Publicidade

Arquivo do Autor

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015 Literatura | 12:17

Raul Pompeia inaugura série de autores brasileiros em coleção de clássicos da Zahar

Compartilhe: Twitter

Após publicar clássicos internacionais como Sherlock HolmesO mágico de Oz  e O conde de Monte Cristo, a editora Zahar traz a nova edição de O Ateneu, de Raul Pompeia, primeiro título brasileiro a integrar a coleção Clássicos Zahar. Esta edição traz as 44 ilustrações originais do autor, com apresentação de Ivan Marques e notas de Aluizio Leite.

O Ateneu Raul Pompeia Editora Zahar 264 páginas R$ 39,90; R$ 19,90 (e-book)

O Ateneu
Raul Pompeia
Editora Zahar
264 páginas
R$ 39,90; R$ 19,90 (e-book)

Publicado originalmente em folhetim na Gazeta de NotíciasO Ateneu foi escrito entre janeiro e março de 1888. O livro traz a história de Sérgio, menino de onze anos pertencente a uma família bem posicionada na aristocracia do Rio de Janeiro do fim do século XIX, e seu ingresso no colégio interno Ateneu, coincidindo com o período de transição da infância à adolescência.

Trata-se de um livro de difícil classificação, visto que possui aspectos do naturalismo fundidos ao memorialismo e a impressões subjetivas. “O Ateneu é de fato inclassificável, não só porque não se filiou a nenhuma escola, mas também por ter escapado da escravidão dos gêneros, transitando livremente entre a ficção, a poesia e o ensaio”, afirma Ivan Marques na apresentação desta edição.

Fica clara a inserção do ensaio ao longo do livro nas palestras de Dr. Cláudio, professor do Ateneu que ministra conferências semanais aos alunos, as quais o crítico Lêdo Ivo chama de “ilhas ensaísticas”. Na boca desse personagem, Raul Pompeia tem a oportunidade de expor reflexões sobre temas como arte e o sistema de ensino.

Os críticos levantam o possível caráter autobiográfico da obra, sendo que Raul Pompeia mudou-se ainda criança para o Rio de Janeiro e, aos dez anos de idade, ingressou como interno no Colégio Abílio, dirigido pelo barão de Macaúbas, que seria inspiração para o diretor do Ateneu, Aristarco. No livro, este é apresentado em forma próxima à divina, podendo assumir desde o aspecto de um pai amoroso até atingir “a fúria tonante de Júpiter-diretor”.

O Ateneu, narrado pelo adulto que recorda os tempos de criança, não pode ser considerado um exemplo típico de memorialismo. Silviano Santiago, em seu livro Uma literatura nos trópicos, atenta para a peculiar separação entre o Sérgio-narrador e aquele que atua, o Sérgio-personagem. Essa distinção fica nítida com o estilo sofisticado e a linguagem rebuscada que o narrador escolhe, improváveis a uma criança de apenas onze anos.

Alfredo Bosi, no livro Céu, inferno, fala na existência de um “juiz-narrador” em O Ateneu, que faz uma crítica feroz do colégio e de seus membros, destoando do tímido e amedrontado Sérgio enquanto criança e aluno.

Silviano Santiago afirma que, após as primeiras páginas, “o livro deixa de ser de memórias, introspectivo, para se apresentar tecnicamente como um agressivo romance em que o narrador se esquece de si para analisar imaginariamente os sentimentos e as emoções do outro”.

Dentro dos muros da escola

“Ateneu era o grande colégio da época. Afamado por um sistema de nutrido reclame”, informa o narrador logo no início do livro. Os pais de famílias mais abastadas enviam seus filhos ao internato mais por uma questão de prestígio do que de qualidade de ensino.

A experiência escolar de Sérgio antes do Ateneu resume-se a alguns meses em uma escola familiar não muito rígida: “Entrava às nove horas, timidamente, ignorando as lições com a maior regularidade, e bocejava até as duas”.

O primeiro contato de Sérgio com o Ateneu é em uma festa de encerramento das atividades escolares, em que são apresentados contos, discursos e poesias declamadas em diversas línguas. A segunda visita é durante a festa da educação física, em que são exibidas demonstrações de força e acrobacias.

Dessa forma, as duas primeiras impressões são de admiração pelas exibições dos alunos, a primeira de ordem intelectual e a segunda, física. Esses primeiros contatos servem para que a criança situe o colégio próximo da perfeição. “É fácil conceber a atração que me chamava para aquele mundo tão altamente interessante, no conceito das minhas impressões”, diz o personagem.

Dentro do colégio, Sérgio percebe que nem todos os dias são brilhantes no Ateneu: “Desiludi-me dos bastidores da gloriosa parada, vendo-a pelo avesso. Nem todos os dias do militarismo enfeitam-se com a animação dos assaltos e das voltas triunfais”.

No internato, vale a “lei do mais forte”. Os novatos são agredidos “fraternalmente” pelos veteranos.  Num colégio a que somente meninos têm acesso, com professores homens e um diretor que se diz o exemplo paterno para seus alunos, as aparições femininas são raras e resumem-se praticamente à mulher do diretor, que encarna a figura materna, e à criada da casa, erotizada no livro.

Com a quase ausência de mulheres, os meninos são divididos entre fracos e fortes. “Nada de protetor” é o conselho que o mais velho da turma dá a Sérgio. Ter um protetor equivale a ocupar a posição de “mais frágil”, submisso a alguém superior.

O diretor fica dividido entre expulsar ou não os maus alunos. É necessário manter intactas as bases morais da instituição, grande propaganda do Ateneu. Por outro lado, expulsões significam menos alunos pagando mensalidades, o que poderia levar à falência. Assim, alguns delitos acabam sendo tolerados. Outros, como as manifestações homossexuais, são punidos com a exposição pública dos envolvidos. “A imoralidade entrou nesta casa”, brada Aristarco em um desses casos, em que um romance entre dois alunos é descoberto. O casal é humilhado diante de todos os outros estudantes.

O livro das notas é “a mais terrível das instituições do Ateneu”. Lido em público, traz elogios a alguns alunos, mas também as últimas ocorrências e anotações sobre os alunos cujo desempenho está em decadência. As reclamações (e as penas subsequentes) variam, entre outros fatores, de acordo com a situação social da família do aluno.

A primeira punição é o julgamento dos demais, que Bosi chama de “fenomenologia do olhar”. O medo dos olhares dos outros aparece nas primeiras cenas de convivência escolar, em que Sérgio é convidado a ir à frente da sala e enfrenta um momento de pânico.

Narrativa de destruições

O livro faz um recorte da vida de Sérgio, relatando o ingresso no internato, acompanhado do fim da infância. Ao apresentar-se para a matrícula, o diretor pede que o menino corte seus cabelos, compridos e em cachos. As mechas são símbolo da infância sendo retirada. A mulher do diretor aconselha que o menino ofereça-as à mãe: “É a infância que ali fica, nos cabelos louros”.

A frase de abertura do livro, dita pelo pai ao filho diante do colégio, também alude ao rompimento com a infância: “Vais encontrar o mundo. Coragem para a luta”. O que se segue é o choque de trocar o ambiente familiar por um internato. “Não havia mais a mão querida para acalentar-me o primeiro sono”, reclama Sérgio.

As recordações infantis dialogam com a história do Brasil. O livro foi escrito em 1888, próximo do fim do período imperial. Alguns traços da campanha republicana podem ser observados no livro. Na festa da educação física, o filho do diretor recusa-se a beijar a mão da princesa Isabel, presente à cerimônia. A manifestação republicana do filho causa a vergonha e a reprovação de Aristarco.

O colégio, assim como o período imperial, caminha para o fim. No momento da matrícula de Sérgio, este nota uma “pontinha de aborrecimento” no semblante do diretor e supõe se tratar de uma decepção relacionada às finanças: “O número dos estudantes novos não compensando o número dos perdidos, as novas entradas não contrabalançando as despesas do fim do ano”.

Ao longo das páginas, vai sendo exposta a decadência da instituição, representativa de uma sociedade que seria repensada e reorganizada com a República. A glória do colégio, bem como a do período imperial, é mostrada em seu último suspiro. Aristarco, que tem um busto fundido em sua homenagem, vê sua soberania se esvaindo, assim como os últimos representantes do Império no Brasil.

Autor: Tags: , , , , , ,

domingo, 8 de fevereiro de 2015 Política, Sociedade | 06:00

Reflexões sobre as manifestações no Brasil, os novos desafios dos jovens e a agenda contra irregularidades políticas

Compartilhe: Twitter

Em junho de 2013, o Brasil parou com milhares de pessoas protestando nas ruas. O que começou com insatisfação contra o aumento da tarifa do transporte público expandiu-se para outras causas, transformando-se em grandes manifestações que se espalharam pelo País, refletindo uma indignação generalizada dos brasileiros. São ecos dos protestos que, na época, esperava-se que produzissem efeitos radicais nas eleições de 2014 – algo que não ocorreu.

Os acontecimentos de junho não foram inéditos. Nos anos anteriores, manifestações já tomavam as ruas para fazer uma série de reivindicações. O Movimento Passe Livre já havia organizado atos em outras ocasiões, contra o aumento da tarifa. “Junho de 2013 foi apenas uma espécie de encontro catártico de tudo o que estava acontecendo”, opina a arquiteta e urbanista Raquel Rolnik.

A artista Maria Borba, a pesquisadora Natasha Felizi e o ativista João Paulo Reys, observando esses movimentos, decidiram colocar no papel as discussões sobre o que estava acontecendo no País. A ideia era produzir um jornal, que seria distribuído nas manifestações. “Foi uma alegria muito grande ver que a insatisfação ganhava força a ponto de ser colocada para fora”, conta Maria Borba. A ideia cresceu e virou o livro Brasil em movimento – Reflexões a partir dos protestos de junho, publicado recentemente pela editora Rocco.

Brasil em movimento Maria Borba, Natasha Felizi E João Paulo Reys (organizadores) Editora Rocco 448 páginas, R$ 59,50

Brasil em movimento
Maria Borba, Natasha Felizi e João Paulo Reys (organizadores)
Editora Rocco
448 páginas, R$ 59,50

João Paulo Reys faz um panorama dos protestos no início do livro, abordando os pronunciamentos das autoridades políticas e a repressão policial que marcou as manifestações. Reys faz uma crítica ácida à mídia, apresentando editoriais da Folha de S. Paulo e do Estadão, que chegaram a usar termos pejorativos como “grupelho” e “baderneiros”.

Os organizadores convidaram um grupo diverso para integrar o livro, passando por historiadores, filósofos, políticos, economistas, arquitetos e outros especialistas que escreveram sobre as manifestações e sobre a situação atual do País, cada um contribuindo da forma como julgasse mais adequada, com textos ou entrevistas. De João Pedro Stédile, do MST, ao economista Carlos Lessa. Do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ) ao músico e compositor Jorge Mautner. Do economista Gustavo Franco ao historiador e político Vladimir Palmeira.

Alguns artistas optaram por participar mostrando trabalhos ligados ao tema. Cildo Meireles cedeu a obra Buraco para jogar políticos desonestos. De maneira irônica, a tela mostra uma fenda a partir do Senado, que leva diretamente ao centro da Terra. Carmela Gross apresenta seu trabalho Serpentes. As cobras, desenhadas em grafite, representam a população nas ruas. “Eu estava pensando num ponto de vista o mais baixo possível, o das serpentes, aquele ser mais baixo que se arrasta no chão”, explica a artista.

O que Carmela Gross chama de “serpentes”, Paulo Mendes da Rocha chama de “infecção”. Para o arquiteto, entrevistado para o livro, as manifestações são um movimento em massa de pessoas que buscam um modo de vida que nem sempre é conveniente à ordem estabelecida, causando incômodo, assim como uma infecção.

Alguns escritores contribuíram com artigos e crônicas. É o caso de André Sant’Anna, que faz uma crítica bem humorada sobre “a nova classe média” e os itens que a sociedade vem consumindo, de produtos vendidos como saudáveis até religiões e ideias na televisão.

O líder Yanomami Davi Kopenawa, que tem militado pela causa indígena e ambiental no Brasil, foi entrevistado para o livro e falou sobre a dificuldade que as lideranças de seu meio têm encontrado para levar suas propostas adiante e sobre a importância das manifestações nas grandes cidades: “O povo da cidade não pode parar, vamos reclamar juntos”.

Maria Borba (à esquerda) entrevista Paulo Mendes da Rocha, Raquel Rolnik, Lúcio Gregori e Carmela Gross em evento em São Paulo

Maria Borba (à esquerda) entrevista Paulo Mendes da Rocha, Raquel Rolnik, Lúcio Gregori e Carmela Gross em evento em São Paulo

Brasil em movimento acabou não saindo no calor das manifestações de 2013. Isso porque sempre surgiam novas ideias e novos entrevistados que os organizadores gostariam de incluir. “O Brasil é múltiplo. De algum modo instintivo, havia o desejo de escutar pessoas de muitos setores da sociedade”, diz Maria Borba.

Nem todos os que foram convidados a contribuir concordaram em participar e alguns questionaram a iniciativa dos organizadores. Foi o caso do cantor e compositor Gilberto Gil que, logo no início da entrevista, transcrita no livro, dispara: “Por que tão rápido, um livro?”. Ele achou “prematuro e precipitado” o trabalho, mas concordou em falar sobre as manifestações e o momento atual do Brasil. “A expectativa agora é de que finalmente vamos poder dobrar a institucionalidade política, do poder econômico, do poder cultural, das comunicações”, diz.

Maria Borba explica a impossibilidade de se cristalizar uma análise única sobre os acontecimentos e a necessidade de se reproduzirem pensamentos ainda em formação. “Nesse momento, é complexo discutir o que acontece nas ruas”, opina Raquel Rolnik. Para ela, o momento é o de interpretar os movimentos. “A disputa de discurso é tão importante quanto a rebelião na rua”, diz.

Além das tarifas

O anúncio do aumento das tarifas do transporte público no início de junho de 2013 causou protestos em São Paulo e no Rio de Janeiro, levando milhares de pessoas às ruas. Rapidamente, as manifestações se espalharam por todo o País e começaram a reunir também outras reivindicações.

O engenheiro Lúcio Gregori, entrevistado para o livro, lembra que o Brasil possui um dos maiores PIBs (produto interno bruto) do mundo. No entanto, os níveis de subsídio ao transporte público não passam dos 20%, enquanto que em outros países podem chegar a 70%.

O engenheiro defende a implantação da tarifa zero em etapas. No longo prazo, haveria vantagens como a movimentação do comércio e o incentivo ao uso do transporte público pela população, diminuindo congestionamentos e melhorando a qualidade de vida. “A catraca impede as pessoas de aproveitar a vida nas cidades”, opina.

Ao longo dos protestos, outras pautas foram levadas às ruas, como os questionamentos quanto aos gastos na área esportiva, com a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, sendo que setores como saúde e educação permanecem carentes de recursos.

Maria Borba avalia essa agregação de novas pautas como resultado de uma insatisfação geral no País. Para Raquel Rolnik, as tarifas foram apenas uma “fagulha” que despertou uma série de indignações. “Nós estamos vivendo a era das rebeliões. Isso não é apenas aqui no Brasil, isso é internacional”, diz.

Depois de junho

Raquel Rolnik afirma que tem notado a angústia por parte das pessoas que foram às manifestações e esperavam uma resposta imediata. Ela dá dois conselhos a essas pessoas: “Calma: não acabou em junho de 2013, tem muita coisa pela frente. E olho aberto: não vamos nos deixar enganar pelas interpretações fáceis do que está acontecendo”.

Para Maria Borba, a maior conquista foi a consciência da população de seu poder de realizar mudanças. “Há um desafio imenso no que diz respeito à qualidade básica de vida dessa população que dizemos que agora está inclusa”, opina.

Lúcio Gregori faz uma proposta: prestigiar a juventude brasileira e, em especial, o Movimento Passe Livre. Para ele, são jovens que têm propósitos objetivos e estão trabalhando para conquistá-los, destoando da imagem de jovens que é transmitida pelos canais de televisão. Paulo Mendes da Rocha complementa: “Nascemos para continuar, portanto jovens somos todos nós”.

Autor: Tags: , , , , , , , ,

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015 Literatura | 06:00

Coletânea de contos traz cenas do dia a dia recheadas de mistérios

Compartilhe: Twitter

O leitor corriqueiro, que lê entre uma atividade e outra e se perde facilmente, terá de redobrar a atenção ao ler Dez centímetros acima do chão, publicado recentemente pela Cosac Naify. Isso porque o autor, Flavio Cafiero, inseriu uma série de armadilhas que podem enganar facilmente em uma leitura desatenta.

O escritor publicou seu primeiro livro em 2013, O frio aqui fora, também pela Cosac Naify, após trocar a carreira no mundo corporativo pela literatura (leia mais na entrevista abaixo). O livro de estreia foi finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura.

Dez centímetros acima do chão é sua primeira coletânea de contos, escritos ao longo de mais de cinco anos. São ambientados em locais do cotidiano da maioria das pessoas, como um apartamento, um escritório ou o transporte público.

Dez centímetros acima do chão Flavio Cafiero Cosac Naify 160 páginas, R$ 32,00

Dez centímetros acima do chão
Flavio Cafiero
Cosac Naify
160 páginas, R$ 32,00

As narrativas, simples apenas na aparência, escondem provocações que contribuem para formar uma teia complexa. É o caso de O atirador de facas, que parte de um jantar entre amigos de longa data que se reencontram. As notas de rodapé deste conto criam uma história paralela, que pode ser entendida como um complemento à história principal. Ou seriam essas notas a narrativa principal? Fica a dúvida. Este e outros contos trazem mistérios e ideias que ficam suspensas.

Em contos como Arabescos, as notas de rodapé fazem a tradução para o português de falas em outros idiomas. Em determinado momento, as notas passam a traduzir os próprios pensamentos e as críticas dos personagens. “A ideia era tratar o rodapé de forma diferente de sua função habitual”, explica Cafiero.

O mistério se intensifica em A última aventura do herói. O que se assemelha a um script de reality show acaba com diversas tarjas pretas recobrindo o que parecem ser partes essenciais do texto, mas permanecem incógnitas ao leitor.

As situações são corriqueiras, como um passeio pela cidade ou um dia no trabalho. Mas se engana quem imagina conflitos fáceis de serem resolvidos. A decisão de não passar mais creme hidratante na pele, no conto Orcas, evolui para uma situação de desespero do personagem, que fica imaginando todo o caos que pequenas decisões suas podem provocar.

A seguir, Flavio Cafiero conta como se tornou escritor e como foi a criação de Dez centímetros acima do chão.

***

Como foi seu início na literatura?
Escrever, como em muitos casos conhecidos, foi sonho de infância, adiado por muitos anos em prol de uma carreira que me sustentasse. Tornei-me publicitário, executivo de uma multinacional de varejo. E o sonho de ser escritor acabou voltando depois de um tempo congelado. Acho que todo sonho de infância retorna, um dia, para assombrar a gente. Tive um momento de crise profissional na empresa em que trabalhei por quase 14 anos e a ideia de tentar a carreira nas artes veio à tona. Aproveitei a deixa. Era naquele momento ou nunca, tinha 35 anos. Essa transição serviu de inspiração para meu primeiro romance, O frio aqui fora. Arrisquei, estudei, fiz cursos de escrita criativa e dramaturgia, e agora começo a colher os primeiros frutos, com dois livros pela Cosac Naify (O frio aqui fora e Dez centímetros acima do chão), um e-book pela e-Galáxia (O capricórnio se aproxima) e uma peça de teatro (Antes de mais nada, com direção de Zé Henrique de Paula).

O escritor Flavio Cafiero

O escritor Flavio Cafiero

Como foi o processo de elaboração de Dez centímetros acima do chão?
O livro é uma compilação de contos escritos ao longo de cinco ou seis anos. Alguns são versões retrabalhadas de contos que escrevi logo no primeiro ano depois de me demitir da empresa. Outros foram escritos numa segunda etapa, ao longo do curso de escrita criativa que fiz com Noemi Jaffe. Uma terceira parte é mais recente, já de um período pós-publicação.

Os contos sofreram alguma mudança desde o início desse processo?
Retrabalhei muito. Reescrevi. Acredito nesse trabalho de reescrita, de tentativa e erro, de buscar novas formas de dizer o que já disse. É fundamental pra mim. Só fico satisfeito quando chego num ponto que não sei bem qual é, mas parece com um estado de imperfeição, de incômodo, de susto. Quando consigo me assustar com meu próprio texto, começa a ficar bom. Mas é trabalho, é suor. Alguns contos também foram cortados, saíram na etapa final, porque penso que uma coleção precisa de certa unidade, precisa ficar de pé, ter solidez de obra.

Que ambientes serviram de inspiração para os contos?
O Rio de Janeiro é muito presente. Moro há 19 anos em São Paulo, mas o Rio sempre me pega pelo pescoço. A inspiração sempre vem de lugares recônditos, não vem do ar, não é espiritual. É a escrita que puxa, e puxa de lugares escondidos. E o que tem nos lugares escondidos? Geralmente, a infância.

Em contos como O atirador de facas, as notas de rodapé constituem em si uma narrativa. Comente a inserção dessa e de outras provocações.
A ideia era tratar o rodapé de forma diferente de sua função habitual. Geralmente os rodapés acrescentam informações que, de certa forma, são dispensáveis para a compreensão do texto. Quis que fosse o contrário, que o rodapé modificasse totalmente o sentido da história, acrescentando camadas até mesmo discordantes. Em O Atirador de facas, o rodapé resgata o passado e ilumina o presente, modificando o olhar do leitor sobre os personagens. Em Cavo varo, o rodapé é uma voz dissonante, uma espécie de camada esquizofrênica. Em Arabescos é um clássico subtexto teatral, brincando com a ideia de tradução. Em A última aventura do herói, o rodapé vem mimetizado de rodapé tradicional, mas complica, lança uma história maior dentro de uma realidade menor, e põe em dúvida o corpo do texto. São experiências, brincadeiras. Mas os rodapés são partes inseparáveis dos contos. Lê-los com displicência, como fazemos geralmente com as notas, é exatamente a armadilha. Quem cai na armadilha, perde o conto.

Fale sobre as ironias em As últimas aventuras do herói.
Ah, esse conto é doido. Joguei ali um repertório de leituras afetivas, de Campbell, de Jung, de Sartre e Camus, de Borges e Cortázar. Ficou uma salada contemporânea, confusa e fragmentada, e era essa a intenção. A ideia era tratar um esboço de roteiro de um reality show como se fosse um artefato arqueológico encontrado daqui a séculos. A partir daí, me debruço sobre o que penso que é viver nesse início de século 21. É complicada, essa vida sem amarras, sem alicerces. É bom, mas é angustiante. É disso que tento falar no conto.

Qual é a imagem do herói hoje?
Na minha visão, a imagem do herói perdeu o sentido no mundo atual. Estamos na era da celebridade, do instantâneo. Todos somos heróis, ou nos enxergamos assim, e, desta forma, ninguém o é. O herói acabou, é ruim, sua morte nos dissocia de uma tradição milenar que é muito valiosa, nos divorcia da ideia de tempo, maturação, descoberta, transformação, processo. É uma longa conversa, uma conversa triste. 

Você tem observado cotidianos como o de Orcas, em que a rotina pode levar a um estado de desespero?
O tempo todo. O próprio clichê do “tô surtando”, que todo mundo repete todo dia, nasce de uma realidade angustiante, de crise de identidade diária, um estar no mundo sem chaves pré-definidas de compreensão, um avião sem manual, uma orca sem adestrador. É o grito do Munch.

Autor: Tags: , , , , , , ,

sábado, 20 de dezembro de 2014 História, Literatura, Política | 07:00

Coletânea conta a ditadura na voz de 18 autores e organizador se choca com quem prega hoje a volta dos militares

Compartilhe: Twitter

Perseguição política, violência, medo e o peso de chumbo imposto pelo regime instaurado em 31 de março 1964 são alguns dos temas dos 18 contos que compõem Nos idos de março, antologia publicada recentemente pela Geração Editorial. O livro tem organização do escritor Luiz Ruffato e traz autores que tiveram diferentes relações com a ditadura militar no Brasil. São 18 vozes da literatura que viveram durante e após o golpe e, juntos, fazem uma espécie de desfecho de um ano que marcou o cinquentenário do início da ditadura que duraria longos 21 anos.

Nos idos de março Luiz Ruffato Geração Editorial 288 páginas; R$ 29,90

Nos idos de março
Luiz Ruffato
Geração Editorial
288 páginas; R$ 29,90

Foi um 2014 repleto de lançamentos relevantes (Pensata analisou alguns deles; veja lista ao fim deste post). O tema se somou a um ano de forte calor eleitoral, graças à sucessão presidencial, o que escancarou preconceitos e opiniões polêmicas nas redes sociais.

“Temos hoje algumas pessoas ignorantes ou desavisadas que pregam a volta da ditadura”, opina Ruffato sobre o que se viu nas redes sociais durante o ano. Não só com a pregação pró-ditadura mas também com o nível dos debates e a intolerância às ideias diferentes. Ele diz ver seu livro como uma forma de propor reflexões sobre esse período.

Ruffato é autor de uma série de antologias temáticas, como Sabe com quem está falando? – Contos sobre corrupção e poder e Fora da Ordem e do Progresso. Também publicou dois livros sobre as mulheres que estão fazendo a nova Literatura Brasileira. Escreveu ainda romances como Eles eram muitos cavalos, de 2001, que recebeu prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte e o Prêmio Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional.

Um tema, diferentes visões

Os contos de Nos idos de março foram escritos na época da ditadura militar ou por autores que tiveram suas vidas afetadas de alguma forma pelos acontecimentos. “A ditadura militar foi apreendida de diferentes formas por diferentes gerações”, diz Ruffato. E alguns desses pontos de vista aparecem no livro.

Reunir contos e não depoimentos para abordar o tema foi uma escolha do organizador, que acredita que essas pequenas narrativas espelham a situação de forma mais realista e “acabam dando um quadro mais complexo”.

Os contos trazem personagens como Mara, uma adolescente militante que, como tantos outros jovens, é vítima do regime e acaba sendo morta. Neste conto, de Maria José Silveira, tem-se uma fotografia da juventude da época, com suas roupas e seus costumes. “Eram os anos da ditadura. Os tempos de Garrastazu Médici”, situa o narrador. O apartamento de Mara funciona como um ponto de encontro, por onde circulam outras pessoas que fazem parte da militância. Tem-se uma ideia da estrutura das organizações de esquerda, com suas hierarquias e funções bem delimitadas para cada membro.

Ruffato escolheu contos relacionados ao período ditatorial cujos autores fossem conhecidos pela qualidade de suas obras e já tivessem um repertório literário, como Antonio Callado e Nélida Piñon. “Esses autores que estão no livro cobrem um período bastante largo de maneiras diferentes”.

O escritor Luiz Ruffato. Crédito: Márcia Zoet

O escritor Luiz Ruffato. Crédito: Márcia Zoet

O primeiro conto do livro é O homem cordial, de Antonio Callado. O personagem principal vê um Brasil idealizado por ele desabar. No conto, o intelectual, historiador e sociólogo está prestes a publicar o livro O homem cordial, sobre o povo brasileiro, quando tem seus direitos políticos cassados, embora seus amigos íntimos saibam que ele não tem “nada de comunista”. Esse conto inicial reflete a arbitrariedade do regime, que podia classificar como suspeitos pessoas de variadas ideologias e de todas as classes sociais.

O último conto é também o mais recente, publicado por Paloma Vidal em 2008. Intitulado Viagens, o conto é narrado em primeira pessoa e relata as viagens de uma vida: viagens ao passado, viagens nacionais e internacionais e a viagem da Argentina ao Brasil. A escritora veio exilada com os pais para o Brasil ainda criança, em 1977.

“Qué lengua hablan?”: essa interrogação que aparece no conto ilustra a situação de uma criança que, do dia para a noite, é submetida à outra língua e aos costumes de outro país. A rapidez com que se fazem as malas mostra a pressa de fugir da repressão política, assunto complexo demais para ser compreendidos por alguém tão jovem.

Nem todos os contos falam diretamente sobre a ditadura, mas sobre um espírito do tempo. É o caso de A morte de D.J. em Paris, de Roberto Drummond. D.J. (somente as iniciais de seu nome são apresentadas) é julgado após sua morte, tendo sido acusado de “inventar uma história fantástica sobre uma Mulher Azul que fala com uma voz de frevo tocando”. Essa mulher enigmática aparece ao longo de todo o conto como um acontecimento suspeito que não chega a ser esclarecido, bem como a morte do personagem.

Outros contos mostram a exploração do trabalho, como A mão esquerda, de Roniwalter Jatobá. O personagem central, um funcionário exemplar de uma fábrica, tem um acidente com uma máquina e perde parte dos dedos de uma das mãos. Inutilizado para o trabalho, é dispensado pela fábrica e substituído por outro funcionário.

A maior ponte do mundo, de Domingos Pellegrini, aborda o tratamento desumano aos trabalhadores que atuaram na construção da ponte Rio-Niterói. Os eletricistas, não identificados ou nomeados por apelidos como “50 Volts”, vivem uma jornada exaustiva que não podem abandonar, sofrendo ameaças em caso de cogitarem fazê-lo. Com a finalização da ponte, quando já não se assemelham a homens, os funcionários são convidados às comemorações de sua inauguração.

Experiência com a ditadura

Ruffato vivenciou o fim do período ditatorial, ainda jovem. Em 1979, foi estudar Comunicação na Universidade Federal de Juiz de Fora, em Minas Gerais. “Era um período ainda de bastante repressão, muito conturbado. Mas certamente não era nada comparado ao que aconteceu antes”, diz.

O escritor não chegou a ser preso, mas conta que vivenciou a tensão da perseguição política. Participou de atividades de poesia em Juiz de Fora e teve amigos presos. “Havia uma ligação entre poesia, teatro e política muito forte”, diz. Estudantes eram vigiados o tempo todo.

“Não posso dizer que eu pessoalmente tenha sofrido”, avalia. Independentemente de ter sofrido uma relação “íntima” com a ditadura militar, Ruffato diz se sentir no dever de propor reflexões sobre o período, que ele classifica como “época de atrocidades, de repressão brutal e de censuras”. “É um período que espero que nunca mais volte. É por isso que não consigo entender pessoas que se lembram com nostalgia da ditadura”, afirma.

Ruffato recomenda Nos idos de março para essas pessoas e para todos os que tiverem interesse em conhecer o regime ditatorial no Brasil: “O leitor pode ter nesses contos uma boa amostra do que foi a ditadura. Cada conto expressa isso à sua maneira”.

Leia mais na Pensata sobre livros que tratam da ditadura e do golpe de 1964:

O aniversário do golpe e seus oportunismos: ditadura só durou dez anos, diz historiador

1964: crescimento e repressão andaram juntos nas universidades brasileiras

Golpe militar ou civil-militar?

“Torturador é humano, cruel e consciente do que faz”

De um torturador para uma jovem: “Você vai sofrer como Jesus Cristo”

Por que os militares de hoje não admitem os crimes cometidos pela ditadura

Autor: Tags: , , , , , ,

quarta-feira, 19 de novembro de 2014 Educação, Literatura | 08:00

Livro traz sedução, brasilidades e os temperos da Bahia de Jorge Amado

Compartilhe: Twitter

Quando Ana Maria Machado recebeu o convite para ministrar aulas sobre um escritor brasileiro em Oxford, teve de realizar uma decisão entre quatro opções: Machado de Assis, Graciliano Ramos, Clarice Lispector e Jorge Amado. O escolhido foi este último e o resultado da experiência é o livro Romântico, Sedutor e Anarquista, publicado recentemente pela Companhia das Letras.

Romântico, sedutor e anarquista Ana Maria Machado Companhia das Letras 144 páginas, R$ 34,90

Romântico, sedutor e anarquista
Ana Maria Machado
Companhia das Letras
144 páginas, R$ 34,90

Para quem desembarcou agora no mundo da literatura, convém informar: Ana Maria Machado é membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), que presidiu de 2011 a 2013. Tem mais de cem livros publicados, entre romances e ensaios, como Recado do Nome (1976), sobre Guimarães Rosa. É conhecida especialmente pelos livros de literatura infanto-juvenil, tendo recebido o prêmio internacional Hans Christian Andersen pelo conjunto da obra infantil.

O curso na Universidade de Oxford é parte de um acordo entre esta e a ABL. Todo ano um membro da Academia passa um trimestre na universidade inglesa ministrando aulas, palestras e seminários sobre um dos quatro autores que fazem parte do currículo de letras modernas.

Ana Maria Machado comenta a opção por Jorge Amado em seu capítulo “Uma escolha natural”. Foi, na verdade, o segundo nome que passou pela cabeça da autora. O primeiro foi Clarice Lispector, uma mulher, como ela. Vários motivos fizeram-na rejeitar essa opção. Um deles é a divulgação internacional que Clarice já tem no meio acadêmico. Outro, ela confessa, é o universo “opressor e angustiante, pesado e tenso” da obra com a qual teria de conviver.

A autora acabou optando por mergulhar na Bahia e nas brasilidades de Jorge Amado, “em nome do puro prazer”. Ela viu a necessidade de levar a Oxford um escritor brasileiro que não é tão estudado fora do País, diferentemente de Clarice ou Guimarães Rosa. O fato de o autor ter ocupado uma cadeira na ABL também foi levado em consideração.

Machado percebe uma resistência por parte das universidades, nacionais e internacionais, e também no Ensino Médio, para estudar a obra de Jorge Amado.  À Pensata, ela disse notar que o desconhecimento do autor aumentou nos últimos anos. “Já encontrei numa plateia de 72 estudantes de letras a surpreendente constatação de que nenhum deles, jamais, havia lido Jorge Amado”, contou.

Seu livro levanta algumas possíveis explicações para essa rejeição. Entre elas, estão acusações sobre um conteúdo machista e às vezes racista em sua obra. A autora refuta essas críticas com exemplos de personagens, como Grabriela (Grabriela, Cravo e Canela) e Tieta (Tieta do Agreste), que, longe de serem mulheres oprimidas, são senhoras de seus próprios desejos, destacando a força do feminino.

Quanto à discussão sobre racismo, alguns leitores criticam, por exemplo, o fato de Pedro, líder do grupo em Capitães de Areia, ser o único louro. Ou o fato de Dona Flor morrer de amores por Vadinho, louro. Machado trata esses personagens e a relação que mantêm entre si como fruto da miscigenação. “Os sangues misturados são o milagre maior que Jorge Amado celebra”, afirma, em seu livro.

Na experiência em Oxford, os alunos são expostos a uma literatura não muito conhecida por eles. “Foi uma descoberta empolgante, mais que uma leitura crítica”, diz. Além disso, ela conta que o livro teve uma recepção animada por Zélia Gattai, esposa de Jorge Amado.

 

Anarquia e Romantismo

Machado levanta uma série de rótulos sob os quais Jorge Amado foi classificado e que teriam contribuído para gerar mal entendidos, como “proletário”, “realista”, “socialista” e “revolucionário”.

A escritora carioca Ana Maria Machado. Foto: Bruno Veiga

A escritora carioca Ana Maria Machado. Foto: Bruno Veiga

Para o crítico José Maurício Gomes de Almeida, Jorge Amado tem aproximação muito maior com o anarquismo do que com outros rótulos que já recebeu, um anarquismo de raiz romântica. “O herói de Jorge Amado é um rebelde que não admite os mecanismos repressores da sociedade”, diz Almeida, citado no livro.

E em meio a esses rótulos, Machado percebeu que a maioria dos leitores de Amado tinha um livro preferido do autor na ponta da língua. É o que ela relata no capítulo “Qual é o seu Amado?”. A autora propôs a pergunta a conhecidos e, durante meses, questionava os públicos de suas palestras e colhia o resultado.

Algumas respostas foram óbvias, como defensores do socialismo preferirem os livros da época em que Amado era do Partido Comunista, e adolescentes escolherem as obras em que o erotismo está mais presente. Outras preferências não foram tão previsíveis, como o executivo que se espelha em Tieta do Agreste ou o militante de esquerda que admira os coronéis do cacau em Terras do Sem-Fim.

Machado também tem seu Amado favorito: Tenda dos Milagres, obra à qual ela dedica todo o seu último capítulo, discutindo a mistura de raças e de credos que o autor colocou nesse livro.

 

Carnaval e sedução

A sedução é um elemento que permeia as obras de Jorge Amado, em diferentes gradações. Está em personagens como Tieta e Gabriela, que exalam erotismo em cada capítulo. Está na sedução recatada de Lívia, a mulher de família que espera pelo marido em “Mar Morto”. Está no cortiço de “Suor”. Está no amor que se aprende na rua em “Capitães de areia”. Está nos sabores da Bahia que Dona Flor ensina, apesar das tristezas.

Machado discute a “sociedade carnavalizante” que Jorge Amado propôs, baseada na amizade e igualdade social, sem se esquecer do erotismo e do bom humor. Esse aspecto da obra de Amado recebeu comentários ácidos de críticos que acreditavam que o autor havia esquecido o engajamento com o socialismo e teve uma “súbita conversão capitalista”, passando a pintar uma Bahia de cartão-postal povoada por mulatas sensuais.

A carnavalização, para o antropólogo Roberto DaMatta, ocorre em Jorge Amado a partir do momento em que heróis idealizados e exemplares dão lugar a heróis marginais, movidos pela amizade, pelo amor à vida e pela luta contra os preconceitos da elite. Seria, dessa forma, não uma falta de engajamento, mas uma mudança de perspectiva, novas cores sobre os mesmo problemas sociais. A carnavalização é uma espécie de “utopia amadiana”.

Autor: Tags: , , , , , , , , , ,

quarta-feira, 29 de outubro de 2014 Literatura | 11:55

Quase romance recria sete quase encontros com a morte

Compartilhe: Twitter

Um quarto de hospital pequeno, escuro e frio. Não se sabe quem é o doente nem qual a doença em questão. É assim, in media res, que tem início O oitavo selo, de Heloisa Seixas, lançado recentemente pela Cosac Naify.

Em O oitavo selo, ela conta sobre as situações entre a vida e a morte pelas quais passou o jornalista e escritor Ruy Castro, com quem é casada. Misturando ficção e não-ficção, o resultado é o que a própria autora chamou de “quase romance”. São episódios em que o escritor teve de encarar, direta ou indiretamente, a morte.

O oitavo selo Heloisa Seixas Cosac Naify 192 páginas, R$ 39,90

O oitavo selo
Heloisa Seixas
Cosac Naify
192 páginas, R$ 39,90

Heloisa Seixas é autora de livros de ficção, entre romances e contos, como A porta (Record, 1996) e Pérolas absolutas (Record, 2003), ambos finalistas do prêmio Jabuti, uma das principais premiações literárias no Brasil. É autora também de O lugar escuro (Objetiva, 2007), livro de não-ficção que trata do mal de Alzheimer de sua mãe.

Os “sete selos” de seu novo livro são uma referência a uma das principais obras do cineasta sueco Ingmar Bergman, O sétimo selo. No filme, o personagem principal tem um encontro com a Morte, que anuncia o fim próximo. A fim de ganhar tempo, o personagem propõe um jogo de xadrez, que vai se estendendo ao longo do filme.

Além de conversas com o cinema, a autora buscou referências também na música e na própria literatura. Uma delas é o livro das Mil e uma noites, em que Sherazade conta histórias para o sultão, que matava as mulheres com quem se casava logo após as núpcias. Contar histórias, portanto, foi a forma que Sherazade encontrou para enganar a morte.

“Esses fantasmas permeiam o livro todo e a vida de todos nós: o medo da morte”, explica a escritora. Alguns dos confrontos com a morte contados no livro são também momentos de intensa produção literária para Ruy Castro. “É como se ter um livro incompleto fosse uma ‘desculpa’ para não se deixar morrer”, conta.

A gestação do livro, desde a ideia até a finalização, durou cerca de um ano e meio. A seguir, Heloisa Seixas fala sobre esse processo e o resultado final.

***

De que forma ficção e realidade se misturam no texto?
Não adianta procurar as fronteiras. O limite entre ficção e realidade é incerto, e eu quis que fosse assim. Isso me deu total liberdade, porque não é fácil você escrever sobre o passado de uma pessoa tão íntima sua, sendo um passado do qual você não fez parte. E isso se aplica aos três primeiros capítulos.

Em que momento você decidiu escrever o livro?
Eu sempre admirei a energia do Ruy (Castro), a capacidade dele de se jogar no trabalho e de dar a volta por cima das armadilhas do destino. Intimamente, eu o comparava à Sherazade, a personagem das Mil e uma noites que conta histórias para não morrer. O Ruy também me parecia assim: sempre com um livro por terminar. Enfim, eu já tinha essa ideia no fundo da cabeça quando, em uma conversa com a escritora Guiomar de Grammont (durante a Flip de 2012), ela começou a falar em “mitos eróticos” e citou Sherazade. Aí a ideia apareceu inteira na minha cabeça. Logo veio a constatação de que Ruy tivera sete confrontos com a morte e, em consequência a ideia de dividir o livro em “selos”.

A escritora Heloisa Seixas. Foto: Bruno Veiga

A escritora Heloisa Seixas.
Foto: Bruno Veiga

Ao longo do livro, há diversas menções ao cinema (a começar pelo título), à música e à própria literatura. Fale um pouco sobre essas fontes e como elas inspiraram o trabalho.
Assim que eu percebi que os confrontos eram sete, logo me veio à mente a lembrança do filme O sétimo selo, de Bergman, justamente por ser a história de um homem que tenta negociar com a Morte, jogando xadrez com ela. Isso também se encaixava na história do Ruy. As demais citações vieram naturalmente, já que Ruy (e eu também) vive cercado de filmes, livros, música.

Os títulos dados aos selos fazem um passeio pelo corpo humano. Comente essa escolha.
As duas ideias surgiram para mim de forma simultânea. Os livros são assim, eles se escrevem, cada um de uma forma peculiar. Assim que eu percebi que eram sete confrontos, e que chamei esses confrontos com a morte de “selos”, ou marcas, eu percebi que cada um se referia a um elemento do corpo. Não havia repetições, eram elementos diferentes: sangue, nariz, fígado, língua, coração, sexo e cérebro. De repente, tudo se encaixou.

Escrever sobre o sofrimento do marido pressupõe revivê-lo. Quais foram as dificuldades nessa revisita à dor real para recriá-la de forma quase ficcional?
Foi difícil não só pelo sofrimento envolvido, mas também pelas cenas de sexo e sedução, pertencentes a um passado do qual eu não participei. Mas a partir do momento em que você se deixa levar pela ficção, deixa a mão correr livremente, aí já não é mais do seu marido ou de qualquer pessoa de carne e osso que você está falando. Vira um personagem mesmo. E você fica livre para escrever o que quiser, sem medo.

No final do livro, existe menção a um período que foi esquecido, o que faz lembrar o seu livro O lugar escuro. Qual a relação entre este e O oitavo selo?
Os fatos narrados em O lugar escuro (aí, sim, todos reais) aconteceram simultaneamente aos últimos “selos” do Ruy. Foi muito difícil para mim, claro. Eu, que me acho uma pessoa frágil, nada corajosa, tive de enfrentar tudo ao mesmo tempo. Mas foi um aprendizado, para mim. E para o Ruy também, claro.

Enquanto o prólogo começa já em um ambiente de hospital, algumas explicações vêm somente no final. Como foi a construção da estrutura do livro?
Pensei nos confrontos, pensei nos selos. E comecei a escrever, sempre misturando real e ficção. Escrevi na ordem em que aconteceram, na ordem em que estão no livro. O prólogo é extraído de um dos selos, o que ficará claro quando chegar a hora. Uma vez criada a estrutura inicial, não houve mudanças.

Em algumas partes do livro, o texto é interrompido para dar lugar a outro. A mulher e o homem deixam Heloisa e Ruy falarem. Como foi o processo de inserir essas falas no livro?
Essa ideia também surgiu naturalmente. Eu fiz algumas entrevistas com o Ruy, sobre acontecimentos da infância e da juventude dele, da época em que eu não o conhecia. Para usar ou não no livro. Aí veio a ideia de misturar essas vozes. Mas quem pensa que aquelas respostas, as vozes do Ruy e da Heloisa, são o real, pode se enganar. Há tintas ficcionais também nessas respostas.

Como foi trabalhar temas difíceis, como drogas e o alcoolismo?
São assuntos fáceis para mim, já que nunca enfrentei nada parecido. O mais difícil foi falar sobre o medo, aquele lobo que estava sempre à espreita, o tempo todo, durante a narrativa.

O homem de O oitavo selo escreve por necessidade. Você também sente essa necessidade de escrever?
Sem dúvida. Quando acabei de escrever O oitavo selo senti um alívio tão grande, uma tal leveza, que fiquei pensando: eu também escrevo para não pensar na morte. Donde, eu também sou Sherazade.

Você tem novos projetos em andamento?
Muitos! Ainda estou às voltas com a minha peça O lugar escuro (que escrevi a partir do livro) e que está em sua segunda temporada, agora viajando. Vamos nos próximos dias 31 de outubro, e 1 e 2 de novembro, fazer apresentações em Fortaleza, na Caixa Cultural. No dia 24 de novembro, haverá uma leitura dramática de uma nova peça que escrevi, É proibido envelhecer, no Centro Cultural Midrash, no Rio de Janeiro. Em dezembro, ocorre o lançamento do livro infantil A grande Pequena Notável, que fiz em parceria com minha filha, Julia Romeu (uma biografia da Carmen Miranda para crianças). E em janeiro estreia um novo musical que escrevemos, também eu e a Julia, chamado Bilac vê estrelas, com músicas do Nei Lopes e direção do João Fonseca.

Autor: Tags: , , , , , , ,

sábado, 18 de outubro de 2014 Literatura | 11:31

“A casa cai”, de Marcelo Backes”, traz histórias de amor, urbanização e ruínas

Compartilhe: Twitter

O cenário: Rio de Janeiro. Um apartamento vai passar por uma reforma ambiciosa e, para isso, precisa ser praticamente destruído antes de renascer. Na cidade, existem obras por toda parte, mas nem todos os edifícios resistem ao tempo. Dentro e fora desses lares, pessoas estão sempre começando e rompendo relacionamentos. Cartas podem ajudar a reconstruir o passado mas também a destruir alguns sentimentos e imagens formadas.

A casa cai Marcelo Backes Companhia das Letras 432 páginas, R$ 56

A casa cai
Marcelo Backes
Companhia das Letras
432 páginas, R$ 56

Essas construções e desconstruções permeiam A casa cai, ficção do escritor Marcelo Backes, recém-lançado pela Companhia das Letras. Ao tratar de temas da vida privada, o autor faz também um paralelo com a urbanização do Rio de Janeiro, trazendo à tona alguns pontos delicados dessa história.

“Enquanto uma casa é levantada, uma alma vai desmoronando”, diz o escritor em entrevista à coluna. O ficcionista Backes é também um dos mais respeitados tradutores do Brasil. Ainda professor de literatura dos mais competentes, verteu para o português obras de clássicos da literatura em língua alemã. Entre eles, Kafka, Goethe e Schiller.

Na zona sul do Rio

O personagem principal de A casa cai é o mesmo seminarista do livro anterior de Backes, O último minuto, publicado em 2013. Neste, o jovem missionário conta a história de um gaúcho na prisão. Em A casa cai, já fora do seminário, o personagem que narrava agora tem sua própria história contada. “É fundamental dizer que os dois romances são completamente independentes um do outro, histórias acabadas em si e fechadas sobre si mesmas”, esclarece.

O ponto de partida é o recebimento da herança paterna pelo ex-seminarista. Este acaba percebendo que, além das posses, a herança inclui uma série de revelações sobre o passado do pai, que permaneceram ocultas por muito tempo.

A história foge do ambiente sofisticado na zona sul do Rio de Janeiro para fazer passagens pela favela e por anos de história de destruição de comunidades pobres que deram lugar a novos e luxuosos condomínios.

Há também passagens por outras partes do Brasil (idas ao Rio Grande do Sul), por outros países (uma viagem à Alemanha e outra à Rússia) e pelo mundo das artes. Sempre construindo e desconstruindo uma teia delicada de relações pessoais.

A seguir, Marcelo Backes fala sobre seu novo livro.

* * *

O livro anterior foi concebido para ter uma continuação ou isso aconteceu depois? Não pensei em continuação enquanto estava escrevendo. Em determinado momento, já depois de terminado O último minuto, vi que seria interessante envolver o narrador daquele romance em uma história que eu já queria contar há muito tempo. O pai do seminarista inominado tinha estofo para ser um dos protagonistas da eliminação das favelas horizontais da Zona Sul do Rio de Janeiro e o próprio seminarista, já longe da batina, ainda mais estofo para meter os pés pelas mãos ao tentar segurar as rédeas da vida real. E assim, enquanto uma casa é levantada, uma alma vai desmoronando.

E como surgiu essa história? A casa cai surgiu da ideia de contar uma relação que vai desmoronando enquanto uma casa vai sendo construída , mostrando no pano de fundo como o Brasil e sobretudo o Rio de Janeiro foram erguidos. No âmbito público eu encaixei uma história que sempre me pareceu paradigmática: a da construção do Rio de Janeiro – e as duas histórias funcionam como espelho uma da outra, sem contar que na primeira é o filho que está envolvido, na segunda o pai, e que o próprio filho vai descobrindo aos poucos, ao abrir o cofre cheio de fantasmas do pai morto.

Marcelo Backes: "Há personagens reais interagindo com personagens ficcionais, envolvidos numa história de amor e desamor". Fotos: Divulgação

O escritor e tradutor Marcelo Backes. Foto: Divulgação

Qual foi a transformação pela qual o personagem principal de A casa cai passou desde O último minuto” Antes de mais nada, é fundamental dizer que os dois romances são completamente independentes um do outro, histórias acabadas em si e fechadas sobre si mesmas. É apenas circunstancial o fato de o seminarista que contou a vida terrível de João, o Vermelho, em “O último minuto”, agora contar a sua própria vida, mostrar como lidou com a morte de seu pai, com a obrigação de pela primeira vez, e isso já bem depois dos vinte anos, encarar a vida como ela é, ele que sempre viveu protegido no ventre da família e depois no seio de um seminário.

De que forma as duas histórias, a particular e a do Rio de Janeiro, se relacionam? O construtor e narrador do romance é um homem que fugiu da vida a vida inteira e de repente perde o pai, com quem nunca conseguiu se entender direito. E, sem nem mesmo saber como o mundo funciona, recebe uma herança vultosa, mas pantanosa, com a qual é obrigado a lidar. Ao mesmo tempo, esse homem constrói uma casa pra sua mulher. Se quisesse, ele poderia ter escolhido um apartamento na orla do Leblon, mas não, ele prefere a Selva de Pedra, erguida sobre os destroços daquilo que um dia foi a Praia do Pinto, uma das favelas aniquiladas. O homem reforma a casa escolhida e aos poucos descobre que o pai construiu a cidade, e que sem derramar sangue talvez não seja possível despejar argamassa num lugar que um dia foi tão naturalmente idílico.

O leitor só conhece o personagem central depois de folhear muitos capítulos. Como foi desenvolver esse personagem tão incógnito? Eu gosto de apresentar meus personagens aos poucos, de desnudá-los mais pelo comportamento e por aquilo que dizem do que por uma tosca frase de narrador que lhes dê o estofo físico e metafísico em duas pinceladas e meia. Na vida real, também somos mosaicos inconstantes, construídos pelos fragmentos que nós mesmos e os outros vão acrescentando.

E os demais personagens, como foi o processo de construção? O romance passeia por uma sociedade bem ampla do Rio de Janeiro, situada sobretudo na abastada Zona Sul e envolvida com a construção da cidade e o mundo das artes. Há personagens reais interagindo com personagens ficcionais, envolvidos numa história de amor e desamor, construção e desconstrução, edificações e ruínas, escombros e caprichos.

Qual o papel do círculo de artistas do Rio de Janeiro no desenrolar da história? Eu acho o universo das artes plásticas contemporâneas uma metáfora perfeita para entender o funcionamento do mundo contemporâneo. É só por isso o círculo de artistas, que é também paulista, tem um papel tão importante em A casa cai. De um lado há a tentativa de entender por que um metro quadrado na orla do Leblon pode custar R$ 80 mil, de outro a tela de uma garota de vinte e poucos anos que pinta a óleo e faz sua primeira exposição pode custar 25 mil, enquanto determinadas ações da Bolsa são pulverizadas em dois dias.

Ao escrever o livro, você chegou a ter alguma surpresa com os caminhos que a narrativa ia tomando? Eu sou um daqueles escritores que antes de começar esboça uma história mais ou menos básica, depois faz anotações, às vezes ao longo de anos, e de repente senta para escrever. E aí, eu viro o cavalo do diabo, ou o pégasus de uma demônia chamada musa, não sei, e não vejo mais nada no mundo à minha volta, entro num processo de imersão total, geralmente desenvolvido nuclearmente na Alemanha, onde fico pelo menos 45 dias durante o inverno. E tudo pode mudar, ganhar desenvolvimentos inesperados, os personagens literalmente fazem coisas que eu não imaginava.

O espaço principal da narrativa de A casa cai é o Rio de Janeiro, mas há passagens pelo Rio Grande do Sul, Moscou e Halberstadt, uma pequena cidade alemã. O que motivou essas escolhas geográficas? Meus personagens sempre foram muito cosmopolitas. Meu narrador carioca visita o Rio Grande do Sul apenas por razões afetivas. E se Moscou e Halberstadt, na Alemanha, aparecem, é porque são focos de metáforas interessantes no desenvolvimento do personagem, que referendam buscas de origem, tempos perdidos ou desideratos artísticos eternos.

Você já tem planos para novos livros? Tenho sim, eu sempre estou escrevendo. Fiz uma viagem maravilhosa de Pequim a Moscou recentemente, atravessando a Mongólia e a Sibéria num trem de luxo, e aconteceram coisas estrondosas nessa viagem, sem contar as que imaginei que aconteceram. E ainda repetirei essa viagem. Talvez desse um bom romance pícaro chamado, por exemplo, Os estrambóticos baques de Marcelo Polo numa volta ao mundo em pouco mais de oito dias e mil e uma noites.

 

Autor: Tags: , , , , , ,

terça-feira, 30 de setembro de 2014 História, Sociedade | 10:39

“Há uma guerra social em andamento”, diz filósofo da USP sobre novo tempo do Brasil e do mundo

Compartilhe: Twitter

Manifestações contra a Copa do Mundo por todo o Brasil, inclusive durante os jogos. Ônibus incendiados. Greves. Atos de violência pelo País. Movimentos de ocupação. Manifestantes e policiais enfrentam-se com truculência.

O Novo tempo do mundo Paulo Arantes 464 páginas, R$ 52 Boitempo Editorial

O Novo tempo do mundo
Paulo Arantes
464 páginas, R$ 52
Boitempo Editorial

O parágrafo anterior é um recorte do primeiro semestre de 2014 no Brasil. São exemplos de um novo tempo, que Paulo Arantes aborda em O Novo Tempo do Mundo, lançado recentemente pela editora Boitempo.

O autor afirma que existe uma “guerra social” em andamento. “É só acompanhar os jornais”, diz. O título é inspirado na obra Le Temps du Monde (“O Tempo do Mundo”), do historiador francês Fernand Braudel.

“Há um clima geral de insegurança e ainda não temos um conceito adequado para isso. Paulo Arantes arrisca encontrar caminhos”, afirma a doutora em Filosofia Isabel Loureiro, que esteve em debate com o escritor na semana passada na USP.

Em seu livro, Arantes estuda fatos recentes no Brasil e no mundo, buscando paralelos na história. O que Arantes chama de “tempo do mundo” no título de seu livro é o momento seguinte a um grande acontecimento. “É o fim de uma trégua”, diz.

Guerra, paz e consumo

A palavra “trégua” é empregada por Arantes de maneira intencionalmente provocativa, segundo ele. O grifo é emprestado de outro escritor, o italiano Primo Levi, autor de “A Trégua”.

Sobrevivente de Auschwitz, Levi trata justamente do pós-Segunda Guerra Mundial. O regime nazista foi derrubado, mas não as hostilidades que vieram com este.

Esse momento, em que grandes eventos acabaram de acontecer e existe a possibilidade de a configuração mudar a qualquer momento, se assemelha ao atual, na visão de Arantes. “Temos de nos preparar para um ‘second strike’”, afirma.

Ainda que o mundo não viva uma guerra generalizada como foi a Segunda Guerra Mundial, conflitos ocorrem em diversas partes do mundo desde então. “Não há possibilidade de democracia depois da bomba atômica”, diz Arantes.

Paulo Arantes em debate na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

Paulo Arantes em debate na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

No estado de emergência atual que o autor aborda, a guerra e a sociedade de consumo convivem juntas. “Welfare e warfare são uma só”, afirma. Em sua visão, “as pessoas que recebem as mercadorias” (os consumidores) têm a consciência de fazerem parte de um processo maior, uma mobilização para a guerra.

Essa sociedade de consumo, moldada desde antes do “welfare state”, é alimentada por campanhas publicitárias que apresentam produtos ao consumidor como altamente necessários, sem os quais a vida se tornaria impraticável.

Contra as mazelas sociais, são fornecidos benefícios que não corrigem a situação, mas “sossegam” os indivíduos, explica Arantes. O autor faz um paralelo com o Plano Beveridge, na década de 1940, criado para amparar os sobreviventes que trabalharam durante a Segunda Guerra Mundial, para os quais foram oferecidos planos de saúde e educação.

“Vocês vão para a guerra e os que voltarem terão saúde, educação, bolsa-moradia, bolsa-isso, bolsa-aquilo”, brincou Arantes, arrancando risos de uma plateia formada principalmente por estudantes universitários. O meio estudantil está familiarizado com termos como bolsa-alimentação, bolsa-moradia, bolsa-livros e outras bolsas.

Depois de junho…

O último ensaio de O Novo Tempo do Mundo tem como título “Depois de junho a paz será total”. Após tratar do “tempo do mundo” no plano geral, Arantes fecha sua obra com o caso brasileiro, partindo das manifestações que tomaram as ruas em junho de 2013.

“Nós começamos numa guerra total e continuamos numa paz total”. É assim que Arantes se refere ao estado de trégua, um momento delicado em que existe uma linha tênue entre guerra e paz. “Sabemos que estamos no olho do furacão e é uma situação generalizada”, diz Isabel Loureiro.

O autor usa como exemplo o caso das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) no Rio de Janeiro. Apesar do nome, “pacificadora”, a atuação desses órgãos tem sido questionada por criar uma “guerra” entre policiais e traficantes, por vezes envolvendo civis e acabando em mortes.

A cidade passou a conviver com operações policiais semanalmente. “O que significa que o Rio de Janeiro tenha uma gestão armada de sua vida social e as pessoas achem isso natural?”, questiona Arantes.

Em 2013, o que começou como uma manifestação contra o aumento das tarifas do transporte público (aumento de 20 centavos, no caso de São Paulo), culminou em manifestações que reuniram milhares, fecharam rodovias e foram marcadas por atos de violência.

O aumento da tarifa e as primeiras manifestações trouxeram à tona uma série de incômodos sociais, que levaram a novas manifestações. Um ano depois, em junho de 2014, o Brasil sediou a Copa do Mundo.  As pessoas novamente foram às ruas para protestar contra o investimento em um evento esportivo mundial, em detrimento de áreas como Educação e Saúde.

O que mudou? Para Arantes, o Brasil não é um País democrático, igualitário, pacificado e praticamente sem pobreza, como se imaginava. O autor explica que o “tempo do mundo” do título é o tempo vivido por sociedades como a brasileira, que estão orientadas pelo futuro. No entanto, ao encontro dessas sociedades, o que vem é um “futuro explosivo”.

Autor: Tags: , , , , , , ,

sábado, 27 de setembro de 2014 Literatura | 07:00

Sérgio Sant’Anna explora o erotismo e o desejo em “O homem-mulher”

Compartilhe: Twitter

“O homem-mulher” é o título do primeiro e também do último conto do livro homônimo do escritor Sérgio Sant’Anna, lançado esta semana pela Companhia das Letras. Sinal dos tempos: homem-mulher é um cross-dresser, expressão usada para designar um homem que gosta de vestir-se de mulher, foco e eixo das principais narrativas do escritor. “Pesquisei esse tipo de personagem, que é diferente de um homossexual, e resolvi tratar disso”, afirmou Sant’Anna  ao médico e também escritor Drauzio Varella, na Livraria Cultura, em São Paulo, ao lançar o livro esta semana no “Drauzio Entrevista”.

O homem-mulher Sérgio Sant'Anna 184 páginas, R$ 38 Companhia das Letras

O homem-mulher
Sérgio Sant’Anna
184 páginas, R$ 38
Companhia das Letras

O conto que dá nome ao livro tem início em um carnaval, em Belém, no Pará. “Não sei por que fiz um conto que se passava no Pará, brincou o autor, provocando risos na plateia paulistana que o assistia. No fim do livro, o conto é retomado como “O homem-mulher II”, para dar continuidade à história – desta vez no Rio de Janeiro, o personagem do conto original vira diretor de teatro, e o texto assume um caráter metalinguístico: um conto que narra que uma peça de teatro que se transforma em notícias de jornal. A história trabalha as relações amorosas e a dificuldade em se aceitar um homem que se veste como mulher. A aceitação ocorre no plano do exótico, quando o homem-mulher vira notícia.

“Não sei dizer por que inventei o homem-mulher. Pensei: ‘Isso é bom, vou tentar’”, conta Sérgio Sant’Anna. É uma falsa despretensão. Nos 19 textos de variados temas e tamanhos que compõem O homem-mulher – o livro –, o contista explora uma alta carga erótica, o corpo e a sensualidade. E mais do que pôr foco no visível, ele está atento aos sentimentos dos personagens. O erotismo, diga-se, tem sido recorrente nos últimos livros do autor, como “O voo da madrugada e “Páginas sem glória”.

Barra pesada, sem perder a ternura

Mas “O homem-mulher” não é só erotismo explícito, é também ternura: “Embora tenha coisas bastante eróticas, [o livro] tem coisas muito ternas”, ressalta o autor, citando como exemplo o conto “Lencinhos”. “Foi algo romântico, que me deu muita satisfação escrever”. Sant’Anna conta que estava em busca de uma coisa “terna” e queria escrever algo capaz de trazer “essa doçura” depois de ter escrito “tanta coisa ‘barra pesada’”.

Nem tudo, porém, é terno neste conto: narra a história em que o protagonista se apaixona pela vendedora de lencinhos que junta dinheiro para o tratamento de câncer do marido. À certa altura, ele próprio reconhece, descamba para o erotismo e a fantasia sexual pura e simples, até revelar-se delicado como os produtos da garota. “O texto tem que calar fundo em você [autor], porque acaba calando fundo nos leitores”, diz Sant’Anna.

Quarenta e cinco anos depois de sua estreia na literatura, Sant’Anna continua fiel ao gênero que adotou desde o primeiro livro, o elogiado “O sobrevivente”. Sérgio Sant’Anna sempre foi conhecido por ter uma obra transgressora e experimental. Hoje, aos 72 anos, reafirma essa condição: O homem-mulher é ousado do começo ao fim, numa reunião de histórias marcadas por homens e mulheres comuns repletos de problemas e pequenas tragédias pessoas e que encontram no sexo um lenitivo contra as suas frustrações.

Sérgio Sant'Anna, autor de "O homem-mulher" e "especialista em contos"

Sérgio Sant’Anna, autor de “O homem-mulher” e “especialista em contos”

Ousado, mas não escrachado, o erotismo aparece ao longo de todo o livro. Por vezes, em situações muito delicadas, como a enfermeira que exibe os seios num ato de solidariedade para um paciente idoso em “As antenas da raça”. Ele brinca: “A literatura exige da libido da pessoa como uma atividade amorosa. O autor pode até se apaixonar pela mulher sobre a qual está escrevendo. Como a gente se apaixona às vezes num sonho e, quando acorda, é uma coisa terrível.”

A mistura de libido e sonho marcam fortemente dois contos: a fantasia sexual em “Lencinhos” e “O torcedor e a bailarina”. Neste, o erotismo aparece de forma muito sutil e quase ingênua.

Em “Amor a Buda”, Sant’Anna comenta a escultura “Tentação”, do chinês Li Zhanyang, que esteve em cartaz na mostra “China Hoje”, no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro, em 2007. É a mesma escultura que ilustra a capa. Diferente do trabalho dos críticos de arte, que frequentemente tropeçam em textos ao tom de “o artista quis dizer”, o autor criou uma verdadeira narrativa entre o Buda e a mulher que são representados na obra chinesa, inventando pensamentos e diálogos para os personagens.

“Eles dois”, décimo conto do livro, é autobiográfico. “Tive uma relação muito apaixonada que acabou em briga descomunal, mas teve um tempo de felicidade muito grande”, conta. Em “Eles dois”, Sant’Anna narra a história dessa paixão em apenas dez páginas. Mesmo sendo autobiográfico, algumas brigas sérias da relação não entraram para o texto, por opção do autor. Alguns detalhes foram acrescentados. “Você pode inventar algumas coisas. O bom da literatura é isso. Você pode mentir”, sublinha.

Contista, sempre

A influência que levou ao gosto pelos contos tem origem em Minas Gerais, onde Sant’Anna conviveu com outros contistas e passou a apreciar a narrativa curta. “Gosto muito de fazer novelinhas também. O ‘romanção’ mesmo não sei se vou fazer algum dia”, diz.

Já o empurrão para se firmar como autor veio bem antes, quando ainda cursava a faculdade de Direito e conquistou o segundo lugar em um prêmio literário, por um de seus contos. “Acho que foi decisivo. Se não fosse isso, pode ser que acontecesse. Mas eu tinha aquela dúvida: ‘será que eu sou bom?’. Se eu for falar dos prêmios que  ganhei na minha vida, o mais importante foi esse”, conta.

Questionado sobre o motivo para escrever textos pequenos e se já houve tentativa de escrever romances, o autor afirma que seu interesse é “escrever um texto até onde ele vai”. “Se o texto, tudo o que eu queria dizer, vai até dez páginas, o texto vai até dez páginas”, revela o escritor, que diz ser um “especialista no conto de médio porte”.

Sant’Anna afirma ter “a cabeça povoada de personagens que escreveu”. Diz que já tem em mente seu novo livro, mas ainda é cedo para que ele apareça. “A cabeça ainda está muito em O homem-mulher. Para escrever outro, acho que isso tem que passar”, diz.

O que está confirmado é a reedição do livro O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro, publicado em 1982 pela editora Ática. Como se trata de uma editora voltada a livros didáticos, Sant’Anna conta que seu livro não teve muitas vendas. O livro será republicado pela Companhia das Letras.

Autor: Tags: , , ,