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Arquivo de junho, 2014

segunda-feira, 2 de junho de 2014 Economia | 09:37

Por que os bilionários são odiados

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Capital_PikettyMaio terminou com a marca de atiçar o debate econômico do século. Ou do ano – por aí. A tradução do francês para o inglês do seu livro O Capital no século XXI alçou o professor francês Thomas Piketty, da Escola de Economia de Paris, à condição de economista mais famoso do momento. Nunca tanta gente importante escreveu em tão pouco tempo sobre uma única obra acadêmica – e o mais curioso, com um tema sobre o qual os economistas parecem enxergar como menor: a desigualdade.

No livro, resultado de 15 anos de pesquisa não só dele mas de um grupo de economistas, Piketty mostra com elegância e clareza que o mundo entrou numa espiral de concentração de renda. As pessoas e os países ficarão mais ricos. Para as nações emergentes, inclusive o Brasil, suspeita-se que crescerão a taxas menores.

Segundo Capital, o mundo caminha em direção a um capitalismo patrimonialista, com a acumulação de renda ininterrupta enquanto persistir uma taxa de retorno financeiro bem mais alta do que o crescimento da economia. Para Piketty, a dinâmica atual de acumulação e repartição de patrimônios conduz o planeta  a uma trajetória explosiva e espirais de desigualdade fora de controle.

A tese cabe numa fórmula: r > g. Simplificadamente, a fórmula informa que toda vez que a taxa de retorno sobre o capital dos investidores (“r”) é maior do que a taxa de crescimento da economia (“g”), o dinheiro herdado cresce mais rápido que a produção e os salários.

Estatística e matemática ao lado de Balzac e Jane Austen

Thomas Piketty não é o primeiro economista a sublinhar que estamos experimentando um forte aumento da desigualdade, ou até mesmo a dar ênfase ao contraste entre o lento crescimento da renda para a maioria da população e os rendimentos altíssimos no topo. Mas faz isso combinando uma incrível elegância de escrita (chega a citar Balzac e Jane Austen) com erudição acessível (algo raro entre economistas), além de um extraordinário levantamento de dados históricos, reunindo informações dos últimos 300 anos.

O que é realmente novo no livro, no entanto, é o modo como desmonta um dos mitos mais amados pelos conservadores: a tese de que o mundo desenvolvido vive uma meritocracia, na qual grandes fortunas são conquistadas e merecidas. Piketty mostra que a maior parte dos bilionários atuais têm fortuna herdada. Muito pouco resultado, portanto, do seu mérito ou de dedicação ao trabalho. Para Piketty, essa não é uma questão menor. As sociedades ocidentais, antes da Primeira Guerra mundial, eram dominadas por uma oligarquia de riqueza herdada – e seu livro argumenta, de maneira convincente, que estamos voltando a esse cenário.

No início do século XX, lembra Piketty, os 1% situados no andar de cima nos EUA e na Inglaterra ficavam com 20% da renda dos dois países. Até 1980 essa riqueza caiu à metade. A partir daí, voltou a crescer e retornou ao ponto inicial. A queda, porém, não se deveu a políticas sociais, e sim às duas guerras mundiais. A partir de 1990 as fortunas dos bilionários voltaram a crescer. Um século XXI com cara de século XIX.

Há quem ache até que um certo grau de desigualdade é economicamente saudável, pois a perspectiva de tornar-se rico claramente leva muitas pessoas a trabalhar com mais empenho. É nisso que acreditam muitos economistas liberais. E muitos ricos, certamente. O inconveniente nessa tese é quando se depara com números como os evidenciados por Piketty: a desigualdade maciça se mostra intolerável e se torna um grave risco para as sociedades. Em seu livro, o professor francês argumenta que a concentração de capital pode chegar a um nível ameaçador para o funcionamento das instituições democráticas.

Muitos aplausos, muitas críticas

O economista Thomas Piketty, autor de "O capital no século 21". Foto: Divulgação

O economista Thomas Piketty, autor de “O capital no século 21”. Foto: Divulgação

Não se desespere se você não leu as 970 páginas da edição original francesa, ou as 685 páginas da versão no inglês e segunda obra mais vendida da Amazon apenas três meses depois de ser lançada nos Estados Unidos. Pode até estar por fora do mais quente debate econômico do momento, pode fazer feio nos jantares inteligentes por não saber quem é a celebridade atual da economia global, pode perder uma das mais ricas e polêmicas análises sobre a desigualdade econômica em muitas décadas. Mas tudo isso será aplacado quando a editora Intrínseca terminar de traduzir a obra para o português.

Por ora, o leitor brasileiro que não se sente pronto para encarar essas edições pode passear pelas resenhas publicadas por grandes economistas. O Nobel de Economia Paul Krugman, professor da Universidade de Princeton, dedicou-lhe enfáticos elogios em resenha no “The New York Review of Books” e em seu blog no site do “The New York Times”. Para Krugman, Piketty escreveu um “livro verdadeiramente soberbo”, um “prodígio de honestidade”, uma obra que vai mudar tanto o modo de se pensar sobre a sociedade como a maneira de fazer economia. Escreveu ainda que “o pânico em relação a Piketty mostra que a direita ficou sem ideias”.

Outro Nobel, Robert Solow, professor do MIT, disse que Thomas Piketty “está certo”, mas sugere a necessidade de um pouco de ceticismo com o livro. Dani Rodrik, da Universidade Princeton, ressaltou que O Capital no século XXI reacendeu “o interesse dos economistas pela dinâmica da riqueza e de sua distribuição” – tema que preocupou, no passado, economistas clássicos, como Adam Smith, David Ricardo e Karl Marx.

Mas Piketty também apanhou bastante. A grita maior veio de conservadores. O mais leve xingamento foi classificá-lo de marxista (embora o próprio Thomas Piketty admita no livro que não leu O Capital, de Marx). A crítica mais enfática foi à solução dada no livro para a necessidade de redução da desigualdade em curso: uma tributação progressiva como forma de limitar a concentração de riqueza; um imposto sobre fortuna de âmbito global com alíquota de até 80% – ideia que o próprio Piketty considera ingênua e difícil de se concretizar. O Wall Street Journal comparou a defesa de Piketty ao stalinismo.

Chris Giles, editor econômico do Financial Times, escreveu que Piketty comete erros nas projeções que faz para épocas nas quais não havia informação, no método que usa para diferentes países e no uso tendencioso das estatísticas para provar sua tese central. A revista The Economist saiu em defesa de Piketty na semana seguinte: afirmou que as críticas de Giles eram questionáveis e muitos dos detratores do livro não tinham se dado o trabalho sequer de lê-lo e ignoravam que a maioria dos dados vinha do World Top Income Database, um índice que ninguém questiona.

Mas não foram só os conservadores que atacaram o livro de Piketty. A esquerda, e em particular a esquerda marxista, criticou-o severamente. Numa das críticas, longe de exagerar o estado das coisas, Piketty teria subestimado a real dimensão da desigualdade.

James Galbraith, da Universidade do Texas, escreveu que a obra tem peso e relevantes informações sobre fluxo de renda, transferência de riqueza e distribuição dos recursos financeiros em alguns dos países do mundo. Mas “não é o trabalho acabado de grande teoria que seu título, extensão e recepção sugerem”. E, sob o ponto de vista da esquerda, lembrou: “Se o coração do problema é uma taxa de retorno sobre ativos privados que está muito alta, a melhor solução é reduzi-la. Como? Aumente o salario mínimo! Isso diminui o retorno do capital que se apoia no trabalho mal remunerado. Apoie os sindicatos! Taxe os lucros das empresas e os ganhos pessoais de capital, incluindo dividendos!”.

David Harvey, outro representante da esquerda, professor da Universidade da Cidade de Nova York (Cuny), elogiou seu relato das diferenças entre renda e riqueza (“convincente e útil”, escreveu) e o modo como Piketty mostra estatisticamente que o capital tendeu a produzir níveis cada vez maiores de desigualdade ao longo de sua história (algo, diga-se, já provado no primeiro volume de O Capital, de Marx). Mas acha que tem erros sua explicação de por que surgem as desigualdades e as tendências oligárquicas; e que suas propostas quanto aos remédios são ingênuas, “se não utópicas”.

De Proust a bilionários vulgares, recuamos no tempo

O Capital no século XXI não seria uma obra importante se não inspirasse tantos elogios e tantas críticas. Acima de tudo, é um bom retrato dos problemas surgidos de uma época de ostentação de riqueza comparada à “Gilded Age” – que foi do fim do século XIX ao início do século XX. A expressão designava nos Estados Unidos uma abastança exuberante, mas superficial. Piketty, porém, fala mais na “Belle Époque” francesa. Esta teve o escritor Marcel Proust; aquela, bilionários vulgares, capazes de copiar castelos e casar as filhas com nobres europeus quase sempre falidos.

 

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domingo, 1 de junho de 2014 Jornalismo, Política | 14:34

Obama e a história de como os EUA adotaram o assassinato como política de Estado em guerras invisíveis

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Nesta semana que passou (dia 28), em discurso a uma turma de formandos na Academia Militar dos EUA, o presidente Barack Obama fez uma ampla defesa de sua política externa, apontou a diplomacia como meio mais eficaz que a intervenção militar e afirmou que mudará o foco da luta contra o terrorismo no Afeganistão para lidar com ameaças mais difusas em outras partes do mundo. Por ameaças difusas, entenda-se não um líder centralizado na Al-Qaeda, mas grupos extremistas filiados à organização, que atuam de maneira pulverizada e atacam alvos “mais difíceis de defender”.

No mesmo dia, Obama disse que o terrorismo “continua sendo a maior ameaça para os norte-americanos” e anunciou a criação de um fundo de cooperação antiterrorista de US$ 5 bilhões. O fundo, garantiu o presidente dos EUA, dará a flexibilidade necessária para realizar diferentes missões, como treinar forças no Iêmen, dar apoio às forças internacionais de manutenção da paz na Somália, trabalhar com os aliados europeus para assegurar a fronteira na Líbia e dar apoio às tropas francesas no Mali.

No mundo pós-George Bush e pós-Bin Laden, os gestos de Obama parecem fazer sentido.

Parecem.

Guerras sujas - O mundo é um campo de batalha Jeremy Scahill Tradução de Donaldson M. Garschagen 840 páginas, R$ 69,50

Guerras sujas – O mundo é um campo de batalha
Jeremy Scahill
Tradução de Donaldson M. Garschagen
 Companhia das Letras, 840 páginas, R$ 69,50

Para evitar mal-entendidos, no entanto, Pensata recomenda o extraordinário trabalho do jornalista Jeremy Scahill: Guerras sujas – O mundo é um campo de batalha, lançado no Brasil em abril pela Companhia das Letras. Scahill é um jornalista tinhoso de Chicago, que hoje vive em Nova York. Colaborador regular da revista The Nation, ele tem, apesar dos seus 39 anos, uma larga experiência  em coberturas internacionais no Iraque, nos Bálcãs e na Nigéria. É de Scahill o prestigiado Blackwater, livro sobre o uso de mercenários no Iraque sob o comando de um radical cristão de extrema-direita.

Em implacáveis, detalhistas e bem escritas 830 páginas, Scahill relata histórias aparentemente desconexas que, reunidas, mostram como as operações secretas se transformaram num novo modelo de batalha – são milhares delas, executadas por unidades que oficialmente não existem e que não deixam registros; sem uniformes coloridos ou estandartes, sem duelos de artilharia, sem trincheiras, sem fronteiras.

O livro revela, com fatos e depoimentos, os padrões de continuidade entre o republicano George Bush e o democrata Barack Obama, sobretudo na concepção mantida segundo a qual “o mundo é um campo de batalha”.

(Desdobramento do livro é o documentário que leva o mesmo nome do título original, Dirty Wars: the world is a batlefield indicado ao Oscar este ano de melhor documentário, exibido em fevereiro no GNT e disponível para quem tem acesso à Netflix dos EUA.)

De Estados-nações a inimigos dispersos

Nos primeiros dias do governo Bush, o foco no terrorismo se centrava nas ameaças representadas por Estados-nações – Irã, Síria, Coreia do Norte e Iraque. Operações secretas, atentados terroristas e assassinatos políticos sempre existiram e depois da Segunda Guerra, sobretudo com a Guerra Fria, intervenções do gênero se tornaram frequentes. Mas não eram dominantes.

Antes mesmo do 11 de Setembro, os neoconservadores instalados de volta ao poder com Bush desejavam restaurar a prática dos assassinatos políticos, a expansão das forças americanas e a criação de unidades operacionais de elite ágeis. Em 2001, a Al-Qaeda propiciou o cenário ideal para colocar em prática antigas estratégias da CIA. Daí porque a investigação de Scahill começa nos primeiros dias de Bush na Casa Branca e chega ao segundo mandato de Obama.

Aos Estados-nações “inimigos”, a diplomacia defendida na semana passada por Obama. Na surdina, contra as “ameaças difusas”, os ataques secretos por drones e o emprego de unidades militares de elite que prestam contas exclusivamente à Casa Branca. Guerras invisíveis, disfarçadas, encobertas, dissimuladas, todas ultrapassando os marcos da legalidade internacional – na concepção de Scahill – e patrocinadas pelo governo norte-americano.

As operações dos serviços secretos do exército dos EUA são raramente registradas quando ocorrem em países como Afeganistão, Iêmen e Somália. Scahill apresenta alguns dos principais responsáveis por grupos como os Sea, Air, Land Teams (Seals), o Comando Conjunto de Operações Especiais e a CIA. O jornalista também viaja o mundo entrevistando agentes secretos, mercenários, líderes de organizações terroristas e parentes de vítimas – um outro lado bastante instrutivo do estado de coisas da política de segurança internacional conduzida por Obama.

O jornalista Jeremy Scahill aponta o dedo em cena do documentário "Dirty Wars", no qual segue o rastro do Comando de Operações Especiais Conjuntas, a mais secreta elite do Exército dos EUA

O jornalista Jeremy Scahill aponta o dedo em cena do documentário “Dirty Wars”, no qual segue o rastro do Comando de Operações Especiais Conjuntas, a mais secreta elite do Exército dos EUA

Marcado para morrer

Jeremy Scahill conta histórias tocantes, como a do cidadão norte-americano, iemenita de origem e muçulmano em seu credo: Anwar Awlaki. Seu filho Abdulrahman, de 16 anos, e Samir Khan, igualmente cidadãos norte-americanos, também entram na narrativa. Em comum, os três morreram assassinados pelo novo paradigma de batalhas na luta contra o “terror”. Dois dos terroristas que participaram do ataque às torres gêmeas frequentavam os sermões de Anwar Awlaki. A vigilância se intensificou sobre ele, que abandonou os EUA e foi morar primeiro na Inglaterra e depois no Iêmen, país de seus ancestrais.

Depois de Bin Laden, Anwar Awlaki passou a ser visto como a maior ameaça aos EUA. Foi aí que ficou marcado para morrer, apesar de nunca ter sido acusado de crime algum.

“Termina agora uma década de guerra”

Em janeiro de 2013, ao tomar posse para seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos, Barack Obama repetiu o que prometera ao iniciar sua primeira campanha presidencial, seis anos antes: virar a página da história e levar a política externa dos EUA a outra direção. “Termina agora uma década de guerra”, declarou no discurso de posse. “Nós, o povo, ainda acreditamos que a segurança duradoura e a paz persistente não exigem guerra perpétua”.

Lorota. No mesmo dia do seu juramento, um drone dos EUA atacou o Iêmen. Foi o terceiro ataque naquele país em três dias. “Apesar da retórica do presidente nas escadarias do Capitólio”, escreveu Scahill, “estava bem claro que ele continuaria presidindo um país em estado de guerra perpétua”. Enquanto fazia seu juramento, sua equipe de contraterrorismo completava a tarefa de sistematização da lista da morte e fixando regras segundo as quais cidadãos americanos podiam ser assassinados. Forças de Operações Especiais estavam em ação em mais de 100 países.

Naquele mesmo início de 2013, um “relatório técnico” do Departamento de Justiça estabelecia a “Legalidade das Operações Letais voltadas contra um cidadão americano”. Segundo os autores do relatório, o governo não precisava ter dados específicos da Inteligência que apontassem para o envolvimento ativo de um cidadão dos EUA numa conspiração terrorista determinada para que sua execução dirigida fosse aprovada. Um “bem informado funcionário do alto escalão do governo” de que um alvo representa uma “ameaça iminente” aos EUA é base suficiente para que se ordene a execução de um cidadão.

Os neocons liderados por Dick Cheney e Donald Rumsfeld não fariam melhor.

Culpados por associação

O governo Obama ampliou o uso de “ataques por indício” e outros sistemas que classificavam homens em idade militar como alvos legítimos, mesmo que sua identidade fosse desconhecida. Os resultados desse conceito de “culpabilidade por associação” se mostraram no aumento de ataques contra mesquitas ou enterros, que segundo Michael Boyle, um ex-assessor de Obama, matam “não combatentes e esgarçam o tecido social das regiões em que ocorrem”.

Ou seja, a “guerra contra o terror”, desfechada por um governo republicano, acabou legitimada e expandida por um presidente democrata e popular.

Um dos segredos de Obama, sabemos, é seu enorme poder de comunicação. Seu governo teve bastante êxito, por exemplo, em convencer a opinião pública dos EUA de que estava travando uma guerra mais inteligente que seu antecessor. A fantasia de uma guerra limpa, mito alimentado por Obama, encontrou um público receptivo. Todas as pesquisas indicavam que os norte-americanos estavam cansados de grandes mobilizações militares no Iraque e no Afeganistão e do número cada vez maior de baixas que isso provocava. Uma pesquisa de 2012 mostrou, por outro lado, que 83% dos norte-americanos apoiavam o programa de drones de Obama.

Com suas viagens, investigações e entrevistas mostradas tanto no livro quanto no documentário, Scahill calcula em torno de 17 mil pessoas mortas até agora, apenas no Afeganistão e no Paquistão. E a lista de alvos humanos vivos, marcados para morrer, não para de crescer.

Essa é uma outra face de Barack Obama – um Obama de carne e osso, anulado por um conservadorismo de bordel (ótima expressão da professora Maria da Conceição Tavares), e não o mito gloriosamente difundido em duas bem-sucedidas campanhas presidenciais.

 

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