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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015 Economia | 13:28

Por que os ricos pagam menos impostos do que os pobres

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Uma das âncoras de salvamento do segundo mandato da presidenta Dilma Rousseff pode ser retomar aquilo que o ex-presidente Lula sabia fazer como poucos, goste-se ou não do seu governo: conciliar interesses aparentemente inconciliáveis. Em português mais claro, dar uma cravo, outro na ferradura.

Ao optar por um nome como Joaquim Levy para comandar o Ministério da Fazenda, com a promessa de executar um duro ajuste fiscal e resgatar a confiança dos mercados, Dilma também pretende manter direitos sociais.

Se quiser ser levada a sério nessa estratégia de frentes múltiplas, a presidenta deveria ouvir o que economistas e especialistas tributários têm alertado – a histórica, perversa e complicada injustiça do sistema de impostos do País.

É um sistema feito para poucos entenderem. Difícil na forma, mas simples no resultado: na prática, os ricos pagam proporcionalmente menos que os pobres.  A saber:

1. No Brasil, os impostos diretos, como o IPI e o ICMS, representam quase metade do total da carta tributária. Como se sabe, esses impostos incidem sobre os gastos da população na aquisição de bens e serviços, independentemente do nível de renda de quem os adquire. Pobres, ricos ou classe média pagam rigorosamente a mesma alíquota para pagar o fogão e a geladeira. Mas o Leão devora a fração maior das rendas menores. Democraticamente.

2. Enquanto isso, os chamados encargos sociais representam cerca de 25% da carga total. O ônus aí se distribui entre empregados e empregadores.

3. Já o Imposto de Renda contribui com modestos 20% – ou um pouco menos – para a formação da carga tributária total. E de maneira inversamente democrática. Há estimativas que sugerem o seguinte: enquanto os que ganham até dois salários mínimos recolhem ao Tesouro quase 54% da renda, aqueles que recebem acima de 30 salários mínimos contribuem com menos de 29%.

Os números acima não são novos. Fazem parte de um estudo da professora Lena Lavinas, da USP, chamado A long way from Tax Justice: The Brazilian case. Como o próprio título informa, trata-se de uma análise sobre o caso brasileiro de justiça tributária. Ou injustiça.

Dilma Rousseff e Joaquim Levy durante a posse: eles podem mexer com os ricos?   Roberto Stuckert Filho / PR

Dilma Rousseff e Joaquim Levy durante a posse: eles podem mexer com os ricos?     Foto: Roberto Stuckert Filho / PR

Hipertributação da renda, subtributação do patrimônio

Enquanto isso os impostos sobre o patrimônio são desprezíveis, empenhados em beneficiar a riqueza imobiliária e financeira dos mais ricos. (Neste caso, não raro se justifica a ausência de taxação para não “inibir” os investimentos.).

O site Carta Maior fez um brilhante especial sobre impostos no País. “Em tese, a política fiscal seria o espaço da solidariedade no capitalismo”, escreveu o advogado Joaquim Palhares, diretor do site, na apresentação do especial. “Caberia a ela transferir recursos dos mais ricos para os fundos públicos, destinados a contemplar os mais pobres e o bem comum”.

Palhares é um homem inteligente e socialmente responsável o suficiente para entender que não se constrói um país desenvolvido sem laços e valores compartilhados em direitos e deveres comuns – e o tamanho da carga tributária e sua divisão desigual (isto mesmo, desigual) entre ricos e pobres são fundamentais para uma desconcentrar uma economia e uma sociedade.

O sistema brasileiro é o inverso disso. Não importa a renda do consumidor: ganhe um ou 100 salários mínimos por mês, o imposto que paga por litro de leite ou por uma geladeira o mesmo.

Em contrapartida, o imposto sobre o patrimônio, que incide diretamente sobre os endinheirados, não chega a 3,5% da arrecadação total no Brasil. Na Coreia do Sul, esse índice é de 11%. Nos EUA, acima de 12%.

O detalhe perverso dessa engrenagem é que aqueles que estão no topo da pirâmide social obtêm seus rendimentos sobretudo do capital. Pegue-se, por exemplo, os rendimentos vindos daí em alguns países: França, 38,5%; Canadá, 31%. Alemanha, 26,40%; EUA, 21,20%; Turquia, 17,50%.

E no Brasil? 0,00%.

Como afirma o economista francês Thomas Piketty, tornado celebridade desde a publicação do seu tratado sobre desigualdade, O capital no século 21, se o capital financeiro rende mais que o crescimento da economia – como tem sido sistematicamente o caso do Brasil – consolida-se uma casta de riqueza inoxidável que se desloca da sociedade e perpetua a desigualdade.

Endividamento público e juros altos

Sem espaço para taxar endinheirados e seu patrimônio, governos passaram a compensar com uma alternativa: o endividamento público. Emprestam e pagam juros por aquilo que deveriam arrecadar. E aí vêm os juros altos – mais conta paga também pelo consumidor.

Coisa que o economista Luiz Gonzaga Belluzzo provoca, com ironia: “É pelo menos curioso que os idealizadores do ‘impostômetro’ não tenham pensado na criação do ‘jurômetro’. Afinal, diz ele, o Brasil atirou no colo dos detentores de riqueza financeira, nos últimos 18 anos, um PIB anual, mais um quarto.

E nem Fernando Henrique, nem Lula, muito menos Dilma Rousseff ousaram mexer nesse vespeiro.

 

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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014 Economia, Filosofia, História, Jornalismo, Literatura, Poesia, Política, Tecnologia | 14:03

Os melhores livros de 2014 (numa lista sem Chico Buarque)

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Todo ano o ciclo se repete. Com a mesma regularidade das fatalidades habituais de verão, somos induzidos nesta época a eleger aqueles que deverão ser conduzidos ao panteão dos melhores do ano – no cinema, na literatura, nas artes em geral, nos fatos e ideias que marcaram os 12 intensos e exaustivos meses precedentes. É como o surgimento de goteiras nos prédios de Oscar Niemeyer: a única dúvida é saber exatamente onde e como aparecerão. Mas elas surgirão, é fato.

A coluna sucumbe aos clichês e elege também os seus. Como os mais conhecidos prêmios literários do Brasil, Pensata cria categorias convenientes para caber suas obras de preferência e adequar seus gostos. Como qualquer lista do gênero, a única coisa que lhe falta é isenção. Os leitores estão convocados, portanto, a se pronunciar, criticar, acrescentar, apontar ausentes e argumentar em defesa dos injustiçados e esquecidos.

Nelson Rodrigues dizia que a nossa reputação é a soma dos palavrões que inspiramos nas esquinas, salas e botecos. Se fosse vivo, provavelmente completaria sua tese: e nos comentários dos internautas nos blogs, sites e portais. O silêncio, neste caso, poderá significar a concordância coletiva – o pior defeito de qualquer lista dos “melhores do ano”.

 

1. LIVRO DO ANO – FICÇÃO
Graça Infinita, de David Foster Wallace  (Companhia das Letras)

Graça infinita David Foster Wallace Companhia das Letras 1144 páginas R$ 111,90

Graça infinita
David Foster Wallace
Companhia das Letras
1144 páginas
R$ 111,90

Graça infinita é o livro do ano em qualquer categoria. Uma obra de superlativas: são quase mil páginas, 130 das quais composto por notas explicativas (ou disruptivas), uma trama vertiginosa, radical, bem humorada e sarcástica, uma edição caprichada e estranha que sequer traz o título na capa, num belo trabalho da Companhia das Letras: somente uma caveira com olhos de rolo de filme na capa, enquanto nas laterais abóbora das páginas, gravados em branco, aparecem os nomes da obra e do autor. Um visual enigmático como o autor e seu mais ambicioso romance.

David Foster Wallace lançou Infinite Jest em 1996, 12 anos antes de se suicidar, aos 46. Ganha tradução no Brasil, portanto, apenas duas décadas depois, num trabalho excepcional de Caetano W. Galindo, tradutor também de James Joyce. Nesse período, o livro tornou-se um marco das obras cultuadas pelo mundo pop (ou não. Apesar do tamanho e da complexidade, ganhou admiradores por todos os lados.

A narrativa gira em torno de um filme, com o mesmo título original, que promova um comportamento compulsivo a qualquer um que o assista. A ambiguidade de “jest” no título em inglês – piada ou divertimento – indica o alvo: assistir a esse filme dá tanto prazer que os espectadores não podem parar de vê-lo, e todas as demais atividades da vida deixam de fazer sentido, o que acaba levando-os à morte. (Há quem considerasse mais preciso ao título em português Piada Infinita, e não “graça”, dada a natureza “divina” do outro significado desta palavra no português, mas essa é uma controvérsia que não macula o excepcional trabalho do tradutor.)

Essa é a síntese do hedonismo contemporâneo: o hedonismo da mera sensação, cujos personagens fissurados levam a vida humana ao extremo da miserabilidade ética; uma vida de vícios, excessos e comportamentos aditivos, incluindo drogas, sexo e trabalho, tudo no superlativo; uma acumulação infinita de vertigens destrutivas; uma era de saturação e consumo desmedido; um tempo em que o tudo se equivale ao nada. Um prazer desconectado dos outros e do mundo. Um prazer sem prazer.

David Foster Wallace explora esse abismo em grandiosidade narrativa e transforma isso em literatura de alto nível. A melhor do ano.

 

2. LIVRO DO ANO – NÃO-FICÇÃO
O capital no século XXI, de Thomas Piketty (Intrínseca)

O capital no século XXI Thomas Piketty Intrínseca 672 páginas R$ 59,90

O capital no século XXI
Thomas Piketty
Intrínseca
672 páginas
R$ 59,90

Thomas Piketty atiçou o debate econômico do ano e possivelmente da década. Dificilmente se verá no curto prazo a súbita ascensão de um texto de 800 páginas à condição de best-seller com tamanho destaque nos círculos acadêmicos e não-acadêmicos como este francês recebeu este ano com seu O Capital no século XXI, publicado no Brasil pela Intrínseca. Seu estudo sobre a concentração de riqueza e a evolução da desigualdade ganhou manchetes, gerou debates nas redes sociais, colheu comentários, críticas e elogios de diversos ganhadores do Prêmio Nobel. Não ganhou unanimidade. Mas não fez pouco.

Resultado de 15 anos de pesquisas, o livro mostra com elegância e clareza que o mundo entrou numa espiral de concentração de renda. As pessoas e os países ficarão mais ricos. Para as nações emergentes, inclusive o Brasil, suspeita-se que crescerão a taxas menores. Segundo O Capital, o mundo caminha rumo a um capitalismo de maior acumulação de renda, numa trajetória explosiva de desigualdade fora de controle.

Piketty ainda desmonta um dos mitos mais amados pelos conservadores contemporâneos: a tese de que o mundo desenvolvido vive uma meritocracia, na qual grandes fortunas são conquistadas e merecidas. Segundo ele, a maior parte dos bilionários atuais têm fortuna herdada. Como lembrou em recente entrevista ao repórter Vitor Sorano,  do iG, chegar ao topo apenas com o trabalho está ficando cada vez mais difícil. E sublinhou o que chamou de ridícula taxação sobre herança. Para ele, os ricos brasileiros pagam imposto muito baixo.

Livro a ser lido como quem lê um polemista à la Marx (sem ser marxista) e um literato que cita Balzac e Jane Austen.

O que Pensata escreveu:
Por que os bilionários são odiados 

Para ler mais no iG:
Ricos brasileiros pagam imposto bastante baixo e taxação sobre herança é ridícula, afirma Piketty

 

3. BIOGRAFIA
Getúlio, de Lira Neto (Companhia das Letras)

Getúlio 3 (1945-1954) Lira Neto Companhia das Letras 464 páginas R$ 49,50

Getúlio 3 (1945-1954)
Lira Neto
Companhia das Letras
464 páginas
R$ 49,50

O primeiro volume saiu em maio de 2012, o segundo no ano seguinte, e a trilogia chegou ao fim em 2014, encerrando um trabalho de cinco anos de pesquisas do jornalista e escritor Lira Neto. Foi o menos relevante da série, mas Pensata o inclui na lista pela obra completa. Das cartas pessoais e diários íntimos, que compuseram o retrato minucioso dos anos de formação e da conquista do poder no primeiro volume, até a narrativa bem montada no terceiro volume, descrevendo os tempos conturbados que levaram Getúlio ao suicídio, Lira Neto realizou um trabalho primoroso, com o apoio do marketing profissionalíssimo da Companhia das Letras. Com a conveniência da efeméride completada em agosto de 2014: os 60 anos da morte do mais importante político brasileiro de todos os tempos.

Autor de outras biografias relevantes, como a de Maysa, Castello Branco, Padre Cícero e José de Alencar, Lira Neto conseguiu ainda outro feito: o que a turma do marketing costuma chamar de “mídia espontânea” – um sem-número de gente importante citando sua série ou sendo vista carregando um de seus volumes. Da presidente Dilma Rousseff ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Só ficaram amuados mesmo os mal-humorados, os invejosos e os ranhetas que esperam uma novidade a cada página nas biografias. Nas quase 2 mil páginas que publicou nos três volumes, Lira Neto traz muitas novidades, algo notável para um personagem exaustivamente radiografado como Getúlio Vargas. E adicionou a elas uma incrível capacidade de contar histórias.

Leia mais no iG:
Os vários getúlios de Lira Neto

Lira Neto: “Quem diz que todo político é ladrão propõe sem saber a ditadura” 

 

4. NÃO-BIOGRAFIA
O réu e o rei, de Paulo Cesar de Araújo (Companhia das Letras)

O réu e o rei Paulo Cesar de Araújo Companhia das Letras 528 páginas R$ 34,50

O réu e o rei
Paulo Cesar de Araújo
Companhia das Letras
528 páginas
R$ 34,50

Foi um gesto audacioso e genial, tanto do autor quanto de sua editora. Depois de ter a biografia Roberto Carlos em detalhes (Planeta) barrada na Justiça por ação de quem chamamos de Rei, obra retirada das livrarias em 2007, e passar alguns anos em batalha judicial pela publicação, eis que o jornalista Paulo César Araújo publica pela Companhia das Letras um livro em que conta os bastidores do processo. Lançado sem alarde, O réu e o rei é um relato objetivo, minucioso e corajoso da saga que levou à discricionária e imoral proibição da biografia de Roberto Carlos.

No livro, narra como virou fã do Rei, quando, aos 11 anos de idade, vestiu sua roupa domingueira e foi ao estádio em Vitória da Conquista, na Bahia, onde Roberto Carlos faria o primeiro show na cidade. Garoto pobre, Paulo Cesar de Araújo não tinha os 10 cruzeiros do ingresso. Ficou rondando o lugar, na esperança de conseguir uma brecha e entrar. Pouco antes do show, um simpático porteiro deixou os moleques negros e sem camisa que andavam por ali. Araújo, porém, foi barrado. Era branco e bem vestido. Tinha cara de quem poderia pagar.

O autor esmiúça os autos dos processos montados contra ele, e trata de tentar demonstrar imprecisões e distorções. E, no mais dramático capítulo do livro, reconstitui a tarde que passou frente a frente com Roberto Carlos, em um fórum de São Paulo. Abandonado por seus editores da Planeta e pressionado por seus advogados, aceitou assinar um acordo que bania Roberto Carlos em detalhes das livrarias.

Para a sorte de todos, sobretudo dos leitores, o Rei e seus advogados não resolveram barrar na Justiça mais este.

 

5. POLÍTICA
As ideias conservadoras, de João Pereira Coutinho  (Três Estrelas)

As ideias conservadoras João Pereira Coutinho Três Estrelas 200 páginas R$ 25,00

As ideias conservadoras
João Pereira Coutinho
Três Estrelas
200 páginas
R$ 25,00

Num país habituado a ter nos representantes da direita exemplos de desonestidade intelectual (Marco Antonio Villa), truculência (Reinaldo Azevedo), baixo índice de humanismo (Rodrigo Constantino), humor para não ser levado tão a sério (Luiz Felipe Pondé) e radicalismo típico de quem já foi um esquerdista radical (Demétrio Magnoli), nada como um bom livro de um conservador elegante, intelectualmente honesto, humanista e amigável cientista político.

As ideias conservadoras, de João Pereira Coutinho, apresenta-se com o subtítulo “Explicadas a revolucionários e reacionários” e, como tal, dirige-se aos profetas do pensamento de esquerda. Seguidor de Edmund Burke – onipresente nas breves 120 páginas do livro – o Coutinho mostra, com acerto, os equívocos do reacionarismo de esquerda e dos ditos revolucionários; descreve, sem afetação, o valor dos conservadorismos e sua doutrina em favor da preservação do que a sociedade criou de melhor para garantir a paz, a liberdade dos cidadãos e o vigor das instituições.

É um sopro a seus colegas em versão brasileira (Coutinho é português) e contra radicalismos crescentes à direita e à esquerda. Convém lembrar-lhes (inclusive a Coutinho): há conservadores e radicais de lado a lado; autoritários, idem. Este livro, porém, reforça a ideia, pregada pela revista Insight-Inteligência no verão de 2011, quando entrevistei o cientista político Luiz Felipe d’Ávila – um dos poucos cientistas políticos brasileiros de alma conservadora (na linguagem política brasileira: liberal, ou de direita) bem oxigenada. Ali, a revista defendia em editorial uma direita necessária ao Brasil – não oligárquica, não corrupta, não covarde, não mentirosa, não golpista.

Afinal, antagonismos de qualquer espécie se saudáveis, ajudam a mover a história. O vigor da democracia, dizia o mesmo editorial, é sua capacidade de racionalizar e controlar, em molduras legais, a violência da disputa entre ideias, homens e partidos. Sem antagonismos, é democracia pela metade, se muito.

João Pereira Coutinho (como Luiz Felipe d’Ávila) mostra o quão interessantes são os antagonismos de ideias.

 

6. TECNOLOGIA
Os inovadores, de Walter Isaacson (Companhia das Letras)

Os inovadores Walter Isaacson Companhia das Letras 568 páginas R$ 57,00

Os inovadores
Walter Isaacson
Companhia das Letras
568 páginas
R$ 57,00

Este é um livro sobre nerds. Mas dirigido não só a nerds. É a graça da maestria de Walter Isaacson, o biógrafo de Steve Jobs, e sua capacidade de contar histórias de personagens que ajudaram a moldar a revolução digital. Os inovadores – Uma biografia da revolução digital vai além dos nerds porque, no fundo, explica nossa relação com computadores e nos faz entender como a tecnologia chegou até aqui em softwares e internet.

Fruto de 15 anos de pesquisas – interrompidas para produzir a biografia do pai da Apple – o livro trata de figuras como John Von Neumann, que trabalhou com Einstein no desenvolvimento da bomba atômica, foi coautor da teoria dos jogos e do primeiro computador digital, nos anos 40.

Ou Ada Lovelace, uma das mulheres excluídas da história da computação: uma quase desconhecida que viveu de 1815 a 1852, matemática e escritora inglesa, ela escreveu o primeiro algoritmo de computador, propôs a ideia de que as humanidades e a tecnologia devem conviver e idealizou o conceito de inteligência artificial. Para Isaacson, Ada Lovelace definiu a era digital.

A grande sacada do autor é defender a ideia, com argumentos irrefutáveis, de que não houve um gênio na história da revolução digital que tenha trabalhado sem ajuda de muitos outros – ainda que reforce o papel dos gênios ao perfilar personalidades emblemáticas, como o próprio Jobs (Apple), Bill Gates (Microsoft), Sergey Brin e Larry Page (Google). Mas estes, lembra o autor, potencializaram a capacidade disruptiva em suas equipes, permitindo atingir novo patamar de inovação.

Outro grande mérito seu é construir uma narrativa que reforça a tese de que a inovação nas ciências exatas ocorre intimamente vinculada às humanidades.

 

7. FILOSOFIA
O silêncio e a prosa do mundo, organizado por Adauto Novaes (edições Sesc)

O silêncio e a prosa do mundo Adauto Novaes (organizador) Edições Sesc 515 páginas R$ 55

O silêncio e a prosa do mundo
Adauto Novaes (organizador)
Edições Sesc
515 páginas
R$ 55

Há quem olhe de lado, torça o nariz e sorria de maneira sarcástica ou desconfiada diante de temas filosóficos como este. Mas os desconsidere e aposte na leitura de O silêncio e a prosa do mundo, organizado por Adauto Novaes, o jornalista e professor que desde 2000 realiza magistrais ciclos de conferências que sempre resultam em livros igualmente interessante.

Quando organizou a edição do programa Mutações no ano passado – que originou o livro – Novaes tinha em mente a ideia de que nunca se falou tanto e se pensou tão pouco. Uma pesquisa feita pelo Centro da Indústria de Informação Global, da Universidade da Califórnia, foram trocadas 10,8 trilhões de palavras nos Estados Unidos em 2008, notáveis 140% a mais em relação aos 4,5 trilhões de palavras usadas em 1980. Um tsunami verborrágico radiografado graças a dados armazenados em texto de jornais, revistas, páginas de internet, áudios de filmes em cartaz, programas de TV e rádio e letras de músicas lançadas naquele ano.

Novaes e seus convidados – ensaístas, filósofos, jornalistas, cientistas sociais, poetas – se perguntam: o que tanto se fala? Qual a importância do silêncio para a criação da obra de arte e da obra de pensamento? Como separar o falatório insignificante daquele necessário e fundamental para não nos desumanizarmos?

Na impossibilidade de resgatar com precisão 24 ensaios em mais de 500 páginas, recomendam-se alguns nomes, com as devidas injustiças: Oswaldo Giacoia Junior (“Por horas mais silenciosas”), Pedro Duarte (“O silêncio que resta”), Eugênio Bucci (“O rumor da mídia”), Marcelo Jasmin (“Silêncios da história: experiência, acontecimento, narração”), Frédéric Gros (“Fazer calar e fazer falar o sexo”), Pascal Dibie (“O silêncio dos amantes e, mais particularmente, das mulheres…”), Antonio Cicero (“A poesia entre o silêncio e a prosa do mundo”), Guilherme Wisnik (“O silêncio e a sombra”), Francisco Bosco (“A descoberta da linguagem”) e Luiz Alberto Oliveira (“O silêncio de antes”).

 

8. LIVRO-REPORTAGEM
Sem lugar para se esconder, de Glenn Greenwald (Primeira Pessoa)

Sem lugar para se esconder Glenn Greenwald Primeira Pessoa 288 páginas R$ 39,90

Sem lugar para se esconder
Glenn Greenwald
Primeira Pessoa
288 páginas
R$ 39,90

Em meados de 2013, o jornal britânico The Guardian (sempre ele) publicou uma série de reportagens que desvendavam a vigilância ilimitada praticada pela NSA, a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos. Assinadas por Glenn Greenwald, as matérias mostravam que a inteligência norte-americana espionava em larga escala não apenas as comunicações domésticas, mas também as de outros países – inclusive os aliados. Edward Snowden, de 29 anos, um funcionário terceirizado da NSA, foi a fonte de Greenwald, e suas revelações abriram caminho para um enorme debate sobre direito à privacidade e o alcance da vigilância governamental.

Sem lugar para se esconder – Edward Snowden, a NSA e a espionagem do governo americano, lançado no Brasil pela Primeira Pessoa (selo da editora Sextante), tem pouca novidade para quem acompanhou de perto o caso pela imprensa. Mas esmiúça todas as peças da história. Com o mérito de organizar a narrativa em seu conjunto, detalhada e envolvente. Não à toa a Sony Pictures comprou os direitos para produzi-lo em filme.

O livro começa com um relato detalhado dos contatos de Greenwald e da documentarista Laura Poitras com Snowden, técnico que queria divulgar os documentos que coletara na NSA. O relato ocupa um terço do livro e destaca os esforços dos três para não serem flagrados. Há detalhamento de como Thomas Shannon, secretario de Estado assistente e depois embaixador no Brasil, agradece à NSA por relatórios de “inteligência de sinais” sobre “s outros participantes” da 5a Cúpula das Américas, documentos quanto ao “alvo” Petrobras, além do ataque de Greenwald à mídia, especialmente ao New York Times.

Uma curiosa nota de rodapé, não presente no livro: Greenwald deixou o Guardian para trabalhar para Pierre Omidyar, bilionário do eBay/PayPal, que participou do estrangulamento financeiro do WikiLeaks a pedido do governo americano. Mas qualquer trabalho seu é para ser lido com o respeito de quem lê um dos mais brilhantes jornalistas de seu tempo.

 

9. CRÔNICA

O livro das mulheres extraordinárias, de Xico Sá (Três estrelas)

O livro das mulheres extraordinárias Xico Sá Três Estrelas 264 páginas R$ 39,90

O livro das mulheres extraordinárias
Xico Sá
Três Estrelas
264 páginas
R$ 39,90

O jornalista e escritor Xico Sá deveria ser uma leitura de cabeceira dos homens que anseiam por uma mísera sensibilidade e sabedoria na arte de seduzir uma mulher. O livro das mulheres extraordinárias é uma ode a cada mulher que ele admira e aos desejos que elas despertam nele – e provavelmente na maioria dos homens. De obviedades como Luiza Brunet (“tesão nada nostálgico”) a delicadezas como Claudia Abreu (“O sorriso mais sexy de todos os tempos da TV”) e surpresas como Lea T. (“O belo e o cirúrgico drible nos gêneros”).

Qual o critério de Xico para a escolha das mulheres extraordinárias? “Foi o critério da comoção, do alumbramento – aquele impacto fundamental no primeiro olhar – e do tesão que deveras sinto. E, sobretudo, o critério da desordem. É que a gente nunca sabe, em momentos deliciosamente cruéis como o desta seleção, o lugar certo de colocar o desejo, como aprendi na música de Caetano Veloso que faz parte da trilha do filme A dama do lotação”.

É um livro, portanto, baseado em desejos reais, como ele próprio confessa. Um livro não de cabeceira, mas “da cabeça viajante de um homem que deseja, que ama de modo hiperbólico que se deve amar as fêmeas”. Como não sermos hiperbólicos diante de Maitê Proença – “a verdade acerca do amor” – que para além da beleza televisiva e cinematográfica ainda encanta na escrita? (Miguel Sousa Tavares escreveu sobre um de seus livros: “Aprendi neste livro de crônicas da Maitê Proença que as mulheres também choram, não são só os homens”). Ou diante de Mariana Ximenes – “todo canalha é um masoquista diante dela”, escreve Xico.

Como ele, acho que não são as mulheres que são complicadas – nós, homens, é que somos preguiçosos, uma mistura de Macunaíma com roqueiro emo. O homem, lembra Xico, não está perdido; ele tem uma preguiça eterna.

 

10. HISTÓRIA

O horror da guerra, de Niall Ferguson (Planeta)

O horror da Guerra Niall Ferguson Planeta R$ 89,90 768 páginas

O horror da Guerra
Niall Ferguson
Planeta
R$ 89,90
768 páginas

Esqueça a moda dos livros de história repletos de detalhes curiosos e picantes para tornar a leitura “interessante”. O escocês Niall Ferguson é um historiador da moda, mas sem os maneirismos que proliferam por aqui. Em O horror da guerra Ferguson (com marcada antipatia pela posição britânica) classifica a Primeira Guerra Mundial como o maior erro da história moderna e analisa os motivos que deflagraram o conflito.

Com o mérito de escapar do maniqueísmo anti-Alemanha, o historiador se pergunta: por que se lutava? A população apoiava o conflito? Que país era o mais militarista? Até que ponto o sacrifício europeu valeu a pena? Foi a primeira guerra total, e a mais sangrenta – um conflito que matou cerca de 8 milhões de homens e destruiu as finanças da Europa.

 

11. E-BOOK
Série Ilusões Armadas, de Elio Gaspari (Intrínseca)

Séries “As ilusões Armadas” e “O Sacerdote e o Feiticeiro” Elio Gaspari Intrínseca R$ 39,90 (edição impressa) e R$ 14,90 (e-book), cada livro

Séries “As ilusões Armadas” e “O Sacerdote e o Feiticeiro”
Elio Gaspari
Intrínseca
R$ 39,90 (edição impressa) e R$ 14,90 (e-book), cada livro

Elio Gaspari é uma espécie de Pelé do jornalismo brasileiro. Mesmo aqueles que não gostam de sua personalidade de Kid Megalô (“O sistema é eliocêntrico, e não fui eu quem disse, foi Copérnico”, costuma dizer) reconhecem nele o brilhante jornalista que é. Dono de uma memória privilegiada, uma insana capacidade de trabalho e, claro, seu eliocentrismo deram-lhe os atributos suficientes para compor uma obra monumental sobre a ditadura militar, que em 2014 teve um ano pródigo de reflexões por marca os 50 anos do seu início.

Pois  os quatro livros que começou a publicar em 2002 ganharam em 2014 a reedição do ano e, mais do que isso, o melhor trabalho em e-book: não só em novos volumes, desta vez publicados pela Intrínseca, como também em caprichadas versões eletrônicas. Tais versões trazem amostra preciosa do material que Gaspari pesquisou para produzir a série, retirados do arquivo acumulado por dois observadores privilegiados dos acontecimentos do período, o general Golbery do Couto e Silva e Heitor Aquino Ferreira, que foi secretario particular do presidente Ernesto Geisel e de Golbery.

A versão eletrônica dos livros traz cerca de 200 documentos que, se fossem impressos, dariam um volume com 670 páginas. Para cada documento há uma cópia do original com transcrição completa e os trechos mais relevantes destacados. Para leitores que têm iPad ou Kindle Fire, o pacote oferece também filmes de época e gravações, incluindo 17 trechos de entrevistas que Gaspari fez com Geisel nos anos 1990.

O autor fez ainda várias revisões no texto dos livros – A ditadura envergonhada, A ditadura escancarada (que compõem a série “As ilusões armadas”), A ditadura derrotada e A ditadura encurralada (série “O Sacerdote e o Feiticeiro”). Incorporou informações que obras mais recentes sobre o período trouxeram e acrescentou novas descobertas.

Por tudo isso, e por ser uma obra de Elio Gaspari, é obra para ler, reler e guardar.

O que Pensata escreveu:
De um torturador para uma jovem: “Você vai sofrer como Jesus Cristo” 

 

12. COLEÇÃO
Clássicos Zahar (Zahar)

A coluna faz aqui um reparo a uma injustiça cometida ao longo do ano: não ter falado na espetacular coleção de clássicos da Zahar – de longe a melhor coleção lançada por uma editora brasileira em 2014. São edições caprichadas em todos os sentidos: belas capas, miolo equilibrado e elegante, texto integral, notas históricas e literárias, cronologia de vida e obra do autor, posfácio com as grandes linhas da crítica sobre o livro e, em grande parte, um rico trabalho de ilustrações de época para os clássicos.

Não vi todos os volumes, mas a amostra constada pela Pensata é uma constatação da fidelidade do projeto: o campeão de venda Alice no País das Maravilhas (Lewis Carroll) Os Maias (Eça de Queirós), A besta humana (Émile Zola), Robin Hood (Alexandre Dumas), Os três mosqueteiros (Dumas), 20 mil léguas submarinas (Jules Verne), O corcunda de Notre Dame (Victor Hugo), A Terra da Bruma (Arthur Conan Doyle) e Persuasão (Jane Austen) são evidências de um rico padrão de qualidade do projeto. Edições de bolso, igualmente de luxo, completam a coleção.

Fez tanto sucesso que a Zahar criou um selo para ela e vai intensificar a produção em 2015. A incluir um autor brasileiro, Raul Pompeia, com O Ateneu, já no início do ano.

 

13. HOMENAGEM DO ANO
Millôr Fernandes

Humorista, escritor, tradutor, desenhista, dramaturgo, jornalista e polemista, Millôr Fernandes foi o homenageado do ano na Flip. O gesto do convescote de Paraty ajudou a recolocar no mercado vários dos livros do genial sujeito: The cow went to the swamp, Tempo e Contratempo, Esta é a verdadeira história do paraíso e Essa cara não me é estranha, todos da Companhia das Letras. Também estimulou o lançamento da antologia organizada por Sérgio Augusto e Loredano, publicada pelo Instituto Moreira Salles: Millôr 100 + 100: desenhos e frases.

Morto em 2012, aos 88 anos, Millôr era um desses raros casos de um sujeito que faz tudo bem. Sua assombrosa criatividade produzia, em palavras e imagens, gargalhadas abertas ou ironias amargas. Mas sempre brilhantes. Em livros ou nos debates na Flip com quem entende de Millôr (graças à curadoria de Paulo Werneck), fez-se jus àquele que se dizia “livre como um táxi”.

O que Pensata escreveu:
15 frases para falar mal da política, segundo Millôr

 

14. POESIA
Geografia aérea, de Manoel Ricardo de Lima (7Letras)

Geografia aérea Manoel Ricardo de Lima 7letras 142 págs. – R$ 35

Geografia aérea
Manoel Ricardo de Lima
7letras
142 páginas    R$ 35

Repita este nome: Manoel Ricardo de Lima. Professor de literatura e poeta da mesma geração de Carlito Azevedo, de quem é amigo e colega de encontros literários, Manoel Ricardo de Lima vem produzindo sistematicamente poesia e ensaio com a reinvenção de quem não se exaure com a própria criação. Geografia aérea, o livro em questão, publicado este ano pela 7Letras, é a síntese de sua poesia, uma espécie de reunião de sua obra poética. De Embrulho e Falas inacabadas, ambos de 2000, a Quando todos os acidentes acontecem, de 2009.

Ao ponto: Geografia aérea é, ao estilo de Manoel Ricardo (e do próprio Carlito Azevedo, o maior nome de sua geração e, portanto, da poesia contemporânea), uma reinvenção dos próprios poemas editados. Ele gosta de criar novos abismos, como gosta de dizer. Reescreve, revisa, reedita os poemas.

“alguém pode decidir outra/ coisa outro nome apenas porque apertou/ muito bem os olhos”,  escreve em “Quase”, um dos belos exemplos de Geografia aérea. É uma poesia em deslocamento, um acidente que pode transformar-se em outra coisa. Desse desvio alimenta-se sua obra – e sua vida também. Manoel Ricardo nasceu em Parnaíba, no Piauí, formou-se em Fortaleza e em Florianópolis e atualmente mora no Rio de Janeiro, onde é professor da UniRio.

Uma mobilidade que, na poesia, formam histórias-enigmas, aparentemente sem solução. Annita Costa Malufe, também poeta e também professora de literatura, escreve que nos poemas de Manoel Ricardo há sempre “uma história em jogo, ou muitas, mesmo que não saibamos quais são”, construindo imagens que estão longe de serem fixas, numa experiência instável e em constante mutação: “nenhuma/ imagem do presente e sempre/ de passagem a areia do lugar/ que você diz que é seu”, escreve ele no poema “as fotografias”.

Manoel Ricardo de Lima põe política em sua poesia, não no sentido panfletário, mas no que ela tem de reflexão sobre o mundo que nos cerca. Ele fala, por exemplo, em “cidades moribundas”, onde “tudo é buraco”, mas também onde “o que resta de amor/ e sobrevive/ salta”. Cidades de abismos sociais com cenários de guerra, mas que encontra na poesia uma forma de imaginário que se vincula a uma prática de vida, política e amorosamente. Como ele escreve, que sobrevive, salta.

 

15. FICÇÃO BRASILEIRA
O professor, de Cristovão Tezza (Record) e Os piores dias de minha vida foram todos, de Evandro Affonso Ferreira (Record)

O professor  Cristovão Tezza Record 240 páginas R$ 32

O professor
Cristovão Tezza
Record
240 páginas
R$ 32

Os piores dias de minha vida foram todos Evandro Affonso Ferreira Record 128 páginas R$ 30

Os piores dias de minha vida foram todos
Evandro Affonso Ferreira
Record
128 páginas
R$ 30

Na ausência de uma monumental e marcante ficção lançada em 2015, a coluna divide-se em dois autores da Record: Cristovão Tezza e Evandro Affonso Ferreira. Um Chico Buarque em excelente estágio literário atinge um bom Tezza.  Mas O professor não é um romance bom: é ótimo. A obra gira em torno de Heliseu, um professor de filologia românica de 70 anos, que está prestes a receber uma homenagem por sua carreira. Repassa sua vida – a medalha que receberá e o discurso que fará nada mais são do que a morte simbólica de sua trajetória setentona.

A percepção súbita da passagem do tempo, do personagem e do Brasil, estão no centro das preocupações do autor do exitoso O filho eterno, lançado em 2007. Como quase todo envelhecimento, Tezza constrói um quadro de amargura e realismo.

Ao lado dele, um lúgubre Evandro Affonso Ferreira e sua personagem: uma mulher que, à beira da morte, presa a uma cama de hospital, imagina-se vagando nua pelas ruas de São Paulo, cruzando com os personagens habituais da cidade. Narrado em um longo monólogo, o percurso íntimo é repleto de outras vozes: memórias e referências literárias, filosóficas e mitológicas, que tornam a leitura de Os piores dias de minha vida foram todos um tanto mais complexa. (O autor já disse uma vez que não se importa com a falta de leitores para seus livros, numa boutade de autodefesa contra o universo reduzido de leitores em contraponto a uma literatura de consumo fácil.)

Mas o exílio forçado da mulher expõe uma rica literatura: “Sei que neste quarto-desemparado”, diz ela, “procuro levar a imaginação até seu limite – jeito de driblar entre aspas desintegração contínua delas minhas entranhas” ou “Jeito é caminhar imaginosa nua pelas ruas desta cidade para fingir que ainda estou viva. Ilusão, sim, mas benéfica e libertadora”. É a personagem que se ergue quando pensa ver coisas, mesmo diante do malogro da vida, entre doença e reclusão.

 

 

 

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segunda-feira, 2 de junho de 2014 Economia | 09:37

Por que os bilionários são odiados

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Capital_PikettyMaio terminou com a marca de atiçar o debate econômico do século. Ou do ano – por aí. A tradução do francês para o inglês do seu livro O Capital no século XXI alçou o professor francês Thomas Piketty, da Escola de Economia de Paris, à condição de economista mais famoso do momento. Nunca tanta gente importante escreveu em tão pouco tempo sobre uma única obra acadêmica – e o mais curioso, com um tema sobre o qual os economistas parecem enxergar como menor: a desigualdade.

No livro, resultado de 15 anos de pesquisa não só dele mas de um grupo de economistas, Piketty mostra com elegância e clareza que o mundo entrou numa espiral de concentração de renda. As pessoas e os países ficarão mais ricos. Para as nações emergentes, inclusive o Brasil, suspeita-se que crescerão a taxas menores.

Segundo Capital, o mundo caminha em direção a um capitalismo patrimonialista, com a acumulação de renda ininterrupta enquanto persistir uma taxa de retorno financeiro bem mais alta do que o crescimento da economia. Para Piketty, a dinâmica atual de acumulação e repartição de patrimônios conduz o planeta  a uma trajetória explosiva e espirais de desigualdade fora de controle.

A tese cabe numa fórmula: r > g. Simplificadamente, a fórmula informa que toda vez que a taxa de retorno sobre o capital dos investidores (“r”) é maior do que a taxa de crescimento da economia (“g”), o dinheiro herdado cresce mais rápido que a produção e os salários.

Estatística e matemática ao lado de Balzac e Jane Austen

Thomas Piketty não é o primeiro economista a sublinhar que estamos experimentando um forte aumento da desigualdade, ou até mesmo a dar ênfase ao contraste entre o lento crescimento da renda para a maioria da população e os rendimentos altíssimos no topo. Mas faz isso combinando uma incrível elegância de escrita (chega a citar Balzac e Jane Austen) com erudição acessível (algo raro entre economistas), além de um extraordinário levantamento de dados históricos, reunindo informações dos últimos 300 anos.

O que é realmente novo no livro, no entanto, é o modo como desmonta um dos mitos mais amados pelos conservadores: a tese de que o mundo desenvolvido vive uma meritocracia, na qual grandes fortunas são conquistadas e merecidas. Piketty mostra que a maior parte dos bilionários atuais têm fortuna herdada. Muito pouco resultado, portanto, do seu mérito ou de dedicação ao trabalho. Para Piketty, essa não é uma questão menor. As sociedades ocidentais, antes da Primeira Guerra mundial, eram dominadas por uma oligarquia de riqueza herdada – e seu livro argumenta, de maneira convincente, que estamos voltando a esse cenário.

No início do século XX, lembra Piketty, os 1% situados no andar de cima nos EUA e na Inglaterra ficavam com 20% da renda dos dois países. Até 1980 essa riqueza caiu à metade. A partir daí, voltou a crescer e retornou ao ponto inicial. A queda, porém, não se deveu a políticas sociais, e sim às duas guerras mundiais. A partir de 1990 as fortunas dos bilionários voltaram a crescer. Um século XXI com cara de século XIX.

Há quem ache até que um certo grau de desigualdade é economicamente saudável, pois a perspectiva de tornar-se rico claramente leva muitas pessoas a trabalhar com mais empenho. É nisso que acreditam muitos economistas liberais. E muitos ricos, certamente. O inconveniente nessa tese é quando se depara com números como os evidenciados por Piketty: a desigualdade maciça se mostra intolerável e se torna um grave risco para as sociedades. Em seu livro, o professor francês argumenta que a concentração de capital pode chegar a um nível ameaçador para o funcionamento das instituições democráticas.

Muitos aplausos, muitas críticas

O economista Thomas Piketty, autor de "O capital no século 21". Foto: Divulgação

O economista Thomas Piketty, autor de “O capital no século 21”. Foto: Divulgação

Não se desespere se você não leu as 970 páginas da edição original francesa, ou as 685 páginas da versão no inglês e segunda obra mais vendida da Amazon apenas três meses depois de ser lançada nos Estados Unidos. Pode até estar por fora do mais quente debate econômico do momento, pode fazer feio nos jantares inteligentes por não saber quem é a celebridade atual da economia global, pode perder uma das mais ricas e polêmicas análises sobre a desigualdade econômica em muitas décadas. Mas tudo isso será aplacado quando a editora Intrínseca terminar de traduzir a obra para o português.

Por ora, o leitor brasileiro que não se sente pronto para encarar essas edições pode passear pelas resenhas publicadas por grandes economistas. O Nobel de Economia Paul Krugman, professor da Universidade de Princeton, dedicou-lhe enfáticos elogios em resenha no “The New York Review of Books” e em seu blog no site do “The New York Times”. Para Krugman, Piketty escreveu um “livro verdadeiramente soberbo”, um “prodígio de honestidade”, uma obra que vai mudar tanto o modo de se pensar sobre a sociedade como a maneira de fazer economia. Escreveu ainda que “o pânico em relação a Piketty mostra que a direita ficou sem ideias”.

Outro Nobel, Robert Solow, professor do MIT, disse que Thomas Piketty “está certo”, mas sugere a necessidade de um pouco de ceticismo com o livro. Dani Rodrik, da Universidade Princeton, ressaltou que O Capital no século XXI reacendeu “o interesse dos economistas pela dinâmica da riqueza e de sua distribuição” – tema que preocupou, no passado, economistas clássicos, como Adam Smith, David Ricardo e Karl Marx.

Mas Piketty também apanhou bastante. A grita maior veio de conservadores. O mais leve xingamento foi classificá-lo de marxista (embora o próprio Thomas Piketty admita no livro que não leu O Capital, de Marx). A crítica mais enfática foi à solução dada no livro para a necessidade de redução da desigualdade em curso: uma tributação progressiva como forma de limitar a concentração de riqueza; um imposto sobre fortuna de âmbito global com alíquota de até 80% – ideia que o próprio Piketty considera ingênua e difícil de se concretizar. O Wall Street Journal comparou a defesa de Piketty ao stalinismo.

Chris Giles, editor econômico do Financial Times, escreveu que Piketty comete erros nas projeções que faz para épocas nas quais não havia informação, no método que usa para diferentes países e no uso tendencioso das estatísticas para provar sua tese central. A revista The Economist saiu em defesa de Piketty na semana seguinte: afirmou que as críticas de Giles eram questionáveis e muitos dos detratores do livro não tinham se dado o trabalho sequer de lê-lo e ignoravam que a maioria dos dados vinha do World Top Income Database, um índice que ninguém questiona.

Mas não foram só os conservadores que atacaram o livro de Piketty. A esquerda, e em particular a esquerda marxista, criticou-o severamente. Numa das críticas, longe de exagerar o estado das coisas, Piketty teria subestimado a real dimensão da desigualdade.

James Galbraith, da Universidade do Texas, escreveu que a obra tem peso e relevantes informações sobre fluxo de renda, transferência de riqueza e distribuição dos recursos financeiros em alguns dos países do mundo. Mas “não é o trabalho acabado de grande teoria que seu título, extensão e recepção sugerem”. E, sob o ponto de vista da esquerda, lembrou: “Se o coração do problema é uma taxa de retorno sobre ativos privados que está muito alta, a melhor solução é reduzi-la. Como? Aumente o salario mínimo! Isso diminui o retorno do capital que se apoia no trabalho mal remunerado. Apoie os sindicatos! Taxe os lucros das empresas e os ganhos pessoais de capital, incluindo dividendos!”.

David Harvey, outro representante da esquerda, professor da Universidade da Cidade de Nova York (Cuny), elogiou seu relato das diferenças entre renda e riqueza (“convincente e útil”, escreveu) e o modo como Piketty mostra estatisticamente que o capital tendeu a produzir níveis cada vez maiores de desigualdade ao longo de sua história (algo, diga-se, já provado no primeiro volume de O Capital, de Marx). Mas acha que tem erros sua explicação de por que surgem as desigualdades e as tendências oligárquicas; e que suas propostas quanto aos remédios são ingênuas, “se não utópicas”.

De Proust a bilionários vulgares, recuamos no tempo

O Capital no século XXI não seria uma obra importante se não inspirasse tantos elogios e tantas críticas. Acima de tudo, é um bom retrato dos problemas surgidos de uma época de ostentação de riqueza comparada à “Gilded Age” – que foi do fim do século XIX ao início do século XX. A expressão designava nos Estados Unidos uma abastança exuberante, mas superficial. Piketty, porém, fala mais na “Belle Époque” francesa. Esta teve o escritor Marcel Proust; aquela, bilionários vulgares, capazes de copiar castelos e casar as filhas com nobres europeus quase sempre falidos.

 

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segunda-feira, 14 de abril de 2014 Economia, Política | 08:59

Sem utopias e com violência, o ano vai ser difícil, diz a economista Maria da Conceição Tavares

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A professora Maria da Conceição Tavares completará 84 anos no próximo dia 24. Ao seu modo, com um olhar sobre a economia brasileira, muitas hipérboles e uso desenfreado de palavrões, a economista costuma soltar sua birra contra os céticos – gente desabrida que, nos últimos anos, não enxergou as mudanças de um Brasil de pleno emprego, salário mínimo elevado e melhor distribuição de renda com ascensão social das bases (e lixe-se a questão se temos PIB ou “pibinho”).

Diz ter deixado de ler economia para não se irritar com o “festival de besteira”, admite possivelmente estar ultrapassada e velha e, há pouco tempo, afirmou que não dá para ser nem ultraotimista nem ultrapessimista, mas “moderadamente otimista”.

InteligenciaNum belo depoimento à revista Insight-Inteligência, no entanto, Maria da Conceição Tavares mostrou-se menos moderadamente otimista do que admite. “As pessoas estão perdidas, não sabem como se guiar do ponto de vista político, econômico”, afirmou à revista, cujo versão em blog é parceira do iG. “E com isso a história parece que não se move. O futuro fica ilegível, amorfo”.

É um desabafo a se enxergar não o estreito limite de 2014, da sucessão presidencial ou da avaliação de um governo. Antes, trata-se de um despejo de sombra sobre nossa época, o que ela chama de “era das distopias”.

A professora usa palavras conceitualmente duras para definir esses tempos fraturados (expressão emprestada do historiador marxista Eric Hobsbawn) e vê pouca luz na produção intelectual. O mundo reformista vai mal, e o mundo revolucionário também, afirma Conceição. Diz ela:

 “O pensamento social está muito atrasado, muito desminliguido. O pensamento reformista sumiu. Agora, o que há é uma espécie de naturalismo. (…) Naturalizou-se uma concepção de vida social a respeito da qual se passou um século inteiro combatendo. Mais: ao contrário do século XX, que organizou as massas, os sindicatos poderosos, organizações internacionais festejando o progresso, agora todos os interesses se fracionaram, se fragmentaram,”

Sem movimentos utópicos

Para a professora, a história não ilumina mais o futuro, na forma de uma ideologia. Desde o século XVIII, os movimentos políticos, sociais e econômicos deixaram de se orientar pela ideia de tradição, substituindo-a pela convicção de um futuro diferente e melhor. A história tinha um sentido, um objetivo, uma utopia: criar uma sociedade mais livre e igualitária.

O século XIX foi pautado pela busca da liberdade – liberdade do indivíduo, liberdade política, liberdade econômica. Depois, no século XX, veio a busca pela igualdade. Da Revolução Francesa e a promessas de liberdade do século anterior à Revolução Russa e a promessa do reino da igualdade.

Essa orientação histórica dupla – de um lado a liberdade; do outro a igualdade – acabou no final do século XX, conclui a professora. “A história deixou de iluminar o futuro para os economistas, os políticos, os ativistas”, disse ela à Inteligência. “As vanguardas desapareceram. Com o esboroamento das utopias, esvaíram-se também as ideias de socialismo, do Estado de bem-estar e o planejamento econômico”.

Ou seja, o mercado e o neoliberalismo mostraram-se incompatíveis com a ideia de sociedade organizada e de Estado planejador. Os antigos receituários perderam seu sentido. “Vemos a sociedade mexer-se, mas a forma superestrutural de fazer política parece não andar para lugar nenhum”.

Um exemplo? “Como se elege um negro nos Estados Unidos e não acontece nada?”, questiona Conceição. “Era para ter acontecido, bem ou mal, uma mudança de paradigma, de comportamento social”.

A presidente Dilma Rousseff entrega Prêmio Almirante Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia à professora Maria da Conceição Tavares: "Parece que tudo se esvai no arroz com feijão"

Maria da Conceição Tavares recebe da presidente Dilma Rousseff Prêmio Almirante Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia: “Parece que tudo se esvai no arroz com feijão”. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

O ódio no lugar da utopia

Planejamento pode significar um palavrão para liberais e neoliberais, mas a dificuldade, segundo ela, é pensar um guia de ação: “Parece que tudo se esvai no arroz com feijão”. Não há um plano no governo, mas também nos sindicatos – “todos aparvalhados” – e na classe média. “Não sei até que ponto o povo propriamente dito precisa de utopia. Mas a classe média precisa”, afirma a professora. “Não tendo, ela transforma sua mágoa em ódio”.

Segundo ela, quem promove a violência hoje não são os deserdados da terra, para quem as coisas melhoraram. A violência vem da classe média baixa. “Não tem energia utópica, só através da violência. Não tem utopia, só distopias. É só o aqui, agora; quero derrubar isto, quero derrubar aquilo. Não tem um objetivo programático”.

Conceição chama de “manifestações de araque” e acha tudo “coisa esquisitíssima, enlouquecida”. É uma fragmentação que, segundo ela, afeta partidos políticos, sindicatos e todas as demais organizações da sociedade que levaram muito tempo para serem criadas. “Esses garotos de merda vão para o pau pedir o quê?”, questiona, referindo-se aos “máscaras negras”, os black blocs.

Se os garotos de máscaras são “repugnantes”, a imprensa também não diz nada, completa. “Faz uma confusão” e torce “para que haja morte de um menino desses”.

Transição ou apodrecimento?

“Acho difícil saber para onde vamos”, afirma a professora. “O que ocorre hoje pode ser uma transição ou um apodrecimento. Transição não sei para o quê, porque não há uma utopia prévia”.

Conceição se vê diante de uma sensação de impotência, coisa de quem foi uma adolescente na primeira metade do século XX, uma época mais organizada em matéria de proposição.  Hoje, ela admite, parece difícil enxergar causas capazes de servir a tantos interesses fracionados. “Diga-me um autor relevante que não esteja pensando dessa maneira, prostrado pela falta de alternativas? Não há ousadia em nada, pelo menos do ponto de vista do pensar”.

Por isso, diz ela, não gosta de dar entrevistas: “Não quero engrossar o coro de lamentação dos intelectuais”.

A idade do ceticismo

Pode ser a idade, como ela diz, mas nos últimos tempos a professora nunca se mostrou exatamente otimista. Nem com os políticos, nem com os economistas, nem com os intelectuais.

Tive o privilégio de visitá-la três ou quatro vezes em seu apartamento, no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Sempre com a companhia de um amigo comum, o jornalista Luiz Cesar Faro (o artífice dos encontros, diga-se), as entrevistas destinavam-se a colher depoimentos sobre dois liberais – o economista Eugênio Gudin e o jurista Bulhões Pedreira – e um economista de quem foi discípula, o argentino Raúl Prébisch.

Em todos os encontros era inevitável tentar arrancar da professora análises sobre a conjuntura, o governo de plantão e o embate político-econômico do momento. Nunca faltaram palavrões contra alguns dos adversários e lamentos pelos intelectuais. (Uma vez afirmou que não sabia onde se escondiam os jovens intelectuais capazes de exibir ideias inovadoras).

No Brasil desde 1953, quando desembarcou aos 23 anos de idade e se deixou envolver pelo otimismo brasileiro daquela década e pela intelectualidade carioca, a portuguesa se apaixonou pelo Brasil, pelo sonho de Brasília, pela Bossa Nova e pelo desenvolvimentismo.

Desde então participou de quase todas as polêmicas econômicas, do Brasil e da América Latina. Ajudou a formar diversas gerações de economistas, sendo professora de Dilma Rousseff, José Serra, Pedro Malan e Aloizio Mercadante, entre outros. Foi aluna de economistas de visão radicalmente oposta à sua, como Octávio Gouvêa de Bulhões e Roberto Campos.

Por tudo isso, não é bom presságio ver uma pensadora provocadora e apaixonada enxergar um “futuro amorfo” para a nossa era. O melhor da professora, porém, não é quando ela dá uma de pitonisa. Mas há um alento: ela acha que esse ciclo vai passar – não se sabe quando, mas torce que não seja longo.

Leia o artigo de Maria da Conceição Tavares publicado na revista Insight-Inteligência na íntegra.

 

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