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sábado, 18 de outubro de 2014 Literatura | 11:31

“A casa cai”, de Marcelo Backes”, traz histórias de amor, urbanização e ruínas

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O cenário: Rio de Janeiro. Um apartamento vai passar por uma reforma ambiciosa e, para isso, precisa ser praticamente destruído antes de renascer. Na cidade, existem obras por toda parte, mas nem todos os edifícios resistem ao tempo. Dentro e fora desses lares, pessoas estão sempre começando e rompendo relacionamentos. Cartas podem ajudar a reconstruir o passado mas também a destruir alguns sentimentos e imagens formadas.

A casa cai Marcelo Backes Companhia das Letras 432 páginas, R$ 56

A casa cai
Marcelo Backes
Companhia das Letras
432 páginas, R$ 56

Essas construções e desconstruções permeiam A casa cai, ficção do escritor Marcelo Backes, recém-lançado pela Companhia das Letras. Ao tratar de temas da vida privada, o autor faz também um paralelo com a urbanização do Rio de Janeiro, trazendo à tona alguns pontos delicados dessa história.

“Enquanto uma casa é levantada, uma alma vai desmoronando”, diz o escritor em entrevista à coluna. O ficcionista Backes é também um dos mais respeitados tradutores do Brasil. Ainda professor de literatura dos mais competentes, verteu para o português obras de clássicos da literatura em língua alemã. Entre eles, Kafka, Goethe e Schiller.

Na zona sul do Rio

O personagem principal de A casa cai é o mesmo seminarista do livro anterior de Backes, O último minuto, publicado em 2013. Neste, o jovem missionário conta a história de um gaúcho na prisão. Em A casa cai, já fora do seminário, o personagem que narrava agora tem sua própria história contada. “É fundamental dizer que os dois romances são completamente independentes um do outro, histórias acabadas em si e fechadas sobre si mesmas”, esclarece.

O ponto de partida é o recebimento da herança paterna pelo ex-seminarista. Este acaba percebendo que, além das posses, a herança inclui uma série de revelações sobre o passado do pai, que permaneceram ocultas por muito tempo.

A história foge do ambiente sofisticado na zona sul do Rio de Janeiro para fazer passagens pela favela e por anos de história de destruição de comunidades pobres que deram lugar a novos e luxuosos condomínios.

Há também passagens por outras partes do Brasil (idas ao Rio Grande do Sul), por outros países (uma viagem à Alemanha e outra à Rússia) e pelo mundo das artes. Sempre construindo e desconstruindo uma teia delicada de relações pessoais.

A seguir, Marcelo Backes fala sobre seu novo livro.

* * *

O livro anterior foi concebido para ter uma continuação ou isso aconteceu depois? Não pensei em continuação enquanto estava escrevendo. Em determinado momento, já depois de terminado O último minuto, vi que seria interessante envolver o narrador daquele romance em uma história que eu já queria contar há muito tempo. O pai do seminarista inominado tinha estofo para ser um dos protagonistas da eliminação das favelas horizontais da Zona Sul do Rio de Janeiro e o próprio seminarista, já longe da batina, ainda mais estofo para meter os pés pelas mãos ao tentar segurar as rédeas da vida real. E assim, enquanto uma casa é levantada, uma alma vai desmoronando.

E como surgiu essa história? A casa cai surgiu da ideia de contar uma relação que vai desmoronando enquanto uma casa vai sendo construída , mostrando no pano de fundo como o Brasil e sobretudo o Rio de Janeiro foram erguidos. No âmbito público eu encaixei uma história que sempre me pareceu paradigmática: a da construção do Rio de Janeiro – e as duas histórias funcionam como espelho uma da outra, sem contar que na primeira é o filho que está envolvido, na segunda o pai, e que o próprio filho vai descobrindo aos poucos, ao abrir o cofre cheio de fantasmas do pai morto.

Marcelo Backes: "Há personagens reais interagindo com personagens ficcionais, envolvidos numa história de amor e desamor". Fotos: Divulgação

O escritor e tradutor Marcelo Backes. Foto: Divulgação

Qual foi a transformação pela qual o personagem principal de A casa cai passou desde O último minuto” Antes de mais nada, é fundamental dizer que os dois romances são completamente independentes um do outro, histórias acabadas em si e fechadas sobre si mesmas. É apenas circunstancial o fato de o seminarista que contou a vida terrível de João, o Vermelho, em “O último minuto”, agora contar a sua própria vida, mostrar como lidou com a morte de seu pai, com a obrigação de pela primeira vez, e isso já bem depois dos vinte anos, encarar a vida como ela é, ele que sempre viveu protegido no ventre da família e depois no seio de um seminário.

De que forma as duas histórias, a particular e a do Rio de Janeiro, se relacionam? O construtor e narrador do romance é um homem que fugiu da vida a vida inteira e de repente perde o pai, com quem nunca conseguiu se entender direito. E, sem nem mesmo saber como o mundo funciona, recebe uma herança vultosa, mas pantanosa, com a qual é obrigado a lidar. Ao mesmo tempo, esse homem constrói uma casa pra sua mulher. Se quisesse, ele poderia ter escolhido um apartamento na orla do Leblon, mas não, ele prefere a Selva de Pedra, erguida sobre os destroços daquilo que um dia foi a Praia do Pinto, uma das favelas aniquiladas. O homem reforma a casa escolhida e aos poucos descobre que o pai construiu a cidade, e que sem derramar sangue talvez não seja possível despejar argamassa num lugar que um dia foi tão naturalmente idílico.

O leitor só conhece o personagem central depois de folhear muitos capítulos. Como foi desenvolver esse personagem tão incógnito? Eu gosto de apresentar meus personagens aos poucos, de desnudá-los mais pelo comportamento e por aquilo que dizem do que por uma tosca frase de narrador que lhes dê o estofo físico e metafísico em duas pinceladas e meia. Na vida real, também somos mosaicos inconstantes, construídos pelos fragmentos que nós mesmos e os outros vão acrescentando.

E os demais personagens, como foi o processo de construção? O romance passeia por uma sociedade bem ampla do Rio de Janeiro, situada sobretudo na abastada Zona Sul e envolvida com a construção da cidade e o mundo das artes. Há personagens reais interagindo com personagens ficcionais, envolvidos numa história de amor e desamor, construção e desconstrução, edificações e ruínas, escombros e caprichos.

Qual o papel do círculo de artistas do Rio de Janeiro no desenrolar da história? Eu acho o universo das artes plásticas contemporâneas uma metáfora perfeita para entender o funcionamento do mundo contemporâneo. É só por isso o círculo de artistas, que é também paulista, tem um papel tão importante em A casa cai. De um lado há a tentativa de entender por que um metro quadrado na orla do Leblon pode custar R$ 80 mil, de outro a tela de uma garota de vinte e poucos anos que pinta a óleo e faz sua primeira exposição pode custar 25 mil, enquanto determinadas ações da Bolsa são pulverizadas em dois dias.

Ao escrever o livro, você chegou a ter alguma surpresa com os caminhos que a narrativa ia tomando? Eu sou um daqueles escritores que antes de começar esboça uma história mais ou menos básica, depois faz anotações, às vezes ao longo de anos, e de repente senta para escrever. E aí, eu viro o cavalo do diabo, ou o pégasus de uma demônia chamada musa, não sei, e não vejo mais nada no mundo à minha volta, entro num processo de imersão total, geralmente desenvolvido nuclearmente na Alemanha, onde fico pelo menos 45 dias durante o inverno. E tudo pode mudar, ganhar desenvolvimentos inesperados, os personagens literalmente fazem coisas que eu não imaginava.

O espaço principal da narrativa de A casa cai é o Rio de Janeiro, mas há passagens pelo Rio Grande do Sul, Moscou e Halberstadt, uma pequena cidade alemã. O que motivou essas escolhas geográficas? Meus personagens sempre foram muito cosmopolitas. Meu narrador carioca visita o Rio Grande do Sul apenas por razões afetivas. E se Moscou e Halberstadt, na Alemanha, aparecem, é porque são focos de metáforas interessantes no desenvolvimento do personagem, que referendam buscas de origem, tempos perdidos ou desideratos artísticos eternos.

Você já tem planos para novos livros? Tenho sim, eu sempre estou escrevendo. Fiz uma viagem maravilhosa de Pequim a Moscou recentemente, atravessando a Mongólia e a Sibéria num trem de luxo, e aconteceram coisas estrondosas nessa viagem, sem contar as que imaginei que aconteceram. E ainda repetirei essa viagem. Talvez desse um bom romance pícaro chamado, por exemplo, Os estrambóticos baques de Marcelo Polo numa volta ao mundo em pouco mais de oito dias e mil e uma noites.

 

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sexta-feira, 17 de outubro de 2014 Política | 11:43

O ódio ao outro explica o preconceito contra o voto nordestino

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Assim como fez no confronto da Band e tem repetido desde que a polêmica surgiu, o tucano Aécio Neves sublinhou nesta quinta-feira, no debate do SBT, a promessa de ser o candidato da integração nacional: nem para ricos, nem para pobres; se eleito, vai governar para todos, garantiu o candidato do PSDB.

Ao dizer isso, Aécio faz um movimento duplo, cujos resultados ainda não parecem evidentes se eficazes até o dia de votação do segundo turno. Primeiro, tenta desfazer a ideia – sedimentada no mínimo nos últimos 16 anos – de que o PSDB é um partido elitista, mais confortável no papel de representante dos bem nascidos, bem informados e bem ilustrados do que capaz de governar para ricos e pobres, incluídos e excluídos.

(Durante muitos anos o PSDB deu sucessivas mostras de ser o único partido social-democrata do mundo que abomina o Estado e o ativismo estatal, hostiliza o sindicalismo e acha movimento social coisa de gente menor, nada a ver portanto com a social-democracia que encantou a Europa a partir da primeira metade do século XX.)

O segundo movimento de Aécio ao apresentar-se como candidato de todos é tentar corrigir a rota dos rumos tomados pela declaração do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Respondendo a uma pergunta do jornalista Mário Magalhães, FHC disse: “O PT está fincado nos menos informados, que coincide de serem os mais pobres”, referindo-se à distribuição dos votos de PT e PSDB não só no primeiro turno mas também nas eleições de 2010 (Dilma vitoriosa) e 2006 (reeleição de Lula). Até aqui, o PT obteve melhor votação no Norte e no Nordeste; o PSDB, no Sudeste.

Para os petistas, tratou-se de uma nova prova do elitismo e do preconceito tucano. Um insulto aos nordestinos e aos pobres. Para os tucanos, a grita petista depois da declaração foi injusta, deturpada e eleitoreira. E vêm dizendo deste então que é o PT, e não o PSDB, o promotor de uma divisão preconceituosa do eleitorado.

O candidato do PSDB, Aécio Neves, posa ao lado do cantor Raimundo Fagner no Centro de Tradições Nordestinas, em São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Foto: jornal O Dia

O candidato do PSDB, Aécio Neves, posa ao lado do cantor Raimundo Fagner no Centro de Tradições Nordestinas, em São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Foto: Jornal O Dia

Uma pensata sobra a polêmica

De fato, o que o ex-presidente e Fernando Henrique Cardoso disse foi em parte uma verdade sociológica: o mapa dos mais pobres coincide com os menos educados; o dos mais ricos, com os mais educados. Como afirmou depois o cientista político Fernando Limongi, a distribuição regional do voto, a boa votação do PT no Nordeste e a do PSDB no Sudeste, não é senão outra forma de fazer a mesma constatação de outra maneira, porque é no Norte e no Nordeste que residem os mais pobres e os menos educados.

Mas FHC disse uma frase também reveladora do que pensa. Na transcrição completa:

“O PT está fincado nos menos informados, que coincide de ser os mais pobres. Não é porque são pobres que apoiam o PT, é porque são menos informados. Essa caminhada do PT dos centros urbanos para os grotões é um sinal preocupante do ponto de vista do PT porque é um sinal de perda de seiva ele estar apoiado em setores da sociedade que são, sobretudo, menos informados”.

Note o “sinal preocupante” da análise do presidente ao avaliar a migração do eleitorado petista dos centros urbanos (no tempo em que era oposição e o PSDB, governo, aliado com o PFL – hoje DEM). Na sua primeira eleição, FHC teve proporcionalmente mais votos entre os eleitores que não passaram do ensino fundamental. Também teve vitória folgada no Nordeste, no Norte e no Centro-Oeste. Isso se repetiu na reeleição tucana, em 1998.

O PT “migrou para os rincões” a partir de 2006. Na primeira eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (2002), seu voto majoritário ainda foi das pessoas mais escolarizadas (52% do eleitorado com ensino superior e 42% entre os menos instruídos, informava de véspera o instituto Datafolha).

Eis a “perda de seiva” petista apontada de maneira preocupante por Fernando Henrique.

Os tucanos pagam o preço porque a frase do ex-presidente abarca a ideia de que o voto no PT é atribuído a inferioridades culturais e sociais, não existentes nos eleitores de outros partidos – na ótica do tucano, especialmente do PSDB, claro.

Difícil enxergar mentira e equívoco em quem viu na frase uma divisão preconceituosa do eleitorado ou desvio de sentido, como FHC e Aécio Neves os acusam com a virulência sofisticada à moda tucana.

Para certos ditos bem esclarecidos, o eleitor inculto não sabe escolher. Equivocam-se porque não têm a sensibilidade de perceber que o pobre nordestino vota exatamente como o rico sudestino. Seu voto é igualmente racional. Ele vota buscando maximizar seu bem-estar. Em linguagem do povo: vota porque sua vida está melhor (se apoia o candidato governista) ou porque está insatisfeito e busca melhorar sua vida (quando ajuda a apear o partido governista do poder).

Menos informados? Na esmagadora maioria, certamente (noves fora não raro também encontremos no Leblon carioca e no Jardim Europa paulistano hordas imensas de pessoas que falam sem saber do que dizem). Maus eleitores? Um dado para responder: o crescimento econômico do Nordeste nos últimos três anos é de três a quatro pontos percentuais acima do crescimento nacional; o Centro-Oeste teve PIB chinês.

O tema do voto nordestino não foi levantado exclusivamente pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Houve aberrações, como o caso da comunidade médica que pregou o holocausto no Nordeste em campanha contra Dilma Rousseff, defendendo castrações químicas a eleitores do PT. Ao iG, a uma médica do grupo defendeu a página, disse que é usada “só” para desabafos e defendeu “a revolução do agir”.

O ódio aparece nas sombras, se verá a seguir.

Fazemos amor, não fazemos guerra

Doutor em história social pela USP e professor da Unicamp, o historiador Leandro Karnal tem uma análise sobre o ódio do brasileiro que ajuda a explicar certos sentimentos expostos nesse debate sobre preconceito e divisão do eleitorado do País. Ao traçar um histórico de como o brasileiro lida com a questão do ódio, Karnal mostra que temos muita resistência em assumir que fazemos guerras, que aqui há preconceito e racismo e, mais do que isso, que temos dificuldade em reconhecer o mal em nós. Segundo ele, acreditamos nas manifestações de ódio e de ira aparecem sempre no outro, no estrangeiro, no vizinho; nunca em nós.

O que essa característica revela?

Na tese da cordialidade do brasileiro (eternizada pelo historiador Sérgio Buarque de Hollanda nos anos 1930), seríamos o país da generosidade, da civilidade, da hospitalidade gratuita – a terra do coração. Negando a violência, a capacidade de manifestar nosso ódio, nosso racismo, nosso ressentimento social, agiríamos pelo coração, passionalmente. Inclusive quando odiamos.

Sérgio Buarque olhava naquele momento para a Alemanha nazista, onde havia estudado, e o Brasil parecia uma ilha de estabilidade num mundo cercado de ódio. O nó górdio é que isso ocultou passagens memoráveis do ódio, do preconceito e do ressentimento social presentes também no brasileiro: basta ver os desenhos de Debret, a repressão ao quilombo de Palmares (quando Zumbi foi morto e teve seu pênis amarrado de maneira infame à boca), a própria escravidão de três séculos e meio, a repressão a Canudos e a forma como o arraial foi executado, na Guerra do Contestado em pleno século XX, no fato de que o trânsito brasileiro mata um Vietnã inteiro por ano.

Há mais: gays sofrem violência porque… são gays. Mulheres sofrem violência porque… são mulheres. Nordestinos são chamados de paraíbas quase como um elogio carinhoso, ou como símbolos de sinais preocupantes de perda de seiva de um partido.

Voltando a Leandro Karnal, ele menciona um dos grandes preconceitos da história do Brasil: desconhecemos em nossos registros a expressão “guerra civil”. Guerra civil, lembra Karnal, é coisa de gringo; nós vivemos agitações, jamais guerra civil. Mesmo que o Rio Grande do Sul tenha se separado do Brasil por 10 anos. Mesmo que tenhamos em nossa história eventos como a Cabanagem, a Sabinada, a Balaiada, a Revolução de 1932 de São Paulo, luta armada e torturas praticadas pelo Estado durante a ditadura militar instalada em 1964.

A violência, repita-se, é sempre do outro, nunca a nossa. “É sempre um espanto e inexplicável. Só tem sentido no outro, longe de mim”, lembra Leandro Karnal. Ele ironiza: “Por incrível que pareça somos um povo profundamente pacífico cercado por pessoas violentas longe da minha comunidade, sejam elas cariocas, sertanejos, favelados, nordestinos ou quaisquer outros indivíduos que encarnem a violência contra mim, representante da brasilidade”.

Karnal trabalha com o que os acadêmicos chamam de alteridade: o “nós”. Em outras palavras, a valorização do “eu” em contraponto ao “nós”. Revelar capacidade de enxergar o “nós” é sempre mais difícil. Numa entrevista à revista Insight-Inteligência, alguns anos atrás,  eu e os jornalistas Luiz Cesar Faro e Cláudio Fernandez ouvimos dele a análise:

 “Todas as vezes que somos expostos ao outro, à alteridade, reforçamos a xenofobia, o racismo, o etnocentrismo e um certo darwinismo social. Ou seja: estou evoluindo mais do que o meu vizinho, logo estou mais à frente, sou melhor e mais civilizado. Havendo a ideia de que, entre o dia e a noite, há um período de crepúsculo, é nesse período que as sombras assumem formas fantasmagóricas”.

As sombras em questão são o ódio, a perversidade, a violência, a agressividade, os sentimentos racistas, homofóbicos e misóginos. O ódio, diz Leandro Karnal, é uma rara forma de comunicação universal com o outro, uma tentativa de diálogo. Acrescento: uma ação e uma reação, uma demonstração de superioridade ou inferioridade, poder ou conformação, decadência ou inveja, altivez ou resignação, ofensa ou ressentimento, desespero ou anseio de felicidade. “A natureza humana é violenta e, quando ele tem chance, exerce essa violência através do poder, da comparação cultural e de outras formas de exercício de superioridade. Deixamos à tona uma enormidade de sentimentos agressivos, comparativos racistas e assim por diante”, disse.

Não existe Deus sem o diabo

Mas é assim que alimentamos a nossa identidade. “O ódio é um elemento muito poderoso, que confere identidade”. O preconceito é expressão do ódio, repita-se.

Em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago, há uma passagem na qual o demônio se mostra espantado com tantas atrocidades cometidas na história do cristianismo, em nome de Deus Pai. E Deus diz: não posso ser Deus se não houver o diabo.

Não é por outra razão que as igrejas insistem na ação do demônio. Não há deus sem o diabo; certo sem o errado; esquerda sem a direita; prazer sem a dor; esperança sem o medo. E, em última instância, PT e PSDB não conseguem existir sem o outro.

 

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terça-feira, 30 de setembro de 2014 História, Sociedade | 10:39

“Há uma guerra social em andamento”, diz filósofo da USP sobre novo tempo do Brasil e do mundo

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Manifestações contra a Copa do Mundo por todo o Brasil, inclusive durante os jogos. Ônibus incendiados. Greves. Atos de violência pelo País. Movimentos de ocupação. Manifestantes e policiais enfrentam-se com truculência.

O Novo tempo do mundo Paulo Arantes 464 páginas, R$ 52 Boitempo Editorial

O Novo tempo do mundo
Paulo Arantes
464 páginas, R$ 52
Boitempo Editorial

O parágrafo anterior é um recorte do primeiro semestre de 2014 no Brasil. São exemplos de um novo tempo, que Paulo Arantes aborda em O Novo Tempo do Mundo, lançado recentemente pela editora Boitempo.

O autor afirma que existe uma “guerra social” em andamento. “É só acompanhar os jornais”, diz. O título é inspirado na obra Le Temps du Monde (“O Tempo do Mundo”), do historiador francês Fernand Braudel.

“Há um clima geral de insegurança e ainda não temos um conceito adequado para isso. Paulo Arantes arrisca encontrar caminhos”, afirma a doutora em Filosofia Isabel Loureiro, que esteve em debate com o escritor na semana passada na USP.

Em seu livro, Arantes estuda fatos recentes no Brasil e no mundo, buscando paralelos na história. O que Arantes chama de “tempo do mundo” no título de seu livro é o momento seguinte a um grande acontecimento. “É o fim de uma trégua”, diz.

Guerra, paz e consumo

A palavra “trégua” é empregada por Arantes de maneira intencionalmente provocativa, segundo ele. O grifo é emprestado de outro escritor, o italiano Primo Levi, autor de “A Trégua”.

Sobrevivente de Auschwitz, Levi trata justamente do pós-Segunda Guerra Mundial. O regime nazista foi derrubado, mas não as hostilidades que vieram com este.

Esse momento, em que grandes eventos acabaram de acontecer e existe a possibilidade de a configuração mudar a qualquer momento, se assemelha ao atual, na visão de Arantes. “Temos de nos preparar para um ‘second strike’”, afirma.

Ainda que o mundo não viva uma guerra generalizada como foi a Segunda Guerra Mundial, conflitos ocorrem em diversas partes do mundo desde então. “Não há possibilidade de democracia depois da bomba atômica”, diz Arantes.

Paulo Arantes em debate na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

Paulo Arantes em debate na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

No estado de emergência atual que o autor aborda, a guerra e a sociedade de consumo convivem juntas. “Welfare e warfare são uma só”, afirma. Em sua visão, “as pessoas que recebem as mercadorias” (os consumidores) têm a consciência de fazerem parte de um processo maior, uma mobilização para a guerra.

Essa sociedade de consumo, moldada desde antes do “welfare state”, é alimentada por campanhas publicitárias que apresentam produtos ao consumidor como altamente necessários, sem os quais a vida se tornaria impraticável.

Contra as mazelas sociais, são fornecidos benefícios que não corrigem a situação, mas “sossegam” os indivíduos, explica Arantes. O autor faz um paralelo com o Plano Beveridge, na década de 1940, criado para amparar os sobreviventes que trabalharam durante a Segunda Guerra Mundial, para os quais foram oferecidos planos de saúde e educação.

“Vocês vão para a guerra e os que voltarem terão saúde, educação, bolsa-moradia, bolsa-isso, bolsa-aquilo”, brincou Arantes, arrancando risos de uma plateia formada principalmente por estudantes universitários. O meio estudantil está familiarizado com termos como bolsa-alimentação, bolsa-moradia, bolsa-livros e outras bolsas.

Depois de junho…

O último ensaio de O Novo Tempo do Mundo tem como título “Depois de junho a paz será total”. Após tratar do “tempo do mundo” no plano geral, Arantes fecha sua obra com o caso brasileiro, partindo das manifestações que tomaram as ruas em junho de 2013.

“Nós começamos numa guerra total e continuamos numa paz total”. É assim que Arantes se refere ao estado de trégua, um momento delicado em que existe uma linha tênue entre guerra e paz. “Sabemos que estamos no olho do furacão e é uma situação generalizada”, diz Isabel Loureiro.

O autor usa como exemplo o caso das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) no Rio de Janeiro. Apesar do nome, “pacificadora”, a atuação desses órgãos tem sido questionada por criar uma “guerra” entre policiais e traficantes, por vezes envolvendo civis e acabando em mortes.

A cidade passou a conviver com operações policiais semanalmente. “O que significa que o Rio de Janeiro tenha uma gestão armada de sua vida social e as pessoas achem isso natural?”, questiona Arantes.

Em 2013, o que começou como uma manifestação contra o aumento das tarifas do transporte público (aumento de 20 centavos, no caso de São Paulo), culminou em manifestações que reuniram milhares, fecharam rodovias e foram marcadas por atos de violência.

O aumento da tarifa e as primeiras manifestações trouxeram à tona uma série de incômodos sociais, que levaram a novas manifestações. Um ano depois, em junho de 2014, o Brasil sediou a Copa do Mundo.  As pessoas novamente foram às ruas para protestar contra o investimento em um evento esportivo mundial, em detrimento de áreas como Educação e Saúde.

O que mudou? Para Arantes, o Brasil não é um País democrático, igualitário, pacificado e praticamente sem pobreza, como se imaginava. O autor explica que o “tempo do mundo” do título é o tempo vivido por sociedades como a brasileira, que estão orientadas pelo futuro. No entanto, ao encontro dessas sociedades, o que vem é um “futuro explosivo”.

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segunda-feira, 29 de setembro de 2014 Política | 10:01

Especialistas erraram previsões na campanha. Mas um alerta: eles costumam acertar quase tanto quanto o acaso

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Dilma Rousseff vai perder a disputa pela reeleição e os petistas serão, enfim, removidos do poder. A economia brasileira está muito mal, obrigado, encontra-se à beira do abismo, e imerge de maneira trôpega numa tragédia iminente que dura alguns anos e parece que, em breve, repintará em cores muito mais sombrias a débâcle já sofrida pelo País em outros tempos. Fato. Líquido e certo.

Aécio Neves, o candidato tucano, vai comandar a oposição rumo a uma vitória difícil, mas inevitável “diante de tudo o que está aí”. Apesar das poucas nuances e diferenças, acrescente-se, entre ele e o outro oposicionista relevante, Eduardo Campos – o esperto, boa praça porém inerte nas pesquisas candidato do PSB, amigo do ex-presidente Lula e mordaz adversário da presidenta Dilma.

Opa! Um acaso trágico vindo dos céus, Eduardo Campos morreu. Marina Silva, de aura imaculada, agora é a candidata do pacto eleitoral PSB-Rede. Dispara nas pesquisas, é inevitável sua vitória. Será a conquista da esperança por uma “nova forma de fazer política”. Não há como, é uma questão de tempo – precisamente agora é esperar o 5 de outubro. A campanha de Aécio também morreu. A de Dilma agoniza.

Mas eis que Marina chafurda diante da “desconstrução” (para uns) ou das “agressões” (para outros). Era o tal novo, atribuído pela virtuosa combinação entre a rejeição ao PT, rescaldo de votações passadas, baixa identificação de Aécio e morte de Campos. Suas contradições a tornaram mais vulnerável, Aécio viu sua esperança ressurgir, Dilma subiu e tornou-se, mais uma vez, a favorita absoluta. Petistas graúdos atestam: é possível até mesmo ganhar no primeiro turno. Um assombro de conquista.

Biruta de aeroporto

A soma de previsões definitivas, transitividades, surpresas, acasos, mudanças de rota e – pasmem – reafirmações de mais previsões definitivas é um exemplo de um vício crônico do Brasil (embora não restrito a nós): o mito das previsões dos especialistas. Uma pena, pois o histórico os desabona.

Nada contra os especialistas. A coluna recorre a eles sempre. Coleciona amigos especialistas, entre economistas, cientistas políticos, historiadores, sociólogos, filósofos, jornalistas e psicanalistas. Produzem conhecimento, estendem os limites da interpretação das mudanças presentes e discutem caminhos e possibilidades em formação no horizonte futuro.

E é no futuro que mora o problema. Nada contra quando se tenta antecipar os passos futuros – numa disputa eleitoral ou nos rumos da economia brasileira, por exemplo. O nó cego aparece quando levamos a sério demais tais previsões, quando elas são taxativas demais, como se viu nesta campanha até aqui, ou quando a mídia, em especial, credita, com ares de verdade, o que não passa de hipótese de trabalho. É o caso do pessimismo reinante que paira sobre a economia brasileira, em que certos setores da imprensa insistem em antecipar um ocaso generalizado, um estado sombrio e desesperador sem amparo na realidade da maior parte da sociedade.

Livro mostra que não há método confiável de acerto

Expert_Political_JudgmentUm livro fantástico, publicado há quase dez anos nos EUA e, infelizmente, sem tradução no Brasil, ajuda a sustentar a falácia das previsões dos especialistas. Chama-se Expert Political Judgment (Princeton University Press, US$ 17 na Amazon). Seu autor é Philip E. Tetlock, um professor de psicologia de Berkeley, Califórnia. Ele passou quase 20 anos analisando previsões de centenas de especialistas sobre o destino de dezenas de países. Foram 28 mil previsões coletadas.

Os números são desabonadores para os especialistas, e as conclusões, edificantes para quem se irrita com previsões. Do livro, extraem-se três lições essenciais: primeiro, especialistas (e colunistas como o que assina esta Pensata) sabem menos do que parecem saber. Segundo, falham com bastante frequência. Terceiro, nunca são penalizados por seus equívocos. “Nenhuma sociedade criou ainda um método confiável de pontuação de acerto dos especialistas”, afirma Tetlock.

Aos números. Entre os analistas de maior pessimismo, 70% das previsões se revelaram mais sombrias. Delas, só 12% terminaram por ocorrer. Entre os mais otimistas, 65% dos cenários traçados foram mais rosados. Destes, 15% se materializaram. Ou seja, o grau de acerto é uma lástima, com leve vantagem para os otimistas (mas leve mesmo). Especialistas são péssimos no cálculo de probabilidades, e segundo o estudo de Tetlock não importa se as previsões dizem respeito a economia, política interna ou assuntos internacionais. Suas avaliações são igualmente equivocadas em todo o espectro de temas.

Previsões servem para sistemas não complexos

Se os especialistas se saem um pouco melhor do que o acaso (ou tanto quanto um macaco jogando uma moeda para cima), por que eles insistem em fazê-lo e nós em ouvi-los? Dan Gardner, no livro Future Babble (Balbucio sobre o futuro, US$ 12,79 na Amazon) arrisca algumas explicações. Para Gardner, nos habituamos a ver a ciência prevendo com enorme sucesso fenômenos como eclipses e marés. Só que esses são sistemas não complexos. Neles, o todo não difere da soma das partes, o que permite montar equações que resultam em predições bastante acuradas. O problema é que quase todas as atividades humanas constituem sistemas complexos, nos quais o todo é mais do que a soma das partes.

Se aprendêssemos bem essa lição, talvez só devêssemos levar a sério experts que expressassem suas previsões do seguinte modo: “Há x% de probabilidade de que o cenário y se materialize”. No mundo real, porém, não é o que ocorre. As manchetes seriam mais enfadonhas. O leitor fugiria. O cérebro humano procura tão avidamente por padrões que os encontra até mesmo onde não existem. Mesmo num mundo sempre mais complexo, queremos narrativas cada vez mais simples e explicações cada vez mais lógicas para nossas preferências. Queremos encontrar sentido nas coisas, mesmo onde não há sentido aparente.

Por essa razão a mídia tem sua responsabilidade adicional. Diz Tetlock: “A mídia não só não consegue eliminar as más ideias mas muitas vezes favorece ideias ruins, especialmente quando a verdade é muito confusa para ser embalada ordenadamente”. A propósito, quanto mais entrevistas os especialistas haviam concedido à imprensa, descobriu Tetlock, piores tendiam a ser suas previsões.

Tem vida longa, porém, a tendência de buscar chaves explicativas definitivas quando, muitas vezes, não resta outra saída se não jogar uma dúvida no ar. Pode resultar em frustração do leitor ou espectador, mas se trata de ser feita uma avaliação de custos e danos. (Blogueiros e colunistas públicos da mídia tradicional, à esquerda e à direita,  e suas certezas absolutas certamente discordarão dessa análise.)

Pensem como a raposa

Tetlock dividiu seus especialistas ao longo de um espectro entre o que batizou de “porcos-espinhos” e de “raposas”. A referência aos animais vem do título de um ensaio de Isaia Berlin sobre o romancista russo Lev Tolstói, chamado “O Porco-Espinho e a Raposa”.

Porcos-espinhos são personalidades de tipo A, que acreditam em grandes ideias, em certos princípios que regem o mundo com o rigor de leis da física e que sustentam praticamente todas as interações que ocorrem na sociedade. Karl Marx e Freud são dois exemplos.

Raposas, por outro lado, são criaturas que gostam de fragmentos, acreditam numa infinidade de pequenas ideias e adotam abordagens distintas para um mesmo problema. São mais tolerantes às nuances, às incertezas, à complexidade e às opiniões discordantes.

Porcos-espinhos são caçadores e estão sempre em busca de uma presa grande. Raposas são animais coletores. Raposas, diz Tetlock, são muito melhores em fazer previsões do que porcos-espinhos. Por essa razão, Tetlock pede que experts tenham mais humildade. Desse modo, diz ele, o debate político poderia soar menos estridente.

O problema é que, como diria o poeta irlandês William Butler Yeats, “falta convicção aos melhores, enquanto os piores estão cheios de apaixonada intensidade”.

 

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sábado, 27 de setembro de 2014 Literatura | 07:00

Sérgio Sant’Anna explora o erotismo e o desejo em “O homem-mulher”

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“O homem-mulher” é o título do primeiro e também do último conto do livro homônimo do escritor Sérgio Sant’Anna, lançado esta semana pela Companhia das Letras. Sinal dos tempos: homem-mulher é um cross-dresser, expressão usada para designar um homem que gosta de vestir-se de mulher, foco e eixo das principais narrativas do escritor. “Pesquisei esse tipo de personagem, que é diferente de um homossexual, e resolvi tratar disso”, afirmou Sant’Anna  ao médico e também escritor Drauzio Varella, na Livraria Cultura, em São Paulo, ao lançar o livro esta semana no “Drauzio Entrevista”.

O homem-mulher Sérgio Sant'Anna 184 páginas, R$ 38 Companhia das Letras

O homem-mulher
Sérgio Sant’Anna
184 páginas, R$ 38
Companhia das Letras

O conto que dá nome ao livro tem início em um carnaval, em Belém, no Pará. “Não sei por que fiz um conto que se passava no Pará, brincou o autor, provocando risos na plateia paulistana que o assistia. No fim do livro, o conto é retomado como “O homem-mulher II”, para dar continuidade à história – desta vez no Rio de Janeiro, o personagem do conto original vira diretor de teatro, e o texto assume um caráter metalinguístico: um conto que narra que uma peça de teatro que se transforma em notícias de jornal. A história trabalha as relações amorosas e a dificuldade em se aceitar um homem que se veste como mulher. A aceitação ocorre no plano do exótico, quando o homem-mulher vira notícia.

“Não sei dizer por que inventei o homem-mulher. Pensei: ‘Isso é bom, vou tentar’”, conta Sérgio Sant’Anna. É uma falsa despretensão. Nos 19 textos de variados temas e tamanhos que compõem O homem-mulher – o livro –, o contista explora uma alta carga erótica, o corpo e a sensualidade. E mais do que pôr foco no visível, ele está atento aos sentimentos dos personagens. O erotismo, diga-se, tem sido recorrente nos últimos livros do autor, como “O voo da madrugada e “Páginas sem glória”.

Barra pesada, sem perder a ternura

Mas “O homem-mulher” não é só erotismo explícito, é também ternura: “Embora tenha coisas bastante eróticas, [o livro] tem coisas muito ternas”, ressalta o autor, citando como exemplo o conto “Lencinhos”. “Foi algo romântico, que me deu muita satisfação escrever”. Sant’Anna conta que estava em busca de uma coisa “terna” e queria escrever algo capaz de trazer “essa doçura” depois de ter escrito “tanta coisa ‘barra pesada’”.

Nem tudo, porém, é terno neste conto: narra a história em que o protagonista se apaixona pela vendedora de lencinhos que junta dinheiro para o tratamento de câncer do marido. À certa altura, ele próprio reconhece, descamba para o erotismo e a fantasia sexual pura e simples, até revelar-se delicado como os produtos da garota. “O texto tem que calar fundo em você [autor], porque acaba calando fundo nos leitores”, diz Sant’Anna.

Quarenta e cinco anos depois de sua estreia na literatura, Sant’Anna continua fiel ao gênero que adotou desde o primeiro livro, o elogiado “O sobrevivente”. Sérgio Sant’Anna sempre foi conhecido por ter uma obra transgressora e experimental. Hoje, aos 72 anos, reafirma essa condição: O homem-mulher é ousado do começo ao fim, numa reunião de histórias marcadas por homens e mulheres comuns repletos de problemas e pequenas tragédias pessoas e que encontram no sexo um lenitivo contra as suas frustrações.

Sérgio Sant'Anna, autor de "O homem-mulher" e "especialista em contos"

Sérgio Sant’Anna, autor de “O homem-mulher” e “especialista em contos”

Ousado, mas não escrachado, o erotismo aparece ao longo de todo o livro. Por vezes, em situações muito delicadas, como a enfermeira que exibe os seios num ato de solidariedade para um paciente idoso em “As antenas da raça”. Ele brinca: “A literatura exige da libido da pessoa como uma atividade amorosa. O autor pode até se apaixonar pela mulher sobre a qual está escrevendo. Como a gente se apaixona às vezes num sonho e, quando acorda, é uma coisa terrível.”

A mistura de libido e sonho marcam fortemente dois contos: a fantasia sexual em “Lencinhos” e “O torcedor e a bailarina”. Neste, o erotismo aparece de forma muito sutil e quase ingênua.

Em “Amor a Buda”, Sant’Anna comenta a escultura “Tentação”, do chinês Li Zhanyang, que esteve em cartaz na mostra “China Hoje”, no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro, em 2007. É a mesma escultura que ilustra a capa. Diferente do trabalho dos críticos de arte, que frequentemente tropeçam em textos ao tom de “o artista quis dizer”, o autor criou uma verdadeira narrativa entre o Buda e a mulher que são representados na obra chinesa, inventando pensamentos e diálogos para os personagens.

“Eles dois”, décimo conto do livro, é autobiográfico. “Tive uma relação muito apaixonada que acabou em briga descomunal, mas teve um tempo de felicidade muito grande”, conta. Em “Eles dois”, Sant’Anna narra a história dessa paixão em apenas dez páginas. Mesmo sendo autobiográfico, algumas brigas sérias da relação não entraram para o texto, por opção do autor. Alguns detalhes foram acrescentados. “Você pode inventar algumas coisas. O bom da literatura é isso. Você pode mentir”, sublinha.

Contista, sempre

A influência que levou ao gosto pelos contos tem origem em Minas Gerais, onde Sant’Anna conviveu com outros contistas e passou a apreciar a narrativa curta. “Gosto muito de fazer novelinhas também. O ‘romanção’ mesmo não sei se vou fazer algum dia”, diz.

Já o empurrão para se firmar como autor veio bem antes, quando ainda cursava a faculdade de Direito e conquistou o segundo lugar em um prêmio literário, por um de seus contos. “Acho que foi decisivo. Se não fosse isso, pode ser que acontecesse. Mas eu tinha aquela dúvida: ‘será que eu sou bom?’. Se eu for falar dos prêmios que  ganhei na minha vida, o mais importante foi esse”, conta.

Questionado sobre o motivo para escrever textos pequenos e se já houve tentativa de escrever romances, o autor afirma que seu interesse é “escrever um texto até onde ele vai”. “Se o texto, tudo o que eu queria dizer, vai até dez páginas, o texto vai até dez páginas”, revela o escritor, que diz ser um “especialista no conto de médio porte”.

Sant’Anna afirma ter “a cabeça povoada de personagens que escreveu”. Diz que já tem em mente seu novo livro, mas ainda é cedo para que ele apareça. “A cabeça ainda está muito em O homem-mulher. Para escrever outro, acho que isso tem que passar”, diz.

O que está confirmado é a reedição do livro O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro, publicado em 1982 pela editora Ática. Como se trata de uma editora voltada a livros didáticos, Sant’Anna conta que seu livro não teve muitas vendas. O livro será republicado pela Companhia das Letras.

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quarta-feira, 13 de agosto de 2014 Jornalismo, Política | 13:13

“Os candidatos”: Dilma Rousseff, Aécio Neves e Eduardo Campos ganham perfis em livro

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São apenas 64 páginas. Sessenta e quatro bem escritas, consistentes e, por vezes, deliciosas páginas nas quais a jornalista Maria Cristina Fernandes perfila os três principais candidatos à Presidência da República. Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) são os personagens do livro digital Os candidatos, que a Companhia das Letras acaba de lançar pelo selo Breve Companhia.

Breves livros digitais têm sido uma estratégia adotada por algumas editoras para trazer ao leitor temas quentes do momento. Curtos na escrita, rápidos na edição. Na Companhia, foi iniciada em junho do ano passado, com Choque de democracia, de Marcos Nobre, sobre as manifestações de junho, e recentemente com A Copa como ela é, de Jamil Chade.

Os candidatos Maria Cristina Fernandes 64 páginas; R$ 9,90 Breve Companhia

Os candidatos
Maria Cristina Fernandes
64 páginas; R$ 9,90                     Breve Companhia (E-book)

Em Os candidatos, a política é o pano de fundo, o horizonte, a onipresença dos textos. Mas a observação e a análise das vidas de cada personagem são o esteio da autora para produzi-los, incluindo a formação política e literária dos presidenciáveis. O bom jornalismo, sua matéria-prima. Somas essenciais para conhecer um pouco mais de quem comandará os rumos do País nos próximos quatro anos.

Perfis pertencem a uma família jornalística adotada em larga escala, consumida com grande sucesso mas não tão fácil de produzir quanto parece à primeira vista. A revista New Yorker praticamente a inventou, seja no ramo dos perfis de anônimos, seja dos célebres e poderosos. Da divertida, irônica e casta New Yorker do fundador Harold Ross ao modelo heterogêneo adotado por David Remnick, passando pela picante e insolente gestão de Tina Brown, a revista ajudou a celebrizar o valor da reportagem com um quê literário de alta qualidade.

Os perfis de Maria Cristina Fernandes em Os candidatos não têm a vantagem que a New Yorker costuma ter – proximidade e longo convívio com o personagem, algo que João Moreira Salles teve no seu celebrado perfil de Fernando Henrique Cardoso, quando viajou durante onze dias com o ex-presidente pelos Estados Unidos e Europa para escrever “O andarilho” na revista Piauí.

Repórter e analista política

Mas na paisagem um tanto monótona da imprensa brasileira, Maria Cristina Fernandes costuma iluminar o horizonte com incrível competência e precisão.

Editora de Política do Valor, ela assina semanalmente uma coluna de opinião e análise, onde revela algumas de suas melhores qualidades: a profundidade sem os vícios do academicismo; a elegância sem empáfia estilística; a opinião e a análise consistentes, sem os achismos correntes dos colunistas públicos que infestam o jornalismo brasileiro; a sábia abertura para a dúvida, mesmo diante das hiperbólicas certezas a que costumam aderir os colunistas nativos; a honestidade intelectual que, entre a informação e suas opiniões, a faz ficar com a primeira.

Maria Cristina é também uma arguta entrevistadora, como revela em suas participações no programa Roda Viva ou nas reportagens que assina – é o caso dos perfis de Os candidatos. Não daquele tipo de entrevistador que estamos acostumados a ver na mídia brasileira: mais interessado em exibir-se em perguntas de duração eterna e cansativa, ou aquele que segue disparando perguntas, uma atrás da outra, tão atento à próxima e a si que chega a não escutar o que está sendo dito, perdendo assim preciosas chances de ir mais fundo e além.

Maria Cristina Fernandes: elegância sem empáfia

A jornalista Maria Cristina Fernandes, autora de “Os candidatos”: elegância sem empáfia

Essa conjugação rara de repórter e analista transforma Os candidatos numa leitura importante para este período eleitoral. Mostra, por exemplo, como Aécio Neves, conciliador por natureza, muda sua estratégia e parte para a briga. Como Dilma Rousseff, contumaz gestora, arregaça as mangas para se provar uma articuladora política. E como Eduardo Campos tenta projetar em âmbito nacional a imagem de renovação que soube cultivar como governador de Pernambuco.

Até aí, dito assim, nestes termos, nada demais.  Mas composto no texto de Maria Cristina, vêm as nuances, os entreatos, as trivialidades e mesmo os grandes gestos que fazem da política algo tão apaixonante e necessário – e também tão odioso aos olhos do cidadão comum. (Impossível não recordar uma máxima de um mestre do jornalismo político, Janio de Freitas, segundo a qual, no jornalismo político, notícia é tudo aquilo que alguém quer dizer e outro quer omitir.)

Quente e frio, mas nunca morno

Os perfis de Os candidatos não são frívolos, nem grandiloquentes. Não põem o dedo em riste sobre o personagem em questão, nem são puxa-saco. São simultaneamente quentes e frios, o que não quer dizer que sejam mornos. Esse estilo permite à autora ser honesta intelectualmente, elogiosa e crítica ao mesmo tempo.

A Dilma Rousseff, por exemplo, refere-se como uma presidente que pecou pelo excesso de coragem, mas também pelo medo de enfrentar seus erros ao tentar romper o pacto conservador de mudança estabelecido pelo antecessor e criador Luiz Inácio Lula da Silva. E radiografa sua dificuldade de ampliar o diálogo do seu governo “para além dos muros de sua cidadela”.

De Aécio, não se esquiva do assunto das drogas que cercam o candidato e o provoca pessoalmente sobre isso. “É do jogo, tem lendas para todos os gostos, não podia imaginar que chegaria aonde cheguei sem carregar várias delas”, afirma-lhe o tucano.

Sobre Eduardo Campos, Maria Cristina radiografa dois eixos sob conflito de sua candidatura: o Estado gerencial e a herança de esquerda. Dos três, Dilma foi a única que não lhe deu acesso (carência compensada pela clássica prática de ouvir o entorno do personagem).

Da tragédia grega à esbórnia carioca

Como uma excelente leitora que é, Maria Cristina sabe o quão importante é saber os livros de formação de qualquer personagem – e o que eles dizem desses livros nos informa muito sobre o que são e o que pensam. Os candidatos, neste quesito, traz surpresas curiosíssimas.

A principal delas é a eleição, por Aécio, de Noites tropicais, de Nelson Motta, como sua principal leitura, como obra literária que ajuda a entender sua vida. Publicado em 2000, o livro do produtor e crítico musical fala dos festivais de rock em Saquarema, onde Aécio costumava pegar onda no fim dos anos 1970, e das primeiras discotecas. “É o Rio no qual vivi”, define Aécio para Maria Cristina, que escreve:

“A ditadura tinha vencido e virado a página do rock’n’roll e do idealismo hippie. A música agora era feita para dançar em lugares como o Dancin’Days, na Gávea, que daria nome à novela de Sonia Braga, e o Noite Cariocas, no morro da Urca. É um indiscreto relato em primeira pessoa de um meio artístico movido a ‘Música Popular Brasileira’ e a drogas”.

Eduardo Campos cita Infância e Memórias do Cárcere, ambos de Graciliano Ramos. O filho do escritor Maximiano Campos – amigo de intelectuais e artistas de Pernambuco – conviveu também com escritores, mas a praia sempre foi a política também na literatura. “Gostava do ambiente, do debate sobre literatura, arte e música, mas eu não fazia poesia, não escrevia conto. Fui dar palpite quando comecei a ler Celso Furtado e Veias abertas da América Latina [Eduardo Galeano]. Era aquilo que eu queria”, diz o candidato do PSB.

E a empedernida presidente? Ao frequentar um curso de tragédia em 1993, conta o livro, Dilma Rousseff ficou fascinada pela epopeia da conquista do poder de Filoctetes, de Sófocles. Curiosidade: é uma das poucas tragédias gregas sem personagens mulheres.

Conta o livro:

“Melhor arqueiro da expedição rumo a Troia, Filoctetes foi deixado em ilha deserta depois de ser mordido por uma serpente. A ferida no pé e os gritos de dor o relegaram ao abandono e ao isolamento. Dez anos depois, Ulisses, sem conseguir vencer os troianos, manda Neoptólemo, filho de seu maior rival, Aquiles, persuadi-lo a qualquer preço a voltar ao navio. O jovem resiste a mentir para convencer Filoctetes, que, ferido no orgulho, se mantinha altivo na ilha sem querer curvar sua honra àqueles que o haviam desprezado. A honestidade de Neoptólemo o cativa, ele se reintegra à expedição, é curado e volta de Troia como herói.”

Uma amiga de Dilma conta à autora do fascínio da presidente pela oposição entre a ética grega e a judaico-cristã. Ulisses não tinha medo ou culpa de não fazer o bem. Se Filoctetes incomodava, que fosse deixado numa ilha deserta nem que, depois, fosse preciso resgatá-lo. A culpa, porém, não nos deixa agir assim, mas o exercício do poder exige que você a toureie.

 

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segunda-feira, 11 de agosto de 2014 História, Jornalismo, Política | 09:42

Quem está mentindo sobre tortura: Dilma ou os generais?

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Ex-assessor da Comissão Nacional da Verdade, o jornalista Luiz Cláudio Cunha fez recentemente o que poucos jornalistas se atreveram a fazer: leu as 155 páginas do relatório da Comissão Nacional da Verdade, comprovando mortes e torturas em sete instalações militares da ditadura, e as confrontou com a resposta das Forças Armadas, exibidas em outras 455 páginas. Nestas os militares negam tudo o que aquelas apontavam.

Ao ler o que leu, Cunha ficou indignado. Escreveu que o resultado da sindicância militar é “um palavroso, maçante, insolente, imprestável conjunto de 455 páginas que não relatam, de sindicâncias que não investigam, de perguntas não respondidas, de respostas não perguntadas e de conclusões nada conclusivas, camufladas em um cipoal de decretos, leis, portarias, ofícios e velhos recortes de jornais falecidos”.

E se pergunta: “Afinal, quem mente? Dilma ou os generais?”

Dilma é interrogada no tribunal militar em 1970, aos 22 anos

Dilma é interrogada no tribunal militar em 1970, aos 22 anos

Se um diz a verdade, o outro mente

A questão formulada por esse jornalista tinhoso encontra-se num alentado artigo publicado originalmente pelo JornalJá, de Porto Alegre. São quase 20 mil palavras nas quais ele expõe muito mais do que hipérboles, adjetivos e frases de efeito. Luiz Claudio Cunha apresenta dados, mostra contradições, tira dúvidas, acrescenta outras e coloca sobre a mesa do debate questões certas sobre um tema ainda muito mal resolvido no País.

O seu raciocínio central escancara as feridas abertas de uma contradição crônica entre um Exército que nega hoje o que o Exército fez ontem, segundo a própria presidente Dilma Rousseff, hoje comandante suprema das Forças Armadas brasileiras: a tortura que sofreu nas dependências do DOI-Codi em São Paulo, quando era uma jovem estudante de 22 anos e integrante do grupo guerrilheiro Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares (VAR-Palmares), onde era conhecida pelos codinomes de Estela ou Vanda.

Ou por distração ou por canalhice dos militares, argumenta Cunha: os depoimentos na Justiça, a prisão de três anos que sofreu após julgamento na Justiça Militar e os 22 dias de tortura na Tutoia mostram que os dois lados não podem ter razão. “Um está certo, outro está errado. Um diz a verdade, outro não. Um mente de forma deslavada. Quem será?”, disse Cunha à coluna.

O jornalista mostra no artigo documentos do Exército, entre os quais a monografia do então major Freddie Perdigão, homem da Casa da Morte, do Riocentro e da morte de Zuzu Angel, que reconhece 51 mortes na Tutoia. Os generais responsáveis pela sindicância de resposta à Comissão Nacional da Verdade parecem não ter visto documentos como esse. Defendem, ao contrário, a tese de que “nunca houve tortura, nunca aconteceu nenhuma grave violação aos direitos humanos nos quartéis”.

Avanços, negaças e perguntas

O pedido da CNV foi enviado ao Ministério da Defesa no dia 18 de fevereiro deste ano. Era um relatório com documentos, testemunhos e laudos periciais sobre a ocorrência de graves violações de direitos humanos em sete endereços de instalações militares, em São Paulo, Rio, Minas Gerais e Pernambuco. Quatro meses depois, o maçudo relatório militar foi discretamente encaminhado à Comissão pelo ministro da Defesa, Celso Amorim. Era a Copa do Mundo.

Cunha põe o dedo em riste contra os militares, a quem se refere com palavras como “silêncios, omissões e covardias”. Acha que Exército, Marinha e Aeronáutica se mobilizam para um desastrado ataque combinado à verdade, à história e ao País.

Elogia o trabalho da Comissão Nacional da Verdade, onde enxerga “avanços incômodos”.

E abre um questionamento pertinente à presidente Dilma: “Enredada numa dura campanha de reeleição, ela não deve querer marolas à direita. Mas deveria estar mais preocupada com a biografia do que com a eleição. A eleição passa, a biografia fica”, diz à coluna.

No artigo, Cunha faz uma cobrança à presidente, ao dizer que a nação merece um esclarecimento da principal ocupante do Palácio do Planalto, “que um dia circulou como presa pela sucursal do inferno, levou soco na cara, perdeu dente, sofreu hemorragia, passou frio, teve fome e sentiu medo, muito medo”.

Para ele a testemunha mais notável da tortura imposta pelo regime militar e agora negada pelos generais deveria vir a público para dizer, enfim, quem está mentindo: seu depoimento ou o relatório assinado pelos chefes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, que estão sob seu comando? Ou, nas palavras de Cunha, “os generais, que juram inocência, ou Dilma, que jura penitência?”

Leia o artigo de Luiz Claudio Cunha na íntegra aqui. Vale a pena.

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segunda-feira, 2 de junho de 2014 Economia | 09:37

Por que os bilionários são odiados

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Capital_PikettyMaio terminou com a marca de atiçar o debate econômico do século. Ou do ano – por aí. A tradução do francês para o inglês do seu livro O Capital no século XXI alçou o professor francês Thomas Piketty, da Escola de Economia de Paris, à condição de economista mais famoso do momento. Nunca tanta gente importante escreveu em tão pouco tempo sobre uma única obra acadêmica – e o mais curioso, com um tema sobre o qual os economistas parecem enxergar como menor: a desigualdade.

No livro, resultado de 15 anos de pesquisa não só dele mas de um grupo de economistas, Piketty mostra com elegância e clareza que o mundo entrou numa espiral de concentração de renda. As pessoas e os países ficarão mais ricos. Para as nações emergentes, inclusive o Brasil, suspeita-se que crescerão a taxas menores.

Segundo Capital, o mundo caminha em direção a um capitalismo patrimonialista, com a acumulação de renda ininterrupta enquanto persistir uma taxa de retorno financeiro bem mais alta do que o crescimento da economia. Para Piketty, a dinâmica atual de acumulação e repartição de patrimônios conduz o planeta  a uma trajetória explosiva e espirais de desigualdade fora de controle.

A tese cabe numa fórmula: r > g. Simplificadamente, a fórmula informa que toda vez que a taxa de retorno sobre o capital dos investidores (“r”) é maior do que a taxa de crescimento da economia (“g”), o dinheiro herdado cresce mais rápido que a produção e os salários.

Estatística e matemática ao lado de Balzac e Jane Austen

Thomas Piketty não é o primeiro economista a sublinhar que estamos experimentando um forte aumento da desigualdade, ou até mesmo a dar ênfase ao contraste entre o lento crescimento da renda para a maioria da população e os rendimentos altíssimos no topo. Mas faz isso combinando uma incrível elegância de escrita (chega a citar Balzac e Jane Austen) com erudição acessível (algo raro entre economistas), além de um extraordinário levantamento de dados históricos, reunindo informações dos últimos 300 anos.

O que é realmente novo no livro, no entanto, é o modo como desmonta um dos mitos mais amados pelos conservadores: a tese de que o mundo desenvolvido vive uma meritocracia, na qual grandes fortunas são conquistadas e merecidas. Piketty mostra que a maior parte dos bilionários atuais têm fortuna herdada. Muito pouco resultado, portanto, do seu mérito ou de dedicação ao trabalho. Para Piketty, essa não é uma questão menor. As sociedades ocidentais, antes da Primeira Guerra mundial, eram dominadas por uma oligarquia de riqueza herdada – e seu livro argumenta, de maneira convincente, que estamos voltando a esse cenário.

No início do século XX, lembra Piketty, os 1% situados no andar de cima nos EUA e na Inglaterra ficavam com 20% da renda dos dois países. Até 1980 essa riqueza caiu à metade. A partir daí, voltou a crescer e retornou ao ponto inicial. A queda, porém, não se deveu a políticas sociais, e sim às duas guerras mundiais. A partir de 1990 as fortunas dos bilionários voltaram a crescer. Um século XXI com cara de século XIX.

Há quem ache até que um certo grau de desigualdade é economicamente saudável, pois a perspectiva de tornar-se rico claramente leva muitas pessoas a trabalhar com mais empenho. É nisso que acreditam muitos economistas liberais. E muitos ricos, certamente. O inconveniente nessa tese é quando se depara com números como os evidenciados por Piketty: a desigualdade maciça se mostra intolerável e se torna um grave risco para as sociedades. Em seu livro, o professor francês argumenta que a concentração de capital pode chegar a um nível ameaçador para o funcionamento das instituições democráticas.

Muitos aplausos, muitas críticas

O economista Thomas Piketty, autor de "O capital no século 21". Foto: Divulgação

O economista Thomas Piketty, autor de “O capital no século 21”. Foto: Divulgação

Não se desespere se você não leu as 970 páginas da edição original francesa, ou as 685 páginas da versão no inglês e segunda obra mais vendida da Amazon apenas três meses depois de ser lançada nos Estados Unidos. Pode até estar por fora do mais quente debate econômico do momento, pode fazer feio nos jantares inteligentes por não saber quem é a celebridade atual da economia global, pode perder uma das mais ricas e polêmicas análises sobre a desigualdade econômica em muitas décadas. Mas tudo isso será aplacado quando a editora Intrínseca terminar de traduzir a obra para o português.

Por ora, o leitor brasileiro que não se sente pronto para encarar essas edições pode passear pelas resenhas publicadas por grandes economistas. O Nobel de Economia Paul Krugman, professor da Universidade de Princeton, dedicou-lhe enfáticos elogios em resenha no “The New York Review of Books” e em seu blog no site do “The New York Times”. Para Krugman, Piketty escreveu um “livro verdadeiramente soberbo”, um “prodígio de honestidade”, uma obra que vai mudar tanto o modo de se pensar sobre a sociedade como a maneira de fazer economia. Escreveu ainda que “o pânico em relação a Piketty mostra que a direita ficou sem ideias”.

Outro Nobel, Robert Solow, professor do MIT, disse que Thomas Piketty “está certo”, mas sugere a necessidade de um pouco de ceticismo com o livro. Dani Rodrik, da Universidade Princeton, ressaltou que O Capital no século XXI reacendeu “o interesse dos economistas pela dinâmica da riqueza e de sua distribuição” – tema que preocupou, no passado, economistas clássicos, como Adam Smith, David Ricardo e Karl Marx.

Mas Piketty também apanhou bastante. A grita maior veio de conservadores. O mais leve xingamento foi classificá-lo de marxista (embora o próprio Thomas Piketty admita no livro que não leu O Capital, de Marx). A crítica mais enfática foi à solução dada no livro para a necessidade de redução da desigualdade em curso: uma tributação progressiva como forma de limitar a concentração de riqueza; um imposto sobre fortuna de âmbito global com alíquota de até 80% – ideia que o próprio Piketty considera ingênua e difícil de se concretizar. O Wall Street Journal comparou a defesa de Piketty ao stalinismo.

Chris Giles, editor econômico do Financial Times, escreveu que Piketty comete erros nas projeções que faz para épocas nas quais não havia informação, no método que usa para diferentes países e no uso tendencioso das estatísticas para provar sua tese central. A revista The Economist saiu em defesa de Piketty na semana seguinte: afirmou que as críticas de Giles eram questionáveis e muitos dos detratores do livro não tinham se dado o trabalho sequer de lê-lo e ignoravam que a maioria dos dados vinha do World Top Income Database, um índice que ninguém questiona.

Mas não foram só os conservadores que atacaram o livro de Piketty. A esquerda, e em particular a esquerda marxista, criticou-o severamente. Numa das críticas, longe de exagerar o estado das coisas, Piketty teria subestimado a real dimensão da desigualdade.

James Galbraith, da Universidade do Texas, escreveu que a obra tem peso e relevantes informações sobre fluxo de renda, transferência de riqueza e distribuição dos recursos financeiros em alguns dos países do mundo. Mas “não é o trabalho acabado de grande teoria que seu título, extensão e recepção sugerem”. E, sob o ponto de vista da esquerda, lembrou: “Se o coração do problema é uma taxa de retorno sobre ativos privados que está muito alta, a melhor solução é reduzi-la. Como? Aumente o salario mínimo! Isso diminui o retorno do capital que se apoia no trabalho mal remunerado. Apoie os sindicatos! Taxe os lucros das empresas e os ganhos pessoais de capital, incluindo dividendos!”.

David Harvey, outro representante da esquerda, professor da Universidade da Cidade de Nova York (Cuny), elogiou seu relato das diferenças entre renda e riqueza (“convincente e útil”, escreveu) e o modo como Piketty mostra estatisticamente que o capital tendeu a produzir níveis cada vez maiores de desigualdade ao longo de sua história (algo, diga-se, já provado no primeiro volume de O Capital, de Marx). Mas acha que tem erros sua explicação de por que surgem as desigualdades e as tendências oligárquicas; e que suas propostas quanto aos remédios são ingênuas, “se não utópicas”.

De Proust a bilionários vulgares, recuamos no tempo

O Capital no século XXI não seria uma obra importante se não inspirasse tantos elogios e tantas críticas. Acima de tudo, é um bom retrato dos problemas surgidos de uma época de ostentação de riqueza comparada à “Gilded Age” – que foi do fim do século XIX ao início do século XX. A expressão designava nos Estados Unidos uma abastança exuberante, mas superficial. Piketty, porém, fala mais na “Belle Époque” francesa. Esta teve o escritor Marcel Proust; aquela, bilionários vulgares, capazes de copiar castelos e casar as filhas com nobres europeus quase sempre falidos.

 

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domingo, 1 de junho de 2014 Jornalismo, Política | 14:34

Obama e a história de como os EUA adotaram o assassinato como política de Estado em guerras invisíveis

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Nesta semana que passou (dia 28), em discurso a uma turma de formandos na Academia Militar dos EUA, o presidente Barack Obama fez uma ampla defesa de sua política externa, apontou a diplomacia como meio mais eficaz que a intervenção militar e afirmou que mudará o foco da luta contra o terrorismo no Afeganistão para lidar com ameaças mais difusas em outras partes do mundo. Por ameaças difusas, entenda-se não um líder centralizado na Al-Qaeda, mas grupos extremistas filiados à organização, que atuam de maneira pulverizada e atacam alvos “mais difíceis de defender”.

No mesmo dia, Obama disse que o terrorismo “continua sendo a maior ameaça para os norte-americanos” e anunciou a criação de um fundo de cooperação antiterrorista de US$ 5 bilhões. O fundo, garantiu o presidente dos EUA, dará a flexibilidade necessária para realizar diferentes missões, como treinar forças no Iêmen, dar apoio às forças internacionais de manutenção da paz na Somália, trabalhar com os aliados europeus para assegurar a fronteira na Líbia e dar apoio às tropas francesas no Mali.

No mundo pós-George Bush e pós-Bin Laden, os gestos de Obama parecem fazer sentido.

Parecem.

Guerras sujas - O mundo é um campo de batalha Jeremy Scahill Tradução de Donaldson M. Garschagen 840 páginas, R$ 69,50

Guerras sujas – O mundo é um campo de batalha
Jeremy Scahill
Tradução de Donaldson M. Garschagen
 Companhia das Letras, 840 páginas, R$ 69,50

Para evitar mal-entendidos, no entanto, Pensata recomenda o extraordinário trabalho do jornalista Jeremy Scahill: Guerras sujas – O mundo é um campo de batalha, lançado no Brasil em abril pela Companhia das Letras. Scahill é um jornalista tinhoso de Chicago, que hoje vive em Nova York. Colaborador regular da revista The Nation, ele tem, apesar dos seus 39 anos, uma larga experiência  em coberturas internacionais no Iraque, nos Bálcãs e na Nigéria. É de Scahill o prestigiado Blackwater, livro sobre o uso de mercenários no Iraque sob o comando de um radical cristão de extrema-direita.

Em implacáveis, detalhistas e bem escritas 830 páginas, Scahill relata histórias aparentemente desconexas que, reunidas, mostram como as operações secretas se transformaram num novo modelo de batalha – são milhares delas, executadas por unidades que oficialmente não existem e que não deixam registros; sem uniformes coloridos ou estandartes, sem duelos de artilharia, sem trincheiras, sem fronteiras.

O livro revela, com fatos e depoimentos, os padrões de continuidade entre o republicano George Bush e o democrata Barack Obama, sobretudo na concepção mantida segundo a qual “o mundo é um campo de batalha”.

(Desdobramento do livro é o documentário que leva o mesmo nome do título original, Dirty Wars: the world is a batlefield indicado ao Oscar este ano de melhor documentário, exibido em fevereiro no GNT e disponível para quem tem acesso à Netflix dos EUA.)

De Estados-nações a inimigos dispersos

Nos primeiros dias do governo Bush, o foco no terrorismo se centrava nas ameaças representadas por Estados-nações – Irã, Síria, Coreia do Norte e Iraque. Operações secretas, atentados terroristas e assassinatos políticos sempre existiram e depois da Segunda Guerra, sobretudo com a Guerra Fria, intervenções do gênero se tornaram frequentes. Mas não eram dominantes.

Antes mesmo do 11 de Setembro, os neoconservadores instalados de volta ao poder com Bush desejavam restaurar a prática dos assassinatos políticos, a expansão das forças americanas e a criação de unidades operacionais de elite ágeis. Em 2001, a Al-Qaeda propiciou o cenário ideal para colocar em prática antigas estratégias da CIA. Daí porque a investigação de Scahill começa nos primeiros dias de Bush na Casa Branca e chega ao segundo mandato de Obama.

Aos Estados-nações “inimigos”, a diplomacia defendida na semana passada por Obama. Na surdina, contra as “ameaças difusas”, os ataques secretos por drones e o emprego de unidades militares de elite que prestam contas exclusivamente à Casa Branca. Guerras invisíveis, disfarçadas, encobertas, dissimuladas, todas ultrapassando os marcos da legalidade internacional – na concepção de Scahill – e patrocinadas pelo governo norte-americano.

As operações dos serviços secretos do exército dos EUA são raramente registradas quando ocorrem em países como Afeganistão, Iêmen e Somália. Scahill apresenta alguns dos principais responsáveis por grupos como os Sea, Air, Land Teams (Seals), o Comando Conjunto de Operações Especiais e a CIA. O jornalista também viaja o mundo entrevistando agentes secretos, mercenários, líderes de organizações terroristas e parentes de vítimas – um outro lado bastante instrutivo do estado de coisas da política de segurança internacional conduzida por Obama.

O jornalista Jeremy Scahill aponta o dedo em cena do documentário "Dirty Wars", no qual segue o rastro do Comando de Operações Especiais Conjuntas, a mais secreta elite do Exército dos EUA

O jornalista Jeremy Scahill aponta o dedo em cena do documentário “Dirty Wars”, no qual segue o rastro do Comando de Operações Especiais Conjuntas, a mais secreta elite do Exército dos EUA

Marcado para morrer

Jeremy Scahill conta histórias tocantes, como a do cidadão norte-americano, iemenita de origem e muçulmano em seu credo: Anwar Awlaki. Seu filho Abdulrahman, de 16 anos, e Samir Khan, igualmente cidadãos norte-americanos, também entram na narrativa. Em comum, os três morreram assassinados pelo novo paradigma de batalhas na luta contra o “terror”. Dois dos terroristas que participaram do ataque às torres gêmeas frequentavam os sermões de Anwar Awlaki. A vigilância se intensificou sobre ele, que abandonou os EUA e foi morar primeiro na Inglaterra e depois no Iêmen, país de seus ancestrais.

Depois de Bin Laden, Anwar Awlaki passou a ser visto como a maior ameaça aos EUA. Foi aí que ficou marcado para morrer, apesar de nunca ter sido acusado de crime algum.

“Termina agora uma década de guerra”

Em janeiro de 2013, ao tomar posse para seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos, Barack Obama repetiu o que prometera ao iniciar sua primeira campanha presidencial, seis anos antes: virar a página da história e levar a política externa dos EUA a outra direção. “Termina agora uma década de guerra”, declarou no discurso de posse. “Nós, o povo, ainda acreditamos que a segurança duradoura e a paz persistente não exigem guerra perpétua”.

Lorota. No mesmo dia do seu juramento, um drone dos EUA atacou o Iêmen. Foi o terceiro ataque naquele país em três dias. “Apesar da retórica do presidente nas escadarias do Capitólio”, escreveu Scahill, “estava bem claro que ele continuaria presidindo um país em estado de guerra perpétua”. Enquanto fazia seu juramento, sua equipe de contraterrorismo completava a tarefa de sistematização da lista da morte e fixando regras segundo as quais cidadãos americanos podiam ser assassinados. Forças de Operações Especiais estavam em ação em mais de 100 países.

Naquele mesmo início de 2013, um “relatório técnico” do Departamento de Justiça estabelecia a “Legalidade das Operações Letais voltadas contra um cidadão americano”. Segundo os autores do relatório, o governo não precisava ter dados específicos da Inteligência que apontassem para o envolvimento ativo de um cidadão dos EUA numa conspiração terrorista determinada para que sua execução dirigida fosse aprovada. Um “bem informado funcionário do alto escalão do governo” de que um alvo representa uma “ameaça iminente” aos EUA é base suficiente para que se ordene a execução de um cidadão.

Os neocons liderados por Dick Cheney e Donald Rumsfeld não fariam melhor.

Culpados por associação

O governo Obama ampliou o uso de “ataques por indício” e outros sistemas que classificavam homens em idade militar como alvos legítimos, mesmo que sua identidade fosse desconhecida. Os resultados desse conceito de “culpabilidade por associação” se mostraram no aumento de ataques contra mesquitas ou enterros, que segundo Michael Boyle, um ex-assessor de Obama, matam “não combatentes e esgarçam o tecido social das regiões em que ocorrem”.

Ou seja, a “guerra contra o terror”, desfechada por um governo republicano, acabou legitimada e expandida por um presidente democrata e popular.

Um dos segredos de Obama, sabemos, é seu enorme poder de comunicação. Seu governo teve bastante êxito, por exemplo, em convencer a opinião pública dos EUA de que estava travando uma guerra mais inteligente que seu antecessor. A fantasia de uma guerra limpa, mito alimentado por Obama, encontrou um público receptivo. Todas as pesquisas indicavam que os norte-americanos estavam cansados de grandes mobilizações militares no Iraque e no Afeganistão e do número cada vez maior de baixas que isso provocava. Uma pesquisa de 2012 mostrou, por outro lado, que 83% dos norte-americanos apoiavam o programa de drones de Obama.

Com suas viagens, investigações e entrevistas mostradas tanto no livro quanto no documentário, Scahill calcula em torno de 17 mil pessoas mortas até agora, apenas no Afeganistão e no Paquistão. E a lista de alvos humanos vivos, marcados para morrer, não para de crescer.

Essa é uma outra face de Barack Obama – um Obama de carne e osso, anulado por um conservadorismo de bordel (ótima expressão da professora Maria da Conceição Tavares), e não o mito gloriosamente difundido em duas bem-sucedidas campanhas presidenciais.

 

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domingo, 11 de maio de 2014 Mulheres, Poesia | 12:57

5 poemas em homenagem ao Dia das Mães

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Com sua habitual ironia e inteligência, Oscar Wilde escreveu: “Toda mulher acaba por ficar igual à sua própria mãe. Essa é a sua tragédia”. Antes que se interprete a frase como uma heresia neste dia das mães, acrescente-se o que Wilde completou: “Nenhum homem fica igual à sua própria mãe. Essa é a sua tragédia”. Recurso retórico de quem deseja fugir do lugar-comum e da breguice.

Sem medo do inevitável lugar-comum, no entanto, Pensata selecionou cinco poemas nos quais grandes poetas mergulham no amor, na importância e no encanto de ter uma mãe para chamar de sua. Com a palavra, Drummond, Quintana, Leminski, Manoel de Barros e Vinicius de Moraes:


De Manoel de Barros
 

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.


Para Sempre
De Carlos Drummond de Andrade

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
– mistério profundo –
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

 

Mãe…
De Mário Quintana

São três letras apenas,
As desse nome bendito:
Três letrinhas, nada mais…
E nelas cabe o infinito
E palavra tão pequena-confessam mesmo os ateus-
És do tamanho do céu
E apenas menor do que Deus!

 

Mãe
De Paulo Leminski

Minha mãe dizia:

– Ferve, água!
– Frita, ovo!
– Pinga, pia!

E tudo obedecia.

 

Minha mãe
De Vinicius de Moraes 

Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora.  Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fonte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.

Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão. que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe.

 

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