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Arquivo de novembro, 2014

quarta-feira, 19 de novembro de 2014 Educação, Literatura | 08:00

Livro traz sedução, brasilidades e os temperos da Bahia de Jorge Amado

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Quando Ana Maria Machado recebeu o convite para ministrar aulas sobre um escritor brasileiro em Oxford, teve de realizar uma decisão entre quatro opções: Machado de Assis, Graciliano Ramos, Clarice Lispector e Jorge Amado. O escolhido foi este último e o resultado da experiência é o livro Romântico, Sedutor e Anarquista, publicado recentemente pela Companhia das Letras.

Romântico, sedutor e anarquista Ana Maria Machado Companhia das Letras 144 páginas, R$ 34,90

Romântico, sedutor e anarquista
Ana Maria Machado
Companhia das Letras
144 páginas, R$ 34,90

Para quem desembarcou agora no mundo da literatura, convém informar: Ana Maria Machado é membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), que presidiu de 2011 a 2013. Tem mais de cem livros publicados, entre romances e ensaios, como Recado do Nome (1976), sobre Guimarães Rosa. É conhecida especialmente pelos livros de literatura infanto-juvenil, tendo recebido o prêmio internacional Hans Christian Andersen pelo conjunto da obra infantil.

O curso na Universidade de Oxford é parte de um acordo entre esta e a ABL. Todo ano um membro da Academia passa um trimestre na universidade inglesa ministrando aulas, palestras e seminários sobre um dos quatro autores que fazem parte do currículo de letras modernas.

Ana Maria Machado comenta a opção por Jorge Amado em seu capítulo “Uma escolha natural”. Foi, na verdade, o segundo nome que passou pela cabeça da autora. O primeiro foi Clarice Lispector, uma mulher, como ela. Vários motivos fizeram-na rejeitar essa opção. Um deles é a divulgação internacional que Clarice já tem no meio acadêmico. Outro, ela confessa, é o universo “opressor e angustiante, pesado e tenso” da obra com a qual teria de conviver.

A autora acabou optando por mergulhar na Bahia e nas brasilidades de Jorge Amado, “em nome do puro prazer”. Ela viu a necessidade de levar a Oxford um escritor brasileiro que não é tão estudado fora do País, diferentemente de Clarice ou Guimarães Rosa. O fato de o autor ter ocupado uma cadeira na ABL também foi levado em consideração.

Machado percebe uma resistência por parte das universidades, nacionais e internacionais, e também no Ensino Médio, para estudar a obra de Jorge Amado.  À Pensata, ela disse notar que o desconhecimento do autor aumentou nos últimos anos. “Já encontrei numa plateia de 72 estudantes de letras a surpreendente constatação de que nenhum deles, jamais, havia lido Jorge Amado”, contou.

Seu livro levanta algumas possíveis explicações para essa rejeição. Entre elas, estão acusações sobre um conteúdo machista e às vezes racista em sua obra. A autora refuta essas críticas com exemplos de personagens, como Grabriela (Grabriela, Cravo e Canela) e Tieta (Tieta do Agreste), que, longe de serem mulheres oprimidas, são senhoras de seus próprios desejos, destacando a força do feminino.

Quanto à discussão sobre racismo, alguns leitores criticam, por exemplo, o fato de Pedro, líder do grupo em Capitães de Areia, ser o único louro. Ou o fato de Dona Flor morrer de amores por Vadinho, louro. Machado trata esses personagens e a relação que mantêm entre si como fruto da miscigenação. “Os sangues misturados são o milagre maior que Jorge Amado celebra”, afirma, em seu livro.

Na experiência em Oxford, os alunos são expostos a uma literatura não muito conhecida por eles. “Foi uma descoberta empolgante, mais que uma leitura crítica”, diz. Além disso, ela conta que o livro teve uma recepção animada por Zélia Gattai, esposa de Jorge Amado.

 

Anarquia e Romantismo

Machado levanta uma série de rótulos sob os quais Jorge Amado foi classificado e que teriam contribuído para gerar mal entendidos, como “proletário”, “realista”, “socialista” e “revolucionário”.

A escritora carioca Ana Maria Machado. Foto: Bruno Veiga

A escritora carioca Ana Maria Machado. Foto: Bruno Veiga

Para o crítico José Maurício Gomes de Almeida, Jorge Amado tem aproximação muito maior com o anarquismo do que com outros rótulos que já recebeu, um anarquismo de raiz romântica. “O herói de Jorge Amado é um rebelde que não admite os mecanismos repressores da sociedade”, diz Almeida, citado no livro.

E em meio a esses rótulos, Machado percebeu que a maioria dos leitores de Amado tinha um livro preferido do autor na ponta da língua. É o que ela relata no capítulo “Qual é o seu Amado?”. A autora propôs a pergunta a conhecidos e, durante meses, questionava os públicos de suas palestras e colhia o resultado.

Algumas respostas foram óbvias, como defensores do socialismo preferirem os livros da época em que Amado era do Partido Comunista, e adolescentes escolherem as obras em que o erotismo está mais presente. Outras preferências não foram tão previsíveis, como o executivo que se espelha em Tieta do Agreste ou o militante de esquerda que admira os coronéis do cacau em Terras do Sem-Fim.

Machado também tem seu Amado favorito: Tenda dos Milagres, obra à qual ela dedica todo o seu último capítulo, discutindo a mistura de raças e de credos que o autor colocou nesse livro.

 

Carnaval e sedução

A sedução é um elemento que permeia as obras de Jorge Amado, em diferentes gradações. Está em personagens como Tieta e Gabriela, que exalam erotismo em cada capítulo. Está na sedução recatada de Lívia, a mulher de família que espera pelo marido em “Mar Morto”. Está no cortiço de “Suor”. Está no amor que se aprende na rua em “Capitães de areia”. Está nos sabores da Bahia que Dona Flor ensina, apesar das tristezas.

Machado discute a “sociedade carnavalizante” que Jorge Amado propôs, baseada na amizade e igualdade social, sem se esquecer do erotismo e do bom humor. Esse aspecto da obra de Amado recebeu comentários ácidos de críticos que acreditavam que o autor havia esquecido o engajamento com o socialismo e teve uma “súbita conversão capitalista”, passando a pintar uma Bahia de cartão-postal povoada por mulatas sensuais.

A carnavalização, para o antropólogo Roberto DaMatta, ocorre em Jorge Amado a partir do momento em que heróis idealizados e exemplares dão lugar a heróis marginais, movidos pela amizade, pelo amor à vida e pela luta contra os preconceitos da elite. Seria, dessa forma, não uma falta de engajamento, mas uma mudança de perspectiva, novas cores sobre os mesmo problemas sociais. A carnavalização é uma espécie de “utopia amadiana”.

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terça-feira, 18 de novembro de 2014 Jornalismo, Literatura | 10:02

Em “Nem a morte nos separa”, jornalista retrata a luta do seu filho contra o câncer

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Num dia você está no paraíso ao lado de seu filho de 21 anos. No outro, mergulha nas sombras, de mãos atadas, sem poder salvar-lhe a vida. O que fazer diante do desespero aterrador frente ao sofrimento do garoto? No livro Nem a morte nos separa, o jornalista Ricardo Gonzalez relata a experiência do calvário vivido ao lado do filho – dez meses entre a descoberta do câncer, as errâncias médicas, o doloroso tratamento e a morte de Rafael, um soberbo garoto de 21 anos que encarou a doença com a maturidade e a racionalidade de poucos. Gonzalez lança e autografa seu livro hoje, terça-feira, na livraria Argumento, do Leblon, zona sul do Rio, a partir das 18h.

Nem a morte nos separa Ricardo Gonzalez Editora Mauad 232 páginas, R$ 54

Nem a morte nos separa
Ricardo Gonzalez
Editora Mauad
232 páginas, R$ 54

Um dos mais talentosos e éticos jornalistas esportivos do País, com passagem pelas principais redações brasileiras (entre as quais O Globo, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo e O Dia), Ricardo Gonzalez é hoje editor de texto do canal SporTV. Boa praça, ele consegue exibir simultaneamente a altivez aguerrida de um espanhol e a emotividade esparramada e sensível de um brasileiro. E o faz com galhardia e beleza tanto numa redação, onde colecionou uma pletora de amigos, quanto no livro que acaba de lançar. Das duas formas, tocante.

Com orelha assinada por Lucinha Araújo, a incansável mãe de Cazuza, Nem a morte nos separa é um livro a ser lido com o coração na mão. São “bytes de dor”, na feliz expressão com que Lucinha encerra seu texto de apresentação do livro, capazes de amolecer os leitores mais empedernidos, pais presentes ou futuros. Lucinha lembra:

“Existem aqueles que se trancam dentro da dor, como João meu marido fez, e os que vasculham os escombros à procura dos vestígios de um futuro que se foi. Encontrei no relato de Ricardo Gonzalez a mesma perplexidade, dor, desespero e incredulidade com os quais convivo. Ele descreve como seu mundo foi ruindo como um terremoto. O medo inicial, o momento em que tudo parece parar e tentamos fazer um balanço dos estragos e, quando nos damos contato, a casa cai sobre nossa cabeça. Os sintomas, as idas a vários médicos que viram num jovem de 21 anos gânglios nada preocupantes, a falta de diagnóstico, o dia em que encontrou o filho numa emergência médica sentado numa cadeira de rodas, o diagnóstico de câncer e a perda.”

A saudade

A perda – essa é profunda, e Gonzalez não teme retratá-la em seu sentido mais pleno nas 232 páginas que compõem o livro. Impossível não recordar a máxima eternizada por Chico Buarque na música “Pedaço de mim”, em que ele oferece talvez a definição mais precisa da palavra saudade – curiosamente esta palavra que só existe na língua portuguesa (Gonzalez tem origem espanhola). “A saudade”, escreveu Chico, “é arrumar o quarto do filho que já morreu”.

Rafael, o filho do jornalista, morreu de câncer linfático, aos 21 anos de idade, em 2010. É um câncer que ataca brutalmente o sistema imunológico do paciente. Como lembra o autor, trata-se de uma doença perversamente democrática: não escolhe endereço, nem classe social, cor, gênero ou idade. Em várias passagens do livro, o autor e pai revela sua perplexidade e inconformismo com a iminência da morte do filho tão jovem, com uma vida inteira para ser vivida.

Hoje deve passar-lhe pela cabeça outro verso, de Fernando Pessoa, que se refere a uma “saudade imensa de um futuro melhor”. A “saudade do futuro” deve ser mais dolorosa quando o futuro era mais futuro, sobretudo quando pai e filho exibiam um amor e uma amizade especiais, o tipo de dupla que se comunica até mesmo sem palavras, em gestos entregues num “amor infinito”, como define o autor.

Amor infinito

Não é filosofia paterna barata, convém esclarecer. Um dos maiores filósofos da atualidade, o francês Luc Ferry, enxerga esse tipo de entrega como um novo humanismo para o século XXI, dando ao amor um sentido central na existência. Segundo ele, muitos homens já sacrificaram suas vidas em guerras em nome de Deus, da nação, da revolução, da liberdade. Mas poucos morreriam hoje – pelo menos no mundo Ocidental – por Deus, pela pátria ou pela democracia. São ideais que no passado deram sentido à vida mas que hoje estão em declínio. Ainda é possível, porém, morrer por alguém que se ama.

Pergunte a um pai ou uma mãe verdadeiramente ligado a um filho ou uma filha se preferiam estar no seu lugar na hora do encontro com a morte.

Não por outra razão, talvez, Gonzalez escreveu o livro com dois veios. De um lado, como uma homenagem a Rafael; de outro, como um grito de alerta a outros pais. Como quem diz: amem seus filhos o máximo que possam. Entreguem-se. Antecipem-se à dor deles. Pois o fim de tudo pode estar no minuto seguinte.

Travessia

Nem a morte nos separa é um livro tocante, mas há passagens difíceis de atravessar. Chora-se junto com seus protagonistas. Como no momento em que os pais, desesperados, são consolados pelo filho doente e racional.

Choca-se e se revolta também, ao acompanhar a incrível passagem em que um residente do “hospital cinzento” – como a família chama o hospital – é escalado para informar mãe e filho da desistência de prosseguir adiante no tratamento quimioterápico.

Emociona-se e chega-se à torcida inútil pela cura, quando vão a São Paulo para uma derradeira tentativa junto a um médico competente e arrogante.

Desaba-se no momento da partida.

Exaure-se.

E se você tiver um filho, interrompa o quanto antes a leitura – na dúvida, para aproveitar sua companhia mais um pouco antes de voltar ao trabalho. Afinal, como o livro de Ricardo Gonzalez nos mostra, o tempo, assim como a saudade e o amor, podem ser encantadores, mas às vezes revelam-se angustiantes.

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