Publicidade

terça-feira, 18 de novembro de 2014 Jornalismo, Literatura | 10:02

Em “Nem a morte nos separa”, jornalista retrata a luta do seu filho contra o câncer

Compartilhe: Twitter

Num dia você está no paraíso ao lado de seu filho de 21 anos. No outro, mergulha nas sombras, de mãos atadas, sem poder salvar-lhe a vida. O que fazer diante do desespero aterrador frente ao sofrimento do garoto? No livro Nem a morte nos separa, o jornalista Ricardo Gonzalez relata a experiência do calvário vivido ao lado do filho – dez meses entre a descoberta do câncer, as errâncias médicas, o doloroso tratamento e a morte de Rafael, um soberbo garoto de 21 anos que encarou a doença com a maturidade e a racionalidade de poucos. Gonzalez lança e autografa seu livro hoje, terça-feira, na livraria Argumento, do Leblon, zona sul do Rio, a partir das 18h.

Nem a morte nos separa Ricardo Gonzalez Editora Mauad 232 páginas, R$ 54

Nem a morte nos separa
Ricardo Gonzalez
Editora Mauad
232 páginas, R$ 54

Um dos mais talentosos e éticos jornalistas esportivos do País, com passagem pelas principais redações brasileiras (entre as quais O Globo, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo e O Dia), Ricardo Gonzalez é hoje editor de texto do canal SporTV. Boa praça, ele consegue exibir simultaneamente a altivez aguerrida de um espanhol e a emotividade esparramada e sensível de um brasileiro. E o faz com galhardia e beleza tanto numa redação, onde colecionou uma pletora de amigos, quanto no livro que acaba de lançar. Das duas formas, tocante.

Com orelha assinada por Lucinha Araújo, a incansável mãe de Cazuza, Nem a morte nos separa é um livro a ser lido com o coração na mão. São “bytes de dor”, na feliz expressão com que Lucinha encerra seu texto de apresentação do livro, capazes de amolecer os leitores mais empedernidos, pais presentes ou futuros. Lucinha lembra:

“Existem aqueles que se trancam dentro da dor, como João meu marido fez, e os que vasculham os escombros à procura dos vestígios de um futuro que se foi. Encontrei no relato de Ricardo Gonzalez a mesma perplexidade, dor, desespero e incredulidade com os quais convivo. Ele descreve como seu mundo foi ruindo como um terremoto. O medo inicial, o momento em que tudo parece parar e tentamos fazer um balanço dos estragos e, quando nos damos contato, a casa cai sobre nossa cabeça. Os sintomas, as idas a vários médicos que viram num jovem de 21 anos gânglios nada preocupantes, a falta de diagnóstico, o dia em que encontrou o filho numa emergência médica sentado numa cadeira de rodas, o diagnóstico de câncer e a perda.”

A saudade

A perda – essa é profunda, e Gonzalez não teme retratá-la em seu sentido mais pleno nas 232 páginas que compõem o livro. Impossível não recordar a máxima eternizada por Chico Buarque na música “Pedaço de mim”, em que ele oferece talvez a definição mais precisa da palavra saudade – curiosamente esta palavra que só existe na língua portuguesa (Gonzalez tem origem espanhola). “A saudade”, escreveu Chico, “é arrumar o quarto do filho que já morreu”.

Rafael, o filho do jornalista, morreu de câncer linfático, aos 21 anos de idade, em 2010. É um câncer que ataca brutalmente o sistema imunológico do paciente. Como lembra o autor, trata-se de uma doença perversamente democrática: não escolhe endereço, nem classe social, cor, gênero ou idade. Em várias passagens do livro, o autor e pai revela sua perplexidade e inconformismo com a iminência da morte do filho tão jovem, com uma vida inteira para ser vivida.

Hoje deve passar-lhe pela cabeça outro verso, de Fernando Pessoa, que se refere a uma “saudade imensa de um futuro melhor”. A “saudade do futuro” deve ser mais dolorosa quando o futuro era mais futuro, sobretudo quando pai e filho exibiam um amor e uma amizade especiais, o tipo de dupla que se comunica até mesmo sem palavras, em gestos entregues num “amor infinito”, como define o autor.

Amor infinito

Não é filosofia paterna barata, convém esclarecer. Um dos maiores filósofos da atualidade, o francês Luc Ferry, enxerga esse tipo de entrega como um novo humanismo para o século XXI, dando ao amor um sentido central na existência. Segundo ele, muitos homens já sacrificaram suas vidas em guerras em nome de Deus, da nação, da revolução, da liberdade. Mas poucos morreriam hoje – pelo menos no mundo Ocidental – por Deus, pela pátria ou pela democracia. São ideais que no passado deram sentido à vida mas que hoje estão em declínio. Ainda é possível, porém, morrer por alguém que se ama.

Pergunte a um pai ou uma mãe verdadeiramente ligado a um filho ou uma filha se preferiam estar no seu lugar na hora do encontro com a morte.

Não por outra razão, talvez, Gonzalez escreveu o livro com dois veios. De um lado, como uma homenagem a Rafael; de outro, como um grito de alerta a outros pais. Como quem diz: amem seus filhos o máximo que possam. Entreguem-se. Antecipem-se à dor deles. Pois o fim de tudo pode estar no minuto seguinte.

Travessia

Nem a morte nos separa é um livro tocante, mas há passagens difíceis de atravessar. Chora-se junto com seus protagonistas. Como no momento em que os pais, desesperados, são consolados pelo filho doente e racional.

Choca-se e se revolta também, ao acompanhar a incrível passagem em que um residente do “hospital cinzento” – como a família chama o hospital – é escalado para informar mãe e filho da desistência de prosseguir adiante no tratamento quimioterápico.

Emociona-se e chega-se à torcida inútil pela cura, quando vão a São Paulo para uma derradeira tentativa junto a um médico competente e arrogante.

Desaba-se no momento da partida.

Exaure-se.

E se você tiver um filho, interrompa o quanto antes a leitura – na dúvida, para aproveitar sua companhia mais um pouco antes de voltar ao trabalho. Afinal, como o livro de Ricardo Gonzalez nos mostra, o tempo, assim como a saudade e o amor, podem ser encantadores, mas às vezes revelam-se angustiantes.

Autor: Tags: , , , , ,

14 comentários | Comentar

  1. 64 Lúcia 26/11/2014 0:25

    Bom… posso avaliar um pouco a dor desse pai. Minha filha acabou de fazer 23 anos dia 23/11. Estávamos com passagens compradas pra NY, mas um dia antes descobrimos que ela está com essa doença, mas precisamente no dia 04/09. Uma doença silenciosa, que nos pegou de surpresa. Minha filha cheia de vida, alegria, sonhos, tinha acabado de trocar de emprego e terminado a faculdade, teve que dar uma parada em td pra tratar de uma doença que adoece toda a família. Tem um poder de destruição assustador. Mas graças a Deus, que tudo pode, ela foi encaminhada a profissionais sérios,comprometidos e humanos, que cuidam muito bem dela e estamos seguindo rumo a vitória. A minha sugestão é que nunca percamos a fé, o otimismo, o sorriso… A dor foi muito grande qd descobrimos esse tal linfoma não hodgkin de grandes células B. Que nome é esse? Mas qd soubemos que há chance de cura, nunca duvidamos que ela será curada. Laura nunca deixou de sorrir, o irmão raspou a cabeça dela em nossa cs, e eles se divertiram um tanto, até chegar a raspar toda a cabeça. Uma menina que tinha o cabelão loiro, hj está feliz com a cabeça raspada. Tô escrevendo aqui e me passa um filme, destes quase 3 meses. Meus caros, nada nessa vida dói mais que uma doença dessa em um filho, avalio a dor de todos que perderam pai, mãe, irmãos pra essa doença, mas nada supera a dor de se ter um filho passando por isso. Eu sempre soube o quanto amo minha filha e agora eu descobri a dimensão desse amor. Um amor que supera a dor e que nos fortalece. Abraço a todos! Se quiserem curtir o blog continuarsorrindo, vão encontrar a minha Laura e outras lindas meninas lá.

  2. 63 Antonia Lúcia Guilhen Mázaro 24/11/2014 12:12

    Perder um filho é diferente de qualquer perda, é como achar a morte, porque nesse momento invertem a ordem natural das coisas, dá um desânimo dilacerante no coração da gente, perdi uma filha pequena, por isso considero ainda que a dor desse jornalista é proporcionalmente diferente da minha, porque quanto mais se vive com o filho, mais se cria expectativas sobre ele. E como diz Chico Buarque, em sua canção “… a saudade é pior castigo…” . Vou acumular forças para ler o livro.

  3. 62 Luciene 18/11/2014 21:02

    Tbm estou na estatística de ter perdido alguém para essa doença dilacerante. Meu paizinho querido se foi há 6 meses. Diante do descaso dos médicos, a frieza, que nos deixa impotentes .
    Dói, não tinha idéia dessa dor, essa angústia, o buraco que corrói o coração.
    Partilho da mesma opinião da Regina, como pode as farmacêuticas nao se empenharem a descobrir a cura deste mal??? Infelizmente deve ter dinheiro envolvido e a cura descoberta por pessoas de bem, eh barrada por algozes ambiciosos . Deus nos proteja e de forças a todos que passam por esta fase .

  4. 61 carlos campos 18/11/2014 18:48

    Só de saber da morte de um garoto de 21 anos ,dá um nó na garganta ,, por isso mesmo não vou ter coragem de ler este livro.
    Eu perdi uma das minhas irmãs a semana passada por causa desta doença e ainda me dá um aperto no coração lembrar dos momentos que passamos juntos , sua risada ,sua alegria de viver,e ela já tinha 78 anos , por isso a dor do autor não deve ter tamanho .
    Que o autor e todos os demais que deram seus comentários , tenham conforto em seus corações e saibam que os entes queridos que se foram estão dormindo ,nada sofrendo , com seus espiritos retomados por Deus , que com certeza nos dará forças para continuarmos com nossas vidas.

  5. 60 Edisom Mendonça Zepherino 18/11/2014 18:37

    Ha cinco anos meu filho Edilson foi diagnosticado com um cancer de tronco celebral. Tambem procuramos varios medicos, e a resposta era sempre a mesma. Ele iria morrer, ficar tetraplegico
    ou com muitas sequelas. Descobrimos em São Paulo um neurocirurgiâo que se propós a opera-lo. Ai vem mais um problema o convenio não cobre esse tipo de cirurgia. Mas como existe Deus, tudo deu certo e apos tres cirurgias meu filho esta curado e levando uma vida normal. portanto quem esta passando por esse problema não desista, enquanto houver vida ha esperança

  6. 59 Patricia 18/11/2014 17:29

    Essa doença dilacera a vida das pessoas, digo isso porque faz 5 meses que perdi a minha mãe com câncer no pâncreas. Foi tudo muito rápido e está sendo um processo muito difícil para mim porque eramos muito unidas. Todos falam que só o tempo ameniza, mas a verdade é que neste momento me falta equilibrio emocional para suportar a dor da perda.

    • patricia 19/11/2014 7:53

      Patrícia, ninguém nunca está preparado para perder uma mãe, pai, irmãos, mas o curso natural da vida é esse. Sei que palavras não adiantam neste momento de dor, mas viva esta dor em toda a sua intensidade e com a certeza que a amou demais, enquanto ela estava aqui! Agora você precisa continuar… sem ela fisicamente presente, mas, pra sempre em suas lembranças e no coração. Um abraço!

    • joseph sakr 18/11/2014 17:56

      Querida Patricia, também perdi a minha mâe para esta terrível doença em fevereiro deste ano após uma luta inglória…. sei exatamente o que você está passando…. mas lembre-se que a maior homenagem que podemos prestar às nossas amadas mâes que tanto se sacrificaram por nós é sermos felizes! Procure viver a sua vida com alegria e siga os principios elevados que certamente ela lhe ensinou! Quanto ao livro… nâo vou ter coragem de ler, tenho um filho de dois anos e oito meses e todas as noites em minhas orações peço para que Deus me leve antes dele….

  7. 58 Lea Rocha 18/11/2014 17:05

    Minha mãe enfartou; eu tinha 10 anos. Engraçado como passei o dia com ela; faleceu às 22 horas e antes de 24 horas, tudo havia se acabado…estava morta e enterrada e tudo se acabou…minha vida…minha alegria…meu tudo…Meus pêsames a todos que perderam um ente querido.

  8. 57 rita de cacia da silva 18/11/2014 16:54

    é muito amarga essa triste provação, eu não tenho nem palavras para poder me expressar diante de um fato desse. mais como eu sou espírita…. acredito que esse garoto cumpriu sua linda missão e voltou para sua verdadeira casa…. o dificil é uma pessoa que não é espírita entender….Espero que Jesus e os bons espiritos console esse pai e essa mãe. um beijo.

  9. 56 Regina 18/11/2014 15:33

    Faz 6 meses que perdi a minha mãe para o câncer linfático, vimos no auto transplante a cura mas foi justo ai que a perdemos mais depressa…Como pode cientistas fazerem um robô pousar num cometa e não conseguem achar uma vacina ou um remédio para a cura do câncer? Doença que leva os nossos queridos e nos deixa com o coração sangrando para sempre.

  10. 55 cristiane henriques da silva 18/11/2014 15:04

    Perdi minha mãe há 11 anos, para um cancer de mama que muito rapidamente se alastrou por outras partes do corpo, é realmente muito triste vc perceber que não se pode controlar uma doença tão agressiva , pois em casos de diabetes , pressão alta, colesterol vc pode tentar amenizar os sintomas e seguir as recomendações médicas para controlar o avanço , mas no cancer se não houver uma resposta satisfatória aos tratamentos de quimio e radio, a situação foge rapidamente do controle, no caso da minha mãe foram aprox. 2 anos e 7 meses de luta.
    Mas ficou a certeza de que ela lutou com todas as forças e fez todos os procedimentos que foram recomendados e que Deus esteve com ela e conosco a cada minuto desta batalha. Fica aqui o meu desejo de que as pessoas que estão passando por situação semelhante possam buscar todo o possivel da medicina e o impossivel de Deus. Vou procurar este livro, quero lê-lo . Grande abraço a tosos…

  11. 54 Vera Kruel 18/11/2014 15:01

    Não existe dor maior que vermos a pessoa que amamos definhar levando junto nossas últimas esperanças. Meu Deus, como dói.

  12. 53 andrea 18/11/2014 13:25

    Sabemos que aceitar dói menos…mas como é difícil esta missão.
    Seguir adiante e manter a fé é o caminho.Aproveitemos nosso tempo sem desperdiçar energia com medo ou dúvidas, junto aos familiares é sempre um aprendizado.

  13. 52 ELIANA MARIA GOULART PEREIRA 18/11/2014 12:15

    FAZ DOIS ANOS QUE MEU AMADO MARIDO MORREU DE CONCER,HOJE A TRISTEZA TOMA CONTA DE MIM E DOS MEUS FILHOS.QUANTA SAUDADE COMO QUERIAMOS TE ABRACAR MAS UMA VEZ .ESSA DOENCA E MUITO TRISTE ,PRINCIPALMENTE QUANDO LEVA AS PESSOAS MUITO JOVEM.UM ABRACO A TODAS AS FAMILIAS QUE PERDERAM UMA ENTE QUERIDO.VOU LER ESSE LIVRO.

  14. 51 Denise 18/11/2014 12:05

    Como sobreviver a tamanha dor,como se deixar o tempo tentar amenizar a dor,a inexistência física de quem amamos muito

  1. ver todos os comentários

Os comentários do texto estão encerrados.