texto de arrependido ou derrotado, tampouco renega seu período de luta armada, embora avalie criticamente os erros cometidos. E o faz com “racionalidade e distanciamento”, nas palavras de Temer, que ataca as “fábulas que chegaram a gerar filmes”, as “lendas sobre falsos autores de textos que a guerrilha impôs à ditadura ler em cadeia nacional” e a “autopromoção de falsos protagonismos dos episódios mais marcantes”.

Quem conhece os meandros dessa história sabe a que companheiros Temer se refere.

Cid reconhece que o caminho da guerrilha foi um equívoco, pela impossibilidade de vitória. Deixa claro quando retrata, com as cores de hoje, a imaturidade política e as temeridades cometidas por ele e seus companheiros de guerrilhe urbana. Mas considerou um “gol de placa” o sequestro do embaixador norte-americano. (E mesmo na prisão, onde esteve na solitária onde só podia dormir na diagonal, ajudou a elaborar a lista de presos a serem libertados em troca do então embaixador da Alemanha Ocidental, Ehrenfried Von Holleben.)

Mais do que isso, noves fora os erros cometidos, acha, com razão, que estava do lado certo – não o da guerrilha, mas o lado de quem acredita na política como orientação pela “justiça social e fraternidade”.

 

Autor: Tags: , , , ,