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Arquivo de dezembro, 2014

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014 Economia, Filosofia, História, Jornalismo, Literatura, Poesia, Política, Tecnologia | 14:03

Os melhores livros de 2014 (numa lista sem Chico Buarque)

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Todo ano o ciclo se repete. Com a mesma regularidade das fatalidades habituais de verão, somos induzidos nesta época a eleger aqueles que deverão ser conduzidos ao panteão dos melhores do ano – no cinema, na literatura, nas artes em geral, nos fatos e ideias que marcaram os 12 intensos e exaustivos meses precedentes. É como o surgimento de goteiras nos prédios de Oscar Niemeyer: a única dúvida é saber exatamente onde e como aparecerão. Mas elas surgirão, é fato.

A coluna sucumbe aos clichês e elege também os seus. Como os mais conhecidos prêmios literários do Brasil, Pensata cria categorias convenientes para caber suas obras de preferência e adequar seus gostos. Como qualquer lista do gênero, a única coisa que lhe falta é isenção. Os leitores estão convocados, portanto, a se pronunciar, criticar, acrescentar, apontar ausentes e argumentar em defesa dos injustiçados e esquecidos.

Nelson Rodrigues dizia que a nossa reputação é a soma dos palavrões que inspiramos nas esquinas, salas e botecos. Se fosse vivo, provavelmente completaria sua tese: e nos comentários dos internautas nos blogs, sites e portais. O silêncio, neste caso, poderá significar a concordância coletiva – o pior defeito de qualquer lista dos “melhores do ano”.

 

1. LIVRO DO ANO – FICÇÃO
Graça Infinita, de David Foster Wallace  (Companhia das Letras)

Graça infinita David Foster Wallace Companhia das Letras 1144 páginas R$ 111,90

Graça infinita
David Foster Wallace
Companhia das Letras
1144 páginas
R$ 111,90

Graça infinita é o livro do ano em qualquer categoria. Uma obra de superlativas: são quase mil páginas, 130 das quais composto por notas explicativas (ou disruptivas), uma trama vertiginosa, radical, bem humorada e sarcástica, uma edição caprichada e estranha que sequer traz o título na capa, num belo trabalho da Companhia das Letras: somente uma caveira com olhos de rolo de filme na capa, enquanto nas laterais abóbora das páginas, gravados em branco, aparecem os nomes da obra e do autor. Um visual enigmático como o autor e seu mais ambicioso romance.

David Foster Wallace lançou Infinite Jest em 1996, 12 anos antes de se suicidar, aos 46. Ganha tradução no Brasil, portanto, apenas duas décadas depois, num trabalho excepcional de Caetano W. Galindo, tradutor também de James Joyce. Nesse período, o livro tornou-se um marco das obras cultuadas pelo mundo pop (ou não. Apesar do tamanho e da complexidade, ganhou admiradores por todos os lados.

A narrativa gira em torno de um filme, com o mesmo título original, que promova um comportamento compulsivo a qualquer um que o assista. A ambiguidade de “jest” no título em inglês – piada ou divertimento – indica o alvo: assistir a esse filme dá tanto prazer que os espectadores não podem parar de vê-lo, e todas as demais atividades da vida deixam de fazer sentido, o que acaba levando-os à morte. (Há quem considerasse mais preciso ao título em português Piada Infinita, e não “graça”, dada a natureza “divina” do outro significado desta palavra no português, mas essa é uma controvérsia que não macula o excepcional trabalho do tradutor.)

Essa é a síntese do hedonismo contemporâneo: o hedonismo da mera sensação, cujos personagens fissurados levam a vida humana ao extremo da miserabilidade ética; uma vida de vícios, excessos e comportamentos aditivos, incluindo drogas, sexo e trabalho, tudo no superlativo; uma acumulação infinita de vertigens destrutivas; uma era de saturação e consumo desmedido; um tempo em que o tudo se equivale ao nada. Um prazer desconectado dos outros e do mundo. Um prazer sem prazer.

David Foster Wallace explora esse abismo em grandiosidade narrativa e transforma isso em literatura de alto nível. A melhor do ano.

 

2. LIVRO DO ANO – NÃO-FICÇÃO
O capital no século XXI, de Thomas Piketty (Intrínseca)

O capital no século XXI Thomas Piketty Intrínseca 672 páginas R$ 59,90

O capital no século XXI
Thomas Piketty
Intrínseca
672 páginas
R$ 59,90

Thomas Piketty atiçou o debate econômico do ano e possivelmente da década. Dificilmente se verá no curto prazo a súbita ascensão de um texto de 800 páginas à condição de best-seller com tamanho destaque nos círculos acadêmicos e não-acadêmicos como este francês recebeu este ano com seu O Capital no século XXI, publicado no Brasil pela Intrínseca. Seu estudo sobre a concentração de riqueza e a evolução da desigualdade ganhou manchetes, gerou debates nas redes sociais, colheu comentários, críticas e elogios de diversos ganhadores do Prêmio Nobel. Não ganhou unanimidade. Mas não fez pouco.

Resultado de 15 anos de pesquisas, o livro mostra com elegância e clareza que o mundo entrou numa espiral de concentração de renda. As pessoas e os países ficarão mais ricos. Para as nações emergentes, inclusive o Brasil, suspeita-se que crescerão a taxas menores. Segundo O Capital, o mundo caminha rumo a um capitalismo de maior acumulação de renda, numa trajetória explosiva de desigualdade fora de controle.

Piketty ainda desmonta um dos mitos mais amados pelos conservadores contemporâneos: a tese de que o mundo desenvolvido vive uma meritocracia, na qual grandes fortunas são conquistadas e merecidas. Segundo ele, a maior parte dos bilionários atuais têm fortuna herdada. Como lembrou em recente entrevista ao repórter Vitor Sorano,  do iG, chegar ao topo apenas com o trabalho está ficando cada vez mais difícil. E sublinhou o que chamou de ridícula taxação sobre herança. Para ele, os ricos brasileiros pagam imposto muito baixo.

Livro a ser lido como quem lê um polemista à la Marx (sem ser marxista) e um literato que cita Balzac e Jane Austen.

O que Pensata escreveu:
Por que os bilionários são odiados 

Para ler mais no iG:
Ricos brasileiros pagam imposto bastante baixo e taxação sobre herança é ridícula, afirma Piketty

 

3. BIOGRAFIA
Getúlio, de Lira Neto (Companhia das Letras)

Getúlio 3 (1945-1954) Lira Neto Companhia das Letras 464 páginas R$ 49,50

Getúlio 3 (1945-1954)
Lira Neto
Companhia das Letras
464 páginas
R$ 49,50

O primeiro volume saiu em maio de 2012, o segundo no ano seguinte, e a trilogia chegou ao fim em 2014, encerrando um trabalho de cinco anos de pesquisas do jornalista e escritor Lira Neto. Foi o menos relevante da série, mas Pensata o inclui na lista pela obra completa. Das cartas pessoais e diários íntimos, que compuseram o retrato minucioso dos anos de formação e da conquista do poder no primeiro volume, até a narrativa bem montada no terceiro volume, descrevendo os tempos conturbados que levaram Getúlio ao suicídio, Lira Neto realizou um trabalho primoroso, com o apoio do marketing profissionalíssimo da Companhia das Letras. Com a conveniência da efeméride completada em agosto de 2014: os 60 anos da morte do mais importante político brasileiro de todos os tempos.

Autor de outras biografias relevantes, como a de Maysa, Castello Branco, Padre Cícero e José de Alencar, Lira Neto conseguiu ainda outro feito: o que a turma do marketing costuma chamar de “mídia espontânea” – um sem-número de gente importante citando sua série ou sendo vista carregando um de seus volumes. Da presidente Dilma Rousseff ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Só ficaram amuados mesmo os mal-humorados, os invejosos e os ranhetas que esperam uma novidade a cada página nas biografias. Nas quase 2 mil páginas que publicou nos três volumes, Lira Neto traz muitas novidades, algo notável para um personagem exaustivamente radiografado como Getúlio Vargas. E adicionou a elas uma incrível capacidade de contar histórias.

Leia mais no iG:
Os vários getúlios de Lira Neto

Lira Neto: “Quem diz que todo político é ladrão propõe sem saber a ditadura” 

 

4. NÃO-BIOGRAFIA
O réu e o rei, de Paulo Cesar de Araújo (Companhia das Letras)

O réu e o rei Paulo Cesar de Araújo Companhia das Letras 528 páginas R$ 34,50

O réu e o rei
Paulo Cesar de Araújo
Companhia das Letras
528 páginas
R$ 34,50

Foi um gesto audacioso e genial, tanto do autor quanto de sua editora. Depois de ter a biografia Roberto Carlos em detalhes (Planeta) barrada na Justiça por ação de quem chamamos de Rei, obra retirada das livrarias em 2007, e passar alguns anos em batalha judicial pela publicação, eis que o jornalista Paulo César Araújo publica pela Companhia das Letras um livro em que conta os bastidores do processo. Lançado sem alarde, O réu e o rei é um relato objetivo, minucioso e corajoso da saga que levou à discricionária e imoral proibição da biografia de Roberto Carlos.

No livro, narra como virou fã do Rei, quando, aos 11 anos de idade, vestiu sua roupa domingueira e foi ao estádio em Vitória da Conquista, na Bahia, onde Roberto Carlos faria o primeiro show na cidade. Garoto pobre, Paulo Cesar de Araújo não tinha os 10 cruzeiros do ingresso. Ficou rondando o lugar, na esperança de conseguir uma brecha e entrar. Pouco antes do show, um simpático porteiro deixou os moleques negros e sem camisa que andavam por ali. Araújo, porém, foi barrado. Era branco e bem vestido. Tinha cara de quem poderia pagar.

O autor esmiúça os autos dos processos montados contra ele, e trata de tentar demonstrar imprecisões e distorções. E, no mais dramático capítulo do livro, reconstitui a tarde que passou frente a frente com Roberto Carlos, em um fórum de São Paulo. Abandonado por seus editores da Planeta e pressionado por seus advogados, aceitou assinar um acordo que bania Roberto Carlos em detalhes das livrarias.

Para a sorte de todos, sobretudo dos leitores, o Rei e seus advogados não resolveram barrar na Justiça mais este.

 

5. POLÍTICA
As ideias conservadoras, de João Pereira Coutinho  (Três Estrelas)

As ideias conservadoras João Pereira Coutinho Três Estrelas 200 páginas R$ 25,00

As ideias conservadoras
João Pereira Coutinho
Três Estrelas
200 páginas
R$ 25,00

Num país habituado a ter nos representantes da direita exemplos de desonestidade intelectual (Marco Antonio Villa), truculência (Reinaldo Azevedo), baixo índice de humanismo (Rodrigo Constantino), humor para não ser levado tão a sério (Luiz Felipe Pondé) e radicalismo típico de quem já foi um esquerdista radical (Demétrio Magnoli), nada como um bom livro de um conservador elegante, intelectualmente honesto, humanista e amigável cientista político.

As ideias conservadoras, de João Pereira Coutinho, apresenta-se com o subtítulo “Explicadas a revolucionários e reacionários” e, como tal, dirige-se aos profetas do pensamento de esquerda. Seguidor de Edmund Burke – onipresente nas breves 120 páginas do livro – o Coutinho mostra, com acerto, os equívocos do reacionarismo de esquerda e dos ditos revolucionários; descreve, sem afetação, o valor dos conservadorismos e sua doutrina em favor da preservação do que a sociedade criou de melhor para garantir a paz, a liberdade dos cidadãos e o vigor das instituições.

É um sopro a seus colegas em versão brasileira (Coutinho é português) e contra radicalismos crescentes à direita e à esquerda. Convém lembrar-lhes (inclusive a Coutinho): há conservadores e radicais de lado a lado; autoritários, idem. Este livro, porém, reforça a ideia, pregada pela revista Insight-Inteligência no verão de 2011, quando entrevistei o cientista político Luiz Felipe d’Ávila – um dos poucos cientistas políticos brasileiros de alma conservadora (na linguagem política brasileira: liberal, ou de direita) bem oxigenada. Ali, a revista defendia em editorial uma direita necessária ao Brasil – não oligárquica, não corrupta, não covarde, não mentirosa, não golpista.

Afinal, antagonismos de qualquer espécie se saudáveis, ajudam a mover a história. O vigor da democracia, dizia o mesmo editorial, é sua capacidade de racionalizar e controlar, em molduras legais, a violência da disputa entre ideias, homens e partidos. Sem antagonismos, é democracia pela metade, se muito.

João Pereira Coutinho (como Luiz Felipe d’Ávila) mostra o quão interessantes são os antagonismos de ideias.

 

6. TECNOLOGIA
Os inovadores, de Walter Isaacson (Companhia das Letras)

Os inovadores Walter Isaacson Companhia das Letras 568 páginas R$ 57,00

Os inovadores
Walter Isaacson
Companhia das Letras
568 páginas
R$ 57,00

Este é um livro sobre nerds. Mas dirigido não só a nerds. É a graça da maestria de Walter Isaacson, o biógrafo de Steve Jobs, e sua capacidade de contar histórias de personagens que ajudaram a moldar a revolução digital. Os inovadores – Uma biografia da revolução digital vai além dos nerds porque, no fundo, explica nossa relação com computadores e nos faz entender como a tecnologia chegou até aqui em softwares e internet.

Fruto de 15 anos de pesquisas – interrompidas para produzir a biografia do pai da Apple – o livro trata de figuras como John Von Neumann, que trabalhou com Einstein no desenvolvimento da bomba atômica, foi coautor da teoria dos jogos e do primeiro computador digital, nos anos 40.

Ou Ada Lovelace, uma das mulheres excluídas da história da computação: uma quase desconhecida que viveu de 1815 a 1852, matemática e escritora inglesa, ela escreveu o primeiro algoritmo de computador, propôs a ideia de que as humanidades e a tecnologia devem conviver e idealizou o conceito de inteligência artificial. Para Isaacson, Ada Lovelace definiu a era digital.

A grande sacada do autor é defender a ideia, com argumentos irrefutáveis, de que não houve um gênio na história da revolução digital que tenha trabalhado sem ajuda de muitos outros – ainda que reforce o papel dos gênios ao perfilar personalidades emblemáticas, como o próprio Jobs (Apple), Bill Gates (Microsoft), Sergey Brin e Larry Page (Google). Mas estes, lembra o autor, potencializaram a capacidade disruptiva em suas equipes, permitindo atingir novo patamar de inovação.

Outro grande mérito seu é construir uma narrativa que reforça a tese de que a inovação nas ciências exatas ocorre intimamente vinculada às humanidades.

 

7. FILOSOFIA
O silêncio e a prosa do mundo, organizado por Adauto Novaes (edições Sesc)

O silêncio e a prosa do mundo Adauto Novaes (organizador) Edições Sesc 515 páginas R$ 55

O silêncio e a prosa do mundo
Adauto Novaes (organizador)
Edições Sesc
515 páginas
R$ 55

Há quem olhe de lado, torça o nariz e sorria de maneira sarcástica ou desconfiada diante de temas filosóficos como este. Mas os desconsidere e aposte na leitura de O silêncio e a prosa do mundo, organizado por Adauto Novaes, o jornalista e professor que desde 2000 realiza magistrais ciclos de conferências que sempre resultam em livros igualmente interessante.

Quando organizou a edição do programa Mutações no ano passado – que originou o livro – Novaes tinha em mente a ideia de que nunca se falou tanto e se pensou tão pouco. Uma pesquisa feita pelo Centro da Indústria de Informação Global, da Universidade da Califórnia, foram trocadas 10,8 trilhões de palavras nos Estados Unidos em 2008, notáveis 140% a mais em relação aos 4,5 trilhões de palavras usadas em 1980. Um tsunami verborrágico radiografado graças a dados armazenados em texto de jornais, revistas, páginas de internet, áudios de filmes em cartaz, programas de TV e rádio e letras de músicas lançadas naquele ano.

Novaes e seus convidados – ensaístas, filósofos, jornalistas, cientistas sociais, poetas – se perguntam: o que tanto se fala? Qual a importância do silêncio para a criação da obra de arte e da obra de pensamento? Como separar o falatório insignificante daquele necessário e fundamental para não nos desumanizarmos?

Na impossibilidade de resgatar com precisão 24 ensaios em mais de 500 páginas, recomendam-se alguns nomes, com as devidas injustiças: Oswaldo Giacoia Junior (“Por horas mais silenciosas”), Pedro Duarte (“O silêncio que resta”), Eugênio Bucci (“O rumor da mídia”), Marcelo Jasmin (“Silêncios da história: experiência, acontecimento, narração”), Frédéric Gros (“Fazer calar e fazer falar o sexo”), Pascal Dibie (“O silêncio dos amantes e, mais particularmente, das mulheres…”), Antonio Cicero (“A poesia entre o silêncio e a prosa do mundo”), Guilherme Wisnik (“O silêncio e a sombra”), Francisco Bosco (“A descoberta da linguagem”) e Luiz Alberto Oliveira (“O silêncio de antes”).

 

8. LIVRO-REPORTAGEM
Sem lugar para se esconder, de Glenn Greenwald (Primeira Pessoa)

Sem lugar para se esconder Glenn Greenwald Primeira Pessoa 288 páginas R$ 39,90

Sem lugar para se esconder
Glenn Greenwald
Primeira Pessoa
288 páginas
R$ 39,90

Em meados de 2013, o jornal britânico The Guardian (sempre ele) publicou uma série de reportagens que desvendavam a vigilância ilimitada praticada pela NSA, a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos. Assinadas por Glenn Greenwald, as matérias mostravam que a inteligência norte-americana espionava em larga escala não apenas as comunicações domésticas, mas também as de outros países – inclusive os aliados. Edward Snowden, de 29 anos, um funcionário terceirizado da NSA, foi a fonte de Greenwald, e suas revelações abriram caminho para um enorme debate sobre direito à privacidade e o alcance da vigilância governamental.

Sem lugar para se esconder – Edward Snowden, a NSA e a espionagem do governo americano, lançado no Brasil pela Primeira Pessoa (selo da editora Sextante), tem pouca novidade para quem acompanhou de perto o caso pela imprensa. Mas esmiúça todas as peças da história. Com o mérito de organizar a narrativa em seu conjunto, detalhada e envolvente. Não à toa a Sony Pictures comprou os direitos para produzi-lo em filme.

O livro começa com um relato detalhado dos contatos de Greenwald e da documentarista Laura Poitras com Snowden, técnico que queria divulgar os documentos que coletara na NSA. O relato ocupa um terço do livro e destaca os esforços dos três para não serem flagrados. Há detalhamento de como Thomas Shannon, secretario de Estado assistente e depois embaixador no Brasil, agradece à NSA por relatórios de “inteligência de sinais” sobre “s outros participantes” da 5a Cúpula das Américas, documentos quanto ao “alvo” Petrobras, além do ataque de Greenwald à mídia, especialmente ao New York Times.

Uma curiosa nota de rodapé, não presente no livro: Greenwald deixou o Guardian para trabalhar para Pierre Omidyar, bilionário do eBay/PayPal, que participou do estrangulamento financeiro do WikiLeaks a pedido do governo americano. Mas qualquer trabalho seu é para ser lido com o respeito de quem lê um dos mais brilhantes jornalistas de seu tempo.

 

9. CRÔNICA

O livro das mulheres extraordinárias, de Xico Sá (Três estrelas)

O livro das mulheres extraordinárias Xico Sá Três Estrelas 264 páginas R$ 39,90

O livro das mulheres extraordinárias
Xico Sá
Três Estrelas
264 páginas
R$ 39,90

O jornalista e escritor Xico Sá deveria ser uma leitura de cabeceira dos homens que anseiam por uma mísera sensibilidade e sabedoria na arte de seduzir uma mulher. O livro das mulheres extraordinárias é uma ode a cada mulher que ele admira e aos desejos que elas despertam nele – e provavelmente na maioria dos homens. De obviedades como Luiza Brunet (“tesão nada nostálgico”) a delicadezas como Claudia Abreu (“O sorriso mais sexy de todos os tempos da TV”) e surpresas como Lea T. (“O belo e o cirúrgico drible nos gêneros”).

Qual o critério de Xico para a escolha das mulheres extraordinárias? “Foi o critério da comoção, do alumbramento – aquele impacto fundamental no primeiro olhar – e do tesão que deveras sinto. E, sobretudo, o critério da desordem. É que a gente nunca sabe, em momentos deliciosamente cruéis como o desta seleção, o lugar certo de colocar o desejo, como aprendi na música de Caetano Veloso que faz parte da trilha do filme A dama do lotação”.

É um livro, portanto, baseado em desejos reais, como ele próprio confessa. Um livro não de cabeceira, mas “da cabeça viajante de um homem que deseja, que ama de modo hiperbólico que se deve amar as fêmeas”. Como não sermos hiperbólicos diante de Maitê Proença – “a verdade acerca do amor” – que para além da beleza televisiva e cinematográfica ainda encanta na escrita? (Miguel Sousa Tavares escreveu sobre um de seus livros: “Aprendi neste livro de crônicas da Maitê Proença que as mulheres também choram, não são só os homens”). Ou diante de Mariana Ximenes – “todo canalha é um masoquista diante dela”, escreve Xico.

Como ele, acho que não são as mulheres que são complicadas – nós, homens, é que somos preguiçosos, uma mistura de Macunaíma com roqueiro emo. O homem, lembra Xico, não está perdido; ele tem uma preguiça eterna.

 

10. HISTÓRIA

O horror da guerra, de Niall Ferguson (Planeta)

O horror da Guerra Niall Ferguson Planeta R$ 89,90 768 páginas

O horror da Guerra
Niall Ferguson
Planeta
R$ 89,90
768 páginas

Esqueça a moda dos livros de história repletos de detalhes curiosos e picantes para tornar a leitura “interessante”. O escocês Niall Ferguson é um historiador da moda, mas sem os maneirismos que proliferam por aqui. Em O horror da guerra Ferguson (com marcada antipatia pela posição britânica) classifica a Primeira Guerra Mundial como o maior erro da história moderna e analisa os motivos que deflagraram o conflito.

Com o mérito de escapar do maniqueísmo anti-Alemanha, o historiador se pergunta: por que se lutava? A população apoiava o conflito? Que país era o mais militarista? Até que ponto o sacrifício europeu valeu a pena? Foi a primeira guerra total, e a mais sangrenta – um conflito que matou cerca de 8 milhões de homens e destruiu as finanças da Europa.

 

11. E-BOOK
Série Ilusões Armadas, de Elio Gaspari (Intrínseca)

Séries “As ilusões Armadas” e “O Sacerdote e o Feiticeiro” Elio Gaspari Intrínseca R$ 39,90 (edição impressa) e R$ 14,90 (e-book), cada livro

Séries “As ilusões Armadas” e “O Sacerdote e o Feiticeiro”
Elio Gaspari
Intrínseca
R$ 39,90 (edição impressa) e R$ 14,90 (e-book), cada livro

Elio Gaspari é uma espécie de Pelé do jornalismo brasileiro. Mesmo aqueles que não gostam de sua personalidade de Kid Megalô (“O sistema é eliocêntrico, e não fui eu quem disse, foi Copérnico”, costuma dizer) reconhecem nele o brilhante jornalista que é. Dono de uma memória privilegiada, uma insana capacidade de trabalho e, claro, seu eliocentrismo deram-lhe os atributos suficientes para compor uma obra monumental sobre a ditadura militar, que em 2014 teve um ano pródigo de reflexões por marca os 50 anos do seu início.

Pois  os quatro livros que começou a publicar em 2002 ganharam em 2014 a reedição do ano e, mais do que isso, o melhor trabalho em e-book: não só em novos volumes, desta vez publicados pela Intrínseca, como também em caprichadas versões eletrônicas. Tais versões trazem amostra preciosa do material que Gaspari pesquisou para produzir a série, retirados do arquivo acumulado por dois observadores privilegiados dos acontecimentos do período, o general Golbery do Couto e Silva e Heitor Aquino Ferreira, que foi secretario particular do presidente Ernesto Geisel e de Golbery.

A versão eletrônica dos livros traz cerca de 200 documentos que, se fossem impressos, dariam um volume com 670 páginas. Para cada documento há uma cópia do original com transcrição completa e os trechos mais relevantes destacados. Para leitores que têm iPad ou Kindle Fire, o pacote oferece também filmes de época e gravações, incluindo 17 trechos de entrevistas que Gaspari fez com Geisel nos anos 1990.

O autor fez ainda várias revisões no texto dos livros – A ditadura envergonhada, A ditadura escancarada (que compõem a série “As ilusões armadas”), A ditadura derrotada e A ditadura encurralada (série “O Sacerdote e o Feiticeiro”). Incorporou informações que obras mais recentes sobre o período trouxeram e acrescentou novas descobertas.

Por tudo isso, e por ser uma obra de Elio Gaspari, é obra para ler, reler e guardar.

O que Pensata escreveu:
De um torturador para uma jovem: “Você vai sofrer como Jesus Cristo” 

 

12. COLEÇÃO
Clássicos Zahar (Zahar)

A coluna faz aqui um reparo a uma injustiça cometida ao longo do ano: não ter falado na espetacular coleção de clássicos da Zahar – de longe a melhor coleção lançada por uma editora brasileira em 2014. São edições caprichadas em todos os sentidos: belas capas, miolo equilibrado e elegante, texto integral, notas históricas e literárias, cronologia de vida e obra do autor, posfácio com as grandes linhas da crítica sobre o livro e, em grande parte, um rico trabalho de ilustrações de época para os clássicos.

Não vi todos os volumes, mas a amostra constada pela Pensata é uma constatação da fidelidade do projeto: o campeão de venda Alice no País das Maravilhas (Lewis Carroll) Os Maias (Eça de Queirós), A besta humana (Émile Zola), Robin Hood (Alexandre Dumas), Os três mosqueteiros (Dumas), 20 mil léguas submarinas (Jules Verne), O corcunda de Notre Dame (Victor Hugo), A Terra da Bruma (Arthur Conan Doyle) e Persuasão (Jane Austen) são evidências de um rico padrão de qualidade do projeto. Edições de bolso, igualmente de luxo, completam a coleção.

Fez tanto sucesso que a Zahar criou um selo para ela e vai intensificar a produção em 2015. A incluir um autor brasileiro, Raul Pompeia, com O Ateneu, já no início do ano.

 

13. HOMENAGEM DO ANO
Millôr Fernandes

Humorista, escritor, tradutor, desenhista, dramaturgo, jornalista e polemista, Millôr Fernandes foi o homenageado do ano na Flip. O gesto do convescote de Paraty ajudou a recolocar no mercado vários dos livros do genial sujeito: The cow went to the swamp, Tempo e Contratempo, Esta é a verdadeira história do paraíso e Essa cara não me é estranha, todos da Companhia das Letras. Também estimulou o lançamento da antologia organizada por Sérgio Augusto e Loredano, publicada pelo Instituto Moreira Salles: Millôr 100 + 100: desenhos e frases.

Morto em 2012, aos 88 anos, Millôr era um desses raros casos de um sujeito que faz tudo bem. Sua assombrosa criatividade produzia, em palavras e imagens, gargalhadas abertas ou ironias amargas. Mas sempre brilhantes. Em livros ou nos debates na Flip com quem entende de Millôr (graças à curadoria de Paulo Werneck), fez-se jus àquele que se dizia “livre como um táxi”.

O que Pensata escreveu:
15 frases para falar mal da política, segundo Millôr

 

14. POESIA
Geografia aérea, de Manoel Ricardo de Lima (7Letras)

Geografia aérea Manoel Ricardo de Lima 7letras 142 págs. – R$ 35

Geografia aérea
Manoel Ricardo de Lima
7letras
142 páginas    R$ 35

Repita este nome: Manoel Ricardo de Lima. Professor de literatura e poeta da mesma geração de Carlito Azevedo, de quem é amigo e colega de encontros literários, Manoel Ricardo de Lima vem produzindo sistematicamente poesia e ensaio com a reinvenção de quem não se exaure com a própria criação. Geografia aérea, o livro em questão, publicado este ano pela 7Letras, é a síntese de sua poesia, uma espécie de reunião de sua obra poética. De Embrulho e Falas inacabadas, ambos de 2000, a Quando todos os acidentes acontecem, de 2009.

Ao ponto: Geografia aérea é, ao estilo de Manoel Ricardo (e do próprio Carlito Azevedo, o maior nome de sua geração e, portanto, da poesia contemporânea), uma reinvenção dos próprios poemas editados. Ele gosta de criar novos abismos, como gosta de dizer. Reescreve, revisa, reedita os poemas.

“alguém pode decidir outra/ coisa outro nome apenas porque apertou/ muito bem os olhos”,  escreve em “Quase”, um dos belos exemplos de Geografia aérea. É uma poesia em deslocamento, um acidente que pode transformar-se em outra coisa. Desse desvio alimenta-se sua obra – e sua vida também. Manoel Ricardo nasceu em Parnaíba, no Piauí, formou-se em Fortaleza e em Florianópolis e atualmente mora no Rio de Janeiro, onde é professor da UniRio.

Uma mobilidade que, na poesia, formam histórias-enigmas, aparentemente sem solução. Annita Costa Malufe, também poeta e também professora de literatura, escreve que nos poemas de Manoel Ricardo há sempre “uma história em jogo, ou muitas, mesmo que não saibamos quais são”, construindo imagens que estão longe de serem fixas, numa experiência instável e em constante mutação: “nenhuma/ imagem do presente e sempre/ de passagem a areia do lugar/ que você diz que é seu”, escreve ele no poema “as fotografias”.

Manoel Ricardo de Lima põe política em sua poesia, não no sentido panfletário, mas no que ela tem de reflexão sobre o mundo que nos cerca. Ele fala, por exemplo, em “cidades moribundas”, onde “tudo é buraco”, mas também onde “o que resta de amor/ e sobrevive/ salta”. Cidades de abismos sociais com cenários de guerra, mas que encontra na poesia uma forma de imaginário que se vincula a uma prática de vida, política e amorosamente. Como ele escreve, que sobrevive, salta.

 

15. FICÇÃO BRASILEIRA
O professor, de Cristovão Tezza (Record) e Os piores dias de minha vida foram todos, de Evandro Affonso Ferreira (Record)

O professor  Cristovão Tezza Record 240 páginas R$ 32

O professor
Cristovão Tezza
Record
240 páginas
R$ 32

Os piores dias de minha vida foram todos Evandro Affonso Ferreira Record 128 páginas R$ 30

Os piores dias de minha vida foram todos
Evandro Affonso Ferreira
Record
128 páginas
R$ 30

Na ausência de uma monumental e marcante ficção lançada em 2015, a coluna divide-se em dois autores da Record: Cristovão Tezza e Evandro Affonso Ferreira. Um Chico Buarque em excelente estágio literário atinge um bom Tezza.  Mas O professor não é um romance bom: é ótimo. A obra gira em torno de Heliseu, um professor de filologia românica de 70 anos, que está prestes a receber uma homenagem por sua carreira. Repassa sua vida – a medalha que receberá e o discurso que fará nada mais são do que a morte simbólica de sua trajetória setentona.

A percepção súbita da passagem do tempo, do personagem e do Brasil, estão no centro das preocupações do autor do exitoso O filho eterno, lançado em 2007. Como quase todo envelhecimento, Tezza constrói um quadro de amargura e realismo.

Ao lado dele, um lúgubre Evandro Affonso Ferreira e sua personagem: uma mulher que, à beira da morte, presa a uma cama de hospital, imagina-se vagando nua pelas ruas de São Paulo, cruzando com os personagens habituais da cidade. Narrado em um longo monólogo, o percurso íntimo é repleto de outras vozes: memórias e referências literárias, filosóficas e mitológicas, que tornam a leitura de Os piores dias de minha vida foram todos um tanto mais complexa. (O autor já disse uma vez que não se importa com a falta de leitores para seus livros, numa boutade de autodefesa contra o universo reduzido de leitores em contraponto a uma literatura de consumo fácil.)

Mas o exílio forçado da mulher expõe uma rica literatura: “Sei que neste quarto-desemparado”, diz ela, “procuro levar a imaginação até seu limite – jeito de driblar entre aspas desintegração contínua delas minhas entranhas” ou “Jeito é caminhar imaginosa nua pelas ruas desta cidade para fingir que ainda estou viva. Ilusão, sim, mas benéfica e libertadora”. É a personagem que se ergue quando pensa ver coisas, mesmo diante do malogro da vida, entre doença e reclusão.

 

 

 

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sábado, 20 de dezembro de 2014 Política | 12:17

Antes do embargo, Cuba era tratada pelos EUA como bordel de luxo e paraíso fiscal

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“Pierre, preciso de sua ajuda”, disse um solene John Fitzgerald Kennedy para seu assessor Pierre Sallinger, ao chegar ao seu gabinete, na Casa Branca, no dia 7 de fevereiro de 1962. Era véspera do embargo que seria assinado pelo então presidente do Estados Unidos a Cuba de Fidel Castro.

“Ficaria encantado em ajudá-lo”, respondeu o assessor, pouco antes de ouvir um dos mais estranhos pedidos feitos por um inquilino da Casa Branca. “Necessito de muitos puros”, continuou o presidente.

Salinger teve um calafrio. Perguntou exatamente de quantos JFK precisaria. “Uns mil Petit Uppman”. Um calafrio ainda maior quando ouviu que a entrega deveria ser efetuada “ainda amanhã de manhã”.

O assessor se virou como pode e conseguiu notáveis 1.200 charutos cubanos da marca preferida de JFK. Ao tomar conhecimento da chegada da encomenda, Kennedy pegou um grande papel em sua gaveta e o assinou imediatamente.

A partir daquele momento, os charutos cubanos, como de resto todos os demais produtos cubanos, estavam proibidos nos Estados Unidos.

Esse era o tipo de hipocrisia, malandragem e pequenice a que os presidentes nos EUA estavam acostumados a tratar Cuba até então. A ilha, distante apenas 144 quilômetros da Flórida, era tratada como quintal, parque de diversões, bordéu a céu aberto.

E quem conhece de perto as entranhas do poder do regime cubano sabe que este é um dos grandes temores de uma eventual abertura ao capitalismo e, mais do que isso, às negociações com os EUA: evitar uma volta aos tempos pré-revolução. Um tempo de esbórnia para os endinheirados estadunidenses, amalgamados com corruptelas cubanas. Uma enxurrada de dólares, prostituição, jogatina e crime organizado.

Leia mais: Cubanos e castristas temem abertura econômica desenfreada

Bananas ou tirânicos

Desde 1898, quando livrou Cuba do domínio espanhol, até 1959, a América do Norte reinou absoluta naquela região do Caribe.  Os presidentes eleitos depois da desocupação militar da ilha, em 1902, resumiam-se a dois tipos bem característicos: ou eram frouxos e incompetentes ou tirânicos e corruptos.

JFK fuma um charuto em foto de 1963: um notável fã dos produtos cubanos, pediu mil charutos antes  de proibi-los em solo norte-americano.  Foto: Cecil Stoughton / White House/John F. Kennedy Presidential Library and Museum

JFK fuma um charuto em foto de 1963: um notável fã dos produtos cubanos, pediu mil charutos antes
de proibi-los em solo norte-americano.
Foto: Cecil Stoughton / White House/John F. Kennedy Presidential Library and Museum

Mas nem quando extrapolaram, desrespeitando direitos humanos e apelando para golpes (Fulgêncio Batista derrubou o ditador Gerardo Machado em 1933 e o banana Prío Socarrás em 1952), receberam críticas ou ameaças de Washington. Afinal, eram amigos, comparsas ou simplesmente úteis aos negócios norte-americanos, à consolidação do que apregoava uma estrofe de um sucesso musical da década de 1940: o rum e a Coca-Cola workin’ for the yankee dollar (trabalhando juntos para o dólar).

O sonho de uma “Cuba libre” resumiu-se ao drinque inventado pelos soldados enviados pelo presidente William McKinley para expulsar os espanhóis da ilha. José Martí, morto numa emboscada em 1895, não chegou a ver Cuba livre do secular ocupante europeu, mas alertou para a possível substituição dos espanhóis pelos norte-americanos.

Muitos anos mais tarde, os cubanos entravam com o rum, a cana-de-açúcar, os charutos, a música, as mulheres e a jogatina. Os norte-americanos com os investimentos, a Coca-Cola, os carros de última geração e todo o excedente da  produção industrial made in USA.

Cuba era um quintal. Um paraíso fiscal e um bordel de luxo.

Consta que o próprio JFK, então senador, andou por lá participando de uma orgia com três call-girls no Hotel Comodoro. Foi a convite do mafioso Santo Trafficante.

Com Batista no poder – que Fidel e Che Guevara derrubaram – o quintal conquistou fama internacional. Seus hotéis, cassinos e clubes noturnos atraíam astros de cinema, empresários, políticos, playboys e, digamos, damas. Sinatra e Ava Gardner eram habitués. A mordomia da elite-cubana-acasalada-com-endinheirados-estadunidenses, com Sinatra cantando ao fundo, era bancada pela Máfia.

Seu réquiem deu-se no réveillon de 1958. Foi inesquecível para os gringos, para os cubanos e para o Batista. Convencido de que não tinha mais como resistir ao avanço dos rebeldes barbudos comandados por Fidel, o ditador cubano interrompeu a festa, ergueu um brinde, anunciou sua renúncia e embarcou às pressas para a República Dominicana. Levou com ele 180 cupinchas e 300 milhões de dólares.

Fidel já era mito, herói e símbolo da oposição a Batista desde 1952. Em fevereiro de 1957 já aparecera na primeira página do The New York Times, na célebre série de reportagens feita pelo jornalista Herbert Matthews na Sierre Maestra.

Foi o melancólico desfecho de uma tirania que durou 25 anos – duas décadas e meia de poder do crime organizado sobre a economia, a política e a sociedade de Cuba. Batista era sócio de todas as negociatas, com a conivência da Casa Branca e seus sólidos motivos para considerar Cuba um protetorado.

Com cinco décadas de domínio de Fidel e Cuba amarrada dos pés à cabeça por um embargo, de um lado, e o fim da União Soviética que lhe dava dinheiro e apoio, de outro, ficou fácil para as gerações seguintes apontar o dedo em riste contra os castristas – ou simplesmente mitificar a revolução cubana.

Mas as lembranças da esbórnia pré-revolução se tornam tão fortes para alguns quanto os ideais revolucionários de uma ilha de liberdade, respeito integral aos direitos civis, justiça, igualdade, etc.. Os ideais podem ter ficado no plano dos ideais – tolhidos pelo embargo e pelos equívocos de percurso – mas os ecos do tempo em que a ilha era o quintal, o bordel de luxo e o paraíso fiscal dos EUA são bem reais. E um reforço a quem vê os dólares dos EUA como algo muito bem-vindo, mas um presente a ser recebido com cautela.

 

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Política | 10:31

Cubanos e castristas temem abertura econômica desenfreada

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Noves fora o histórico anúncio de reaproximação diplomática dos Estados Unidos e de Cuba, feito na quarta-feira por Barack Obama e Raúl Castro – primeiro passo para o fim de um embargo de 53 anos –, a abertura econômica cubana para o capitalismo seguirá o mesmo modelo adotado nos últimos anos: lenta, segura e gradual.

Tem sido esta a política definida, exibida e executada desde que, no dia 18 de fevereiro de 2008, o lendário e chapa branca Granma, principal periódico do País, trouxe a carta de renúncia ao poder do “Comandante-em-Chefe” Fidel Castro, após quase meio século à frente do governo da ilha e havia dois anos já afastado na prática devido aos seus problemas de saúde. Uma semana depois, os deputados da Assembleia Nacional elegeriam o irmão mais novo de Fidel como novo presidente de Cuba.

O fim da União Soviética já forçara o país a uma radical reorientação de sua economia, buscando novas formas de inserção no mercado internacional – basicamente, o incentivo ao turismo e à iniciativa privada estrangeira para compensar a perda dos subsídios soviéticos. Com Castro, vieram a autorização para a atuação de alguns profissionais liberais, a compra de imóveis, automóveis, computadores pessoais e celulares, ampliação da atividade agrícola privada, além da abertura para que cubanos viajem ao exterior. A cada ano, pequenas mudanças. Graduais, ora hesitantes, ora constantes.

Não será muito diferente a partir daqui, mesmo após o anúncio desta semana. Mas com a vantagem do fim do isolamento em relação aos EUA – e isso é muito.

Os presidentes Barack Obama e Raúl Castro

Os presidentes Barack Obama e Raúl Castro, protagonistas de um anúncio histórico esta semana. Foto: AP Photo/SABC Pool

Conforme Pensata tem ouvido de castristas convictos, fiéis amigos do regime cubano e analistas políticos que acompanham à distância a lenta, porém constante, inflexão econômica e política de Cuba, o maior temor da cúpula daquele País é uma abertura desenfreada: sem controle, Cuba se escancararia aos dólares capitalistas e ao que os socialistas cubanos consideram suas anomalias imediatas mais perversas, especialmente a desigualdade excessiva, a ambição individual desmedida e o fim da capacidade de manter as conquistas sociais nas áreas da saúde e da educação.

Não convém, portanto, esperar nada próximo à vertiginosa velocidade do modelo chinês de abertura, iniciada quando Deng Xiaoping assumiu o poder após a morte de Mao Tse-Tung, na segunda metade da década de 1970. Quem conhece, porém, a abertura chinesa, sabe que foi conduzida com mão de ferro: foram três décadas de passos velozes e firmes, de braços dados com o capitalismo e a globalização para transformações econômicas, sociais e políticas da sociedade chinesa, mas sem que nada passasse sem o crivo e controle das mãos do Estado.

Os 53 anos de embargo, o tamanho e a complexidade da pobreza do povo cubana, a lembrança do que ocorreu com a entrada do Leste europeu na órbita capitalista, o temor de uma invasão dos Estados Unidos e a memória dos tempos pré-revolução (quando Cuba era um parque de diversões dos estadunidenses endinheirados)  são os ingredientes para tornarem os castristas mais arredios do que os colegas chineses a uma abertura capitalista, mesmo dentro dos limites de manutenção do regime centralizado e monopartidário como foi o modelo da China.

Leia também: Cuba era tratada pelos EUA como bordel de luxo e paraíso fiscal 

Como afirma Frei Betto, amigo pessoal de Fidel Castro, Cuba não tem a intenção de voltar ao capitalismo. “Cuba deseja manter uma sociedade na qual os direitos sociais são garantidos acima dos direitos pessoais”, disse o frade dominicano, após o anúncio de Obama e Raúl Castro. Para ele, o maior interesse cubano é manter relações com os Estados Unidos.

Frei Betto sabe do que fala. Passou mais de uma década viajando anualmente a Cuba. Durante o período construiu pontes entre o governo e a Igreja Católica cubana. Nenhum dos dois lados se bicava até o início dos anos 1980. Os bispos eram alguns dos maiores adversários de Fidel. Betto ajudou a vencer a resistência dos bispos e ganhou a amizade eterna do líder cubano. É de Frei Betto o livro Fidel e a Religião, lançado em 1985.

Frei Betto e Fidel Castro em encontro este ano em Havana. Foto: CubaDebate

Frei Betto e Fidel Castro em encontro este ano em Havana. Foto: CubaDebate

Os dois se encontraram este ano em Havana. Com direito a uma nota publicada na capa do Granma, acompanhada de uma imagem dos dois juntos – a nota lembra as “fraternais relações” que Fidel mantém há anos com o brasileiro.

A menção à religião e aos católicos aqui não é sem propósito. Há simbologias por todos os lados. Primeiro porque a decisão anunciada esta semana teve a participação decisiva do Papa Francisco: o Vaticano e o Canadá facilitaram os contatos entre as duas partes oferecendo às delegações a discrição necessária ao longo de um processo de diálogo que durou cerca de 18 meses.

Segundo: como lembrou o escritor cubano Leonardo Padura, a cada 17 de dezembro, data do anúncio, os católicos cubanos e os crentes da santeria ioruba celebram o dia de São Lázaro ou o de Babalú Ayé. “Ou festejam os dois, o santo e o orixá, porque um cubano pode acreditar em muitas coisas ao mesmo tempo”. Pois num dia de um santo católico, com a enorme ajuda do papa católico, Padura se viu assistindo ao que muitos da geração dele já haviam perdido a esperança de assistir: que Cuba e EUA “passassem   por cima de todas as suas diferenças políticas e históricas e que seus governos se dispusessem a estender-se as mãos sobre as águas do estreito da Flórida”.

Há seis meses estive no Rio entre Padura e Frei Betto conversando justamente sobre Cuba e ali o escritor cubano sublinhava as transformações por que passava seu país. Assim começava a pensata escrita a partir daquele encontro, ocorrido na Casa do Saber do Rio:

O escritor cubano Leonardo Padura

Leonardo Padura: “Hoje as pessoas têm muito mais liberdade em Cuba”

“Cuba está mudando. Pequenas mudanças, é certo, mas muitas o suficiente para, somadas, transformarem-se numa grande mudança. A estrutura do País pode ser a mesma, o sistema de partido único – o Partido Comunista acima de todas as coisas – continua vigente, os problemas e contradições seguem intensos, mas mudanças na economia e na realidade social vão provocar, cedo ou tarde, significativas mudanças políticas.”

Tanto Padura quanto Frei Betto concordavam ali – e continuam a concordar hoje – que o maior temor é Cuba tornar-se uma “mini-China”, guardadas todas as devidas proporções. Por mini-China leia-se: um governo autoritário de economia capitalista, com suas anomalias e incapaz de recriar o que consideram as melhores aspirações revolução cubana. (Leia mais aqui)

Abertura, sim; capitalismo, não

Não seria, portanto, um discurso para agradar a plateia doméstica o tom adotado por Raúl Castro ao encerrar os trabalhos da Assembleia Nacional, mesmo quando anunciava políticas de distensão pró-mercado. Um no ferro, outro na ferradura: enquanto dizia coisas como “temos o dever fundamental de corrigir os erros que cometemos nessas cinco décadas de construção do socialismo em Cuba”, Raúl afirmava também não ter sido eleito presidente em Cuba “para restaurar o capitalismo”.

Mais: “O planejamento, e não o mercado, será o traço definitivo da economia e não se permitirá a concentração da propriedade. Mais claro que isso, nem água”, disse ao encerrar a Assembleia Nacional, há exatos quatro anos, ao defender abertura, e não capitalismo, em seu país.

O escritor Fernando Morais, outro fiel castrista, disse algo semelhante a Frei Betto, ao declarar à BBC não ver sinais  de mudanças ideológicas no regime, com um argumento razoável: “Eles não se curvaram debaixo de agressão militar, diplomática e comercial”, lembrou Morais. “Não vão fazer agora, que a retomada de relações está sendo feita pacificamente”.

(Curiosidade histórica: foi ele, Frei Betto e Chico Buarque o trio que organizou, em 1992, organizar um voo de solidariedade a Cuba, mais uma vez então ameaçada pelos Estados Unidos. Fretaram um avião de passageiros e ratearam o preço entre uma centena de artistas, intelectuais e militantes anônimos convidados por eles para a empreitada. O voo acabaria desencadeando uma polêmica pública: dias antes do embarque, o governo cubano condenou à morte e executou um homem que matara um soldado, ao tentar sequestrar um barco para fugir rumo aos Estados Unidos. Eles decidiram manter o voo, apesar da execução, e enfureceram a imprensa, que os surraram durante uma semana.)

Obama: embargo isolou EUA, não Cuba

A “agressão” a que se refere Morais, todos conhecem: Cuba resistiu a mais de 50 anos de bloqueio.  Hoje aos 88 anos de idade, Fidel Castro viu passar oito presidentes dos Estados Unidos – quatro dos quais ele enterrou – e mais de 20 diretores da CIA que tiveram o projeto de assassiná-lo.

Como afirmou o próprio Obama, a estratégia dos EUA não isolou Cuba, mas os próprios EUA. Durante a reunião anual da Assembleia Geral das Nações Unidas, em outubro, pelo 23o ano consecutivo, 188 países votaram contra as sanções impostas à população cubana. Da mesma maneira, os EUA são o único país do continente americano sem relações diplomáticas e comerciais normais com Cuba.

Obama lembrou essa realidade em seu discurso, quando afirmou que “nenhuma nação nos seguiu na imposição dessas sanções” e que “esses últimos 50 a anos demonstraram que o isolamento não funcionou. É tempo de adotar um novo enfoque”.

Múltiplas forças

O sociólogo Mauricio Font é um cubano radicado há décadas em Nova York. Estudei com ele na Universidade da Cidade de Nova York, a Cuny University, onde Font dá aulas sobre globalização e desenvolvimento. Amigo de Fernando Henrique Cardoso e de muitos cientistas sociais brasileiras, o professor é autor de Cuban Counterpoints e Transforming Brazil: a Reform Era in Perspective.

Há alguns acompanho suas análises sobre o regime cubano e seu olhar atento às mudanças na política e na economia. Como quase todos os analistas, é mais otimista nas transformações econômicas do que nas políticas, sublinhando que os caminhos russo e chinês são os menos improváveis nessa mudança, na sua avaliação. Mas Font acha que o pêndulo da revisão econômica depende em grande parte da morte de Fidel e dos envelhecidos rebeldes da Sierra Maestra. Sempre enxergou a lentidão hesitante de Raúl Castro à força da linha-dura ainda presente no governo cubano.

Eis um conjunto complexo de forças múltiplas que se movem o tempo inteiro: a dinâmica internacional, para a qual Barack Obama e o Papa Francisco acabam de dar uma enorme contribuição; a força da velha guarda linha dura cubana, que sempre se alimentou do embargo e do inimigo norte-americano, bandeira que tende a perder força a partir de agora; e os jovens cubanos e o que desejam fazer do legado de Fidel, incluindo o profundo nacionalismo contido nessa herança.

Tudo somado, há razões para otimismos. Não que tenha uma revolução à vista a começar da noite para o dia, mas mudanças consistentes a promover à moda cubana – lenta, gradual e segura.

 

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História, Literatura, Política | 07:00

Coletânea conta a ditadura na voz de 18 autores e organizador se choca com quem prega hoje a volta dos militares

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Perseguição política, violência, medo e o peso de chumbo imposto pelo regime instaurado em 31 de março 1964 são alguns dos temas dos 18 contos que compõem Nos idos de março, antologia publicada recentemente pela Geração Editorial. O livro tem organização do escritor Luiz Ruffato e traz autores que tiveram diferentes relações com a ditadura militar no Brasil. São 18 vozes da literatura que viveram durante e após o golpe e, juntos, fazem uma espécie de desfecho de um ano que marcou o cinquentenário do início da ditadura que duraria longos 21 anos.

Nos idos de março Luiz Ruffato Geração Editorial 288 páginas; R$ 29,90

Nos idos de março
Luiz Ruffato
Geração Editorial
288 páginas; R$ 29,90

Foi um 2014 repleto de lançamentos relevantes (Pensata analisou alguns deles; veja lista ao fim deste post). O tema se somou a um ano de forte calor eleitoral, graças à sucessão presidencial, o que escancarou preconceitos e opiniões polêmicas nas redes sociais.

“Temos hoje algumas pessoas ignorantes ou desavisadas que pregam a volta da ditadura”, opina Ruffato sobre o que se viu nas redes sociais durante o ano. Não só com a pregação pró-ditadura mas também com o nível dos debates e a intolerância às ideias diferentes. Ele diz ver seu livro como uma forma de propor reflexões sobre esse período.

Ruffato é autor de uma série de antologias temáticas, como Sabe com quem está falando? – Contos sobre corrupção e poder e Fora da Ordem e do Progresso. Também publicou dois livros sobre as mulheres que estão fazendo a nova Literatura Brasileira. Escreveu ainda romances como Eles eram muitos cavalos, de 2001, que recebeu prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte e o Prêmio Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional.

Um tema, diferentes visões

Os contos de Nos idos de março foram escritos na época da ditadura militar ou por autores que tiveram suas vidas afetadas de alguma forma pelos acontecimentos. “A ditadura militar foi apreendida de diferentes formas por diferentes gerações”, diz Ruffato. E alguns desses pontos de vista aparecem no livro.

Reunir contos e não depoimentos para abordar o tema foi uma escolha do organizador, que acredita que essas pequenas narrativas espelham a situação de forma mais realista e “acabam dando um quadro mais complexo”.

Os contos trazem personagens como Mara, uma adolescente militante que, como tantos outros jovens, é vítima do regime e acaba sendo morta. Neste conto, de Maria José Silveira, tem-se uma fotografia da juventude da época, com suas roupas e seus costumes. “Eram os anos da ditadura. Os tempos de Garrastazu Médici”, situa o narrador. O apartamento de Mara funciona como um ponto de encontro, por onde circulam outras pessoas que fazem parte da militância. Tem-se uma ideia da estrutura das organizações de esquerda, com suas hierarquias e funções bem delimitadas para cada membro.

Ruffato escolheu contos relacionados ao período ditatorial cujos autores fossem conhecidos pela qualidade de suas obras e já tivessem um repertório literário, como Antonio Callado e Nélida Piñon. “Esses autores que estão no livro cobrem um período bastante largo de maneiras diferentes”.

O escritor Luiz Ruffato. Crédito: Márcia Zoet

O escritor Luiz Ruffato. Crédito: Márcia Zoet

O primeiro conto do livro é O homem cordial, de Antonio Callado. O personagem principal vê um Brasil idealizado por ele desabar. No conto, o intelectual, historiador e sociólogo está prestes a publicar o livro O homem cordial, sobre o povo brasileiro, quando tem seus direitos políticos cassados, embora seus amigos íntimos saibam que ele não tem “nada de comunista”. Esse conto inicial reflete a arbitrariedade do regime, que podia classificar como suspeitos pessoas de variadas ideologias e de todas as classes sociais.

O último conto é também o mais recente, publicado por Paloma Vidal em 2008. Intitulado Viagens, o conto é narrado em primeira pessoa e relata as viagens de uma vida: viagens ao passado, viagens nacionais e internacionais e a viagem da Argentina ao Brasil. A escritora veio exilada com os pais para o Brasil ainda criança, em 1977.

“Qué lengua hablan?”: essa interrogação que aparece no conto ilustra a situação de uma criança que, do dia para a noite, é submetida à outra língua e aos costumes de outro país. A rapidez com que se fazem as malas mostra a pressa de fugir da repressão política, assunto complexo demais para ser compreendidos por alguém tão jovem.

Nem todos os contos falam diretamente sobre a ditadura, mas sobre um espírito do tempo. É o caso de A morte de D.J. em Paris, de Roberto Drummond. D.J. (somente as iniciais de seu nome são apresentadas) é julgado após sua morte, tendo sido acusado de “inventar uma história fantástica sobre uma Mulher Azul que fala com uma voz de frevo tocando”. Essa mulher enigmática aparece ao longo de todo o conto como um acontecimento suspeito que não chega a ser esclarecido, bem como a morte do personagem.

Outros contos mostram a exploração do trabalho, como A mão esquerda, de Roniwalter Jatobá. O personagem central, um funcionário exemplar de uma fábrica, tem um acidente com uma máquina e perde parte dos dedos de uma das mãos. Inutilizado para o trabalho, é dispensado pela fábrica e substituído por outro funcionário.

A maior ponte do mundo, de Domingos Pellegrini, aborda o tratamento desumano aos trabalhadores que atuaram na construção da ponte Rio-Niterói. Os eletricistas, não identificados ou nomeados por apelidos como “50 Volts”, vivem uma jornada exaustiva que não podem abandonar, sofrendo ameaças em caso de cogitarem fazê-lo. Com a finalização da ponte, quando já não se assemelham a homens, os funcionários são convidados às comemorações de sua inauguração.

Experiência com a ditadura

Ruffato vivenciou o fim do período ditatorial, ainda jovem. Em 1979, foi estudar Comunicação na Universidade Federal de Juiz de Fora, em Minas Gerais. “Era um período ainda de bastante repressão, muito conturbado. Mas certamente não era nada comparado ao que aconteceu antes”, diz.

O escritor não chegou a ser preso, mas conta que vivenciou a tensão da perseguição política. Participou de atividades de poesia em Juiz de Fora e teve amigos presos. “Havia uma ligação entre poesia, teatro e política muito forte”, diz. Estudantes eram vigiados o tempo todo.

“Não posso dizer que eu pessoalmente tenha sofrido”, avalia. Independentemente de ter sofrido uma relação “íntima” com a ditadura militar, Ruffato diz se sentir no dever de propor reflexões sobre o período, que ele classifica como “época de atrocidades, de repressão brutal e de censuras”. “É um período que espero que nunca mais volte. É por isso que não consigo entender pessoas que se lembram com nostalgia da ditadura”, afirma.

Ruffato recomenda Nos idos de março para essas pessoas e para todos os que tiverem interesse em conhecer o regime ditatorial no Brasil: “O leitor pode ter nesses contos uma boa amostra do que foi a ditadura. Cada conto expressa isso à sua maneira”.

Leia mais na Pensata sobre livros que tratam da ditadura e do golpe de 1964:

O aniversário do golpe e seus oportunismos: ditadura só durou dez anos, diz historiador

1964: crescimento e repressão andaram juntos nas universidades brasileiras

Golpe militar ou civil-militar?

“Torturador é humano, cruel e consciente do que faz”

De um torturador para uma jovem: “Você vai sofrer como Jesus Cristo”

Por que os militares de hoje não admitem os crimes cometidos pela ditadura

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terça-feira, 16 de dezembro de 2014 Política, Sociedade | 09:17

Estatuto do Desarmamento que bancada da bala tenta revogar ajudou a salvar 121 mil vidas

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Da cidade de Gainesville, na Flórida, EUA – país-símbolo da liberdade nas regras do porte de armas de fogo – o sociólogo Gláucio Soares envia um conjunto considerável de dados e argumentos para desmontar a tese da bancada da bala no Congresso que tenta revogar o Estatuto do Desarmamento, aprovado e sancionado em dezembro de 2003. Segundo a bancada, ao tirar as armas legais de circulação e impor sérias restrições à sua aquisição, posse e porte, o estatuto buscava reduzir drasticamente o número de homicídios no País. Foi um erro banhado de sangue, argumentam: o número de mortes não para de crescer.

Um dos mais respeitados especialistas em segurança pública no Brasil, Gláucio Soares diz que não é bem assim. Apoiado nas estatísticas oficiais, mas fazendo extrapolações e comparações, o professor argumenta que o Estatuto do Desarmamento foi eficaz porque estancou o crescimento de homicídios que seguia num ritmo e passou a outro. Ele e Daniel Cerqueira, diretor do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada), fizeram as contas e chegaram a um dado surpreendente: 121 mil vidas foram preservadas pela lei criada 11 anos atrás. Elas teriam sido perdidas, caso a trajetória de mortes por armas de fogo aumentasse na mesma velocidade que vinha antes do estatuto.

Aos números. Entre 1980 e 2003, ano da sanção do estatuto, o número de homicídio por armas de fogo no Brasil aumentou de 6.104 para 36.576 – um aumento médio de 8,36% a cada ano. Em 2013, o número de homicídios chegou a 38.578, um aumento anual de 0,53% ao ano. Em outras palavras: o crescimento médio anual de pessoas assassinadas por arma de foto antes do estatuto era mais de 15 vezes maior do que o observado após a vigência do estatuto. “O Estatuto do Desarmamento foi fundamental para quebrar esta trágica trajetória”, diz Daniel Cerqueira, em defesa que se espalhou nos últimos dias pelas redes sociais.

O gráfico abaixo, enviado à coluna por Valéria de Velasco, subsecretária de Proteção às Vítimas de Violência da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania do Distrito Federal, ajuda a reforçar as curvas apontadas por Cerqueira e Soares. A linha vermelha expõe a possível trajetória de crescimento das mortes com armas de fogo que vinham se mantendo antes de 2003. A linha azul revela as mortes que efetivamente ocorreram no período. A radiografia expõe o efeito da ajuda do Estatuto do Desarmamento que hoje se deseja desarmar. Obviamente convém ressaltar que o estatuto não foi a única âncora a segurar a tendência de crescimento das mortes. Mas é inegável a sua ajuda, é o que argumentam os professores e a subsecretária.

Tabela

Cerqueira e Soares são dois dos especialistas que vêm buscando pôr evidências empíricas, dados estatísticos e comparações internacionais para tentar barrar a aprovação do Projeto de Lei 2722/12, de autoria do deputado Rogério Peninha Mendonça (PMDB-SC), que devolve à legalidade o porte de armas e facilita a aquisição de revólveres e afins. Nesta quarta-feira (17), a comissão especial da Câmara criada para analisar o projeto que revoga o Estatuto do Desarmamento deve votar relatório do deputado Claudio Cajado (DEM-BA) sobre o tema. Briga feia: se passar pela comissão e depois pelo Senado, cada cidadão terá direito a até nove armas de fogo e 1.800 cartuchos de munição por ano.

No Brasil, três teses de doutorado defendidas nos últimos anos – incluindo a do próprio Daniel Cerqueira, defendida na PUC-Rio – apresentaram fortes evidências de que mais armas na experiência internacional correspondem a mais crimes, especialmente roubos, furtos, estupros e homicídios. Cerqueira publicou um estudo com o economista João Pinho de Mello, do Insper, intitulado Evaluating a National Anti-Firearm Law and Estimating the Causal Effect of Guns on Crime, no qual os dois avaliam o impacto da legislação anti-armas de fogo e estimam o “efeito causal” das armas sobre o crime.

Usando e abusando de modelos matemáticos e econometria, ambos reforçam neste estudo a tese do impacto positivo do Estatuto do Desarmamento sobre a redução das taxas de homicídio. Neste estudo em particular, somente no Estado de São Paulo, foram salvas entre 2.000 e 2.750 vidas de 2004 a 2007, em cidades com mais de 50 mil habitantes. Para ler o estudo na íntegra, infelizmente escrito e publicado em inglês, leia aqui.

 

Comissão usa estudo de advogado pró-armas

Uma das fontes de queixa em relação à comissão especial são os laços que unem parte de seus integrantes a fabricantes de armas e munições. Levantamento da ONG de combate à violência Instituto Sou da Paz, com base em dados registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e divulgado pelo Congresso em Foco, mostrou que dez dos 24 titulares da comissão especial receberam doações do setor para suas campanhas eleitorais neste ano. Ou seja, cerca de 40% dos integrantes. Outros seis suplentes também foram financiados por fabricantes de armas e munições.

Gláucio Soares também aponta equívocos no relatório produzido pela comissão. Diz que os parlamentares agiram “sem qualquer preocupação com a representatividade” e enxergou no documento que deve ser votado nesta quarta-feira “um exemplo de fraude grosseira de fontes de apoio”.

Uma dessas fontes de apoio a que o sociólogo se refere é a prestigiada Universidade de Harvard. O “estudo de Harvard” citado pelo relatório da comissão é usado para apoiar os argumentos dos contrários ao estatuto. Ocorre que o tal estudo não foi feito por seus pesquisadores, tampouco endossado pela universidade. Seus autores são Gary Mauser e Don B. Kates.

Mauser é um professor da Faculdade de Administração de Empresas da Universidade Simon Fraser, no Canadá. Tem dois livros publicados: Marketing político e Manipulando a opinião pública. Don Kates é um professor aposentado de direito constitucional e criminal, que trabalha no Instituto Independente de Oakland, Califórnia, uma instituição que se orgulha entre outras  de combater o “socialismo” do Partido Democrata norte-americano (!), mas com uma base acadêmica. Como advogado, Don Kates tem representado os proprietários de armas, atacando a constitucionalidade de leis de restrição ao porte de armas de fogo.

O relatório cita a pesquisa de Harvard a partir do Instituto Ludwig von Mises que, a despeito do nome, vem do Brasil – na verdade, foi publicada em novembro deste ano como “Vinte fatos que comprova que a posse de armas deixa a população mais segura” (típico exemplo de uma citação errada que vai levando à outra). O estudo foi citado em uma publicação na página da The American Civil Rights Union (ACRU), outra organização da ultra-direita norte-americana, fundada por ex-integrante da equipe do ex-presidente Ronald Reagan, em 1988. A entidade dedica-se a acompanhar outras organizações, incluindo aquelas que negam o Holocausto, que condenam a comunidade LGBT, combatem negros, etc.

Soares tirou duas conclusões importantes. Primeiro: “o relatório da Comissão Especial falsamente atribui um estudo à Universidade de Harvard, copiando a besteira escrita pela ACRU”. Segundo: “O estudo foi preparado e divulgado por organizações americanas de direita, gerando a preocupação com a possível interferência de organizações estrangeiras na formulação de políticas públicas brasileiras”. Para ele, o documento da comissão “age como um braço a serviço” de organizações de extrema direita.

Quem tiver a curiosidade de ler o relatório da comissão especial, vale a leitura. A íntegra pode ser lida aqui.

Para o deputado Rogério Peninha Mendonça,  o texto não propõe distribuir armas indistintamente ou banalizar o acesso a elas. Em entrevista recente ao repórter David Shalom, no iG, Peninha defendeu sua ideia. Ressaltou que, se vetarmos armas de fogo, logo faremos o mesmo com carros. “Na minha cidade, no interior catarinense, outro dia uma mulher foi dar ré e atropelou o próprio filho. Ou seja, não é só a arma de fogo que mata. Ela mais protege e, se estiver guardada, com munição separada, só traz aspectos positivos à vida do portador. Mas acidentes acontecem”.

 

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domingo, 14 de dezembro de 2014 Filosofia do cotidiano, Política | 17:38

Ética não é só um problema dos políticos, mas do cotidiano de todos

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Se você é daqueles que se enfurecem ou se entristecem com o insistente tema da corrupção no Brasil, mas não deseja restringir-se à cantilena das obviedades despejada pelo colunismo público moralista, recorra a uma leitura imediata – o novo livro da filósofa Marcia Tiburi: Filosofia prática – Ética, vida cotidiana e vida virtual, lançado recentemente pela editora Record. Esta coluna chegou tardiamente ao livro de Marcia (embora seja a menor das dívidas que mantém com ela), mas faz aqui o reparo.

Embora trate de um vasto universo de temas que dizem respeito ao “modo de viver”, incluindo a indústria cultural da felicidade e nossa relação com a tecnologia e as redes sociais, Filosofia prática é essencialmente um livro sobre ética. Na verdade, “filosofia prática” é o que seria uma boa “tradução para o termo “ética” – a preocupação em relação à nossa vida e à vida em comunidade.

Em seu livro, Marcia Tiburi pensa a ética como ação. Pensamento é um ato, diz a filósofa, buscando sincronizar pensamento e ação. Sincronia esta que, segundo suas palavras, “é o desenho feito de pedras no fundo arenoso do rio da vida cotidiana, onde, apressados, molhamos os nossos pés, onde, menos atentos, nos afundamos até o pescoço sem perceber o que acontece”. Diz mais: “Chamo de Filosofia Prática a fotografia desse rio, ora barrento, ora cristalino”.

Por vida cotidiana ela entende a vida “simplesmente vivida, a realidade partilhada como “naturalidade”. A ética corresponde à pergunta e, ao mesmo tempo, poderia ser a resposta aos problemas humanos do que podemos resumir como convivência. Seja a convivência consigo mesmo, com o outro, com a cultura mais ampla, com a sociedade do espetáculo, todos os problemas enfim do cotidiano – o lugar de “viver junto, de viver “com”.

A filósofa Marcia Tiburi, autora do livro "Filosofia prática": "A pronúncia da palavra ‘ética’ convoca a ser ético aquele que fala". Foto: Divulgação

A filósofa Marcia Tiburi, autora do livro “Filosofia prática – ética, vida cotidiana, vida virtual” : “A pronúncia da palavra ‘ética’ convoca a ser ético aquele que fala”. Foto: Divulgação

Eu comigo, eu com o outro

Daí porque ela faz três perguntas essenciais: 1. Como me torno aquilo que sou? 2. O que estamos fazendo uns com os outros? 3. Como viver junto? Neste último caso se apropria de um belo título de Roland Barthes, a quem recorre também para a epígrafe “Por que não falar a língua de todo mundo?” (mais do que uma epígrafe, é também uma preocupação exposta em todo o livro, a busca por uma escrita sem rebuscamentos excessivos, contorcionismos teóricos e academicismo no mau sentido).

Marcia Tiburi não explicita isso em seu livro, mas a ética do cotidiano que aborda no fundo constitui um debate fundamental para o Brasil contemporâneo, uma vez que o País tem padecido de um vício de origem na discussão sobre política e corrupção.

Explica-se.

Passo a passo, contínua e diariamente, o Brasil vem se acostumando à ideia de que o mal-estar da sociedade decorre da convicção de que as autoridades eleitas para administrar os recursos das comunidades não oferecem serviços à altura do combinado com seus eleitores. Pior: apropriam-se ilegalmente de parte desses recursos públicos. Em bom português: elegem-se por um único e exclusivo e interesse. Porque são um bando de larápios. Todos gatunos. Bandidos.

Daí a suposição coletiva, compreensiva para muitos ingênuos, de que existam normas eleitorais, a serem urgentemente postas em prática, capazes de propiciar uma limpeza irrestrita nas regras e nos costumes políticos. Desse modo – assim supõem “cidadãos de bem”, colunistas públicos, éticos e moralizadores em geral – os prevaricadores serão removidos da vida pública, os recursos estarão melhor administrados, e a política ficará livre de personagens pecaminosos.

Difícil acreditar na existência de regras tão eficientes, a ponto de filtrar a esse nível os cidadãos em geral – incluindo, claro, aqueles que embarcam na vida pública. Como afirmou o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, num artigo publicado no iG há mais de um ano, ainda que existissem regras tão eficientes, “elas não se aplicariam ao outro lado das transações espúrias, isto é, aos corruptores”. No quesito “cidadãos virtuosos”, ressaltou o professor, o Brasil “hospeda sensacional taxa de corruptores”. Cito-o:

Do jovem motoqueiro insinuando uma gorjeta ao policial que o multa por excesso de velocidade ao indignado cidadão que esbraveja contra as instituições políticas, mas, enquanto feliz proprietário de um estabelecimento comercial, oferece modesta propina para que o fiscal ignore as insatisfatórias condições de segurança de incêndio de seu negócio – são raríssimas as exceções à cultura prevalecente no Brasil, segundo a qual é quase sempre possível esconder uma ilegalidade promovendo outra. E não há talvez brasileiro que nunca tenha sido objeto de ameaçadora pressão corruptora por parte dos profissionais liberais – médicos, advogados, dentistas, analistas, etc. – a cujos serviços recorre com frequência, deixando de cobrar-lhes recibos e tornando-se cúmplice de crimes fiscais.”

Nesse caso, lembra Wanderley Guilherme dos Santos, são os corruptos e corruptores que se consideram iguais na demanda por ética na política, e até justificam a violência niilista de alguns grupos em passeatas intimidantes pelas ruas de grandes cidades, comuns em junho do ano passado.

A banalidade do mal

Filosofia Prática Marcia Tiburi Editora Record 320 páginas; R$ 35

Filosofia Prática
Marcia Tiburi
Editora Record
320 páginas; R$ 35

Lembrei-me imediatamente do artigo do cientista político ao ler o livro de Marcia Tiburi, para quem a ética se tornou uma espécie de palavra mágica que teria o poder de “presentificar” a exigência nela contida. Em outras palavras, “(…) qualquer um que diz ‘ética’ põe em ação sua virtude de bumerangue: a pronúncia da palavra ‘ética’ convoca a ser ético aquele que fala. (…) Pronunciando algo como ‘ética’, alguém pode pensar que ela está autorrealizada como profecia; ao falar da falta de ética do outro, há quem acredita tornar-se automaticamente livre da falta de ética que pode estar justamente projetando no outro”.

Uma cultura de corrupção é como uma banalidade do mal, escreve Marcia Tiburi. Em termos filosóficos, o mal banal é a perversidade ao alcance de todos (para quem é curioso e topa filosofia, vale ler ou reler Hannah Arendt e seu As origens do totalitarismo, entre outros; na psicanálise Freud ainda pode ser uma leitura necessária, tanto o mal como “perversidade” quanto o sentido psicanalítico de “perversão”, mas aí é outra história).

O risco é quando nos acostumamos e aprendemos a conviver com o mal. “Somos convidados à corrupção como à máquina de tortura que, como oficiais, somos treinados para operar”, escreve, para mais adiante acrescentar:

“O mal torna-se algo entre nós trivial; não a exceção, mas a regra. No caso da corrupção, entendida como um gesto deliberado e inevitável em tomar para si o que pertenceria de direito a outrem (…), ela se torna um dado estranhamente afirmativo da cultura. O cinismo é elevado a razão social quando pensamos que a corrupção é inevitável. Se hoje podemos nos perguntar ‘quem não seria corrupto?’ é porque entendemos que a corrupção tomou aquele lugar do bem na autoconservação social em geral. A corrupção é a regra. Mal do nosso tempo, ela aparece como uma nova regra de qualquer conduta, uma contraditória ‘moral imoral’”.

Enfim, Marcia conclui: “Da governabilidade aos atos cotidianos, o corrompido mundo da vida, no qual ética e política cindiram-se há muito tempo, transformou-se na sempre saqueável terra de ninguém”.

Talvez a filósofa não tenha percebido a ingenuidade exposta neste trecho acima. Afinal, quando ética e política andaram sempre amalgamadas? Mais do que isso, quando a sociedade, em todas as épocas e em todos os povos, produziram cidadãos apenas virtuosos, tanto para a esfera pública quanto para a privada (da democracia elitista grega, do corrupto Senado romano às democracias contemporâneas, passando pelas políticas do Vaticano em todas as eras depois de Cristo)?

Apesar do breve desvio de rota, a curva argumentativa de Marcia Tiburi em Filosofia prática é permanentemente consistente. Não recai no histerismo de esquerda à la PSOL – que ela apoiou em 2014 – nem no niilismo antipolítica juvenil, próprio das passeatas de junho do ano passado, muito menos no udenismo de direita, versão tucana. algo que não se esperaria dela.

Do vazio de emoção real à realidade virtual

Mais: o foco discutido aqui, a política, revela algo que é sublinhado em maior relevo no livro, porém Marcia jamais ignora o que é a essência de uma “filosofia prática”, ou uma ética para o cotidiano: um debate sobre como nos tornamos quem somos, o que estamos fazendo com nós mesmos e como estamos vivendo uns com os outros. Por essa razão seu livro aborda de maneira igualmente criativa outros temas que correm paralelamente à política.

Como o vazio de emoção – ou a epidemia de melancolia e depressão, que contraditoriamente (ou previsivelmente) ocorre no mesmo compasso da força crescente de uma indústria cultural da felicidade (ou da obrigação de ser feliz).

Questionando a ideia da solidão como doença e a alegria transformada em mercadoria, nesse terreno, felizmente, Marcia Tiburi se esquiva da medida fácil adotada por alguns de seus pares: o combate aos prazeres. Nada disso. Para ela, os prazeres podem ser libertadores. O importante, afirma, é pensar em como os prazeres são inventados com a intenção de capturar “consumidores” pelo desejo de terem prazeres. Quais deles nos aprisionam? Quais realmente nos libertam? – ela questiona.

A filósofa também não rejeita outro tema que aborda no livro, as redes sociais – acompanhe seu Twitter e seu Facebook e saberá que ela é ativa nesse terreno. Quando trata do cotidiano virtual, o que mais lhe interessa é discutir como nossa vida está desdobrada nessa nova “realidade”, como uma prótese da própria existência – a vida “digital” como simulação que faz decrescer a “realidade real”.

Um debate que merecia uma pensata à parte, pois incorre num desvio comum a muitas reflexões: tende a minimizar fenômenos e constatações como:

a) a tecnologia afasta, mas também aproxima indivíduos, e mais encontros reais ocorrem graças à… tecnologia;

b) avatares e máscaras são apenas formas contemporâneas de obscurecer nossas personas reais, nada muito diferente do que personagens mais oblíquos (do mundo real ou da literatura) faziam para omitir o que desejavam omitir;

c) fantasiamos “virtualmente” tanto quanto casais que acabam de se conhecer “olho no olho”, “realmente”, projetando suas expectativas, desejos e fantasias no outro que esperam conquistar.

Essa é a riqueza do livro de Marcia Tiburi – abrir caminho para variadas e complexas reflexões. De uma importante luz para os conflitos éticos na política à reflexão sobre pequenas coisas da vida cotidiana, a vida anestesiada, angustiada, banalizada, cheia de marasmo ou de pequenas grandes alegrias – a “vida besta” de que falava Carlos Drummond de Andrade em seu “Cidadezinha qualquer”, que ela graciosamente cita numa nota de rodapé:

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.
Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar… as janelas olham.
Eta vida besta, meu Deus.

 

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sábado, 13 de dezembro de 2014 História, Política | 14:24

Depoimento de Dilma sobre tortura em relatório da CNV opõe presidente e Forças Armadas

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O depoimento em que relata a tortura sofrida na pele da militante política de codinomes Estela, Stela, Vanda, Luíza, Mariza e Ana põe em lados opostos a presidente Dilma Rousseff e as Forças Armadas que ela própria comanda. Os trechos do depoimento são conhecidos desde 2012, mas esta semana foram tornados nacionalmente oficiais num documento que promete reabrir o debate sobre a revisão da Lei da Anistia brasileira, de 1979 – o relatório da Comissão Nacional da Verdade, que pede a punição a 377 pessoas apontadas como responsáveis por crimes cometidos na ditadura militar (1964-1985) e admite 23 vítimas que até então o Estado brasileiro rejeitava. A Comissão incluiu os cinco generais que presidiram o País no período – Castello Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo. Dos 377 apontados, 196 estão vivos.

O mal-estar nas Forças Armadas vem de longa data. Manteve-se vivo durante todo o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com o trabalho da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos e a possibilidade de instauração da Comissão Nacional da Verdade, e tornou-se mais agudo depois que a presidente Dilma instituiu enfim a comissão, em 2011. O silêncio foi a regra entre os militares da ativa, contrastando com a grita da turma da reserva, sobretudo aquela reunida nos clubes Naval, Militar e da Aeronáutica – no dia seguinte à divulgação do relatório, os clubes divulgaram uma lista com 126 nomes de militares, policiais e civis que, segundo eles, foram mortos em ações da luta armada contra a ditadura militar. Segundo a nota, publicada em forma de anúncio em jornais do Rio, a intenção foi homenagear vítimas “desprezadas” pela CNV.

Somente dois dias depois da cerimônia de divulgação do relatório da CNV, um integrante das Forças Armadas rompeu o silêncio, e timidamente, sobre o assunto: o comandante da Marinha, almirante Julio Soares de Moura Neto. Durante inauguração do estaleiro de construção de submarinos da Marinha em Itaguaí (RJ), o almirante disse que a Comissão cumpriu seu papel e que a Marinha se debruçará sobre o relatório final. Afirmou que os comandantes militares não conversaram com a presidente sobre o relatório e que as Forças Armadas irão aguardar a orientação do governo para se posicionarem.

A ordem no Palácio do Planalto é seguir pisando com calma nesse terreno cheio de armadilhas, mas a banda do governo favorável ao trabalho da Comissão não esquece o dia da cerimônia em que a presidente sancionou a lei que criava CNV. O almirante e os outros dois comandantes das Forças Armadas – o general Enro Martins Peri e o brigadeiro Juniti Salto – deixaram claro, sem palavras, a discordância com a ideia de exumação do passado. Enquanto a ex-guerrilheira era aplaudida por toda a plateia ao sublinhar aquele “dia histórico”, segundo suas palavras, somente os três e o chefe do Estado-Maior Conjunto permaneceram contidos, mãos sobre o colo, imóveis. No código consentido dos comandantes militares, a ausência do aplauso foi interpretada de maneira explícita como uma forma de dizer pouco e insinuar muito.

A presidente Dilma Rousseff na cerimônia de entrega do relatório final da Comissão Nacional da Verdade. Foto: Alan Sampaio/iG Brasília

A presidente Dilma Rousseff na cerimônia de entrega do relatório final da Comissão Nacional da Verdade: “A verdade liberta daquilo que permaneceu oculto”. Foto: Alan Sampaio/iG Brasília

“Conhecer a verdade não significa reagir”

O relatório da CNV, instituída em 2011 para investigar as violações de direitos humanos cometidas por agentes do Estado entre 1946 e 1988, especialmente no período da ditadura instaurada em 1964, foi entregue na quarta-feira a uma presidente emocionada e chorosa. “Nós, que acreditamos na verdade, esperamos que esse relatório contribua para que fantasmas de um passado doloroso e triste não possam mais se proteger nas sombras do silêncio e da omissão”, ressaltou, negando que o trabalho do grupo nomeado por ela tenha sido pautado pelo ódio ou pelo revanchismo. “Conhecer a verdade não significa reagir, não deve ser motivo para ódio. A verdade liberta daquilo que permaneceu oculto”.

Oculto como a própria experiência que sofreu. Por opção, discrição ou precaução, a presidente Dilma sempre evitou falar sobre a tortura sofrida durante a ditadura. Não consta o depoimento dela nem nos arquivos no grupo Tortura Nunca mais, nem no livro Mulheres que foram à luta armada, do jornalista Luiz Maklouf, duas das obras de relatos de tortura mais importantes sobre o regime militar.

Em 25 de outubro de 2001, ainda secretária das Minas e Energia do Rio Grande do Sul, filiada ao PDT e longe de sonhar em ocupar a cadeira da Presidência da República, Dilma sentou-se diante de um jovem filósofo, Robson Sávio, então coordenador da Comissão Estadual de Indenização às Vítimas de Tortura do Conselho dos Direitos Humanos de Minas Gerais (Conedh-MG). A ele revelou detalhes das sessões de humilhações sofridas em Minas.

Dilma – ou Vanda, ou Estela, ou Luíza, ou outro de seus codinomes – militava no setor estudantil do Comando de Libertação Nacional (Colina), que mais tarde se fundiria com a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), dando origem à VAR-Palmares. Tinha 22 anos. Presa em Minas, foi colocada no pau de arara, apanhou de palmatória, levou choques e socos que causaram problemas graves na sua arcada dentária.

Neste depoimento ao Condedh se soube pela primeira vez que sofreu torturas em Minas (onde, segundo ela, exerceu 90% de sua militância durante a ditadura), e não apenas no eixo Rio-São Paulo. Até ser presa no DOI paulista, Dilma percorrera o ciclo de expansão das organizações clandestinas e chegou ao DOI quando a tortura as moía. Seria libertada dois anos e dois meses depois, com as devidas marcas físicas e emocionais deixadas pelas passagens nos porões do Rio e de Minas.

Dilma é interrogada no tribunal militar em 1970, aos 22 anos

Dilma é interrogada no tribunal militar em 1970, aos 22 anos

Com a palavra, a presidente:

“Algumas características da tortura. No início, não tinha rotina. Não se distinguia se era dia ou noite. Geralmente, o básico era o choque”.

“Se o interrogatório é de longa duração, com interrogador experiente, ele te bota no pau de arara alguns momentos e depois leva para o choque, uma dor que não deixa rastro, só te mina. Muitas vezes usava palmatória; usaram em mim muita palmatória. Em São Paulo, usaram pouco este ‘método’”.

“O estresse é feroz, inimaginável. Descobri, pela primeira vez, que estava sozinha. Encarei a morte e a solidão. Lembro-me do medo quando minha pele tremeu. Tem um lado que marca a gente pelo resto da vida”.

“A pior coisa que tem na tortura é esperar, esperar para apanhar. Eu senti ali que a barra era pesada. E foi. Também estou lembrando muito bem do chão do banheiro, do azulejo branco. Porque vai formando crosta de sangue, sujeira, você fica com um cheiro”.

“Eu vou esquecer a mão em você. Você vai ficar deformada e ninguém vai te querer. Ninguém sabe que você está aqui. Você vai virar um ‘presunto’ e ninguém vai saber”, era uma das ameaças ouvidas de um agente público no período em que esteve presa. “Tinha muito esquema de tortura  psicológica, ameaças (…) Você fica aqui pensando ‘daqui a pouco eu volto e vamos começar uma sessão de tortura’”.

“Uma das coisas que me aconteceu naquela época é que meu dente começou a cair e só foi derrubado posteriormente pela Oban. Minha arcada girou para outro lado, me causando problemas até hoje, problemas no osso do suporte do dente. Me deram um soco e o dente deslocou-se e apodreceu. Tomava de vez em quando Novalgina em gotas para passar a dor. Só mais tarde, quando voltei para São Paulo, o Albernaz completou o serviço com um soco arrancando o dente”.

“Acho que nenhum de nós consegue explicar a sequela: a gente sempre vai ser diferente. No caso específico da época, acho que ajudou o fato de sermos mais novos, agora, ser mais novo tem uma desvantagem: o impacto é muito grande. Mesmo que a gente consiga suportar a vida melhor quando se é jovem, fisicamente, mas a médio prazo, o efeito na gente é maior por sermos mais jovens. Quando se tem 20 anos o efeito é mais profundo, no entanto, é mais fácil aguentar no imediato”.

“Quando eu tinha hemorragia – na primeira vez foi na Oban – pegaram um cara que disseram ser do Corpo de Bombeiros. Foi uma hemorragia de útero. Me deram uma injeção e disseram para não me bater naquele dia. Em Minas Gerais, quando comecei a ter hemorragia, chamaram alguém que me deu comprimido e depois injeção. Mas me davam choque elétrico e depois paravam. Acho que tem registros disso até o final da minha prisão, pois fiz um tratamento no Hospital de Clínicas”.

“As marcas da tortura sou eu. Fazem parte de mim”.

Resistência militar prejudicou trabalho da Comissão

Apesar do elogio público e da emoção na divulgação do trabalho final da Comissão Nacional da Verdade, nos bastidores  o Palácio do Planalto achou genéricas as recomendações do relatório final (um exemplo: a criação de mecanismos de prevenção e combate à tortura), considerou que boa parte nem sequer depende da decisão do governo federal e, na avaliação discreta do Executivo, algumas sugestões chegam a ser irrealizáveis – como a desmilitarização das polícias militares estaduais.

Algumas entidades de direitos humanos sentiram-se frustradas, como o grupo Tortura Nunca Mais, que considerou o documento “superficial”. Mas outras, como a Anistia Internacional, avaliaram que o relatório dá um “passo importante para garantir o direito à memória, à verdade e à justiça”.  O cientista político Mauricio Santoro, do escritório da Anistia Internacional no Brasil, lembra, por exemplo, que o País chegou com 30 anos de atraso em relação aos vizinhos latino-americanos, e reconhece que a comissão brasileira nasceu com menos recursos e poderes do que suas contrapartes internacionais.

Por todos os lados, uma unanimidade: o reconhecimento de que uma das dificuldades enfrentadas pela CNV foi justamente a resistência das Forças Armadas de abrir a guarda e ajudar nas investigações. Enquanto generais argentinos e uruguaios assumiram publicamente atrocidades cometidas e igualmente comissões daqueles países ajudaram a Argentina e o Uruguai a não temer abrir cicatrizes fechadas do passado, os militares brasileiros não só se fecharam em copas como atacaram ferozmente as ações da CNV e seus integrantes.

Comandantes militares imóveis enquanto a plateia aplaude sanção da lei que institui a CNV, em 2011

Comandantes militares imóveis enquanto a plateia aplaude sanção da lei que institui a CNV, em 2011

Em setembro deste ano, o Ministério da Defesa enviou ofício à Comissão Nacional da Verdade, no qual admite que agentes do Estado ditatorial cometeram torturas, mataram e fizeram desaparecer os corpos de muitos militantes. A afirmação é assinada pelo ministro da Defesa, Celso Amorim. No documento o comandante do Exército diz que não lhe cabe se manifestar sobre o tema; o comandante da Aeronáutica ressalta não poder contestar o reconhecimento das atrocidades; o da Marinha, que não consegue negar nem confirmá-lo.

Um mês antes, o Ministério da Defesa declarara à comissão que, segundo os militares, não teria havido “desvio de função nos quartéis durante o regime autoritário. O que isso significaria? Que os militares não reconheciam a prática de tortura? A jornalista Miriam Leitão questionou Amorim em seu programa na Globo News. Perguntou-lhe de forma incisiva, o ministro gaguejou, hesitou e respondeu de forma evasiva. Poucos dias depois o comandante do Exército, general Enro Peri, ordenou que seus subordinados lhe encaminhassem todas as demandas das comissões da verdade, proibindo-os de atendê-las por iniciativa própria. Para os parentes de vítimas da ditadura, o gesto revelou-se uma tentativa de obstruir as investigações sobre o regime. Em carta à presidente Dilma, pediram a exoneração de Peri. Não conseguiram. O ministro da Defesa apoiou o general.

Mais pensatas sobre tortura, torturadores e militares durante a ditadura de 1964:

Por que os militares de hoje não admitem os crimes cometidos pela ditadura? 

Quem está mentindo sobre tortura: Dilma ou os generais?

De um torturador para uma jovem: “Você vai sofrer como Jesus Cristo

“Torturador é humano, cruel e consciente do que faz”

 

 

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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014 Literatura, Sociedade | 16:29

Segredos de justiça revelados por uma juíza especialista no fim do amor

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É do escritor russo Liev Tolstói a afirmação de que as famílias felizes se parecem, e as infelizes são infelizes cada qual à sua maneira. Em Segredo de Justiça, livro lançado recentemente pela Agir (selo do Grupo Ediouro), a juíza e escritora Andréa Pachá ousa refutar a tese do autor de Guerra e paz e Anna Karenina. Com suas 45 histórias reunidas no livro – concebidas a partir de sua experiência como juíza da Vara de Família – Andréa intui que, tanto na felicidade quanto na infelicidade, cada história é única, cada dor é individualizada, “e as soluções não deveriam servir de parâmetro moral para quem quer que seja”, como escreve numa delas.

Andréa é uma juíza respeitadíssima, uma mulher de sensibilidade aguda e uma escritora de texto envolvente, humor inteligente, sutil ironia e notável compaixão. Ela consegue uma proeza ao unir ficção e realidade: revela segredos de justiça, sem violar os processos que tramitam em Varas de Família como a que a esteve durante mais de 15 anos. Andréa preserva, portanto, o direito de milhares de casais que passaram pelos seus olhos. São histórias de ficção, que emergiram de suas observações e de seu talento para transformar em literatura a riqueza do real.

Segredo de Justiça Andréa Pachá Editora Agir,  208 páginas, R$ 29,90

Segredo de Justiça
Andréa Pachá
Editora Agir,
208 páginas, R$ 29,90

Esta juíza que já se aventurou com enorme competência também pelo teatro é o que o diretor e amigo Aderbal Freire-Filho batizou de “especialista em fim do amor”. Afinal, pelas suas mãos e pelos seus juízos passaram incontáveis casais devastados pela dor do fim do amor.

A vida não é justa

Tive o privilégio de editar o seu livro anterior, publicado na primavera de 2012, também pela Agir: como Segredo de justiça, A vida não é justa também era uma espécie de literatura de não-ficção, ou reportagens de ficção, como queiram. (Edição, naquele caso, é um nome superestimado a classificar o trabalho de receber os textos prontos e primorosos e apenas reordená-los). Como este novo livro, agora editado por Carolina Chagas, o primeiro prendia igualmente a atenção do leitor do começo ao fim.

A diferença entre um e outro é que a A vida não é justa tratava mais diretamente do fim do amor. Segredo de Justiça, com os desdobramentos da vida depois do fim do amor. Concentra-se mais em como a vida continua depois, nas disputas de pensão e de paternidade, patrimônio, velhice, além de outros elementos desta fase, ainda que já presentes de passagem no primeiro.

A vida não é justa revelava a atitude angustiada de alguém sem chão que vê o seu homem ou sua mulher partir; que se depara com o fim inevitável de uma história iniciada tão apaixonada; que buscava, ainda inerte, o caminho depois do fim. Nesse conjunto, havia algumas histórias mais curiosas, como o senhor que pedira o divórcio da mulher de 65 anos, depois de descobrir que ela entrava na internet, cheia de tesão virtual, sob o pseudônimo de “Molhadinha 25”.

Segredo de justiça é um livro mais melancólico, porém talvez mais maduro e revelador da complexidade humana. A autora se choca, e o leitor também, com as disputas renhidas entre ex-casais, quase invariavelmente machucados pela separação. Assistimos, assim, aos registros de imaturidade afetiva, insensatez, egocentrismos. Vemos quão rara é a generosidade nesses casos presenciados pela narradora. “Eu só queria entender quem é essa pessoa sentada aqui, na minha frente”, diz uma atônita personagem diante da juíza e do homem com quem dividiu a vida por tantos anos. “Não acredito que você se transformou nesse lixo, Rico”.

Compreensível pela falência dos amores que pareciam eternos? Justificáveis porque os casais estão ali não para celebrar a alegria de estar juntos, mas para marcar o fim de sua união? Talvez. O que fica claro, é certo, é o tamanho e a forma da judicialização da vida – o quanto as pessoas esperam que a Justiça recomponha o que o amor acabou. E como não conseguem, saem dali com a sensação de injustiça reafirmada.

A juíza e escritora Andréa Pachá: a dor é individual, mas somos repetições nos afetos e nos desamores

A juíza e escritora Andréa Pachá: a dor é individual, mas somos repetições nos afetos e nos desamores. Foto: Divulgação

A juíza-terapeuta

Com a sabedoria, a sensibilidade, a razão e a experiência, a juíza-escritora-narradora tenta prometer que a dor passa. A vida segue, as pessoas se transformam, e a dor passa. E é aí que se retoma o dilema acertadamente apontada por Tostói: a dor individualizada. Nisto Segredo de Justiça concorda: não há dor maior do que a experiência individual.

Em várias histórias, a juíza é não só uma conciliadora mas alguém em busca de redução de danos. A uma mulher que lhe conta que “fez um câncer” e foi abandonada pelo marido, ela responde: “Não, não fez, não foi você que causou essa doença maligna ao ser abandonada, não se culpe por seu sofrimento”.

Não por outra razão, o filósofo Renato Janine Ribeiro, que apresenta o livro, mostra que Segredo de Justiça não se preocupa com a felicidade nem com a justiça, mas com a verdade. Diz ele:

“A vida não é justa: pessoas que foram boníssimas, que de tudo fizeram para serem ótimos companheiros ou genitores, nem sempre são reconhecidas ou premiadas – assim como quem foi ou é mau conhece, tantas vezes, o sucesso. A vida é indiferente à justiça. Pessoas ótimas padecem, pessoas más florescem.”

Felicidade, para Andréa Pachá, não está no rol dos direitos. Muito menos é uma obrigação. Para ela, abraçando a causa de bons filósofos, compreender nossa humanidade nos faz mais responsáveis pelo nosso destino – e isso significa reconhecer e encarar as dores e os sofrimentos. E reinventar-se para tanto. O agravamento da dor se deve em grande parte pela idealização da perfeição, incluída aí a idealização do amor e do casamento.

Há um paradoxo aí, e Andréa Pachá reconhece: a dor pode ser individualizada, mas somos todos iguais. Na alegria e na tristeza. Explica-se: há pouca originalidade nas nossas contradições, nos nossos afetos, nos nossos amores e desamores. Como ela diz, “somos todos, de alguma forma, repetições de histórias contadas por tantos quanto os que nos enxergam”. Alegrias extremas e tristezas profundas, portanto, compõem essa “montanha russa” de existência em que embarcamos todos: “humanos, desamparados e esperançosos”.

Amor traz dor, mas sem amor é paz de cinzas

Andréa Pachá não cita explicitamente, mas intuo que ela concorda com a existência de outro paradoxo: ao mesmo tempo em que precisamos negar esta idealização excessiva do amor romântico e da felicidade, sob pena de uma vida de frustrações e de peso demasiado sobre o outro, também não podemos abdicar de uma aspiração mais elevada, ou desumanizamos nossos afetos.

Pode-se adotar uma visão cética do amor, como o psicanalista Contardo Calligaris, para quem uma das boas razões para se casar é a seguinte: uma vez casados, podemos culpar o casal por boa parte de nossas covardias e impotências.

O marido, por exemplo, pode responsabilizar mulher, filhos e casamento por ele ter desistido de ser o aventureiro que ainda dorme, inquieto, em seu peito. A mulher tem a quem culpar por jamais ter tornado realidade o sonho romântico de amor avassalador e irresistível, do qual elas desistem por causa do marido, filhos e casamento.

(Dom Quixote se queixa de que sua mulher esconde seu livros de cavalaria e o impede de sair à cata de moinhos de vento, e Madame Bovary lamenta que seu marido esconde seus livros de amor e a impede de sair pelos bailes, em busca de paixões sublimes e elegantes.)

Pode-se, por outro lado, recorrer a uma perspectiva mais lírica, como a de José Miguel Wisnik, que uma vez se perguntou: “É permitido dizer que o mundo é pobre para quem jamais foi doente o bastante para a paixão?” Para Wisnik, o acorde entre o desejo de permanência (onde se inscreve o amor) e o fato de que essa permanência não pode se apoiar em nada senão no seu próprio desejo de permanência é um desafio aberto. Um luta constante.

Entre um e outro, pode-se recorrer novamente a uma ideia, já citada aqui, do psicanalista Jurandir Freire Costa, em seu livro Sem fraude nem favor: estudos sobre o amor romântico: “Sem amor estamos amputados de nossa melhor parte. A vida pode até ser mais tranquila e livre  de dores quando não amamos. Mas trata-se de uma paz de cinzas”.

Andréa Pachá sabe – e mostra muito bem em Segredo de Justiça – que se pode buscar uma vida mais feliz e mais justa, como lembra Janine Ribeiro, mas nunca uma vida plenamente feliz e justa. Sempre a pequenos passos. Com seus sabores e dissabores inevitáveis.

Para ler mais sobre o tema na coluna:

Aprenda a amar como os franceses

Os homens ainda podem sentir? 

Solução de um filósofo contra o fracasso do casamento: o “amor suave”

Tem um amor não correspondido? Escreva um livro

 

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