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Arquivo da Categoria Psicanálise

quinta-feira, 27 de março de 2014 História, Política, Psicanálise | 11:53

“Torturador é humano, cruel e consciente do que faz”

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“A tortura não é desumana”, escreveu o filósofo Jean-Paul Sartre. “É simplesmente um crime ignóbil, crapuloso, cometido por homens (…). O desumano não existe, salvo nos pesadelos que o medo engendra”. Instrumento extremo de coerção e extermínio, a tortura foi o último recurso da repressão política que o Ato Institucional no 5, editado em 1968, libertou das amarras da legalidade.

Foi com a tortura que a ditadura instalada pelo golpe militar de quatro antes ganhou uma face violenta não mais apenas institucionalmente – com cassações e banimentos de opositores ao regime, iniciados já em 1964 – mas também violenta na prática e na forma. Seu pretexto foi a pressão ocorrida à esquerda e à direita: a luta armada das organizações terroristas de combate à ditadura, de um lado, e os militares linha-dura, de outro.

“A tortura é um crime demasiadamente humano”, reforça a psicanalista Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes, em seu livro Tortura, lançado recentemente pela Casa do Psicólogo na esteira dos 50 anos do golpe. Nele, a autora – ela própria uma sobrevivente dos anos de chumbo – tenta explicar esse crime à luz da história e da psicanálise. Ajuda a entender os fundamentos da violência, da destrutividade e da maldade presentes nas relações entre os humanos. Segundo ela, “um ato humano, cruel e degradante, e que atinge ao mesmo tempo a humanidade à qual o torturador também pertence”.     

(Maria Auxiliadora Arantes começou sua militância na Ação Popular, a AP, em 1963, foi presa entre 1968 e 1969, juntamente com os dois filhos que, na época, tinham idades abaixo de quatro anos, e mais tarde tornou-se uma ativa dirigente e militante da luta pela anistia no Brasil.)

Dirigentes do PCdoB mortos pelo Exército na chacina da Lapa, em dezembro de 1976

Dirigentes do PCdoB mortos pelo Exército na chacina da Lapa, em dezembro de 1976

Humano e “normal”

O livro da psicanalista reforça uma tese sobre a qual se debruçaram Sartre, a também filósofa Hannah Arendt, e historiadores da ditadura militar brasileira, como o jornalista Elio Gaspari: diferentemente do que se pode pensar, a tortura é quase sempre praticada por indivíduos absolutamente “normais”, plenamente conscientes de seus atos, capazes de se tornarem técnicos da violência. Raramente são figuras sádicas e perversas.

O torturador maluco, vítima de uma perversão, é no máximo produto da fantasia. Para uma ditadura, funciona como um álibi. Permite-lhe ter à mão a tese da insanidade do agente para salvar a honra do regime se algum dia a oposição provar os suplícios e identificar os torcionários.

9788580402919Apesar disso, segundo a psicanalista, o torturador exerce a crueldade de forma extrema. Está consciente do que faz e por isso torna-se responsável pelo crime cometido. É uma boa conclusão a compartilhar com os militares – da ativa ou da reserva – que ainda hoje mantêm silêncio sobre a ditadura instalada em 1964; com aqueles que se recusam a abrir informações que levem ao paradeiro dos desaparecidos políticos; e com os militares que ainda se guiam pelos mesmos manuais da Escola Superior de Guerra, segundo os quais o golpe foi uma revolução para salvar o país do comunismo.

“O que quer o torturador?”, pergunta Maria Auxiliadora em seu livro. “Ao sustentar seu anonimato, e impor o silenciamento, instaurando o fazer calar, o torturador escapa do julgamento e da punição, e torna-se um facilitador para que a tortura mantenha-se. Prestou seu serviço ao poder político, econômico, religioso, e, nesta condição, incorporou a função de manus longa do poder, usufruindo a impunidade”.

No local da tortura, lembra ela, o torturador “exerce seu poder sobre um semelhante assimetricamente imobilizado, vedado, amordaçado e nu”. Ele quer a confissão mas também a submissão do torturado. Quando a vítima se submete, conclui-se um processo em que a confissão é um aspecto irrelevante. O preso, na sala de suplícios, troca seu mundo pelo do torturador. A vítima faz mais do que dar uma informação ao carrasco, ela passa a reconhecer nele o senhor da sua voz.

Em A ditadura escancarada, segundo volume da sua espetacular série sobre o regime militar (agora em versão revista, ampliada e melhorada pela editora Intrínseca), Elio Gaspari lembra: “O sofrimento começa ou para, aumenta ou diminui, pela exclusiva vontade do torturador. Ele tanto pode suspender uma sessão para dar a impressão de que teve pena do preso quanto pode avisar que vai iniciar outra, sem motivo algum, para mostrar-lhe a extensão do seu poder”.

Na nova edição, Gaspari cita a presidente Dilma Rousseff, a Estela da VAR-Palmares: “A pior coisa que tem a tortura é esperar, esperar para apanhar”. E a onipotência de um torturador: “Que Deus que nada, porque Deus aqui é nós mesmo”.

A tortura é filha do poder, não da malvadeza

Os quatro livros da série do jornalista Elio Gaspari sobre a ditadura militar, relançados este ano

Os quatro livros da série do jornalista Elio Gaspari sobre a ditadura militar, relançados este ano

Como afirma Gaspari, a história ensina que a tortura é filha do poder, não da malvadeza. A natureza imoral dos suplícios, lembra ele, desaparece aos olhos daqueles que os fazem funcionar, confundindo-se primeiro com as razões de Estado e depois com a qualidade do desempenho que dá às investigações. “Confissões não se conseguem com bombons”, argumentava o bispo de Diamantina, d. Geraldo Proença Sigaud.

Em outras palavras, o que torna a tortura atraente é o fato de que ela funciona, e muito:

O preso não quer falar. O preso apanha. O preso fala.

A teoria da funcionalidade levou o regime a defender a ação policial da ditadura como resposta adequada e necessária à ameaça terrorista. No raciocínio justificativo do general Ernesto Geisel, em depoimento aos historiadores Maria Celina d’Araújo e Celso Castro: “Era essencial reprimir. Não posso discutir o método de repressão se foi adequado, se foi o melhor que se podia adotar. O fato é que a subversão acabou”.

Não há dúvida de que acabou de fato: as principais organizações da luta armada foram liquidadas em pouco tempo, com seus militantes presos, mortos ou desaparecidos. Chefe do Codi do Rio nos anos 70, o general Adyr Fiúza de Castro reconheceu o quão desigual era aquele combate: “Foi a mesma coisa que matar uma mosca com um martelo-pilão”.

Em números e fatos: a destruição das organizações armadas começou em julho de 1969; em junho de 1970 todas as organizações que algum dia chegaram a ter mais de 100 militantes estavam desestruturadas. O porão garantiu o sucesso da “tigrada”: segundo Elio Gaspari, entre 1964 e 1968, foram 308 denúncias de torturas apresentadas por presos políticos às cortes militares. Durante o ano de 1969 elas somaram 1.027. Em 1970, 1.206. De 1964 a 1968 instauraram-se 60 inquéritos militares contra organizações de esquerda; só em 1969 abriram-se 83.

Antes que as gralhas gritem, convém admitir: as ações da esquerda armada também fizeram vítimas. Mas não tiveram nem de longe a mesma dimensão dos assassinatos e da tortura praticada nos porões.

Leia mais na Pensata:

Por que os militares de hoje não admitem os crimes cometidos pela ditadura?

De um torturador para uma jovem: “Você vai sofrer como Jesus Cristo”

Tortura, o livro, enxerga o crime com um olho na psique do torturador e outro na história. Detalha, por exemplo, a barbárie nazista, as torturas da Inquisição e a ação dos franceses na Guerra da Argélia, que se tornaram uma espécie de polo aglutinador da violência política nas décadas seguintes, usada principalmente pelos EUA na guerra do Vietnã e pelos militares latino-americanos que, com amplo apoio dos EUA, instituíram ditaduras civis-militares na década de 1960.

Maria Auxiliadora baseia-se  no depoimento do general Paul Aussaresses que, na Argélia, foi um dos comandantes do destacamento de paraquedistas (foi o braço direito do comandante dos paraquedistas, general Massu).  Aussaresses, desde meados da década de 1950, a tortura e as execuções sumárias faziam parte da política de guerra francesa, e chegou a vangloriar-se por elas.

Aussaresses se instalou na Carolina do Norte (EUA) onde, disse, “ensinava as técnicas que havia aprendido durante minha carreira”. Esteve no Brasil em 1973, a convite da ditadura, tendo sido adido militar à embaixada da França. Um de seus amigos mais íntimos era o então coronel João Batista Figueiredo, do Serviço Nacional de Informações, o mal afamado SNI. Além de Figueiredo – que viria a ser o último general presidente da ditadura de 1964 – o general francês também conviveu com o delegado Fleury, um dos facínoras do regime. E deu aulas de tortura e desaparecimento de opositores políticos em Brasília.

Depoimento

Para quem não tem o coração empedernido diante do assunto da tortura, o livro de Maria Auxiliadora – assim como o de Elio Gaspari – expõe, com riqueza de detalhes, depoimentos de torturados. Ou recolhidos pela própria autora ou reproduzidos de depoimentos públicos.

A coluna escolhe um deles, o de Alípio Freire, militante preso aos 23 anos de idade no domingo 31 de agosto de 1969, data em que o general Arthur da Costa e Silva sofreu o derrame cerebral que o tiraria do poder logo em seguida. Foi preso sem mandado judicial e mantido em cárcere clandestino quando chegava a uma casa no Bairro da Previdência, em São Paulo. Quinze homens o prenderam, todos integrantes da Operação Bandeirante, a temida Oban, núcleo do Exército contra a luta armada financiado por empresários.

O depoimento sobre o que sofreu nas mãos daqueles homens é um documento público disponível nos arquivos do Ministério da Justiça. Acima de tudo, testemunha a tortura como prática do Estado brasileiro e do governo instalado cinco anos por meio do golpe militar (com amplo apoio civil) que derrubou o então presidente João Goulart.

Alípio escreveu:

“Um dos meus sequestradores segurava a ponta da corda que me prendia os pulsos (como se me levasse por uma coleira) e um segundo mantinha o cano de uma pistola automática, engatilhada, encostada em minha nuca. Assim, e acompanhado de uma comitiva de uma meia dúzia de membros daquela equipe, me retiraram da casa pelo quintal dos fundos, (…)  e sair pela rua de trás, onde fui embarcado numa caminhonete veraneio C-14. (…) Fui conduzido (sempre encapuzado) ao quartel do Batalhão de Reconhecimento Mecanizado – Rec-Mec, do II Exército. Era nesse quartel que, então, funcionava a Oban, centro de torturas e interrogatórios de revolucionários e outros opositores do regime.

(…) Despido, fui alçado no pau de arara. Pendurado, amarraram-me um fio descascado no artelho maior esquerdo e, com outro polo, iam percorrendo várias partes do meu corpo: ouvidos, boca, língua, narinas, cantos dos olhos, mamilos, todo o tórax (com uma atenção especial para a região onde se localiza o coração), pernas, braços, umbigo, pênis, testículos e ânus. A corrente elétrica era puxada de uma tomada (naquele dia, 110 volts). Concomitantemente, além de murros, tapas e “telefone”, era surrado com bastões e com uma tira de lona dobrada e molhada. Vez por outra, derramavam água ou algum refrigerante sobre todo o meu corpo, com o objetivo de potencializar os efeitos dos choques, aumentando a condutibilidade da corrente. Nessas ocasiões, fizeram várias vezes escorrer para dentro das minhas narinas o líquido (ora água, ora refrigerante) com que me molhavam o corpo, provocando fortes afogamentos. Em determinado momento – uma vez que não obtinham informações – disseram que iriam buscar minha mãe para torturar.

(…) Numa tarde (…) conheci dois novos instrumentos de tortura, aos  quais fui submetido: a cadeira do dragão, chamada também de trono do dragão ou de “cadeira elétrica”, e o choque de televisão. (…) O trono do dragão era uma cadeira grande, de estrutura de madeira (caibros) e com assento, encosto e parte superior dos braços de metal; uma trava móvel entre as duas pernas dianteiras permitia que as pernas do torturado fossem imobilizadas e presas para trás, na altura das canelas; nos braços (da cadeira), tirantes – com os quais eram atados e também imobilizados, pelos pulsos, os nossos braços. (…) Utilizado fundamentalmente para torturas com choques elétricos, no trono do dragão voltei a experimentar as correntes puxadas de tomadas e de um telefone de campanha. A novidade veio em seguida: plugaram a cadeira num aparelho de televisão que emitia violentas descargas.”

 

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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014 Cinema, Filosofia, Psicanálise | 08:06

Do filme “Ela” aos livros sobre o amor: a questão não é se as máquinas pensam, mas se os homens ainda podem sentir

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“Nosso mundo está cada vez mais amável. No entanto, cada vez mais nos sentimos isolados”, disse o cineasta Spike Jonze, ao divulgar o seu novo filme: Ela, a tocante, alegre e simultaneamente triste história de amor de um escritor solitário por um sistema operacional.

Samantha, o sistema-operacional-objeto-do-amor, é uma espécie de tábua da salvação para Theodore, recém-separado de sua mulher. Faz-lhe companhia, organiza sua vida, interessa-se por ele com aparente sinceridade e fala com a voz encantadoramente sexy de Scarlett Johansson.

Sim, Spike Jonze diz, com delicadeza e inquietação: estamos mais amáveis, porém mais isolados. “Apesar de tudo o que precisa”, afirmou, “nossa sociedade sente-se cada vez mais só”.

Apesar de a história se passar numa Los Angeles do futuro, Ela supostamente espelha nosso tempo: tenta nos mostrar que a tecnologia parece nos conectar, mas nos afasta, numa força centrífuga e centrípeta, efeito similar ao que a globalização, já há muitos anos, deu à cultura, às relações sociais e econômicas, aos sentimentos. O protagonista do filme mal enxerga, por exemplo, a amiga que mora no apartamento vizinho (que, a propósito, também se apaixona por um sistema operacional).

Joaquin Phoenix no filme "Ela": o escritor solitário ouve (e ama) Samantha, um sistema operacional

Joaquin Phoenix no filme “Ela”: o escritor se apaixona por um OS e parece mostrar o quanto a tecnologia nos aproxima e nos deixa mais solitários

Como no filme, protagonizamos um tempo em que muita coisa parece simultaneamente familiar e estranho. Uma sensibilidade difusa, geradora tanto de frustração quanto de autocontemplação ou autoconhecimento. Uma crescente e preocupante incapacidade para lidar com a realidade, em contraposição ao auge da simplificação das relações virtuais.

Um tempo sem tempo, em que a pressa, a velocidade e a instantaneidade pedem, em contraponto, mais calma, mais freio, mais simplicidade. Menos hipérboles e mais minimalismos. Uma escala modesta e serena, como o ritmo, a música e as não-ações exibidas por Spike Jonze. Como escreveu Manohla Diggs no New York Times, Ela é um filme que se deseja tocar e acariciar.

Mas a grande questão em Ela talvez seja não se as máquinas podem pensar, como defenderam muitos críticos ao analisar o filme, mas se os seres humanos ainda podem sentir.

O amor sagrado

O filósofo francês Luc Ferry publicou no fim do ano passado, pela Difel, o livro Do amor – uma conversa com o escritor e amigo Claude Capelier e espécie de continuidade de um outro livro seu de bastante sucesso, A revolução no amor (Objetiva). Em ambos, Ferry mostra como atualmente o amor exibe um quê de sagrado. Um sagrado não no sentido de oposto do profano, mas um princípio pelo qual daríamos a vida.

DoAmor_Luc FerryMuitos homens, segundo ele, já sacrificaram suas vidas em guerras em nome de Deus, da nação, da revolução, da liberdade. Mas poucos morreriam hoje, pelo menos no mundo ocidental, por Deus, pela pátria ou pela democracia. São ideais que no passado deram sentido à vida mas que hoje estão em declínio. Mas ainda é possível morrer por alguém que se ama.

A passagem do casamento tradicional para o moderno deu ao amor um sentido central na existência, lembra Ferry. Uma centralidade capaz de transformar nossas vidas sem que percebamos. Ferry o enxerga assim como um novo humanismo no século XXI: trata-se de preparar o futuro para quem amamos.

Juntos e sozinhos

O futuro, porém, revela mais surpresas do que supõe nosso projeto de existência. Nos anos 90, a psicóloga e pesquisadora do MIT Sherry Turkle escrevia com otimismo e entusiasmo sobre o mundo da tecnologia: “Os computadores são o novo palco de nossas fantasias, erotismo e intelectualidade. Estamos usando a vida em rede para nos adaptar a novas maneiras de pensar relacionamento, sexualidade, política e identidade”.

Em 2011, publicou o livro “Alone Together – Why we expect more from technology and less from each other” (algo como Juntos sozinhos – Por que esperamos mais da tecnologia e menos de cada um de nós). Para ela, no mundo virtual as relações são menos profundas e até ilusórias, e as múltiplas amizades das redes sociais são, na verdade, uma redução da amizade.

Para ela, a conexão constante – aquela que nos leva a postar, compartilhar, enviar e receber e-mails e sms enquanto assistimos a uma aula ou participamos de uma reunião – resulta numa confusão individual sobre intimidade e solidão.

A psicóloga do MIT Sherry Turkle em palestra no TED: "Quem não aprende a ficar sozinho só saberá se sentir abandonado”

Sherry Turkle: “Quem não aprende a ficar sozinho só saberá se sentir abandonado”

Numa palestra famosa e bastante compartilhada nas redes sociais, dada por ela no TED Talks, em fevereiro de 2012, Turkle retomou o tema para dizer que esse modo de usar a tecnologia pode acabar “nos escondendo uns dos outros”. Mais do que isso, os dispositivos móveis e as personalidades online alimentam o que ela chamou de “três fantasias gratificantes”:

1. A fantasia de que podemos concentrar nossa atenção, onde quer que estejamos e com quem estejamos;

2. A fantasia de que seremos sempre ouvidos;

3. A fantasia de que nunca precisaremos ficar sozinhos.

A última fantasia altera profundamente nossa psique, afirma Turkle, pois nos deixa ansiosos e inquietos ao menor sinal de solidão. “Estar sozinho é um problema a ser resolvido”, diz ela, defendendo o aprendizado desde cedo a ficarmos sozinhos.“Quem não aprende a ficar sozinho só saberá se sentir abandonado”, afirma. A conexão, neste caso, seria mais sintoma do que cura, expressando um problema explícito: ela muda a maneira como as pessoas pensam de si mesmas. É como se pensássemos: eu compartilho, portanto existo.

Ao mesmo tempo, Turkle intui que a tecnologia nos seduz porque responde a nossas fraquezas. Em outras palavras: não gostamos de estar sozinhos, mas temos medo da intimidade; com isso, a tecnologia permite a ilusão de uma companhia sem as exigências excessivas da amizade. Robôs, siris ou sistemas operacionais como a Samantha de Ela se tornariam assim os companheiros de nossos sonhos.

A paixão amorosa em tempos de coma

Num estudo publicado recentemente na revista Insight-Inteligência, a psicanalista Marcia Neder oferece uma boa reflexão que talvez ajude os Theodores existentes no presente. A “paixão amorosa em tempos de coma” recupera a lição deixada pelo psicanalista Erich Fromm em seu livro A arte de amar. Para ele, o amor é uma reposta a uma necessidade fundamental do humano: a de “superar seu estado de separação, de deixar a prisão da sua solidão”. O amor, reforça Neder, é a solução que o homem dá para esse problema que é dele em qualquer tempo e lugar: amando ele supera sua separação do outro.

Em síntese, superamos a solidão e aproximamo-nos do outro. A intimidade com o outro, no entanto, não é sinônimo de felicidade; é também ameaçadora, e tão angustiante quanto o medo da separação. Ou seja, o amor apaixonado não é só alegria, da mesma maneira que a sexualidade é também fonte de angústia.

Padecemos com nossa ambivalência diante do amor apaixonado: desejamos amar apaixonadamente, ao mesmo tempo em que tememos essa fusão com o outro porque significa nossa dissolução como indivíduos; queremos então o contrário, o afastamento.

O problema é que nestes “tempos de coma” não queremos sofrer em hipótese alguma. Vivemos numa cultura analgésica, anestésica e mimada (definições de psicanalistas diversos), que não suporta a dor. Parecemos ignorar que o pacote do amor apaixonado necessariamente inclui dores e delícias, sabido e saboreado por seres imperfeitos e, por que não, loucos.

Cena de "Annie Hall": o amor é para os neuróticos e nervosos

Cena de “Annie Hall”: o amor é para os neuróticos e nervosos

Como lembra Marcia Neder, no filme Annie Hall Woody Allen encerra seu clássico romântico com uma piada-metáfora nos relacionamentos a uma resposta à pergunta “por que nós amamos?”:

“Percebi a pessoa incrível que ela é, e como era bom poder conhecê-la. E pensei na velha piada: um cara vai ao psiquiatra e diz: ‘doutor, meu irmão é louco. Ele acha que é uma galinha.’ E o doutor diz: ‘Por que não o trata?’ Ele responde: ‘Deveria, mas preciso dos ovos’.”Conclui: “É assim que eu vejo os relacionamentos, eles são totalmente irracionais, loucos e absurdos. Mas nós continuamos tentando porque precisamos dos ovos.”

Somos todos virtuais

Se você é adepto da loucura dos apaixonados, constatará que a oposição entre real e virtual revela-se tão simplória quanto a que existe entre normal e patológico, ou entre infantil e adulto (algo que Freud tanto apreciou). Claro que há uma diferença entre as duas coisas, mas uma diferença não significa separação nem oposição. Como afirma Marcia Neder em seu artigo, a loucura ri das distinções mais evidentes, das separações cartesianas entre o “eu” e o “outro” ou entre fantasia e realidade – logo, entre o real e o virtual.

Ou seja, em qualquer paixão amorosa ou qualquer relacionamento de modo geral, já estaremos impregnados de nós mesmos e de nossas fantasias. Portanto, já significa a presença forte de virtualidade no jogo amoroso. Daí porque as críticas ao modo de se relacionar por meio da tecnologia terminam por ter um alcance limitado – que nos perdoe o sociólogo Zygmunt Bauman e sua série sobre os tempos líquidos.

Como também parece equivocada a suposição nostálgica de Turkle de que os amores virtuais seriam tristes substitutos dos amores reais – como já sublinhou Contardo Calligaris em crônica recente sobre o filme Ela. (No baile de máscaras das relações amorosas, ele escreveu, é difícil saber a diferença entre parceiros que se falam e parceiros que se teclam).

Em síntese, todos nós somos virtuais, porque ambos somos tecidos por nossas fantasias inconscientes, nossas subjetividades. Eis o amor em tempos de coma: a paixão amorosa, como lembra Neder, é um terremoto que arrebenta os marcos da identidade dos amantes e derruba as fronteiras da individualidade. Essa intimidade provoca um intenso prazer e uma atordoante e paralisante angústia.

Daí porque, repita-se, a questão central no filme Ela e na reflexão contemporânea sobre o amor (como filosofia, como literatura ou como psicanálise) não é se as máquinas podem pensar. Mas se os humanos podem (ou querem) sentir.

 

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sexta-feira, 29 de novembro de 2013 Literatura, Psicanálise, Sociedade | 13:02

Aprenda a amar como os franceses

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Recomendado em diferentes momentos por dois psicanalistas que entendem como poucos de análise e de cultura (Contardo Calligaris e Marcia Neder), devorei prazerosamente as 370 páginas do fantástico livro Como os franceses inventaram o amor: nove séculos de romance e paixão (editora Prumo). A autora, Marilyn Yalom, é uma norte-americana que pesquisa gêneros em Stanford, EUA, e especialista em literatura francesa. Para ela, a França é a pátria do amor; e os franceses, compositores do melhor e mais completo repertório amoroso.

Ao  rastrear o amour à la française, do romance do século XII até aqui, Yalom conclui: deveríamos aprender com eles. “Um francês ou uma francesa sem desejo é considerado alguém imperfeito, como uma pessoa desprovida de paladar ou olfato”, afirma, hiperbolicamente. “Há séculos os franceses se consideram mestres da arte de amar por meio de sua literatura, sua pintura, suas canções, seu cinema”.

Capa do livro "Como os franceses inventaram o amor", de Marilyn YalomO fato é que usamos expressões como rendez-vous, tête-à-tête e ménage à trois para aludir a intimidades com certo sabor francês – e já nem nos damos conta dessa linhagem. A palavra “galanteio” vem diretamente do francês. Outra palavra, amour, nem precisa de tradução, mesmo para aqueles de língua inglesa, que usam um termo tão diferente como love. Diferentemente dos pudicos americanos, diz Yalom, uma característica definidora do amor à la française é a sua “decidida ênfase no prazer sexual” – ela cita pesquisas que mostram tal cultivo mesmo entre os franceses mais velhos.

(Pelo menos se acreditarmos no senso comum dos brasileiros, esse apetite pela carne se repete igualmente do lado de baixo do Equador.)

Mas a aptidão linguística é o de menos. A grande lição francesa está no retrato deixado pelos seus artistas – por meio deles se conhece a literatura e a história do amor na França, com os segredos de alcova da realeza, os romances dos salões intelectuais do século XVIII ou os intrincados relacionamentos entre personalidades do século XX, como o de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Segundo o livro, as relações sociais e os papéis sexuais modificaram-se com o passar do tempo, mas sem que as regras da sociedade fossem capazes de domar os desejos e as ambições amorosas individuais.

Tudo começa na chamada Idade Média, com as ardentes histórias de Lancelote e Guinevere ou as de Tristão e Isolda, e outras lendas de mulheres divididas entre o marido e o amante. O amor ali é sempre representado como um fatum – um irresistível fado contra o qual é inútil se rebelar. Assim como se dá num inevitável triângulo amoroso: Tristão escolta Isolda, a futura esposa de seu tio, e se apaixona por ela. Lancelote venera seu rei Artur, mas se apaixona pela rainha. (Em geral, os poetas do amor cortês são chegados a amar damas casadas e frequentemente fiéis a seus senhores.)

Vistos com os olhos de hoje, triângulos amorosos são foco batido e pisado na literatura desde Madame Bovary e Ana Karênina, mas o adultério se tornou moda pela primeira vez na França do século XII – mesmo século, diga-se, em que transcorreu a verídica e trágica história de Abelardo e Heloísa.

Não que o “inventaram” do título do livro de Yalom deva ser levado ao pé da letra. O amor romântico existe desde que homens e mulheres são homens e mulheres. Exemplos?

A Bíblia descreve o intenso desejo do rei Davi por Betsabá, ou o amor de Isaac pela esposa Rebeca. As antigas tragédias gregas nos apresentaram Fedra, que ardia em desejo por seu enteado Hipólito, e Medeia, que matou os filhos por causa do violento ciúme do marido, Jasão. A poeta Safo suplicou a Afrodite reciprocidade no amor a uma jovem.

Ou quem esquece a arrebatadora paixão de Orfeu e seu amor impedido por Eurídice? E Platão? – o filósofo que louvou o amor de rapazes por homens velhos como algo natural. Também não se deve ignorar as lições de A arte de amar, de Ovídio.

A novidade francesa, Yalom argumenta, foi a explosão cultural que proclamou os direitos dos amantes de viver sua paixão, apesar de todas as dificuldades criadas pela sociedade e pela religião. Um novo espírito que defendeu a própria causa do amor.

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres francesas

A invenção francesa também ajudou a “feminizar” o amor. “A senhora [dama] ocupou lugar central na cena e, creio, desde então passou a comandar o foco das atenções”, escreve Yalom. A mulher emergiu simultaneamente como objeto do desejo masculino e sujeito do seu próprio desejo: “Os franceses nunca acreditaram que as mulheres fossem menos apaixonadas do que os homens” (acrescento: os franceses e os homens de alma feminina).

A propósito, num recente best-seller, Le conflit: la femme et la mère (“O conflito: a mulher e a mãe”), a feminista francesa Elizabeth Badinter afirma que as mulheres não devem deixar que a “tirania da maternidade” esmague o papel da esposa. Tragédia comum a muitos casais, que padecem na alegria de ter um filho e na “deserotização” do relacionamento.

Do amor cortês ao amor cômico de Molière ou ao amor trágico de Racine, a feminização francesa do amor contrasta com o antigo ideal másculo dos gregos – noves fora a criação de personagens femininas grandiosas, como Antígona e Medeia, entre autores  gregos.

Yalom prossegue sua viagem pela sedução e sentimento de autores como Rousseau; pelas cartas de amor de Julie de Lespinasse; pelo amor republicano de Elisabeth Le Bas e Madame Roland; pela saudade da mãe de Constant, Stendhal e Balzac; pelo amor entre os românticos, como George Stand e Alfred de Musset; pelo amor romântico esvaziado de Madame Bovary; pelo amor entre os homens representados por Verlaine, Rimbaud, Oscar Wilde e André Gide; pelo amor desesperado e neurótico de Proust; pelo amor lésbico de Colette e Gertrude Stein; pelos existencialistas apaixonados Simone de Beauvoir e Sartre; até – ufa! – o amor no século XXI.

Uma vida inteira para dar conta dessa literatura – ou, para quem tiver pressa, um curso de Pedro Paulo de Sena Madureira na Casa do Saber sobre civilização francesa.

O amor se aprende com a literatura?

Volto a Contardo Calligaris, que acaba de lançar Todos os reis estão nus, reunião de crônicas publicadas semanalmente no jornal “Folha de S.Paulo” e selecionadas por Rafael Coriello para a editora Três Estrelas. O amor é tema usual dos textos do psicanalista e escritor.

Para ele, o amor é absolutamente indissociável da literatura amorosa. Três razões explicam essa relação. Primeiro, por aprendermos a amar e a declarar o amor pela literatura. A segunda razão é porque o amor se tornou relevante em nossa vida à força de ser descrito e idealizado pela literatura. E terceiro, o amor, como sentimento, “é um efeito das palavras que o expressam”, ou seja, a literatura nos instiga a amar tanto quanto nossas próprias declarações amorosas.

Contardo Calligaris é um pouco desconfiado do assunto. Ou melhor, desconfia das palavras com as quais manifestamos os sentimentos e sua intensidade. “Nunca sei se a gente se declara apaixonado porque de fato ama ou se diz que está apaixonado pelo prazer de se apaixonar”, escreve numa das crônicas do livro, intitulada “Amores silenciosos”.

Diz ainda nunca saber se as declarações de amor são constatativas (“Digo que amo porque constato que amo”) ou performativas (“Acabo amando à força de dizer que amo”). Em outras palavras, “externamos os nossos sentimentos para vivê-los mais intensamente – para encontrar as lágrimas que, sem isso, não jorrariam, ou a alegria que sem isso talvez fosse menor”.

Numa variação dessa ideia, José Miguel Wisnik compôs “A serpente”, canção feita para uma montagem da peça de Nelson Rodrigues do mesmo nome. Na peça, a personagem afirma: “O homem deseja sem amor, a mulher deseja sem amar”. No que Wisnik transformou, com maior acerto, em “se o homem ama por amar/ e a mulher ama por amor/ quem vai poder nos abraçar/ compreender nossa dor?”.

É de apaixonar.

Um amor para mudar, ou mudando para amar

Em nossa vã esperança, que costuma recorrer ao céu e ao inferno para escapar das dores da vida ordinária, o amor pode significar um enorme alento. Como questiona Calligaris em outra crônica (“Amores e mudanças”): quando a vida está emperrada (o que não é raro), será que faz sentido esperar que um encontro, um amor, uma paixão se encarreguem de nos dar um novo rumo? “Provavelmente sim – no mínimo é o que esperamos”, ele responde.

Duas possibilidades: ou o amor surge quando está na hora de a gente se transformar ou é por amor que a gente se transforma. Ou as duas possibilidades podem ser verdadeiras. “Volta e meia”, escreve Calligaris, “alguém me pede uma receita: como esbarrar num amor que nos transforme? A resposta trivial diz que os encontros acontecem a cada esquina: difícil é enxergá-los e deixar que eles nos transformem, ou seja, difícil é ter a coragem de vivê-los”.

Não é por outra razão talvez que muitas esquinas continuam e continuarão a se resumir a isto: a esquinas imaginárias.

Exceto, talvez, para os franceses radiografados por Marilyn Yalom.

 

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segunda-feira, 25 de novembro de 2013 Psicanálise, Psiquiatria | 01:05

Por que estamos todos mais doentes?

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Sim, estamos mais doentes. Todos mergulhados num mundo em que tristeza virou depressão clínica, e que daqui a pouco um eloquente e imprescindível sentimento chamado amor passará a ser classificado de “transtorno monoerótico imaginário”. Trata-se de um mundo no qual rejeitamos a ideia de sermos normais.

Identificamos certos transtornos de forma caseira, enxergamos nossas próprias “disfunções” e nos apressamos a ir a um médico (ou a uma farmácia, nos casos mais simples) em busca de remédios, antes mesmo de serem prescritos. Invadem nossas vidas cotidianas incontáveis síndromes ligadas ao trabalho, à religião, às artes, à política – a qualquer coisa, enfim, que aparentemente nos tire da condição de “normalidade”.

Livro Dale ArcherEsse crescente estreitamento da noção de normalidade em nossas cabeças e o excesso de diagnóstico de doenças mentais são o principal alvo de um livro curioso, fácil e provocativo, escrito pelo psiquiatra norte-americano Dale Archer. Best-seller nos EUA como “Better than normal: how what makes you different can make you exceptional”, o livro foi recém-lançado no Brasil pela editora Sextante com o título Quem disse que é bom ser normal?.

Em oito capítulos, Archer descreve oito traços de personalidade habitualmente associados a transtornos, como a ansiedade, a personalidade histriônica e o narcisismo, e afirma que não há nada errado com essas características – podem ser meros sinônimos de alguém hiperalerta, dramático (ou carismático) e autocentrado, respectivamente. Errado mesmo, só se forem características muito exacerbadas, diz o psiquiatra.

Alívio para quem, como o signatário, é impaciente e não consegue se concentrar em uma tarefa por muito tempo. Ou para quem tem variações constantes de humor. Ou para aqueles que adoram ser o centro das atenções. Enquanto isso, a psiquiatria e a medicalização da vida dão a essas pessoas o status de portadoras de sintomas de transtornos de personalidade – déficit de atenção, bipolaridade ou similares.

“Como psiquiatra, constatei que precisava olhar de forma crítica os excessos de diagnóstico e de medicação”, escreve Archer. “Mais do que isso, sinto-me na obrigação de divulgar uma mensagem nova e libertadora sobre transtornos mentais que devolve ao lugar certo – as suas mãos – o controle de sua personalidade e de sua saúde mental”.

Para ele, o remédio tem de ser o último recurso: “As pessoas entram em um consultório e saem com uma receita médica. A psicoterapia é subestimada”.

Dr. Archer não está sozinho. Há uma “euforia da depressão”, como define o psicanalista brasileiro Jorge Forbes, para quem a serotonina ficou tão popular e íntima de nós quanto o colesterol. (Se você desembarcou agora neste planeta ou, sensatamente, caminha à margem dessa “anormalidade”, convém explicar: a falta de serotonina no seu organismo pode levar a problemas como depressão, enxaqueca e insônia, males típicos deste século).

Isso vale tanto para os EUA, foco da atenção de Archer, como para o Brasil, onde o mercado de antidepressivos e estabilizadores de humor cresceu mais de 60% nos últimos cinco anos. Um mercado felicíssimo como o mundo da melancolia – cerca de R$ 2 bilhões foram movimentados de um ano para cá, segundo a consultoria IMS Health.

Mal-estar coletivo

Quem disse que é bom ser normal? pode soar bem-humorado num tema de densidade e tensão especiais. Mas o assunto é sério, como atesta a polêmica gerada pela publicação, poucos meses atrás, da nova edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM), pela Associação Psiquiátrica Norte-americana (APA). A APA é a mais importante e influente entidade de psiquiatria do mundo. O DSM é considerado a “bíblia da psiquiatria”.

O chamado DSM-5 desencadeou uma série de artigos e livros questionando o caráter normativo de suas classificações – para muitos fundadas justamente num vertiginoso movimento de psiquiatrização da vida cotidiana. O documento amplia ainda mais o número de doenças mentais e, por tabela, aumenta as chances de alguém ser diagnosticado com os transtornos já existentes. Também reduz o número de sintomas necessários para que um paciente se encaixe em determinado diagnóstico.

Ou seja, mais pessoas tratadas com medicamentos destinados a transtornos mentais, sorriso aberto para a indústria farmacêutica. A propósito, 70% dos experts que trabalharam para o DSM-5 tiveram, em sua carreira recente, vínculos financeiros com essa indústria.

O avanço das doenças mentais é assombroso: o mundo da psiquiatria reconhecia 182 patologias em 1968, com a publicação do DSM-2. Doze anos depois, o DSM-3 trazia 265. Agora o número de patologias mentais se eleva a 450 categorias diagnósticas.

Poderia ser o resultado do avanço da ciência e da criação de critérios específicos para descobrir enfermidades da alma. Mas, no limite, é um discurso que, segundo os psicanalistas Gilson Iannini e Antonio Teixeira, organiza a crença mercantil da associação entre demanda e produto – no caso, doença mental e arsenal terapêutico.

Para cada classificação, uma pílula com promessa de bem-estar. É uma espécie de epidemia às avessas: as pessoas, com seus desamparos e desordens, agarram-se aos males diagnosticados e se sentem aliviadas de poder descobrir o que têm. Acham o rótulo perdido. Buscam a salvação no diagnóstico oficial. Por outro lado, são classificadas, estigmatizadas e, muitas vezes, marcadas para a vida inteira.

Definições políticas

Assunto restrito ao meio psi? Num instigante dossiê sobre o assunto, publicado na revista Cult, o filósofo Vladimir Safatle mostrou que não. Escreveu o professor da USP:

“Tudo isso poderia interessar apenas a uma comunidade limitada, composta por todos aqueles profissionais designados para tratar de problemas de saúde mental (…). Mas talvez seja o caso de colocar algumas questões. Pois, e se categorias como ‘saúde’, ‘doença’, ‘normal’ e ‘patológico’, principalmente quando aplicadas ao sofrimento psíquico, não forem meros conceito de um discurso científico, mas definições carregadas de forte potência política?”.

A pensar. Um exemplo da utilidade prática desse debate para os não-especialistas é quando o assunto chega ao Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade, o TDAH. Entre seus sintomas estão incapacidade de se concentrar, atitudes impulsivas e agitação constante. O que no passado não muito distante seria considerada uma travessura infantil hoje provavelmente vira motivo para ir a um médico, que não hesita em prescrever remédios à criança ou ao adolescente.

Os critérios de diagnóstico de TDAH esperam uma criança capaz de brincar calmamente e mostram-se inversamente proporcionais aos estímulos e à  competitividade a que é exposta atualmente.

Ao mesmo tempo, e paradoxalmente, raros são os pais que não se preocupam dia e noite em como garantir aos filhos ocupação permanente: das brincadeiras coletivas a games; de televisão a passeios, dos tablets ao inglês e à natação, qualquer coisa é necessária para evitar que a criança conheça a solidão, a pausa e o tédio.

(Num livro recente, “The distraction addiction”, Alex Pang, um professor da Califórnia, afirmou que a vontade de se distrair é um vício, uma forma de dependência).

O fato é que tem parecido equivocada a muitos a ideia de transformar toda experiência de sofrimento em uma patologia a ser tratada. Uma vida, como diz Vladimir Safatle, cada vez mais enfraquecida e incapaz de lidar com conflitos, contradições e reconfigurações necessárias. Acrescento: uma vida de busca irrefreável da felicidade, mas incapaz de olhar de frente a tristeza e a frustração inerentes à condição de estarmos vivos.

 

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domingo, 27 de outubro de 2013 Psicanálise | 13:50

Psicanálise no século XXI: Pare de culpar seus pais; a responsabilidade é sua

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O mundo é triste, trágico e cruel, o futuro parece cada vez mais sombrio, as relações humanas são trabalhosas, falsas e frágeis, a esperança se revela a característica mais vã dos desinformados e, para completar, tudo o que você imaginava que sabia já não vale mais. Deslocado e perdido, restam-lhe o salvacionismo das novas religiões, o controle imposto pelo conservadorismo e a psiquiatria medicamentosa, sempre ansiosa por antidepressivos.

Será?

Se quiser questionar ou relativizar essas premissas, leia o livro “Inconsciente e Responsabilidade: psicanálise do século XXI”, do psicanalista Jorge Forbes. Lançado em 2012, a boa notícia para Forbes chegou há pouco mais de uma semana: sua obra foi uma das vencedoras do Prêmio Jabuti 2013, categoria Psicologia e Psicanálise. Editado pela Manole, o livro expõe o que Forbes pensa como uma psicanálise para o século XXI.

Como explica: “A grande maioria das pessoas ainda imagina que uma psicanálise sirva para se conhecer melhor. ‘Primeiro, eu me conheço e, em seguida, garantido nesse conhecimento, eu ajo’. Pois bem, não me parece mais sustentável essa forma de compreensão nos dias de hoje.”

Em tempos complexos, de fratura nas certezas, de mudanças vertiginosas, a profilaxia precisa ser vasta. É que Forbes faz. Contra o catastrofismo, o autocontrole. Contra o lugar-comum ancorado na visão do pandemônio público, a convicção de que não estamos assim tão desorientados. Contra o diagnóstico, a ação. Contra a culpa (e a falta dela, estampada na indiferença), a responsabilidade.

É uma espécie de chamamento à responsabilidade de cada um – Forbes ataca as psicanálises que cruzam Marx e Freud e se fixa nos embates do sujeito consigo mesmo, antes que com o objeto.  Como Jacques Lacan – de quem frequentou os seminários em Paris, entre 1976 e 1981, e se tornou um dos principais introdutores no Brasil – Forbes se apoia numa ideia elementar, porém complexa: não se trata de buscar nos outros a saída para nós mesmos. Os outros, que Lacan chamou de O Grande Outro, são a voz do senso comum. E senso comum é o contrário da libertação.

No século XXI, diz ele, não se faz análise para “se conhecer melhor”. Ao contrário. É para suportar o impossível de conhecer e de dar sentido ao mais fundamental de uma vida. A vida é risco, afirma, para quem não quer ser genérico, plastificado, irrelevante. A chamada “segunda clínica de Lacan” faz isso. A primeira clínica era a do significante, do simbólico, própria do mundo moderno, vertical, iluminista. A segunda clínica, por outro lado,  é a do real, que seria, na visão de Forbes, mais compatível com os novos sintomas da contemporaneidade – um mundo de relações mais horizontais, sem a presença dominadora da autoridade paterna detectada por Freud.

Responsabilidade 

O mal-estar, convém dizer, não é uma invenção pós-moderna (Freud e o seu livro “O mal-estar na civilização” que o digam). Mas a clínica psicanalítica para o século XXI, sugere Forbes, precisa levar-nos à libertação da culpa. Ele usa “responsabilidade” no lugar da “ética” e da “moral”. Acha o termo menos culpabilizante e melhor administradora da angústia que toda chamada à moralidade desencadeia em quem é chamado. (Não é uma tese consensual. Nomes respeitáveis como o psicanalista Jurandir Freire Costa, por exemplo, argumentam que nosso ideário ético fundamental, baseado nos valores judaico-cristãos, não foi perdido, e que essa matriz deve ser apropriada com veemência.)

Um trecho do livro de Forbes é ilustrativo de sua escolha: “O título Inconsciente e Responsabilidade junta duas palavras que habitualmente não se frequentam, a ponto de ser comum ouvirmos, frente a um questionamento, uma pessoa se defender dizendo: ‘Ah, só se foi o meu inconsciente’, como se o inconsciente não fosse de sua responsabilidade.” Pois bem, continua ele, somos, sim, responsáveis frente ao acaso e à surpresa.

Um exemplo prático dessa visão: ouvindo alguém dizer, em uma sessão de segunda-feira, que ficou pensando no fim de semana e que concluiu ser “um péssimo marido, um pai meia-boca e um amante infeliz”, o analista clássico perguntaria “O que o levou a essa conclusão?”. A psicanálise do século XXI não traria uma pergunta, mas um comentário mais ou menos assim: “O fato de o senhor dizer que é um péssimo marido, um pai meia-boca e um amante infeliz não diminui em nada o fato de o senhor ser um péssimo marido, um pai meia-boca e um amante infeliz”.

Jorge Forbes acha que o homem “desbussolado” do presente (como bom lacaniano com formação francesa, ele tirou do coloquial “déboussolé”) continuará sem rumo se não lhe oferecermos a responsabilidade diante do acaso, da surpresa, do seu inconsciente, da sua família, do trabalho.

Nada de explicar seus erros e seus problemas, portanto, com o dedo em riste para seus pais. A responsabilidade é sua.

 

 

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