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Arquivo de maio, 2014

domingo, 11 de maio de 2014 Mulheres, Poesia | 12:57

5 poemas em homenagem ao Dia das Mães

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Com sua habitual ironia e inteligência, Oscar Wilde escreveu: “Toda mulher acaba por ficar igual à sua própria mãe. Essa é a sua tragédia”. Antes que se interprete a frase como uma heresia neste dia das mães, acrescente-se o que Wilde completou: “Nenhum homem fica igual à sua própria mãe. Essa é a sua tragédia”. Recurso retórico de quem deseja fugir do lugar-comum e da breguice.

Sem medo do inevitável lugar-comum, no entanto, Pensata selecionou cinco poemas nos quais grandes poetas mergulham no amor, na importância e no encanto de ter uma mãe para chamar de sua. Com a palavra, Drummond, Quintana, Leminski, Manoel de Barros e Vinicius de Moraes:


De Manoel de Barros
 

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.


Para Sempre
De Carlos Drummond de Andrade

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
– mistério profundo –
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

 

Mãe…
De Mário Quintana

São três letras apenas,
As desse nome bendito:
Três letrinhas, nada mais…
E nelas cabe o infinito
E palavra tão pequena-confessam mesmo os ateus-
És do tamanho do céu
E apenas menor do que Deus!

 

Mãe
De Paulo Leminski

Minha mãe dizia:

– Ferve, água!
– Frita, ovo!
– Pinga, pia!

E tudo obedecia.

 

Minha mãe
De Vinicius de Moraes 

Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora.  Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fonte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.

Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão. que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe.

 

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segunda-feira, 5 de maio de 2014 História | 09:41

Goebbels: narcisista, perturbado, cruel e dependente de Hitler

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Um megalômano, não um lunático. Um obsessivo narcisista, não um símbolo de competência e reconhecimento. Assim é o Joseph Goebbels que emerge das 800 páginas escritas pelo historiador alemão Peter Longerich em Joseph Goebbels, uma Biografia, cuja edição brasileira a editora Objetiva lançou recentemente.

Está ali, claro, o arquiteto da propaganda nazista e a voz de Adolf Hitler, de quem era indissociável. Reafirma-se o homem arrivista e cruel, antissemita assumido (“Odeio o judeu pelo instinto e pela razão”) e desumanamente violento ao defender o extermínio (“Comina-se aos judeus uma pena sem dúvida bárbara, mas eles a merecem”). Também não é a primeira biografia de Goebbels (o alemão Ralf Georg Reuth e os britânicos David Irving e Roger Manvell escreveram outras, e os próprios diários tiveram partes consideradas publicadas em mais de um volume).

Joseph Goebbels - Uma Biografia Peter Longerich Tradução de Luiz A. de Araújo Editora Objetiva 816 páginas; R$ 79,90

Joseph Goebbels – Uma Biografia
Peter Longerich
Tradução de Luiz A. de Araújo
Editora Objetiva
816 páginas; R$ 79,90

Mas Longerich esboça nesta nova biografia um Goebbels bem diferente do poderoso homem do regime que o próprio Goebbels se propagandeou. Surpresa: ao contrário do que se imagina, ele era alijado das principais decisões políticas e militares do Führer. Em boa parte de sua trajetória política no partido nazista, foi usado e abusado de infinita lealdade, além de pouco respeitado pelo próprio Hitler. Não era um conselheiro político de confiança, e sim apenas o chefe de propaganda do ditador.

Longerich mostra que na vida de Goebbels se amalgamavam erros e humilhações, apesar de ser o mais brilhante e eloquente integrante do séquito de bajuladores do ditador. Goebbels viu, por exemplo, sua nomeação para a direção-geral de Propaganda ser procrastinada em 1929. Uma vez conseguida, a nomeação não chegou com os prometidos plenos poderes. Mais: Magda Goebbels, sua mulher, foi amiga pessoal e hóspede de Hitler e, com este, passava semanas sozinha (!). Goebbels engoliu o ciúme por medo e estratégia – o triângulo lhe prometia uma influência inimaginável sobre o chefe.

No livro, Longerich conclui: Goebbels sofria de um grave transtorno de personalidade. Buscava de forma extrema o reconhecimento por parte de outras pessoas. Tinha compulsão à grandeza e ao narcisismo. Tentou compensar, com seu trabalho, a deficiência física (provinda de uma doença da medula óssea em sua infância) e origem em um opressivo ambiente pequeno-burguês. Ele sabia que não encarnava o que julgava ser o modelo ideal do alemão – um gigante atlético com os olhos de safira e cabelos de ouro.

Para chegar a tais conclusões, o historiador recorreu aos 32 volumes que compõem o diário de Goebbels. Em suas anotações de 1924 até o seu suicídio, em 1945, o político registrou pensamentos, observações e acontecimentos, escrevendo assim uma cronologia do nazismo por meio de uma ótica pessoal. O diário foi um presente de Else Janke, sua namorada, uma professora primária filha de mãe judia (algo que o atormentava).

As histórias contidas nas anotações foram então cotejadas com jornais e relatórios de opositores da época. Em outras palavras, o biógrafo usa os diários de Goebbels e seu autorretrato para simultaneamente questioná-los.

Escreve Longerich: “Uma análise mais cuidadosa mostra que a grande quantidade de textos que ele compôs sobre si e a abundância do material com que o aparato de propaganda procurou documentar sua obra contêm, surpreendentemente, muitos pontos de partida para a desconstrução do autorretrato concebido por Goebbels.”

Três papéis

A biografia mostra Goebbels em três diferentes papéis: primeiro, o escritor e intelectual frustrado, convertido em agitador do movimento nazista; segundo, o ministro da Propaganda, dedicado a dar uma orientação coerente e unificada à mídia, à vida cultural e à opinião pública do Terceiro Reich; terceiro e último, o propagandista de guerra e protagonista da chamada guerra total.

Como o próprio biógrafo compara, é como se saíssemos de uma pessoa que preferia se apresentar em casaco de couro proletário para depois vestir ternos escolhidos a dedo e, por fim, exibir-se constantemente com o uniforme do partido, por mais que este realçasse sua prejudicada aparência física.

A porta da entrada da biografia dá-se no ano de 1923. Ali aparecia um Goebbels fracassado e desesperado. Apesar do título de doutor, seu plano de ter um papel destacado, como jornalista ou escritor, mostrava-se furado. Faltava-lhe uma mais refinada cultura burguesa para reorganizar o panorama intelectual alemão – desde o início o homem pensava alto.

Hitler e Goebbels: para o ministro, o Führer era um enviado de Deus; segundo bioógrafo, a relação deu estabilidade à sua vida

Hitler e Goebbels: para o ministro, o Führer era um enviado de Deus, com qualidades sobre-humanas

O engajamento no movimento nacional-socialista salvou-lhe a alma e o tirou da depressão. Nascido na Renânia, região predominantemente católica, Goebbels se afastou da religião desde cedo, e o nacional-socialismo se tornou para ele um substituto da religião. Seu novo redentor? Adolfo Hitler, claro.

O partido e Hitler propiciaram-lhe a ascensão social e o reconhecimento que ele tanto esperava. Assim ele se tornaria o mais leal adepto do Führer e do nazismo. Nessa fixação, assumiu o controle sobre todos os âmbitos da cultura – do teatro ao cinema, da literatura à música.

Encarregado de moldar e irradiar a mensagem nazista, Goebbels ascendeu rapidamente no partido, sobretudo depois de idealizar a queima de livros de autores considerados “subversivos” em praça pública.

A fama e o poder, como se sabe, fazem milagres: aos olhos das belas alemãs, Goebbels passou de fracote medonho a rapagão formoso, engatando frequentes romances com belas vedetes. Retribuiu o prestígio dedicando lealdade inabalável ao Führer – tanto que homenageou o patrão batizando todos os filhos paridos pela esposa oficial, Magda, com nomes que começam com “H” (Helga, Hilde, Hellmut, Hedda, Holde e Heide).

O biógrafo considera essa posição de poder um tanto singular: “Embora ele certamente tenha sido a figura dominante da propaganda nazista, nunca conseguiu controlar absolutamente o aparato. Medido por seus próprios padrões de qualidade, no fundo não foi tão longe”.

Mas a censura e o controle foram longe naquele ambiente nazista. Sem Goebbels, Hitler provavelmente não seria uma “marca”, nem a política nazista teria tido o alcance que teve. Mesmo não tomando decisões-chave, Goebbels defendeu tudo o que se fez. E agia com os olhos na Alemanha e no Führer. Sem tolerância a vozes dissonantes.

Quando este atacou “corruptores da arte”, livrou-se do compositor Paul Hindemith. Goebbels também demitiu Richard Strauss depois que a Gestapo interceptou uma carta dele para o escritor Stefan Zweig, na qual dizia fingir colaborar com o regime. Estatizou o cinema. Proibiu os cabarés. Salvo as de Shakespeare, as peças estrangeiras foram banidas do teatro na Alemanha.

Hitler, um enviado de Deus

A relação com Hitler deu certa estabilidade à sua vida, conta Longerich. “A profunda dependência psicológica com relação ao Führer, o seu amor por ele, que Goebbels confessava repetidamente sobretudo nos primeiros anos da relação, foi o mais propulsor de sua carreira. Ele atribuía a Hitler qualidades de liderança sobre-humanas, considerava-o enviado de Deus”.

Goebbels ficava impressionado com a enorme força de nervos com que Hitler enfrentava as situações de crise ou infundia confiança nas circunstâncias mais difíceis e admirava sua capacidade de desenvolver visões políticas de grande alcance – atributos que faltavam em Goebbels.

Hitler não tardou a se dar conta da dependência psíquica do subordinado, conta o biógrafo de Goebbels. Usou-a sistematicamente nas duas décadas de sua relação. Sabia que, com os elogios, o estimulava aos feitos mais extraordinários; com pequenos gestos de distanciamento, jogava-o em desespero profundo

Ele se fortaleceria no chamado esforço de guerra total – o conceito instaurado nos últimos meses da Segunda Guerra – e também na dissolução da estrutura hitlerista. Vendo a queda de seu ídolo maior, passou a se sentir maior, mais útil e mais importante.

Como se sabe, o suicídio de Hitler provocou também a morte da família Goebbels. O casal Joseph e Magda estava decidido a “pôr fim a uma vida qeu para mim pessoalmente, não tem mais nenhum valor se eu não a puder usar a serviço do Führer e ao seu lado”, conforme as palavras de Goebbels exibidas em nota. Essa decisão era expressa também em nome dos filhos, “que ainda são muito jovens para poder se expressar, mas que, se já tivessem idade para tanto, participariam incondicionalmente desta decisão”.

Vinte e quatro horas depois do suicídio de Hitler e sua mulher Eva Braun, Magda e Joseph Goebbels assassinaram os seis filhos e acompanharam Hitler na morte. Foi o ponto final desesperado a uma vida de identificação incondicional com Adolf Hitler.

Como afirma Longerich, com o gesto Goebbels “fixou para todo o sempre a relação especial com seu ídolo tal como ele a enxergava”. E, ao final, “a mentira da sua vida havia triunfado”.

 

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domingo, 4 de maio de 2014 Filosofia do cotidiano, Literatura | 13:43

Tem um amor não correspondido? Escreva um livro

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A garota de Ipanema, moça cheia de graça e do corpo dourado, é aquela que vem e que passa, não a que fica. Ela é um dos exemplos populares, vindo da música, para um dilema filosófico que atormenta o ser humano desde os antigos: sonhamos com o que nos falta; idealizamos o que não temos ou o que desejamos. A máxima vale não só para o amor, mas para qualquer campo da vida humana. Afinal, o exílio engrandece a pátria. Os pobres não riem da riqueza dos ricos. O cárcere amplifica a força e a beleza da liberdade. O paraíso é a aspiração máxima dos que agonizam no inferno.

Procurando Mônica - O maior caso de amor de Rio das Flores José Trajano Editora Paralela 112 páginas; R$ 19,90

Procurando Mônica – O maior caso de amor de Rio das Flores
José Trajano
Editora Paralela
112 páginas; R$ 19,90

O jornalista e agora também escritor profissional José Trajano não filosofa sobre a existência, mas a história que protagonizou e transformou em livro é uma bela mostra da filosofia do amor. Ou da paixão (ou ainda da paixão amorosa). Pensata chega com atraso a ele (a editora Paralela levou-o às livrarias há dois meses, ou mais), mas eis aqui o reparo ainda que tardio: Procurando Mônica é uma deliciosa, bem humorada, doce e trágica história de uma paixão impossível – um relato real mas com doses de ficção.

A Mônica dessa história é uma paixão mal-resolvida de adolescência no interior fluminense, época e local em que Zezinho, como era chamado, nem sonhava com o jornalismo esportivo que o tornaria conhecido. Paixão mal-resolvida, no fim das contas, pode soar como um pleonasmo. Como diria outro jornalista, Alvaro Costa e Silva, que não é o Xico Sá mas entende do assunto, se é paixão é naturalmente mal-resolvida.

Assim caminha a paixão

Trajano – ou melhor, Zezinho – mal largara as calças curtas para descobrir a paixão nas festas e nos bares de Rio das Flores, onde passava o verão com a família. A pequena cidade já havia sido palco de sua infância, nas férias passadas na fazenda Forquilha, aonde seus pais o levavam desde que era um bebê.

A entrada de Mônica no salão do Clube Recreativo 17 de Março mudaria o cenário da adolescência de Zezinho. Era o Carnaval de 1963. Ele tinha 17 anos. Ela, 13.

Estonteante, fantasiada de pirata, Mônica pisava no salão com a convicção tipicamente feminina de quem sabe que está bagunçando a cabeça masculina. Zezinho passou a noite escorado em uma pilastra, olhando de longe, fazendo o tipo solitário, testando a tática do desprezo – especialidade que costuma dar errado, mas ele fingia que não estava nem aí, como se estivesse apaixonado por alguém ausente, cópia malfeita de James Dean arrastando a asa para Elizabeth Taylor em Assim caminha a humanidade.

“A folia terminou com o dia clareando, e Mônica foi embora antes do fim, para decepção de quem ainda enxergava alguma coisa. Nenhum de nós falou com ela além de alguns minutos. No dia seguinte haveria mais…”

Nas manhãs seguintes, descreve o narrador-Trajano, o programa era ir à piscina do Patronato de Menores. E foi ali, vendo-a à beira da piscina de água barrenta, que ele se apaixonou definitiva e loucamente por Mônica. “Não que Mônica tivesse um corpo escultural. Pelo contrário. Tinha uma discreta bunda, os seios pequenininhos e as coxas um pouco finas. Sua beleza, seu mistério, estava no rosto, mais precisamente na boca, que formava um desenho único, especial. Quando sorria, os lábios ficavam como uma canoa, como uma rede esticada na varanda. Uma luz forte surgia de seus lábios e me hipnotizava”.

(A paixão não nasce de explicações racionais, tampouco de obviedades físicas ou decoro romântico; a paixão surge do inexplicável, sabemos.)

Os anos seguintes sedimentaram a paixão de Zezinho fincada no peito do apaixonado sem que houvesse nenhuma reciprocidade aparente. Descreve-se no livro:

“Durante anos a fio, a população rio-florense – e cada paralelepípedo da avenida Getúlio Vargas, além da cachorrada vadia das ruas, como diria Nelson Rodrigues – sabia de cor e salteado de minha paixão. Eu esperava dela um aviso, um piscar de olhos, um gesto, uma mensagem, um assobio, um ‘oi’ diferente. Nada!”

Como todo amor impossível, Mônica fez gato e sapato de Zezinho. Ignorou-lhe a presença em todas as férias seguintes, não deu bola nem sequer quando ele quase se afogou para encontrá-la.

A frustração definitiva

O ápice da narrativa – e da paixão de Zezinho – deu-se no fim de 1967, ele já um jornalista de redação. Ali o moço apaixonado soube que Mônica passaria dois meses em um cruzeiro pela Europa. Trajano não fraquejou: pegou empréstimo no banco, conseguiu folga no Jornal do Brasil e comprou sua passagem.

Não são muitos os apaixonados que, conduzidos por uma paixão, correriam o mundo para localizá-la e tentar um reencontro maluco. Mas Trajano é um deles.

Era chegada sua hora? Talvez sim, se não aparecesse na história Cadu, rival que conquistou Mônica. Depois do desembarque, Trajano a perdeu de vista.

No ano passado, Trajano resolveu que era hora de registrar a história do amor impossível em livro. Uma história cujos detalhes os amigos ouviam repetidamente há 40 anos passaria ao crivo do público, e o resultado está em Procurando Mônica – o maior caso de amor de Rio das Flores.

Esperto, o autor usa recursos típicos de quem deseja enganar o leitor: sua narrativa contém elementos que deixam o leitor sem saber tratar-se de algo efetivamente real ou se há detalhes puramente ficcionais. Como ficção ou como real, o resultado é adorável.

Com o livro quase concluído, Trajano descobriu uma pista do paradeiro de Mônica – e incrivelmente a história acabou ganhando mais um capítulo. Final feliz com o reencontro de ambos? Não convém contar aqui.

Mas a (re)visita à história deixa claro outro componente inevitável da paixão amorosa: a explicitação pública do caso  constitui o retrato não só do alvo de uma paixão (Mônica, claro), mas também do alvo que o apaixonado fantasiou por todos esses anos.

Um desejo que se apóia só em si mesmo

Fantasia que se manteve viva e em corrida paralela ao mundo “real” de Trajano.

Como se sabe, ele se tornou um dos principais comentaristas esportivos do País. Casou-se duas vezes e teve filhos. A propósito, num de seus aforismos, Nietzsche diz que “o casamento foi inventado para os seres humanos medianos, que não são aptos nem para o grande amor nem para a grande amizade, portanto para a maioria. Mas também para aqueles, raríssimos, que são aptos tanto para o grande amor quanto para a grande amizade”.

Durante muito tempo, de uma maneira que remonta às mais antigas relações entre a ideia de amor e a de casamento, o princípio da paixão se opõe ao do matrimônio, como o da estabilidade da órbita dos planetas se opõe ao desgarramento e à ruptura. Foi só a partir do século XVIII que se sancionou, jurídica e religiosamente, o casamento por amor.

A nossa herança ocidental contém a expectativa de conciliação entre a singularidade errática do amor-paixão com a estabilidade duradoura do casamento. Mas, como afirmou José Miguel Wisnik num texto de longa data sobre a paixão, o acorde entre o desejo de permanência (onde se inscreve o amor) e o fato de que essa permanência não pode se apoiar em nada senão no seu próprio desejo de permanência é um desafio aberto. Uma luta constante, mutável, irracional.

Gilberto Gil tem uma letra apropriada sobre isso, Drão, na qual se canta “[…] não pense na separação/ o verdadeiro amor é vão/ estende-se infinito/ imenso monólito/ nossa arquitetura/ quem poderá fazer/ aquele amor morrer/ nossa caminhadora/ dura caminhada/ pela estrada escura”. É a trama mortal do amor, embevecida numa tradição de alguém imerso na falta, no aniquilamento que o amor contém: “Quem poderá fazer aquele amor morrer/ se o amor é como um grão/ morre e nasce trigo/ vive e morre pão”.

 

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