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Arquivo de outubro, 2014

quarta-feira, 29 de outubro de 2014 Literatura | 11:55

Quase romance recria sete quase encontros com a morte

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Um quarto de hospital pequeno, escuro e frio. Não se sabe quem é o doente nem qual a doença em questão. É assim, in media res, que tem início O oitavo selo, de Heloisa Seixas, lançado recentemente pela Cosac Naify.

Em O oitavo selo, ela conta sobre as situações entre a vida e a morte pelas quais passou o jornalista e escritor Ruy Castro, com quem é casada. Misturando ficção e não-ficção, o resultado é o que a própria autora chamou de “quase romance”. São episódios em que o escritor teve de encarar, direta ou indiretamente, a morte.

O oitavo selo Heloisa Seixas Cosac Naify 192 páginas, R$ 39,90

O oitavo selo
Heloisa Seixas
Cosac Naify
192 páginas, R$ 39,90

Heloisa Seixas é autora de livros de ficção, entre romances e contos, como A porta (Record, 1996) e Pérolas absolutas (Record, 2003), ambos finalistas do prêmio Jabuti, uma das principais premiações literárias no Brasil. É autora também de O lugar escuro (Objetiva, 2007), livro de não-ficção que trata do mal de Alzheimer de sua mãe.

Os “sete selos” de seu novo livro são uma referência a uma das principais obras do cineasta sueco Ingmar Bergman, O sétimo selo. No filme, o personagem principal tem um encontro com a Morte, que anuncia o fim próximo. A fim de ganhar tempo, o personagem propõe um jogo de xadrez, que vai se estendendo ao longo do filme.

Além de conversas com o cinema, a autora buscou referências também na música e na própria literatura. Uma delas é o livro das Mil e uma noites, em que Sherazade conta histórias para o sultão, que matava as mulheres com quem se casava logo após as núpcias. Contar histórias, portanto, foi a forma que Sherazade encontrou para enganar a morte.

“Esses fantasmas permeiam o livro todo e a vida de todos nós: o medo da morte”, explica a escritora. Alguns dos confrontos com a morte contados no livro são também momentos de intensa produção literária para Ruy Castro. “É como se ter um livro incompleto fosse uma ‘desculpa’ para não se deixar morrer”, conta.

A gestação do livro, desde a ideia até a finalização, durou cerca de um ano e meio. A seguir, Heloisa Seixas fala sobre esse processo e o resultado final.

***

De que forma ficção e realidade se misturam no texto?
Não adianta procurar as fronteiras. O limite entre ficção e realidade é incerto, e eu quis que fosse assim. Isso me deu total liberdade, porque não é fácil você escrever sobre o passado de uma pessoa tão íntima sua, sendo um passado do qual você não fez parte. E isso se aplica aos três primeiros capítulos.

Em que momento você decidiu escrever o livro?
Eu sempre admirei a energia do Ruy (Castro), a capacidade dele de se jogar no trabalho e de dar a volta por cima das armadilhas do destino. Intimamente, eu o comparava à Sherazade, a personagem das Mil e uma noites que conta histórias para não morrer. O Ruy também me parecia assim: sempre com um livro por terminar. Enfim, eu já tinha essa ideia no fundo da cabeça quando, em uma conversa com a escritora Guiomar de Grammont (durante a Flip de 2012), ela começou a falar em “mitos eróticos” e citou Sherazade. Aí a ideia apareceu inteira na minha cabeça. Logo veio a constatação de que Ruy tivera sete confrontos com a morte e, em consequência a ideia de dividir o livro em “selos”.

A escritora Heloisa Seixas. Foto: Bruno Veiga

A escritora Heloisa Seixas.
Foto: Bruno Veiga

Ao longo do livro, há diversas menções ao cinema (a começar pelo título), à música e à própria literatura. Fale um pouco sobre essas fontes e como elas inspiraram o trabalho.
Assim que eu percebi que os confrontos eram sete, logo me veio à mente a lembrança do filme O sétimo selo, de Bergman, justamente por ser a história de um homem que tenta negociar com a Morte, jogando xadrez com ela. Isso também se encaixava na história do Ruy. As demais citações vieram naturalmente, já que Ruy (e eu também) vive cercado de filmes, livros, música.

Os títulos dados aos selos fazem um passeio pelo corpo humano. Comente essa escolha.
As duas ideias surgiram para mim de forma simultânea. Os livros são assim, eles se escrevem, cada um de uma forma peculiar. Assim que eu percebi que eram sete confrontos, e que chamei esses confrontos com a morte de “selos”, ou marcas, eu percebi que cada um se referia a um elemento do corpo. Não havia repetições, eram elementos diferentes: sangue, nariz, fígado, língua, coração, sexo e cérebro. De repente, tudo se encaixou.

Escrever sobre o sofrimento do marido pressupõe revivê-lo. Quais foram as dificuldades nessa revisita à dor real para recriá-la de forma quase ficcional?
Foi difícil não só pelo sofrimento envolvido, mas também pelas cenas de sexo e sedução, pertencentes a um passado do qual eu não participei. Mas a partir do momento em que você se deixa levar pela ficção, deixa a mão correr livremente, aí já não é mais do seu marido ou de qualquer pessoa de carne e osso que você está falando. Vira um personagem mesmo. E você fica livre para escrever o que quiser, sem medo.

No final do livro, existe menção a um período que foi esquecido, o que faz lembrar o seu livro O lugar escuro. Qual a relação entre este e O oitavo selo?
Os fatos narrados em O lugar escuro (aí, sim, todos reais) aconteceram simultaneamente aos últimos “selos” do Ruy. Foi muito difícil para mim, claro. Eu, que me acho uma pessoa frágil, nada corajosa, tive de enfrentar tudo ao mesmo tempo. Mas foi um aprendizado, para mim. E para o Ruy também, claro.

Enquanto o prólogo começa já em um ambiente de hospital, algumas explicações vêm somente no final. Como foi a construção da estrutura do livro?
Pensei nos confrontos, pensei nos selos. E comecei a escrever, sempre misturando real e ficção. Escrevi na ordem em que aconteceram, na ordem em que estão no livro. O prólogo é extraído de um dos selos, o que ficará claro quando chegar a hora. Uma vez criada a estrutura inicial, não houve mudanças.

Em algumas partes do livro, o texto é interrompido para dar lugar a outro. A mulher e o homem deixam Heloisa e Ruy falarem. Como foi o processo de inserir essas falas no livro?
Essa ideia também surgiu naturalmente. Eu fiz algumas entrevistas com o Ruy, sobre acontecimentos da infância e da juventude dele, da época em que eu não o conhecia. Para usar ou não no livro. Aí veio a ideia de misturar essas vozes. Mas quem pensa que aquelas respostas, as vozes do Ruy e da Heloisa, são o real, pode se enganar. Há tintas ficcionais também nessas respostas.

Como foi trabalhar temas difíceis, como drogas e o alcoolismo?
São assuntos fáceis para mim, já que nunca enfrentei nada parecido. O mais difícil foi falar sobre o medo, aquele lobo que estava sempre à espreita, o tempo todo, durante a narrativa.

O homem de O oitavo selo escreve por necessidade. Você também sente essa necessidade de escrever?
Sem dúvida. Quando acabei de escrever O oitavo selo senti um alívio tão grande, uma tal leveza, que fiquei pensando: eu também escrevo para não pensar na morte. Donde, eu também sou Sherazade.

Você tem novos projetos em andamento?
Muitos! Ainda estou às voltas com a minha peça O lugar escuro (que escrevi a partir do livro) e que está em sua segunda temporada, agora viajando. Vamos nos próximos dias 31 de outubro, e 1 e 2 de novembro, fazer apresentações em Fortaleza, na Caixa Cultural. No dia 24 de novembro, haverá uma leitura dramática de uma nova peça que escrevi, É proibido envelhecer, no Centro Cultural Midrash, no Rio de Janeiro. Em dezembro, ocorre o lançamento do livro infantil A grande Pequena Notável, que fiz em parceria com minha filha, Julia Romeu (uma biografia da Carmen Miranda para crianças). E em janeiro estreia um novo musical que escrevemos, também eu e a Julia, chamado Bilac vê estrelas, com músicas do Nei Lopes e direção do João Fonseca.

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quinta-feira, 23 de outubro de 2014 Política | 13:52

Uma nova jabuticaba a propor para Dilma e Aécio: um marco regulatório das conquistas sociais

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Eis aqui uma imodesta sugestão aos eleitores indecisos, aos partidários do PT e do PSDB, aos formuladores de seus programas de governo e, claro, aos próprios candidatos Aécio Neves e Dilma Rousseff: leiam o artigo O marco regulatório das conquistas sociais – A jabuticaba e o ajuste dos rentistas, de Luiz Cesar Faro e Rubeny Goulart. Ocupa 13 páginas da última edição da revista Insight-Inteligência, cuja versão em blog é parceira do iG.

Como o próprio título revela, o artigo propõe um marco regulatório das conquistas sociais: a criação, para o próximo governo, de metas sociais a serem perseguidas paralelamente à saúde macroeconômica. Um tripé social ao lado do badalado tripé macroeconômico.

capa66Bons na forma e no conteúdo, os autores sugerem inverter a ordem do modelo vigente no Brasil. Nele, as variáveis fiscal, monetária e cambial, além da gestão microeconômica, se adequariam à preservação das conquistas sociais, e não o contrário. (Com razão, eles entendem como conquista social uma inflação controlada em patamar razoável, no nível, por exemplo, das metais atuais.)

O artigo parte do pressuposto do cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, para quem “vivemos em um mundo de antipatia pelo social”, para defender a necessidade de construir um modelo de social target, “sistematizá-lo, protegê-lo e regulamentá-lo à luz das premissas dadas”.

Antes que as gralhas gritem, não se trata da constitucionalização de certos benefícios, repetindo o engessamento do que foi feito em 1988 com o contingenciamento de recursos no orçamento, tornando imutáveis certas prioridades. Também convém esquecer o superficial e rarefeito debate restrito à manutenção ou não do Bolsa Família. Bobice. A questão social brasileira é muito mais profunda.

O artigo é, acima de tudo, uma defesa ardente do que se convencionou chamar de “democracia social”, mas que no texto da revista ganha o epíteto de “economia da democracia social” – segundo a dupla de autores, “algo mais tenro, ainda em busca de sistematização, pertencimento e proteção”. Para eles, o principal benefício dessa economia humanizada “é a combinação entre aumento do bem-estar do povo, distribuição de renda e fortalecimento da democracia”.

Acrescentam: a economia da democracia social é um modelo híbrido, capaz de integrar “suaves matérias-primas da social-democracia de inspiração nórdica com espesso molho de jabuticaba, carregado de políticas de inclusão social, sobre as quais estão assentados o crescimento do salário mínimo real, taxas de desemprego baixas e um processo crescente de distribuição de renda, todos sem perder de vista o imperativo de um controle da inflação em um nível satisfatório”.

Uma nova métrica para avaliar a economia

A dupla lembra a inexistência de hoje de um índice ou coeficiente desta cesta de conquistas sociais calculado até os dias de hoje, embora proliferem métricas sobre felicidade e satisfação. Se existisse, o Brasil estaria em posição bem melhor do que os famosos rankings de competitividade global e, claro, os rankings globais de crescimento do Produto Interno Bruto.

Explica-se: dados oficiais apoiados exclusivamente em soma de riquezas (como o PIB), produtividade e eficiência econômica (competitividade global) torturam a realidade ao ignorar, por exemplo, melhorias significativas na remuneração da população (de baixa e média renda), na proteção social e na redução da desigualdade.

Tome-se o PIB, por exemplo. O Brasil sangra diante de países como Panamá, Bulgária, Paraguai, Haiti e Nicarágua, para citar os verdadeiros “tigres latino-americanos”. De acordo com as agências de classificação de risco, estamos na vice-lanterna, somente acima da Ucrânia. Grécia, Portugal e Espanha caíram menos no ranking que o Brasil, sublinha o artigo, e por isso devem estar muito felizes, todos com salários decrescentes, desemprego na casa dos 12%, pobres procurando fontes de renda como quem busca oxigênio e juventude desesperançada.

Enquanto isso, o Brasil do PIB magrinho e sofrível (mesmo mantendo-se como o sétimo PIB do mundo) se vê com a taxa de desemprego abaixo de 5%, algo notável até mesmo para os mais elevados padrões mundiais de pleno emprego. Em nove anos, como lembra a insuspeita Fundação Getulio Vargas, os 60% mais pobres da pirâmide social cresceram seis pontos percentuais na renda nacional, enquanto os 1% ais ricos, apenas um ponto – algo revolucionário.

Entre os famosos Brics, o Brasil foi o único a não exibir números exuberantes em matéria econômica que o “mercado” adora (crescimento alto e inflação baixa), mas foi o único que conseguiu ampliar a distribuição de renda, segundo estudo da igualmente insuspeita OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

O mesmo estudo avaliou o enigma da superprodutividade dos países da Ásia e da Região Oceânica do Pacífico. Na maioria deles, o grande crescimento econômico não foi transformado em distribuição de renda e políticas sociais relevantes. Já vimos esse filme antes nos plúmbeos anos do milagre econômico brasileiro – aqueles em que a economia ia bem, e o povo ia mal, nas palavras do ex-presidente Emílio Garrastazu Médici.

O marco regulatório

Faro e Goulart propõem um bicho de sete cabeças: um índice de crescimento necessário para a proteção dos avanços obtidos por meio da economia da democracia social. Seria algo como o “PIB de equilíbrio para manutenção das políticas sociais”.

A dizer: “a soma de riquezas capazes de atender as despesas com o crescimento do salario mínimo real, a taxa de desemprego próxima do pleno emprego e a distribuição de renda com inclusão social, além da poupança dirigida às necessidades de sempre voltadas ao crescimento do capital”. Em outras palavras, como diz a professora Maria da Conceição Tavares, não se trata mais de PIBão, nem de PIBinho, mas sim, o PIB no qual caibam as exigências de uma sociedade mais justa.

Como os autores afirmam, uma proposta com gosto de limonada amarga para os rentistas mais inveterados. Fica o desafio: criar uma métrica que incorpore esse tripé da economia da democracia social na soma das riquezas totais. Para quem gosta de pensar em inglês, substituir o alquebrado development target de hoje pelo social target, que perseguiria o tríptico do salário em alta, distribuição de renda e baixo desemprego.

Campanha eleitoral arrogante e sem criatividade

A ideia traz um pouco de inventividade à reta final de uma campanha que padeceu da falta de luz criativa. “Nos programas de campanha eleitoral”, lembram eles com propriedade, “o que se tem ouvido, invariavelmente com exuberante arrogância, é que tudo se cala em face da irrefutabilidade e da imponência do tripé da política macroeconômica – sistema de metas ide inflação, câmbio flutuante e uma política fiscal compatível com a sustentabilidade da dívida pública – e que o social será aquele que couber no fiscal”. Um determinismo da economia política asfixiante para quem considera que as políticas devem estar voltadas para que a população viva melhor.

A democracia social, conclui o artigo, do ponto de vista de quem governa, antes de ser ideológica, está no terreno da sabedoria política. À coluna, informa Luiz Cesar Faro: o artigo se dirige ao PT e ao PSDB. Vale para um futuro segundo governo Dilma, ou um novo governo Aécio. Serve para quem abraçar a causa do marco regulatório das conquistas sociais e perceber, com sensibilidade, que bem-estar dá voto.

Em tempo: para ler e degustar na íntegra as ideias e o primor do texto de Luiz Cesar Faro e Rubeny Goulart, acesse aqui.

 

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segunda-feira, 20 de outubro de 2014 Jornalismo, Política | 11:12

15 frases para falar mal da política, segundo Millôr

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Numa campanha presidencial tisnada por debates amuados, ataques de alto, médio e baixo calibre, além de ódio e intolerância por parte das torcidas organizadas e desorganizadas, nada como resgatar o bom humor de Millôr Fernandes.

Do livro Millôr 100 + 100 – Desenhos e frases, editado pelo Instituto Moreira Salles (depositário de sua obra), extraem-se primorosos exemplos de sua notável (e assombrosa) criatividade, capaz de produzir, em palavra e imagem, gargalhadas abertas ou travo amargo da ironia. A coluna recolheu do livro frases sobre política, ideologia, corrupção e democracia.

 

Millôr 100 + 100: Desenhos e frases Organizadores: Sérgio Augusto e Cássio Loredano Instituto Moreira Salles R$ 500

Millôr 100 + 100: Desenhos e frases
Organizadores: Sérgio Augusto e Cássio Loredano
Instituto Moreira Salles
R$ 50

Lançado na Flip deste ano, o livro reúne 100 frases selecionadas por Sérgio Augusto e 100 desenhos escolhidos por Cássio Loredano. Uma dupla genial que trabalhou à altura do gênio homenageado, autor de inesquecíveis tiradas, máximas, aforismos, pensamentos, meditações, apotegmas, gnomas, perguntas cretinas, chistes, brincadeiras, fábulas e adágios virados pelo avesso e trocadilhos infames (Um dos melhores: “Brasil, país do faturo”).

Cético, Millôr desprezava todas as ideologias (“livre como um táxi” era sua divisa favorita), o que explica muitas das frases abaixo.  Ou melhor, tiradas. Quinze tiradas.

* * *

1. Político é um sujeito que convence todo mundo a fazer uma coisa da qual ele não tem a menor convicção.

2. Os corruptos são encontrados em várias partes do mundo, quase todas no Brasil.

3. Nas noites de Brasília, cheias de mordomia, todos os gatos são pardos.

4. A ociosidade é a mãe de todos os vices.

5.  Desconfio de todo idealista que lucra com seu ideal.

6. A probidade não tem cúmplices.

7. Não gosto da direita porque ela é de direita, e não gosto da esquerda porque ela é de direita.

8. O problema da democracia é que quando o povo toma o palácio, não sabe puxar a descarga.

9. Os socialistas são contra o lucro. Os capitalistas são apenas contra o prejuízo.

10. Cada ideologia tem a Inquisição que merece.

11. Quando uma ideologia fica bem velhinha vem morar no Brasil.

12. Os pássaros voam porque não têm ideologia.

13. A credibilidade do país é inversamente proporcional aos juros que os banqueiros internacionais lhe cobram.

14. Quem se curva aos opressores mostra a bunda aos oprimidos.

15. Todo líder acaba empregado de sua liderança.

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domingo, 19 de outubro de 2014 Política | 13:41

Debate restrito a ataques e bate-boca irrita o eleitor. Mas só com ideias de alto nível fica chato. Qual a saída?

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Em poucas horas, Dilma Rousseff e Aécio Neves voltarão a confrontar-se em novo debate, desta vez na Record. Depois dos encontros da Band e do SBT, a expectativa corrente é se ambos manterão a linha de ataques quase fratricidas ou se reduzirão o tom em busca de um equilíbrio maior entre as críticas severas a um e as propostas para o País.

Há quem acredite que, diante das reações negativas generalizadas de lado a lado, é bem possível que os dois baixem a guarda e aplaquem o ímpeto bélico. Com o perdão da obviedade, meu palpite é que os dois candidatos vão se estudar inicialmente, e os primeiros movimentos de cada um ditarão o tom a seguir. O nível de hoje dependerá, portanto, de quem vai tomar a iniciativa de ser mais ou menos agressivo, mais ou menos magnânimo.

Mas o foco desta pensata é outra. Instigado por um querido e refinado leitor da coluna, reflito: detestamos quando sai fogo do debate e quando este se restringe a ataques mútuos. Até aí ok. O debate franco, qualificado e profundo de ideias é o que de fato interessa ao País. Como afirmaram muitos blogueiros, situados à esquerda e à direita do espectro político e ideológico, estamos todos cansados de ver brigas entre Dilma e Aécio. Queremos propostas. Até aí ok também.

É lorota – “e das boa”, como diria o mestre do baião, Luiz Gonzaga – imaginar que assistiríamos sorridentes, iluminados e altivos, do começo ao fim (como se estivéssemos numa Ágora grega) a um debate de altíssimo nível o tempo inteiro. Ao contrário, ele seria modorrento, enfadonho, sonolento. A começar pela própria imprensa, que não raro descreve debates sem confrontos como “debate morno”.

Por outro lado, como sublinhou o amigo da coluna, o bate-boca é ruim para o debate, para o País e para a biografia dos próprios candidatos – mas neste caso todos assistem e comentam os momentos mais ruidosos do “confronto”.

“Qual o equilíbrio de um debate destes?”, eis a pergunta feita por este amigo, a mesma que muitos devem estar se fazendo hoje, à espera do terceiro e penúltimo debate do segundo turno. “O que está em jogo? As habilidades políticas? O passado de gestor? Afinal, o que o eleitor espera de verdade?”. São perguntas pertinentes, que provavelmente não encontram respostas únicas, tampouco consensuais. Mas ajudam a pensar se, neste tema, é pau, é pedra ou o fim do caminho.

Aécio Neves e Dilma Rousseff no debate do SBT. Foto: Reprodução

Aécio Neves e Dilma Rousseff no debate do SBT. Foto: Reprodução

Os ataques são pedagógicos. Mas até certo ponto

Com exceção talvez do jornalista Paulo Nogueira, do DCM (parceiro do iG), nenhum analista relevante enxergou méritos na agressividade dos dois primeiros encontros do segundo turno. De Josias de Souza – para quem foi o mais baixo nível de debate desde o confronto renhido entre Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva em 1989, na noviça democracia recém-descoberta – a Luis Nassif, que classificou de “circo de horrores”.

Paulo Nogueira, no entanto, acha que os debates acirrados como os dois últimos ajudam a dar clareza sobre o perfil dos candidatos. “A importância de um debate está em permitir ao leitor que conheça os candidatos. A alma dos candidatos, quero dizer”, escreveu ele em artigo.

Não só a agressividade revela a “essência do homem em si”, argumentou, como é impossível formular propostas para um país em dois minutos para o adversário rebatê-las em um minuto. “Você não discute sequer o seu casamento, ou namoro, em um minuto, que dirá os caminhos da educação ou da saúde, os remédios para a economia ou para o meio ambiente, e por aí vai. Mas em instantes, em fragmentos de instantes, você capta a alma do candidato, e isso acontece em geral em situações de tensão e confronto, quando a guarda está mais baixa e o nhenhenhém diplomático se esvai.”

Faz sentido.

Mas Dilma Rousseff e Aécio Neves não ganharão o salvo-conduto para restringirem 100% seus preciosos minutos dos debates da TV às brigas, bate-bocas, provocações, ironias. A razão: o baixo nível da campanha infelizmente não se limita ao debate, quando dispõem apenas de um minuto para respostas ou um minuto para réplicas ou tréplicas. A qualificação no ralo é generalizada; espalhou-se por quase todo o primeiro turno e tomou de assalto o segundo turno inteiro.

Em bom português: tanto nos debates da TV quanto nas entrevistas e nas inserções do programa eleitoral gratuito, trata-se de uma campanha feia e grosseira. Foram raros os instantes de brilho pessoal ou criatividade política. Quase ou nenhuma proposta capaz de distinguir-se do que tem composto o palavrório trocado entre oposição e governo.

Uma campanha feia e a campanha que não houve

Com uma pauta tão mofina assim, a taxa de abstenção, brancos e nulos tende a aumentar no segundo turno. O lamentável é que as duas candidaturas – Dilma/PT e Aécio/PSDB – têm o que apresentar, especialmente projetos de mudança em direções divergentes, porém reais.

Obviamente são necessários aí os olhares para o retrovisor, sim, comparando-se estratégias, contextos e consequências e dois modelos bastante diferentes de governar, demonstrados não só nos oito anos de Fernando Henrique Cardoso e nos dois 12 anos de Lula/Dilma, como também nas gestões estaduais tucanas e petistas.

(Ainda impressiona quando alguém afirma que PT e PSDB são mais próximos do que se imagina e deveriam caminhar juntos.)

O eleitor, porém, chega à última semana sem conseguir escapar da verborragia, de um lado, e numerologia, de outro. Pura e simplesmente. Dos mal informados radiografados recentemente pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso aos bem deformados identificados pelos seus críticos, poucos devem ter saído com uma visão clara do que de fato se imagina ser o cenário de mudanças concebido para o próximo governo – seja ele o governo reeleito de Dilma ou um novo governo tucano, com Aécio.

Até onde são mitificações ou verdadeiras as previsões sombrias sobre a economia brasileira?

A vasta leva de obras que se espalham pelo País – e sobre as quais pouco se fala – conduzirão a economia a novo patamar nos próximos anos?

Como o Brasil modernizará seu patamar de análise sobre os padrões de vida, comportamento e bem-estar, em algo que vá além do número puro e seco do Produto Interno Bruto?

Qual o equilíbrio ótimo entre eficiência econômica (que avançamos com FHC) e democracia social (cujo salto se deu especialmente com Lula), sem abdicarmos de uma e outra?

Que diferenças de planos para a educação e a inovação tecnológica existem entre os dois projetos?

Dilma e Aécio exibem condições de identificar, radiografar e dialogar com um tipo inédito de intervenção política? (Aqueles movimentos recentes constituídos pelo ajuntamento de atores menos abrangentes do que as classificações que conhecemos, como classes, corporações profissionais e grupos de interesse reconhecidos; refiro-me ao novo que se prolifera em pequenas coletividades, e sem denominador comum muito claro.)

Quais rumos o Brasil tomará em posições internacionais, cujo patamar foi reduzido após a saída de cena de Lula?

O que diferem Dilma e Aécio para sérias questões de valores da sociedade, como aborto, casamento gay, políticas afirmativas, violência contra minorias?

E em questões prioritárias como segurança pública e saúde?

Tudo isso poderia ter sido discutido sem que ambos abdicassem do necessário, pedagógico e fundamental direito de desconstruir o adversário – dos pelintras expostos na Petrobras, de um lado, às venturas e desventuras festivas, de outro.

Se tivessem buscado o equilíbrio, as duas candidaturas ainda ajudariam a aplacar a matéria-prima incrustrada no debate público atual: a intolerância com as ideias e as escolhas as alheias.

Não sairíamos tão menores do que chegamos até aqui.

 

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sábado, 18 de outubro de 2014 Literatura | 11:31

“A casa cai”, de Marcelo Backes”, traz histórias de amor, urbanização e ruínas

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O cenário: Rio de Janeiro. Um apartamento vai passar por uma reforma ambiciosa e, para isso, precisa ser praticamente destruído antes de renascer. Na cidade, existem obras por toda parte, mas nem todos os edifícios resistem ao tempo. Dentro e fora desses lares, pessoas estão sempre começando e rompendo relacionamentos. Cartas podem ajudar a reconstruir o passado mas também a destruir alguns sentimentos e imagens formadas.

A casa cai Marcelo Backes Companhia das Letras 432 páginas, R$ 56

A casa cai
Marcelo Backes
Companhia das Letras
432 páginas, R$ 56

Essas construções e desconstruções permeiam A casa cai, ficção do escritor Marcelo Backes, recém-lançado pela Companhia das Letras. Ao tratar de temas da vida privada, o autor faz também um paralelo com a urbanização do Rio de Janeiro, trazendo à tona alguns pontos delicados dessa história.

“Enquanto uma casa é levantada, uma alma vai desmoronando”, diz o escritor em entrevista à coluna. O ficcionista Backes é também um dos mais respeitados tradutores do Brasil. Ainda professor de literatura dos mais competentes, verteu para o português obras de clássicos da literatura em língua alemã. Entre eles, Kafka, Goethe e Schiller.

Na zona sul do Rio

O personagem principal de A casa cai é o mesmo seminarista do livro anterior de Backes, O último minuto, publicado em 2013. Neste, o jovem missionário conta a história de um gaúcho na prisão. Em A casa cai, já fora do seminário, o personagem que narrava agora tem sua própria história contada. “É fundamental dizer que os dois romances são completamente independentes um do outro, histórias acabadas em si e fechadas sobre si mesmas”, esclarece.

O ponto de partida é o recebimento da herança paterna pelo ex-seminarista. Este acaba percebendo que, além das posses, a herança inclui uma série de revelações sobre o passado do pai, que permaneceram ocultas por muito tempo.

A história foge do ambiente sofisticado na zona sul do Rio de Janeiro para fazer passagens pela favela e por anos de história de destruição de comunidades pobres que deram lugar a novos e luxuosos condomínios.

Há também passagens por outras partes do Brasil (idas ao Rio Grande do Sul), por outros países (uma viagem à Alemanha e outra à Rússia) e pelo mundo das artes. Sempre construindo e desconstruindo uma teia delicada de relações pessoais.

A seguir, Marcelo Backes fala sobre seu novo livro.

* * *

O livro anterior foi concebido para ter uma continuação ou isso aconteceu depois? Não pensei em continuação enquanto estava escrevendo. Em determinado momento, já depois de terminado O último minuto, vi que seria interessante envolver o narrador daquele romance em uma história que eu já queria contar há muito tempo. O pai do seminarista inominado tinha estofo para ser um dos protagonistas da eliminação das favelas horizontais da Zona Sul do Rio de Janeiro e o próprio seminarista, já longe da batina, ainda mais estofo para meter os pés pelas mãos ao tentar segurar as rédeas da vida real. E assim, enquanto uma casa é levantada, uma alma vai desmoronando.

E como surgiu essa história? A casa cai surgiu da ideia de contar uma relação que vai desmoronando enquanto uma casa vai sendo construída , mostrando no pano de fundo como o Brasil e sobretudo o Rio de Janeiro foram erguidos. No âmbito público eu encaixei uma história que sempre me pareceu paradigmática: a da construção do Rio de Janeiro – e as duas histórias funcionam como espelho uma da outra, sem contar que na primeira é o filho que está envolvido, na segunda o pai, e que o próprio filho vai descobrindo aos poucos, ao abrir o cofre cheio de fantasmas do pai morto.

Marcelo Backes: "Há personagens reais interagindo com personagens ficcionais, envolvidos numa história de amor e desamor". Fotos: Divulgação

O escritor e tradutor Marcelo Backes. Foto: Divulgação

Qual foi a transformação pela qual o personagem principal de A casa cai passou desde O último minuto” Antes de mais nada, é fundamental dizer que os dois romances são completamente independentes um do outro, histórias acabadas em si e fechadas sobre si mesmas. É apenas circunstancial o fato de o seminarista que contou a vida terrível de João, o Vermelho, em “O último minuto”, agora contar a sua própria vida, mostrar como lidou com a morte de seu pai, com a obrigação de pela primeira vez, e isso já bem depois dos vinte anos, encarar a vida como ela é, ele que sempre viveu protegido no ventre da família e depois no seio de um seminário.

De que forma as duas histórias, a particular e a do Rio de Janeiro, se relacionam? O construtor e narrador do romance é um homem que fugiu da vida a vida inteira e de repente perde o pai, com quem nunca conseguiu se entender direito. E, sem nem mesmo saber como o mundo funciona, recebe uma herança vultosa, mas pantanosa, com a qual é obrigado a lidar. Ao mesmo tempo, esse homem constrói uma casa pra sua mulher. Se quisesse, ele poderia ter escolhido um apartamento na orla do Leblon, mas não, ele prefere a Selva de Pedra, erguida sobre os destroços daquilo que um dia foi a Praia do Pinto, uma das favelas aniquiladas. O homem reforma a casa escolhida e aos poucos descobre que o pai construiu a cidade, e que sem derramar sangue talvez não seja possível despejar argamassa num lugar que um dia foi tão naturalmente idílico.

O leitor só conhece o personagem central depois de folhear muitos capítulos. Como foi desenvolver esse personagem tão incógnito? Eu gosto de apresentar meus personagens aos poucos, de desnudá-los mais pelo comportamento e por aquilo que dizem do que por uma tosca frase de narrador que lhes dê o estofo físico e metafísico em duas pinceladas e meia. Na vida real, também somos mosaicos inconstantes, construídos pelos fragmentos que nós mesmos e os outros vão acrescentando.

E os demais personagens, como foi o processo de construção? O romance passeia por uma sociedade bem ampla do Rio de Janeiro, situada sobretudo na abastada Zona Sul e envolvida com a construção da cidade e o mundo das artes. Há personagens reais interagindo com personagens ficcionais, envolvidos numa história de amor e desamor, construção e desconstrução, edificações e ruínas, escombros e caprichos.

Qual o papel do círculo de artistas do Rio de Janeiro no desenrolar da história? Eu acho o universo das artes plásticas contemporâneas uma metáfora perfeita para entender o funcionamento do mundo contemporâneo. É só por isso o círculo de artistas, que é também paulista, tem um papel tão importante em A casa cai. De um lado há a tentativa de entender por que um metro quadrado na orla do Leblon pode custar R$ 80 mil, de outro a tela de uma garota de vinte e poucos anos que pinta a óleo e faz sua primeira exposição pode custar 25 mil, enquanto determinadas ações da Bolsa são pulverizadas em dois dias.

Ao escrever o livro, você chegou a ter alguma surpresa com os caminhos que a narrativa ia tomando? Eu sou um daqueles escritores que antes de começar esboça uma história mais ou menos básica, depois faz anotações, às vezes ao longo de anos, e de repente senta para escrever. E aí, eu viro o cavalo do diabo, ou o pégasus de uma demônia chamada musa, não sei, e não vejo mais nada no mundo à minha volta, entro num processo de imersão total, geralmente desenvolvido nuclearmente na Alemanha, onde fico pelo menos 45 dias durante o inverno. E tudo pode mudar, ganhar desenvolvimentos inesperados, os personagens literalmente fazem coisas que eu não imaginava.

O espaço principal da narrativa de A casa cai é o Rio de Janeiro, mas há passagens pelo Rio Grande do Sul, Moscou e Halberstadt, uma pequena cidade alemã. O que motivou essas escolhas geográficas? Meus personagens sempre foram muito cosmopolitas. Meu narrador carioca visita o Rio Grande do Sul apenas por razões afetivas. E se Moscou e Halberstadt, na Alemanha, aparecem, é porque são focos de metáforas interessantes no desenvolvimento do personagem, que referendam buscas de origem, tempos perdidos ou desideratos artísticos eternos.

Você já tem planos para novos livros? Tenho sim, eu sempre estou escrevendo. Fiz uma viagem maravilhosa de Pequim a Moscou recentemente, atravessando a Mongólia e a Sibéria num trem de luxo, e aconteceram coisas estrondosas nessa viagem, sem contar as que imaginei que aconteceram. E ainda repetirei essa viagem. Talvez desse um bom romance pícaro chamado, por exemplo, Os estrambóticos baques de Marcelo Polo numa volta ao mundo em pouco mais de oito dias e mil e uma noites.

 

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sexta-feira, 17 de outubro de 2014 Política | 11:43

O ódio ao outro explica o preconceito contra o voto nordestino

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Assim como fez no confronto da Band e tem repetido desde que a polêmica surgiu, o tucano Aécio Neves sublinhou nesta quinta-feira, no debate do SBT, a promessa de ser o candidato da integração nacional: nem para ricos, nem para pobres; se eleito, vai governar para todos, garantiu o candidato do PSDB.

Ao dizer isso, Aécio faz um movimento duplo, cujos resultados ainda não parecem evidentes se eficazes até o dia de votação do segundo turno. Primeiro, tenta desfazer a ideia – sedimentada no mínimo nos últimos 16 anos – de que o PSDB é um partido elitista, mais confortável no papel de representante dos bem nascidos, bem informados e bem ilustrados do que capaz de governar para ricos e pobres, incluídos e excluídos.

(Durante muitos anos o PSDB deu sucessivas mostras de ser o único partido social-democrata do mundo que abomina o Estado e o ativismo estatal, hostiliza o sindicalismo e acha movimento social coisa de gente menor, nada a ver portanto com a social-democracia que encantou a Europa a partir da primeira metade do século XX.)

O segundo movimento de Aécio ao apresentar-se como candidato de todos é tentar corrigir a rota dos rumos tomados pela declaração do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Respondendo a uma pergunta do jornalista Mário Magalhães, FHC disse: “O PT está fincado nos menos informados, que coincide de serem os mais pobres”, referindo-se à distribuição dos votos de PT e PSDB não só no primeiro turno mas também nas eleições de 2010 (Dilma vitoriosa) e 2006 (reeleição de Lula). Até aqui, o PT obteve melhor votação no Norte e no Nordeste; o PSDB, no Sudeste.

Para os petistas, tratou-se de uma nova prova do elitismo e do preconceito tucano. Um insulto aos nordestinos e aos pobres. Para os tucanos, a grita petista depois da declaração foi injusta, deturpada e eleitoreira. E vêm dizendo deste então que é o PT, e não o PSDB, o promotor de uma divisão preconceituosa do eleitorado.

O candidato do PSDB, Aécio Neves, posa ao lado do cantor Raimundo Fagner no Centro de Tradições Nordestinas, em São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Foto: jornal O Dia

O candidato do PSDB, Aécio Neves, posa ao lado do cantor Raimundo Fagner no Centro de Tradições Nordestinas, em São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Foto: Jornal O Dia

Uma pensata sobra a polêmica

De fato, o que o ex-presidente e Fernando Henrique Cardoso disse foi em parte uma verdade sociológica: o mapa dos mais pobres coincide com os menos educados; o dos mais ricos, com os mais educados. Como afirmou depois o cientista político Fernando Limongi, a distribuição regional do voto, a boa votação do PT no Nordeste e a do PSDB no Sudeste, não é senão outra forma de fazer a mesma constatação de outra maneira, porque é no Norte e no Nordeste que residem os mais pobres e os menos educados.

Mas FHC disse uma frase também reveladora do que pensa. Na transcrição completa:

“O PT está fincado nos menos informados, que coincide de ser os mais pobres. Não é porque são pobres que apoiam o PT, é porque são menos informados. Essa caminhada do PT dos centros urbanos para os grotões é um sinal preocupante do ponto de vista do PT porque é um sinal de perda de seiva ele estar apoiado em setores da sociedade que são, sobretudo, menos informados”.

Note o “sinal preocupante” da análise do presidente ao avaliar a migração do eleitorado petista dos centros urbanos (no tempo em que era oposição e o PSDB, governo, aliado com o PFL – hoje DEM). Na sua primeira eleição, FHC teve proporcionalmente mais votos entre os eleitores que não passaram do ensino fundamental. Também teve vitória folgada no Nordeste, no Norte e no Centro-Oeste. Isso se repetiu na reeleição tucana, em 1998.

O PT “migrou para os rincões” a partir de 2006. Na primeira eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (2002), seu voto majoritário ainda foi das pessoas mais escolarizadas (52% do eleitorado com ensino superior e 42% entre os menos instruídos, informava de véspera o instituto Datafolha).

Eis a “perda de seiva” petista apontada de maneira preocupante por Fernando Henrique.

Os tucanos pagam o preço porque a frase do ex-presidente abarca a ideia de que o voto no PT é atribuído a inferioridades culturais e sociais, não existentes nos eleitores de outros partidos – na ótica do tucano, especialmente do PSDB, claro.

Difícil enxergar mentira e equívoco em quem viu na frase uma divisão preconceituosa do eleitorado ou desvio de sentido, como FHC e Aécio Neves os acusam com a virulência sofisticada à moda tucana.

Para certos ditos bem esclarecidos, o eleitor inculto não sabe escolher. Equivocam-se porque não têm a sensibilidade de perceber que o pobre nordestino vota exatamente como o rico sudestino. Seu voto é igualmente racional. Ele vota buscando maximizar seu bem-estar. Em linguagem do povo: vota porque sua vida está melhor (se apoia o candidato governista) ou porque está insatisfeito e busca melhorar sua vida (quando ajuda a apear o partido governista do poder).

Menos informados? Na esmagadora maioria, certamente (noves fora não raro também encontremos no Leblon carioca e no Jardim Europa paulistano hordas imensas de pessoas que falam sem saber do que dizem). Maus eleitores? Um dado para responder: o crescimento econômico do Nordeste nos últimos três anos é de três a quatro pontos percentuais acima do crescimento nacional; o Centro-Oeste teve PIB chinês.

O tema do voto nordestino não foi levantado exclusivamente pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Houve aberrações, como o caso da comunidade médica que pregou o holocausto no Nordeste em campanha contra Dilma Rousseff, defendendo castrações químicas a eleitores do PT. Ao iG, a uma médica do grupo defendeu a página, disse que é usada “só” para desabafos e defendeu “a revolução do agir”.

O ódio aparece nas sombras, se verá a seguir.

Fazemos amor, não fazemos guerra

Doutor em história social pela USP e professor da Unicamp, o historiador Leandro Karnal tem uma análise sobre o ódio do brasileiro que ajuda a explicar certos sentimentos expostos nesse debate sobre preconceito e divisão do eleitorado do País. Ao traçar um histórico de como o brasileiro lida com a questão do ódio, Karnal mostra que temos muita resistência em assumir que fazemos guerras, que aqui há preconceito e racismo e, mais do que isso, que temos dificuldade em reconhecer o mal em nós. Segundo ele, acreditamos nas manifestações de ódio e de ira aparecem sempre no outro, no estrangeiro, no vizinho; nunca em nós.

O que essa característica revela?

Na tese da cordialidade do brasileiro (eternizada pelo historiador Sérgio Buarque de Hollanda nos anos 1930), seríamos o país da generosidade, da civilidade, da hospitalidade gratuita – a terra do coração. Negando a violência, a capacidade de manifestar nosso ódio, nosso racismo, nosso ressentimento social, agiríamos pelo coração, passionalmente. Inclusive quando odiamos.

Sérgio Buarque olhava naquele momento para a Alemanha nazista, onde havia estudado, e o Brasil parecia uma ilha de estabilidade num mundo cercado de ódio. O nó górdio é que isso ocultou passagens memoráveis do ódio, do preconceito e do ressentimento social presentes também no brasileiro: basta ver os desenhos de Debret, a repressão ao quilombo de Palmares (quando Zumbi foi morto e teve seu pênis amarrado de maneira infame à boca), a própria escravidão de três séculos e meio, a repressão a Canudos e a forma como o arraial foi executado, na Guerra do Contestado em pleno século XX, no fato de que o trânsito brasileiro mata um Vietnã inteiro por ano.

Há mais: gays sofrem violência porque… são gays. Mulheres sofrem violência porque… são mulheres. Nordestinos são chamados de paraíbas quase como um elogio carinhoso, ou como símbolos de sinais preocupantes de perda de seiva de um partido.

Voltando a Leandro Karnal, ele menciona um dos grandes preconceitos da história do Brasil: desconhecemos em nossos registros a expressão “guerra civil”. Guerra civil, lembra Karnal, é coisa de gringo; nós vivemos agitações, jamais guerra civil. Mesmo que o Rio Grande do Sul tenha se separado do Brasil por 10 anos. Mesmo que tenhamos em nossa história eventos como a Cabanagem, a Sabinada, a Balaiada, a Revolução de 1932 de São Paulo, luta armada e torturas praticadas pelo Estado durante a ditadura militar instalada em 1964.

A violência, repita-se, é sempre do outro, nunca a nossa. “É sempre um espanto e inexplicável. Só tem sentido no outro, longe de mim”, lembra Leandro Karnal. Ele ironiza: “Por incrível que pareça somos um povo profundamente pacífico cercado por pessoas violentas longe da minha comunidade, sejam elas cariocas, sertanejos, favelados, nordestinos ou quaisquer outros indivíduos que encarnem a violência contra mim, representante da brasilidade”.

Karnal trabalha com o que os acadêmicos chamam de alteridade: o “nós”. Em outras palavras, a valorização do “eu” em contraponto ao “nós”. Revelar capacidade de enxergar o “nós” é sempre mais difícil. Numa entrevista à revista Insight-Inteligência, alguns anos atrás,  eu e os jornalistas Luiz Cesar Faro e Cláudio Fernandez ouvimos dele a análise:

 “Todas as vezes que somos expostos ao outro, à alteridade, reforçamos a xenofobia, o racismo, o etnocentrismo e um certo darwinismo social. Ou seja: estou evoluindo mais do que o meu vizinho, logo estou mais à frente, sou melhor e mais civilizado. Havendo a ideia de que, entre o dia e a noite, há um período de crepúsculo, é nesse período que as sombras assumem formas fantasmagóricas”.

As sombras em questão são o ódio, a perversidade, a violência, a agressividade, os sentimentos racistas, homofóbicos e misóginos. O ódio, diz Leandro Karnal, é uma rara forma de comunicação universal com o outro, uma tentativa de diálogo. Acrescento: uma ação e uma reação, uma demonstração de superioridade ou inferioridade, poder ou conformação, decadência ou inveja, altivez ou resignação, ofensa ou ressentimento, desespero ou anseio de felicidade. “A natureza humana é violenta e, quando ele tem chance, exerce essa violência através do poder, da comparação cultural e de outras formas de exercício de superioridade. Deixamos à tona uma enormidade de sentimentos agressivos, comparativos racistas e assim por diante”, disse.

Não existe Deus sem o diabo

Mas é assim que alimentamos a nossa identidade. “O ódio é um elemento muito poderoso, que confere identidade”. O preconceito é expressão do ódio, repita-se.

Em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago, há uma passagem na qual o demônio se mostra espantado com tantas atrocidades cometidas na história do cristianismo, em nome de Deus Pai. E Deus diz: não posso ser Deus se não houver o diabo.

Não é por outra razão que as igrejas insistem na ação do demônio. Não há deus sem o diabo; certo sem o errado; esquerda sem a direita; prazer sem a dor; esperança sem o medo. E, em última instância, PT e PSDB não conseguem existir sem o outro.

 

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