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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014 Cinema, Filosofia, Psicanálise | 08:06

Do filme “Ela” aos livros sobre o amor: a questão não é se as máquinas pensam, mas se os homens ainda podem sentir

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“Nosso mundo está cada vez mais amável. No entanto, cada vez mais nos sentimos isolados”, disse o cineasta Spike Jonze, ao divulgar o seu novo filme: Ela, a tocante, alegre e simultaneamente triste história de amor de um escritor solitário por um sistema operacional.

Samantha, o sistema-operacional-objeto-do-amor, é uma espécie de tábua da salvação para Theodore, recém-separado de sua mulher. Faz-lhe companhia, organiza sua vida, interessa-se por ele com aparente sinceridade e fala com a voz encantadoramente sexy de Scarlett Johansson.

Sim, Spike Jonze diz, com delicadeza e inquietação: estamos mais amáveis, porém mais isolados. “Apesar de tudo o que precisa”, afirmou, “nossa sociedade sente-se cada vez mais só”.

Apesar de a história se passar numa Los Angeles do futuro, Ela supostamente espelha nosso tempo: tenta nos mostrar que a tecnologia parece nos conectar, mas nos afasta, numa força centrífuga e centrípeta, efeito similar ao que a globalização, já há muitos anos, deu à cultura, às relações sociais e econômicas, aos sentimentos. O protagonista do filme mal enxerga, por exemplo, a amiga que mora no apartamento vizinho (que, a propósito, também se apaixona por um sistema operacional).

Joaquin Phoenix no filme "Ela": o escritor solitário ouve (e ama) Samantha, um sistema operacional

Joaquin Phoenix no filme “Ela”: o escritor se apaixona por um OS e parece mostrar o quanto a tecnologia nos aproxima e nos deixa mais solitários

Como no filme, protagonizamos um tempo em que muita coisa parece simultaneamente familiar e estranho. Uma sensibilidade difusa, geradora tanto de frustração quanto de autocontemplação ou autoconhecimento. Uma crescente e preocupante incapacidade para lidar com a realidade, em contraposição ao auge da simplificação das relações virtuais.

Um tempo sem tempo, em que a pressa, a velocidade e a instantaneidade pedem, em contraponto, mais calma, mais freio, mais simplicidade. Menos hipérboles e mais minimalismos. Uma escala modesta e serena, como o ritmo, a música e as não-ações exibidas por Spike Jonze. Como escreveu Manohla Diggs no New York Times, Ela é um filme que se deseja tocar e acariciar.

Mas a grande questão em Ela talvez seja não se as máquinas podem pensar, como defenderam muitos críticos ao analisar o filme, mas se os seres humanos ainda podem sentir.

O amor sagrado

O filósofo francês Luc Ferry publicou no fim do ano passado, pela Difel, o livro Do amor – uma conversa com o escritor e amigo Claude Capelier e espécie de continuidade de um outro livro seu de bastante sucesso, A revolução no amor (Objetiva). Em ambos, Ferry mostra como atualmente o amor exibe um quê de sagrado. Um sagrado não no sentido de oposto do profano, mas um princípio pelo qual daríamos a vida.

DoAmor_Luc FerryMuitos homens, segundo ele, já sacrificaram suas vidas em guerras em nome de Deus, da nação, da revolução, da liberdade. Mas poucos morreriam hoje, pelo menos no mundo ocidental, por Deus, pela pátria ou pela democracia. São ideais que no passado deram sentido à vida mas que hoje estão em declínio. Mas ainda é possível morrer por alguém que se ama.

A passagem do casamento tradicional para o moderno deu ao amor um sentido central na existência, lembra Ferry. Uma centralidade capaz de transformar nossas vidas sem que percebamos. Ferry o enxerga assim como um novo humanismo no século XXI: trata-se de preparar o futuro para quem amamos.

Juntos e sozinhos

O futuro, porém, revela mais surpresas do que supõe nosso projeto de existência. Nos anos 90, a psicóloga e pesquisadora do MIT Sherry Turkle escrevia com otimismo e entusiasmo sobre o mundo da tecnologia: “Os computadores são o novo palco de nossas fantasias, erotismo e intelectualidade. Estamos usando a vida em rede para nos adaptar a novas maneiras de pensar relacionamento, sexualidade, política e identidade”.

Em 2011, publicou o livro “Alone Together – Why we expect more from technology and less from each other” (algo como Juntos sozinhos – Por que esperamos mais da tecnologia e menos de cada um de nós). Para ela, no mundo virtual as relações são menos profundas e até ilusórias, e as múltiplas amizades das redes sociais são, na verdade, uma redução da amizade.

Para ela, a conexão constante – aquela que nos leva a postar, compartilhar, enviar e receber e-mails e sms enquanto assistimos a uma aula ou participamos de uma reunião – resulta numa confusão individual sobre intimidade e solidão.

A psicóloga do MIT Sherry Turkle em palestra no TED: "Quem não aprende a ficar sozinho só saberá se sentir abandonado”

Sherry Turkle: “Quem não aprende a ficar sozinho só saberá se sentir abandonado”

Numa palestra famosa e bastante compartilhada nas redes sociais, dada por ela no TED Talks, em fevereiro de 2012, Turkle retomou o tema para dizer que esse modo de usar a tecnologia pode acabar “nos escondendo uns dos outros”. Mais do que isso, os dispositivos móveis e as personalidades online alimentam o que ela chamou de “três fantasias gratificantes”:

1. A fantasia de que podemos concentrar nossa atenção, onde quer que estejamos e com quem estejamos;

2. A fantasia de que seremos sempre ouvidos;

3. A fantasia de que nunca precisaremos ficar sozinhos.

A última fantasia altera profundamente nossa psique, afirma Turkle, pois nos deixa ansiosos e inquietos ao menor sinal de solidão. “Estar sozinho é um problema a ser resolvido”, diz ela, defendendo o aprendizado desde cedo a ficarmos sozinhos.“Quem não aprende a ficar sozinho só saberá se sentir abandonado”, afirma. A conexão, neste caso, seria mais sintoma do que cura, expressando um problema explícito: ela muda a maneira como as pessoas pensam de si mesmas. É como se pensássemos: eu compartilho, portanto existo.

Ao mesmo tempo, Turkle intui que a tecnologia nos seduz porque responde a nossas fraquezas. Em outras palavras: não gostamos de estar sozinhos, mas temos medo da intimidade; com isso, a tecnologia permite a ilusão de uma companhia sem as exigências excessivas da amizade. Robôs, siris ou sistemas operacionais como a Samantha de Ela se tornariam assim os companheiros de nossos sonhos.

A paixão amorosa em tempos de coma

Num estudo publicado recentemente na revista Insight-Inteligência, a psicanalista Marcia Neder oferece uma boa reflexão que talvez ajude os Theodores existentes no presente. A “paixão amorosa em tempos de coma” recupera a lição deixada pelo psicanalista Erich Fromm em seu livro A arte de amar. Para ele, o amor é uma reposta a uma necessidade fundamental do humano: a de “superar seu estado de separação, de deixar a prisão da sua solidão”. O amor, reforça Neder, é a solução que o homem dá para esse problema que é dele em qualquer tempo e lugar: amando ele supera sua separação do outro.

Em síntese, superamos a solidão e aproximamo-nos do outro. A intimidade com o outro, no entanto, não é sinônimo de felicidade; é também ameaçadora, e tão angustiante quanto o medo da separação. Ou seja, o amor apaixonado não é só alegria, da mesma maneira que a sexualidade é também fonte de angústia.

Padecemos com nossa ambivalência diante do amor apaixonado: desejamos amar apaixonadamente, ao mesmo tempo em que tememos essa fusão com o outro porque significa nossa dissolução como indivíduos; queremos então o contrário, o afastamento.

O problema é que nestes “tempos de coma” não queremos sofrer em hipótese alguma. Vivemos numa cultura analgésica, anestésica e mimada (definições de psicanalistas diversos), que não suporta a dor. Parecemos ignorar que o pacote do amor apaixonado necessariamente inclui dores e delícias, sabido e saboreado por seres imperfeitos e, por que não, loucos.

Cena de "Annie Hall": o amor é para os neuróticos e nervosos

Cena de “Annie Hall”: o amor é para os neuróticos e nervosos

Como lembra Marcia Neder, no filme Annie Hall Woody Allen encerra seu clássico romântico com uma piada-metáfora nos relacionamentos a uma resposta à pergunta “por que nós amamos?”:

“Percebi a pessoa incrível que ela é, e como era bom poder conhecê-la. E pensei na velha piada: um cara vai ao psiquiatra e diz: ‘doutor, meu irmão é louco. Ele acha que é uma galinha.’ E o doutor diz: ‘Por que não o trata?’ Ele responde: ‘Deveria, mas preciso dos ovos’.”Conclui: “É assim que eu vejo os relacionamentos, eles são totalmente irracionais, loucos e absurdos. Mas nós continuamos tentando porque precisamos dos ovos.”

Somos todos virtuais

Se você é adepto da loucura dos apaixonados, constatará que a oposição entre real e virtual revela-se tão simplória quanto a que existe entre normal e patológico, ou entre infantil e adulto (algo que Freud tanto apreciou). Claro que há uma diferença entre as duas coisas, mas uma diferença não significa separação nem oposição. Como afirma Marcia Neder em seu artigo, a loucura ri das distinções mais evidentes, das separações cartesianas entre o “eu” e o “outro” ou entre fantasia e realidade – logo, entre o real e o virtual.

Ou seja, em qualquer paixão amorosa ou qualquer relacionamento de modo geral, já estaremos impregnados de nós mesmos e de nossas fantasias. Portanto, já significa a presença forte de virtualidade no jogo amoroso. Daí porque as críticas ao modo de se relacionar por meio da tecnologia terminam por ter um alcance limitado – que nos perdoe o sociólogo Zygmunt Bauman e sua série sobre os tempos líquidos.

Como também parece equivocada a suposição nostálgica de Turkle de que os amores virtuais seriam tristes substitutos dos amores reais – como já sublinhou Contardo Calligaris em crônica recente sobre o filme Ela. (No baile de máscaras das relações amorosas, ele escreveu, é difícil saber a diferença entre parceiros que se falam e parceiros que se teclam).

Em síntese, todos nós somos virtuais, porque ambos somos tecidos por nossas fantasias inconscientes, nossas subjetividades. Eis o amor em tempos de coma: a paixão amorosa, como lembra Neder, é um terremoto que arrebenta os marcos da identidade dos amantes e derruba as fronteiras da individualidade. Essa intimidade provoca um intenso prazer e uma atordoante e paralisante angústia.

Daí porque, repita-se, a questão central no filme Ela e na reflexão contemporânea sobre o amor (como filosofia, como literatura ou como psicanálise) não é se as máquinas podem pensar. Mas se os humanos podem (ou querem) sentir.

 

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