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segunda-feira, 5 de janeiro de 2015 Jornalismo, Literatura | 09:12

Por que o escritor Chico Buarque é superestimado

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Até o penúltimo livro de Chico Buarque, Leite derramado, ficava combinado assim: quando ele tivesse uma obra publicada, o mais tradicional de nossos galardões – o Prêmio Jabuti – tinha destino certo. O resto que chiasse. Até que a coisa ficou explícita demais em 2010.

Naquele ano, segundo colocado na categoria romance, Chico levou para a sua cobertura, no Alto Leblon, no Rio, o grande prêmio da noite – obra e graça de um complicado regulamento, que previa uma confusa segunda etapa, na qual os três primeiros colocados nas principais categorias concorriam ao título do ano de ficção e de não-ficção. E em vez do júri especializado da primeira fase, a escolha dos vencedores cabia aos representantes da Câmara Brasileira do Livro (livreiros, editores, agentes, distribuidores e demais representantes do setor editorial), em geral pouco afeitos ao exercício da crítica literária.

O bafafá irrompeu com a vitória de Leite derramado, nos mesmos moldes que já ocorrera em 2004, com Budapeste (terceiro lugar na categoria romance e em seguida escolhido como livro do ano de ficção). E se a grita de editores vinha de longe mas permanecia nas coxias, em 2010 um peso-pesado do mercado editorial, o editor Sérgio Machado, do Grupo Record, sentiu-se indignado com o que chamou de situação “esdrúxula”. Editor do primeiro colocado na categoria romance daquele ano, o estreante Edney Silvestre e seu E se eu fechar os olhos agora, Machado saiu atirando: para ele, o Prêmio Jabuti seria uma “comédia de erros”, e anunciou que não mais inscreveria os livros da editora a partir dali.

O editor de Chico, Luiz Schwarcz (Companhia das Letras), respondeu em tom severo, muita gente opinou, a crise se instalou e, no fim das contas, a CBL mudou as regras do jogo a partir do ano seguinte. “Antes os escritores eram prestigiados pelos prêmios, agora são os prêmios que precisam dos escritores para ter prestígio”, resumiu na época o editor José Mário Pereira, da Topbooks.

Convém lembrar: aquele foi o terceiro Jabuti de Chico. Ele também já vencera com Benjamim. Em outras palavras, desconsiderando Fazenda modelo, até publicar no fim de 2014 O irmão alemão, o filho de Sérgio Buarque de Hollanda tinha quatro romances e três Jabuti. Um Schumacher das letras.

O ídolo precede o escritor

O episódio vem à memória para sublinhar a dura vida do Chico Buarque escritor. Como afirmou com a sabedoria de sempre o jornalista Paulo Roberto Pires, no blog do Instituto Moreira Salles, é muito fácil gostar de um livro de Chico Buarque; e é muito fácil detestá-lo. A despeito de si mesmo, o ídolo precede o escritor, no que resulta uma conclusão natural: num ambiente de culto à celebridade, do qual Chico não consegue mais escapar, o escritor termina por ser excessivamente superestimado e celebrado.

Assim sugeriu Paulo Roberto Pires: para os fãs, tudo o que vem dele é genial, mesmo que muita gente boa tenha que suar a camisa para enfrentar sua prosa intrincada fingindo que é o refrão de “Vai passar”. Para os detratores, parece continuar valendo a sentença de um crítico, que em 1991 recebeu Estorvo lembrando que “literatura” era coisa de “escritor” e não de “cantor” (!). Ao genial responsável por nossas grandes paixões e dores de cotovelo que pareciam eternas não seria concedido o direito de ingressar no complexo mundo da literatura – e vender mais do que qualquer outro escritor brasileiro vivo, então, isto já seria uma heresia.

Chico Buarque é um bom escritor. Em seus momentos mais maduros, exibiu obras razoáveis. Concebeu romances de estrutura inteligente. Conseguiu momentos incrivelmente divertidos. Produziu trechos notáveis do ponto de vista literário.

O culto excessivo e ostensivo à imagem de Chico Buarque torna-se inevitavelmente o maior algoz do escritor. Ele pode ser um bom escritor, a leitura agrada em alguns momentos, mas quase sempre, mesmo nos melhores momentos, o todo é muito menor do que a soma das partes – razão pela qual ainda lhe falta “a” grande obra literária.

A irregularidade é sua marca. Um momento brilhante, de algum rigor na escrita, sem palavras mal escolhidas ou frases fora de ritmo, é invariavelmente sucedido por um lampejo de fraqueza estilística ou por armadilhas da própria trama que criou.

As armadilhas do irmão alemão

O Irmão Alemão Chico Buarque Companhia das Letras 240 páginas R$ 39,90

O irmão alemão
Chico Buarque
Companhia das Letras
240 páginas
R$ 39,90

Assim ocorre no seu mais recente livro, O irmão alemão, no qual Chico transforma em literatura a descoberta, ainda jovem, de que seu pai, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, tivera um filho na Alemanha em 1930. Embaralha invenção e biografia, realizando o que virou moda chamar-se de “autoficção”.

Dos muitos elogios exagerados que recebeu, prefiro a crítica sensata do professor Alcir Pécora, em artigo publicado na Folha de S.Paulo: “A novela poderia guardar o encanto secreto das narrativas de busca (…) não caísse em armadilhas fatais, que a tornam basicamente insossa”.

Convém destacar aqui duas duas dessas armadilhas.

A primeira: a incapacidade de ajustar o tom picaresco da narração, associado à rivalidade sexual dos irmãos,  ao pitoresco italiano da mãe e ao caricato alheamento intelectual do pai, com o tema dos desaparecimentos.

A segunda: a forma de construir o passado com um “realismo postiço” (expressão de Pécora), composto de marcas de carros, nomes de ruas, bares de moda, artistas e restaurantes de uma São Paulo de 1968. Um excesso de detalhamento didático que não passa de uma etiqueta de um burocrático retrô, não uma imagem convincente da cidade da época.

Nas últimas páginas de seu livro, Chico enumera informações sobre a vida de Sergio Gunther, o irmão alemão que sobreviveu à guerra e se tornou cantor e compositor. E faz uma nota sobre como foram as investigações na Alemanha. Troca a literatura pelo relatório puro e simples, o que deixa o leitor menos fã intrigado: não teria colhido melhor resultado se fosse o Chico, e não o personagem-narrador Ciccio – a narrar essa história maravilhosa?

Com mais biografia e menos ficção que lhe trazem armadilhas, repletas de repetições e gracinhas tolas, a narrativa de O irmão alemão sairia tão menor que a história que o inspirou?

A generosidade excessiva da mídia

Embora seja um bom escritor, certamente não seria agraciado com tantas linhas, tanto espaço e tanta generosidade não fosse ele quem é. E nisto não reside uma constatação melancólica, ácida ou desesperada, e sim uma obviedade de quem enxerga o mundo com as devidas variáveis comercial, mercadológica e mesmo psicanalítica.

Chico vende. Chico é amigo da imprensa. Chico é gênio. Chico tem boas relações. Chico é ídolo. A mídia precisa de ídolos.

Com essa soma de atributos e com a magnífica contribuição do marketing preciso e profissional da Companhia das Letras, Chico não precisa dar entrevistas para que jornais e revistas dediquem-lhe generosos espaços. A cada lançamento seu, jornalistas se esforçam pela maior amplitude possível que não se vê em muitas obras – um jornal chega a tratar como regra convidar três ou quatro resenhistas; outro não dispensa  a ideia de percorrer os locais em que suas tramas se passam.

Este foi um dos desserviços prestados pela imprensa a O irmão alemão. Foram tantos os textos sobre as árvores genealógicas dos Buarque de Hollanda, sobre as referencias a W. G. Sebald, sobre as motivações da obra, que o livro passou a ser compreendido demais, codificado demais – associações extraliterárias das quais escaparam suas obras anteriores.

Mas não se engane: Chico demonstra uma atitude blasé diante da imprensa, finge não gostar até, mas costumar ficar atentíssimo a tudo o que sai sobre ele, sobretudo na mídia tradicional. Se algo lhe desagrada, aciona seus amigos nas escalas mais altas das redações ou, se for o caso, recorre a um competentíssimo assessor de imprensa, com quem trabalha há muitos anos. Quando deseja dizer algo, escolhe a dedo os jornalistas que lhe servirão de interlocutores, em geral amigos de confiança.

Mais recluso, mais celebridade

Eis o que talvez seja um paradoxo de nosso tempo. Tanto na obra do compositor e cantor de 1987 em diante – quando mergulhou numa musicalidade mais intimista – quanto na obra literária, seus trabalhos se tornaram menos empolgados, menos comunicativos. Nesse tempo, Chico quis ser cada vez menos celebridade, mas nunca parou de crescer como celebridade. (Além do culto em torno de si, não deixa de ser uma atitude de celebridade destes tempos um autor ou um cantor resolver não conceder entrevistas à época de lançar sua obra.)

Foi justamente o período em que Chico Buarque se tornou cada vez mais escritor. A literatura, em especial, pareceu tornar-se o veio mais adequado para essa fase em que se fechou mais para si ou para uma atitude de resistência contra a dureza da realidade, em favor da proteção de um universo paralelo irreal, feito de sonhos e pesadelos. Não à toa, o imaginário literário flutua em sonhos confusos, como mostram os  narradores de Estorvo, Benjamin e Budapeste.

Se prevalecer a sina de sua trajetória literária, outros prêmios virão. Ainda que uma grande história tenha chegado ao fim diluída numa prosa quase jornalística, O irmão alemão tem como autor um bom escritor que, por se chamar Chico Buarque, larga com enorme vantagem contra qualquer romancista de sua geração.

 

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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014 Economia, Filosofia, História, Jornalismo, Literatura, Poesia, Política, Tecnologia | 14:03

Os melhores livros de 2014 (numa lista sem Chico Buarque)

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Todo ano o ciclo se repete. Com a mesma regularidade das fatalidades habituais de verão, somos induzidos nesta época a eleger aqueles que deverão ser conduzidos ao panteão dos melhores do ano – no cinema, na literatura, nas artes em geral, nos fatos e ideias que marcaram os 12 intensos e exaustivos meses precedentes. É como o surgimento de goteiras nos prédios de Oscar Niemeyer: a única dúvida é saber exatamente onde e como aparecerão. Mas elas surgirão, é fato.

A coluna sucumbe aos clichês e elege também os seus. Como os mais conhecidos prêmios literários do Brasil, Pensata cria categorias convenientes para caber suas obras de preferência e adequar seus gostos. Como qualquer lista do gênero, a única coisa que lhe falta é isenção. Os leitores estão convocados, portanto, a se pronunciar, criticar, acrescentar, apontar ausentes e argumentar em defesa dos injustiçados e esquecidos.

Nelson Rodrigues dizia que a nossa reputação é a soma dos palavrões que inspiramos nas esquinas, salas e botecos. Se fosse vivo, provavelmente completaria sua tese: e nos comentários dos internautas nos blogs, sites e portais. O silêncio, neste caso, poderá significar a concordância coletiva – o pior defeito de qualquer lista dos “melhores do ano”.

 

1. LIVRO DO ANO – FICÇÃO
Graça Infinita, de David Foster Wallace  (Companhia das Letras)

Graça infinita David Foster Wallace Companhia das Letras 1144 páginas R$ 111,90

Graça infinita
David Foster Wallace
Companhia das Letras
1144 páginas
R$ 111,90

Graça infinita é o livro do ano em qualquer categoria. Uma obra de superlativas: são quase mil páginas, 130 das quais composto por notas explicativas (ou disruptivas), uma trama vertiginosa, radical, bem humorada e sarcástica, uma edição caprichada e estranha que sequer traz o título na capa, num belo trabalho da Companhia das Letras: somente uma caveira com olhos de rolo de filme na capa, enquanto nas laterais abóbora das páginas, gravados em branco, aparecem os nomes da obra e do autor. Um visual enigmático como o autor e seu mais ambicioso romance.

David Foster Wallace lançou Infinite Jest em 1996, 12 anos antes de se suicidar, aos 46. Ganha tradução no Brasil, portanto, apenas duas décadas depois, num trabalho excepcional de Caetano W. Galindo, tradutor também de James Joyce. Nesse período, o livro tornou-se um marco das obras cultuadas pelo mundo pop (ou não. Apesar do tamanho e da complexidade, ganhou admiradores por todos os lados.

A narrativa gira em torno de um filme, com o mesmo título original, que promova um comportamento compulsivo a qualquer um que o assista. A ambiguidade de “jest” no título em inglês – piada ou divertimento – indica o alvo: assistir a esse filme dá tanto prazer que os espectadores não podem parar de vê-lo, e todas as demais atividades da vida deixam de fazer sentido, o que acaba levando-os à morte. (Há quem considerasse mais preciso ao título em português Piada Infinita, e não “graça”, dada a natureza “divina” do outro significado desta palavra no português, mas essa é uma controvérsia que não macula o excepcional trabalho do tradutor.)

Essa é a síntese do hedonismo contemporâneo: o hedonismo da mera sensação, cujos personagens fissurados levam a vida humana ao extremo da miserabilidade ética; uma vida de vícios, excessos e comportamentos aditivos, incluindo drogas, sexo e trabalho, tudo no superlativo; uma acumulação infinita de vertigens destrutivas; uma era de saturação e consumo desmedido; um tempo em que o tudo se equivale ao nada. Um prazer desconectado dos outros e do mundo. Um prazer sem prazer.

David Foster Wallace explora esse abismo em grandiosidade narrativa e transforma isso em literatura de alto nível. A melhor do ano.

 

2. LIVRO DO ANO – NÃO-FICÇÃO
O capital no século XXI, de Thomas Piketty (Intrínseca)

O capital no século XXI Thomas Piketty Intrínseca 672 páginas R$ 59,90

O capital no século XXI
Thomas Piketty
Intrínseca
672 páginas
R$ 59,90

Thomas Piketty atiçou o debate econômico do ano e possivelmente da década. Dificilmente se verá no curto prazo a súbita ascensão de um texto de 800 páginas à condição de best-seller com tamanho destaque nos círculos acadêmicos e não-acadêmicos como este francês recebeu este ano com seu O Capital no século XXI, publicado no Brasil pela Intrínseca. Seu estudo sobre a concentração de riqueza e a evolução da desigualdade ganhou manchetes, gerou debates nas redes sociais, colheu comentários, críticas e elogios de diversos ganhadores do Prêmio Nobel. Não ganhou unanimidade. Mas não fez pouco.

Resultado de 15 anos de pesquisas, o livro mostra com elegância e clareza que o mundo entrou numa espiral de concentração de renda. As pessoas e os países ficarão mais ricos. Para as nações emergentes, inclusive o Brasil, suspeita-se que crescerão a taxas menores. Segundo O Capital, o mundo caminha rumo a um capitalismo de maior acumulação de renda, numa trajetória explosiva de desigualdade fora de controle.

Piketty ainda desmonta um dos mitos mais amados pelos conservadores contemporâneos: a tese de que o mundo desenvolvido vive uma meritocracia, na qual grandes fortunas são conquistadas e merecidas. Segundo ele, a maior parte dos bilionários atuais têm fortuna herdada. Como lembrou em recente entrevista ao repórter Vitor Sorano,  do iG, chegar ao topo apenas com o trabalho está ficando cada vez mais difícil. E sublinhou o que chamou de ridícula taxação sobre herança. Para ele, os ricos brasileiros pagam imposto muito baixo.

Livro a ser lido como quem lê um polemista à la Marx (sem ser marxista) e um literato que cita Balzac e Jane Austen.

O que Pensata escreveu:
Por que os bilionários são odiados 

Para ler mais no iG:
Ricos brasileiros pagam imposto bastante baixo e taxação sobre herança é ridícula, afirma Piketty

 

3. BIOGRAFIA
Getúlio, de Lira Neto (Companhia das Letras)

Getúlio 3 (1945-1954) Lira Neto Companhia das Letras 464 páginas R$ 49,50

Getúlio 3 (1945-1954)
Lira Neto
Companhia das Letras
464 páginas
R$ 49,50

O primeiro volume saiu em maio de 2012, o segundo no ano seguinte, e a trilogia chegou ao fim em 2014, encerrando um trabalho de cinco anos de pesquisas do jornalista e escritor Lira Neto. Foi o menos relevante da série, mas Pensata o inclui na lista pela obra completa. Das cartas pessoais e diários íntimos, que compuseram o retrato minucioso dos anos de formação e da conquista do poder no primeiro volume, até a narrativa bem montada no terceiro volume, descrevendo os tempos conturbados que levaram Getúlio ao suicídio, Lira Neto realizou um trabalho primoroso, com o apoio do marketing profissionalíssimo da Companhia das Letras. Com a conveniência da efeméride completada em agosto de 2014: os 60 anos da morte do mais importante político brasileiro de todos os tempos.

Autor de outras biografias relevantes, como a de Maysa, Castello Branco, Padre Cícero e José de Alencar, Lira Neto conseguiu ainda outro feito: o que a turma do marketing costuma chamar de “mídia espontânea” – um sem-número de gente importante citando sua série ou sendo vista carregando um de seus volumes. Da presidente Dilma Rousseff ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Só ficaram amuados mesmo os mal-humorados, os invejosos e os ranhetas que esperam uma novidade a cada página nas biografias. Nas quase 2 mil páginas que publicou nos três volumes, Lira Neto traz muitas novidades, algo notável para um personagem exaustivamente radiografado como Getúlio Vargas. E adicionou a elas uma incrível capacidade de contar histórias.

Leia mais no iG:
Os vários getúlios de Lira Neto

Lira Neto: “Quem diz que todo político é ladrão propõe sem saber a ditadura” 

 

4. NÃO-BIOGRAFIA
O réu e o rei, de Paulo Cesar de Araújo (Companhia das Letras)

O réu e o rei Paulo Cesar de Araújo Companhia das Letras 528 páginas R$ 34,50

O réu e o rei
Paulo Cesar de Araújo
Companhia das Letras
528 páginas
R$ 34,50

Foi um gesto audacioso e genial, tanto do autor quanto de sua editora. Depois de ter a biografia Roberto Carlos em detalhes (Planeta) barrada na Justiça por ação de quem chamamos de Rei, obra retirada das livrarias em 2007, e passar alguns anos em batalha judicial pela publicação, eis que o jornalista Paulo César Araújo publica pela Companhia das Letras um livro em que conta os bastidores do processo. Lançado sem alarde, O réu e o rei é um relato objetivo, minucioso e corajoso da saga que levou à discricionária e imoral proibição da biografia de Roberto Carlos.

No livro, narra como virou fã do Rei, quando, aos 11 anos de idade, vestiu sua roupa domingueira e foi ao estádio em Vitória da Conquista, na Bahia, onde Roberto Carlos faria o primeiro show na cidade. Garoto pobre, Paulo Cesar de Araújo não tinha os 10 cruzeiros do ingresso. Ficou rondando o lugar, na esperança de conseguir uma brecha e entrar. Pouco antes do show, um simpático porteiro deixou os moleques negros e sem camisa que andavam por ali. Araújo, porém, foi barrado. Era branco e bem vestido. Tinha cara de quem poderia pagar.

O autor esmiúça os autos dos processos montados contra ele, e trata de tentar demonstrar imprecisões e distorções. E, no mais dramático capítulo do livro, reconstitui a tarde que passou frente a frente com Roberto Carlos, em um fórum de São Paulo. Abandonado por seus editores da Planeta e pressionado por seus advogados, aceitou assinar um acordo que bania Roberto Carlos em detalhes das livrarias.

Para a sorte de todos, sobretudo dos leitores, o Rei e seus advogados não resolveram barrar na Justiça mais este.

 

5. POLÍTICA
As ideias conservadoras, de João Pereira Coutinho  (Três Estrelas)

As ideias conservadoras João Pereira Coutinho Três Estrelas 200 páginas R$ 25,00

As ideias conservadoras
João Pereira Coutinho
Três Estrelas
200 páginas
R$ 25,00

Num país habituado a ter nos representantes da direita exemplos de desonestidade intelectual (Marco Antonio Villa), truculência (Reinaldo Azevedo), baixo índice de humanismo (Rodrigo Constantino), humor para não ser levado tão a sério (Luiz Felipe Pondé) e radicalismo típico de quem já foi um esquerdista radical (Demétrio Magnoli), nada como um bom livro de um conservador elegante, intelectualmente honesto, humanista e amigável cientista político.

As ideias conservadoras, de João Pereira Coutinho, apresenta-se com o subtítulo “Explicadas a revolucionários e reacionários” e, como tal, dirige-se aos profetas do pensamento de esquerda. Seguidor de Edmund Burke – onipresente nas breves 120 páginas do livro – o Coutinho mostra, com acerto, os equívocos do reacionarismo de esquerda e dos ditos revolucionários; descreve, sem afetação, o valor dos conservadorismos e sua doutrina em favor da preservação do que a sociedade criou de melhor para garantir a paz, a liberdade dos cidadãos e o vigor das instituições.

É um sopro a seus colegas em versão brasileira (Coutinho é português) e contra radicalismos crescentes à direita e à esquerda. Convém lembrar-lhes (inclusive a Coutinho): há conservadores e radicais de lado a lado; autoritários, idem. Este livro, porém, reforça a ideia, pregada pela revista Insight-Inteligência no verão de 2011, quando entrevistei o cientista político Luiz Felipe d’Ávila – um dos poucos cientistas políticos brasileiros de alma conservadora (na linguagem política brasileira: liberal, ou de direita) bem oxigenada. Ali, a revista defendia em editorial uma direita necessária ao Brasil – não oligárquica, não corrupta, não covarde, não mentirosa, não golpista.

Afinal, antagonismos de qualquer espécie se saudáveis, ajudam a mover a história. O vigor da democracia, dizia o mesmo editorial, é sua capacidade de racionalizar e controlar, em molduras legais, a violência da disputa entre ideias, homens e partidos. Sem antagonismos, é democracia pela metade, se muito.

João Pereira Coutinho (como Luiz Felipe d’Ávila) mostra o quão interessantes são os antagonismos de ideias.

 

6. TECNOLOGIA
Os inovadores, de Walter Isaacson (Companhia das Letras)

Os inovadores Walter Isaacson Companhia das Letras 568 páginas R$ 57,00

Os inovadores
Walter Isaacson
Companhia das Letras
568 páginas
R$ 57,00

Este é um livro sobre nerds. Mas dirigido não só a nerds. É a graça da maestria de Walter Isaacson, o biógrafo de Steve Jobs, e sua capacidade de contar histórias de personagens que ajudaram a moldar a revolução digital. Os inovadores – Uma biografia da revolução digital vai além dos nerds porque, no fundo, explica nossa relação com computadores e nos faz entender como a tecnologia chegou até aqui em softwares e internet.

Fruto de 15 anos de pesquisas – interrompidas para produzir a biografia do pai da Apple – o livro trata de figuras como John Von Neumann, que trabalhou com Einstein no desenvolvimento da bomba atômica, foi coautor da teoria dos jogos e do primeiro computador digital, nos anos 40.

Ou Ada Lovelace, uma das mulheres excluídas da história da computação: uma quase desconhecida que viveu de 1815 a 1852, matemática e escritora inglesa, ela escreveu o primeiro algoritmo de computador, propôs a ideia de que as humanidades e a tecnologia devem conviver e idealizou o conceito de inteligência artificial. Para Isaacson, Ada Lovelace definiu a era digital.

A grande sacada do autor é defender a ideia, com argumentos irrefutáveis, de que não houve um gênio na história da revolução digital que tenha trabalhado sem ajuda de muitos outros – ainda que reforce o papel dos gênios ao perfilar personalidades emblemáticas, como o próprio Jobs (Apple), Bill Gates (Microsoft), Sergey Brin e Larry Page (Google). Mas estes, lembra o autor, potencializaram a capacidade disruptiva em suas equipes, permitindo atingir novo patamar de inovação.

Outro grande mérito seu é construir uma narrativa que reforça a tese de que a inovação nas ciências exatas ocorre intimamente vinculada às humanidades.

 

7. FILOSOFIA
O silêncio e a prosa do mundo, organizado por Adauto Novaes (edições Sesc)

O silêncio e a prosa do mundo Adauto Novaes (organizador) Edições Sesc 515 páginas R$ 55

O silêncio e a prosa do mundo
Adauto Novaes (organizador)
Edições Sesc
515 páginas
R$ 55

Há quem olhe de lado, torça o nariz e sorria de maneira sarcástica ou desconfiada diante de temas filosóficos como este. Mas os desconsidere e aposte na leitura de O silêncio e a prosa do mundo, organizado por Adauto Novaes, o jornalista e professor que desde 2000 realiza magistrais ciclos de conferências que sempre resultam em livros igualmente interessante.

Quando organizou a edição do programa Mutações no ano passado – que originou o livro – Novaes tinha em mente a ideia de que nunca se falou tanto e se pensou tão pouco. Uma pesquisa feita pelo Centro da Indústria de Informação Global, da Universidade da Califórnia, foram trocadas 10,8 trilhões de palavras nos Estados Unidos em 2008, notáveis 140% a mais em relação aos 4,5 trilhões de palavras usadas em 1980. Um tsunami verborrágico radiografado graças a dados armazenados em texto de jornais, revistas, páginas de internet, áudios de filmes em cartaz, programas de TV e rádio e letras de músicas lançadas naquele ano.

Novaes e seus convidados – ensaístas, filósofos, jornalistas, cientistas sociais, poetas – se perguntam: o que tanto se fala? Qual a importância do silêncio para a criação da obra de arte e da obra de pensamento? Como separar o falatório insignificante daquele necessário e fundamental para não nos desumanizarmos?

Na impossibilidade de resgatar com precisão 24 ensaios em mais de 500 páginas, recomendam-se alguns nomes, com as devidas injustiças: Oswaldo Giacoia Junior (“Por horas mais silenciosas”), Pedro Duarte (“O silêncio que resta”), Eugênio Bucci (“O rumor da mídia”), Marcelo Jasmin (“Silêncios da história: experiência, acontecimento, narração”), Frédéric Gros (“Fazer calar e fazer falar o sexo”), Pascal Dibie (“O silêncio dos amantes e, mais particularmente, das mulheres…”), Antonio Cicero (“A poesia entre o silêncio e a prosa do mundo”), Guilherme Wisnik (“O silêncio e a sombra”), Francisco Bosco (“A descoberta da linguagem”) e Luiz Alberto Oliveira (“O silêncio de antes”).

 

8. LIVRO-REPORTAGEM
Sem lugar para se esconder, de Glenn Greenwald (Primeira Pessoa)

Sem lugar para se esconder Glenn Greenwald Primeira Pessoa 288 páginas R$ 39,90

Sem lugar para se esconder
Glenn Greenwald
Primeira Pessoa
288 páginas
R$ 39,90

Em meados de 2013, o jornal britânico The Guardian (sempre ele) publicou uma série de reportagens que desvendavam a vigilância ilimitada praticada pela NSA, a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos. Assinadas por Glenn Greenwald, as matérias mostravam que a inteligência norte-americana espionava em larga escala não apenas as comunicações domésticas, mas também as de outros países – inclusive os aliados. Edward Snowden, de 29 anos, um funcionário terceirizado da NSA, foi a fonte de Greenwald, e suas revelações abriram caminho para um enorme debate sobre direito à privacidade e o alcance da vigilância governamental.

Sem lugar para se esconder – Edward Snowden, a NSA e a espionagem do governo americano, lançado no Brasil pela Primeira Pessoa (selo da editora Sextante), tem pouca novidade para quem acompanhou de perto o caso pela imprensa. Mas esmiúça todas as peças da história. Com o mérito de organizar a narrativa em seu conjunto, detalhada e envolvente. Não à toa a Sony Pictures comprou os direitos para produzi-lo em filme.

O livro começa com um relato detalhado dos contatos de Greenwald e da documentarista Laura Poitras com Snowden, técnico que queria divulgar os documentos que coletara na NSA. O relato ocupa um terço do livro e destaca os esforços dos três para não serem flagrados. Há detalhamento de como Thomas Shannon, secretario de Estado assistente e depois embaixador no Brasil, agradece à NSA por relatórios de “inteligência de sinais” sobre “s outros participantes” da 5a Cúpula das Américas, documentos quanto ao “alvo” Petrobras, além do ataque de Greenwald à mídia, especialmente ao New York Times.

Uma curiosa nota de rodapé, não presente no livro: Greenwald deixou o Guardian para trabalhar para Pierre Omidyar, bilionário do eBay/PayPal, que participou do estrangulamento financeiro do WikiLeaks a pedido do governo americano. Mas qualquer trabalho seu é para ser lido com o respeito de quem lê um dos mais brilhantes jornalistas de seu tempo.

 

9. CRÔNICA

O livro das mulheres extraordinárias, de Xico Sá (Três estrelas)

O livro das mulheres extraordinárias Xico Sá Três Estrelas 264 páginas R$ 39,90

O livro das mulheres extraordinárias
Xico Sá
Três Estrelas
264 páginas
R$ 39,90

O jornalista e escritor Xico Sá deveria ser uma leitura de cabeceira dos homens que anseiam por uma mísera sensibilidade e sabedoria na arte de seduzir uma mulher. O livro das mulheres extraordinárias é uma ode a cada mulher que ele admira e aos desejos que elas despertam nele – e provavelmente na maioria dos homens. De obviedades como Luiza Brunet (“tesão nada nostálgico”) a delicadezas como Claudia Abreu (“O sorriso mais sexy de todos os tempos da TV”) e surpresas como Lea T. (“O belo e o cirúrgico drible nos gêneros”).

Qual o critério de Xico para a escolha das mulheres extraordinárias? “Foi o critério da comoção, do alumbramento – aquele impacto fundamental no primeiro olhar – e do tesão que deveras sinto. E, sobretudo, o critério da desordem. É que a gente nunca sabe, em momentos deliciosamente cruéis como o desta seleção, o lugar certo de colocar o desejo, como aprendi na música de Caetano Veloso que faz parte da trilha do filme A dama do lotação”.

É um livro, portanto, baseado em desejos reais, como ele próprio confessa. Um livro não de cabeceira, mas “da cabeça viajante de um homem que deseja, que ama de modo hiperbólico que se deve amar as fêmeas”. Como não sermos hiperbólicos diante de Maitê Proença – “a verdade acerca do amor” – que para além da beleza televisiva e cinematográfica ainda encanta na escrita? (Miguel Sousa Tavares escreveu sobre um de seus livros: “Aprendi neste livro de crônicas da Maitê Proença que as mulheres também choram, não são só os homens”). Ou diante de Mariana Ximenes – “todo canalha é um masoquista diante dela”, escreve Xico.

Como ele, acho que não são as mulheres que são complicadas – nós, homens, é que somos preguiçosos, uma mistura de Macunaíma com roqueiro emo. O homem, lembra Xico, não está perdido; ele tem uma preguiça eterna.

 

10. HISTÓRIA

O horror da guerra, de Niall Ferguson (Planeta)

O horror da Guerra Niall Ferguson Planeta R$ 89,90 768 páginas

O horror da Guerra
Niall Ferguson
Planeta
R$ 89,90
768 páginas

Esqueça a moda dos livros de história repletos de detalhes curiosos e picantes para tornar a leitura “interessante”. O escocês Niall Ferguson é um historiador da moda, mas sem os maneirismos que proliferam por aqui. Em O horror da guerra Ferguson (com marcada antipatia pela posição britânica) classifica a Primeira Guerra Mundial como o maior erro da história moderna e analisa os motivos que deflagraram o conflito.

Com o mérito de escapar do maniqueísmo anti-Alemanha, o historiador se pergunta: por que se lutava? A população apoiava o conflito? Que país era o mais militarista? Até que ponto o sacrifício europeu valeu a pena? Foi a primeira guerra total, e a mais sangrenta – um conflito que matou cerca de 8 milhões de homens e destruiu as finanças da Europa.

 

11. E-BOOK
Série Ilusões Armadas, de Elio Gaspari (Intrínseca)

Séries “As ilusões Armadas” e “O Sacerdote e o Feiticeiro” Elio Gaspari Intrínseca R$ 39,90 (edição impressa) e R$ 14,90 (e-book), cada livro

Séries “As ilusões Armadas” e “O Sacerdote e o Feiticeiro”
Elio Gaspari
Intrínseca
R$ 39,90 (edição impressa) e R$ 14,90 (e-book), cada livro

Elio Gaspari é uma espécie de Pelé do jornalismo brasileiro. Mesmo aqueles que não gostam de sua personalidade de Kid Megalô (“O sistema é eliocêntrico, e não fui eu quem disse, foi Copérnico”, costuma dizer) reconhecem nele o brilhante jornalista que é. Dono de uma memória privilegiada, uma insana capacidade de trabalho e, claro, seu eliocentrismo deram-lhe os atributos suficientes para compor uma obra monumental sobre a ditadura militar, que em 2014 teve um ano pródigo de reflexões por marca os 50 anos do seu início.

Pois  os quatro livros que começou a publicar em 2002 ganharam em 2014 a reedição do ano e, mais do que isso, o melhor trabalho em e-book: não só em novos volumes, desta vez publicados pela Intrínseca, como também em caprichadas versões eletrônicas. Tais versões trazem amostra preciosa do material que Gaspari pesquisou para produzir a série, retirados do arquivo acumulado por dois observadores privilegiados dos acontecimentos do período, o general Golbery do Couto e Silva e Heitor Aquino Ferreira, que foi secretario particular do presidente Ernesto Geisel e de Golbery.

A versão eletrônica dos livros traz cerca de 200 documentos que, se fossem impressos, dariam um volume com 670 páginas. Para cada documento há uma cópia do original com transcrição completa e os trechos mais relevantes destacados. Para leitores que têm iPad ou Kindle Fire, o pacote oferece também filmes de época e gravações, incluindo 17 trechos de entrevistas que Gaspari fez com Geisel nos anos 1990.

O autor fez ainda várias revisões no texto dos livros – A ditadura envergonhada, A ditadura escancarada (que compõem a série “As ilusões armadas”), A ditadura derrotada e A ditadura encurralada (série “O Sacerdote e o Feiticeiro”). Incorporou informações que obras mais recentes sobre o período trouxeram e acrescentou novas descobertas.

Por tudo isso, e por ser uma obra de Elio Gaspari, é obra para ler, reler e guardar.

O que Pensata escreveu:
De um torturador para uma jovem: “Você vai sofrer como Jesus Cristo” 

 

12. COLEÇÃO
Clássicos Zahar (Zahar)

A coluna faz aqui um reparo a uma injustiça cometida ao longo do ano: não ter falado na espetacular coleção de clássicos da Zahar – de longe a melhor coleção lançada por uma editora brasileira em 2014. São edições caprichadas em todos os sentidos: belas capas, miolo equilibrado e elegante, texto integral, notas históricas e literárias, cronologia de vida e obra do autor, posfácio com as grandes linhas da crítica sobre o livro e, em grande parte, um rico trabalho de ilustrações de época para os clássicos.

Não vi todos os volumes, mas a amostra constada pela Pensata é uma constatação da fidelidade do projeto: o campeão de venda Alice no País das Maravilhas (Lewis Carroll) Os Maias (Eça de Queirós), A besta humana (Émile Zola), Robin Hood (Alexandre Dumas), Os três mosqueteiros (Dumas), 20 mil léguas submarinas (Jules Verne), O corcunda de Notre Dame (Victor Hugo), A Terra da Bruma (Arthur Conan Doyle) e Persuasão (Jane Austen) são evidências de um rico padrão de qualidade do projeto. Edições de bolso, igualmente de luxo, completam a coleção.

Fez tanto sucesso que a Zahar criou um selo para ela e vai intensificar a produção em 2015. A incluir um autor brasileiro, Raul Pompeia, com O Ateneu, já no início do ano.

 

13. HOMENAGEM DO ANO
Millôr Fernandes

Humorista, escritor, tradutor, desenhista, dramaturgo, jornalista e polemista, Millôr Fernandes foi o homenageado do ano na Flip. O gesto do convescote de Paraty ajudou a recolocar no mercado vários dos livros do genial sujeito: The cow went to the swamp, Tempo e Contratempo, Esta é a verdadeira história do paraíso e Essa cara não me é estranha, todos da Companhia das Letras. Também estimulou o lançamento da antologia organizada por Sérgio Augusto e Loredano, publicada pelo Instituto Moreira Salles: Millôr 100 + 100: desenhos e frases.

Morto em 2012, aos 88 anos, Millôr era um desses raros casos de um sujeito que faz tudo bem. Sua assombrosa criatividade produzia, em palavras e imagens, gargalhadas abertas ou ironias amargas. Mas sempre brilhantes. Em livros ou nos debates na Flip com quem entende de Millôr (graças à curadoria de Paulo Werneck), fez-se jus àquele que se dizia “livre como um táxi”.

O que Pensata escreveu:
15 frases para falar mal da política, segundo Millôr

 

14. POESIA
Geografia aérea, de Manoel Ricardo de Lima (7Letras)

Geografia aérea Manoel Ricardo de Lima 7letras 142 págs. – R$ 35

Geografia aérea
Manoel Ricardo de Lima
7letras
142 páginas    R$ 35

Repita este nome: Manoel Ricardo de Lima. Professor de literatura e poeta da mesma geração de Carlito Azevedo, de quem é amigo e colega de encontros literários, Manoel Ricardo de Lima vem produzindo sistematicamente poesia e ensaio com a reinvenção de quem não se exaure com a própria criação. Geografia aérea, o livro em questão, publicado este ano pela 7Letras, é a síntese de sua poesia, uma espécie de reunião de sua obra poética. De Embrulho e Falas inacabadas, ambos de 2000, a Quando todos os acidentes acontecem, de 2009.

Ao ponto: Geografia aérea é, ao estilo de Manoel Ricardo (e do próprio Carlito Azevedo, o maior nome de sua geração e, portanto, da poesia contemporânea), uma reinvenção dos próprios poemas editados. Ele gosta de criar novos abismos, como gosta de dizer. Reescreve, revisa, reedita os poemas.

“alguém pode decidir outra/ coisa outro nome apenas porque apertou/ muito bem os olhos”,  escreve em “Quase”, um dos belos exemplos de Geografia aérea. É uma poesia em deslocamento, um acidente que pode transformar-se em outra coisa. Desse desvio alimenta-se sua obra – e sua vida também. Manoel Ricardo nasceu em Parnaíba, no Piauí, formou-se em Fortaleza e em Florianópolis e atualmente mora no Rio de Janeiro, onde é professor da UniRio.

Uma mobilidade que, na poesia, formam histórias-enigmas, aparentemente sem solução. Annita Costa Malufe, também poeta e também professora de literatura, escreve que nos poemas de Manoel Ricardo há sempre “uma história em jogo, ou muitas, mesmo que não saibamos quais são”, construindo imagens que estão longe de serem fixas, numa experiência instável e em constante mutação: “nenhuma/ imagem do presente e sempre/ de passagem a areia do lugar/ que você diz que é seu”, escreve ele no poema “as fotografias”.

Manoel Ricardo de Lima põe política em sua poesia, não no sentido panfletário, mas no que ela tem de reflexão sobre o mundo que nos cerca. Ele fala, por exemplo, em “cidades moribundas”, onde “tudo é buraco”, mas também onde “o que resta de amor/ e sobrevive/ salta”. Cidades de abismos sociais com cenários de guerra, mas que encontra na poesia uma forma de imaginário que se vincula a uma prática de vida, política e amorosamente. Como ele escreve, que sobrevive, salta.

 

15. FICÇÃO BRASILEIRA
O professor, de Cristovão Tezza (Record) e Os piores dias de minha vida foram todos, de Evandro Affonso Ferreira (Record)

O professor  Cristovão Tezza Record 240 páginas R$ 32

O professor
Cristovão Tezza
Record
240 páginas
R$ 32

Os piores dias de minha vida foram todos Evandro Affonso Ferreira Record 128 páginas R$ 30

Os piores dias de minha vida foram todos
Evandro Affonso Ferreira
Record
128 páginas
R$ 30

Na ausência de uma monumental e marcante ficção lançada em 2015, a coluna divide-se em dois autores da Record: Cristovão Tezza e Evandro Affonso Ferreira. Um Chico Buarque em excelente estágio literário atinge um bom Tezza.  Mas O professor não é um romance bom: é ótimo. A obra gira em torno de Heliseu, um professor de filologia românica de 70 anos, que está prestes a receber uma homenagem por sua carreira. Repassa sua vida – a medalha que receberá e o discurso que fará nada mais são do que a morte simbólica de sua trajetória setentona.

A percepção súbita da passagem do tempo, do personagem e do Brasil, estão no centro das preocupações do autor do exitoso O filho eterno, lançado em 2007. Como quase todo envelhecimento, Tezza constrói um quadro de amargura e realismo.

Ao lado dele, um lúgubre Evandro Affonso Ferreira e sua personagem: uma mulher que, à beira da morte, presa a uma cama de hospital, imagina-se vagando nua pelas ruas de São Paulo, cruzando com os personagens habituais da cidade. Narrado em um longo monólogo, o percurso íntimo é repleto de outras vozes: memórias e referências literárias, filosóficas e mitológicas, que tornam a leitura de Os piores dias de minha vida foram todos um tanto mais complexa. (O autor já disse uma vez que não se importa com a falta de leitores para seus livros, numa boutade de autodefesa contra o universo reduzido de leitores em contraponto a uma literatura de consumo fácil.)

Mas o exílio forçado da mulher expõe uma rica literatura: “Sei que neste quarto-desemparado”, diz ela, “procuro levar a imaginação até seu limite – jeito de driblar entre aspas desintegração contínua delas minhas entranhas” ou “Jeito é caminhar imaginosa nua pelas ruas desta cidade para fingir que ainda estou viva. Ilusão, sim, mas benéfica e libertadora”. É a personagem que se ergue quando pensa ver coisas, mesmo diante do malogro da vida, entre doença e reclusão.

 

 

 

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terça-feira, 18 de novembro de 2014 Jornalismo, Literatura | 10:02

Em “Nem a morte nos separa”, jornalista retrata a luta do seu filho contra o câncer

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Num dia você está no paraíso ao lado de seu filho de 21 anos. No outro, mergulha nas sombras, de mãos atadas, sem poder salvar-lhe a vida. O que fazer diante do desespero aterrador frente ao sofrimento do garoto? No livro Nem a morte nos separa, o jornalista Ricardo Gonzalez relata a experiência do calvário vivido ao lado do filho – dez meses entre a descoberta do câncer, as errâncias médicas, o doloroso tratamento e a morte de Rafael, um soberbo garoto de 21 anos que encarou a doença com a maturidade e a racionalidade de poucos. Gonzalez lança e autografa seu livro hoje, terça-feira, na livraria Argumento, do Leblon, zona sul do Rio, a partir das 18h.

Nem a morte nos separa Ricardo Gonzalez Editora Mauad 232 páginas, R$ 54

Nem a morte nos separa
Ricardo Gonzalez
Editora Mauad
232 páginas, R$ 54

Um dos mais talentosos e éticos jornalistas esportivos do País, com passagem pelas principais redações brasileiras (entre as quais O Globo, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo e O Dia), Ricardo Gonzalez é hoje editor de texto do canal SporTV. Boa praça, ele consegue exibir simultaneamente a altivez aguerrida de um espanhol e a emotividade esparramada e sensível de um brasileiro. E o faz com galhardia e beleza tanto numa redação, onde colecionou uma pletora de amigos, quanto no livro que acaba de lançar. Das duas formas, tocante.

Com orelha assinada por Lucinha Araújo, a incansável mãe de Cazuza, Nem a morte nos separa é um livro a ser lido com o coração na mão. São “bytes de dor”, na feliz expressão com que Lucinha encerra seu texto de apresentação do livro, capazes de amolecer os leitores mais empedernidos, pais presentes ou futuros. Lucinha lembra:

“Existem aqueles que se trancam dentro da dor, como João meu marido fez, e os que vasculham os escombros à procura dos vestígios de um futuro que se foi. Encontrei no relato de Ricardo Gonzalez a mesma perplexidade, dor, desespero e incredulidade com os quais convivo. Ele descreve como seu mundo foi ruindo como um terremoto. O medo inicial, o momento em que tudo parece parar e tentamos fazer um balanço dos estragos e, quando nos damos contato, a casa cai sobre nossa cabeça. Os sintomas, as idas a vários médicos que viram num jovem de 21 anos gânglios nada preocupantes, a falta de diagnóstico, o dia em que encontrou o filho numa emergência médica sentado numa cadeira de rodas, o diagnóstico de câncer e a perda.”

A saudade

A perda – essa é profunda, e Gonzalez não teme retratá-la em seu sentido mais pleno nas 232 páginas que compõem o livro. Impossível não recordar a máxima eternizada por Chico Buarque na música “Pedaço de mim”, em que ele oferece talvez a definição mais precisa da palavra saudade – curiosamente esta palavra que só existe na língua portuguesa (Gonzalez tem origem espanhola). “A saudade”, escreveu Chico, “é arrumar o quarto do filho que já morreu”.

Rafael, o filho do jornalista, morreu de câncer linfático, aos 21 anos de idade, em 2010. É um câncer que ataca brutalmente o sistema imunológico do paciente. Como lembra o autor, trata-se de uma doença perversamente democrática: não escolhe endereço, nem classe social, cor, gênero ou idade. Em várias passagens do livro, o autor e pai revela sua perplexidade e inconformismo com a iminência da morte do filho tão jovem, com uma vida inteira para ser vivida.

Hoje deve passar-lhe pela cabeça outro verso, de Fernando Pessoa, que se refere a uma “saudade imensa de um futuro melhor”. A “saudade do futuro” deve ser mais dolorosa quando o futuro era mais futuro, sobretudo quando pai e filho exibiam um amor e uma amizade especiais, o tipo de dupla que se comunica até mesmo sem palavras, em gestos entregues num “amor infinito”, como define o autor.

Amor infinito

Não é filosofia paterna barata, convém esclarecer. Um dos maiores filósofos da atualidade, o francês Luc Ferry, enxerga esse tipo de entrega como um novo humanismo para o século XXI, dando ao amor um sentido central na existência. Segundo ele, muitos homens já sacrificaram suas vidas em guerras em nome de Deus, da nação, da revolução, da liberdade. Mas poucos morreriam hoje – pelo menos no mundo Ocidental – por Deus, pela pátria ou pela democracia. São ideais que no passado deram sentido à vida mas que hoje estão em declínio. Ainda é possível, porém, morrer por alguém que se ama.

Pergunte a um pai ou uma mãe verdadeiramente ligado a um filho ou uma filha se preferiam estar no seu lugar na hora do encontro com a morte.

Não por outra razão, talvez, Gonzalez escreveu o livro com dois veios. De um lado, como uma homenagem a Rafael; de outro, como um grito de alerta a outros pais. Como quem diz: amem seus filhos o máximo que possam. Entreguem-se. Antecipem-se à dor deles. Pois o fim de tudo pode estar no minuto seguinte.

Travessia

Nem a morte nos separa é um livro tocante, mas há passagens difíceis de atravessar. Chora-se junto com seus protagonistas. Como no momento em que os pais, desesperados, são consolados pelo filho doente e racional.

Choca-se e se revolta também, ao acompanhar a incrível passagem em que um residente do “hospital cinzento” – como a família chama o hospital – é escalado para informar mãe e filho da desistência de prosseguir adiante no tratamento quimioterápico.

Emociona-se e chega-se à torcida inútil pela cura, quando vão a São Paulo para uma derradeira tentativa junto a um médico competente e arrogante.

Desaba-se no momento da partida.

Exaure-se.

E se você tiver um filho, interrompa o quanto antes a leitura – na dúvida, para aproveitar sua companhia mais um pouco antes de voltar ao trabalho. Afinal, como o livro de Ricardo Gonzalez nos mostra, o tempo, assim como a saudade e o amor, podem ser encantadores, mas às vezes revelam-se angustiantes.

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segunda-feira, 20 de outubro de 2014 Jornalismo, Política | 11:12

15 frases para falar mal da política, segundo Millôr

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Numa campanha presidencial tisnada por debates amuados, ataques de alto, médio e baixo calibre, além de ódio e intolerância por parte das torcidas organizadas e desorganizadas, nada como resgatar o bom humor de Millôr Fernandes.

Do livro Millôr 100 + 100 – Desenhos e frases, editado pelo Instituto Moreira Salles (depositário de sua obra), extraem-se primorosos exemplos de sua notável (e assombrosa) criatividade, capaz de produzir, em palavra e imagem, gargalhadas abertas ou travo amargo da ironia. A coluna recolheu do livro frases sobre política, ideologia, corrupção e democracia.

 

Millôr 100 + 100: Desenhos e frases Organizadores: Sérgio Augusto e Cássio Loredano Instituto Moreira Salles R$ 500

Millôr 100 + 100: Desenhos e frases
Organizadores: Sérgio Augusto e Cássio Loredano
Instituto Moreira Salles
R$ 50

Lançado na Flip deste ano, o livro reúne 100 frases selecionadas por Sérgio Augusto e 100 desenhos escolhidos por Cássio Loredano. Uma dupla genial que trabalhou à altura do gênio homenageado, autor de inesquecíveis tiradas, máximas, aforismos, pensamentos, meditações, apotegmas, gnomas, perguntas cretinas, chistes, brincadeiras, fábulas e adágios virados pelo avesso e trocadilhos infames (Um dos melhores: “Brasil, país do faturo”).

Cético, Millôr desprezava todas as ideologias (“livre como um táxi” era sua divisa favorita), o que explica muitas das frases abaixo.  Ou melhor, tiradas. Quinze tiradas.

* * *

1. Político é um sujeito que convence todo mundo a fazer uma coisa da qual ele não tem a menor convicção.

2. Os corruptos são encontrados em várias partes do mundo, quase todas no Brasil.

3. Nas noites de Brasília, cheias de mordomia, todos os gatos são pardos.

4. A ociosidade é a mãe de todos os vices.

5.  Desconfio de todo idealista que lucra com seu ideal.

6. A probidade não tem cúmplices.

7. Não gosto da direita porque ela é de direita, e não gosto da esquerda porque ela é de direita.

8. O problema da democracia é que quando o povo toma o palácio, não sabe puxar a descarga.

9. Os socialistas são contra o lucro. Os capitalistas são apenas contra o prejuízo.

10. Cada ideologia tem a Inquisição que merece.

11. Quando uma ideologia fica bem velhinha vem morar no Brasil.

12. Os pássaros voam porque não têm ideologia.

13. A credibilidade do país é inversamente proporcional aos juros que os banqueiros internacionais lhe cobram.

14. Quem se curva aos opressores mostra a bunda aos oprimidos.

15. Todo líder acaba empregado de sua liderança.

millor6

 

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quarta-feira, 13 de agosto de 2014 Jornalismo, Política | 13:13

“Os candidatos”: Dilma Rousseff, Aécio Neves e Eduardo Campos ganham perfis em livro

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São apenas 64 páginas. Sessenta e quatro bem escritas, consistentes e, por vezes, deliciosas páginas nas quais a jornalista Maria Cristina Fernandes perfila os três principais candidatos à Presidência da República. Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) são os personagens do livro digital Os candidatos, que a Companhia das Letras acaba de lançar pelo selo Breve Companhia.

Breves livros digitais têm sido uma estratégia adotada por algumas editoras para trazer ao leitor temas quentes do momento. Curtos na escrita, rápidos na edição. Na Companhia, foi iniciada em junho do ano passado, com Choque de democracia, de Marcos Nobre, sobre as manifestações de junho, e recentemente com A Copa como ela é, de Jamil Chade.

Os candidatos Maria Cristina Fernandes 64 páginas; R$ 9,90 Breve Companhia

Os candidatos
Maria Cristina Fernandes
64 páginas; R$ 9,90                     Breve Companhia (E-book)

Em Os candidatos, a política é o pano de fundo, o horizonte, a onipresença dos textos. Mas a observação e a análise das vidas de cada personagem são o esteio da autora para produzi-los, incluindo a formação política e literária dos presidenciáveis. O bom jornalismo, sua matéria-prima. Somas essenciais para conhecer um pouco mais de quem comandará os rumos do País nos próximos quatro anos.

Perfis pertencem a uma família jornalística adotada em larga escala, consumida com grande sucesso mas não tão fácil de produzir quanto parece à primeira vista. A revista New Yorker praticamente a inventou, seja no ramo dos perfis de anônimos, seja dos célebres e poderosos. Da divertida, irônica e casta New Yorker do fundador Harold Ross ao modelo heterogêneo adotado por David Remnick, passando pela picante e insolente gestão de Tina Brown, a revista ajudou a celebrizar o valor da reportagem com um quê literário de alta qualidade.

Os perfis de Maria Cristina Fernandes em Os candidatos não têm a vantagem que a New Yorker costuma ter – proximidade e longo convívio com o personagem, algo que João Moreira Salles teve no seu celebrado perfil de Fernando Henrique Cardoso, quando viajou durante onze dias com o ex-presidente pelos Estados Unidos e Europa para escrever “O andarilho” na revista Piauí.

Repórter e analista política

Mas na paisagem um tanto monótona da imprensa brasileira, Maria Cristina Fernandes costuma iluminar o horizonte com incrível competência e precisão.

Editora de Política do Valor, ela assina semanalmente uma coluna de opinião e análise, onde revela algumas de suas melhores qualidades: a profundidade sem os vícios do academicismo; a elegância sem empáfia estilística; a opinião e a análise consistentes, sem os achismos correntes dos colunistas públicos que infestam o jornalismo brasileiro; a sábia abertura para a dúvida, mesmo diante das hiperbólicas certezas a que costumam aderir os colunistas nativos; a honestidade intelectual que, entre a informação e suas opiniões, a faz ficar com a primeira.

Maria Cristina é também uma arguta entrevistadora, como revela em suas participações no programa Roda Viva ou nas reportagens que assina – é o caso dos perfis de Os candidatos. Não daquele tipo de entrevistador que estamos acostumados a ver na mídia brasileira: mais interessado em exibir-se em perguntas de duração eterna e cansativa, ou aquele que segue disparando perguntas, uma atrás da outra, tão atento à próxima e a si que chega a não escutar o que está sendo dito, perdendo assim preciosas chances de ir mais fundo e além.

Maria Cristina Fernandes: elegância sem empáfia

A jornalista Maria Cristina Fernandes, autora de “Os candidatos”: elegância sem empáfia

Essa conjugação rara de repórter e analista transforma Os candidatos numa leitura importante para este período eleitoral. Mostra, por exemplo, como Aécio Neves, conciliador por natureza, muda sua estratégia e parte para a briga. Como Dilma Rousseff, contumaz gestora, arregaça as mangas para se provar uma articuladora política. E como Eduardo Campos tenta projetar em âmbito nacional a imagem de renovação que soube cultivar como governador de Pernambuco.

Até aí, dito assim, nestes termos, nada demais.  Mas composto no texto de Maria Cristina, vêm as nuances, os entreatos, as trivialidades e mesmo os grandes gestos que fazem da política algo tão apaixonante e necessário – e também tão odioso aos olhos do cidadão comum. (Impossível não recordar uma máxima de um mestre do jornalismo político, Janio de Freitas, segundo a qual, no jornalismo político, notícia é tudo aquilo que alguém quer dizer e outro quer omitir.)

Quente e frio, mas nunca morno

Os perfis de Os candidatos não são frívolos, nem grandiloquentes. Não põem o dedo em riste sobre o personagem em questão, nem são puxa-saco. São simultaneamente quentes e frios, o que não quer dizer que sejam mornos. Esse estilo permite à autora ser honesta intelectualmente, elogiosa e crítica ao mesmo tempo.

A Dilma Rousseff, por exemplo, refere-se como uma presidente que pecou pelo excesso de coragem, mas também pelo medo de enfrentar seus erros ao tentar romper o pacto conservador de mudança estabelecido pelo antecessor e criador Luiz Inácio Lula da Silva. E radiografa sua dificuldade de ampliar o diálogo do seu governo “para além dos muros de sua cidadela”.

De Aécio, não se esquiva do assunto das drogas que cercam o candidato e o provoca pessoalmente sobre isso. “É do jogo, tem lendas para todos os gostos, não podia imaginar que chegaria aonde cheguei sem carregar várias delas”, afirma-lhe o tucano.

Sobre Eduardo Campos, Maria Cristina radiografa dois eixos sob conflito de sua candidatura: o Estado gerencial e a herança de esquerda. Dos três, Dilma foi a única que não lhe deu acesso (carência compensada pela clássica prática de ouvir o entorno do personagem).

Da tragédia grega à esbórnia carioca

Como uma excelente leitora que é, Maria Cristina sabe o quão importante é saber os livros de formação de qualquer personagem – e o que eles dizem desses livros nos informa muito sobre o que são e o que pensam. Os candidatos, neste quesito, traz surpresas curiosíssimas.

A principal delas é a eleição, por Aécio, de Noites tropicais, de Nelson Motta, como sua principal leitura, como obra literária que ajuda a entender sua vida. Publicado em 2000, o livro do produtor e crítico musical fala dos festivais de rock em Saquarema, onde Aécio costumava pegar onda no fim dos anos 1970, e das primeiras discotecas. “É o Rio no qual vivi”, define Aécio para Maria Cristina, que escreve:

“A ditadura tinha vencido e virado a página do rock’n’roll e do idealismo hippie. A música agora era feita para dançar em lugares como o Dancin’Days, na Gávea, que daria nome à novela de Sonia Braga, e o Noite Cariocas, no morro da Urca. É um indiscreto relato em primeira pessoa de um meio artístico movido a ‘Música Popular Brasileira’ e a drogas”.

Eduardo Campos cita Infância e Memórias do Cárcere, ambos de Graciliano Ramos. O filho do escritor Maximiano Campos – amigo de intelectuais e artistas de Pernambuco – conviveu também com escritores, mas a praia sempre foi a política também na literatura. “Gostava do ambiente, do debate sobre literatura, arte e música, mas eu não fazia poesia, não escrevia conto. Fui dar palpite quando comecei a ler Celso Furtado e Veias abertas da América Latina [Eduardo Galeano]. Era aquilo que eu queria”, diz o candidato do PSB.

E a empedernida presidente? Ao frequentar um curso de tragédia em 1993, conta o livro, Dilma Rousseff ficou fascinada pela epopeia da conquista do poder de Filoctetes, de Sófocles. Curiosidade: é uma das poucas tragédias gregas sem personagens mulheres.

Conta o livro:

“Melhor arqueiro da expedição rumo a Troia, Filoctetes foi deixado em ilha deserta depois de ser mordido por uma serpente. A ferida no pé e os gritos de dor o relegaram ao abandono e ao isolamento. Dez anos depois, Ulisses, sem conseguir vencer os troianos, manda Neoptólemo, filho de seu maior rival, Aquiles, persuadi-lo a qualquer preço a voltar ao navio. O jovem resiste a mentir para convencer Filoctetes, que, ferido no orgulho, se mantinha altivo na ilha sem querer curvar sua honra àqueles que o haviam desprezado. A honestidade de Neoptólemo o cativa, ele se reintegra à expedição, é curado e volta de Troia como herói.”

Uma amiga de Dilma conta à autora do fascínio da presidente pela oposição entre a ética grega e a judaico-cristã. Ulisses não tinha medo ou culpa de não fazer o bem. Se Filoctetes incomodava, que fosse deixado numa ilha deserta nem que, depois, fosse preciso resgatá-lo. A culpa, porém, não nos deixa agir assim, mas o exercício do poder exige que você a toureie.

 

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segunda-feira, 11 de agosto de 2014 História, Jornalismo, Política | 09:42

Quem está mentindo sobre tortura: Dilma ou os generais?

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Ex-assessor da Comissão Nacional da Verdade, o jornalista Luiz Cláudio Cunha fez recentemente o que poucos jornalistas se atreveram a fazer: leu as 155 páginas do relatório da Comissão Nacional da Verdade, comprovando mortes e torturas em sete instalações militares da ditadura, e as confrontou com a resposta das Forças Armadas, exibidas em outras 455 páginas. Nestas os militares negam tudo o que aquelas apontavam.

Ao ler o que leu, Cunha ficou indignado. Escreveu que o resultado da sindicância militar é “um palavroso, maçante, insolente, imprestável conjunto de 455 páginas que não relatam, de sindicâncias que não investigam, de perguntas não respondidas, de respostas não perguntadas e de conclusões nada conclusivas, camufladas em um cipoal de decretos, leis, portarias, ofícios e velhos recortes de jornais falecidos”.

E se pergunta: “Afinal, quem mente? Dilma ou os generais?”

Dilma é interrogada no tribunal militar em 1970, aos 22 anos

Dilma é interrogada no tribunal militar em 1970, aos 22 anos

Se um diz a verdade, o outro mente

A questão formulada por esse jornalista tinhoso encontra-se num alentado artigo publicado originalmente pelo JornalJá, de Porto Alegre. São quase 20 mil palavras nas quais ele expõe muito mais do que hipérboles, adjetivos e frases de efeito. Luiz Claudio Cunha apresenta dados, mostra contradições, tira dúvidas, acrescenta outras e coloca sobre a mesa do debate questões certas sobre um tema ainda muito mal resolvido no País.

O seu raciocínio central escancara as feridas abertas de uma contradição crônica entre um Exército que nega hoje o que o Exército fez ontem, segundo a própria presidente Dilma Rousseff, hoje comandante suprema das Forças Armadas brasileiras: a tortura que sofreu nas dependências do DOI-Codi em São Paulo, quando era uma jovem estudante de 22 anos e integrante do grupo guerrilheiro Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares (VAR-Palmares), onde era conhecida pelos codinomes de Estela ou Vanda.

Ou por distração ou por canalhice dos militares, argumenta Cunha: os depoimentos na Justiça, a prisão de três anos que sofreu após julgamento na Justiça Militar e os 22 dias de tortura na Tutoia mostram que os dois lados não podem ter razão. “Um está certo, outro está errado. Um diz a verdade, outro não. Um mente de forma deslavada. Quem será?”, disse Cunha à coluna.

O jornalista mostra no artigo documentos do Exército, entre os quais a monografia do então major Freddie Perdigão, homem da Casa da Morte, do Riocentro e da morte de Zuzu Angel, que reconhece 51 mortes na Tutoia. Os generais responsáveis pela sindicância de resposta à Comissão Nacional da Verdade parecem não ter visto documentos como esse. Defendem, ao contrário, a tese de que “nunca houve tortura, nunca aconteceu nenhuma grave violação aos direitos humanos nos quartéis”.

Avanços, negaças e perguntas

O pedido da CNV foi enviado ao Ministério da Defesa no dia 18 de fevereiro deste ano. Era um relatório com documentos, testemunhos e laudos periciais sobre a ocorrência de graves violações de direitos humanos em sete endereços de instalações militares, em São Paulo, Rio, Minas Gerais e Pernambuco. Quatro meses depois, o maçudo relatório militar foi discretamente encaminhado à Comissão pelo ministro da Defesa, Celso Amorim. Era a Copa do Mundo.

Cunha põe o dedo em riste contra os militares, a quem se refere com palavras como “silêncios, omissões e covardias”. Acha que Exército, Marinha e Aeronáutica se mobilizam para um desastrado ataque combinado à verdade, à história e ao País.

Elogia o trabalho da Comissão Nacional da Verdade, onde enxerga “avanços incômodos”.

E abre um questionamento pertinente à presidente Dilma: “Enredada numa dura campanha de reeleição, ela não deve querer marolas à direita. Mas deveria estar mais preocupada com a biografia do que com a eleição. A eleição passa, a biografia fica”, diz à coluna.

No artigo, Cunha faz uma cobrança à presidente, ao dizer que a nação merece um esclarecimento da principal ocupante do Palácio do Planalto, “que um dia circulou como presa pela sucursal do inferno, levou soco na cara, perdeu dente, sofreu hemorragia, passou frio, teve fome e sentiu medo, muito medo”.

Para ele a testemunha mais notável da tortura imposta pelo regime militar e agora negada pelos generais deveria vir a público para dizer, enfim, quem está mentindo: seu depoimento ou o relatório assinado pelos chefes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, que estão sob seu comando? Ou, nas palavras de Cunha, “os generais, que juram inocência, ou Dilma, que jura penitência?”

Leia o artigo de Luiz Claudio Cunha na íntegra aqui. Vale a pena.

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domingo, 1 de junho de 2014 Jornalismo, Política | 14:34

Obama e a história de como os EUA adotaram o assassinato como política de Estado em guerras invisíveis

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Nesta semana que passou (dia 28), em discurso a uma turma de formandos na Academia Militar dos EUA, o presidente Barack Obama fez uma ampla defesa de sua política externa, apontou a diplomacia como meio mais eficaz que a intervenção militar e afirmou que mudará o foco da luta contra o terrorismo no Afeganistão para lidar com ameaças mais difusas em outras partes do mundo. Por ameaças difusas, entenda-se não um líder centralizado na Al-Qaeda, mas grupos extremistas filiados à organização, que atuam de maneira pulverizada e atacam alvos “mais difíceis de defender”.

No mesmo dia, Obama disse que o terrorismo “continua sendo a maior ameaça para os norte-americanos” e anunciou a criação de um fundo de cooperação antiterrorista de US$ 5 bilhões. O fundo, garantiu o presidente dos EUA, dará a flexibilidade necessária para realizar diferentes missões, como treinar forças no Iêmen, dar apoio às forças internacionais de manutenção da paz na Somália, trabalhar com os aliados europeus para assegurar a fronteira na Líbia e dar apoio às tropas francesas no Mali.

No mundo pós-George Bush e pós-Bin Laden, os gestos de Obama parecem fazer sentido.

Parecem.

Guerras sujas - O mundo é um campo de batalha Jeremy Scahill Tradução de Donaldson M. Garschagen 840 páginas, R$ 69,50

Guerras sujas – O mundo é um campo de batalha
Jeremy Scahill
Tradução de Donaldson M. Garschagen
 Companhia das Letras, 840 páginas, R$ 69,50

Para evitar mal-entendidos, no entanto, Pensata recomenda o extraordinário trabalho do jornalista Jeremy Scahill: Guerras sujas – O mundo é um campo de batalha, lançado no Brasil em abril pela Companhia das Letras. Scahill é um jornalista tinhoso de Chicago, que hoje vive em Nova York. Colaborador regular da revista The Nation, ele tem, apesar dos seus 39 anos, uma larga experiência  em coberturas internacionais no Iraque, nos Bálcãs e na Nigéria. É de Scahill o prestigiado Blackwater, livro sobre o uso de mercenários no Iraque sob o comando de um radical cristão de extrema-direita.

Em implacáveis, detalhistas e bem escritas 830 páginas, Scahill relata histórias aparentemente desconexas que, reunidas, mostram como as operações secretas se transformaram num novo modelo de batalha – são milhares delas, executadas por unidades que oficialmente não existem e que não deixam registros; sem uniformes coloridos ou estandartes, sem duelos de artilharia, sem trincheiras, sem fronteiras.

O livro revela, com fatos e depoimentos, os padrões de continuidade entre o republicano George Bush e o democrata Barack Obama, sobretudo na concepção mantida segundo a qual “o mundo é um campo de batalha”.

(Desdobramento do livro é o documentário que leva o mesmo nome do título original, Dirty Wars: the world is a batlefield indicado ao Oscar este ano de melhor documentário, exibido em fevereiro no GNT e disponível para quem tem acesso à Netflix dos EUA.)

De Estados-nações a inimigos dispersos

Nos primeiros dias do governo Bush, o foco no terrorismo se centrava nas ameaças representadas por Estados-nações – Irã, Síria, Coreia do Norte e Iraque. Operações secretas, atentados terroristas e assassinatos políticos sempre existiram e depois da Segunda Guerra, sobretudo com a Guerra Fria, intervenções do gênero se tornaram frequentes. Mas não eram dominantes.

Antes mesmo do 11 de Setembro, os neoconservadores instalados de volta ao poder com Bush desejavam restaurar a prática dos assassinatos políticos, a expansão das forças americanas e a criação de unidades operacionais de elite ágeis. Em 2001, a Al-Qaeda propiciou o cenário ideal para colocar em prática antigas estratégias da CIA. Daí porque a investigação de Scahill começa nos primeiros dias de Bush na Casa Branca e chega ao segundo mandato de Obama.

Aos Estados-nações “inimigos”, a diplomacia defendida na semana passada por Obama. Na surdina, contra as “ameaças difusas”, os ataques secretos por drones e o emprego de unidades militares de elite que prestam contas exclusivamente à Casa Branca. Guerras invisíveis, disfarçadas, encobertas, dissimuladas, todas ultrapassando os marcos da legalidade internacional – na concepção de Scahill – e patrocinadas pelo governo norte-americano.

As operações dos serviços secretos do exército dos EUA são raramente registradas quando ocorrem em países como Afeganistão, Iêmen e Somália. Scahill apresenta alguns dos principais responsáveis por grupos como os Sea, Air, Land Teams (Seals), o Comando Conjunto de Operações Especiais e a CIA. O jornalista também viaja o mundo entrevistando agentes secretos, mercenários, líderes de organizações terroristas e parentes de vítimas – um outro lado bastante instrutivo do estado de coisas da política de segurança internacional conduzida por Obama.

O jornalista Jeremy Scahill aponta o dedo em cena do documentário "Dirty Wars", no qual segue o rastro do Comando de Operações Especiais Conjuntas, a mais secreta elite do Exército dos EUA

O jornalista Jeremy Scahill aponta o dedo em cena do documentário “Dirty Wars”, no qual segue o rastro do Comando de Operações Especiais Conjuntas, a mais secreta elite do Exército dos EUA

Marcado para morrer

Jeremy Scahill conta histórias tocantes, como a do cidadão norte-americano, iemenita de origem e muçulmano em seu credo: Anwar Awlaki. Seu filho Abdulrahman, de 16 anos, e Samir Khan, igualmente cidadãos norte-americanos, também entram na narrativa. Em comum, os três morreram assassinados pelo novo paradigma de batalhas na luta contra o “terror”. Dois dos terroristas que participaram do ataque às torres gêmeas frequentavam os sermões de Anwar Awlaki. A vigilância se intensificou sobre ele, que abandonou os EUA e foi morar primeiro na Inglaterra e depois no Iêmen, país de seus ancestrais.

Depois de Bin Laden, Anwar Awlaki passou a ser visto como a maior ameaça aos EUA. Foi aí que ficou marcado para morrer, apesar de nunca ter sido acusado de crime algum.

“Termina agora uma década de guerra”

Em janeiro de 2013, ao tomar posse para seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos, Barack Obama repetiu o que prometera ao iniciar sua primeira campanha presidencial, seis anos antes: virar a página da história e levar a política externa dos EUA a outra direção. “Termina agora uma década de guerra”, declarou no discurso de posse. “Nós, o povo, ainda acreditamos que a segurança duradoura e a paz persistente não exigem guerra perpétua”.

Lorota. No mesmo dia do seu juramento, um drone dos EUA atacou o Iêmen. Foi o terceiro ataque naquele país em três dias. “Apesar da retórica do presidente nas escadarias do Capitólio”, escreveu Scahill, “estava bem claro que ele continuaria presidindo um país em estado de guerra perpétua”. Enquanto fazia seu juramento, sua equipe de contraterrorismo completava a tarefa de sistematização da lista da morte e fixando regras segundo as quais cidadãos americanos podiam ser assassinados. Forças de Operações Especiais estavam em ação em mais de 100 países.

Naquele mesmo início de 2013, um “relatório técnico” do Departamento de Justiça estabelecia a “Legalidade das Operações Letais voltadas contra um cidadão americano”. Segundo os autores do relatório, o governo não precisava ter dados específicos da Inteligência que apontassem para o envolvimento ativo de um cidadão dos EUA numa conspiração terrorista determinada para que sua execução dirigida fosse aprovada. Um “bem informado funcionário do alto escalão do governo” de que um alvo representa uma “ameaça iminente” aos EUA é base suficiente para que se ordene a execução de um cidadão.

Os neocons liderados por Dick Cheney e Donald Rumsfeld não fariam melhor.

Culpados por associação

O governo Obama ampliou o uso de “ataques por indício” e outros sistemas que classificavam homens em idade militar como alvos legítimos, mesmo que sua identidade fosse desconhecida. Os resultados desse conceito de “culpabilidade por associação” se mostraram no aumento de ataques contra mesquitas ou enterros, que segundo Michael Boyle, um ex-assessor de Obama, matam “não combatentes e esgarçam o tecido social das regiões em que ocorrem”.

Ou seja, a “guerra contra o terror”, desfechada por um governo republicano, acabou legitimada e expandida por um presidente democrata e popular.

Um dos segredos de Obama, sabemos, é seu enorme poder de comunicação. Seu governo teve bastante êxito, por exemplo, em convencer a opinião pública dos EUA de que estava travando uma guerra mais inteligente que seu antecessor. A fantasia de uma guerra limpa, mito alimentado por Obama, encontrou um público receptivo. Todas as pesquisas indicavam que os norte-americanos estavam cansados de grandes mobilizações militares no Iraque e no Afeganistão e do número cada vez maior de baixas que isso provocava. Uma pesquisa de 2012 mostrou, por outro lado, que 83% dos norte-americanos apoiavam o programa de drones de Obama.

Com suas viagens, investigações e entrevistas mostradas tanto no livro quanto no documentário, Scahill calcula em torno de 17 mil pessoas mortas até agora, apenas no Afeganistão e no Paquistão. E a lista de alvos humanos vivos, marcados para morrer, não para de crescer.

Essa é uma outra face de Barack Obama – um Obama de carne e osso, anulado por um conservadorismo de bordel (ótima expressão da professora Maria da Conceição Tavares), e não o mito gloriosamente difundido em duas bem-sucedidas campanhas presidenciais.

 

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terça-feira, 22 de abril de 2014 Jornalismo, Política | 10:04

Watergate: o caso que nos fez amar um escândalo político

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Numa tarde de abril de dois anos atrás, o diretor de Redação de uma célebre revista semanal brasileira declarou, na condição de professor-visitante do curso de pós-graduação da ESPM-SP: “Tratamos o governo Lula como um governo de exceção”. A plateia ouviu espantada.

Veja bem: sua doutrina era a de que se estava diante de uma trepidante usurpação democrática. A revista enxergava ali um governo de vocações autoritárias que, portanto, merecia um tratamento de exceção. A esse tratamento o jornalista Alberto Dines batizou de vale-tudo.

Mais preciso impossível. Afinal, num governo de exceção vale tudo. Também no jornalismo de exceção.

Todos os homens do presidente Carl Berstein e Bob Woodward Tradução de Denise Bottmann 424 páginas; R$ 69,90

Todos os homens do presidente
Carl Berstein e Bob Woodward
Tradução de Denise Bottmann
424 páginas; R$ 69,90

A vigência de doutrinas como essa é uma das razões da importância da nova edição no Brasil do livro Todos os homens do presidente, da dupla Carl Bersntein e Bob Woodward, lançada em março pela editora Três Estrelas (selo editorial da Folha). A edição tem tradução de Denise Bottmann, introdução de Eugênio Bucci e posfácio de Otavio Frias Filho – todos impecáveis.

Fora de catálogo no Brasil desde os anos 80, trata-se de um clássico do jornalismo: a investigação jornalística mais famosa da história, que cobriu o caso Watergate e ajudou a derrubar o presidente dos EUA, Richard Nixon. O livro foi lançado em 1974, pouco antes de Nixon renunciar, e ganhou o Prêmio Pulitzer daquele ano.

Escrita a quatro mãos, mas como de um narrador externo, a narrativa é intensa, reforçada ao leitor brasileiro pela ótima tradução. Lê-se as 442 páginas como um romance de espionagem de estilo seco e direto.

De um assunto de polícia para um caso político

Para quem não tem a obrigação de lembrar: na madrugada de um sábado, 17 de junho de 1972, cinco homens foram presos pela polícia dentro da sede nacional do Partido Democrata, no opulento edifício Watergate, em Washington. Com os invasores foram encontrados equipamentos de escuta clandestina, câmeras e filmes fotográficos. Um deles declarou ser ex-agente da CIA, o serviço secreto do governo dos EUA.

Conhecido pela primorosa cobertura de assuntos locais, o jornal Washington Post escalou dois jovens repórteres da editoria de Cidades para acompanhar a investigação sobre o arrombamento. Bob Woodward tinha 29 anos. Fora contratado nove meses antes, depois se graduar por Yale e servir na Marinha como tenente. Carl Bernstein era um ano mais novo, porém bem mais experiente.

Os dois exibiam personalidades distintas e quase sempre antagônicas. Bernstein era politizado, criativo, liberal (no sentido norte-americano, ou seja, progressista) e escrevia melhor; Woodward era mais disciplinado, conservador, metódico e tinha acesso à mitológica fonte que orientou o trabalho de ambos, o personagem Deep Thorat (Garganta Profunda).

O apelido dado pelo secretário de Redação do Post, Howard Simons, surgiu do fato de que o amigo de Woodward só admitia conversar em deep background (bastidor profundo). Garganta profunda, como se sabe, era o título do mais célebre filme pornô da história, lançado justamente naquele 1972.

(A identidade da fonte só seria descoberta em maio de 2005, quando a revista Vanity Fair publicou artigo de um advogado amigo da família de Mark Felt, então com 91anos, confirmando-o como o Deep Throat. Ele fora um devotado agente do FBI, que subiu na hierarquia até chegar a diretor.)

Woodward e Bernstein podiam não se bicar, mas a partir da segunda reportagem todos os textos que fizeram sobre o caso levaram a assinatura da dupla – por isso apelidada de Woodstein no jornal. Os dois acabaram construindo uma parceria em que as qualidades de um corrigiam os defeitos do outro.

Um modelo canônico

Como afirmou Frias Filho, é tão profunda a marca deixada por Watergate que o nome se tornou sinônimo de escândalo político. Até hoje muitas fraudes na gestão pública recebem o acréscimo da terminação gate quando tornadas públicas, eco distante da crise que há quase 40 anos compeliu à inédita renúncia de um presidente norte-americano e reforçou as prerrogativas da imprensa no sistema de pesos e contrapesos da democracia.

Mais: desde então jornalistas de todo o mundo se inspiram no modelo de apuração que os jovens repórteres do jornal Washington Post encarnaram por dois anos: a atitude inquisitiva diante da autoridade pública, o recurso a fontes não identificadas, a regra de checar todas as informações com pelo menos duas diferentes fontes, a condução de investigações autônomas, a consulta a documentos e provas materiais, o uso combinado de pistas com policiais e promotores e o dever de registrar a versão da parte acusada, entre outras lições.

Nenhum dos tópicos desse modelo foi inventado por Bernstein e Woodward, mas se tornou canônico no jornalismo depois do caso Watergate.

Bernstein e Woodward: modelo de apuração

Bernstein e Woodward: modelo de apuração

Desvios de rota inesperados

De boas intenções, ensinou São Bernardo, o inferno está cheio. Se a cobertura daqueles dois anos e o livro Todos os homens do presidente redefiniram a imagem pública do jornalista e ajudaram a criar alicerces consistentes sobre os destinos do jornalismo, da liberdade e da ordem democrática, também produziram legados indesejáveis, certamente não imaginados pela dupla Woodstein e pelo lendário editor-executivo do Post, Benjamin Bradlee.

Primeiro: derrubar presidentes, primeiros-ministros e políticos em geral converteu-se em obsessão de jornais e jornalistas (e, sobretudo, opinionistas). Isso produziu excessos, afeição especial a “escândalos políticos”, vícios de toda ordem expostos no afã de denunciar malfeitos com o dinheiro público. No Brasil, um exemplo foi o próprio caso que levou à renúncia e à abertura do processo de impeachment do então presidente Fernando Collor. Foi fácil defenestrá-lo, mas os métodos empregados nem sempre foram os mais apropriados.

Segundo: não raro jornalistas sonharam sair da obscuridade imediatamente para os holofotes. Daí a inevitável pressa de chegar a algum lugar, sem paciência para gastar anos e anos com leitura, estudo, preparo. Com isso a imprensa não deixou de atender às necessidades simplificadas do leitor médio, mas perdeu em substância.

Terceiro: como disse há algum tempo o jornalista Janio de Freitas, há, entre os jornalistas, uma farta dose de amargura, alimentada em grande parte por um ilusório sentimento de importância, que não suporta o mais tênue contato com a realidade. Sobretudo na política. A proximidade com o poder serve para aumentar o autoengano do jornalista. Ele se sente poderoso, e muitos mergulham num sentimento de quem se acha sedutor o suficiente para atrair o poder. Mas a relação com a elite política faz apenas agigantar as diferenças e tornar sua reentrada na atmosfera da realidade ainda mais sofrida.

Quarto (extensão dos dois primeiros): o vale-tudo permitido na internet muitas vezes ignora os princípios universais do jornalismo. Alguém já escreveu em algum lugar que é como uma espécie de orgia romana das palavras, um porre opiniático que desmerece a relação entre fato, jornalismo e leitor.

No reino livre da internet, essa orgia é aplacada pela pluralidade, diversidade e fragmentação do alcance que a rede produz. No caso da chamada “grande imprensa” – embora cada vez menor e com menos poder de persuasão – o risco só se torna relevante quando engendra artimanhas para mobilizar agentes públicos, como políticos e empresários, por exemplo. Nos dois casos, reafirma-se a máxima criada no século XIX por Honoré de Balzac, segundo a qual os jornalistas são “espadachins da reputação alheia”.

(Desde Balzac, a propósito, o jornalismo é maltratado pela literatura, pelo teatro e pelo cinema. Vingança contra sua capacidade de multiplicar informações e ideias? Castigo contra seu poder? Ao leitor, a dica para ler ou reler Ilusões perdidas, que o próprio Balzac considerava a obra capital de sua Comédia humana. É maravilhoso – e arrasador – o percurso do protagonista Lucien de Rubempré, que deixa província honrada para buscar a glória numa Paris viciada. O jornalismo aparece ali como destruidor das ilusões. Sem idealismos, nem arte.)

Tanto os profissionais que hoje se tornaram representantes do território livre da internet quanto aqueles que integram a mídia tradicional deveriam ler ou reler Todos os homens do presidente. E não só pelo trabalho dos repórteres Carl Bernstein e Bob Woodward, cujo reconhecimento recebido é merecido.

Janio de Freitas escreveu há algumas semanas, com brilhantismo: o grande espetáculo que o caso Watergate oferece é a batalha, no Washington Post, pela aliança do jornalismo destemido com o rigor sem concessão a meias informações e às formas fáceis de sedução do leitor. Atributos em falta no jornalismo brasileiro atual.

 

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