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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015 Literatura | 12:17

Raul Pompeia inaugura série de autores brasileiros em coleção de clássicos da Zahar

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Após publicar clássicos internacionais como Sherlock HolmesO mágico de Oz  e O conde de Monte Cristo, a editora Zahar traz a nova edição de O Ateneu, de Raul Pompeia, primeiro título brasileiro a integrar a coleção Clássicos Zahar. Esta edição traz as 44 ilustrações originais do autor, com apresentação de Ivan Marques e notas de Aluizio Leite.

O Ateneu Raul Pompeia Editora Zahar 264 páginas R$ 39,90; R$ 19,90 (e-book)

O Ateneu
Raul Pompeia
Editora Zahar
264 páginas
R$ 39,90; R$ 19,90 (e-book)

Publicado originalmente em folhetim na Gazeta de NotíciasO Ateneu foi escrito entre janeiro e março de 1888. O livro traz a história de Sérgio, menino de onze anos pertencente a uma família bem posicionada na aristocracia do Rio de Janeiro do fim do século XIX, e seu ingresso no colégio interno Ateneu, coincidindo com o período de transição da infância à adolescência.

Trata-se de um livro de difícil classificação, visto que possui aspectos do naturalismo fundidos ao memorialismo e a impressões subjetivas. “O Ateneu é de fato inclassificável, não só porque não se filiou a nenhuma escola, mas também por ter escapado da escravidão dos gêneros, transitando livremente entre a ficção, a poesia e o ensaio”, afirma Ivan Marques na apresentação desta edição.

Fica clara a inserção do ensaio ao longo do livro nas palestras de Dr. Cláudio, professor do Ateneu que ministra conferências semanais aos alunos, as quais o crítico Lêdo Ivo chama de “ilhas ensaísticas”. Na boca desse personagem, Raul Pompeia tem a oportunidade de expor reflexões sobre temas como arte e o sistema de ensino.

Os críticos levantam o possível caráter autobiográfico da obra, sendo que Raul Pompeia mudou-se ainda criança para o Rio de Janeiro e, aos dez anos de idade, ingressou como interno no Colégio Abílio, dirigido pelo barão de Macaúbas, que seria inspiração para o diretor do Ateneu, Aristarco. No livro, este é apresentado em forma próxima à divina, podendo assumir desde o aspecto de um pai amoroso até atingir “a fúria tonante de Júpiter-diretor”.

O Ateneu, narrado pelo adulto que recorda os tempos de criança, não pode ser considerado um exemplo típico de memorialismo. Silviano Santiago, em seu livro Uma literatura nos trópicos, atenta para a peculiar separação entre o Sérgio-narrador e aquele que atua, o Sérgio-personagem. Essa distinção fica nítida com o estilo sofisticado e a linguagem rebuscada que o narrador escolhe, improváveis a uma criança de apenas onze anos.

Alfredo Bosi, no livro Céu, inferno, fala na existência de um “juiz-narrador” em O Ateneu, que faz uma crítica feroz do colégio e de seus membros, destoando do tímido e amedrontado Sérgio enquanto criança e aluno.

Silviano Santiago afirma que, após as primeiras páginas, “o livro deixa de ser de memórias, introspectivo, para se apresentar tecnicamente como um agressivo romance em que o narrador se esquece de si para analisar imaginariamente os sentimentos e as emoções do outro”.

Dentro dos muros da escola

“Ateneu era o grande colégio da época. Afamado por um sistema de nutrido reclame”, informa o narrador logo no início do livro. Os pais de famílias mais abastadas enviam seus filhos ao internato mais por uma questão de prestígio do que de qualidade de ensino.

A experiência escolar de Sérgio antes do Ateneu resume-se a alguns meses em uma escola familiar não muito rígida: “Entrava às nove horas, timidamente, ignorando as lições com a maior regularidade, e bocejava até as duas”.

O primeiro contato de Sérgio com o Ateneu é em uma festa de encerramento das atividades escolares, em que são apresentados contos, discursos e poesias declamadas em diversas línguas. A segunda visita é durante a festa da educação física, em que são exibidas demonstrações de força e acrobacias.

Dessa forma, as duas primeiras impressões são de admiração pelas exibições dos alunos, a primeira de ordem intelectual e a segunda, física. Esses primeiros contatos servem para que a criança situe o colégio próximo da perfeição. “É fácil conceber a atração que me chamava para aquele mundo tão altamente interessante, no conceito das minhas impressões”, diz o personagem.

Dentro do colégio, Sérgio percebe que nem todos os dias são brilhantes no Ateneu: “Desiludi-me dos bastidores da gloriosa parada, vendo-a pelo avesso. Nem todos os dias do militarismo enfeitam-se com a animação dos assaltos e das voltas triunfais”.

No internato, vale a “lei do mais forte”. Os novatos são agredidos “fraternalmente” pelos veteranos.  Num colégio a que somente meninos têm acesso, com professores homens e um diretor que se diz o exemplo paterno para seus alunos, as aparições femininas são raras e resumem-se praticamente à mulher do diretor, que encarna a figura materna, e à criada da casa, erotizada no livro.

Com a quase ausência de mulheres, os meninos são divididos entre fracos e fortes. “Nada de protetor” é o conselho que o mais velho da turma dá a Sérgio. Ter um protetor equivale a ocupar a posição de “mais frágil”, submisso a alguém superior.

O diretor fica dividido entre expulsar ou não os maus alunos. É necessário manter intactas as bases morais da instituição, grande propaganda do Ateneu. Por outro lado, expulsões significam menos alunos pagando mensalidades, o que poderia levar à falência. Assim, alguns delitos acabam sendo tolerados. Outros, como as manifestações homossexuais, são punidos com a exposição pública dos envolvidos. “A imoralidade entrou nesta casa”, brada Aristarco em um desses casos, em que um romance entre dois alunos é descoberto. O casal é humilhado diante de todos os outros estudantes.

O livro das notas é “a mais terrível das instituições do Ateneu”. Lido em público, traz elogios a alguns alunos, mas também as últimas ocorrências e anotações sobre os alunos cujo desempenho está em decadência. As reclamações (e as penas subsequentes) variam, entre outros fatores, de acordo com a situação social da família do aluno.

A primeira punição é o julgamento dos demais, que Bosi chama de “fenomenologia do olhar”. O medo dos olhares dos outros aparece nas primeiras cenas de convivência escolar, em que Sérgio é convidado a ir à frente da sala e enfrenta um momento de pânico.

Narrativa de destruições

O livro faz um recorte da vida de Sérgio, relatando o ingresso no internato, acompanhado do fim da infância. Ao apresentar-se para a matrícula, o diretor pede que o menino corte seus cabelos, compridos e em cachos. As mechas são símbolo da infância sendo retirada. A mulher do diretor aconselha que o menino ofereça-as à mãe: “É a infância que ali fica, nos cabelos louros”.

A frase de abertura do livro, dita pelo pai ao filho diante do colégio, também alude ao rompimento com a infância: “Vais encontrar o mundo. Coragem para a luta”. O que se segue é o choque de trocar o ambiente familiar por um internato. “Não havia mais a mão querida para acalentar-me o primeiro sono”, reclama Sérgio.

As recordações infantis dialogam com a história do Brasil. O livro foi escrito em 1888, próximo do fim do período imperial. Alguns traços da campanha republicana podem ser observados no livro. Na festa da educação física, o filho do diretor recusa-se a beijar a mão da princesa Isabel, presente à cerimônia. A manifestação republicana do filho causa a vergonha e a reprovação de Aristarco.

O colégio, assim como o período imperial, caminha para o fim. No momento da matrícula de Sérgio, este nota uma “pontinha de aborrecimento” no semblante do diretor e supõe se tratar de uma decepção relacionada às finanças: “O número dos estudantes novos não compensando o número dos perdidos, as novas entradas não contrabalançando as despesas do fim do ano”.

Ao longo das páginas, vai sendo exposta a decadência da instituição, representativa de uma sociedade que seria repensada e reorganizada com a República. A glória do colégio, bem como a do período imperial, é mostrada em seu último suspiro. Aristarco, que tem um busto fundido em sua homenagem, vê sua soberania se esvaindo, assim como os últimos representantes do Império no Brasil.

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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015 Literatura | 06:00

Coletânea de contos traz cenas do dia a dia recheadas de mistérios

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O leitor corriqueiro, que lê entre uma atividade e outra e se perde facilmente, terá de redobrar a atenção ao ler Dez centímetros acima do chão, publicado recentemente pela Cosac Naify. Isso porque o autor, Flavio Cafiero, inseriu uma série de armadilhas que podem enganar facilmente em uma leitura desatenta.

O escritor publicou seu primeiro livro em 2013, O frio aqui fora, também pela Cosac Naify, após trocar a carreira no mundo corporativo pela literatura (leia mais na entrevista abaixo). O livro de estreia foi finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura.

Dez centímetros acima do chão é sua primeira coletânea de contos, escritos ao longo de mais de cinco anos. São ambientados em locais do cotidiano da maioria das pessoas, como um apartamento, um escritório ou o transporte público.

Dez centímetros acima do chão Flavio Cafiero Cosac Naify 160 páginas, R$ 32,00

Dez centímetros acima do chão
Flavio Cafiero
Cosac Naify
160 páginas, R$ 32,00

As narrativas, simples apenas na aparência, escondem provocações que contribuem para formar uma teia complexa. É o caso de O atirador de facas, que parte de um jantar entre amigos de longa data que se reencontram. As notas de rodapé deste conto criam uma história paralela, que pode ser entendida como um complemento à história principal. Ou seriam essas notas a narrativa principal? Fica a dúvida. Este e outros contos trazem mistérios e ideias que ficam suspensas.

Em contos como Arabescos, as notas de rodapé fazem a tradução para o português de falas em outros idiomas. Em determinado momento, as notas passam a traduzir os próprios pensamentos e as críticas dos personagens. “A ideia era tratar o rodapé de forma diferente de sua função habitual”, explica Cafiero.

O mistério se intensifica em A última aventura do herói. O que se assemelha a um script de reality show acaba com diversas tarjas pretas recobrindo o que parecem ser partes essenciais do texto, mas permanecem incógnitas ao leitor.

As situações são corriqueiras, como um passeio pela cidade ou um dia no trabalho. Mas se engana quem imagina conflitos fáceis de serem resolvidos. A decisão de não passar mais creme hidratante na pele, no conto Orcas, evolui para uma situação de desespero do personagem, que fica imaginando todo o caos que pequenas decisões suas podem provocar.

A seguir, Flavio Cafiero conta como se tornou escritor e como foi a criação de Dez centímetros acima do chão.

***

Como foi seu início na literatura?
Escrever, como em muitos casos conhecidos, foi sonho de infância, adiado por muitos anos em prol de uma carreira que me sustentasse. Tornei-me publicitário, executivo de uma multinacional de varejo. E o sonho de ser escritor acabou voltando depois de um tempo congelado. Acho que todo sonho de infância retorna, um dia, para assombrar a gente. Tive um momento de crise profissional na empresa em que trabalhei por quase 14 anos e a ideia de tentar a carreira nas artes veio à tona. Aproveitei a deixa. Era naquele momento ou nunca, tinha 35 anos. Essa transição serviu de inspiração para meu primeiro romance, O frio aqui fora. Arrisquei, estudei, fiz cursos de escrita criativa e dramaturgia, e agora começo a colher os primeiros frutos, com dois livros pela Cosac Naify (O frio aqui fora e Dez centímetros acima do chão), um e-book pela e-Galáxia (O capricórnio se aproxima) e uma peça de teatro (Antes de mais nada, com direção de Zé Henrique de Paula).

O escritor Flavio Cafiero

O escritor Flavio Cafiero

Como foi o processo de elaboração de Dez centímetros acima do chão?
O livro é uma compilação de contos escritos ao longo de cinco ou seis anos. Alguns são versões retrabalhadas de contos que escrevi logo no primeiro ano depois de me demitir da empresa. Outros foram escritos numa segunda etapa, ao longo do curso de escrita criativa que fiz com Noemi Jaffe. Uma terceira parte é mais recente, já de um período pós-publicação.

Os contos sofreram alguma mudança desde o início desse processo?
Retrabalhei muito. Reescrevi. Acredito nesse trabalho de reescrita, de tentativa e erro, de buscar novas formas de dizer o que já disse. É fundamental pra mim. Só fico satisfeito quando chego num ponto que não sei bem qual é, mas parece com um estado de imperfeição, de incômodo, de susto. Quando consigo me assustar com meu próprio texto, começa a ficar bom. Mas é trabalho, é suor. Alguns contos também foram cortados, saíram na etapa final, porque penso que uma coleção precisa de certa unidade, precisa ficar de pé, ter solidez de obra.

Que ambientes serviram de inspiração para os contos?
O Rio de Janeiro é muito presente. Moro há 19 anos em São Paulo, mas o Rio sempre me pega pelo pescoço. A inspiração sempre vem de lugares recônditos, não vem do ar, não é espiritual. É a escrita que puxa, e puxa de lugares escondidos. E o que tem nos lugares escondidos? Geralmente, a infância.

Em contos como O atirador de facas, as notas de rodapé constituem em si uma narrativa. Comente a inserção dessa e de outras provocações.
A ideia era tratar o rodapé de forma diferente de sua função habitual. Geralmente os rodapés acrescentam informações que, de certa forma, são dispensáveis para a compreensão do texto. Quis que fosse o contrário, que o rodapé modificasse totalmente o sentido da história, acrescentando camadas até mesmo discordantes. Em O Atirador de facas, o rodapé resgata o passado e ilumina o presente, modificando o olhar do leitor sobre os personagens. Em Cavo varo, o rodapé é uma voz dissonante, uma espécie de camada esquizofrênica. Em Arabescos é um clássico subtexto teatral, brincando com a ideia de tradução. Em A última aventura do herói, o rodapé vem mimetizado de rodapé tradicional, mas complica, lança uma história maior dentro de uma realidade menor, e põe em dúvida o corpo do texto. São experiências, brincadeiras. Mas os rodapés são partes inseparáveis dos contos. Lê-los com displicência, como fazemos geralmente com as notas, é exatamente a armadilha. Quem cai na armadilha, perde o conto.

Fale sobre as ironias em As últimas aventuras do herói.
Ah, esse conto é doido. Joguei ali um repertório de leituras afetivas, de Campbell, de Jung, de Sartre e Camus, de Borges e Cortázar. Ficou uma salada contemporânea, confusa e fragmentada, e era essa a intenção. A ideia era tratar um esboço de roteiro de um reality show como se fosse um artefato arqueológico encontrado daqui a séculos. A partir daí, me debruço sobre o que penso que é viver nesse início de século 21. É complicada, essa vida sem amarras, sem alicerces. É bom, mas é angustiante. É disso que tento falar no conto.

Qual é a imagem do herói hoje?
Na minha visão, a imagem do herói perdeu o sentido no mundo atual. Estamos na era da celebridade, do instantâneo. Todos somos heróis, ou nos enxergamos assim, e, desta forma, ninguém o é. O herói acabou, é ruim, sua morte nos dissocia de uma tradição milenar que é muito valiosa, nos divorcia da ideia de tempo, maturação, descoberta, transformação, processo. É uma longa conversa, uma conversa triste. 

Você tem observado cotidianos como o de Orcas, em que a rotina pode levar a um estado de desespero?
O tempo todo. O próprio clichê do “tô surtando”, que todo mundo repete todo dia, nasce de uma realidade angustiante, de crise de identidade diária, um estar no mundo sem chaves pré-definidas de compreensão, um avião sem manual, uma orca sem adestrador. É o grito do Munch.

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segunda-feira, 5 de janeiro de 2015 Jornalismo, Literatura | 09:12

Por que o escritor Chico Buarque é superestimado

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Até o penúltimo livro de Chico Buarque, Leite derramado, ficava combinado assim: quando ele tivesse uma obra publicada, o mais tradicional de nossos galardões – o Prêmio Jabuti – tinha destino certo. O resto que chiasse. Até que a coisa ficou explícita demais em 2010.

Naquele ano, segundo colocado na categoria romance, Chico levou para a sua cobertura, no Alto Leblon, no Rio, o grande prêmio da noite – obra e graça de um complicado regulamento, que previa uma confusa segunda etapa, na qual os três primeiros colocados nas principais categorias concorriam ao título do ano de ficção e de não-ficção. E em vez do júri especializado da primeira fase, a escolha dos vencedores cabia aos representantes da Câmara Brasileira do Livro (livreiros, editores, agentes, distribuidores e demais representantes do setor editorial), em geral pouco afeitos ao exercício da crítica literária.

O bafafá irrompeu com a vitória de Leite derramado, nos mesmos moldes que já ocorrera em 2004, com Budapeste (terceiro lugar na categoria romance e em seguida escolhido como livro do ano de ficção). E se a grita de editores vinha de longe mas permanecia nas coxias, em 2010 um peso-pesado do mercado editorial, o editor Sérgio Machado, do Grupo Record, sentiu-se indignado com o que chamou de situação “esdrúxula”. Editor do primeiro colocado na categoria romance daquele ano, o estreante Edney Silvestre e seu E se eu fechar os olhos agora, Machado saiu atirando: para ele, o Prêmio Jabuti seria uma “comédia de erros”, e anunciou que não mais inscreveria os livros da editora a partir dali.

O editor de Chico, Luiz Schwarcz (Companhia das Letras), respondeu em tom severo, muita gente opinou, a crise se instalou e, no fim das contas, a CBL mudou as regras do jogo a partir do ano seguinte. “Antes os escritores eram prestigiados pelos prêmios, agora são os prêmios que precisam dos escritores para ter prestígio”, resumiu na época o editor José Mário Pereira, da Topbooks.

Convém lembrar: aquele foi o terceiro Jabuti de Chico. Ele também já vencera com Benjamim. Em outras palavras, desconsiderando Fazenda modelo, até publicar no fim de 2014 O irmão alemão, o filho de Sérgio Buarque de Hollanda tinha quatro romances e três Jabuti. Um Schumacher das letras.

O ídolo precede o escritor

O episódio vem à memória para sublinhar a dura vida do Chico Buarque escritor. Como afirmou com a sabedoria de sempre o jornalista Paulo Roberto Pires, no blog do Instituto Moreira Salles, é muito fácil gostar de um livro de Chico Buarque; e é muito fácil detestá-lo. A despeito de si mesmo, o ídolo precede o escritor, no que resulta uma conclusão natural: num ambiente de culto à celebridade, do qual Chico não consegue mais escapar, o escritor termina por ser excessivamente superestimado e celebrado.

Assim sugeriu Paulo Roberto Pires: para os fãs, tudo o que vem dele é genial, mesmo que muita gente boa tenha que suar a camisa para enfrentar sua prosa intrincada fingindo que é o refrão de “Vai passar”. Para os detratores, parece continuar valendo a sentença de um crítico, que em 1991 recebeu Estorvo lembrando que “literatura” era coisa de “escritor” e não de “cantor” (!). Ao genial responsável por nossas grandes paixões e dores de cotovelo que pareciam eternas não seria concedido o direito de ingressar no complexo mundo da literatura – e vender mais do que qualquer outro escritor brasileiro vivo, então, isto já seria uma heresia.

Chico Buarque é um bom escritor. Em seus momentos mais maduros, exibiu obras razoáveis. Concebeu romances de estrutura inteligente. Conseguiu momentos incrivelmente divertidos. Produziu trechos notáveis do ponto de vista literário.

O culto excessivo e ostensivo à imagem de Chico Buarque torna-se inevitavelmente o maior algoz do escritor. Ele pode ser um bom escritor, a leitura agrada em alguns momentos, mas quase sempre, mesmo nos melhores momentos, o todo é muito menor do que a soma das partes – razão pela qual ainda lhe falta “a” grande obra literária.

A irregularidade é sua marca. Um momento brilhante, de algum rigor na escrita, sem palavras mal escolhidas ou frases fora de ritmo, é invariavelmente sucedido por um lampejo de fraqueza estilística ou por armadilhas da própria trama que criou.

As armadilhas do irmão alemão

O Irmão Alemão Chico Buarque Companhia das Letras 240 páginas R$ 39,90

O irmão alemão
Chico Buarque
Companhia das Letras
240 páginas
R$ 39,90

Assim ocorre no seu mais recente livro, O irmão alemão, no qual Chico transforma em literatura a descoberta, ainda jovem, de que seu pai, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, tivera um filho na Alemanha em 1930. Embaralha invenção e biografia, realizando o que virou moda chamar-se de “autoficção”.

Dos muitos elogios exagerados que recebeu, prefiro a crítica sensata do professor Alcir Pécora, em artigo publicado na Folha de S.Paulo: “A novela poderia guardar o encanto secreto das narrativas de busca (…) não caísse em armadilhas fatais, que a tornam basicamente insossa”.

Convém destacar aqui duas duas dessas armadilhas.

A primeira: a incapacidade de ajustar o tom picaresco da narração, associado à rivalidade sexual dos irmãos,  ao pitoresco italiano da mãe e ao caricato alheamento intelectual do pai, com o tema dos desaparecimentos.

A segunda: a forma de construir o passado com um “realismo postiço” (expressão de Pécora), composto de marcas de carros, nomes de ruas, bares de moda, artistas e restaurantes de uma São Paulo de 1968. Um excesso de detalhamento didático que não passa de uma etiqueta de um burocrático retrô, não uma imagem convincente da cidade da época.

Nas últimas páginas de seu livro, Chico enumera informações sobre a vida de Sergio Gunther, o irmão alemão que sobreviveu à guerra e se tornou cantor e compositor. E faz uma nota sobre como foram as investigações na Alemanha. Troca a literatura pelo relatório puro e simples, o que deixa o leitor menos fã intrigado: não teria colhido melhor resultado se fosse o Chico, e não o personagem-narrador Ciccio – a narrar essa história maravilhosa?

Com mais biografia e menos ficção que lhe trazem armadilhas, repletas de repetições e gracinhas tolas, a narrativa de O irmão alemão sairia tão menor que a história que o inspirou?

A generosidade excessiva da mídia

Embora seja um bom escritor, certamente não seria agraciado com tantas linhas, tanto espaço e tanta generosidade não fosse ele quem é. E nisto não reside uma constatação melancólica, ácida ou desesperada, e sim uma obviedade de quem enxerga o mundo com as devidas variáveis comercial, mercadológica e mesmo psicanalítica.

Chico vende. Chico é amigo da imprensa. Chico é gênio. Chico tem boas relações. Chico é ídolo. A mídia precisa de ídolos.

Com essa soma de atributos e com a magnífica contribuição do marketing preciso e profissional da Companhia das Letras, Chico não precisa dar entrevistas para que jornais e revistas dediquem-lhe generosos espaços. A cada lançamento seu, jornalistas se esforçam pela maior amplitude possível que não se vê em muitas obras – um jornal chega a tratar como regra convidar três ou quatro resenhistas; outro não dispensa  a ideia de percorrer os locais em que suas tramas se passam.

Este foi um dos desserviços prestados pela imprensa a O irmão alemão. Foram tantos os textos sobre as árvores genealógicas dos Buarque de Hollanda, sobre as referencias a W. G. Sebald, sobre as motivações da obra, que o livro passou a ser compreendido demais, codificado demais – associações extraliterárias das quais escaparam suas obras anteriores.

Mas não se engane: Chico demonstra uma atitude blasé diante da imprensa, finge não gostar até, mas costumar ficar atentíssimo a tudo o que sai sobre ele, sobretudo na mídia tradicional. Se algo lhe desagrada, aciona seus amigos nas escalas mais altas das redações ou, se for o caso, recorre a um competentíssimo assessor de imprensa, com quem trabalha há muitos anos. Quando deseja dizer algo, escolhe a dedo os jornalistas que lhe servirão de interlocutores, em geral amigos de confiança.

Mais recluso, mais celebridade

Eis o que talvez seja um paradoxo de nosso tempo. Tanto na obra do compositor e cantor de 1987 em diante – quando mergulhou numa musicalidade mais intimista – quanto na obra literária, seus trabalhos se tornaram menos empolgados, menos comunicativos. Nesse tempo, Chico quis ser cada vez menos celebridade, mas nunca parou de crescer como celebridade. (Além do culto em torno de si, não deixa de ser uma atitude de celebridade destes tempos um autor ou um cantor resolver não conceder entrevistas à época de lançar sua obra.)

Foi justamente o período em que Chico Buarque se tornou cada vez mais escritor. A literatura, em especial, pareceu tornar-se o veio mais adequado para essa fase em que se fechou mais para si ou para uma atitude de resistência contra a dureza da realidade, em favor da proteção de um universo paralelo irreal, feito de sonhos e pesadelos. Não à toa, o imaginário literário flutua em sonhos confusos, como mostram os  narradores de Estorvo, Benjamin e Budapeste.

Se prevalecer a sina de sua trajetória literária, outros prêmios virão. Ainda que uma grande história tenha chegado ao fim diluída numa prosa quase jornalística, O irmão alemão tem como autor um bom escritor que, por se chamar Chico Buarque, larga com enorme vantagem contra qualquer romancista de sua geração.

 

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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014 Economia, Filosofia, História, Jornalismo, Literatura, Poesia, Política, Tecnologia | 14:03

Os melhores livros de 2014 (numa lista sem Chico Buarque)

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Todo ano o ciclo se repete. Com a mesma regularidade das fatalidades habituais de verão, somos induzidos nesta época a eleger aqueles que deverão ser conduzidos ao panteão dos melhores do ano – no cinema, na literatura, nas artes em geral, nos fatos e ideias que marcaram os 12 intensos e exaustivos meses precedentes. É como o surgimento de goteiras nos prédios de Oscar Niemeyer: a única dúvida é saber exatamente onde e como aparecerão. Mas elas surgirão, é fato.

A coluna sucumbe aos clichês e elege também os seus. Como os mais conhecidos prêmios literários do Brasil, Pensata cria categorias convenientes para caber suas obras de preferência e adequar seus gostos. Como qualquer lista do gênero, a única coisa que lhe falta é isenção. Os leitores estão convocados, portanto, a se pronunciar, criticar, acrescentar, apontar ausentes e argumentar em defesa dos injustiçados e esquecidos.

Nelson Rodrigues dizia que a nossa reputação é a soma dos palavrões que inspiramos nas esquinas, salas e botecos. Se fosse vivo, provavelmente completaria sua tese: e nos comentários dos internautas nos blogs, sites e portais. O silêncio, neste caso, poderá significar a concordância coletiva – o pior defeito de qualquer lista dos “melhores do ano”.

 

1. LIVRO DO ANO – FICÇÃO
Graça Infinita, de David Foster Wallace  (Companhia das Letras)

Graça infinita David Foster Wallace Companhia das Letras 1144 páginas R$ 111,90

Graça infinita
David Foster Wallace
Companhia das Letras
1144 páginas
R$ 111,90

Graça infinita é o livro do ano em qualquer categoria. Uma obra de superlativas: são quase mil páginas, 130 das quais composto por notas explicativas (ou disruptivas), uma trama vertiginosa, radical, bem humorada e sarcástica, uma edição caprichada e estranha que sequer traz o título na capa, num belo trabalho da Companhia das Letras: somente uma caveira com olhos de rolo de filme na capa, enquanto nas laterais abóbora das páginas, gravados em branco, aparecem os nomes da obra e do autor. Um visual enigmático como o autor e seu mais ambicioso romance.

David Foster Wallace lançou Infinite Jest em 1996, 12 anos antes de se suicidar, aos 46. Ganha tradução no Brasil, portanto, apenas duas décadas depois, num trabalho excepcional de Caetano W. Galindo, tradutor também de James Joyce. Nesse período, o livro tornou-se um marco das obras cultuadas pelo mundo pop (ou não. Apesar do tamanho e da complexidade, ganhou admiradores por todos os lados.

A narrativa gira em torno de um filme, com o mesmo título original, que promova um comportamento compulsivo a qualquer um que o assista. A ambiguidade de “jest” no título em inglês – piada ou divertimento – indica o alvo: assistir a esse filme dá tanto prazer que os espectadores não podem parar de vê-lo, e todas as demais atividades da vida deixam de fazer sentido, o que acaba levando-os à morte. (Há quem considerasse mais preciso ao título em português Piada Infinita, e não “graça”, dada a natureza “divina” do outro significado desta palavra no português, mas essa é uma controvérsia que não macula o excepcional trabalho do tradutor.)

Essa é a síntese do hedonismo contemporâneo: o hedonismo da mera sensação, cujos personagens fissurados levam a vida humana ao extremo da miserabilidade ética; uma vida de vícios, excessos e comportamentos aditivos, incluindo drogas, sexo e trabalho, tudo no superlativo; uma acumulação infinita de vertigens destrutivas; uma era de saturação e consumo desmedido; um tempo em que o tudo se equivale ao nada. Um prazer desconectado dos outros e do mundo. Um prazer sem prazer.

David Foster Wallace explora esse abismo em grandiosidade narrativa e transforma isso em literatura de alto nível. A melhor do ano.

 

2. LIVRO DO ANO – NÃO-FICÇÃO
O capital no século XXI, de Thomas Piketty (Intrínseca)

O capital no século XXI Thomas Piketty Intrínseca 672 páginas R$ 59,90

O capital no século XXI
Thomas Piketty
Intrínseca
672 páginas
R$ 59,90

Thomas Piketty atiçou o debate econômico do ano e possivelmente da década. Dificilmente se verá no curto prazo a súbita ascensão de um texto de 800 páginas à condição de best-seller com tamanho destaque nos círculos acadêmicos e não-acadêmicos como este francês recebeu este ano com seu O Capital no século XXI, publicado no Brasil pela Intrínseca. Seu estudo sobre a concentração de riqueza e a evolução da desigualdade ganhou manchetes, gerou debates nas redes sociais, colheu comentários, críticas e elogios de diversos ganhadores do Prêmio Nobel. Não ganhou unanimidade. Mas não fez pouco.

Resultado de 15 anos de pesquisas, o livro mostra com elegância e clareza que o mundo entrou numa espiral de concentração de renda. As pessoas e os países ficarão mais ricos. Para as nações emergentes, inclusive o Brasil, suspeita-se que crescerão a taxas menores. Segundo O Capital, o mundo caminha rumo a um capitalismo de maior acumulação de renda, numa trajetória explosiva de desigualdade fora de controle.

Piketty ainda desmonta um dos mitos mais amados pelos conservadores contemporâneos: a tese de que o mundo desenvolvido vive uma meritocracia, na qual grandes fortunas são conquistadas e merecidas. Segundo ele, a maior parte dos bilionários atuais têm fortuna herdada. Como lembrou em recente entrevista ao repórter Vitor Sorano,  do iG, chegar ao topo apenas com o trabalho está ficando cada vez mais difícil. E sublinhou o que chamou de ridícula taxação sobre herança. Para ele, os ricos brasileiros pagam imposto muito baixo.

Livro a ser lido como quem lê um polemista à la Marx (sem ser marxista) e um literato que cita Balzac e Jane Austen.

O que Pensata escreveu:
Por que os bilionários são odiados 

Para ler mais no iG:
Ricos brasileiros pagam imposto bastante baixo e taxação sobre herança é ridícula, afirma Piketty

 

3. BIOGRAFIA
Getúlio, de Lira Neto (Companhia das Letras)

Getúlio 3 (1945-1954) Lira Neto Companhia das Letras 464 páginas R$ 49,50

Getúlio 3 (1945-1954)
Lira Neto
Companhia das Letras
464 páginas
R$ 49,50

O primeiro volume saiu em maio de 2012, o segundo no ano seguinte, e a trilogia chegou ao fim em 2014, encerrando um trabalho de cinco anos de pesquisas do jornalista e escritor Lira Neto. Foi o menos relevante da série, mas Pensata o inclui na lista pela obra completa. Das cartas pessoais e diários íntimos, que compuseram o retrato minucioso dos anos de formação e da conquista do poder no primeiro volume, até a narrativa bem montada no terceiro volume, descrevendo os tempos conturbados que levaram Getúlio ao suicídio, Lira Neto realizou um trabalho primoroso, com o apoio do marketing profissionalíssimo da Companhia das Letras. Com a conveniência da efeméride completada em agosto de 2014: os 60 anos da morte do mais importante político brasileiro de todos os tempos.

Autor de outras biografias relevantes, como a de Maysa, Castello Branco, Padre Cícero e José de Alencar, Lira Neto conseguiu ainda outro feito: o que a turma do marketing costuma chamar de “mídia espontânea” – um sem-número de gente importante citando sua série ou sendo vista carregando um de seus volumes. Da presidente Dilma Rousseff ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Só ficaram amuados mesmo os mal-humorados, os invejosos e os ranhetas que esperam uma novidade a cada página nas biografias. Nas quase 2 mil páginas que publicou nos três volumes, Lira Neto traz muitas novidades, algo notável para um personagem exaustivamente radiografado como Getúlio Vargas. E adicionou a elas uma incrível capacidade de contar histórias.

Leia mais no iG:
Os vários getúlios de Lira Neto

Lira Neto: “Quem diz que todo político é ladrão propõe sem saber a ditadura” 

 

4. NÃO-BIOGRAFIA
O réu e o rei, de Paulo Cesar de Araújo (Companhia das Letras)

O réu e o rei Paulo Cesar de Araújo Companhia das Letras 528 páginas R$ 34,50

O réu e o rei
Paulo Cesar de Araújo
Companhia das Letras
528 páginas
R$ 34,50

Foi um gesto audacioso e genial, tanto do autor quanto de sua editora. Depois de ter a biografia Roberto Carlos em detalhes (Planeta) barrada na Justiça por ação de quem chamamos de Rei, obra retirada das livrarias em 2007, e passar alguns anos em batalha judicial pela publicação, eis que o jornalista Paulo César Araújo publica pela Companhia das Letras um livro em que conta os bastidores do processo. Lançado sem alarde, O réu e o rei é um relato objetivo, minucioso e corajoso da saga que levou à discricionária e imoral proibição da biografia de Roberto Carlos.

No livro, narra como virou fã do Rei, quando, aos 11 anos de idade, vestiu sua roupa domingueira e foi ao estádio em Vitória da Conquista, na Bahia, onde Roberto Carlos faria o primeiro show na cidade. Garoto pobre, Paulo Cesar de Araújo não tinha os 10 cruzeiros do ingresso. Ficou rondando o lugar, na esperança de conseguir uma brecha e entrar. Pouco antes do show, um simpático porteiro deixou os moleques negros e sem camisa que andavam por ali. Araújo, porém, foi barrado. Era branco e bem vestido. Tinha cara de quem poderia pagar.

O autor esmiúça os autos dos processos montados contra ele, e trata de tentar demonstrar imprecisões e distorções. E, no mais dramático capítulo do livro, reconstitui a tarde que passou frente a frente com Roberto Carlos, em um fórum de São Paulo. Abandonado por seus editores da Planeta e pressionado por seus advogados, aceitou assinar um acordo que bania Roberto Carlos em detalhes das livrarias.

Para a sorte de todos, sobretudo dos leitores, o Rei e seus advogados não resolveram barrar na Justiça mais este.

 

5. POLÍTICA
As ideias conservadoras, de João Pereira Coutinho  (Três Estrelas)

As ideias conservadoras João Pereira Coutinho Três Estrelas 200 páginas R$ 25,00

As ideias conservadoras
João Pereira Coutinho
Três Estrelas
200 páginas
R$ 25,00

Num país habituado a ter nos representantes da direita exemplos de desonestidade intelectual (Marco Antonio Villa), truculência (Reinaldo Azevedo), baixo índice de humanismo (Rodrigo Constantino), humor para não ser levado tão a sério (Luiz Felipe Pondé) e radicalismo típico de quem já foi um esquerdista radical (Demétrio Magnoli), nada como um bom livro de um conservador elegante, intelectualmente honesto, humanista e amigável cientista político.

As ideias conservadoras, de João Pereira Coutinho, apresenta-se com o subtítulo “Explicadas a revolucionários e reacionários” e, como tal, dirige-se aos profetas do pensamento de esquerda. Seguidor de Edmund Burke – onipresente nas breves 120 páginas do livro – o Coutinho mostra, com acerto, os equívocos do reacionarismo de esquerda e dos ditos revolucionários; descreve, sem afetação, o valor dos conservadorismos e sua doutrina em favor da preservação do que a sociedade criou de melhor para garantir a paz, a liberdade dos cidadãos e o vigor das instituições.

É um sopro a seus colegas em versão brasileira (Coutinho é português) e contra radicalismos crescentes à direita e à esquerda. Convém lembrar-lhes (inclusive a Coutinho): há conservadores e radicais de lado a lado; autoritários, idem. Este livro, porém, reforça a ideia, pregada pela revista Insight-Inteligência no verão de 2011, quando entrevistei o cientista político Luiz Felipe d’Ávila – um dos poucos cientistas políticos brasileiros de alma conservadora (na linguagem política brasileira: liberal, ou de direita) bem oxigenada. Ali, a revista defendia em editorial uma direita necessária ao Brasil – não oligárquica, não corrupta, não covarde, não mentirosa, não golpista.

Afinal, antagonismos de qualquer espécie se saudáveis, ajudam a mover a história. O vigor da democracia, dizia o mesmo editorial, é sua capacidade de racionalizar e controlar, em molduras legais, a violência da disputa entre ideias, homens e partidos. Sem antagonismos, é democracia pela metade, se muito.

João Pereira Coutinho (como Luiz Felipe d’Ávila) mostra o quão interessantes são os antagonismos de ideias.

 

6. TECNOLOGIA
Os inovadores, de Walter Isaacson (Companhia das Letras)

Os inovadores Walter Isaacson Companhia das Letras 568 páginas R$ 57,00

Os inovadores
Walter Isaacson
Companhia das Letras
568 páginas
R$ 57,00

Este é um livro sobre nerds. Mas dirigido não só a nerds. É a graça da maestria de Walter Isaacson, o biógrafo de Steve Jobs, e sua capacidade de contar histórias de personagens que ajudaram a moldar a revolução digital. Os inovadores – Uma biografia da revolução digital vai além dos nerds porque, no fundo, explica nossa relação com computadores e nos faz entender como a tecnologia chegou até aqui em softwares e internet.

Fruto de 15 anos de pesquisas – interrompidas para produzir a biografia do pai da Apple – o livro trata de figuras como John Von Neumann, que trabalhou com Einstein no desenvolvimento da bomba atômica, foi coautor da teoria dos jogos e do primeiro computador digital, nos anos 40.

Ou Ada Lovelace, uma das mulheres excluídas da história da computação: uma quase desconhecida que viveu de 1815 a 1852, matemática e escritora inglesa, ela escreveu o primeiro algoritmo de computador, propôs a ideia de que as humanidades e a tecnologia devem conviver e idealizou o conceito de inteligência artificial. Para Isaacson, Ada Lovelace definiu a era digital.

A grande sacada do autor é defender a ideia, com argumentos irrefutáveis, de que não houve um gênio na história da revolução digital que tenha trabalhado sem ajuda de muitos outros – ainda que reforce o papel dos gênios ao perfilar personalidades emblemáticas, como o próprio Jobs (Apple), Bill Gates (Microsoft), Sergey Brin e Larry Page (Google). Mas estes, lembra o autor, potencializaram a capacidade disruptiva em suas equipes, permitindo atingir novo patamar de inovação.

Outro grande mérito seu é construir uma narrativa que reforça a tese de que a inovação nas ciências exatas ocorre intimamente vinculada às humanidades.

 

7. FILOSOFIA
O silêncio e a prosa do mundo, organizado por Adauto Novaes (edições Sesc)

O silêncio e a prosa do mundo Adauto Novaes (organizador) Edições Sesc 515 páginas R$ 55

O silêncio e a prosa do mundo
Adauto Novaes (organizador)
Edições Sesc
515 páginas
R$ 55

Há quem olhe de lado, torça o nariz e sorria de maneira sarcástica ou desconfiada diante de temas filosóficos como este. Mas os desconsidere e aposte na leitura de O silêncio e a prosa do mundo, organizado por Adauto Novaes, o jornalista e professor que desde 2000 realiza magistrais ciclos de conferências que sempre resultam em livros igualmente interessante.

Quando organizou a edição do programa Mutações no ano passado – que originou o livro – Novaes tinha em mente a ideia de que nunca se falou tanto e se pensou tão pouco. Uma pesquisa feita pelo Centro da Indústria de Informação Global, da Universidade da Califórnia, foram trocadas 10,8 trilhões de palavras nos Estados Unidos em 2008, notáveis 140% a mais em relação aos 4,5 trilhões de palavras usadas em 1980. Um tsunami verborrágico radiografado graças a dados armazenados em texto de jornais, revistas, páginas de internet, áudios de filmes em cartaz, programas de TV e rádio e letras de músicas lançadas naquele ano.

Novaes e seus convidados – ensaístas, filósofos, jornalistas, cientistas sociais, poetas – se perguntam: o que tanto se fala? Qual a importância do silêncio para a criação da obra de arte e da obra de pensamento? Como separar o falatório insignificante daquele necessário e fundamental para não nos desumanizarmos?

Na impossibilidade de resgatar com precisão 24 ensaios em mais de 500 páginas, recomendam-se alguns nomes, com as devidas injustiças: Oswaldo Giacoia Junior (“Por horas mais silenciosas”), Pedro Duarte (“O silêncio que resta”), Eugênio Bucci (“O rumor da mídia”), Marcelo Jasmin (“Silêncios da história: experiência, acontecimento, narração”), Frédéric Gros (“Fazer calar e fazer falar o sexo”), Pascal Dibie (“O silêncio dos amantes e, mais particularmente, das mulheres…”), Antonio Cicero (“A poesia entre o silêncio e a prosa do mundo”), Guilherme Wisnik (“O silêncio e a sombra”), Francisco Bosco (“A descoberta da linguagem”) e Luiz Alberto Oliveira (“O silêncio de antes”).

 

8. LIVRO-REPORTAGEM
Sem lugar para se esconder, de Glenn Greenwald (Primeira Pessoa)

Sem lugar para se esconder Glenn Greenwald Primeira Pessoa 288 páginas R$ 39,90

Sem lugar para se esconder
Glenn Greenwald
Primeira Pessoa
288 páginas
R$ 39,90

Em meados de 2013, o jornal britânico The Guardian (sempre ele) publicou uma série de reportagens que desvendavam a vigilância ilimitada praticada pela NSA, a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos. Assinadas por Glenn Greenwald, as matérias mostravam que a inteligência norte-americana espionava em larga escala não apenas as comunicações domésticas, mas também as de outros países – inclusive os aliados. Edward Snowden, de 29 anos, um funcionário terceirizado da NSA, foi a fonte de Greenwald, e suas revelações abriram caminho para um enorme debate sobre direito à privacidade e o alcance da vigilância governamental.

Sem lugar para se esconder – Edward Snowden, a NSA e a espionagem do governo americano, lançado no Brasil pela Primeira Pessoa (selo da editora Sextante), tem pouca novidade para quem acompanhou de perto o caso pela imprensa. Mas esmiúça todas as peças da história. Com o mérito de organizar a narrativa em seu conjunto, detalhada e envolvente. Não à toa a Sony Pictures comprou os direitos para produzi-lo em filme.

O livro começa com um relato detalhado dos contatos de Greenwald e da documentarista Laura Poitras com Snowden, técnico que queria divulgar os documentos que coletara na NSA. O relato ocupa um terço do livro e destaca os esforços dos três para não serem flagrados. Há detalhamento de como Thomas Shannon, secretario de Estado assistente e depois embaixador no Brasil, agradece à NSA por relatórios de “inteligência de sinais” sobre “s outros participantes” da 5a Cúpula das Américas, documentos quanto ao “alvo” Petrobras, além do ataque de Greenwald à mídia, especialmente ao New York Times.

Uma curiosa nota de rodapé, não presente no livro: Greenwald deixou o Guardian para trabalhar para Pierre Omidyar, bilionário do eBay/PayPal, que participou do estrangulamento financeiro do WikiLeaks a pedido do governo americano. Mas qualquer trabalho seu é para ser lido com o respeito de quem lê um dos mais brilhantes jornalistas de seu tempo.

 

9. CRÔNICA

O livro das mulheres extraordinárias, de Xico Sá (Três estrelas)

O livro das mulheres extraordinárias Xico Sá Três Estrelas 264 páginas R$ 39,90

O livro das mulheres extraordinárias
Xico Sá
Três Estrelas
264 páginas
R$ 39,90

O jornalista e escritor Xico Sá deveria ser uma leitura de cabeceira dos homens que anseiam por uma mísera sensibilidade e sabedoria na arte de seduzir uma mulher. O livro das mulheres extraordinárias é uma ode a cada mulher que ele admira e aos desejos que elas despertam nele – e provavelmente na maioria dos homens. De obviedades como Luiza Brunet (“tesão nada nostálgico”) a delicadezas como Claudia Abreu (“O sorriso mais sexy de todos os tempos da TV”) e surpresas como Lea T. (“O belo e o cirúrgico drible nos gêneros”).

Qual o critério de Xico para a escolha das mulheres extraordinárias? “Foi o critério da comoção, do alumbramento – aquele impacto fundamental no primeiro olhar – e do tesão que deveras sinto. E, sobretudo, o critério da desordem. É que a gente nunca sabe, em momentos deliciosamente cruéis como o desta seleção, o lugar certo de colocar o desejo, como aprendi na música de Caetano Veloso que faz parte da trilha do filme A dama do lotação”.

É um livro, portanto, baseado em desejos reais, como ele próprio confessa. Um livro não de cabeceira, mas “da cabeça viajante de um homem que deseja, que ama de modo hiperbólico que se deve amar as fêmeas”. Como não sermos hiperbólicos diante de Maitê Proença – “a verdade acerca do amor” – que para além da beleza televisiva e cinematográfica ainda encanta na escrita? (Miguel Sousa Tavares escreveu sobre um de seus livros: “Aprendi neste livro de crônicas da Maitê Proença que as mulheres também choram, não são só os homens”). Ou diante de Mariana Ximenes – “todo canalha é um masoquista diante dela”, escreve Xico.

Como ele, acho que não são as mulheres que são complicadas – nós, homens, é que somos preguiçosos, uma mistura de Macunaíma com roqueiro emo. O homem, lembra Xico, não está perdido; ele tem uma preguiça eterna.

 

10. HISTÓRIA

O horror da guerra, de Niall Ferguson (Planeta)

O horror da Guerra Niall Ferguson Planeta R$ 89,90 768 páginas

O horror da Guerra
Niall Ferguson
Planeta
R$ 89,90
768 páginas

Esqueça a moda dos livros de história repletos de detalhes curiosos e picantes para tornar a leitura “interessante”. O escocês Niall Ferguson é um historiador da moda, mas sem os maneirismos que proliferam por aqui. Em O horror da guerra Ferguson (com marcada antipatia pela posição britânica) classifica a Primeira Guerra Mundial como o maior erro da história moderna e analisa os motivos que deflagraram o conflito.

Com o mérito de escapar do maniqueísmo anti-Alemanha, o historiador se pergunta: por que se lutava? A população apoiava o conflito? Que país era o mais militarista? Até que ponto o sacrifício europeu valeu a pena? Foi a primeira guerra total, e a mais sangrenta – um conflito que matou cerca de 8 milhões de homens e destruiu as finanças da Europa.

 

11. E-BOOK
Série Ilusões Armadas, de Elio Gaspari (Intrínseca)

Séries “As ilusões Armadas” e “O Sacerdote e o Feiticeiro” Elio Gaspari Intrínseca R$ 39,90 (edição impressa) e R$ 14,90 (e-book), cada livro

Séries “As ilusões Armadas” e “O Sacerdote e o Feiticeiro”
Elio Gaspari
Intrínseca
R$ 39,90 (edição impressa) e R$ 14,90 (e-book), cada livro

Elio Gaspari é uma espécie de Pelé do jornalismo brasileiro. Mesmo aqueles que não gostam de sua personalidade de Kid Megalô (“O sistema é eliocêntrico, e não fui eu quem disse, foi Copérnico”, costuma dizer) reconhecem nele o brilhante jornalista que é. Dono de uma memória privilegiada, uma insana capacidade de trabalho e, claro, seu eliocentrismo deram-lhe os atributos suficientes para compor uma obra monumental sobre a ditadura militar, que em 2014 teve um ano pródigo de reflexões por marca os 50 anos do seu início.

Pois  os quatro livros que começou a publicar em 2002 ganharam em 2014 a reedição do ano e, mais do que isso, o melhor trabalho em e-book: não só em novos volumes, desta vez publicados pela Intrínseca, como também em caprichadas versões eletrônicas. Tais versões trazem amostra preciosa do material que Gaspari pesquisou para produzir a série, retirados do arquivo acumulado por dois observadores privilegiados dos acontecimentos do período, o general Golbery do Couto e Silva e Heitor Aquino Ferreira, que foi secretario particular do presidente Ernesto Geisel e de Golbery.

A versão eletrônica dos livros traz cerca de 200 documentos que, se fossem impressos, dariam um volume com 670 páginas. Para cada documento há uma cópia do original com transcrição completa e os trechos mais relevantes destacados. Para leitores que têm iPad ou Kindle Fire, o pacote oferece também filmes de época e gravações, incluindo 17 trechos de entrevistas que Gaspari fez com Geisel nos anos 1990.

O autor fez ainda várias revisões no texto dos livros – A ditadura envergonhada, A ditadura escancarada (que compõem a série “As ilusões armadas”), A ditadura derrotada e A ditadura encurralada (série “O Sacerdote e o Feiticeiro”). Incorporou informações que obras mais recentes sobre o período trouxeram e acrescentou novas descobertas.

Por tudo isso, e por ser uma obra de Elio Gaspari, é obra para ler, reler e guardar.

O que Pensata escreveu:
De um torturador para uma jovem: “Você vai sofrer como Jesus Cristo” 

 

12. COLEÇÃO
Clássicos Zahar (Zahar)

A coluna faz aqui um reparo a uma injustiça cometida ao longo do ano: não ter falado na espetacular coleção de clássicos da Zahar – de longe a melhor coleção lançada por uma editora brasileira em 2014. São edições caprichadas em todos os sentidos: belas capas, miolo equilibrado e elegante, texto integral, notas históricas e literárias, cronologia de vida e obra do autor, posfácio com as grandes linhas da crítica sobre o livro e, em grande parte, um rico trabalho de ilustrações de época para os clássicos.

Não vi todos os volumes, mas a amostra constada pela Pensata é uma constatação da fidelidade do projeto: o campeão de venda Alice no País das Maravilhas (Lewis Carroll) Os Maias (Eça de Queirós), A besta humana (Émile Zola), Robin Hood (Alexandre Dumas), Os três mosqueteiros (Dumas), 20 mil léguas submarinas (Jules Verne), O corcunda de Notre Dame (Victor Hugo), A Terra da Bruma (Arthur Conan Doyle) e Persuasão (Jane Austen) são evidências de um rico padrão de qualidade do projeto. Edições de bolso, igualmente de luxo, completam a coleção.

Fez tanto sucesso que a Zahar criou um selo para ela e vai intensificar a produção em 2015. A incluir um autor brasileiro, Raul Pompeia, com O Ateneu, já no início do ano.

 

13. HOMENAGEM DO ANO
Millôr Fernandes

Humorista, escritor, tradutor, desenhista, dramaturgo, jornalista e polemista, Millôr Fernandes foi o homenageado do ano na Flip. O gesto do convescote de Paraty ajudou a recolocar no mercado vários dos livros do genial sujeito: The cow went to the swamp, Tempo e Contratempo, Esta é a verdadeira história do paraíso e Essa cara não me é estranha, todos da Companhia das Letras. Também estimulou o lançamento da antologia organizada por Sérgio Augusto e Loredano, publicada pelo Instituto Moreira Salles: Millôr 100 + 100: desenhos e frases.

Morto em 2012, aos 88 anos, Millôr era um desses raros casos de um sujeito que faz tudo bem. Sua assombrosa criatividade produzia, em palavras e imagens, gargalhadas abertas ou ironias amargas. Mas sempre brilhantes. Em livros ou nos debates na Flip com quem entende de Millôr (graças à curadoria de Paulo Werneck), fez-se jus àquele que se dizia “livre como um táxi”.

O que Pensata escreveu:
15 frases para falar mal da política, segundo Millôr

 

14. POESIA
Geografia aérea, de Manoel Ricardo de Lima (7Letras)

Geografia aérea Manoel Ricardo de Lima 7letras 142 págs. – R$ 35

Geografia aérea
Manoel Ricardo de Lima
7letras
142 páginas    R$ 35

Repita este nome: Manoel Ricardo de Lima. Professor de literatura e poeta da mesma geração de Carlito Azevedo, de quem é amigo e colega de encontros literários, Manoel Ricardo de Lima vem produzindo sistematicamente poesia e ensaio com a reinvenção de quem não se exaure com a própria criação. Geografia aérea, o livro em questão, publicado este ano pela 7Letras, é a síntese de sua poesia, uma espécie de reunião de sua obra poética. De Embrulho e Falas inacabadas, ambos de 2000, a Quando todos os acidentes acontecem, de 2009.

Ao ponto: Geografia aérea é, ao estilo de Manoel Ricardo (e do próprio Carlito Azevedo, o maior nome de sua geração e, portanto, da poesia contemporânea), uma reinvenção dos próprios poemas editados. Ele gosta de criar novos abismos, como gosta de dizer. Reescreve, revisa, reedita os poemas.

“alguém pode decidir outra/ coisa outro nome apenas porque apertou/ muito bem os olhos”,  escreve em “Quase”, um dos belos exemplos de Geografia aérea. É uma poesia em deslocamento, um acidente que pode transformar-se em outra coisa. Desse desvio alimenta-se sua obra – e sua vida também. Manoel Ricardo nasceu em Parnaíba, no Piauí, formou-se em Fortaleza e em Florianópolis e atualmente mora no Rio de Janeiro, onde é professor da UniRio.

Uma mobilidade que, na poesia, formam histórias-enigmas, aparentemente sem solução. Annita Costa Malufe, também poeta e também professora de literatura, escreve que nos poemas de Manoel Ricardo há sempre “uma história em jogo, ou muitas, mesmo que não saibamos quais são”, construindo imagens que estão longe de serem fixas, numa experiência instável e em constante mutação: “nenhuma/ imagem do presente e sempre/ de passagem a areia do lugar/ que você diz que é seu”, escreve ele no poema “as fotografias”.

Manoel Ricardo de Lima põe política em sua poesia, não no sentido panfletário, mas no que ela tem de reflexão sobre o mundo que nos cerca. Ele fala, por exemplo, em “cidades moribundas”, onde “tudo é buraco”, mas também onde “o que resta de amor/ e sobrevive/ salta”. Cidades de abismos sociais com cenários de guerra, mas que encontra na poesia uma forma de imaginário que se vincula a uma prática de vida, política e amorosamente. Como ele escreve, que sobrevive, salta.

 

15. FICÇÃO BRASILEIRA
O professor, de Cristovão Tezza (Record) e Os piores dias de minha vida foram todos, de Evandro Affonso Ferreira (Record)

O professor  Cristovão Tezza Record 240 páginas R$ 32

O professor
Cristovão Tezza
Record
240 páginas
R$ 32

Os piores dias de minha vida foram todos Evandro Affonso Ferreira Record 128 páginas R$ 30

Os piores dias de minha vida foram todos
Evandro Affonso Ferreira
Record
128 páginas
R$ 30

Na ausência de uma monumental e marcante ficção lançada em 2015, a coluna divide-se em dois autores da Record: Cristovão Tezza e Evandro Affonso Ferreira. Um Chico Buarque em excelente estágio literário atinge um bom Tezza.  Mas O professor não é um romance bom: é ótimo. A obra gira em torno de Heliseu, um professor de filologia românica de 70 anos, que está prestes a receber uma homenagem por sua carreira. Repassa sua vida – a medalha que receberá e o discurso que fará nada mais são do que a morte simbólica de sua trajetória setentona.

A percepção súbita da passagem do tempo, do personagem e do Brasil, estão no centro das preocupações do autor do exitoso O filho eterno, lançado em 2007. Como quase todo envelhecimento, Tezza constrói um quadro de amargura e realismo.

Ao lado dele, um lúgubre Evandro Affonso Ferreira e sua personagem: uma mulher que, à beira da morte, presa a uma cama de hospital, imagina-se vagando nua pelas ruas de São Paulo, cruzando com os personagens habituais da cidade. Narrado em um longo monólogo, o percurso íntimo é repleto de outras vozes: memórias e referências literárias, filosóficas e mitológicas, que tornam a leitura de Os piores dias de minha vida foram todos um tanto mais complexa. (O autor já disse uma vez que não se importa com a falta de leitores para seus livros, numa boutade de autodefesa contra o universo reduzido de leitores em contraponto a uma literatura de consumo fácil.)

Mas o exílio forçado da mulher expõe uma rica literatura: “Sei que neste quarto-desemparado”, diz ela, “procuro levar a imaginação até seu limite – jeito de driblar entre aspas desintegração contínua delas minhas entranhas” ou “Jeito é caminhar imaginosa nua pelas ruas desta cidade para fingir que ainda estou viva. Ilusão, sim, mas benéfica e libertadora”. É a personagem que se ergue quando pensa ver coisas, mesmo diante do malogro da vida, entre doença e reclusão.

 

 

 

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sábado, 20 de dezembro de 2014 História, Literatura, Política | 07:00

Coletânea conta a ditadura na voz de 18 autores e organizador se choca com quem prega hoje a volta dos militares

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Perseguição política, violência, medo e o peso de chumbo imposto pelo regime instaurado em 31 de março 1964 são alguns dos temas dos 18 contos que compõem Nos idos de março, antologia publicada recentemente pela Geração Editorial. O livro tem organização do escritor Luiz Ruffato e traz autores que tiveram diferentes relações com a ditadura militar no Brasil. São 18 vozes da literatura que viveram durante e após o golpe e, juntos, fazem uma espécie de desfecho de um ano que marcou o cinquentenário do início da ditadura que duraria longos 21 anos.

Nos idos de março Luiz Ruffato Geração Editorial 288 páginas; R$ 29,90

Nos idos de março
Luiz Ruffato
Geração Editorial
288 páginas; R$ 29,90

Foi um 2014 repleto de lançamentos relevantes (Pensata analisou alguns deles; veja lista ao fim deste post). O tema se somou a um ano de forte calor eleitoral, graças à sucessão presidencial, o que escancarou preconceitos e opiniões polêmicas nas redes sociais.

“Temos hoje algumas pessoas ignorantes ou desavisadas que pregam a volta da ditadura”, opina Ruffato sobre o que se viu nas redes sociais durante o ano. Não só com a pregação pró-ditadura mas também com o nível dos debates e a intolerância às ideias diferentes. Ele diz ver seu livro como uma forma de propor reflexões sobre esse período.

Ruffato é autor de uma série de antologias temáticas, como Sabe com quem está falando? – Contos sobre corrupção e poder e Fora da Ordem e do Progresso. Também publicou dois livros sobre as mulheres que estão fazendo a nova Literatura Brasileira. Escreveu ainda romances como Eles eram muitos cavalos, de 2001, que recebeu prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte e o Prêmio Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional.

Um tema, diferentes visões

Os contos de Nos idos de março foram escritos na época da ditadura militar ou por autores que tiveram suas vidas afetadas de alguma forma pelos acontecimentos. “A ditadura militar foi apreendida de diferentes formas por diferentes gerações”, diz Ruffato. E alguns desses pontos de vista aparecem no livro.

Reunir contos e não depoimentos para abordar o tema foi uma escolha do organizador, que acredita que essas pequenas narrativas espelham a situação de forma mais realista e “acabam dando um quadro mais complexo”.

Os contos trazem personagens como Mara, uma adolescente militante que, como tantos outros jovens, é vítima do regime e acaba sendo morta. Neste conto, de Maria José Silveira, tem-se uma fotografia da juventude da época, com suas roupas e seus costumes. “Eram os anos da ditadura. Os tempos de Garrastazu Médici”, situa o narrador. O apartamento de Mara funciona como um ponto de encontro, por onde circulam outras pessoas que fazem parte da militância. Tem-se uma ideia da estrutura das organizações de esquerda, com suas hierarquias e funções bem delimitadas para cada membro.

Ruffato escolheu contos relacionados ao período ditatorial cujos autores fossem conhecidos pela qualidade de suas obras e já tivessem um repertório literário, como Antonio Callado e Nélida Piñon. “Esses autores que estão no livro cobrem um período bastante largo de maneiras diferentes”.

O escritor Luiz Ruffato. Crédito: Márcia Zoet

O escritor Luiz Ruffato. Crédito: Márcia Zoet

O primeiro conto do livro é O homem cordial, de Antonio Callado. O personagem principal vê um Brasil idealizado por ele desabar. No conto, o intelectual, historiador e sociólogo está prestes a publicar o livro O homem cordial, sobre o povo brasileiro, quando tem seus direitos políticos cassados, embora seus amigos íntimos saibam que ele não tem “nada de comunista”. Esse conto inicial reflete a arbitrariedade do regime, que podia classificar como suspeitos pessoas de variadas ideologias e de todas as classes sociais.

O último conto é também o mais recente, publicado por Paloma Vidal em 2008. Intitulado Viagens, o conto é narrado em primeira pessoa e relata as viagens de uma vida: viagens ao passado, viagens nacionais e internacionais e a viagem da Argentina ao Brasil. A escritora veio exilada com os pais para o Brasil ainda criança, em 1977.

“Qué lengua hablan?”: essa interrogação que aparece no conto ilustra a situação de uma criança que, do dia para a noite, é submetida à outra língua e aos costumes de outro país. A rapidez com que se fazem as malas mostra a pressa de fugir da repressão política, assunto complexo demais para ser compreendidos por alguém tão jovem.

Nem todos os contos falam diretamente sobre a ditadura, mas sobre um espírito do tempo. É o caso de A morte de D.J. em Paris, de Roberto Drummond. D.J. (somente as iniciais de seu nome são apresentadas) é julgado após sua morte, tendo sido acusado de “inventar uma história fantástica sobre uma Mulher Azul que fala com uma voz de frevo tocando”. Essa mulher enigmática aparece ao longo de todo o conto como um acontecimento suspeito que não chega a ser esclarecido, bem como a morte do personagem.

Outros contos mostram a exploração do trabalho, como A mão esquerda, de Roniwalter Jatobá. O personagem central, um funcionário exemplar de uma fábrica, tem um acidente com uma máquina e perde parte dos dedos de uma das mãos. Inutilizado para o trabalho, é dispensado pela fábrica e substituído por outro funcionário.

A maior ponte do mundo, de Domingos Pellegrini, aborda o tratamento desumano aos trabalhadores que atuaram na construção da ponte Rio-Niterói. Os eletricistas, não identificados ou nomeados por apelidos como “50 Volts”, vivem uma jornada exaustiva que não podem abandonar, sofrendo ameaças em caso de cogitarem fazê-lo. Com a finalização da ponte, quando já não se assemelham a homens, os funcionários são convidados às comemorações de sua inauguração.

Experiência com a ditadura

Ruffato vivenciou o fim do período ditatorial, ainda jovem. Em 1979, foi estudar Comunicação na Universidade Federal de Juiz de Fora, em Minas Gerais. “Era um período ainda de bastante repressão, muito conturbado. Mas certamente não era nada comparado ao que aconteceu antes”, diz.

O escritor não chegou a ser preso, mas conta que vivenciou a tensão da perseguição política. Participou de atividades de poesia em Juiz de Fora e teve amigos presos. “Havia uma ligação entre poesia, teatro e política muito forte”, diz. Estudantes eram vigiados o tempo todo.

“Não posso dizer que eu pessoalmente tenha sofrido”, avalia. Independentemente de ter sofrido uma relação “íntima” com a ditadura militar, Ruffato diz se sentir no dever de propor reflexões sobre o período, que ele classifica como “época de atrocidades, de repressão brutal e de censuras”. “É um período que espero que nunca mais volte. É por isso que não consigo entender pessoas que se lembram com nostalgia da ditadura”, afirma.

Ruffato recomenda Nos idos de março para essas pessoas e para todos os que tiverem interesse em conhecer o regime ditatorial no Brasil: “O leitor pode ter nesses contos uma boa amostra do que foi a ditadura. Cada conto expressa isso à sua maneira”.

Leia mais na Pensata sobre livros que tratam da ditadura e do golpe de 1964:

O aniversário do golpe e seus oportunismos: ditadura só durou dez anos, diz historiador

1964: crescimento e repressão andaram juntos nas universidades brasileiras

Golpe militar ou civil-militar?

“Torturador é humano, cruel e consciente do que faz”

De um torturador para uma jovem: “Você vai sofrer como Jesus Cristo”

Por que os militares de hoje não admitem os crimes cometidos pela ditadura

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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014 Literatura, Sociedade | 16:29

Segredos de justiça revelados por uma juíza especialista no fim do amor

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É do escritor russo Liev Tolstói a afirmação de que as famílias felizes se parecem, e as infelizes são infelizes cada qual à sua maneira. Em Segredo de Justiça, livro lançado recentemente pela Agir (selo do Grupo Ediouro), a juíza e escritora Andréa Pachá ousa refutar a tese do autor de Guerra e paz e Anna Karenina. Com suas 45 histórias reunidas no livro – concebidas a partir de sua experiência como juíza da Vara de Família – Andréa intui que, tanto na felicidade quanto na infelicidade, cada história é única, cada dor é individualizada, “e as soluções não deveriam servir de parâmetro moral para quem quer que seja”, como escreve numa delas.

Andréa é uma juíza respeitadíssima, uma mulher de sensibilidade aguda e uma escritora de texto envolvente, humor inteligente, sutil ironia e notável compaixão. Ela consegue uma proeza ao unir ficção e realidade: revela segredos de justiça, sem violar os processos que tramitam em Varas de Família como a que a esteve durante mais de 15 anos. Andréa preserva, portanto, o direito de milhares de casais que passaram pelos seus olhos. São histórias de ficção, que emergiram de suas observações e de seu talento para transformar em literatura a riqueza do real.

Segredo de Justiça Andréa Pachá Editora Agir,  208 páginas, R$ 29,90

Segredo de Justiça
Andréa Pachá
Editora Agir,
208 páginas, R$ 29,90

Esta juíza que já se aventurou com enorme competência também pelo teatro é o que o diretor e amigo Aderbal Freire-Filho batizou de “especialista em fim do amor”. Afinal, pelas suas mãos e pelos seus juízos passaram incontáveis casais devastados pela dor do fim do amor.

A vida não é justa

Tive o privilégio de editar o seu livro anterior, publicado na primavera de 2012, também pela Agir: como Segredo de justiça, A vida não é justa também era uma espécie de literatura de não-ficção, ou reportagens de ficção, como queiram. (Edição, naquele caso, é um nome superestimado a classificar o trabalho de receber os textos prontos e primorosos e apenas reordená-los). Como este novo livro, agora editado por Carolina Chagas, o primeiro prendia igualmente a atenção do leitor do começo ao fim.

A diferença entre um e outro é que a A vida não é justa tratava mais diretamente do fim do amor. Segredo de Justiça, com os desdobramentos da vida depois do fim do amor. Concentra-se mais em como a vida continua depois, nas disputas de pensão e de paternidade, patrimônio, velhice, além de outros elementos desta fase, ainda que já presentes de passagem no primeiro.

A vida não é justa revelava a atitude angustiada de alguém sem chão que vê o seu homem ou sua mulher partir; que se depara com o fim inevitável de uma história iniciada tão apaixonada; que buscava, ainda inerte, o caminho depois do fim. Nesse conjunto, havia algumas histórias mais curiosas, como o senhor que pedira o divórcio da mulher de 65 anos, depois de descobrir que ela entrava na internet, cheia de tesão virtual, sob o pseudônimo de “Molhadinha 25”.

Segredo de justiça é um livro mais melancólico, porém talvez mais maduro e revelador da complexidade humana. A autora se choca, e o leitor também, com as disputas renhidas entre ex-casais, quase invariavelmente machucados pela separação. Assistimos, assim, aos registros de imaturidade afetiva, insensatez, egocentrismos. Vemos quão rara é a generosidade nesses casos presenciados pela narradora. “Eu só queria entender quem é essa pessoa sentada aqui, na minha frente”, diz uma atônita personagem diante da juíza e do homem com quem dividiu a vida por tantos anos. “Não acredito que você se transformou nesse lixo, Rico”.

Compreensível pela falência dos amores que pareciam eternos? Justificáveis porque os casais estão ali não para celebrar a alegria de estar juntos, mas para marcar o fim de sua união? Talvez. O que fica claro, é certo, é o tamanho e a forma da judicialização da vida – o quanto as pessoas esperam que a Justiça recomponha o que o amor acabou. E como não conseguem, saem dali com a sensação de injustiça reafirmada.

A juíza e escritora Andréa Pachá: a dor é individual, mas somos repetições nos afetos e nos desamores

A juíza e escritora Andréa Pachá: a dor é individual, mas somos repetições nos afetos e nos desamores. Foto: Divulgação

A juíza-terapeuta

Com a sabedoria, a sensibilidade, a razão e a experiência, a juíza-escritora-narradora tenta prometer que a dor passa. A vida segue, as pessoas se transformam, e a dor passa. E é aí que se retoma o dilema acertadamente apontada por Tostói: a dor individualizada. Nisto Segredo de Justiça concorda: não há dor maior do que a experiência individual.

Em várias histórias, a juíza é não só uma conciliadora mas alguém em busca de redução de danos. A uma mulher que lhe conta que “fez um câncer” e foi abandonada pelo marido, ela responde: “Não, não fez, não foi você que causou essa doença maligna ao ser abandonada, não se culpe por seu sofrimento”.

Não por outra razão, o filósofo Renato Janine Ribeiro, que apresenta o livro, mostra que Segredo de Justiça não se preocupa com a felicidade nem com a justiça, mas com a verdade. Diz ele:

“A vida não é justa: pessoas que foram boníssimas, que de tudo fizeram para serem ótimos companheiros ou genitores, nem sempre são reconhecidas ou premiadas – assim como quem foi ou é mau conhece, tantas vezes, o sucesso. A vida é indiferente à justiça. Pessoas ótimas padecem, pessoas más florescem.”

Felicidade, para Andréa Pachá, não está no rol dos direitos. Muito menos é uma obrigação. Para ela, abraçando a causa de bons filósofos, compreender nossa humanidade nos faz mais responsáveis pelo nosso destino – e isso significa reconhecer e encarar as dores e os sofrimentos. E reinventar-se para tanto. O agravamento da dor se deve em grande parte pela idealização da perfeição, incluída aí a idealização do amor e do casamento.

Há um paradoxo aí, e Andréa Pachá reconhece: a dor pode ser individualizada, mas somos todos iguais. Na alegria e na tristeza. Explica-se: há pouca originalidade nas nossas contradições, nos nossos afetos, nos nossos amores e desamores. Como ela diz, “somos todos, de alguma forma, repetições de histórias contadas por tantos quanto os que nos enxergam”. Alegrias extremas e tristezas profundas, portanto, compõem essa “montanha russa” de existência em que embarcamos todos: “humanos, desamparados e esperançosos”.

Amor traz dor, mas sem amor é paz de cinzas

Andréa Pachá não cita explicitamente, mas intuo que ela concorda com a existência de outro paradoxo: ao mesmo tempo em que precisamos negar esta idealização excessiva do amor romântico e da felicidade, sob pena de uma vida de frustrações e de peso demasiado sobre o outro, também não podemos abdicar de uma aspiração mais elevada, ou desumanizamos nossos afetos.

Pode-se adotar uma visão cética do amor, como o psicanalista Contardo Calligaris, para quem uma das boas razões para se casar é a seguinte: uma vez casados, podemos culpar o casal por boa parte de nossas covardias e impotências.

O marido, por exemplo, pode responsabilizar mulher, filhos e casamento por ele ter desistido de ser o aventureiro que ainda dorme, inquieto, em seu peito. A mulher tem a quem culpar por jamais ter tornado realidade o sonho romântico de amor avassalador e irresistível, do qual elas desistem por causa do marido, filhos e casamento.

(Dom Quixote se queixa de que sua mulher esconde seu livros de cavalaria e o impede de sair à cata de moinhos de vento, e Madame Bovary lamenta que seu marido esconde seus livros de amor e a impede de sair pelos bailes, em busca de paixões sublimes e elegantes.)

Pode-se, por outro lado, recorrer a uma perspectiva mais lírica, como a de José Miguel Wisnik, que uma vez se perguntou: “É permitido dizer que o mundo é pobre para quem jamais foi doente o bastante para a paixão?” Para Wisnik, o acorde entre o desejo de permanência (onde se inscreve o amor) e o fato de que essa permanência não pode se apoiar em nada senão no seu próprio desejo de permanência é um desafio aberto. Um luta constante.

Entre um e outro, pode-se recorrer novamente a uma ideia, já citada aqui, do psicanalista Jurandir Freire Costa, em seu livro Sem fraude nem favor: estudos sobre o amor romântico: “Sem amor estamos amputados de nossa melhor parte. A vida pode até ser mais tranquila e livre  de dores quando não amamos. Mas trata-se de uma paz de cinzas”.

Andréa Pachá sabe – e mostra muito bem em Segredo de Justiça – que se pode buscar uma vida mais feliz e mais justa, como lembra Janine Ribeiro, mas nunca uma vida plenamente feliz e justa. Sempre a pequenos passos. Com seus sabores e dissabores inevitáveis.

Para ler mais sobre o tema na coluna:

Aprenda a amar como os franceses

Os homens ainda podem sentir? 

Solução de um filósofo contra o fracasso do casamento: o “amor suave”

Tem um amor não correspondido? Escreva um livro

 

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quarta-feira, 19 de novembro de 2014 Educação, Literatura | 08:00

Livro traz sedução, brasilidades e os temperos da Bahia de Jorge Amado

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Quando Ana Maria Machado recebeu o convite para ministrar aulas sobre um escritor brasileiro em Oxford, teve de realizar uma decisão entre quatro opções: Machado de Assis, Graciliano Ramos, Clarice Lispector e Jorge Amado. O escolhido foi este último e o resultado da experiência é o livro Romântico, Sedutor e Anarquista, publicado recentemente pela Companhia das Letras.

Romântico, sedutor e anarquista Ana Maria Machado Companhia das Letras 144 páginas, R$ 34,90

Romântico, sedutor e anarquista
Ana Maria Machado
Companhia das Letras
144 páginas, R$ 34,90

Para quem desembarcou agora no mundo da literatura, convém informar: Ana Maria Machado é membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), que presidiu de 2011 a 2013. Tem mais de cem livros publicados, entre romances e ensaios, como Recado do Nome (1976), sobre Guimarães Rosa. É conhecida especialmente pelos livros de literatura infanto-juvenil, tendo recebido o prêmio internacional Hans Christian Andersen pelo conjunto da obra infantil.

O curso na Universidade de Oxford é parte de um acordo entre esta e a ABL. Todo ano um membro da Academia passa um trimestre na universidade inglesa ministrando aulas, palestras e seminários sobre um dos quatro autores que fazem parte do currículo de letras modernas.

Ana Maria Machado comenta a opção por Jorge Amado em seu capítulo “Uma escolha natural”. Foi, na verdade, o segundo nome que passou pela cabeça da autora. O primeiro foi Clarice Lispector, uma mulher, como ela. Vários motivos fizeram-na rejeitar essa opção. Um deles é a divulgação internacional que Clarice já tem no meio acadêmico. Outro, ela confessa, é o universo “opressor e angustiante, pesado e tenso” da obra com a qual teria de conviver.

A autora acabou optando por mergulhar na Bahia e nas brasilidades de Jorge Amado, “em nome do puro prazer”. Ela viu a necessidade de levar a Oxford um escritor brasileiro que não é tão estudado fora do País, diferentemente de Clarice ou Guimarães Rosa. O fato de o autor ter ocupado uma cadeira na ABL também foi levado em consideração.

Machado percebe uma resistência por parte das universidades, nacionais e internacionais, e também no Ensino Médio, para estudar a obra de Jorge Amado.  À Pensata, ela disse notar que o desconhecimento do autor aumentou nos últimos anos. “Já encontrei numa plateia de 72 estudantes de letras a surpreendente constatação de que nenhum deles, jamais, havia lido Jorge Amado”, contou.

Seu livro levanta algumas possíveis explicações para essa rejeição. Entre elas, estão acusações sobre um conteúdo machista e às vezes racista em sua obra. A autora refuta essas críticas com exemplos de personagens, como Grabriela (Grabriela, Cravo e Canela) e Tieta (Tieta do Agreste), que, longe de serem mulheres oprimidas, são senhoras de seus próprios desejos, destacando a força do feminino.

Quanto à discussão sobre racismo, alguns leitores criticam, por exemplo, o fato de Pedro, líder do grupo em Capitães de Areia, ser o único louro. Ou o fato de Dona Flor morrer de amores por Vadinho, louro. Machado trata esses personagens e a relação que mantêm entre si como fruto da miscigenação. “Os sangues misturados são o milagre maior que Jorge Amado celebra”, afirma, em seu livro.

Na experiência em Oxford, os alunos são expostos a uma literatura não muito conhecida por eles. “Foi uma descoberta empolgante, mais que uma leitura crítica”, diz. Além disso, ela conta que o livro teve uma recepção animada por Zélia Gattai, esposa de Jorge Amado.

 

Anarquia e Romantismo

Machado levanta uma série de rótulos sob os quais Jorge Amado foi classificado e que teriam contribuído para gerar mal entendidos, como “proletário”, “realista”, “socialista” e “revolucionário”.

A escritora carioca Ana Maria Machado. Foto: Bruno Veiga

A escritora carioca Ana Maria Machado. Foto: Bruno Veiga

Para o crítico José Maurício Gomes de Almeida, Jorge Amado tem aproximação muito maior com o anarquismo do que com outros rótulos que já recebeu, um anarquismo de raiz romântica. “O herói de Jorge Amado é um rebelde que não admite os mecanismos repressores da sociedade”, diz Almeida, citado no livro.

E em meio a esses rótulos, Machado percebeu que a maioria dos leitores de Amado tinha um livro preferido do autor na ponta da língua. É o que ela relata no capítulo “Qual é o seu Amado?”. A autora propôs a pergunta a conhecidos e, durante meses, questionava os públicos de suas palestras e colhia o resultado.

Algumas respostas foram óbvias, como defensores do socialismo preferirem os livros da época em que Amado era do Partido Comunista, e adolescentes escolherem as obras em que o erotismo está mais presente. Outras preferências não foram tão previsíveis, como o executivo que se espelha em Tieta do Agreste ou o militante de esquerda que admira os coronéis do cacau em Terras do Sem-Fim.

Machado também tem seu Amado favorito: Tenda dos Milagres, obra à qual ela dedica todo o seu último capítulo, discutindo a mistura de raças e de credos que o autor colocou nesse livro.

 

Carnaval e sedução

A sedução é um elemento que permeia as obras de Jorge Amado, em diferentes gradações. Está em personagens como Tieta e Gabriela, que exalam erotismo em cada capítulo. Está na sedução recatada de Lívia, a mulher de família que espera pelo marido em “Mar Morto”. Está no cortiço de “Suor”. Está no amor que se aprende na rua em “Capitães de areia”. Está nos sabores da Bahia que Dona Flor ensina, apesar das tristezas.

Machado discute a “sociedade carnavalizante” que Jorge Amado propôs, baseada na amizade e igualdade social, sem se esquecer do erotismo e do bom humor. Esse aspecto da obra de Amado recebeu comentários ácidos de críticos que acreditavam que o autor havia esquecido o engajamento com o socialismo e teve uma “súbita conversão capitalista”, passando a pintar uma Bahia de cartão-postal povoada por mulatas sensuais.

A carnavalização, para o antropólogo Roberto DaMatta, ocorre em Jorge Amado a partir do momento em que heróis idealizados e exemplares dão lugar a heróis marginais, movidos pela amizade, pelo amor à vida e pela luta contra os preconceitos da elite. Seria, dessa forma, não uma falta de engajamento, mas uma mudança de perspectiva, novas cores sobre os mesmo problemas sociais. A carnavalização é uma espécie de “utopia amadiana”.

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terça-feira, 18 de novembro de 2014 Jornalismo, Literatura | 10:02

Em “Nem a morte nos separa”, jornalista retrata a luta do seu filho contra o câncer

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Num dia você está no paraíso ao lado de seu filho de 21 anos. No outro, mergulha nas sombras, de mãos atadas, sem poder salvar-lhe a vida. O que fazer diante do desespero aterrador frente ao sofrimento do garoto? No livro Nem a morte nos separa, o jornalista Ricardo Gonzalez relata a experiência do calvário vivido ao lado do filho – dez meses entre a descoberta do câncer, as errâncias médicas, o doloroso tratamento e a morte de Rafael, um soberbo garoto de 21 anos que encarou a doença com a maturidade e a racionalidade de poucos. Gonzalez lança e autografa seu livro hoje, terça-feira, na livraria Argumento, do Leblon, zona sul do Rio, a partir das 18h.

Nem a morte nos separa Ricardo Gonzalez Editora Mauad 232 páginas, R$ 54

Nem a morte nos separa
Ricardo Gonzalez
Editora Mauad
232 páginas, R$ 54

Um dos mais talentosos e éticos jornalistas esportivos do País, com passagem pelas principais redações brasileiras (entre as quais O Globo, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo e O Dia), Ricardo Gonzalez é hoje editor de texto do canal SporTV. Boa praça, ele consegue exibir simultaneamente a altivez aguerrida de um espanhol e a emotividade esparramada e sensível de um brasileiro. E o faz com galhardia e beleza tanto numa redação, onde colecionou uma pletora de amigos, quanto no livro que acaba de lançar. Das duas formas, tocante.

Com orelha assinada por Lucinha Araújo, a incansável mãe de Cazuza, Nem a morte nos separa é um livro a ser lido com o coração na mão. São “bytes de dor”, na feliz expressão com que Lucinha encerra seu texto de apresentação do livro, capazes de amolecer os leitores mais empedernidos, pais presentes ou futuros. Lucinha lembra:

“Existem aqueles que se trancam dentro da dor, como João meu marido fez, e os que vasculham os escombros à procura dos vestígios de um futuro que se foi. Encontrei no relato de Ricardo Gonzalez a mesma perplexidade, dor, desespero e incredulidade com os quais convivo. Ele descreve como seu mundo foi ruindo como um terremoto. O medo inicial, o momento em que tudo parece parar e tentamos fazer um balanço dos estragos e, quando nos damos contato, a casa cai sobre nossa cabeça. Os sintomas, as idas a vários médicos que viram num jovem de 21 anos gânglios nada preocupantes, a falta de diagnóstico, o dia em que encontrou o filho numa emergência médica sentado numa cadeira de rodas, o diagnóstico de câncer e a perda.”

A saudade

A perda – essa é profunda, e Gonzalez não teme retratá-la em seu sentido mais pleno nas 232 páginas que compõem o livro. Impossível não recordar a máxima eternizada por Chico Buarque na música “Pedaço de mim”, em que ele oferece talvez a definição mais precisa da palavra saudade – curiosamente esta palavra que só existe na língua portuguesa (Gonzalez tem origem espanhola). “A saudade”, escreveu Chico, “é arrumar o quarto do filho que já morreu”.

Rafael, o filho do jornalista, morreu de câncer linfático, aos 21 anos de idade, em 2010. É um câncer que ataca brutalmente o sistema imunológico do paciente. Como lembra o autor, trata-se de uma doença perversamente democrática: não escolhe endereço, nem classe social, cor, gênero ou idade. Em várias passagens do livro, o autor e pai revela sua perplexidade e inconformismo com a iminência da morte do filho tão jovem, com uma vida inteira para ser vivida.

Hoje deve passar-lhe pela cabeça outro verso, de Fernando Pessoa, que se refere a uma “saudade imensa de um futuro melhor”. A “saudade do futuro” deve ser mais dolorosa quando o futuro era mais futuro, sobretudo quando pai e filho exibiam um amor e uma amizade especiais, o tipo de dupla que se comunica até mesmo sem palavras, em gestos entregues num “amor infinito”, como define o autor.

Amor infinito

Não é filosofia paterna barata, convém esclarecer. Um dos maiores filósofos da atualidade, o francês Luc Ferry, enxerga esse tipo de entrega como um novo humanismo para o século XXI, dando ao amor um sentido central na existência. Segundo ele, muitos homens já sacrificaram suas vidas em guerras em nome de Deus, da nação, da revolução, da liberdade. Mas poucos morreriam hoje – pelo menos no mundo Ocidental – por Deus, pela pátria ou pela democracia. São ideais que no passado deram sentido à vida mas que hoje estão em declínio. Ainda é possível, porém, morrer por alguém que se ama.

Pergunte a um pai ou uma mãe verdadeiramente ligado a um filho ou uma filha se preferiam estar no seu lugar na hora do encontro com a morte.

Não por outra razão, talvez, Gonzalez escreveu o livro com dois veios. De um lado, como uma homenagem a Rafael; de outro, como um grito de alerta a outros pais. Como quem diz: amem seus filhos o máximo que possam. Entreguem-se. Antecipem-se à dor deles. Pois o fim de tudo pode estar no minuto seguinte.

Travessia

Nem a morte nos separa é um livro tocante, mas há passagens difíceis de atravessar. Chora-se junto com seus protagonistas. Como no momento em que os pais, desesperados, são consolados pelo filho doente e racional.

Choca-se e se revolta também, ao acompanhar a incrível passagem em que um residente do “hospital cinzento” – como a família chama o hospital – é escalado para informar mãe e filho da desistência de prosseguir adiante no tratamento quimioterápico.

Emociona-se e chega-se à torcida inútil pela cura, quando vão a São Paulo para uma derradeira tentativa junto a um médico competente e arrogante.

Desaba-se no momento da partida.

Exaure-se.

E se você tiver um filho, interrompa o quanto antes a leitura – na dúvida, para aproveitar sua companhia mais um pouco antes de voltar ao trabalho. Afinal, como o livro de Ricardo Gonzalez nos mostra, o tempo, assim como a saudade e o amor, podem ser encantadores, mas às vezes revelam-se angustiantes.

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quarta-feira, 29 de outubro de 2014 Literatura | 11:55

Quase romance recria sete quase encontros com a morte

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Um quarto de hospital pequeno, escuro e frio. Não se sabe quem é o doente nem qual a doença em questão. É assim, in media res, que tem início O oitavo selo, de Heloisa Seixas, lançado recentemente pela Cosac Naify.

Em O oitavo selo, ela conta sobre as situações entre a vida e a morte pelas quais passou o jornalista e escritor Ruy Castro, com quem é casada. Misturando ficção e não-ficção, o resultado é o que a própria autora chamou de “quase romance”. São episódios em que o escritor teve de encarar, direta ou indiretamente, a morte.

O oitavo selo Heloisa Seixas Cosac Naify 192 páginas, R$ 39,90

O oitavo selo
Heloisa Seixas
Cosac Naify
192 páginas, R$ 39,90

Heloisa Seixas é autora de livros de ficção, entre romances e contos, como A porta (Record, 1996) e Pérolas absolutas (Record, 2003), ambos finalistas do prêmio Jabuti, uma das principais premiações literárias no Brasil. É autora também de O lugar escuro (Objetiva, 2007), livro de não-ficção que trata do mal de Alzheimer de sua mãe.

Os “sete selos” de seu novo livro são uma referência a uma das principais obras do cineasta sueco Ingmar Bergman, O sétimo selo. No filme, o personagem principal tem um encontro com a Morte, que anuncia o fim próximo. A fim de ganhar tempo, o personagem propõe um jogo de xadrez, que vai se estendendo ao longo do filme.

Além de conversas com o cinema, a autora buscou referências também na música e na própria literatura. Uma delas é o livro das Mil e uma noites, em que Sherazade conta histórias para o sultão, que matava as mulheres com quem se casava logo após as núpcias. Contar histórias, portanto, foi a forma que Sherazade encontrou para enganar a morte.

“Esses fantasmas permeiam o livro todo e a vida de todos nós: o medo da morte”, explica a escritora. Alguns dos confrontos com a morte contados no livro são também momentos de intensa produção literária para Ruy Castro. “É como se ter um livro incompleto fosse uma ‘desculpa’ para não se deixar morrer”, conta.

A gestação do livro, desde a ideia até a finalização, durou cerca de um ano e meio. A seguir, Heloisa Seixas fala sobre esse processo e o resultado final.

***

De que forma ficção e realidade se misturam no texto?
Não adianta procurar as fronteiras. O limite entre ficção e realidade é incerto, e eu quis que fosse assim. Isso me deu total liberdade, porque não é fácil você escrever sobre o passado de uma pessoa tão íntima sua, sendo um passado do qual você não fez parte. E isso se aplica aos três primeiros capítulos.

Em que momento você decidiu escrever o livro?
Eu sempre admirei a energia do Ruy (Castro), a capacidade dele de se jogar no trabalho e de dar a volta por cima das armadilhas do destino. Intimamente, eu o comparava à Sherazade, a personagem das Mil e uma noites que conta histórias para não morrer. O Ruy também me parecia assim: sempre com um livro por terminar. Enfim, eu já tinha essa ideia no fundo da cabeça quando, em uma conversa com a escritora Guiomar de Grammont (durante a Flip de 2012), ela começou a falar em “mitos eróticos” e citou Sherazade. Aí a ideia apareceu inteira na minha cabeça. Logo veio a constatação de que Ruy tivera sete confrontos com a morte e, em consequência a ideia de dividir o livro em “selos”.

A escritora Heloisa Seixas. Foto: Bruno Veiga

A escritora Heloisa Seixas.
Foto: Bruno Veiga

Ao longo do livro, há diversas menções ao cinema (a começar pelo título), à música e à própria literatura. Fale um pouco sobre essas fontes e como elas inspiraram o trabalho.
Assim que eu percebi que os confrontos eram sete, logo me veio à mente a lembrança do filme O sétimo selo, de Bergman, justamente por ser a história de um homem que tenta negociar com a Morte, jogando xadrez com ela. Isso também se encaixava na história do Ruy. As demais citações vieram naturalmente, já que Ruy (e eu também) vive cercado de filmes, livros, música.

Os títulos dados aos selos fazem um passeio pelo corpo humano. Comente essa escolha.
As duas ideias surgiram para mim de forma simultânea. Os livros são assim, eles se escrevem, cada um de uma forma peculiar. Assim que eu percebi que eram sete confrontos, e que chamei esses confrontos com a morte de “selos”, ou marcas, eu percebi que cada um se referia a um elemento do corpo. Não havia repetições, eram elementos diferentes: sangue, nariz, fígado, língua, coração, sexo e cérebro. De repente, tudo se encaixou.

Escrever sobre o sofrimento do marido pressupõe revivê-lo. Quais foram as dificuldades nessa revisita à dor real para recriá-la de forma quase ficcional?
Foi difícil não só pelo sofrimento envolvido, mas também pelas cenas de sexo e sedução, pertencentes a um passado do qual eu não participei. Mas a partir do momento em que você se deixa levar pela ficção, deixa a mão correr livremente, aí já não é mais do seu marido ou de qualquer pessoa de carne e osso que você está falando. Vira um personagem mesmo. E você fica livre para escrever o que quiser, sem medo.

No final do livro, existe menção a um período que foi esquecido, o que faz lembrar o seu livro O lugar escuro. Qual a relação entre este e O oitavo selo?
Os fatos narrados em O lugar escuro (aí, sim, todos reais) aconteceram simultaneamente aos últimos “selos” do Ruy. Foi muito difícil para mim, claro. Eu, que me acho uma pessoa frágil, nada corajosa, tive de enfrentar tudo ao mesmo tempo. Mas foi um aprendizado, para mim. E para o Ruy também, claro.

Enquanto o prólogo começa já em um ambiente de hospital, algumas explicações vêm somente no final. Como foi a construção da estrutura do livro?
Pensei nos confrontos, pensei nos selos. E comecei a escrever, sempre misturando real e ficção. Escrevi na ordem em que aconteceram, na ordem em que estão no livro. O prólogo é extraído de um dos selos, o que ficará claro quando chegar a hora. Uma vez criada a estrutura inicial, não houve mudanças.

Em algumas partes do livro, o texto é interrompido para dar lugar a outro. A mulher e o homem deixam Heloisa e Ruy falarem. Como foi o processo de inserir essas falas no livro?
Essa ideia também surgiu naturalmente. Eu fiz algumas entrevistas com o Ruy, sobre acontecimentos da infância e da juventude dele, da época em que eu não o conhecia. Para usar ou não no livro. Aí veio a ideia de misturar essas vozes. Mas quem pensa que aquelas respostas, as vozes do Ruy e da Heloisa, são o real, pode se enganar. Há tintas ficcionais também nessas respostas.

Como foi trabalhar temas difíceis, como drogas e o alcoolismo?
São assuntos fáceis para mim, já que nunca enfrentei nada parecido. O mais difícil foi falar sobre o medo, aquele lobo que estava sempre à espreita, o tempo todo, durante a narrativa.

O homem de O oitavo selo escreve por necessidade. Você também sente essa necessidade de escrever?
Sem dúvida. Quando acabei de escrever O oitavo selo senti um alívio tão grande, uma tal leveza, que fiquei pensando: eu também escrevo para não pensar na morte. Donde, eu também sou Sherazade.

Você tem novos projetos em andamento?
Muitos! Ainda estou às voltas com a minha peça O lugar escuro (que escrevi a partir do livro) e que está em sua segunda temporada, agora viajando. Vamos nos próximos dias 31 de outubro, e 1 e 2 de novembro, fazer apresentações em Fortaleza, na Caixa Cultural. No dia 24 de novembro, haverá uma leitura dramática de uma nova peça que escrevi, É proibido envelhecer, no Centro Cultural Midrash, no Rio de Janeiro. Em dezembro, ocorre o lançamento do livro infantil A grande Pequena Notável, que fiz em parceria com minha filha, Julia Romeu (uma biografia da Carmen Miranda para crianças). E em janeiro estreia um novo musical que escrevemos, também eu e a Julia, chamado Bilac vê estrelas, com músicas do Nei Lopes e direção do João Fonseca.

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sábado, 18 de outubro de 2014 Literatura | 11:31

“A casa cai”, de Marcelo Backes”, traz histórias de amor, urbanização e ruínas

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O cenário: Rio de Janeiro. Um apartamento vai passar por uma reforma ambiciosa e, para isso, precisa ser praticamente destruído antes de renascer. Na cidade, existem obras por toda parte, mas nem todos os edifícios resistem ao tempo. Dentro e fora desses lares, pessoas estão sempre começando e rompendo relacionamentos. Cartas podem ajudar a reconstruir o passado mas também a destruir alguns sentimentos e imagens formadas.

A casa cai Marcelo Backes Companhia das Letras 432 páginas, R$ 56

A casa cai
Marcelo Backes
Companhia das Letras
432 páginas, R$ 56

Essas construções e desconstruções permeiam A casa cai, ficção do escritor Marcelo Backes, recém-lançado pela Companhia das Letras. Ao tratar de temas da vida privada, o autor faz também um paralelo com a urbanização do Rio de Janeiro, trazendo à tona alguns pontos delicados dessa história.

“Enquanto uma casa é levantada, uma alma vai desmoronando”, diz o escritor em entrevista à coluna. O ficcionista Backes é também um dos mais respeitados tradutores do Brasil. Ainda professor de literatura dos mais competentes, verteu para o português obras de clássicos da literatura em língua alemã. Entre eles, Kafka, Goethe e Schiller.

Na zona sul do Rio

O personagem principal de A casa cai é o mesmo seminarista do livro anterior de Backes, O último minuto, publicado em 2013. Neste, o jovem missionário conta a história de um gaúcho na prisão. Em A casa cai, já fora do seminário, o personagem que narrava agora tem sua própria história contada. “É fundamental dizer que os dois romances são completamente independentes um do outro, histórias acabadas em si e fechadas sobre si mesmas”, esclarece.

O ponto de partida é o recebimento da herança paterna pelo ex-seminarista. Este acaba percebendo que, além das posses, a herança inclui uma série de revelações sobre o passado do pai, que permaneceram ocultas por muito tempo.

A história foge do ambiente sofisticado na zona sul do Rio de Janeiro para fazer passagens pela favela e por anos de história de destruição de comunidades pobres que deram lugar a novos e luxuosos condomínios.

Há também passagens por outras partes do Brasil (idas ao Rio Grande do Sul), por outros países (uma viagem à Alemanha e outra à Rússia) e pelo mundo das artes. Sempre construindo e desconstruindo uma teia delicada de relações pessoais.

A seguir, Marcelo Backes fala sobre seu novo livro.

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O livro anterior foi concebido para ter uma continuação ou isso aconteceu depois? Não pensei em continuação enquanto estava escrevendo. Em determinado momento, já depois de terminado O último minuto, vi que seria interessante envolver o narrador daquele romance em uma história que eu já queria contar há muito tempo. O pai do seminarista inominado tinha estofo para ser um dos protagonistas da eliminação das favelas horizontais da Zona Sul do Rio de Janeiro e o próprio seminarista, já longe da batina, ainda mais estofo para meter os pés pelas mãos ao tentar segurar as rédeas da vida real. E assim, enquanto uma casa é levantada, uma alma vai desmoronando.

E como surgiu essa história? A casa cai surgiu da ideia de contar uma relação que vai desmoronando enquanto uma casa vai sendo construída , mostrando no pano de fundo como o Brasil e sobretudo o Rio de Janeiro foram erguidos. No âmbito público eu encaixei uma história que sempre me pareceu paradigmática: a da construção do Rio de Janeiro – e as duas histórias funcionam como espelho uma da outra, sem contar que na primeira é o filho que está envolvido, na segunda o pai, e que o próprio filho vai descobrindo aos poucos, ao abrir o cofre cheio de fantasmas do pai morto.

Marcelo Backes: "Há personagens reais interagindo com personagens ficcionais, envolvidos numa história de amor e desamor". Fotos: Divulgação

O escritor e tradutor Marcelo Backes. Foto: Divulgação

Qual foi a transformação pela qual o personagem principal de A casa cai passou desde O último minuto” Antes de mais nada, é fundamental dizer que os dois romances são completamente independentes um do outro, histórias acabadas em si e fechadas sobre si mesmas. É apenas circunstancial o fato de o seminarista que contou a vida terrível de João, o Vermelho, em “O último minuto”, agora contar a sua própria vida, mostrar como lidou com a morte de seu pai, com a obrigação de pela primeira vez, e isso já bem depois dos vinte anos, encarar a vida como ela é, ele que sempre viveu protegido no ventre da família e depois no seio de um seminário.

De que forma as duas histórias, a particular e a do Rio de Janeiro, se relacionam? O construtor e narrador do romance é um homem que fugiu da vida a vida inteira e de repente perde o pai, com quem nunca conseguiu se entender direito. E, sem nem mesmo saber como o mundo funciona, recebe uma herança vultosa, mas pantanosa, com a qual é obrigado a lidar. Ao mesmo tempo, esse homem constrói uma casa pra sua mulher. Se quisesse, ele poderia ter escolhido um apartamento na orla do Leblon, mas não, ele prefere a Selva de Pedra, erguida sobre os destroços daquilo que um dia foi a Praia do Pinto, uma das favelas aniquiladas. O homem reforma a casa escolhida e aos poucos descobre que o pai construiu a cidade, e que sem derramar sangue talvez não seja possível despejar argamassa num lugar que um dia foi tão naturalmente idílico.

O leitor só conhece o personagem central depois de folhear muitos capítulos. Como foi desenvolver esse personagem tão incógnito? Eu gosto de apresentar meus personagens aos poucos, de desnudá-los mais pelo comportamento e por aquilo que dizem do que por uma tosca frase de narrador que lhes dê o estofo físico e metafísico em duas pinceladas e meia. Na vida real, também somos mosaicos inconstantes, construídos pelos fragmentos que nós mesmos e os outros vão acrescentando.

E os demais personagens, como foi o processo de construção? O romance passeia por uma sociedade bem ampla do Rio de Janeiro, situada sobretudo na abastada Zona Sul e envolvida com a construção da cidade e o mundo das artes. Há personagens reais interagindo com personagens ficcionais, envolvidos numa história de amor e desamor, construção e desconstrução, edificações e ruínas, escombros e caprichos.

Qual o papel do círculo de artistas do Rio de Janeiro no desenrolar da história? Eu acho o universo das artes plásticas contemporâneas uma metáfora perfeita para entender o funcionamento do mundo contemporâneo. É só por isso o círculo de artistas, que é também paulista, tem um papel tão importante em A casa cai. De um lado há a tentativa de entender por que um metro quadrado na orla do Leblon pode custar R$ 80 mil, de outro a tela de uma garota de vinte e poucos anos que pinta a óleo e faz sua primeira exposição pode custar 25 mil, enquanto determinadas ações da Bolsa são pulverizadas em dois dias.

Ao escrever o livro, você chegou a ter alguma surpresa com os caminhos que a narrativa ia tomando? Eu sou um daqueles escritores que antes de começar esboça uma história mais ou menos básica, depois faz anotações, às vezes ao longo de anos, e de repente senta para escrever. E aí, eu viro o cavalo do diabo, ou o pégasus de uma demônia chamada musa, não sei, e não vejo mais nada no mundo à minha volta, entro num processo de imersão total, geralmente desenvolvido nuclearmente na Alemanha, onde fico pelo menos 45 dias durante o inverno. E tudo pode mudar, ganhar desenvolvimentos inesperados, os personagens literalmente fazem coisas que eu não imaginava.

O espaço principal da narrativa de A casa cai é o Rio de Janeiro, mas há passagens pelo Rio Grande do Sul, Moscou e Halberstadt, uma pequena cidade alemã. O que motivou essas escolhas geográficas? Meus personagens sempre foram muito cosmopolitas. Meu narrador carioca visita o Rio Grande do Sul apenas por razões afetivas. E se Moscou e Halberstadt, na Alemanha, aparecem, é porque são focos de metáforas interessantes no desenvolvimento do personagem, que referendam buscas de origem, tempos perdidos ou desideratos artísticos eternos.

Você já tem planos para novos livros? Tenho sim, eu sempre estou escrevendo. Fiz uma viagem maravilhosa de Pequim a Moscou recentemente, atravessando a Mongólia e a Sibéria num trem de luxo, e aconteceram coisas estrondosas nessa viagem, sem contar as que imaginei que aconteceram. E ainda repetirei essa viagem. Talvez desse um bom romance pícaro chamado, por exemplo, Os estrambóticos baques de Marcelo Polo numa volta ao mundo em pouco mais de oito dias e mil e uma noites.

 

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