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Arquivo de dezembro, 2013

terça-feira, 31 de dezembro de 2013 Filosofia do cotidiano | 09:36

Réveillon reacende nossa esperança de felicidade

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Se o Carnaval é o tempo da alegria sem causa, da felicidade sem dia seguinte, e se o Natal nos informa sobre o amor fraterno e a amizade, o réveillon é provavelmente o momento que melhor espelha, traduz e renova a esperança. Na passagem do ano não vivemos exclusivamente o dia e a noite únicos, feito o carpe diem hedonístico carnavelesco, mas enxergamos o amanhã com as portas e o coração abertos para o que virá, como se nessa virada de tempo nossas vidas fossem mudar drástica e repentinamente – para melhor, evidentemente.

Faça o teste, observe à sua volta, recolha depoimentos de amigos e familiares, reveja a caixa de entrada do seu correio eletrônico, verifique todas as suas mensagens, instantâneas ou não: a poucas horas de passarmos a enquadrar 2013 em nosso retrovisor da memória e encararmos 2014 não mais com o mero estranhamento da novidade, serão raros aqueles desprovidos de mensagens de esperança e renovação próprios dessa época.

O poeta Carlos Drummond de Andrade publicou vários textos dignos de citação para o momento, e a editora Record transformou alguns deles num pequeno e belo volume em 2008: Receita de Ano Novo. Recebi Drummond de amigos que trabalham com a palavra – poetas, escritores, filósofos – ou que simplesmente têm a sensibilidade para entendê-las e compartilhá-las. Eu mesmo usei um desses textos e reproduzo aqui.

“Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial”, escreveu Drummond. “Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente.”

A industrialização da esperança de que tratou Drummond não parece um fenômeno exclusivo do réveillon, mas é no fechamento dos doze meses do ano que ela se manifesta de maneira mais enfática. E num país que se habituou a se enxergar como nação do futuro, a vocação para a esperança se revela ainda mais dramática.

Brasileiro, profissão esperança

Não é fácil manter a condição de País do futuro por tanto tempo. Há um enorme mérito nisso. Disso ingleses e portugueses talvez não entendam: nenhuma nação do mundo foi o país do futuro por tanto tempo como o Brasil. Por mais que um inglês force sua imaginação, jamais conseguirá acreditar que a Inglaterra seja, no futuro, algo superior ao que foi no passado, política, econômica e culturalmente. O mesmo império econômico e geopolítico produziu Shakespeare, Bacon e Newton; nenhum inglês acredita que ainda vá surgir outro Shakespeare, outro Bacon ou outro Newton.

Ingleses têm o centro de gravidade no passado. Aliás, como os portugueses, que também já foram um império, viveram momentos de glória e esperaram por muito tempo a volta de D. Sebastião, que os redimiria do ocaso, do ostracismo e da desesperança. Não à toa “saudade” foi uma palavra inventada pelos portugueses (embora o sentimento seja universal): o profundo sentimento de uma nação que teve seus dias de glória. Sua esperança olha para o passado, a fim de revivê-lo.

Enquanto isso, nossa saudade é inversa – talvez o que Fernando Pessoa chamou de uma “saudade imensa de um futuro melhor”. A condição brasileira ancora-se na ideia de que pouco fizemos no passado, ou tudo o que temos por fazer de valioso está mesmo no amanhã. É para o futuro que aponta o centro de gravidade de nossa imaginação. É-nos inconcebível um futuro que seja ainda pior do que o nosso passado.

Modesto no bolso, craque no pé

Dentre os muitos paradoxos do Brasil, um deles é a dissonância entre as condições materiais de existência e as diferentes percepções subjetivas – um cruel histórico de desigualdades, injustiças e precariedade de vida conviveu com uma exuberante autodefinição de povo feliz e esperançoso. Um terreno fértil para exageros de lado a lado, diga-se.

Em “breviário do patriotismo”, Afonso Celso destacou que a felicidade brasileira era fruto dos “motivos reais” que a pátria nos dá para amá-la e para que dela nos orgulhemos. Segundo ele, pode haver países mais prósperos, mais poderosos e mais brilhantes do que o Brasil, mas “nenhum mais digno, mais rico de fundadas promessas, mais invejável”. Para Afonso Celso, o clima e a mestiçagem garantiram um “tipo nacional” privilegiado.

No clássico Retrato do Brasil, Paulo Prado, por outro lado, considera que esses elementos constituem explicações suficientemente evidentes para a “tristeza brasileira”. Ele escreveu:

“A melancolia dos abusos venéreos e a melancolia dos que vivem na ideia fixa do enriquecimento – no absorto sem finalidade dessas paixões insaciáveis – são vincos fundos na nossa psique racial, paixões que não conhecem exceções no limitado viver instintivo do homem, mas aqui se desenvolveram de uma origem patogênica provocada sem dúvida pela ausência de sentimentos afetivos de ordem superior. […] No Brasil, o véu da tristeza se estende por todo o país, em todas as latitudes, apesar do esplendor da Natureza”.

Felicidade edênica

Há alguns anos a Fundação Getulio Vargas na qual perguntou aos entrevistados se eles sentiam orgulho de ser brasileiros e quais os motivos para o orgulho. Enquanto quase 60% responderam afirmativamente, somente 4% disseram sentir vergonha do país em que vivem. Em ordem decrescente, a natureza, o caráter do povo, as características do Brasil, esportes/música e carnaval foram os motivos enumerados para a razão de tanto orgulho. É o que o historiador José Murilo de Carvalho chamou de motivo edênico do orgulho nacional. O Éden somos nós.

Do Instituto Datafolha veio uma pesquisa segundo a qual quase metade dos brasileiros consideram o Brasil o país mais feliz do mundo. Estão satisfeitos com a própria vida, 65% dos entrevistados. Somente 3% se declaram infelizes. Curiosamente, no entanto, o Brasil foi ao mesmo tempo apontado como o segundo país mais infeliz do planeta, atrás apenas da África (genericamente) e da Etiópia – empatadas. A grande maioria dos entrevistados, não importando o nível de renda e o grau de escolaridade, mostrou-se feliz com a vida que levava.

Enquanto 65% dos entrevistados se sentem felizes consigo, apenas 23% acreditam que os brasileiros em geral são felizes. Em outras palavras, a imagem que temos de nós mesmos, cada um por si, não corresponde àquela que temos de nós mesmos como coletividade. Como entender duas percepções tão conflitantes?

Analisando os dados, o economista Eduardo Giannetti apresentou na época duas hipóteses. A primeira seria questionar a validade da imagem que cada um gosta de alimentar de si mesmo. “Por mais infeliz que alguém seja aos olhos dos outros, o indivíduo se defende como pode da dor de admitir perante si mesmo a própria infelicidade”.

A segunda hipótese é que os entrevistados talvez usem critérios distintos nos juízos que emitem: “Ao falarem de si, eles privilegiam a perspectiva interna e declaram o seu bem-estar subjetivo. Ao falarem dos demais, contudo, eles naturalmente adotam o ponto de vista externo e privilegiam as condições objetivas em que vive a maioria. A precariedade da vida vista de fora – renda, emprego, segurança, saúde, educação, moradia – domina a avaliação”.

Embora especulativa, a conclusão pareceu satisfatória: infelizes são os outros, não eu; aos olhos deles, no entanto, os outros somos nós. Acrescente-se ao raciocínio de Giannetti: Dizemo-nos felizes, individualmente, mas nossas felicidades individuais não se somam, não se multiplicam. É o afloramento do individualismo brasileiro, de sua dificuldade histórica de gestar uma dimensão coletiva, um espaço público, em que a busca de bem-estar subjetivo se conjugue com a aliança, o compromisso, o contrato. Essa premissa se confirma com o fato de a política brasileira trazer infelicidade para 37% dos entrevistados.

A política no lugar da religião como fonte de esperança

O número acima não surpreende, porque enquanto a felicidade é a prima rica da esperança, a frustração é a prima pobre. Contraditoriamente, depositamos uma enorme esperança na política, quase no mesmo compasso da profunda decepção que temos com ela – e com os políticos. Como disse o filósofo Luiz Felipe Pondé na última Flip, em Paraty: a relação com a política hoje é religiosa na raiz; esperamos que a política conserte o mundo. É essa convicção que alimenta os mais críticos da política, como aqueles que encheram as ruas de protesto no Brasil, nos EUA, na Turquia, na Síria e em tantos outros lugares.

E, no afã de esperar o futuro como algo melhor, corre-se o risco de ignorar o passado e a herança que nos foi legada. Voltando ao próprio Pondé, na mesma Flip: “A modernidade parece um adolescente de 17 anos, que acha que entende tudo sobre o mundo e que o passado não vale nada. Quando você aprende a respeitar o que veio antes de você, ajuda a baixar a bola sobre o que pensa de si mesmo.”

O avesso da esperança, no entanto, parece ser uma condição de vida de vazio, mesmo infernal. Em sua Divina Comédia, Dante Alighieri descreve os portais do inferno como marcados por um aviso que conclama aos visitantes a abandonar toda e qualquer forma de esperança. Esperamos o que não temos, e no modo mais cético de ver a vida seríamos tanto menos felizes quando mais esperamos ser felizes. Woody Allen resumiria numa fórmula: “Como eu seria feliz se fosse feliz!”.

Desconheço, no entanto, alguém que acredite na falta de esperança como meio de ser feliz – senão filósofos que usam o recurso como artifício teórico. Do mesmo modo que rejeitamos fórmulas para a felicidade. (Como escreveu o psicanalista Contardo Calligaris, a felicidade, para você, pode ser uma vida casta; para outro, pode ser um casamento monogâmico; para outro ainda, pode ser uma orgia promíscua. Para você, buscar a felicidade consiste em exercer uma rigorosa disciplina do corpo; para outros, é comilança e ociosidade. Alguns procuram o agito da vida urbana, e outros, o silêncio do deserto. Há os que querem simplicidade e os que preferem o luxo. Buscar a felicidade, para alguns, significa servir a grandes ideais ou a um deus; para outros, permitir-se os prazeres mais efêmeros.)

Eis o ponto: com ou sem religião, com ou sem filosofia, com ou sem leitura de qualquer autor que tenha se preocupado com tais questões, vivemos em algum lugar entre o campo do provável, do realizável e do desejável. E nesse lugar incerto cabe de tudo: esperança, medo, frustração, felicidade, desejo, vontade… Um caldeirão de afetos mais ou menos intensos, contraditórios e misturados, todos amplificados ainda mais pelas luzes e fogos do réveillon. E por essa razão, Drummond continua e continuará sendo importante nos últimos dias do ano.

Como neste poema de A rosa do povo, com o qual desejo ao leitor uma feliz – e esperançosa – passagem de ano:

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor [da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, [doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o [clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus… 

Recebe com simplicidade este presente do [acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos [séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras [espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

 O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles… e nenhum resolve. 

Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

 

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terça-feira, 17 de dezembro de 2013 Filosofia do cotidiano | 03:23

Solução de um filósofo contra o fracasso do casamento: “amor suave”

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Numa de suas frases incomparáveis, o dramaturgo irlandês Oscar Wilde disse: “Quando querem nos punir, os deuses atendem às nossas preces”. Muito tempo antes dele, filósofos como Platão e Pascal afirmaram o que depois seria repetido por Schopenhauer e Sartre: desejo é falta. “O que não temos, o que não somos, o que nos falta, eis os objetos do desejo e do amor”, escreveu Platão. Em outras palavras, se só desejamos o que não temos, nunca temos o que desejamos; tão logo um desejo seja satisfeito, já não há falta, e assim também já não há desejo.

Fracassou o casamento por amor?As citações acima parecem apropriadas para quem se interessar pela leitura do novo livro do filósofo francês Pascal Bruckner: Fracassou o casamento por amor?. Recém-lançado pela Difel, selo da editora Record, o livro parece ter um título saído dos códigos de autoajuda, mas é mais instigante. Um dos expoentes do grupo dos novos filósofos franceses, Bruckner busca aplacar as consequências geradas pelo ideal platônico – afinal, se Platão estivesse certo, a vida oscilaria para todos num pêndulo cruel que seguiria invariavelmente do desejo à frustração, da esperança ao sofrimento. (E não são poucos, infelizmente, a padecer dessa agonia de existência.)

A um problema conhecido e objetivo da vida prática moderna – o aumento progressivo do número de divórcios e a queda sistemática dos casamentos – Bruckner acrescenta um problema filosófico: os limites da idealização (no caso, os limites da união hiperidealizada como fusão amorosa). Da soma resulta uma saída de natureza igualmente filosófica, mesmo para aqueles que nunca leram Pascal ou para quem Platão não passa de uma superficial referência em torno de um certo “amor platônico” – aquele distante, idealizado e dificilmente realizado.

Amor total ou separação? Nenhum dos dois

A saída para esse problema, sugere Bruckner, é uma espécie de “amor suave”, em que o casal aceite a ideia de companheirismo, tolerância e respeito mútuo, uma relação da qual não se avance muito além de valores como amizade, afinidades e compreensão. Para bom entendedor: menos paixão, menos sexo, menos intensidade. Estes não passariam de “imperativos categóricos” do casamento, uma profecia autoanunciada para o fracasso.

Eis o estranho paradoxo de nosso tempo: há muito tempo já foi vencida a tarefa de valorizar os sentimentos, pôr abaixo o tabu da virgindade e desdramatizar o divórcio; a adesão às paixões tornou-se gesto comum entre nós; a liberdade amorosa exerce seu poder de sedução sobre boa parte das sociedades tradicionais (como as dos países muçulmanos ou da Índia e China); gays e lésbicas desejam obter direito ao casamento; justamente no momento em que tudo isso é fato, o casamento passa por uma crise de legitimidade.

Volta ao passado? Retorno ao casamento clássico, aquele tão repetidamente atacado por limitar o casal a uma vida de interesse e não de amor, por impor a resignação, a repulsa ou a reclusão conjugal? Quase isso, propõe Bruckner. Durante tanto tempo lutou-se contra a ideia, cristalizada no modelo clássico de casamento, de que o amor era algo proibido e a que se deveria combater. O problema, diz o filósofo, é que do amor proibido seguiu-se equivocadamente para o amor obrigatório. Um grande sonho se transformou em falência da instituição que ele deveria proteger.

O amor ideal é uma divindade que traz sofrimento

“Por que ele [o amor ideal] parece tão difícil de ser vivido nos dias de hoje?”, pergunta-se Bruckner, para responder em seguida: “Porque o veneramos como a uma divindade, por ter se tornado, assim como a felicidade, o alfa e o ômega das sociedades ocidentais”. (Em outro livro, publicado no Brasil como A euforia perpétua, Bruckner analisa e questiona o que chama “dever de felicidade”, a crítica ao culto e à obrigação de ser feliz como marca do Ocidente).

O filósofo acha que as pessoas hoje se imaginam infelizes por não serem felizes ou se preocupam por nunca protagonizar uma grande paixão. Para quem pensa assim, a paixão que não é louca não merece ser vivida. Confunde-se o amor e casamento, flexibilizando o primeiro e domesticando o último. Resultado: casamos menos e nos divorciamos mais. O que deveria gerar mais felicidade causa também aflição. “O amor triunfou no casamento antes de destruí-lo por dentro”, escreve Bruckner.

Para ele, a forma contemporânea do casamento combateu o modelo clássico que impunha às mulheres a infelicidade e a humilhação protagonizada por maridos despóticos, mas criou outros fragelos, sem se livrar dos antigos. Estabeleceu uma espécie de “tudo ou nada”: a busca de conciliar tudo, o sentimento e o erotismo, a educação das crianças e o êxito social, a efervescência e a permanência. (Sobre essa cruel exigência imposta aos casais, leia a instrutiva entrevista do psicanalista Contardo Calligaris ao iG).

“Os casais de hoje não morrem por egoísmo ou materialismo, morrem por um heroísmo fatal, uma ideia ampla demais de si mesmos”, escreve Bruckner. “Cada mulher se sente obrigada a ser, ao mesmo tempo mãe, puta, amiga e ‘ter atitude’; cada homem, pai, amante, marido e vencedor: pobre de quem não preencher essas condições”.

Amar demais é platonismo demente

Como numa filosofia de guerrilha, Bruckner chama de “platonismo demente” aqueles que amam o amor em demasia; para ele, significa amar mais o amor do que amar as pessoas propriamente. A vida de um casal, segundo o filósofo, tornou-se mais difícil desde que, de todas as suas funções, guardou-se apenas a da satisfação plena. “Por querer dar certo a qualquer preço, o casal se consome em ansiedades, teme a lei da entropia, a aridez das horas mortas. A menor queda de tensão é vivenciada como um fiasco, um descumprimento da promessa”.

Em síntese, espera-se volúpia demais no casamento, diz ele. Na acepção idealizada, o amor permanece como um fetiche inviolável, um tipo de liberdade forçada. Em resposta ao amor-paixão, mais breve e fugidio, Pascal Bruckner propõe procurar a felicidade possível a partir de uma coexistência harmoniosa. No lugar de êxtases estrondosos, regularidade e entusiasmo. Diante da possibilidade de exuberância e arrebatamento, opte-se pela indulgência e delicadeza, equilíbrio e ponderação.

Não pergunte sobre o amor para não sofrer ao amar

Convém prudência ler este feroz ataque ao amor, mesmo ao amor idealizado. Como qualquer debate em torno de temas complexos, deve-se ler com cautela as pregações de Bruckner. Ele não admite, mas é o que se pode chamar de um estoico. Os gregos antigos adeptos do estoicismo pregavam a virtude como algo suficiente para a felicidade; um sábio era imune aos infortúnios e ao sofrimento. A racionalidade, a harmonia e a indiferença seriam marcas de uma vida serena e, portanto, sábia e feliz. Sem escravizar-se pelas emoções e pelas paixões – em geral destrutivas, alertavam.

Houve muitos estoicos na história das ideias, mas não necessariamente tiveram razão. O que é a felicidade para eles? É não perguntar em que consiste a felicidade, porque existe na interrogação o princípio da infelicidade (John Stuart Mill). O que é a riqueza? É não desejar mais do que aquilo que se tem, conselho central dos clássicos, de Epicuro a Platão. O contrário não é apenas uma causa de infelicidade; a ambição desmedida da acumulação material é, como Baudelaire avisa, a raiz da vulgaridade.

No caso de Pascal Bruckner e seu livro sobre o fracasso do casamento por amor, o diagnóstico parece correto – todos se queixam de não conseguir satisfazer-se amorosamente apesar de o amor ser colocado “no topo da expectativa”. Mas recorro a duas outras citações para aplacar a intensidade da crítica de Bruckner (em seu diálogo O crítico como artista, Oscar Wilde – ele de novo – afirmava que para dizermos aquilo em que verdadeiramente acreditamos é preciso falar através de lábios alheios).

De José Miguel Wisnik, num ensaio publicado no livro O sentido das paixões, organizado há mais de 20 anos por Adauto Novaes, veio a pergunta: “É permitido dizer que o mundo é pobre para quem jamais foi doente o bastante para a paixão?”. E do psicanalista Jurandir Freire Costa, em seu livro Sem fraude nem favor: estudos sobre o amor romântico, surgiu a instigante ideia: “Sem amor estamos amputados de nossa melhor parte. A vida pode até ser mais tranquila e livre de dores quando não amamos. Mas trata-se de uma paz de cinzas”.

Eis um bom motivo para retomar o tema. Em outro artigo.

 

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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013 História, Política, Sociedade | 04:30

Humanidade é má por inclinação e corrupta por oportunidade

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Para quem acha que a corrupção brasileira começou com o chamado mensalão, e que a má imagem dos funcionários e agentes públicos teve início com Fernando Collor de Mello (o presidente “caçador de marajás”), convém dar uma lida em alguns dos artigos presentes no livro História do Brasil para ocupados.

1Lançado no mês passado pela editora carioca Casa da Palavra e organizado pelo professor Luciano Figueiredo, da Universidade Federal Fluminense, o livro reúne textos de 66 pesquisadores, jornalistas, economistas e historiadores que recontam passagens importantes dos últimos cinco séculos “de um jeito original”, como prega o subtítulo da obra. Leves na forma, certeiro no conteúdo, sugere o organizador.

Alguns dos textos conseguem isso, como a historiadora Mary del Priore ao tratar do uso de afrodisíacos e anafrodisíacos nos séculos XVI e XVII (motivo para outro artigo sobre este livro, quem sabe) e ao escrever o perfil de D. Pedro I, um imperador “impulsivo, louco por mulheres e que não escondia suas traições. Ou ainda o economista Gustavo Franco, em artigo sobre um Machado de Assis pouco conhecido: o talentoso cronista das questões econômicas que afligiam o Brasil na passagem da monarquia para a República (tema já esmiuçado pelo ex-presidente do Banco Central no excelente livro Machado de Assis e a economia, publicado pela Zahar).

Mesmo em textos classudos, outros mostram por que são referencia, como Luiz Felipe de Alencastro e Rubens Ricupero.

Mas passemos. O que interessa aqui é a corrupção, tema dos artigos do jornalista Eduardo Bueno (“Ficha suja”) e José Murilo de Carvalho (“Basta de corrupção”).

O primeiro ficha-suja da história do Brasil

Com seu habitual jeito criativo, Eduardo Bueno mostra que burocracia, favorecimentos, nepotismo e atividades escusas fazem parte da herança deixada pelos tempos coloniais no Brasil. O jornalista fala do Brasil de meio século depois de “descoberto” por Pedro Álvares Cabral – uma terra remota, quase despovoada (de europeus) e pouco lucrativa para a metrópole.

Apesar da grave crise financeira que atingia Portugal, o rei D. João III e seus conselheiros decidiram investir muito dinheiro do Tesouro Real para estabelecer um governo-geral no Brasil. Em março de 1549 desembarcariam no País as primeiras autoridades: o ouvidor-geral (cargo equivalente ao de ministro da Justiça), desembargador Pero Borges, e o provedor-mor (quase um ministro da Economia), Antônio Cardoso de Barros.

Borges se transformaria no que Eduardo Bueno classifica como o primeiro funcionário público ficha-suja de nossa história. Seis anos antes, fora condenado em Portugal por desvio de verba para construir um aqueduto – obra inviabilizada pelo roubo.

Borges recebia indevidamente quantias de dinheiro “que lhe eram levadas a casa, provenientes das obras do aquedo, sem que fossem presentes nem o depositário nem o escrivão”, segundo trecho de Elementos para um Dicionário de Geografia e História Portuguesa, de 1887, reproduzido no livro.

A vinda para a colônia se deu como parte de sua punição. Mas com privilégios: Borges tinha poder (inclusive condenar índios e escravos à morte), um ótimo salário e pensão para a mulher manter-se em Lisboa.

Desembarcando no Brasil, mostrou-se chocado com a “pública ladroíce e grande malícia”. Lorota: o ouvidor-geral se beneficiou do erário em solo brasileiro, ao adiantar os salários dos empregados mais graduados e suspender, sem explicação, a remuneração dos menos qualificados.

Quando o bem público era propriedade do rei

Em outro artigo (“A arte da subtração”), Ronaldo Vainfas mostra que o que chamamos de peculato – apropriação de dinheiro público em proveito próprio – não chegava a ser uma irregularidade. Pelo contrário, era prática institucionalizada. Conta ele:

“Era comum a Coroa arrendar a particulares o direito de cobrar impostos, assim como o direito de explorar produtos monopolizados pelo Estado. O regime de capitanias hereditárias foi um modelo desse esquema, no qual os donatários eram oficiais do rei recompensados com privilégios particulares, incluindo terras e parte da receita fiscal devido ao monarca. O que chamamos de bem público era, então, propriedade do rei”.

Naquela época, lembra o artigo, o que se proibia não era a prática em si, mas o excesso. Não chegava a ser um crime de lesa-majestade mas um delito passível de punição.

Leis variadas para corrupção variada

Punição prevista em lei foi o que não faltou na história do Brasil e, em especial, na história republicana. É o que informa o artigo de José Murilo de Carvalho, prescrito para quem acha que nunca se roubou tanto na história deste País. Resume o historiador:

“No século XIX, os republicanos acusavam o sistema imperial de corrupto e despótico. Em 1930, a Primeira República e seus políticos foram chamados de carcomidos. Getulio Vargas foi derrubado em 1954 sob acusação de ter criado um mar de lama no Catete. A ditadura militar chegou ao fim sob acusações de corrupção, despotismo, desrespeito pela coisa pública”.

Os termos, porém, mudaram ao longo do tempo, razão pela qual os republicanos no final do Império não queriam dizer que D. Pedro II era corrupto. Ao contrário, reconheciam nele uma virtude: a da correção pessoal. Ou o carcomido sistema da República Velha. “Corruptos eram os sistemas, monárquico ou republicano, por serem, na visão dos acusadores, despóticos, oligárquicos, e não promoverem o bem público.

Foi o udenismo de oposição a Vargas, nos anos 1950, quem deu à corrupção a marca da traquinagem individual. Era a falta de moralidade das pessoas a maior fonte de problemas de corrupção, pregaram os udenistas. Corruptos, a partir dali, passaram a ser os indivíduos – os pelintras getulistas e o próprio Getulio. Foram também os indivíduos que serviram de justificativa para o golpe de 1964 e mais tarde inspiraram o grito de guerra de Collor.

(Qualquer semelhança com os neoudenistas que odeiam o lulismo e o petismo não será mera coincidência, pois a linhagem teórica atual é uma versão atualizada do passado. Carvalho provavelmente discorda dessa tese.)

“O Brasil sempre foi um país de leis e de legistas”, escreve José Murilo de Carvalho. Simples: herdeiros, por Portugal, da tradição jurídica romano-germânica, somos um dos maiores produtores de leis. (Não à toa, por aqui a eficácia e a produtividade de um parlamentar são equivocadamente avaliadas pela imprensa com base no número de leis aprovadas.)

O artigo mostra que formular a legislação perfeita foi sempre a aspiração maior dos juristas que compuseram a quase totalidade da elite política durante a formação nacional do século XIX. Leis e mais leis capazes de enquadrar toda a realidade e evitar qualquer brecha por onde possa escapar o transgressor. “Nosso jurista se vê com um demiurgo, organizador do mundo, reformador universal. Feita a lei, o problema para ele está resolvido, não lhe interessando sua execução”, afirma Carvalho.

É uma visão oposta à da tradição da Common Law anglo-saxônica, segundo a qual a lei apenas regula o comportamento costumeiro.

No argumento de José Murilo de Carvalho, nosso cipoal de leis incita à transgressão e elitiza a justiça. “A tentativa de fechar qualquer porta ao potencial transgressor, baseada no pressuposto de que todos são desonestos, acaba tornando impossível a vida do cidadão honesto. A saída que este tem é, naturalmente, buscar meios de fugir ao cerco. Cria-se um círculo vicioso: excesso de lei leva à transgressão, que leva a mais lei, que leva a mais transgressão.”

Para o historiador, se não existe uma tradição de respeito à lei, não será com apelos moralistas que ela será criada.

Não há sistema imune ao caráter humano

Muitos historiadores – e não só eles, infelizmente – veem a corrupção do País como um problema do sistema. Um vício endêmico do Estado brasileiro. Outros, incluindo juristas, enxergam a corrupção brasileira como resultado direto da herança ibérica. De novo, um vício endêmico do Estado, mas fruto da transgressão costumeira entre os portugueses, pródigos em confundir os negócios privados com os bens públicos.

Esses pensadores devem ter lido J.J. Rousseau em excesso – o suíço para quem os homens são bons, mas viram maus por obra e graça da civilização. Ou os historiadores representam o sentimento radiografado por Nelson Rodrigues, o da síndrome de vira-lata que acomete o brasileiro quando olha para o quintal estrangeiro.

A história mostrou que a humanidade, ao contrário do desejo de Rousseau, é má por natureza. E que a corrupção é um dos atributos mais democraticamente disseminados entre povos de todos os tipos e todos os tempos. A começar pela corrupção que interditou o Paraíso aos mortais – como se sabe, a queda responsável pela condição humana pós-Éden se deu como resultado da cumplicidade e do envolvimento entre Adão e Eva.

Desde os relatos do “Velho” e do “Novo Testamento” não faltam histórias de chantagens, subornos, intrigas, espionagens, assassinatos e perfídias em geral – Oriente incluído, fique bem entendido.

Vale da Odisséia de Homero ao Príncipe de Maquiavel e ao fisiologismo espiritual no Renascimento (quando os bispos negociavam absolvições e um lugar no céu ou a queima de mártires com a desenvoltura do toma-lá-dá dos sistemas eleitorais ou partidários contemporâneos). Do problema “endêmico” brasileiro à ação dos lobbies nos EUA, na Rússia e na China.

Dos escândalos na Alemanha e no Japão aos da Argentina e Brasil, não há sistema imune ao caráter humano.

Por essa razão se pode dizer que a humanidade é corrupta por inclinação e oportunidade.

Punição para essa humanidade corrupta e má? Como diz um intelectual amigo da coluna, a punição já existe, e é vivermos no meio uns dos outros.

 

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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013 Mulheres, Poesia | 13:50

Ana Cristina Cesar: mulher de muitos segredos, mas nenhum mistério

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Se pretendesse ser original, este texto deveria NÃO começar assim: há pouco mais de trinta anos, Ana Cristina César morreu; jogou-se da janela do apartamento dos pais, aos 31 anos, no Rio de Janeiro (era 29 de outubro). Em sua brevíssima passagem pela literatura brasileira do século XX, tornou-se um dos mais importantes nomes da poesia marginal que florescia na década de 1970.  Trinta anos que não apagaram – ao contrário, só alimentaram – o interesse pela herança poética deixada por Ana C. às gerações seguintes. Uma sobrevida maior que a vida.

Depois de algumas antologias e incontáveis obras sobre a poeta, agora a Companhia das Letras reúne a totalidade dos textos poéticos que ela publicou em vida, além uma seleção de fragmentos, rasuras, experimentais em verso e prosa, todos saídos dos papéis deixados por Ana Cristina.

Ana Cristina Cesar: deliciosa poesia com os embates de um feminino inquieto

Ana Cristina Cesar: deliciosa poesia com os embates de um feminino inquieto

Poética, editado com o esmero e a qualidade habituais da Companhia e lançado na semana passada, tem a curadoria editorial e apresentação do poeta e amigo Armando Freitas Filho, posfácio da professora Viviane Bosi e um robusto apêndice. São livros fora de catálogo há décadas, como A teus pés e Inéditos e dispersos, originalmente publicados pela Brasiliense.

Um carimbo póstumo

É um risco tratar de Ana Cristina Cesar, a carioca que, por sua história, montou uma armadilha para críticos, leitores e admiradores: a repetida e cansativa imagem da poeta precoce que se matou, a poeta genial, a mulher burguesa, a personagem quase mito transformada hoje muito mais em grife ou carimbo póstumo do que qualquer outra coisa, como já afirmou o poeta e crítico Manoel Ricardo de Lima.

Lima, a propósito, organizou em 2008 uma pequena e bem acabada edição chamada a nossos pés (Dantes Editora/Editora da Casa), na qual ele e outros 13 autores se uniram para escrever poemas e prosas breves a partir da autora de A teus pés, “para manter o sufoco da deliciosa poesia de Ana Cristina Cesar”, segundo palavras do organizador.

Não se pode dizer que lhe faltou originalidade, inclusive em seu texto de apresentação, onde Manoel Ricardo de Lima escreve: “Há 25 anos uma moça de olhos bonitos e mãos cobertas com luvas de pelica – Ana Cristina Cesar – interrompia um imprevisto e impunha outro”.

O que se viu dali em diante, lembra ele, foi um sem número de tentativas de juntar os cacos dos imprevistos: a reunião dos poemas deixados, as cartas apontadas para si mesma como uma correspondência secreta, alguma crítica, alguma tradução, algumas anotações num caderno distraído, etc. Nada que o sol não explique, diria Paulo Leminski.

Volume único

Nada de que padeça o lançamento organizado por Armando Freitas Filho. Seja nos textos delimitados pelo ponto final da poeta, seja nos inacabados (que Freitas Filho batizou de “visita à oficina”), Poética tem o mérito de reunir num volume único, de maneira inédita, a obra em poesia de Ana Cristina.

Freitas Filho era o melhor amigo de Ana Cristina: naquele 29 de outubro, ambos se falaram por volta de 12h30. Pouco depois das 13 horas, a mãe dela telefonou desesperada, contando que a filha se jogara da janela. Alguns dias mais tarde, levaria ao apartamento de Freitas Filho quatro caixas de papelão repletos de escritos. Ana Cristina deixara para ele a responsabilidade de cuidar postumamente de suas publicações.

Poética abre com Cenas de abril, de 1979. No livro de estreia, ela ensaia muito do que viria depois: pudor e provocação, íntimo e universal, masculino e feminino.

Noite de Natal.
Estou bonita que é um desperdício.
Não sinto nada
Não sinto nada, mamãe
Esqueci
Menti de dia
Antigamente eu sabia escrever
Hoje beijo os pacientes na entrada e na saída com desvelo técnico.
Freud e eu brigamos muito.
Irene no céu desmente: deixou de
trepar aos 45 anos
Entretanto sou moça
estreando um bico fino que anda feio,
pisa mais que deve,
me leva indesejável pra perto das
botas pretas
pudera

O livro prossegue com Correspondência completa, do mesmo ano, assinado como Ana Cristina C (assim mesmo). Um livreto bem humorado composto de uma só carta,  de Júlia para alguém não nomeado, tendo como “personagens confessos”, tirados da vida real, Mary e Gil.

Luvas de pelica (1980) reúne poemas escritos na Inglaterra, para onde ela foi fazer mestrado em tradução literária na Universidade de Essex. Ficam evidentes marcas de seu estilo: o sentimento de perda, melancolia e desnorteio.

Eu só enjoo quando olho o mar, me disse a comissária do sea-jet.
Estou partindo com suspiro de alívio.
A paixão, Reinaldo, é uma fera que hiberna precariamente.
Esquece a paixão, meu bem; nesses campos ingleses, nesse lago com patos, atrás das altas vidraças de onde leio os metafísicos, meu bem.
Não queira nada que perturbe este lago agora, bem.
Não pega mais o meu corpo; não pega mais o seu corpo.
Não pega.

(…)

Fico quieta.
Não escrevo mais. Estou desenhando numa vila que não me pertence.
Não penso na partida. Meus garranchos são hoje e se acabaram.

(…)

Explico mais ainda: falar não me tira da pauta; vou passar a desenhar; para sair da pauta.

A teus pés

Como afirma Freitas Filho, em A teus pés (1982) Ana Cristina Cesar voltaria assumida à sua assinatura oficial, eliminaria a abreviatura, tiraria a máscara dos óculos escuros e recuperaria a sua identidade como poeta sem disfarces. Aparecem sobretudo textos ultrassintéticos, mas desdobráveis em muitas leituras.

“Ana C. concede ao leitor”, escreveu o amigo Caio Fernando Abreu, “aquele delicioso prazer meio proibido de espiar a intimidade alheia pelo buraco da fechadura”.

Em “noite carioca”

Diálogo de surdos, não: amistoso no frio. Atravanco na
contramão. Suspiros no contrafluxo. Te apresento a mulher
mais discreta do mundo: essa que não tem nenhum segredo.

Em “cartilha da cura”:

As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios.

De um poema sem título:

Preciso voltar e olhar aqueles dois quartos vazios.

Outro sem título:

Do espelho em frente.
Ela instrui:
deixa a saudade em repouso
(em estação das águas)
tomando conta
desse objeto claro
e sem nome

Trecho de “duas antigas”:

Vamos fazer alguma coisa:
escreva cartas doces e azedas
Abre a boca, deusa
Aquela solenidade destransando leve
Linhas cruzando: as mulheres gostam
de provocação
Saboreando o privilégio
seu livro solta as folhas

Tocando as mulheres

Como se vê, Ana Cristina Cesar toca muito as mulheres. Moderna e liberta, fala abertamente de seu corpo e de sua sexualidade, ao mesmo tempo derramando-se numa delicadeza que, à primeira vista, poderia conflitar com o feminismo vigente na época. Embates de um feminino inquieto, como define o poeta e professor Italo Moriconi, ao apresentar Poética.

No capítulo de inéditos, “Visita à oficina”, há um material mais curto e certamente de menor relevância do que os já publicados. São também poemas inacabados, um deles escrito ainda na adolescência, aos 16 anos. Por ele recebeu nota 10 da professora e o elogio: “Lindo!”

Em outro exibe uma maturidade incomum para a idade: “Estar em fraude – não consigo mesmo, não consigo mesmo. Conseguir vislumbrar a fraude inerente – segui-la em conivência, vivê-la em seguimento a indicações envelhecidas pela chuva. Chamar sem querer as palavras delineadoras – é fácil criar-se a partir da energia que se cria”.

Que não se busquem em seus poemas sinais ou razões do suicídio. É um repúdio que a própria poeta deixava claro em “Três cartas a Navarro”, publicado em Antigos e soltos: “Te deixo meus textos póstumos. Só te peço isto: não permitas que digam que são produtos de uma mente doentia! Posso tolerar tudo menos esse obscurantismo biografílico.”

Pela densidade combinada com simplicidade (ou singeleza) na coloquialidade e no humor, Poética e Ana Cristina se abrem igualmente a leitores eruditos e iniciantes, porque exibe não sabedorias (pequenas ou grandes), mas desvios contínuos, fraturas, múltiplas falas, testemunho do inconcluso e do inacabado.

Como qualquer um de nós que se angustia, se encanta e mergulha na tormenta e na delícia das descontinuidades da vida.

 

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