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Arquivo de setembro, 2014

terça-feira, 30 de setembro de 2014 História, Sociedade | 10:39

“Há uma guerra social em andamento”, diz filósofo da USP sobre novo tempo do Brasil e do mundo

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Manifestações contra a Copa do Mundo por todo o Brasil, inclusive durante os jogos. Ônibus incendiados. Greves. Atos de violência pelo País. Movimentos de ocupação. Manifestantes e policiais enfrentam-se com truculência.

O Novo tempo do mundo Paulo Arantes 464 páginas, R$ 52 Boitempo Editorial

O Novo tempo do mundo
Paulo Arantes
464 páginas, R$ 52
Boitempo Editorial

O parágrafo anterior é um recorte do primeiro semestre de 2014 no Brasil. São exemplos de um novo tempo, que Paulo Arantes aborda em O Novo Tempo do Mundo, lançado recentemente pela editora Boitempo.

O autor afirma que existe uma “guerra social” em andamento. “É só acompanhar os jornais”, diz. O título é inspirado na obra Le Temps du Monde (“O Tempo do Mundo”), do historiador francês Fernand Braudel.

“Há um clima geral de insegurança e ainda não temos um conceito adequado para isso. Paulo Arantes arrisca encontrar caminhos”, afirma a doutora em Filosofia Isabel Loureiro, que esteve em debate com o escritor na semana passada na USP.

Em seu livro, Arantes estuda fatos recentes no Brasil e no mundo, buscando paralelos na história. O que Arantes chama de “tempo do mundo” no título de seu livro é o momento seguinte a um grande acontecimento. “É o fim de uma trégua”, diz.

Guerra, paz e consumo

A palavra “trégua” é empregada por Arantes de maneira intencionalmente provocativa, segundo ele. O grifo é emprestado de outro escritor, o italiano Primo Levi, autor de “A Trégua”.

Sobrevivente de Auschwitz, Levi trata justamente do pós-Segunda Guerra Mundial. O regime nazista foi derrubado, mas não as hostilidades que vieram com este.

Esse momento, em que grandes eventos acabaram de acontecer e existe a possibilidade de a configuração mudar a qualquer momento, se assemelha ao atual, na visão de Arantes. “Temos de nos preparar para um ‘second strike’”, afirma.

Ainda que o mundo não viva uma guerra generalizada como foi a Segunda Guerra Mundial, conflitos ocorrem em diversas partes do mundo desde então. “Não há possibilidade de democracia depois da bomba atômica”, diz Arantes.

Paulo Arantes em debate na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

Paulo Arantes em debate na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

No estado de emergência atual que o autor aborda, a guerra e a sociedade de consumo convivem juntas. “Welfare e warfare são uma só”, afirma. Em sua visão, “as pessoas que recebem as mercadorias” (os consumidores) têm a consciência de fazerem parte de um processo maior, uma mobilização para a guerra.

Essa sociedade de consumo, moldada desde antes do “welfare state”, é alimentada por campanhas publicitárias que apresentam produtos ao consumidor como altamente necessários, sem os quais a vida se tornaria impraticável.

Contra as mazelas sociais, são fornecidos benefícios que não corrigem a situação, mas “sossegam” os indivíduos, explica Arantes. O autor faz um paralelo com o Plano Beveridge, na década de 1940, criado para amparar os sobreviventes que trabalharam durante a Segunda Guerra Mundial, para os quais foram oferecidos planos de saúde e educação.

“Vocês vão para a guerra e os que voltarem terão saúde, educação, bolsa-moradia, bolsa-isso, bolsa-aquilo”, brincou Arantes, arrancando risos de uma plateia formada principalmente por estudantes universitários. O meio estudantil está familiarizado com termos como bolsa-alimentação, bolsa-moradia, bolsa-livros e outras bolsas.

Depois de junho…

O último ensaio de O Novo Tempo do Mundo tem como título “Depois de junho a paz será total”. Após tratar do “tempo do mundo” no plano geral, Arantes fecha sua obra com o caso brasileiro, partindo das manifestações que tomaram as ruas em junho de 2013.

“Nós começamos numa guerra total e continuamos numa paz total”. É assim que Arantes se refere ao estado de trégua, um momento delicado em que existe uma linha tênue entre guerra e paz. “Sabemos que estamos no olho do furacão e é uma situação generalizada”, diz Isabel Loureiro.

O autor usa como exemplo o caso das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) no Rio de Janeiro. Apesar do nome, “pacificadora”, a atuação desses órgãos tem sido questionada por criar uma “guerra” entre policiais e traficantes, por vezes envolvendo civis e acabando em mortes.

A cidade passou a conviver com operações policiais semanalmente. “O que significa que o Rio de Janeiro tenha uma gestão armada de sua vida social e as pessoas achem isso natural?”, questiona Arantes.

Em 2013, o que começou como uma manifestação contra o aumento das tarifas do transporte público (aumento de 20 centavos, no caso de São Paulo), culminou em manifestações que reuniram milhares, fecharam rodovias e foram marcadas por atos de violência.

O aumento da tarifa e as primeiras manifestações trouxeram à tona uma série de incômodos sociais, que levaram a novas manifestações. Um ano depois, em junho de 2014, o Brasil sediou a Copa do Mundo.  As pessoas novamente foram às ruas para protestar contra o investimento em um evento esportivo mundial, em detrimento de áreas como Educação e Saúde.

O que mudou? Para Arantes, o Brasil não é um País democrático, igualitário, pacificado e praticamente sem pobreza, como se imaginava. O autor explica que o “tempo do mundo” do título é o tempo vivido por sociedades como a brasileira, que estão orientadas pelo futuro. No entanto, ao encontro dessas sociedades, o que vem é um “futuro explosivo”.

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segunda-feira, 29 de setembro de 2014 Política | 10:01

Especialistas erraram previsões na campanha. Mas um alerta: eles costumam acertar quase tanto quanto o acaso

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Dilma Rousseff vai perder a disputa pela reeleição e os petistas serão, enfim, removidos do poder. A economia brasileira está muito mal, obrigado, encontra-se à beira do abismo, e imerge de maneira trôpega numa tragédia iminente que dura alguns anos e parece que, em breve, repintará em cores muito mais sombrias a débâcle já sofrida pelo País em outros tempos. Fato. Líquido e certo.

Aécio Neves, o candidato tucano, vai comandar a oposição rumo a uma vitória difícil, mas inevitável “diante de tudo o que está aí”. Apesar das poucas nuances e diferenças, acrescente-se, entre ele e o outro oposicionista relevante, Eduardo Campos – o esperto, boa praça porém inerte nas pesquisas candidato do PSB, amigo do ex-presidente Lula e mordaz adversário da presidenta Dilma.

Opa! Um acaso trágico vindo dos céus, Eduardo Campos morreu. Marina Silva, de aura imaculada, agora é a candidata do pacto eleitoral PSB-Rede. Dispara nas pesquisas, é inevitável sua vitória. Será a conquista da esperança por uma “nova forma de fazer política”. Não há como, é uma questão de tempo – precisamente agora é esperar o 5 de outubro. A campanha de Aécio também morreu. A de Dilma agoniza.

Mas eis que Marina chafurda diante da “desconstrução” (para uns) ou das “agressões” (para outros). Era o tal novo, atribuído pela virtuosa combinação entre a rejeição ao PT, rescaldo de votações passadas, baixa identificação de Aécio e morte de Campos. Suas contradições a tornaram mais vulnerável, Aécio viu sua esperança ressurgir, Dilma subiu e tornou-se, mais uma vez, a favorita absoluta. Petistas graúdos atestam: é possível até mesmo ganhar no primeiro turno. Um assombro de conquista.

Biruta de aeroporto

A soma de previsões definitivas, transitividades, surpresas, acasos, mudanças de rota e – pasmem – reafirmações de mais previsões definitivas é um exemplo de um vício crônico do Brasil (embora não restrito a nós): o mito das previsões dos especialistas. Uma pena, pois o histórico os desabona.

Nada contra os especialistas. A coluna recorre a eles sempre. Coleciona amigos especialistas, entre economistas, cientistas políticos, historiadores, sociólogos, filósofos, jornalistas e psicanalistas. Produzem conhecimento, estendem os limites da interpretação das mudanças presentes e discutem caminhos e possibilidades em formação no horizonte futuro.

E é no futuro que mora o problema. Nada contra quando se tenta antecipar os passos futuros – numa disputa eleitoral ou nos rumos da economia brasileira, por exemplo. O nó cego aparece quando levamos a sério demais tais previsões, quando elas são taxativas demais, como se viu nesta campanha até aqui, ou quando a mídia, em especial, credita, com ares de verdade, o que não passa de hipótese de trabalho. É o caso do pessimismo reinante que paira sobre a economia brasileira, em que certos setores da imprensa insistem em antecipar um ocaso generalizado, um estado sombrio e desesperador sem amparo na realidade da maior parte da sociedade.

Livro mostra que não há método confiável de acerto

Expert_Political_JudgmentUm livro fantástico, publicado há quase dez anos nos EUA e, infelizmente, sem tradução no Brasil, ajuda a sustentar a falácia das previsões dos especialistas. Chama-se Expert Political Judgment (Princeton University Press, US$ 17 na Amazon). Seu autor é Philip E. Tetlock, um professor de psicologia de Berkeley, Califórnia. Ele passou quase 20 anos analisando previsões de centenas de especialistas sobre o destino de dezenas de países. Foram 28 mil previsões coletadas.

Os números são desabonadores para os especialistas, e as conclusões, edificantes para quem se irrita com previsões. Do livro, extraem-se três lições essenciais: primeiro, especialistas (e colunistas como o que assina esta Pensata) sabem menos do que parecem saber. Segundo, falham com bastante frequência. Terceiro, nunca são penalizados por seus equívocos. “Nenhuma sociedade criou ainda um método confiável de pontuação de acerto dos especialistas”, afirma Tetlock.

Aos números. Entre os analistas de maior pessimismo, 70% das previsões se revelaram mais sombrias. Delas, só 12% terminaram por ocorrer. Entre os mais otimistas, 65% dos cenários traçados foram mais rosados. Destes, 15% se materializaram. Ou seja, o grau de acerto é uma lástima, com leve vantagem para os otimistas (mas leve mesmo). Especialistas são péssimos no cálculo de probabilidades, e segundo o estudo de Tetlock não importa se as previsões dizem respeito a economia, política interna ou assuntos internacionais. Suas avaliações são igualmente equivocadas em todo o espectro de temas.

Previsões servem para sistemas não complexos

Se os especialistas se saem um pouco melhor do que o acaso (ou tanto quanto um macaco jogando uma moeda para cima), por que eles insistem em fazê-lo e nós em ouvi-los? Dan Gardner, no livro Future Babble (Balbucio sobre o futuro, US$ 12,79 na Amazon) arrisca algumas explicações. Para Gardner, nos habituamos a ver a ciência prevendo com enorme sucesso fenômenos como eclipses e marés. Só que esses são sistemas não complexos. Neles, o todo não difere da soma das partes, o que permite montar equações que resultam em predições bastante acuradas. O problema é que quase todas as atividades humanas constituem sistemas complexos, nos quais o todo é mais do que a soma das partes.

Se aprendêssemos bem essa lição, talvez só devêssemos levar a sério experts que expressassem suas previsões do seguinte modo: “Há x% de probabilidade de que o cenário y se materialize”. No mundo real, porém, não é o que ocorre. As manchetes seriam mais enfadonhas. O leitor fugiria. O cérebro humano procura tão avidamente por padrões que os encontra até mesmo onde não existem. Mesmo num mundo sempre mais complexo, queremos narrativas cada vez mais simples e explicações cada vez mais lógicas para nossas preferências. Queremos encontrar sentido nas coisas, mesmo onde não há sentido aparente.

Por essa razão a mídia tem sua responsabilidade adicional. Diz Tetlock: “A mídia não só não consegue eliminar as más ideias mas muitas vezes favorece ideias ruins, especialmente quando a verdade é muito confusa para ser embalada ordenadamente”. A propósito, quanto mais entrevistas os especialistas haviam concedido à imprensa, descobriu Tetlock, piores tendiam a ser suas previsões.

Tem vida longa, porém, a tendência de buscar chaves explicativas definitivas quando, muitas vezes, não resta outra saída se não jogar uma dúvida no ar. Pode resultar em frustração do leitor ou espectador, mas se trata de ser feita uma avaliação de custos e danos. (Blogueiros e colunistas públicos da mídia tradicional, à esquerda e à direita,  e suas certezas absolutas certamente discordarão dessa análise.)

Pensem como a raposa

Tetlock dividiu seus especialistas ao longo de um espectro entre o que batizou de “porcos-espinhos” e de “raposas”. A referência aos animais vem do título de um ensaio de Isaia Berlin sobre o romancista russo Lev Tolstói, chamado “O Porco-Espinho e a Raposa”.

Porcos-espinhos são personalidades de tipo A, que acreditam em grandes ideias, em certos princípios que regem o mundo com o rigor de leis da física e que sustentam praticamente todas as interações que ocorrem na sociedade. Karl Marx e Freud são dois exemplos.

Raposas, por outro lado, são criaturas que gostam de fragmentos, acreditam numa infinidade de pequenas ideias e adotam abordagens distintas para um mesmo problema. São mais tolerantes às nuances, às incertezas, à complexidade e às opiniões discordantes.

Porcos-espinhos são caçadores e estão sempre em busca de uma presa grande. Raposas são animais coletores. Raposas, diz Tetlock, são muito melhores em fazer previsões do que porcos-espinhos. Por essa razão, Tetlock pede que experts tenham mais humildade. Desse modo, diz ele, o debate político poderia soar menos estridente.

O problema é que, como diria o poeta irlandês William Butler Yeats, “falta convicção aos melhores, enquanto os piores estão cheios de apaixonada intensidade”.

 

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sábado, 27 de setembro de 2014 Literatura | 07:00

Sérgio Sant’Anna explora o erotismo e o desejo em “O homem-mulher”

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“O homem-mulher” é o título do primeiro e também do último conto do livro homônimo do escritor Sérgio Sant’Anna, lançado esta semana pela Companhia das Letras. Sinal dos tempos: homem-mulher é um cross-dresser, expressão usada para designar um homem que gosta de vestir-se de mulher, foco e eixo das principais narrativas do escritor. “Pesquisei esse tipo de personagem, que é diferente de um homossexual, e resolvi tratar disso”, afirmou Sant’Anna  ao médico e também escritor Drauzio Varella, na Livraria Cultura, em São Paulo, ao lançar o livro esta semana no “Drauzio Entrevista”.

O homem-mulher Sérgio Sant'Anna 184 páginas, R$ 38 Companhia das Letras

O homem-mulher
Sérgio Sant’Anna
184 páginas, R$ 38
Companhia das Letras

O conto que dá nome ao livro tem início em um carnaval, em Belém, no Pará. “Não sei por que fiz um conto que se passava no Pará, brincou o autor, provocando risos na plateia paulistana que o assistia. No fim do livro, o conto é retomado como “O homem-mulher II”, para dar continuidade à história – desta vez no Rio de Janeiro, o personagem do conto original vira diretor de teatro, e o texto assume um caráter metalinguístico: um conto que narra que uma peça de teatro que se transforma em notícias de jornal. A história trabalha as relações amorosas e a dificuldade em se aceitar um homem que se veste como mulher. A aceitação ocorre no plano do exótico, quando o homem-mulher vira notícia.

“Não sei dizer por que inventei o homem-mulher. Pensei: ‘Isso é bom, vou tentar’”, conta Sérgio Sant’Anna. É uma falsa despretensão. Nos 19 textos de variados temas e tamanhos que compõem O homem-mulher – o livro –, o contista explora uma alta carga erótica, o corpo e a sensualidade. E mais do que pôr foco no visível, ele está atento aos sentimentos dos personagens. O erotismo, diga-se, tem sido recorrente nos últimos livros do autor, como “O voo da madrugada e “Páginas sem glória”.

Barra pesada, sem perder a ternura

Mas “O homem-mulher” não é só erotismo explícito, é também ternura: “Embora tenha coisas bastante eróticas, [o livro] tem coisas muito ternas”, ressalta o autor, citando como exemplo o conto “Lencinhos”. “Foi algo romântico, que me deu muita satisfação escrever”. Sant’Anna conta que estava em busca de uma coisa “terna” e queria escrever algo capaz de trazer “essa doçura” depois de ter escrito “tanta coisa ‘barra pesada’”.

Nem tudo, porém, é terno neste conto: narra a história em que o protagonista se apaixona pela vendedora de lencinhos que junta dinheiro para o tratamento de câncer do marido. À certa altura, ele próprio reconhece, descamba para o erotismo e a fantasia sexual pura e simples, até revelar-se delicado como os produtos da garota. “O texto tem que calar fundo em você [autor], porque acaba calando fundo nos leitores”, diz Sant’Anna.

Quarenta e cinco anos depois de sua estreia na literatura, Sant’Anna continua fiel ao gênero que adotou desde o primeiro livro, o elogiado “O sobrevivente”. Sérgio Sant’Anna sempre foi conhecido por ter uma obra transgressora e experimental. Hoje, aos 72 anos, reafirma essa condição: O homem-mulher é ousado do começo ao fim, numa reunião de histórias marcadas por homens e mulheres comuns repletos de problemas e pequenas tragédias pessoas e que encontram no sexo um lenitivo contra as suas frustrações.

Sérgio Sant'Anna, autor de "O homem-mulher" e "especialista em contos"

Sérgio Sant’Anna, autor de “O homem-mulher” e “especialista em contos”

Ousado, mas não escrachado, o erotismo aparece ao longo de todo o livro. Por vezes, em situações muito delicadas, como a enfermeira que exibe os seios num ato de solidariedade para um paciente idoso em “As antenas da raça”. Ele brinca: “A literatura exige da libido da pessoa como uma atividade amorosa. O autor pode até se apaixonar pela mulher sobre a qual está escrevendo. Como a gente se apaixona às vezes num sonho e, quando acorda, é uma coisa terrível.”

A mistura de libido e sonho marcam fortemente dois contos: a fantasia sexual em “Lencinhos” e “O torcedor e a bailarina”. Neste, o erotismo aparece de forma muito sutil e quase ingênua.

Em “Amor a Buda”, Sant’Anna comenta a escultura “Tentação”, do chinês Li Zhanyang, que esteve em cartaz na mostra “China Hoje”, no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro, em 2007. É a mesma escultura que ilustra a capa. Diferente do trabalho dos críticos de arte, que frequentemente tropeçam em textos ao tom de “o artista quis dizer”, o autor criou uma verdadeira narrativa entre o Buda e a mulher que são representados na obra chinesa, inventando pensamentos e diálogos para os personagens.

“Eles dois”, décimo conto do livro, é autobiográfico. “Tive uma relação muito apaixonada que acabou em briga descomunal, mas teve um tempo de felicidade muito grande”, conta. Em “Eles dois”, Sant’Anna narra a história dessa paixão em apenas dez páginas. Mesmo sendo autobiográfico, algumas brigas sérias da relação não entraram para o texto, por opção do autor. Alguns detalhes foram acrescentados. “Você pode inventar algumas coisas. O bom da literatura é isso. Você pode mentir”, sublinha.

Contista, sempre

A influência que levou ao gosto pelos contos tem origem em Minas Gerais, onde Sant’Anna conviveu com outros contistas e passou a apreciar a narrativa curta. “Gosto muito de fazer novelinhas também. O ‘romanção’ mesmo não sei se vou fazer algum dia”, diz.

Já o empurrão para se firmar como autor veio bem antes, quando ainda cursava a faculdade de Direito e conquistou o segundo lugar em um prêmio literário, por um de seus contos. “Acho que foi decisivo. Se não fosse isso, pode ser que acontecesse. Mas eu tinha aquela dúvida: ‘será que eu sou bom?’. Se eu for falar dos prêmios que  ganhei na minha vida, o mais importante foi esse”, conta.

Questionado sobre o motivo para escrever textos pequenos e se já houve tentativa de escrever romances, o autor afirma que seu interesse é “escrever um texto até onde ele vai”. “Se o texto, tudo o que eu queria dizer, vai até dez páginas, o texto vai até dez páginas”, revela o escritor, que diz ser um “especialista no conto de médio porte”.

Sant’Anna afirma ter “a cabeça povoada de personagens que escreveu”. Diz que já tem em mente seu novo livro, mas ainda é cedo para que ele apareça. “A cabeça ainda está muito em O homem-mulher. Para escrever outro, acho que isso tem que passar”, diz.

O que está confirmado é a reedição do livro O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro, publicado em 1982 pela editora Ática. Como se trata de uma editora voltada a livros didáticos, Sant’Anna conta que seu livro não teve muitas vendas. O livro será republicado pela Companhia das Letras.

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