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Arquivo da Categoria Filosofia do cotidiano

domingo, 14 de dezembro de 2014 Filosofia do cotidiano, Política | 17:38

Ética não é só um problema dos políticos, mas do cotidiano de todos

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Se você é daqueles que se enfurecem ou se entristecem com o insistente tema da corrupção no Brasil, mas não deseja restringir-se à cantilena das obviedades despejada pelo colunismo público moralista, recorra a uma leitura imediata – o novo livro da filósofa Marcia Tiburi: Filosofia prática – Ética, vida cotidiana e vida virtual, lançado recentemente pela editora Record. Esta coluna chegou tardiamente ao livro de Marcia (embora seja a menor das dívidas que mantém com ela), mas faz aqui o reparo.

Embora trate de um vasto universo de temas que dizem respeito ao “modo de viver”, incluindo a indústria cultural da felicidade e nossa relação com a tecnologia e as redes sociais, Filosofia prática é essencialmente um livro sobre ética. Na verdade, “filosofia prática” é o que seria uma boa “tradução para o termo “ética” – a preocupação em relação à nossa vida e à vida em comunidade.

Em seu livro, Marcia Tiburi pensa a ética como ação. Pensamento é um ato, diz a filósofa, buscando sincronizar pensamento e ação. Sincronia esta que, segundo suas palavras, “é o desenho feito de pedras no fundo arenoso do rio da vida cotidiana, onde, apressados, molhamos os nossos pés, onde, menos atentos, nos afundamos até o pescoço sem perceber o que acontece”. Diz mais: “Chamo de Filosofia Prática a fotografia desse rio, ora barrento, ora cristalino”.

Por vida cotidiana ela entende a vida “simplesmente vivida, a realidade partilhada como “naturalidade”. A ética corresponde à pergunta e, ao mesmo tempo, poderia ser a resposta aos problemas humanos do que podemos resumir como convivência. Seja a convivência consigo mesmo, com o outro, com a cultura mais ampla, com a sociedade do espetáculo, todos os problemas enfim do cotidiano – o lugar de “viver junto, de viver “com”.

A filósofa Marcia Tiburi, autora do livro "Filosofia prática": "A pronúncia da palavra ‘ética’ convoca a ser ético aquele que fala". Foto: Divulgação

A filósofa Marcia Tiburi, autora do livro “Filosofia prática – ética, vida cotidiana, vida virtual” : “A pronúncia da palavra ‘ética’ convoca a ser ético aquele que fala”. Foto: Divulgação

Eu comigo, eu com o outro

Daí porque ela faz três perguntas essenciais: 1. Como me torno aquilo que sou? 2. O que estamos fazendo uns com os outros? 3. Como viver junto? Neste último caso se apropria de um belo título de Roland Barthes, a quem recorre também para a epígrafe “Por que não falar a língua de todo mundo?” (mais do que uma epígrafe, é também uma preocupação exposta em todo o livro, a busca por uma escrita sem rebuscamentos excessivos, contorcionismos teóricos e academicismo no mau sentido).

Marcia Tiburi não explicita isso em seu livro, mas a ética do cotidiano que aborda no fundo constitui um debate fundamental para o Brasil contemporâneo, uma vez que o País tem padecido de um vício de origem na discussão sobre política e corrupção.

Explica-se.

Passo a passo, contínua e diariamente, o Brasil vem se acostumando à ideia de que o mal-estar da sociedade decorre da convicção de que as autoridades eleitas para administrar os recursos das comunidades não oferecem serviços à altura do combinado com seus eleitores. Pior: apropriam-se ilegalmente de parte desses recursos públicos. Em bom português: elegem-se por um único e exclusivo e interesse. Porque são um bando de larápios. Todos gatunos. Bandidos.

Daí a suposição coletiva, compreensiva para muitos ingênuos, de que existam normas eleitorais, a serem urgentemente postas em prática, capazes de propiciar uma limpeza irrestrita nas regras e nos costumes políticos. Desse modo – assim supõem “cidadãos de bem”, colunistas públicos, éticos e moralizadores em geral – os prevaricadores serão removidos da vida pública, os recursos estarão melhor administrados, e a política ficará livre de personagens pecaminosos.

Difícil acreditar na existência de regras tão eficientes, a ponto de filtrar a esse nível os cidadãos em geral – incluindo, claro, aqueles que embarcam na vida pública. Como afirmou o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, num artigo publicado no iG há mais de um ano, ainda que existissem regras tão eficientes, “elas não se aplicariam ao outro lado das transações espúrias, isto é, aos corruptores”. No quesito “cidadãos virtuosos”, ressaltou o professor, o Brasil “hospeda sensacional taxa de corruptores”. Cito-o:

Do jovem motoqueiro insinuando uma gorjeta ao policial que o multa por excesso de velocidade ao indignado cidadão que esbraveja contra as instituições políticas, mas, enquanto feliz proprietário de um estabelecimento comercial, oferece modesta propina para que o fiscal ignore as insatisfatórias condições de segurança de incêndio de seu negócio – são raríssimas as exceções à cultura prevalecente no Brasil, segundo a qual é quase sempre possível esconder uma ilegalidade promovendo outra. E não há talvez brasileiro que nunca tenha sido objeto de ameaçadora pressão corruptora por parte dos profissionais liberais – médicos, advogados, dentistas, analistas, etc. – a cujos serviços recorre com frequência, deixando de cobrar-lhes recibos e tornando-se cúmplice de crimes fiscais.”

Nesse caso, lembra Wanderley Guilherme dos Santos, são os corruptos e corruptores que se consideram iguais na demanda por ética na política, e até justificam a violência niilista de alguns grupos em passeatas intimidantes pelas ruas de grandes cidades, comuns em junho do ano passado.

A banalidade do mal

Filosofia Prática Marcia Tiburi Editora Record 320 páginas; R$ 35

Filosofia Prática
Marcia Tiburi
Editora Record
320 páginas; R$ 35

Lembrei-me imediatamente do artigo do cientista político ao ler o livro de Marcia Tiburi, para quem a ética se tornou uma espécie de palavra mágica que teria o poder de “presentificar” a exigência nela contida. Em outras palavras, “(…) qualquer um que diz ‘ética’ põe em ação sua virtude de bumerangue: a pronúncia da palavra ‘ética’ convoca a ser ético aquele que fala. (…) Pronunciando algo como ‘ética’, alguém pode pensar que ela está autorrealizada como profecia; ao falar da falta de ética do outro, há quem acredita tornar-se automaticamente livre da falta de ética que pode estar justamente projetando no outro”.

Uma cultura de corrupção é como uma banalidade do mal, escreve Marcia Tiburi. Em termos filosóficos, o mal banal é a perversidade ao alcance de todos (para quem é curioso e topa filosofia, vale ler ou reler Hannah Arendt e seu As origens do totalitarismo, entre outros; na psicanálise Freud ainda pode ser uma leitura necessária, tanto o mal como “perversidade” quanto o sentido psicanalítico de “perversão”, mas aí é outra história).

O risco é quando nos acostumamos e aprendemos a conviver com o mal. “Somos convidados à corrupção como à máquina de tortura que, como oficiais, somos treinados para operar”, escreve, para mais adiante acrescentar:

“O mal torna-se algo entre nós trivial; não a exceção, mas a regra. No caso da corrupção, entendida como um gesto deliberado e inevitável em tomar para si o que pertenceria de direito a outrem (…), ela se torna um dado estranhamente afirmativo da cultura. O cinismo é elevado a razão social quando pensamos que a corrupção é inevitável. Se hoje podemos nos perguntar ‘quem não seria corrupto?’ é porque entendemos que a corrupção tomou aquele lugar do bem na autoconservação social em geral. A corrupção é a regra. Mal do nosso tempo, ela aparece como uma nova regra de qualquer conduta, uma contraditória ‘moral imoral’”.

Enfim, Marcia conclui: “Da governabilidade aos atos cotidianos, o corrompido mundo da vida, no qual ética e política cindiram-se há muito tempo, transformou-se na sempre saqueável terra de ninguém”.

Talvez a filósofa não tenha percebido a ingenuidade exposta neste trecho acima. Afinal, quando ética e política andaram sempre amalgamadas? Mais do que isso, quando a sociedade, em todas as épocas e em todos os povos, produziram cidadãos apenas virtuosos, tanto para a esfera pública quanto para a privada (da democracia elitista grega, do corrupto Senado romano às democracias contemporâneas, passando pelas políticas do Vaticano em todas as eras depois de Cristo)?

Apesar do breve desvio de rota, a curva argumentativa de Marcia Tiburi em Filosofia prática é permanentemente consistente. Não recai no histerismo de esquerda à la PSOL – que ela apoiou em 2014 – nem no niilismo antipolítica juvenil, próprio das passeatas de junho do ano passado, muito menos no udenismo de direita, versão tucana. algo que não se esperaria dela.

Do vazio de emoção real à realidade virtual

Mais: o foco discutido aqui, a política, revela algo que é sublinhado em maior relevo no livro, porém Marcia jamais ignora o que é a essência de uma “filosofia prática”, ou uma ética para o cotidiano: um debate sobre como nos tornamos quem somos, o que estamos fazendo com nós mesmos e como estamos vivendo uns com os outros. Por essa razão seu livro aborda de maneira igualmente criativa outros temas que correm paralelamente à política.

Como o vazio de emoção – ou a epidemia de melancolia e depressão, que contraditoriamente (ou previsivelmente) ocorre no mesmo compasso da força crescente de uma indústria cultural da felicidade (ou da obrigação de ser feliz).

Questionando a ideia da solidão como doença e a alegria transformada em mercadoria, nesse terreno, felizmente, Marcia Tiburi se esquiva da medida fácil adotada por alguns de seus pares: o combate aos prazeres. Nada disso. Para ela, os prazeres podem ser libertadores. O importante, afirma, é pensar em como os prazeres são inventados com a intenção de capturar “consumidores” pelo desejo de terem prazeres. Quais deles nos aprisionam? Quais realmente nos libertam? – ela questiona.

A filósofa também não rejeita outro tema que aborda no livro, as redes sociais – acompanhe seu Twitter e seu Facebook e saberá que ela é ativa nesse terreno. Quando trata do cotidiano virtual, o que mais lhe interessa é discutir como nossa vida está desdobrada nessa nova “realidade”, como uma prótese da própria existência – a vida “digital” como simulação que faz decrescer a “realidade real”.

Um debate que merecia uma pensata à parte, pois incorre num desvio comum a muitas reflexões: tende a minimizar fenômenos e constatações como:

a) a tecnologia afasta, mas também aproxima indivíduos, e mais encontros reais ocorrem graças à… tecnologia;

b) avatares e máscaras são apenas formas contemporâneas de obscurecer nossas personas reais, nada muito diferente do que personagens mais oblíquos (do mundo real ou da literatura) faziam para omitir o que desejavam omitir;

c) fantasiamos “virtualmente” tanto quanto casais que acabam de se conhecer “olho no olho”, “realmente”, projetando suas expectativas, desejos e fantasias no outro que esperam conquistar.

Essa é a riqueza do livro de Marcia Tiburi – abrir caminho para variadas e complexas reflexões. De uma importante luz para os conflitos éticos na política à reflexão sobre pequenas coisas da vida cotidiana, a vida anestesiada, angustiada, banalizada, cheia de marasmo ou de pequenas grandes alegrias – a “vida besta” de que falava Carlos Drummond de Andrade em seu “Cidadezinha qualquer”, que ela graciosamente cita numa nota de rodapé:

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.
Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar… as janelas olham.
Eta vida besta, meu Deus.

 

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domingo, 4 de maio de 2014 Filosofia do cotidiano, Literatura | 13:43

Tem um amor não correspondido? Escreva um livro

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A garota de Ipanema, moça cheia de graça e do corpo dourado, é aquela que vem e que passa, não a que fica. Ela é um dos exemplos populares, vindo da música, para um dilema filosófico que atormenta o ser humano desde os antigos: sonhamos com o que nos falta; idealizamos o que não temos ou o que desejamos. A máxima vale não só para o amor, mas para qualquer campo da vida humana. Afinal, o exílio engrandece a pátria. Os pobres não riem da riqueza dos ricos. O cárcere amplifica a força e a beleza da liberdade. O paraíso é a aspiração máxima dos que agonizam no inferno.

Procurando Mônica - O maior caso de amor de Rio das Flores José Trajano Editora Paralela 112 páginas; R$ 19,90

Procurando Mônica – O maior caso de amor de Rio das Flores
José Trajano
Editora Paralela
112 páginas; R$ 19,90

O jornalista e agora também escritor profissional José Trajano não filosofa sobre a existência, mas a história que protagonizou e transformou em livro é uma bela mostra da filosofia do amor. Ou da paixão (ou ainda da paixão amorosa). Pensata chega com atraso a ele (a editora Paralela levou-o às livrarias há dois meses, ou mais), mas eis aqui o reparo ainda que tardio: Procurando Mônica é uma deliciosa, bem humorada, doce e trágica história de uma paixão impossível – um relato real mas com doses de ficção.

A Mônica dessa história é uma paixão mal-resolvida de adolescência no interior fluminense, época e local em que Zezinho, como era chamado, nem sonhava com o jornalismo esportivo que o tornaria conhecido. Paixão mal-resolvida, no fim das contas, pode soar como um pleonasmo. Como diria outro jornalista, Alvaro Costa e Silva, que não é o Xico Sá mas entende do assunto, se é paixão é naturalmente mal-resolvida.

Assim caminha a paixão

Trajano – ou melhor, Zezinho – mal largara as calças curtas para descobrir a paixão nas festas e nos bares de Rio das Flores, onde passava o verão com a família. A pequena cidade já havia sido palco de sua infância, nas férias passadas na fazenda Forquilha, aonde seus pais o levavam desde que era um bebê.

A entrada de Mônica no salão do Clube Recreativo 17 de Março mudaria o cenário da adolescência de Zezinho. Era o Carnaval de 1963. Ele tinha 17 anos. Ela, 13.

Estonteante, fantasiada de pirata, Mônica pisava no salão com a convicção tipicamente feminina de quem sabe que está bagunçando a cabeça masculina. Zezinho passou a noite escorado em uma pilastra, olhando de longe, fazendo o tipo solitário, testando a tática do desprezo – especialidade que costuma dar errado, mas ele fingia que não estava nem aí, como se estivesse apaixonado por alguém ausente, cópia malfeita de James Dean arrastando a asa para Elizabeth Taylor em Assim caminha a humanidade.

“A folia terminou com o dia clareando, e Mônica foi embora antes do fim, para decepção de quem ainda enxergava alguma coisa. Nenhum de nós falou com ela além de alguns minutos. No dia seguinte haveria mais…”

Nas manhãs seguintes, descreve o narrador-Trajano, o programa era ir à piscina do Patronato de Menores. E foi ali, vendo-a à beira da piscina de água barrenta, que ele se apaixonou definitiva e loucamente por Mônica. “Não que Mônica tivesse um corpo escultural. Pelo contrário. Tinha uma discreta bunda, os seios pequenininhos e as coxas um pouco finas. Sua beleza, seu mistério, estava no rosto, mais precisamente na boca, que formava um desenho único, especial. Quando sorria, os lábios ficavam como uma canoa, como uma rede esticada na varanda. Uma luz forte surgia de seus lábios e me hipnotizava”.

(A paixão não nasce de explicações racionais, tampouco de obviedades físicas ou decoro romântico; a paixão surge do inexplicável, sabemos.)

Os anos seguintes sedimentaram a paixão de Zezinho fincada no peito do apaixonado sem que houvesse nenhuma reciprocidade aparente. Descreve-se no livro:

“Durante anos a fio, a população rio-florense – e cada paralelepípedo da avenida Getúlio Vargas, além da cachorrada vadia das ruas, como diria Nelson Rodrigues – sabia de cor e salteado de minha paixão. Eu esperava dela um aviso, um piscar de olhos, um gesto, uma mensagem, um assobio, um ‘oi’ diferente. Nada!”

Como todo amor impossível, Mônica fez gato e sapato de Zezinho. Ignorou-lhe a presença em todas as férias seguintes, não deu bola nem sequer quando ele quase se afogou para encontrá-la.

A frustração definitiva

O ápice da narrativa – e da paixão de Zezinho – deu-se no fim de 1967, ele já um jornalista de redação. Ali o moço apaixonado soube que Mônica passaria dois meses em um cruzeiro pela Europa. Trajano não fraquejou: pegou empréstimo no banco, conseguiu folga no Jornal do Brasil e comprou sua passagem.

Não são muitos os apaixonados que, conduzidos por uma paixão, correriam o mundo para localizá-la e tentar um reencontro maluco. Mas Trajano é um deles.

Era chegada sua hora? Talvez sim, se não aparecesse na história Cadu, rival que conquistou Mônica. Depois do desembarque, Trajano a perdeu de vista.

No ano passado, Trajano resolveu que era hora de registrar a história do amor impossível em livro. Uma história cujos detalhes os amigos ouviam repetidamente há 40 anos passaria ao crivo do público, e o resultado está em Procurando Mônica – o maior caso de amor de Rio das Flores.

Esperto, o autor usa recursos típicos de quem deseja enganar o leitor: sua narrativa contém elementos que deixam o leitor sem saber tratar-se de algo efetivamente real ou se há detalhes puramente ficcionais. Como ficção ou como real, o resultado é adorável.

Com o livro quase concluído, Trajano descobriu uma pista do paradeiro de Mônica – e incrivelmente a história acabou ganhando mais um capítulo. Final feliz com o reencontro de ambos? Não convém contar aqui.

Mas a (re)visita à história deixa claro outro componente inevitável da paixão amorosa: a explicitação pública do caso  constitui o retrato não só do alvo de uma paixão (Mônica, claro), mas também do alvo que o apaixonado fantasiou por todos esses anos.

Um desejo que se apóia só em si mesmo

Fantasia que se manteve viva e em corrida paralela ao mundo “real” de Trajano.

Como se sabe, ele se tornou um dos principais comentaristas esportivos do País. Casou-se duas vezes e teve filhos. A propósito, num de seus aforismos, Nietzsche diz que “o casamento foi inventado para os seres humanos medianos, que não são aptos nem para o grande amor nem para a grande amizade, portanto para a maioria. Mas também para aqueles, raríssimos, que são aptos tanto para o grande amor quanto para a grande amizade”.

Durante muito tempo, de uma maneira que remonta às mais antigas relações entre a ideia de amor e a de casamento, o princípio da paixão se opõe ao do matrimônio, como o da estabilidade da órbita dos planetas se opõe ao desgarramento e à ruptura. Foi só a partir do século XVIII que se sancionou, jurídica e religiosamente, o casamento por amor.

A nossa herança ocidental contém a expectativa de conciliação entre a singularidade errática do amor-paixão com a estabilidade duradoura do casamento. Mas, como afirmou José Miguel Wisnik num texto de longa data sobre a paixão, o acorde entre o desejo de permanência (onde se inscreve o amor) e o fato de que essa permanência não pode se apoiar em nada senão no seu próprio desejo de permanência é um desafio aberto. Uma luta constante, mutável, irracional.

Gilberto Gil tem uma letra apropriada sobre isso, Drão, na qual se canta “[…] não pense na separação/ o verdadeiro amor é vão/ estende-se infinito/ imenso monólito/ nossa arquitetura/ quem poderá fazer/ aquele amor morrer/ nossa caminhadora/ dura caminhada/ pela estrada escura”. É a trama mortal do amor, embevecida numa tradição de alguém imerso na falta, no aniquilamento que o amor contém: “Quem poderá fazer aquele amor morrer/ se o amor é como um grão/ morre e nasce trigo/ vive e morre pão”.

 

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terça-feira, 21 de janeiro de 2014 Filosofia do cotidiano | 02:09

A filosofia como alta ajuda para uma vida boa

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Cariocas que gostam de associar saber com prazer têm a chance de, a partir desta terça (21), apreciar o que paulistanos podem usufruir com razoável frequência: um curso conduzido por dois filósofos que exibem como poucos o talento de transmitir o seu conhecimento para não-especialistas. E se você não mora nem no Rio nem em São Paulo, resta-lhe a internet.

Busque dois nomes. Clóvis de Barros Filho, da USP, e Júlio Pompeu, da Universidade Federal do Espírito Santo, apresentam na Casa do Saber Rio “A filosofia explica as grandes questões da humanidade”. São apenas três encontros: Barros Filho abre a série, com o tema “Moral e virtude: reflexões para viver”; Pompeu prossegue na semana seguinte e fecha em seguida, respectivamente com “Poder e dominação: uma arte de relações e reações” e “A justiça e a lei: do sentimento à ideia”.

Filosofia_explica_as_grandes_questões_da_humanidadeO curso do Rio que começa esta semana é extensão de um livro que ambos publicaram no fim do ano passado pela coleção Casa do Saber da editora Casa da Palavra. O livro, por sua vez, é fruto de quase uma década de experiência bem-sucedida do curso “Grandes questões da humanidade”, da Casa do Saber em São Paulo. Trata-se de uma espécie de blockbuster da Casa do Saber, um típico caso de história de sucesso do conhecimento que vira um clássico para quem participou ou ouviu falar. Como “Os pensadores” (que também virou livro), é realizado desde o nascimento da Casa do Saber em São Paulo, com curadoria sempre primorosa do de Mario Vitor Santos, com extensão para o Rio, cujo conteúdo recebe os cuidados principalmente de Armando Strozenberg e Luiz Antônio Ryff.

Curso-livro-curso, portanto, formam um amálgama que traduz o estilo dos dois professores-autores. Aí, fala e escrita, palco e autoria, performance e academia se misturam e se realimentam mutuamente.

Clóvis e Júlio são dois amigos, parceiros de sala de aula e de escrita. De tão combinados, um mimetiza o outro nos gestos, na fala e até mesmo nos exemplos usados para os alunos. Eles conjugam o brilhantismo de catedráticos com o verbo certeiro dos professores performáticos. Mais do que isso, conseguem trazer o que a filosofia tem de melhor: a possibilidade elevar o espírito ao descer ao plano da vida cotidiana.

Ambos percorrem, em sala de aula e em suas obras, o trajeto imaginado pelos filósofos antigos, para quem a filosofia é, no fundo, uma maneira de alcançar uma vida boa, feliz e consciente.

É  como se o humor, os exemplos práticos, os dilemas, aflições e encantos do dia a dia pudessem – e podem – conviver com a fidelidade às ideias centrais de autores como Platão, Aristóteles, Hobbes, Maquiavel, Nietzsche e Foucault. Foi um modelo que se transformou em algo extraordinariamente bem-sucedido com filósofos como Luc Ferry e, com menor talento, Alain de Botton. Obras do gênero, especialmente de Ferry, pegam leitores de todos os níveis pela mão.

Não é pouco.

Se você quiser saber como funciona esse estilo, pode procurar o arquivo do Café Filosófico, da CPFL Cultura, ou uma curiosa e engraçada entrevista de Clóvis de Barros Filho a Jô Soares sobre felicidade e “a vida que vale a pena ser vivida”, tema de outro livro dele. O vídeo se espalhou pela internet. O entrevistado virou pop.

As grandes questões

O melhor, porém, está nas quase 200 páginas em formato quase de bolso, numa edição caprichada, como de praxe, da coleção da Casa da Palavra/Casa do Saber. A filosofia explica as grandes questões da humanidade, o livro, é um interessante guia filosófico sobre liberdade, felicidade, ética, fé, poder, esperança e conhecimento – as grandes questões da humanidade.

De uma ética para uma vida boa, eles escrevem, por exemplo: “Ética tem a ver com convivência. Eis o seu objeto. Mas seu entendimento e compreensão implicam também em esforço intelectual porque é pensamento sobre a vida partilhada, sobre as relações. É um saber que mobiliza, que vem pelo outro e que curiosamente está ausente de nossa educação formal”.

Nessa convivência, e na reflexão sobre a vida e vida praticada, algumas vidas de qualidade são convertidas em protocolo de qualidade de vida – “conversões conflituosas, que implicam quase sempre na luta pela legitimidade de definir o que é ético e o que não interessa que seja”.

Se a ética se dispõe ao estudo de um certo tipo de ação humana, esta ação é normatizável pela razão – denominada ato moral. Para qualquer ação há uma escolha, e para escolher convém a adoção de um critério, ou de um valor moral que nada mais é do que um critério existencial, explicam os autores.

Da moral para a liberdade e a definição do homem e suas consequências: somos ou não somos livres, podemos ou não ser livres? – questiona o livro, para explicar que isso implica, primeiramente, responder a duas perguntas preliminares: o que exatamente pode ou não ser livre? O que poderia impedi-la? Se não há liberdade, o quê ou quem pode ser o responsável por isso?

As respostas, ou as provocações a tais perguntas, estão lá.

Como a discussão sobre a identidade (quem somos nós?); o poder (“uma arte de relações e reações); a dominação (como diz Foucault, o poder é aquilo que alguém consegue infligir a outros, levando à dominação de um sobre outro ou outros); a justiça e a lei (“justiça é agir conforme a lei justa”, dizia Platão); e a virtude (o que faz o homem justo).

É uma forma inteligente de tentar dar um pouco de sentido à vida, mesmo que a vida talvez possa não ter sentido algum. Afinal, ainda que não tenha sentido, dificilmente conseguimos viver uma vida sem sentido, como prova a dupla de professores-autores.

Em sala de aula e no livro, estas duas formas prazerosas de dar utilidade àquilo que a muitos pode parecer inútil – a filosofia.

* * *

Mais sobre o curso de ambos aqui

 

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terça-feira, 31 de dezembro de 2013 Filosofia do cotidiano | 09:36

Réveillon reacende nossa esperança de felicidade

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Se o Carnaval é o tempo da alegria sem causa, da felicidade sem dia seguinte, e se o Natal nos informa sobre o amor fraterno e a amizade, o réveillon é provavelmente o momento que melhor espelha, traduz e renova a esperança. Na passagem do ano não vivemos exclusivamente o dia e a noite únicos, feito o carpe diem hedonístico carnavelesco, mas enxergamos o amanhã com as portas e o coração abertos para o que virá, como se nessa virada de tempo nossas vidas fossem mudar drástica e repentinamente – para melhor, evidentemente.

Faça o teste, observe à sua volta, recolha depoimentos de amigos e familiares, reveja a caixa de entrada do seu correio eletrônico, verifique todas as suas mensagens, instantâneas ou não: a poucas horas de passarmos a enquadrar 2013 em nosso retrovisor da memória e encararmos 2014 não mais com o mero estranhamento da novidade, serão raros aqueles desprovidos de mensagens de esperança e renovação próprios dessa época.

O poeta Carlos Drummond de Andrade publicou vários textos dignos de citação para o momento, e a editora Record transformou alguns deles num pequeno e belo volume em 2008: Receita de Ano Novo. Recebi Drummond de amigos que trabalham com a palavra – poetas, escritores, filósofos – ou que simplesmente têm a sensibilidade para entendê-las e compartilhá-las. Eu mesmo usei um desses textos e reproduzo aqui.

“Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial”, escreveu Drummond. “Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente.”

A industrialização da esperança de que tratou Drummond não parece um fenômeno exclusivo do réveillon, mas é no fechamento dos doze meses do ano que ela se manifesta de maneira mais enfática. E num país que se habituou a se enxergar como nação do futuro, a vocação para a esperança se revela ainda mais dramática.

Brasileiro, profissão esperança

Não é fácil manter a condição de País do futuro por tanto tempo. Há um enorme mérito nisso. Disso ingleses e portugueses talvez não entendam: nenhuma nação do mundo foi o país do futuro por tanto tempo como o Brasil. Por mais que um inglês force sua imaginação, jamais conseguirá acreditar que a Inglaterra seja, no futuro, algo superior ao que foi no passado, política, econômica e culturalmente. O mesmo império econômico e geopolítico produziu Shakespeare, Bacon e Newton; nenhum inglês acredita que ainda vá surgir outro Shakespeare, outro Bacon ou outro Newton.

Ingleses têm o centro de gravidade no passado. Aliás, como os portugueses, que também já foram um império, viveram momentos de glória e esperaram por muito tempo a volta de D. Sebastião, que os redimiria do ocaso, do ostracismo e da desesperança. Não à toa “saudade” foi uma palavra inventada pelos portugueses (embora o sentimento seja universal): o profundo sentimento de uma nação que teve seus dias de glória. Sua esperança olha para o passado, a fim de revivê-lo.

Enquanto isso, nossa saudade é inversa – talvez o que Fernando Pessoa chamou de uma “saudade imensa de um futuro melhor”. A condição brasileira ancora-se na ideia de que pouco fizemos no passado, ou tudo o que temos por fazer de valioso está mesmo no amanhã. É para o futuro que aponta o centro de gravidade de nossa imaginação. É-nos inconcebível um futuro que seja ainda pior do que o nosso passado.

Modesto no bolso, craque no pé

Dentre os muitos paradoxos do Brasil, um deles é a dissonância entre as condições materiais de existência e as diferentes percepções subjetivas – um cruel histórico de desigualdades, injustiças e precariedade de vida conviveu com uma exuberante autodefinição de povo feliz e esperançoso. Um terreno fértil para exageros de lado a lado, diga-se.

Em “breviário do patriotismo”, Afonso Celso destacou que a felicidade brasileira era fruto dos “motivos reais” que a pátria nos dá para amá-la e para que dela nos orgulhemos. Segundo ele, pode haver países mais prósperos, mais poderosos e mais brilhantes do que o Brasil, mas “nenhum mais digno, mais rico de fundadas promessas, mais invejável”. Para Afonso Celso, o clima e a mestiçagem garantiram um “tipo nacional” privilegiado.

No clássico Retrato do Brasil, Paulo Prado, por outro lado, considera que esses elementos constituem explicações suficientemente evidentes para a “tristeza brasileira”. Ele escreveu:

“A melancolia dos abusos venéreos e a melancolia dos que vivem na ideia fixa do enriquecimento – no absorto sem finalidade dessas paixões insaciáveis – são vincos fundos na nossa psique racial, paixões que não conhecem exceções no limitado viver instintivo do homem, mas aqui se desenvolveram de uma origem patogênica provocada sem dúvida pela ausência de sentimentos afetivos de ordem superior. […] No Brasil, o véu da tristeza se estende por todo o país, em todas as latitudes, apesar do esplendor da Natureza”.

Felicidade edênica

Há alguns anos a Fundação Getulio Vargas na qual perguntou aos entrevistados se eles sentiam orgulho de ser brasileiros e quais os motivos para o orgulho. Enquanto quase 60% responderam afirmativamente, somente 4% disseram sentir vergonha do país em que vivem. Em ordem decrescente, a natureza, o caráter do povo, as características do Brasil, esportes/música e carnaval foram os motivos enumerados para a razão de tanto orgulho. É o que o historiador José Murilo de Carvalho chamou de motivo edênico do orgulho nacional. O Éden somos nós.

Do Instituto Datafolha veio uma pesquisa segundo a qual quase metade dos brasileiros consideram o Brasil o país mais feliz do mundo. Estão satisfeitos com a própria vida, 65% dos entrevistados. Somente 3% se declaram infelizes. Curiosamente, no entanto, o Brasil foi ao mesmo tempo apontado como o segundo país mais infeliz do planeta, atrás apenas da África (genericamente) e da Etiópia – empatadas. A grande maioria dos entrevistados, não importando o nível de renda e o grau de escolaridade, mostrou-se feliz com a vida que levava.

Enquanto 65% dos entrevistados se sentem felizes consigo, apenas 23% acreditam que os brasileiros em geral são felizes. Em outras palavras, a imagem que temos de nós mesmos, cada um por si, não corresponde àquela que temos de nós mesmos como coletividade. Como entender duas percepções tão conflitantes?

Analisando os dados, o economista Eduardo Giannetti apresentou na época duas hipóteses. A primeira seria questionar a validade da imagem que cada um gosta de alimentar de si mesmo. “Por mais infeliz que alguém seja aos olhos dos outros, o indivíduo se defende como pode da dor de admitir perante si mesmo a própria infelicidade”.

A segunda hipótese é que os entrevistados talvez usem critérios distintos nos juízos que emitem: “Ao falarem de si, eles privilegiam a perspectiva interna e declaram o seu bem-estar subjetivo. Ao falarem dos demais, contudo, eles naturalmente adotam o ponto de vista externo e privilegiam as condições objetivas em que vive a maioria. A precariedade da vida vista de fora – renda, emprego, segurança, saúde, educação, moradia – domina a avaliação”.

Embora especulativa, a conclusão pareceu satisfatória: infelizes são os outros, não eu; aos olhos deles, no entanto, os outros somos nós. Acrescente-se ao raciocínio de Giannetti: Dizemo-nos felizes, individualmente, mas nossas felicidades individuais não se somam, não se multiplicam. É o afloramento do individualismo brasileiro, de sua dificuldade histórica de gestar uma dimensão coletiva, um espaço público, em que a busca de bem-estar subjetivo se conjugue com a aliança, o compromisso, o contrato. Essa premissa se confirma com o fato de a política brasileira trazer infelicidade para 37% dos entrevistados.

A política no lugar da religião como fonte de esperança

O número acima não surpreende, porque enquanto a felicidade é a prima rica da esperança, a frustração é a prima pobre. Contraditoriamente, depositamos uma enorme esperança na política, quase no mesmo compasso da profunda decepção que temos com ela – e com os políticos. Como disse o filósofo Luiz Felipe Pondé na última Flip, em Paraty: a relação com a política hoje é religiosa na raiz; esperamos que a política conserte o mundo. É essa convicção que alimenta os mais críticos da política, como aqueles que encheram as ruas de protesto no Brasil, nos EUA, na Turquia, na Síria e em tantos outros lugares.

E, no afã de esperar o futuro como algo melhor, corre-se o risco de ignorar o passado e a herança que nos foi legada. Voltando ao próprio Pondé, na mesma Flip: “A modernidade parece um adolescente de 17 anos, que acha que entende tudo sobre o mundo e que o passado não vale nada. Quando você aprende a respeitar o que veio antes de você, ajuda a baixar a bola sobre o que pensa de si mesmo.”

O avesso da esperança, no entanto, parece ser uma condição de vida de vazio, mesmo infernal. Em sua Divina Comédia, Dante Alighieri descreve os portais do inferno como marcados por um aviso que conclama aos visitantes a abandonar toda e qualquer forma de esperança. Esperamos o que não temos, e no modo mais cético de ver a vida seríamos tanto menos felizes quando mais esperamos ser felizes. Woody Allen resumiria numa fórmula: “Como eu seria feliz se fosse feliz!”.

Desconheço, no entanto, alguém que acredite na falta de esperança como meio de ser feliz – senão filósofos que usam o recurso como artifício teórico. Do mesmo modo que rejeitamos fórmulas para a felicidade. (Como escreveu o psicanalista Contardo Calligaris, a felicidade, para você, pode ser uma vida casta; para outro, pode ser um casamento monogâmico; para outro ainda, pode ser uma orgia promíscua. Para você, buscar a felicidade consiste em exercer uma rigorosa disciplina do corpo; para outros, é comilança e ociosidade. Alguns procuram o agito da vida urbana, e outros, o silêncio do deserto. Há os que querem simplicidade e os que preferem o luxo. Buscar a felicidade, para alguns, significa servir a grandes ideais ou a um deus; para outros, permitir-se os prazeres mais efêmeros.)

Eis o ponto: com ou sem religião, com ou sem filosofia, com ou sem leitura de qualquer autor que tenha se preocupado com tais questões, vivemos em algum lugar entre o campo do provável, do realizável e do desejável. E nesse lugar incerto cabe de tudo: esperança, medo, frustração, felicidade, desejo, vontade… Um caldeirão de afetos mais ou menos intensos, contraditórios e misturados, todos amplificados ainda mais pelas luzes e fogos do réveillon. E por essa razão, Drummond continua e continuará sendo importante nos últimos dias do ano.

Como neste poema de A rosa do povo, com o qual desejo ao leitor uma feliz – e esperançosa – passagem de ano:

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor [da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, [doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o [clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus… 

Recebe com simplicidade este presente do [acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos [séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras [espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

 O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles… e nenhum resolve. 

Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

 

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terça-feira, 17 de dezembro de 2013 Filosofia do cotidiano | 03:23

Solução de um filósofo contra o fracasso do casamento: “amor suave”

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Numa de suas frases incomparáveis, o dramaturgo irlandês Oscar Wilde disse: “Quando querem nos punir, os deuses atendem às nossas preces”. Muito tempo antes dele, filósofos como Platão e Pascal afirmaram o que depois seria repetido por Schopenhauer e Sartre: desejo é falta. “O que não temos, o que não somos, o que nos falta, eis os objetos do desejo e do amor”, escreveu Platão. Em outras palavras, se só desejamos o que não temos, nunca temos o que desejamos; tão logo um desejo seja satisfeito, já não há falta, e assim também já não há desejo.

Fracassou o casamento por amor?As citações acima parecem apropriadas para quem se interessar pela leitura do novo livro do filósofo francês Pascal Bruckner: Fracassou o casamento por amor?. Recém-lançado pela Difel, selo da editora Record, o livro parece ter um título saído dos códigos de autoajuda, mas é mais instigante. Um dos expoentes do grupo dos novos filósofos franceses, Bruckner busca aplacar as consequências geradas pelo ideal platônico – afinal, se Platão estivesse certo, a vida oscilaria para todos num pêndulo cruel que seguiria invariavelmente do desejo à frustração, da esperança ao sofrimento. (E não são poucos, infelizmente, a padecer dessa agonia de existência.)

A um problema conhecido e objetivo da vida prática moderna – o aumento progressivo do número de divórcios e a queda sistemática dos casamentos – Bruckner acrescenta um problema filosófico: os limites da idealização (no caso, os limites da união hiperidealizada como fusão amorosa). Da soma resulta uma saída de natureza igualmente filosófica, mesmo para aqueles que nunca leram Pascal ou para quem Platão não passa de uma superficial referência em torno de um certo “amor platônico” – aquele distante, idealizado e dificilmente realizado.

Amor total ou separação? Nenhum dos dois

A saída para esse problema, sugere Bruckner, é uma espécie de “amor suave”, em que o casal aceite a ideia de companheirismo, tolerância e respeito mútuo, uma relação da qual não se avance muito além de valores como amizade, afinidades e compreensão. Para bom entendedor: menos paixão, menos sexo, menos intensidade. Estes não passariam de “imperativos categóricos” do casamento, uma profecia autoanunciada para o fracasso.

Eis o estranho paradoxo de nosso tempo: há muito tempo já foi vencida a tarefa de valorizar os sentimentos, pôr abaixo o tabu da virgindade e desdramatizar o divórcio; a adesão às paixões tornou-se gesto comum entre nós; a liberdade amorosa exerce seu poder de sedução sobre boa parte das sociedades tradicionais (como as dos países muçulmanos ou da Índia e China); gays e lésbicas desejam obter direito ao casamento; justamente no momento em que tudo isso é fato, o casamento passa por uma crise de legitimidade.

Volta ao passado? Retorno ao casamento clássico, aquele tão repetidamente atacado por limitar o casal a uma vida de interesse e não de amor, por impor a resignação, a repulsa ou a reclusão conjugal? Quase isso, propõe Bruckner. Durante tanto tempo lutou-se contra a ideia, cristalizada no modelo clássico de casamento, de que o amor era algo proibido e a que se deveria combater. O problema, diz o filósofo, é que do amor proibido seguiu-se equivocadamente para o amor obrigatório. Um grande sonho se transformou em falência da instituição que ele deveria proteger.

O amor ideal é uma divindade que traz sofrimento

“Por que ele [o amor ideal] parece tão difícil de ser vivido nos dias de hoje?”, pergunta-se Bruckner, para responder em seguida: “Porque o veneramos como a uma divindade, por ter se tornado, assim como a felicidade, o alfa e o ômega das sociedades ocidentais”. (Em outro livro, publicado no Brasil como A euforia perpétua, Bruckner analisa e questiona o que chama “dever de felicidade”, a crítica ao culto e à obrigação de ser feliz como marca do Ocidente).

O filósofo acha que as pessoas hoje se imaginam infelizes por não serem felizes ou se preocupam por nunca protagonizar uma grande paixão. Para quem pensa assim, a paixão que não é louca não merece ser vivida. Confunde-se o amor e casamento, flexibilizando o primeiro e domesticando o último. Resultado: casamos menos e nos divorciamos mais. O que deveria gerar mais felicidade causa também aflição. “O amor triunfou no casamento antes de destruí-lo por dentro”, escreve Bruckner.

Para ele, a forma contemporânea do casamento combateu o modelo clássico que impunha às mulheres a infelicidade e a humilhação protagonizada por maridos despóticos, mas criou outros fragelos, sem se livrar dos antigos. Estabeleceu uma espécie de “tudo ou nada”: a busca de conciliar tudo, o sentimento e o erotismo, a educação das crianças e o êxito social, a efervescência e a permanência. (Sobre essa cruel exigência imposta aos casais, leia a instrutiva entrevista do psicanalista Contardo Calligaris ao iG).

“Os casais de hoje não morrem por egoísmo ou materialismo, morrem por um heroísmo fatal, uma ideia ampla demais de si mesmos”, escreve Bruckner. “Cada mulher se sente obrigada a ser, ao mesmo tempo mãe, puta, amiga e ‘ter atitude’; cada homem, pai, amante, marido e vencedor: pobre de quem não preencher essas condições”.

Amar demais é platonismo demente

Como numa filosofia de guerrilha, Bruckner chama de “platonismo demente” aqueles que amam o amor em demasia; para ele, significa amar mais o amor do que amar as pessoas propriamente. A vida de um casal, segundo o filósofo, tornou-se mais difícil desde que, de todas as suas funções, guardou-se apenas a da satisfação plena. “Por querer dar certo a qualquer preço, o casal se consome em ansiedades, teme a lei da entropia, a aridez das horas mortas. A menor queda de tensão é vivenciada como um fiasco, um descumprimento da promessa”.

Em síntese, espera-se volúpia demais no casamento, diz ele. Na acepção idealizada, o amor permanece como um fetiche inviolável, um tipo de liberdade forçada. Em resposta ao amor-paixão, mais breve e fugidio, Pascal Bruckner propõe procurar a felicidade possível a partir de uma coexistência harmoniosa. No lugar de êxtases estrondosos, regularidade e entusiasmo. Diante da possibilidade de exuberância e arrebatamento, opte-se pela indulgência e delicadeza, equilíbrio e ponderação.

Não pergunte sobre o amor para não sofrer ao amar

Convém prudência ler este feroz ataque ao amor, mesmo ao amor idealizado. Como qualquer debate em torno de temas complexos, deve-se ler com cautela as pregações de Bruckner. Ele não admite, mas é o que se pode chamar de um estoico. Os gregos antigos adeptos do estoicismo pregavam a virtude como algo suficiente para a felicidade; um sábio era imune aos infortúnios e ao sofrimento. A racionalidade, a harmonia e a indiferença seriam marcas de uma vida serena e, portanto, sábia e feliz. Sem escravizar-se pelas emoções e pelas paixões – em geral destrutivas, alertavam.

Houve muitos estoicos na história das ideias, mas não necessariamente tiveram razão. O que é a felicidade para eles? É não perguntar em que consiste a felicidade, porque existe na interrogação o princípio da infelicidade (John Stuart Mill). O que é a riqueza? É não desejar mais do que aquilo que se tem, conselho central dos clássicos, de Epicuro a Platão. O contrário não é apenas uma causa de infelicidade; a ambição desmedida da acumulação material é, como Baudelaire avisa, a raiz da vulgaridade.

No caso de Pascal Bruckner e seu livro sobre o fracasso do casamento por amor, o diagnóstico parece correto – todos se queixam de não conseguir satisfazer-se amorosamente apesar de o amor ser colocado “no topo da expectativa”. Mas recorro a duas outras citações para aplacar a intensidade da crítica de Bruckner (em seu diálogo O crítico como artista, Oscar Wilde – ele de novo – afirmava que para dizermos aquilo em que verdadeiramente acreditamos é preciso falar através de lábios alheios).

De José Miguel Wisnik, num ensaio publicado no livro O sentido das paixões, organizado há mais de 20 anos por Adauto Novaes, veio a pergunta: “É permitido dizer que o mundo é pobre para quem jamais foi doente o bastante para a paixão?”. E do psicanalista Jurandir Freire Costa, em seu livro Sem fraude nem favor: estudos sobre o amor romântico, surgiu a instigante ideia: “Sem amor estamos amputados de nossa melhor parte. A vida pode até ser mais tranquila e livre de dores quando não amamos. Mas trata-se de uma paz de cinzas”.

Eis um bom motivo para retomar o tema. Em outro artigo.

 

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segunda-feira, 21 de outubro de 2013 Filosofia do cotidiano | 21:44

Citação do dia: “Beleza exposta dá tédio”

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Do livro “A filosofia da adúltera”, do filósofo Luiz Felipe Pondé, recém-lançado pela editora Leya. O capítulo chama-se “Uma mulher interessante”, iniciado a partir de Nelson Rodrigues, seu guru intelectual:

(…)”O desejo precisa de seu claustro”. A beleza é sempre necessária, mas escondida por detrás de sua discrição. As pernas das mulheres são mais lindas quando pressentidas na sua totalidade do que quando expostas ao sol. Por isso, mulheres belas na mídia acabam por nos entediar, assim como todas aquelas que vivem graças à indústria da beleza.

Mas isso tampouco significa que devemos nos esquecer da necessidade da beleza sufocando em definições “cabeça” de mulher bonita. Uma mulher bonita dispensa manuais. O silêncio e a reverência bastam. E o desejo que pinga sobre ela. Se você der sorte.

Quando se esquece que a beleza é melhor vista fora da luz, esquece-se que a beleza exposta dá tédio, e o corpo é o órgão por excelência do tédio. Nele, o tédio não é uma ideia da falta de sentido da vida, é a matéria mesma por onde passam as horas da falta de sentido.

 

 

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