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segunda-feira, 5 de maio de 2014 História | 09:41

Goebbels: narcisista, perturbado, cruel e dependente de Hitler

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Um megalômano, não um lunático. Um obsessivo narcisista, não um símbolo de competência e reconhecimento. Assim é o Joseph Goebbels que emerge das 800 páginas escritas pelo historiador alemão Peter Longerich em Joseph Goebbels, uma Biografia, cuja edição brasileira a editora Objetiva lançou recentemente.

Está ali, claro, o arquiteto da propaganda nazista e a voz de Adolf Hitler, de quem era indissociável. Reafirma-se o homem arrivista e cruel, antissemita assumido (“Odeio o judeu pelo instinto e pela razão”) e desumanamente violento ao defender o extermínio (“Comina-se aos judeus uma pena sem dúvida bárbara, mas eles a merecem”). Também não é a primeira biografia de Goebbels (o alemão Ralf Georg Reuth e os britânicos David Irving e Roger Manvell escreveram outras, e os próprios diários tiveram partes consideradas publicadas em mais de um volume).

Joseph Goebbels - Uma Biografia Peter Longerich Tradução de Luiz A. de Araújo Editora Objetiva 816 páginas; R$ 79,90

Joseph Goebbels – Uma Biografia
Peter Longerich
Tradução de Luiz A. de Araújo
Editora Objetiva
816 páginas; R$ 79,90

Mas Longerich esboça nesta nova biografia um Goebbels bem diferente do poderoso homem do regime que o próprio Goebbels se propagandeou. Surpresa: ao contrário do que se imagina, ele era alijado das principais decisões políticas e militares do Führer. Em boa parte de sua trajetória política no partido nazista, foi usado e abusado de infinita lealdade, além de pouco respeitado pelo próprio Hitler. Não era um conselheiro político de confiança, e sim apenas o chefe de propaganda do ditador.

Longerich mostra que na vida de Goebbels se amalgamavam erros e humilhações, apesar de ser o mais brilhante e eloquente integrante do séquito de bajuladores do ditador. Goebbels viu, por exemplo, sua nomeação para a direção-geral de Propaganda ser procrastinada em 1929. Uma vez conseguida, a nomeação não chegou com os prometidos plenos poderes. Mais: Magda Goebbels, sua mulher, foi amiga pessoal e hóspede de Hitler e, com este, passava semanas sozinha (!). Goebbels engoliu o ciúme por medo e estratégia – o triângulo lhe prometia uma influência inimaginável sobre o chefe.

No livro, Longerich conclui: Goebbels sofria de um grave transtorno de personalidade. Buscava de forma extrema o reconhecimento por parte de outras pessoas. Tinha compulsão à grandeza e ao narcisismo. Tentou compensar, com seu trabalho, a deficiência física (provinda de uma doença da medula óssea em sua infância) e origem em um opressivo ambiente pequeno-burguês. Ele sabia que não encarnava o que julgava ser o modelo ideal do alemão – um gigante atlético com os olhos de safira e cabelos de ouro.

Para chegar a tais conclusões, o historiador recorreu aos 32 volumes que compõem o diário de Goebbels. Em suas anotações de 1924 até o seu suicídio, em 1945, o político registrou pensamentos, observações e acontecimentos, escrevendo assim uma cronologia do nazismo por meio de uma ótica pessoal. O diário foi um presente de Else Janke, sua namorada, uma professora primária filha de mãe judia (algo que o atormentava).

As histórias contidas nas anotações foram então cotejadas com jornais e relatórios de opositores da época. Em outras palavras, o biógrafo usa os diários de Goebbels e seu autorretrato para simultaneamente questioná-los.

Escreve Longerich: “Uma análise mais cuidadosa mostra que a grande quantidade de textos que ele compôs sobre si e a abundância do material com que o aparato de propaganda procurou documentar sua obra contêm, surpreendentemente, muitos pontos de partida para a desconstrução do autorretrato concebido por Goebbels.”

Três papéis

A biografia mostra Goebbels em três diferentes papéis: primeiro, o escritor e intelectual frustrado, convertido em agitador do movimento nazista; segundo, o ministro da Propaganda, dedicado a dar uma orientação coerente e unificada à mídia, à vida cultural e à opinião pública do Terceiro Reich; terceiro e último, o propagandista de guerra e protagonista da chamada guerra total.

Como o próprio biógrafo compara, é como se saíssemos de uma pessoa que preferia se apresentar em casaco de couro proletário para depois vestir ternos escolhidos a dedo e, por fim, exibir-se constantemente com o uniforme do partido, por mais que este realçasse sua prejudicada aparência física.

A porta da entrada da biografia dá-se no ano de 1923. Ali aparecia um Goebbels fracassado e desesperado. Apesar do título de doutor, seu plano de ter um papel destacado, como jornalista ou escritor, mostrava-se furado. Faltava-lhe uma mais refinada cultura burguesa para reorganizar o panorama intelectual alemão – desde o início o homem pensava alto.

Hitler e Goebbels: para o ministro, o Führer era um enviado de Deus; segundo bioógrafo, a relação deu estabilidade à sua vida

Hitler e Goebbels: para o ministro, o Führer era um enviado de Deus, com qualidades sobre-humanas

O engajamento no movimento nacional-socialista salvou-lhe a alma e o tirou da depressão. Nascido na Renânia, região predominantemente católica, Goebbels se afastou da religião desde cedo, e o nacional-socialismo se tornou para ele um substituto da religião. Seu novo redentor? Adolfo Hitler, claro.

O partido e Hitler propiciaram-lhe a ascensão social e o reconhecimento que ele tanto esperava. Assim ele se tornaria o mais leal adepto do Führer e do nazismo. Nessa fixação, assumiu o controle sobre todos os âmbitos da cultura – do teatro ao cinema, da literatura à música.

Encarregado de moldar e irradiar a mensagem nazista, Goebbels ascendeu rapidamente no partido, sobretudo depois de idealizar a queima de livros de autores considerados “subversivos” em praça pública.

A fama e o poder, como se sabe, fazem milagres: aos olhos das belas alemãs, Goebbels passou de fracote medonho a rapagão formoso, engatando frequentes romances com belas vedetes. Retribuiu o prestígio dedicando lealdade inabalável ao Führer – tanto que homenageou o patrão batizando todos os filhos paridos pela esposa oficial, Magda, com nomes que começam com “H” (Helga, Hilde, Hellmut, Hedda, Holde e Heide).

O biógrafo considera essa posição de poder um tanto singular: “Embora ele certamente tenha sido a figura dominante da propaganda nazista, nunca conseguiu controlar absolutamente o aparato. Medido por seus próprios padrões de qualidade, no fundo não foi tão longe”.

Mas a censura e o controle foram longe naquele ambiente nazista. Sem Goebbels, Hitler provavelmente não seria uma “marca”, nem a política nazista teria tido o alcance que teve. Mesmo não tomando decisões-chave, Goebbels defendeu tudo o que se fez. E agia com os olhos na Alemanha e no Führer. Sem tolerância a vozes dissonantes.

Quando este atacou “corruptores da arte”, livrou-se do compositor Paul Hindemith. Goebbels também demitiu Richard Strauss depois que a Gestapo interceptou uma carta dele para o escritor Stefan Zweig, na qual dizia fingir colaborar com o regime. Estatizou o cinema. Proibiu os cabarés. Salvo as de Shakespeare, as peças estrangeiras foram banidas do teatro na Alemanha.

Hitler, um enviado de Deus

A relação com Hitler deu certa estabilidade à sua vida, conta Longerich. “A profunda dependência psicológica com relação ao Führer, o seu amor por ele, que Goebbels confessava repetidamente sobretudo nos primeiros anos da relação, foi o mais propulsor de sua carreira. Ele atribuía a Hitler qualidades de liderança sobre-humanas, considerava-o enviado de Deus”.

Goebbels ficava impressionado com a enorme força de nervos com que Hitler enfrentava as situações de crise ou infundia confiança nas circunstâncias mais difíceis e admirava sua capacidade de desenvolver visões políticas de grande alcance – atributos que faltavam em Goebbels.

Hitler não tardou a se dar conta da dependência psíquica do subordinado, conta o biógrafo de Goebbels. Usou-a sistematicamente nas duas décadas de sua relação. Sabia que, com os elogios, o estimulava aos feitos mais extraordinários; com pequenos gestos de distanciamento, jogava-o em desespero profundo

Ele se fortaleceria no chamado esforço de guerra total – o conceito instaurado nos últimos meses da Segunda Guerra – e também na dissolução da estrutura hitlerista. Vendo a queda de seu ídolo maior, passou a se sentir maior, mais útil e mais importante.

Como se sabe, o suicídio de Hitler provocou também a morte da família Goebbels. O casal Joseph e Magda estava decidido a “pôr fim a uma vida qeu para mim pessoalmente, não tem mais nenhum valor se eu não a puder usar a serviço do Führer e ao seu lado”, conforme as palavras de Goebbels exibidas em nota. Essa decisão era expressa também em nome dos filhos, “que ainda são muito jovens para poder se expressar, mas que, se já tivessem idade para tanto, participariam incondicionalmente desta decisão”.

Vinte e quatro horas depois do suicídio de Hitler e sua mulher Eva Braun, Magda e Joseph Goebbels assassinaram os seis filhos e acompanharam Hitler na morte. Foi o ponto final desesperado a uma vida de identificação incondicional com Adolf Hitler.

Como afirma Longerich, com o gesto Goebbels “fixou para todo o sempre a relação especial com seu ídolo tal como ele a enxergava”. E, ao final, “a mentira da sua vida havia triunfado”.

 

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domingo, 4 de maio de 2014 Filosofia do cotidiano, Literatura | 13:43

Tem um amor não correspondido? Escreva um livro

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A garota de Ipanema, moça cheia de graça e do corpo dourado, é aquela que vem e que passa, não a que fica. Ela é um dos exemplos populares, vindo da música, para um dilema filosófico que atormenta o ser humano desde os antigos: sonhamos com o que nos falta; idealizamos o que não temos ou o que desejamos. A máxima vale não só para o amor, mas para qualquer campo da vida humana. Afinal, o exílio engrandece a pátria. Os pobres não riem da riqueza dos ricos. O cárcere amplifica a força e a beleza da liberdade. O paraíso é a aspiração máxima dos que agonizam no inferno.

Procurando Mônica - O maior caso de amor de Rio das Flores José Trajano Editora Paralela 112 páginas; R$ 19,90

Procurando Mônica – O maior caso de amor de Rio das Flores
José Trajano
Editora Paralela
112 páginas; R$ 19,90

O jornalista e agora também escritor profissional José Trajano não filosofa sobre a existência, mas a história que protagonizou e transformou em livro é uma bela mostra da filosofia do amor. Ou da paixão (ou ainda da paixão amorosa). Pensata chega com atraso a ele (a editora Paralela levou-o às livrarias há dois meses, ou mais), mas eis aqui o reparo ainda que tardio: Procurando Mônica é uma deliciosa, bem humorada, doce e trágica história de uma paixão impossível – um relato real mas com doses de ficção.

A Mônica dessa história é uma paixão mal-resolvida de adolescência no interior fluminense, época e local em que Zezinho, como era chamado, nem sonhava com o jornalismo esportivo que o tornaria conhecido. Paixão mal-resolvida, no fim das contas, pode soar como um pleonasmo. Como diria outro jornalista, Alvaro Costa e Silva, que não é o Xico Sá mas entende do assunto, se é paixão é naturalmente mal-resolvida.

Assim caminha a paixão

Trajano – ou melhor, Zezinho – mal largara as calças curtas para descobrir a paixão nas festas e nos bares de Rio das Flores, onde passava o verão com a família. A pequena cidade já havia sido palco de sua infância, nas férias passadas na fazenda Forquilha, aonde seus pais o levavam desde que era um bebê.

A entrada de Mônica no salão do Clube Recreativo 17 de Março mudaria o cenário da adolescência de Zezinho. Era o Carnaval de 1963. Ele tinha 17 anos. Ela, 13.

Estonteante, fantasiada de pirata, Mônica pisava no salão com a convicção tipicamente feminina de quem sabe que está bagunçando a cabeça masculina. Zezinho passou a noite escorado em uma pilastra, olhando de longe, fazendo o tipo solitário, testando a tática do desprezo – especialidade que costuma dar errado, mas ele fingia que não estava nem aí, como se estivesse apaixonado por alguém ausente, cópia malfeita de James Dean arrastando a asa para Elizabeth Taylor em Assim caminha a humanidade.

“A folia terminou com o dia clareando, e Mônica foi embora antes do fim, para decepção de quem ainda enxergava alguma coisa. Nenhum de nós falou com ela além de alguns minutos. No dia seguinte haveria mais…”

Nas manhãs seguintes, descreve o narrador-Trajano, o programa era ir à piscina do Patronato de Menores. E foi ali, vendo-a à beira da piscina de água barrenta, que ele se apaixonou definitiva e loucamente por Mônica. “Não que Mônica tivesse um corpo escultural. Pelo contrário. Tinha uma discreta bunda, os seios pequenininhos e as coxas um pouco finas. Sua beleza, seu mistério, estava no rosto, mais precisamente na boca, que formava um desenho único, especial. Quando sorria, os lábios ficavam como uma canoa, como uma rede esticada na varanda. Uma luz forte surgia de seus lábios e me hipnotizava”.

(A paixão não nasce de explicações racionais, tampouco de obviedades físicas ou decoro romântico; a paixão surge do inexplicável, sabemos.)

Os anos seguintes sedimentaram a paixão de Zezinho fincada no peito do apaixonado sem que houvesse nenhuma reciprocidade aparente. Descreve-se no livro:

“Durante anos a fio, a população rio-florense – e cada paralelepípedo da avenida Getúlio Vargas, além da cachorrada vadia das ruas, como diria Nelson Rodrigues – sabia de cor e salteado de minha paixão. Eu esperava dela um aviso, um piscar de olhos, um gesto, uma mensagem, um assobio, um ‘oi’ diferente. Nada!”

Como todo amor impossível, Mônica fez gato e sapato de Zezinho. Ignorou-lhe a presença em todas as férias seguintes, não deu bola nem sequer quando ele quase se afogou para encontrá-la.

A frustração definitiva

O ápice da narrativa – e da paixão de Zezinho – deu-se no fim de 1967, ele já um jornalista de redação. Ali o moço apaixonado soube que Mônica passaria dois meses em um cruzeiro pela Europa. Trajano não fraquejou: pegou empréstimo no banco, conseguiu folga no Jornal do Brasil e comprou sua passagem.

Não são muitos os apaixonados que, conduzidos por uma paixão, correriam o mundo para localizá-la e tentar um reencontro maluco. Mas Trajano é um deles.

Era chegada sua hora? Talvez sim, se não aparecesse na história Cadu, rival que conquistou Mônica. Depois do desembarque, Trajano a perdeu de vista.

No ano passado, Trajano resolveu que era hora de registrar a história do amor impossível em livro. Uma história cujos detalhes os amigos ouviam repetidamente há 40 anos passaria ao crivo do público, e o resultado está em Procurando Mônica – o maior caso de amor de Rio das Flores.

Esperto, o autor usa recursos típicos de quem deseja enganar o leitor: sua narrativa contém elementos que deixam o leitor sem saber tratar-se de algo efetivamente real ou se há detalhes puramente ficcionais. Como ficção ou como real, o resultado é adorável.

Com o livro quase concluído, Trajano descobriu uma pista do paradeiro de Mônica – e incrivelmente a história acabou ganhando mais um capítulo. Final feliz com o reencontro de ambos? Não convém contar aqui.

Mas a (re)visita à história deixa claro outro componente inevitável da paixão amorosa: a explicitação pública do caso  constitui o retrato não só do alvo de uma paixão (Mônica, claro), mas também do alvo que o apaixonado fantasiou por todos esses anos.

Um desejo que se apóia só em si mesmo

Fantasia que se manteve viva e em corrida paralela ao mundo “real” de Trajano.

Como se sabe, ele se tornou um dos principais comentaristas esportivos do País. Casou-se duas vezes e teve filhos. A propósito, num de seus aforismos, Nietzsche diz que “o casamento foi inventado para os seres humanos medianos, que não são aptos nem para o grande amor nem para a grande amizade, portanto para a maioria. Mas também para aqueles, raríssimos, que são aptos tanto para o grande amor quanto para a grande amizade”.

Durante muito tempo, de uma maneira que remonta às mais antigas relações entre a ideia de amor e a de casamento, o princípio da paixão se opõe ao do matrimônio, como o da estabilidade da órbita dos planetas se opõe ao desgarramento e à ruptura. Foi só a partir do século XVIII que se sancionou, jurídica e religiosamente, o casamento por amor.

A nossa herança ocidental contém a expectativa de conciliação entre a singularidade errática do amor-paixão com a estabilidade duradoura do casamento. Mas, como afirmou José Miguel Wisnik num texto de longa data sobre a paixão, o acorde entre o desejo de permanência (onde se inscreve o amor) e o fato de que essa permanência não pode se apoiar em nada senão no seu próprio desejo de permanência é um desafio aberto. Uma luta constante, mutável, irracional.

Gilberto Gil tem uma letra apropriada sobre isso, Drão, na qual se canta “[…] não pense na separação/ o verdadeiro amor é vão/ estende-se infinito/ imenso monólito/ nossa arquitetura/ quem poderá fazer/ aquele amor morrer/ nossa caminhadora/ dura caminhada/ pela estrada escura”. É a trama mortal do amor, embevecida numa tradição de alguém imerso na falta, no aniquilamento que o amor contém: “Quem poderá fazer aquele amor morrer/ se o amor é como um grão/ morre e nasce trigo/ vive e morre pão”.

 

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terça-feira, 22 de abril de 2014 Jornalismo, Política | 10:04

Watergate: o caso que nos fez amar um escândalo político

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Numa tarde de abril de dois anos atrás, o diretor de Redação de uma célebre revista semanal brasileira declarou, na condição de professor-visitante do curso de pós-graduação da ESPM-SP: “Tratamos o governo Lula como um governo de exceção”. A plateia ouviu espantada.

Veja bem: sua doutrina era a de que se estava diante de uma trepidante usurpação democrática. A revista enxergava ali um governo de vocações autoritárias que, portanto, merecia um tratamento de exceção. A esse tratamento o jornalista Alberto Dines batizou de vale-tudo.

Mais preciso impossível. Afinal, num governo de exceção vale tudo. Também no jornalismo de exceção.

Todos os homens do presidente Carl Berstein e Bob Woodward Tradução de Denise Bottmann 424 páginas; R$ 69,90

Todos os homens do presidente
Carl Berstein e Bob Woodward
Tradução de Denise Bottmann
424 páginas; R$ 69,90

A vigência de doutrinas como essa é uma das razões da importância da nova edição no Brasil do livro Todos os homens do presidente, da dupla Carl Bersntein e Bob Woodward, lançada em março pela editora Três Estrelas (selo editorial da Folha). A edição tem tradução de Denise Bottmann, introdução de Eugênio Bucci e posfácio de Otavio Frias Filho – todos impecáveis.

Fora de catálogo no Brasil desde os anos 80, trata-se de um clássico do jornalismo: a investigação jornalística mais famosa da história, que cobriu o caso Watergate e ajudou a derrubar o presidente dos EUA, Richard Nixon. O livro foi lançado em 1974, pouco antes de Nixon renunciar, e ganhou o Prêmio Pulitzer daquele ano.

Escrita a quatro mãos, mas como de um narrador externo, a narrativa é intensa, reforçada ao leitor brasileiro pela ótima tradução. Lê-se as 442 páginas como um romance de espionagem de estilo seco e direto.

De um assunto de polícia para um caso político

Para quem não tem a obrigação de lembrar: na madrugada de um sábado, 17 de junho de 1972, cinco homens foram presos pela polícia dentro da sede nacional do Partido Democrata, no opulento edifício Watergate, em Washington. Com os invasores foram encontrados equipamentos de escuta clandestina, câmeras e filmes fotográficos. Um deles declarou ser ex-agente da CIA, o serviço secreto do governo dos EUA.

Conhecido pela primorosa cobertura de assuntos locais, o jornal Washington Post escalou dois jovens repórteres da editoria de Cidades para acompanhar a investigação sobre o arrombamento. Bob Woodward tinha 29 anos. Fora contratado nove meses antes, depois se graduar por Yale e servir na Marinha como tenente. Carl Bernstein era um ano mais novo, porém bem mais experiente.

Os dois exibiam personalidades distintas e quase sempre antagônicas. Bernstein era politizado, criativo, liberal (no sentido norte-americano, ou seja, progressista) e escrevia melhor; Woodward era mais disciplinado, conservador, metódico e tinha acesso à mitológica fonte que orientou o trabalho de ambos, o personagem Deep Thorat (Garganta Profunda).

O apelido dado pelo secretário de Redação do Post, Howard Simons, surgiu do fato de que o amigo de Woodward só admitia conversar em deep background (bastidor profundo). Garganta profunda, como se sabe, era o título do mais célebre filme pornô da história, lançado justamente naquele 1972.

(A identidade da fonte só seria descoberta em maio de 2005, quando a revista Vanity Fair publicou artigo de um advogado amigo da família de Mark Felt, então com 91anos, confirmando-o como o Deep Throat. Ele fora um devotado agente do FBI, que subiu na hierarquia até chegar a diretor.)

Woodward e Bernstein podiam não se bicar, mas a partir da segunda reportagem todos os textos que fizeram sobre o caso levaram a assinatura da dupla – por isso apelidada de Woodstein no jornal. Os dois acabaram construindo uma parceria em que as qualidades de um corrigiam os defeitos do outro.

Um modelo canônico

Como afirmou Frias Filho, é tão profunda a marca deixada por Watergate que o nome se tornou sinônimo de escândalo político. Até hoje muitas fraudes na gestão pública recebem o acréscimo da terminação gate quando tornadas públicas, eco distante da crise que há quase 40 anos compeliu à inédita renúncia de um presidente norte-americano e reforçou as prerrogativas da imprensa no sistema de pesos e contrapesos da democracia.

Mais: desde então jornalistas de todo o mundo se inspiram no modelo de apuração que os jovens repórteres do jornal Washington Post encarnaram por dois anos: a atitude inquisitiva diante da autoridade pública, o recurso a fontes não identificadas, a regra de checar todas as informações com pelo menos duas diferentes fontes, a condução de investigações autônomas, a consulta a documentos e provas materiais, o uso combinado de pistas com policiais e promotores e o dever de registrar a versão da parte acusada, entre outras lições.

Nenhum dos tópicos desse modelo foi inventado por Bernstein e Woodward, mas se tornou canônico no jornalismo depois do caso Watergate.

Bernstein e Woodward: modelo de apuração

Bernstein e Woodward: modelo de apuração

Desvios de rota inesperados

De boas intenções, ensinou São Bernardo, o inferno está cheio. Se a cobertura daqueles dois anos e o livro Todos os homens do presidente redefiniram a imagem pública do jornalista e ajudaram a criar alicerces consistentes sobre os destinos do jornalismo, da liberdade e da ordem democrática, também produziram legados indesejáveis, certamente não imaginados pela dupla Woodstein e pelo lendário editor-executivo do Post, Benjamin Bradlee.

Primeiro: derrubar presidentes, primeiros-ministros e políticos em geral converteu-se em obsessão de jornais e jornalistas (e, sobretudo, opinionistas). Isso produziu excessos, afeição especial a “escândalos políticos”, vícios de toda ordem expostos no afã de denunciar malfeitos com o dinheiro público. No Brasil, um exemplo foi o próprio caso que levou à renúncia e à abertura do processo de impeachment do então presidente Fernando Collor. Foi fácil defenestrá-lo, mas os métodos empregados nem sempre foram os mais apropriados.

Segundo: não raro jornalistas sonharam sair da obscuridade imediatamente para os holofotes. Daí a inevitável pressa de chegar a algum lugar, sem paciência para gastar anos e anos com leitura, estudo, preparo. Com isso a imprensa não deixou de atender às necessidades simplificadas do leitor médio, mas perdeu em substância.

Terceiro: como disse há algum tempo o jornalista Janio de Freitas, há, entre os jornalistas, uma farta dose de amargura, alimentada em grande parte por um ilusório sentimento de importância, que não suporta o mais tênue contato com a realidade. Sobretudo na política. A proximidade com o poder serve para aumentar o autoengano do jornalista. Ele se sente poderoso, e muitos mergulham num sentimento de quem se acha sedutor o suficiente para atrair o poder. Mas a relação com a elite política faz apenas agigantar as diferenças e tornar sua reentrada na atmosfera da realidade ainda mais sofrida.

Quarto (extensão dos dois primeiros): o vale-tudo permitido na internet muitas vezes ignora os princípios universais do jornalismo. Alguém já escreveu em algum lugar que é como uma espécie de orgia romana das palavras, um porre opiniático que desmerece a relação entre fato, jornalismo e leitor.

No reino livre da internet, essa orgia é aplacada pela pluralidade, diversidade e fragmentação do alcance que a rede produz. No caso da chamada “grande imprensa” – embora cada vez menor e com menos poder de persuasão – o risco só se torna relevante quando engendra artimanhas para mobilizar agentes públicos, como políticos e empresários, por exemplo. Nos dois casos, reafirma-se a máxima criada no século XIX por Honoré de Balzac, segundo a qual os jornalistas são “espadachins da reputação alheia”.

(Desde Balzac, a propósito, o jornalismo é maltratado pela literatura, pelo teatro e pelo cinema. Vingança contra sua capacidade de multiplicar informações e ideias? Castigo contra seu poder? Ao leitor, a dica para ler ou reler Ilusões perdidas, que o próprio Balzac considerava a obra capital de sua Comédia humana. É maravilhoso – e arrasador – o percurso do protagonista Lucien de Rubempré, que deixa província honrada para buscar a glória numa Paris viciada. O jornalismo aparece ali como destruidor das ilusões. Sem idealismos, nem arte.)

Tanto os profissionais que hoje se tornaram representantes do território livre da internet quanto aqueles que integram a mídia tradicional deveriam ler ou reler Todos os homens do presidente. E não só pelo trabalho dos repórteres Carl Bernstein e Bob Woodward, cujo reconhecimento recebido é merecido.

Janio de Freitas escreveu há algumas semanas, com brilhantismo: o grande espetáculo que o caso Watergate oferece é a batalha, no Washington Post, pela aliança do jornalismo destemido com o rigor sem concessão a meias informações e às formas fáceis de sedução do leitor. Atributos em falta no jornalismo brasileiro atual.

 

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sexta-feira, 18 de abril de 2014 História, Literatura, Política | 11:59

“Hoje as pessoas têm muito mais liberdade em Cuba”

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Cuba está mudando. Pequenas mudanças, é certo, mas muitas o suficiente para, somadas, transformarem-se numa grande mudança. A estrutura do País pode ser a mesma, o sistema de partido único – o Partido Comunista acima de todas as coisas – continua vigente, os problemas e contradições seguem intensos, mas mudanças na economia e na realidade social vão provocar, cedo ou tarde, significativas mudanças políticas.

Cumprindo a sina de quase todo artista cubano quando está fora de seu país, o escritor Leonardo Padura precisou analisar o passado, o presente e o futuro de Cuba a partir do regime implantado pela revolução cubana, há mais de 50 anos. “Apesar dos problemas e limitações, hoje as pessoas têm muito mais liberdade de expressão do que tinham há alguns anos”, disse Padura.

É dele a avaliação das mudanças em Cuba, expressada esta semana, quando esteve na Casa do Saber do Rio, ao lado do colega brasileiro Frei Betto – foi um rico e bem humorado bate-papo sobre romance O homem que amava os cachorros, lançado no Brasil pela Boitempo Editorial.

Padura fez um périplo no Brasil nos últimos dias: primeiro esteve em Brasília, na Bienal Brasil do Livro e da Leitura; em seguida em São Paulo, num bate-papo com o escritor Ricardo Lísias, da jornalista Sylvia Colombo e do historiador Gilberto Maringoni. Por fim, no Rio com Frei Betto, com participação ainda do jornalista Leonardo Cazes, de O Globo.

No último, à certa altura, perguntado por que continua a viver em Cuba, apesar das dificuldades enfrentadas pelo país e das limitações de liberdade, por exemplo, Padura respondeu: “Moro em Cuba porque sou cubano”, seguido por muitos risos da plateia que lotou o auditório da Casa. “Vivo na mesma casa onde nasci, onde meu pai e meu avô viveram. Sou fundamentalmente um escritor cubano”, emendou, reconhecendo o vínculo não somente intelectual, mas também sentimental com o lugar em que se sente melhor para escrever.

Romance investigativo de fundo histórico

O homem que amava os cachorros Leonardo Padura Tradução Helena Pitta Boitempo Editorial 590 páginas; R$ 69,00

O homem que amava os cachorros
Autor: Leonardo Padura
Tradução: Helena Pitta
Boitempo Editorial
590 páginas; R$ 69,00

E como Padura escreve… O homem que amava os cachorros é um exemplo de uma literatura extraordinária. Nas quase 600 páginas da edição brasileira, o escritor narra magistralmente as trajetórias do líder soviético Leon Trotski (1879-1940) e de seu algoz, o militante espanhol Ramón Mercader. É um livro de ficção que narra fatos históricos, reais. Segue, portanto, a tendência contemporânea de romances investigativos de fundo histórico, mesclando ensaio, testemunho pessoal e realidade.

Ápice até aqui de sua literatura, O homem que amava os cachorros o levou à condição de um dos grandes escritores de língua espanhola – sendo comparado ao catalão Manuel Vásquez Montalbán. Nenhum exagero na comparação.

A referência onipresente a Cuba em todos os debates dos quais participou no Brasil não é gratuita. No pleno voo de uma imaginação ficcional conjugada com o rigor da pesquisa histórica, Padura transporta o leitor pela política dos anos 30 e 40 até Cuba dos nossos dias, depois do desmoronamento do bloco soviético.

“Quis utilizar a história do assassinato de Trotski para refletir sobre a perversão da grande utopia do século XX, esse processo em que muitos investiram as suas esperanças e tantos de nós perderam sonhos, anos e até sangue e vida”, explicou. É, portanto, uma obra de inquietação e desencanto com as utopias desfeitas pela realidade.

Antes que os anticastristas e chatos em geral se animem, convém alertar que, embora crítico da utopia socialista e cubana, Padura não adota maniqueísmos – atributo que faz do livro uma alta literatura.

Sua virtude foi não escrever um livro linear. Não fez de ninguém herói ou vilão. Retrata a sociedade cubana com vigor e talento ao mostrar as contradições do que significa a  tentativa de construção de uma sociedade socialista. Desmascara a vilania, o desrespeito, a violência desmedida e injustificável dos quais o socialismo não está livre.

Desmistifica a ideia poética de revolução – como disse Breno Altman num dos debates sobre o livro, promovido pela Boitempo em São Paulo, uma revolução é rara na história porque produz um preço muito alto em matéria de ruptura, estresse social e destruição, algo que poucas sociedades se dispõem a pagar.

Mas Padura faz tudo isso dando relevo ao que os personagens têm de humano. E como toda humanidade, repleta de contradições, complexidades, verso, reverso e anverso.

Mais política, menos arte

“Tenho pena de vocês, escritores cubanos”, disse-lhe Frei Betto no debate no Rio. “São vistos mais como pró ou contra o governo de Cuba do que como criadores de uma obra de arte. Você deve sofrer isso em muitos lugares”, completou, ao ressaltar que Padura não escreve para “dar recado”, e sim para pôr personagens dentro de “valores sérios, como a liberdade humana, a participação política, o amor, a diferença”.

Amigo de Fidel Castro, Frei Betto passou mais de uma década viajando anualmente a Cuba.  Durante o período construiu pontes entre o governo e a Igreja Católica cubana. Nenhum dos dois lados se bicava até o início dos anos 1980. Os bispos eram alguns dos maiores adversários de Fidel. Hoje Frei Betto concorda com o diagnóstico de Padura sobre as grandes pequenas mudanças de Cuba. Ele as vê de forma positiva, mas com preocupação:

“O principal inimigo não está fora de Cuba, não é o bloqueio econômico nem os EUA”, disse. “O maior inimigo é o absenteísmo, o autoritarismo, a dificuldade de reinventar e recriar a revolução cubana. Temo que Cuba venha a se tornar uma mini-China, guardadas todas as devidas proporções”. Por “mini-China” leia-se: um governo de caráter socialista com uma economia capitalista, capaz de trazer à sociedade cubana uma “série de anomalias”.

Trotski x Stalin

O escritor cubano Leonardo Padura: "A literatura é o reino da liberdade"

Leonardo Padura: “O romance é o reino da liberdade”

Leonardo Padura tinha 34 anos em outubro de 1989, momento em que o Muro de Berlim se inclinava perigosamente até começar a desmoronar e, semanas depois, desmilinguir-se. Padura acabara de visitar, na Cidade do México, a casa onde viveu e morreu Trotski. Transformada em museu, a casa parecia uma prisão, uma fortaleza onde a mão de Stalin foi capaz de chegar para assassiná-lo. O jovem escritor decidiu ali escrever um romance tendo Trotski como personagem.

Àquela altura, um dos principais líderes da Revolução Russa de 1917 ainda era um personagem desconhecido para a maioria dos cubanos da geração de Padura: quando Stalin se transformou no senhor absoluto da União Soviética e principal líder do que se convencionou chamar de movimento comunista internacional, Trotski virou o mais destacado dos hereges de um regime que não admitia dissidências. Tentou lugar com Stalin pela liderança da União Soviética após a morte de Vladimir Lênin em 1924. Perdeu, exilou-se em 1929 e se transformou no capeta em forma de gente pelo alto comando do Estado soviético. Estava marcado para morrer.

Até ali uma espécie de protetorado soviético, Cuba havia apagado dos cubanos qualquer vestígio de documento ou estudo sobre Trotski. “Em Cuba, não nos permitiam conhecer quase nada de Trotski”, lembra Padura, “e a única coisa que sabíamos é que tinha sido o grande inimigo da revolução, o grande traidor dos ideais bolcheviques. Isso despertou minha curiosidade”.

O romance, porém, só estaria pronto dez anos depois.

Uma trama policial com desfecho conhecido

Se um personagem é Trotski, sua saga errante no exílio até instalar-se no México, outro é o narrador, Ivan Cárdenas Maturell (o homem que amava os cachorros e, este sim, personagem fictício), vítima de uma atmosfera sufocante e de uma utopia frustrada. Para ele, porém, resta a esperança de que alguma vez a utopia inalcançada seja reconstruída.

O terceiro personagem-chave é, claro, o assassino de Trotski: Ramón Mercader (1914-1978), agente espanhol comunista que se infiltrou na casa do soviético na Cidade do México e cravou-lhe uma picareta na cabeça em agosto de 1940.

Soa curiosa uma trama policial cujo desfecho – o assassinato de Troski e suas circunstâncias histórica – é conhecido por todos. O talento ficcional de Padura salva o romance de um possível dilema de previsibilidade. Mesmo talento que o faz não tratar Mercader de maneira maniqueísta. Ele é algoz mas também é vítima.

Mercader era um lutador antifascista, tipo comum na Europa dos anos 1930. Participava da Guerra Civil espanhola quando foi selecionado pelos órgãos de inteligência soviéticos. Era um lutador normal convertido em outra pessoa, segundo Padura.

Mas Mercader não era um mero assassino de aluguel, um fanático a serviço das causas autoritárias de Stalin. Ele sabia o que estava fazendo e o fez por convicção e vontade. Foi um dos típicos militantes comunistas supostamente de boa-fé, acreditando que cumpriam uma exigência história para o desenvolvimento e triunfo da ideia socialista. Com isso, chegaram ao fanatismo e ao assassinato – Mercader e muitos outros.

Como afirmou Frei Betto no debate com o escritor cubano, a fé fundamentalista dos militantes comunistas é semelhante ao fundamentalismo religioso. Na União Soviética – país que visitou quatro vezes – constatou algo surpreendente: os revolucionários apenas haviam trocado o czar russo pelo secretário-geral do Partido Comunista. “A fé na autoridade passou a prevalecer sobre a fé na verdade”, disse. Para ele, Cuba nunca deu espaço para o pensamento fundamentalista, apesar de pagar todo o tributo que pagou à União Soviética.

Frei Betto garante que em Cuba não há mais hereges ou acusações, ameaças e punição a dissidentes. Padura reforçou: hoje há mais liberdade em Cuba. No seu argumento, até os anos 80 e 90, O homem que amava os cachorros não seria publicado por lá e possivelmente ele teria sido expulso do emprego. Tampouco ganharia prêmio no país, como ganhou – feito inédito em sua geração.

Sejamos simpáticos ou não à utopia cubana, é preciso reconhecer, no entanto, que a liberdade ainda incipiente faz naufragar a utopia do projeto da revolução tanto quanto o não cumprimento das expectativas criadas em torno dela.

 

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segunda-feira, 14 de abril de 2014 Economia, Política | 08:59

Sem utopias e com violência, o ano vai ser difícil, diz a economista Maria da Conceição Tavares

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A professora Maria da Conceição Tavares completará 84 anos no próximo dia 24. Ao seu modo, com um olhar sobre a economia brasileira, muitas hipérboles e uso desenfreado de palavrões, a economista costuma soltar sua birra contra os céticos – gente desabrida que, nos últimos anos, não enxergou as mudanças de um Brasil de pleno emprego, salário mínimo elevado e melhor distribuição de renda com ascensão social das bases (e lixe-se a questão se temos PIB ou “pibinho”).

Diz ter deixado de ler economia para não se irritar com o “festival de besteira”, admite possivelmente estar ultrapassada e velha e, há pouco tempo, afirmou que não dá para ser nem ultraotimista nem ultrapessimista, mas “moderadamente otimista”.

InteligenciaNum belo depoimento à revista Insight-Inteligência, no entanto, Maria da Conceição Tavares mostrou-se menos moderadamente otimista do que admite. “As pessoas estão perdidas, não sabem como se guiar do ponto de vista político, econômico”, afirmou à revista, cujo versão em blog é parceira do iG. “E com isso a história parece que não se move. O futuro fica ilegível, amorfo”.

É um desabafo a se enxergar não o estreito limite de 2014, da sucessão presidencial ou da avaliação de um governo. Antes, trata-se de um despejo de sombra sobre nossa época, o que ela chama de “era das distopias”.

A professora usa palavras conceitualmente duras para definir esses tempos fraturados (expressão emprestada do historiador marxista Eric Hobsbawn) e vê pouca luz na produção intelectual. O mundo reformista vai mal, e o mundo revolucionário também, afirma Conceição. Diz ela:

 “O pensamento social está muito atrasado, muito desminliguido. O pensamento reformista sumiu. Agora, o que há é uma espécie de naturalismo. (…) Naturalizou-se uma concepção de vida social a respeito da qual se passou um século inteiro combatendo. Mais: ao contrário do século XX, que organizou as massas, os sindicatos poderosos, organizações internacionais festejando o progresso, agora todos os interesses se fracionaram, se fragmentaram,”

Sem movimentos utópicos

Para a professora, a história não ilumina mais o futuro, na forma de uma ideologia. Desde o século XVIII, os movimentos políticos, sociais e econômicos deixaram de se orientar pela ideia de tradição, substituindo-a pela convicção de um futuro diferente e melhor. A história tinha um sentido, um objetivo, uma utopia: criar uma sociedade mais livre e igualitária.

O século XIX foi pautado pela busca da liberdade – liberdade do indivíduo, liberdade política, liberdade econômica. Depois, no século XX, veio a busca pela igualdade. Da Revolução Francesa e a promessas de liberdade do século anterior à Revolução Russa e a promessa do reino da igualdade.

Essa orientação histórica dupla – de um lado a liberdade; do outro a igualdade – acabou no final do século XX, conclui a professora. “A história deixou de iluminar o futuro para os economistas, os políticos, os ativistas”, disse ela à Inteligência. “As vanguardas desapareceram. Com o esboroamento das utopias, esvaíram-se também as ideias de socialismo, do Estado de bem-estar e o planejamento econômico”.

Ou seja, o mercado e o neoliberalismo mostraram-se incompatíveis com a ideia de sociedade organizada e de Estado planejador. Os antigos receituários perderam seu sentido. “Vemos a sociedade mexer-se, mas a forma superestrutural de fazer política parece não andar para lugar nenhum”.

Um exemplo? “Como se elege um negro nos Estados Unidos e não acontece nada?”, questiona Conceição. “Era para ter acontecido, bem ou mal, uma mudança de paradigma, de comportamento social”.

A presidente Dilma Rousseff entrega Prêmio Almirante Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia à professora Maria da Conceição Tavares: "Parece que tudo se esvai no arroz com feijão"

Maria da Conceição Tavares recebe da presidente Dilma Rousseff Prêmio Almirante Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia: “Parece que tudo se esvai no arroz com feijão”. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

O ódio no lugar da utopia

Planejamento pode significar um palavrão para liberais e neoliberais, mas a dificuldade, segundo ela, é pensar um guia de ação: “Parece que tudo se esvai no arroz com feijão”. Não há um plano no governo, mas também nos sindicatos – “todos aparvalhados” – e na classe média. “Não sei até que ponto o povo propriamente dito precisa de utopia. Mas a classe média precisa”, afirma a professora. “Não tendo, ela transforma sua mágoa em ódio”.

Segundo ela, quem promove a violência hoje não são os deserdados da terra, para quem as coisas melhoraram. A violência vem da classe média baixa. “Não tem energia utópica, só através da violência. Não tem utopia, só distopias. É só o aqui, agora; quero derrubar isto, quero derrubar aquilo. Não tem um objetivo programático”.

Conceição chama de “manifestações de araque” e acha tudo “coisa esquisitíssima, enlouquecida”. É uma fragmentação que, segundo ela, afeta partidos políticos, sindicatos e todas as demais organizações da sociedade que levaram muito tempo para serem criadas. “Esses garotos de merda vão para o pau pedir o quê?”, questiona, referindo-se aos “máscaras negras”, os black blocs.

Se os garotos de máscaras são “repugnantes”, a imprensa também não diz nada, completa. “Faz uma confusão” e torce “para que haja morte de um menino desses”.

Transição ou apodrecimento?

“Acho difícil saber para onde vamos”, afirma a professora. “O que ocorre hoje pode ser uma transição ou um apodrecimento. Transição não sei para o quê, porque não há uma utopia prévia”.

Conceição se vê diante de uma sensação de impotência, coisa de quem foi uma adolescente na primeira metade do século XX, uma época mais organizada em matéria de proposição.  Hoje, ela admite, parece difícil enxergar causas capazes de servir a tantos interesses fracionados. “Diga-me um autor relevante que não esteja pensando dessa maneira, prostrado pela falta de alternativas? Não há ousadia em nada, pelo menos do ponto de vista do pensar”.

Por isso, diz ela, não gosta de dar entrevistas: “Não quero engrossar o coro de lamentação dos intelectuais”.

A idade do ceticismo

Pode ser a idade, como ela diz, mas nos últimos tempos a professora nunca se mostrou exatamente otimista. Nem com os políticos, nem com os economistas, nem com os intelectuais.

Tive o privilégio de visitá-la três ou quatro vezes em seu apartamento, no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Sempre com a companhia de um amigo comum, o jornalista Luiz Cesar Faro (o artífice dos encontros, diga-se), as entrevistas destinavam-se a colher depoimentos sobre dois liberais – o economista Eugênio Gudin e o jurista Bulhões Pedreira – e um economista de quem foi discípula, o argentino Raúl Prébisch.

Em todos os encontros era inevitável tentar arrancar da professora análises sobre a conjuntura, o governo de plantão e o embate político-econômico do momento. Nunca faltaram palavrões contra alguns dos adversários e lamentos pelos intelectuais. (Uma vez afirmou que não sabia onde se escondiam os jovens intelectuais capazes de exibir ideias inovadoras).

No Brasil desde 1953, quando desembarcou aos 23 anos de idade e se deixou envolver pelo otimismo brasileiro daquela década e pela intelectualidade carioca, a portuguesa se apaixonou pelo Brasil, pelo sonho de Brasília, pela Bossa Nova e pelo desenvolvimentismo.

Desde então participou de quase todas as polêmicas econômicas, do Brasil e da América Latina. Ajudou a formar diversas gerações de economistas, sendo professora de Dilma Rousseff, José Serra, Pedro Malan e Aloizio Mercadante, entre outros. Foi aluna de economistas de visão radicalmente oposta à sua, como Octávio Gouvêa de Bulhões e Roberto Campos.

Por tudo isso, não é bom presságio ver uma pensadora provocadora e apaixonada enxergar um “futuro amorfo” para a nossa era. O melhor da professora, porém, não é quando ela dá uma de pitonisa. Mas há um alento: ela acha que esse ciclo vai passar – não se sabe quando, mas torce que não seja longo.

Leia o artigo de Maria da Conceição Tavares publicado na revista Insight-Inteligência na íntegra.

 

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segunda-feira, 7 de abril de 2014 História, Política | 09:35

O aniversário do golpe e seus oportunismos: ditadura só durou dez anos, diz historiador

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Os 50 anos do golpe militar, lembrados em 2014, abriram uma saudável frente de oportunidades para acadêmicos, jornalistas, editoras e, sobretudo, para leitores e leitoras de novas e antigas gerações. Da galeria de oportunidades, no entanto, aqui e ali podem ser identificados oportunismos fáceis. Um desses casos tem nome e obra: o historiador Marco Antonio Villa e seu livro Ditadura à brasileira: 1964-1985 – A democracia golpeada à esquerda e à direita (lançado este ano pela Leya).

Não é de hoje que o professor da Universidade Federal de São Carlos integra a equipe de “intelectuais públicos” celebrados por parte da imprensa brasileira. Invariavelmente ele está a postos para dar seus vaticínios antiesquerdistas, antigovernistas, antilulistas. É uma posição legítima, convém dizer. Mas com o incontrolável desejo de se mostrar um porta-voz qualificado para tal missão, Villa pareceu aos poucos abandonando certo rigor acadêmico, sua memória prodigiosa e sua erudição para dedicar-se à guerrilha midiática e à polêmica fácil.

Nada contra os polemistas, e quem já leu Manoel Bonfim e seus textos do início do século XX sabe a importância deles.  O risco é o modelo de polêmica carimbada a que Villa se dedica.

Esse tipo de predileção não resulta em coisa boa. Já o fez, por exemplo, defender em artigo a tese de que o Brasil enfrenta, com o PT, a mais séria crise da história de sua democracia (!). Devido à ausência de uma oposição eficaz e a previsão de mais quatro anos do partido no poder, Villa enxergou algum tempo atrás um desabono democrático mais grave do que o regime militar, o Estado Novo de Vargas e os golpes e tentativas de golpes encontrados na história do Brasil.

(Mais de duas décadas de eleições livres e idôneas, liberdade de expressão e associação, pluralidade de partidos e, nos últimos anos, redução de desigualdades econômicas parecem ser indicadores pouco relevantes para guerrilheiros midiáticos como Villa.)

ditaduraabrasileiraDitadura à brasileira sucede dois livros de Marco Antonio Villa: Década perdida: 10 anos do PT no poder  e Mensalão: o julgamento do maior caso de corrupção da história política brasileira. Embora trate de tema distinto dos dois anteriores – que venderam razoavelmente bem, diga-se – Ditadura à brasileira segue a mesma linhagem: o viés implacável de mostrar que ele é um respeitável antiesquerdista, e que a esquerda deve ser vista como criminosa de lesa-pátria.

Oficialmente, sua intenção poderia até ser das melhores: denunciar “falácias” que costumam impregnar as análises da história brasileira (e são muitas, sabemos), e romper o “círculo de ferro construído, ainda em 1964, pelos adversários da democracia, tanto à esquerda quanto à direita”.

Mas Villa parece exceder na dose.

O ponto mais impressionante do seu livro sobre a “ditadura à brasileira” talvez seja este: a tese de que o Brasil não teve 21 anos de ditadura no regime instalado em 1964. Apenas dez deles, sugere Villa, podem ser considerados uma ditadura, o período de vigência do Ato Institucional Nº 5 (de 13 de dezembro de 1968 a 31 de dezembro de 1978).

Seus argumentos não são desprezíveis: entre 1964 e 1968 o Congresso manteve-se aberto, assim como as assembleias legislativas e as câmaras de vereadores. Os executivos estaduais tiveram eleições e, na esfera dos municípios, excetuando-se as capitais e as cidades consideradas áreas de segurança nacional, ocorreu renovação sistemática dos prefeitos. Jornais que se colocaram no campo oposicionista denunciaram as mazelas do regime. A vida cultural brasileira produziu momentos memoráveis e críticos aos militares. O movimento estudantil ganhou relevância no mesmo período.

Os últimos seis anos do regime militar também não exibiram uma ditadura digna do nome: a Lei de Anistia e a consequente volta dos exilados ao Brasil; a vida em liberdade de Luiz Carlos Prestes, por exemplo; as eleições de 1982; e a campanha das diretas foram alguns do fatos que confirmam sua tese para o período 1979-1985. Nesse caso, ele tem razão. Mas não se pode dizer o mesmo em relação a 1964.

Uma ditadura temporária

O general Humberto de Alencar Castello Branco foi eleito pelo Congresso no dia 11 de abril, depois de um conciliábulo de governadores e generais. Prometeu “entregar, ao iniciar-se o ano de 1966, ao meu sucessor legitimamente eleito pelo povo em eleições livres, uma nação coesa”. Adiou para 1967, quando entregou uma nação dividida a um sucessor eleito por 295 pessoas.

O estrago da ditadura temporária de Castello Branco, porém, foi bem maior. Por meio da suspensão das garantias constitucionais o presidente valeu-se da prerrogativa de cassar mandatos eletivos, suspender os direitos políticos dos cidadãos e anular o direito à estabilidade dos funcionários públicos civis e militares.

Entre 1964 e 1966 cerca de 2 mil funcionários públicos foram demitidos ou aposentados compulsoriamente; 386 pessoas tiveram seus mandatos cassados e/ou viram-se com os direitos políticos suspensos por dez anos. Todos os partidos políticos existentes (incluindo sólidas legendas como PTB e PSD) foram extintos, em nome do bipartidarismo formado por Arena e MDB.

Nas Forças Armadas 421 oficiais foram punidos com a passagem compulsória para a reserva, transformando-se em mortos-vivos. Expurgaram-se 21 dos 91 generais.

Sete em cada dez confederações de trabalhadores e sindicatos com mais de 5 mil associados tiveram suas diretorias depostas.

Nos primeiros nove meses do regime morreram 20 brasileiros, número indiscutivelmente baixo nas estatísticas do golpismo latino-americano (Villa gosta de refutar comparações às ditaduras dos nossos vizinhos), porém médio para as quarteladas nacionais.

Passeata dos Cem Mil, na foto clássica de Evandro Teixeira

Passeata dos Cem Mil, na foto clássica de Evandro Teixeira

Houve crescente censura às atividades culturais. Basta lembrar que  a famosa Passeata dos Cem Mil, de junho de 1968 (uma das provas apontadas por Villa de que não vivia numa ditadura), era justamente a crescimento da censura às atividades culturais.

E a tortura. Sim, a tortura foi iniciada ainda em 1964. Pensemos, por exemplo, num de seus casos mais emblemáticos: Gregório Bezerra, líder camponês e comunista, já idoso e arrastado pelas ruas do Recife amarrado a um jipe no dia do golpe.

O fato é que os acontecimentos posteriores a 1968, quando o regime assumiu sua natureza explicitamente ditatorial, fizeram com que se desse pouca importância à natureza da violência aparecida em 1964 e à forma como ela foi enfrentada pelo governo Castello Branco. Como escreveu Elio Gaspari, ali esteve a gênese do fenômeno e, sobretudo, o surgimento de uma política de compromissos que arruinaria as instituições políticas e militares do País.

Nos anos 1970 assim denunciava o general Mourão Filho, um dos artífices do golpe de 64: “As torturas foram o molho dos inquéritos levados a efeito nos desvãos dos DOPS ou dos quartéis e toda a sociedade ficou dominada pelo medo, angústia e sofrimento. Esta onda terrível começou no governo Castello Branco, que, demasiadamente fraco, não conseguiu conter os militares”.

Quatro Atos Institucionais e nenhuma ditadura?

O AI-1 suspendeu por dez anos os direitos políticos de todos aqueles que poderiam ser considerados contrários ao regime. O ato abriu alas para ameaças de cassações, prisão, enquadramento como subversivos e expulsão do País.

O AI-2 mostrou a essência antidemocrática da moderação castelista: transferiu ao Congresso o poder de eleger o presidente e reabriu o ciclo punitivo extinto em 1964. Para a direita militar, era democracia com derrota eleitoral ou vitória sem democracia. Preferiu a segunda opção.

O AI-3 determinou como indireta a eleição de governadores e vice-governadores, executada por colégio eleitoral estadual. Prefeitos de capitais e das cidades de segurança nacional não seriam mais eleitos e sim indicados por nomeação pelos governadores.

Por fim, o AI-4 convocava o Congresso para votação e promulgação do projeto de Constituição, que revogaria definitivamente a Constituição de 1946.

Mas o historiador Marco Antonio Villa acha que a ditadura só começou mesmo com o AI-5, em dezembro de 1968.

 

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domingo, 6 de abril de 2014 Educação, História, Política | 19:01

1964: crescimento e repressão andaram juntos nas universidades brasileiras

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Eis um dos paradoxos da ditadura militar brasileira: ao mesmo tempo em que  ocupavam o epicentro da resistência ao regime iniciado em 1964, as universidades tiveram um papel central no projeto dos governos que muitos estudantes e acadêmicos ajudaram a combater. Se a mão que apedreja é a mesma que afaga, isso parece ter sido levado ao paroxismo no caso da relação entre os militares e as universidades durante a ditadura.

Arte-Universidades_RM02.inddCom seis anos de pesquisa em arquivos brasileiros e norte-americanos, cerca de 50 entrevistas e um texto repleto de informações, o historiador Rodrigo Patto Sá Motta, da Universidade Federal Fluminense (UFF), mostra essa contradição no livro As universidades e o regime militar, lançado pela Zahar em março.

O livro integra o conjunto de obras que a Zahar publicou nos últimos três meses no cinquentenário do golpe, sob o selo 1964, cinquenta anos depois. Da série fazem parte Ditadura e democracia no Brasil, de Daniel Aarão Reis (leia pensata anterior), e A ditadura que mudou o Brasil, coletânea de artigos sob organização dos próprios Aarão Reis e Rodrigo Patto Sá Motta, ao lado de Marcelo Ridenti.

A contradição exposta nas universidades é a faceta acadêmica ao que, na economia, convencionou-se chamar de modernização autoritária, ao se lembrar que governos militares foram duros e conservadores na política, liberais e modernizadores na economia.

Um regime destrutivo e construtivo ao mesmo tempo

A ambiguidade típica daquele regime se manifestou plenamente na política universitária, explica o autor: destrutivo e construtivo ao mesmo tempo; repressivo e modernizador.

O regime, afinal, prendeu e demitiu professores opositores ao regime ou simplesmente considerados ideologicamente suspeitos.

Afastou líderes estudantis e líderes docentes acusados de cumplicidade com a “subversão estudantil”.

Torturou os mais “perigosos”, numa limpeza ideológica afeita ao bloqueio da livre circulação de ideias e de textos.

Criou assessorias de segurança e informação dentro dos campi, que abriam caminho para triagens nas contratações, concessões de bolsa, autorizações para estágios no exterior.

Impôs “cassação branca” a muitos professores que se opunham àquele estado de coisas, como atrasos infindáveis de salario e outras pequenas perversidades que transformavam a vida de muitos acadêmicos num inferno.

Do outro lado da moeda, porém, esteve a política de investimentos na formação local de mão de obra e em pesquisa autônoma. Os governos militares permitiram um impulso modernizante nas instituições de ensino superior, adaptando-as ao modelo dos Estados Unidos: organização departamental, professores em regime de trabalho de tempo integral, investimento em cursos de pós-graduação, ciclos básicos por áreas de saber, entre outras medidas.

Se é verdade que Deus precisa do Diabo para existir, se não há inferno sem a imagem do seu avesso, o paraíso, os dois lados da moeda, descritos acima, também não existiriam um sem o outro.

“Quando assumiram o poder (…)”, explica o autor, “os militares e seus aliados civis encontraram uma situação conturbada nos meios universitários”. O movimento estudantil se tornara “aguerrido e bem-estruturado”; as universidades haviam se tornado centros importantes da mobilização de esquerda; os estudantes constituíam forte grupo de pressão política.

Ele continua: “Para além do fato de as universidades reunirem inimigos do novo regime, ‘credenciando-se’, portanto, como alvos privilegiados das primeiras operações de expurgo, elas ocupavam lugar estratégico na formação das elites intelectuais e políticas do país, e, secundariamente, dos dirigentes econômicos”.

Primeiro, para fazer a economia crescer rapidamente as universidades eram indispensáveis. Segundo, investir nas universidades era parte de uma estratégia mas também resposta às crescentes demandas da juventude nos anos 60. Os documentos a que o autor teve acesso mostram um incrível temor do regime diante do movimento estudantil.

“Americanização parcial”

Havia dois caminhos a seguir, defendidos por diferentes setores do regime: uma linha liberal defendia a redução do papel do Estado, aumento do papel da iniciativa privada e do mercado, o que implicaria na cobrança de taxa dos alunos, numa “americanização”.

Outra linha pregava um modelo próximo da tradição brasileira e europeia, de universidades ligadas ao Estado, sem cobrar de alunos e sem muita abertura ao mercado. Prevaleceu o segundo modelo, em função do medo que os estudantes provocavam nos militares e da própria linhagem nacionalista de muitos generais.

O livro mostra em detalhes o processo de “americanização” parcial das universidades brasileiras. “Tratava-se de forjar uma mística, uma ideologia que competisse com os projetos revolucionários, principalmente o marxismo”, escreve Motta. “Daí o papel central conferida pelas agências do governo americano – com destaque na Usaid [United States Agency for International Development], mas também em instituições privadas, como as fundações Ford e Rockefeller – à modernização das instituições educacionais brasileiras”.

Espiões

Um dos achados de Rodrigo Patto Sá Motta são os documentos da máquina de vigilância política. A partir de 1970, o governo criou órgãos de informação dentro das universidades, as Assessorias Especiais de Segurança e Informações (Aesis ou ASIs). Eram um braço do Sistema Nacional de Informações (Sisni), uma espécie de correia de transmissão. De um lado faziam chegar determinações e pressões políticas vindas de escalões superiores; de outro, vigiavam a comunidade universitária e os próprios dirigentes, nem sempre fiéis ao regime.

Não eram raros espiões nos campi. “Às vezes os professores eram avisados pelos estudantes quando aparecia alguém novo na turma, com tipo suspeito”, conta o autor. O porte físico, o corte de cabelo, a idade e as roupas eram marcas diferenciadoras dos agentes infiltrados. Em outros casos, eram estudantes recrutados como informantes.

No MEC, a Divisão de Segurança e Informação (DSI/MEC) não tinha poder formal para censurar publicações ou eventos, mas fez pressões indiretas para isso. Um exemplo: em abril de 1971, a DSI enviou informe a todas as Aesis com uma análise sobre as publicações de algumas editoras brasileiras. O texto acusava as editoras Herder, Vozes, Civilização Brasileira, Paz e Terra e Zahar de publicar obras marxistas e filocomunistas. O relatório exibia uma extensa lista de livros considerados inconvenientes.

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Relatório acusando editoras brasileiras de ação ideológica e antidemocrática, encaminhado às universidades federais pela DSI do MEC

Relatório acusando editoras de ação ideológica, encaminhado às universidades pela DSI do MEC

De volta às contradições

As reformas implantadas pelo regime militar mudaram a face do sistema de ensino superior. O livro de Rodrigo Patto Sá Motta dá luz e forma a essa mudança: “Antes de 1964 não havia universidades na plena acepção do termo, apenas agregados de faculdades praticamente autônomas, com reitorias que desempenhavam papel decorativo”. Com o “advento do projeto modernizador-autoritário”, escreve ele, “as então modestas universidades receberam recursos e equipamentos que as tornaram instituições mais relevantes para o país”.

Antes que as gralhas se empolguem em demasia com essa conclusão, convém sublinhar outras conclusões do autor:

1. O projeto militar resultou da apropriação dos debates e demandas produzidos por professores e estudantes dos anos 1960

2. Os militares não tinham um projeto para o ensino superior; foram civis os formuladores dos planos

3. Um dos principais objetivos desse projeto foi aplacar o descontentamento de intelectuais e acadêmicos e, sobretudo, o ativismo radical dos estudantes;

4. As reformas implantadas pelo regime militar não corresponderam plenamente aos sonhos de nenhum dos grupos envolvidos

5. A faceta violenta do regime militar deixou marcas nas instituições e levou grande prejuízo e sofrimento às pessoas atingidas: carreiras foram ceifadas ou truncadas; centenas de estudantes tiveram sua vida escolar abruptamente interrompida; houve tortura e morte.

 

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História, Sociedade | 14:02

Golpe militar ou civil-militar?

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É do historiador Daniel Aarão Reis uma das melhores contribuições dentro da notável leva de lançamentos e reedições do livros que buscam contar, relembrar e explicar a ditadura instalada no golpe de 1964. Pelo menos 15 livros lançados neste aniversário de 50 anos do golpe ganharam destaque no País, oferecendo um amplo e rico painel de análises sobre o tema, sobretudo para as novas gerações (inclui-se na lista, obviamente, a monumental tetralogia de Elio Gaspari, já tratada aqui).

DitaduraEDemocraciaNoBrasilProfessor de história contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF), Aarão Reis se destaca entre esses lançamentos por uma abordagem que muitas vezes se costuma deixar em segundo plano: o papel da sociedade civil no regime instaurado em 1964. Em Ditadura e democracia no Brasil, lançado pela Zahar, o professor mostra como o governo militar e a sociedade se amalgamavam muito mais do que os opositores à ditadura gostariam.

Para ele, falar em “ditadura militar” é um equívoco que esconde as bases sociais do golpe, erro fruto de um hábito adquirido com o passar dos anos, uma certa preguiça intelectual e uma indesejável memória seletiva. “Tendeu a predominar a versão”, escreve Aarão Reis, “de que a sociedade brasileira apenas suportara a ditadura, como alguém que tolera condições ruins  que se tornaram de algum modo inevitáveis”.

Lorota. A história oficial das lutas contra a ditadura, diz ele, acabou ocultando as complexas e profundas relações entre o regime de 1964 e a sociedade brasileira. Antes e depois, o apoio de muitos setores da sociedade foi claro e forte o suficiente para sustentar a ditadura não apenas pela força bruta. Escreve:

“Como já ocorreu muitas vezes na história, ao virar as costas para o passado ditatorial e empreender a construção de uma alternativa, grande parte da sociedade brasileira preferiu demonizar a ditadura vigente nos anos anteriores e celebrar novos valores – democráticos. Tais valores, aliás, segundo diferentes, mas convergentes, versões, nunca teriam sido revogados da consciência nacional. O país fora, pura e simplesmente, subjugado e reprimido por um regime ditatorial denunciado agora como uma espécie de força estranha. Como uma chapa de metal pesado, caída sobre vontades e pensamentos que aspiravam à liberdade.”

Uma multidão de civis em apoio ao golpe

As incontáveis reportagens sobre o assunto durante os últimos meses mostram, no entanto, que essa zona de sombra criticada pelo historiador começou a ser removida. Lembre-se, por exemplo, da série de marchas que mobilizaram milhões de pessoas, de todas as classes sociais, contra o governo João Goulart: a primeira Marcha da Família com Deus e pela Liberdade ocorreu em São Paulo, em 19 de março daquele ano, e reuniu 500 mil pessoas. Foi convocada em reação ao Comício pelas Reformas ocorrido uma semana antes, com 350 mil pessoas.

Primeira página do Jornal do Brasil noticia a primeira Marcha da Família com Deus e pela Liberdade, em São Paulo

Primeira página do JB noticia a primeira Marcha da Família com Deus e pela Liberdade, em São Paulo

Depois houve a Marcha da Vitória, para comemorar o triunfo do golpe, no Rio de Janeiro, em 2 de abril. Esteve ali, no mínimo, a mesma quantidade de pessoas que em São Paulo. A ela sucederam-se marchas  nas capitais dos estados e em cidades menores. Até setembro de 1964, marchou-se como nunca no País. Sem descanso e com fervor.

Estiveram com essas marchas a maioria dos partidos, líderes empresariais, políticos e religiosos, entidades como a OAB e a CNBB, e a direita de todo tipo. A favor das reformas de Jango, uma parte considerável dos sindicatos de trabalhadores urbanos e rurais, alguns partidos, as esquerdas.

Para Aarão Reis, pode-se ficar em dúvida quem tinha a maioria, mas algo é inegável: impossível não enxergar as multidões de civis que apoiaram a deposição de Jango e a instauração da ditadura.

A frente de apoio ao golpe, recorde-se, era heterogênea, mas nela se abrigavam nomes que mais tarde foram para a oposição aos militares: Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e… sim, Ulysses Guimarães – ano depois, o Senhor Diretas e presidente da Constituinte.

Pouca gente sabe, mas Ulysses foi um dos líderes da Marcha da Família com Deus pela Liberdade a apoiou o golpe. Fez parte da comissão do Congresso que tentou elaborar o primeiro Ato Institucional, cujo texto os militares não gostaram e deixaram de lado para assumir a responsabilidade do que de fato virou o AI-1.

O apoio, explique-se, tem a ver com o discurso que se fazia para justificar o golpe (ou contra-golpe, como queriam os “revolucionários” e querem, ainda hoje, suas viúvas). A ditadura se instaurou em nome da democracia e contra a corrupção que as vassouras de Jânio Quadros, antecessor de Jango, não conseguira limpar.

Democracia em baixa na época

Essa é uma das diferenças entre as ditaduras anteriores e posteriores à Segunda Guerra Mundial. No Estado Novo, Getulio não tinha problema algum em dizer que aquele regime era autoritário. A democracia não tinha o charme nem o apoio de hoje. A União Soviética se desenvolvia e não era uma democracia. O nazifascismo aparecia como uma alternativa universal e recusava a democracia. Muitos regimes na Ásia, na África e na América Latina adotaram formas corporativistas autoritárias – como o Brasil.

Tanto Lacerda, JK e Ulysses quanto os governadores Magalhães Pinto e Adhemar de Barros aceitavam que os militares fizessem o jogo sujo de prender e cassar.  Achavam que fariam isso de maneira rápida e abririam alas para as eleições presidenciais de 1965. Logo depois, portanto, se retomaria o jogo político – excluídos, claro, os radicais livres da esquerda.

Como se sabe, não foi isso que aconteceu. Os militares gostaram de estar no poder e assumiram o protagonismo do regime.

Ditadura terminou em 1979 ou 1985?

Aarão Reis escreve que a obsessão de caracterizar a ditadura como apenas militar levou o Brasil até hoje a marcar o ano de 1985 como o fim do regime ditatorial do período. Ali se encerrou o mandato do último general-presidente. (Há quem antecipe este fim para 1979, quando cessaram os Atos Institucionais; ou atrase para 1988, quando foi aprovada uma nova Constituição.) “Estender a ditadura até 1985 não seria uma incongruência?”, questiona-se o professor, ao lembrar que o presidente empossado, José Sarney, desde o início apoiara o regime e se tornara um dos seus principais dirigentes… civis.

Desde 1979, porém, o estado de exceção estava encerrado. Com ele, os governantes poderiam editar ou revogar as leis pelo exercício arbitrário de sua vontade.

Também não foi preciso esperar 1985 para que não mais existissem presos políticos. O Poder Judiciário também recuperara a autonomia.

Desde o início dos anos 1980 passara a existir certo pluralismo político-partidário e sindical, liberdade de expressão e liberdade de imprensa. E, por fim, grandes movimentos puderam ocorrer livremente, como a própria campanha pelas Diretas Já, que mobilizou milhões de pessoas entre 1983 e 1984.

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quinta-feira, 27 de março de 2014 História, Política, Psicanálise | 11:53

“Torturador é humano, cruel e consciente do que faz”

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“A tortura não é desumana”, escreveu o filósofo Jean-Paul Sartre. “É simplesmente um crime ignóbil, crapuloso, cometido por homens (…). O desumano não existe, salvo nos pesadelos que o medo engendra”. Instrumento extremo de coerção e extermínio, a tortura foi o último recurso da repressão política que o Ato Institucional no 5, editado em 1968, libertou das amarras da legalidade.

Foi com a tortura que a ditadura instalada pelo golpe militar de quatro antes ganhou uma face violenta não mais apenas institucionalmente – com cassações e banimentos de opositores ao regime, iniciados já em 1964 – mas também violenta na prática e na forma. Seu pretexto foi a pressão ocorrida à esquerda e à direita: a luta armada das organizações terroristas de combate à ditadura, de um lado, e os militares linha-dura, de outro.

“A tortura é um crime demasiadamente humano”, reforça a psicanalista Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes, em seu livro Tortura, lançado recentemente pela Casa do Psicólogo na esteira dos 50 anos do golpe. Nele, a autora – ela própria uma sobrevivente dos anos de chumbo – tenta explicar esse crime à luz da história e da psicanálise. Ajuda a entender os fundamentos da violência, da destrutividade e da maldade presentes nas relações entre os humanos. Segundo ela, “um ato humano, cruel e degradante, e que atinge ao mesmo tempo a humanidade à qual o torturador também pertence”.     

(Maria Auxiliadora Arantes começou sua militância na Ação Popular, a AP, em 1963, foi presa entre 1968 e 1969, juntamente com os dois filhos que, na época, tinham idades abaixo de quatro anos, e mais tarde tornou-se uma ativa dirigente e militante da luta pela anistia no Brasil.)

Dirigentes do PCdoB mortos pelo Exército na chacina da Lapa, em dezembro de 1976

Dirigentes do PCdoB mortos pelo Exército na chacina da Lapa, em dezembro de 1976

Humano e “normal”

O livro da psicanalista reforça uma tese sobre a qual se debruçaram Sartre, a também filósofa Hannah Arendt, e historiadores da ditadura militar brasileira, como o jornalista Elio Gaspari: diferentemente do que se pode pensar, a tortura é quase sempre praticada por indivíduos absolutamente “normais”, plenamente conscientes de seus atos, capazes de se tornarem técnicos da violência. Raramente são figuras sádicas e perversas.

O torturador maluco, vítima de uma perversão, é no máximo produto da fantasia. Para uma ditadura, funciona como um álibi. Permite-lhe ter à mão a tese da insanidade do agente para salvar a honra do regime se algum dia a oposição provar os suplícios e identificar os torcionários.

9788580402919Apesar disso, segundo a psicanalista, o torturador exerce a crueldade de forma extrema. Está consciente do que faz e por isso torna-se responsável pelo crime cometido. É uma boa conclusão a compartilhar com os militares – da ativa ou da reserva – que ainda hoje mantêm silêncio sobre a ditadura instalada em 1964; com aqueles que se recusam a abrir informações que levem ao paradeiro dos desaparecidos políticos; e com os militares que ainda se guiam pelos mesmos manuais da Escola Superior de Guerra, segundo os quais o golpe foi uma revolução para salvar o país do comunismo.

“O que quer o torturador?”, pergunta Maria Auxiliadora em seu livro. “Ao sustentar seu anonimato, e impor o silenciamento, instaurando o fazer calar, o torturador escapa do julgamento e da punição, e torna-se um facilitador para que a tortura mantenha-se. Prestou seu serviço ao poder político, econômico, religioso, e, nesta condição, incorporou a função de manus longa do poder, usufruindo a impunidade”.

No local da tortura, lembra ela, o torturador “exerce seu poder sobre um semelhante assimetricamente imobilizado, vedado, amordaçado e nu”. Ele quer a confissão mas também a submissão do torturado. Quando a vítima se submete, conclui-se um processo em que a confissão é um aspecto irrelevante. O preso, na sala de suplícios, troca seu mundo pelo do torturador. A vítima faz mais do que dar uma informação ao carrasco, ela passa a reconhecer nele o senhor da sua voz.

Em A ditadura escancarada, segundo volume da sua espetacular série sobre o regime militar (agora em versão revista, ampliada e melhorada pela editora Intrínseca), Elio Gaspari lembra: “O sofrimento começa ou para, aumenta ou diminui, pela exclusiva vontade do torturador. Ele tanto pode suspender uma sessão para dar a impressão de que teve pena do preso quanto pode avisar que vai iniciar outra, sem motivo algum, para mostrar-lhe a extensão do seu poder”.

Na nova edição, Gaspari cita a presidente Dilma Rousseff, a Estela da VAR-Palmares: “A pior coisa que tem a tortura é esperar, esperar para apanhar”. E a onipotência de um torturador: “Que Deus que nada, porque Deus aqui é nós mesmo”.

A tortura é filha do poder, não da malvadeza

Os quatro livros da série do jornalista Elio Gaspari sobre a ditadura militar, relançados este ano

Os quatro livros da série do jornalista Elio Gaspari sobre a ditadura militar, relançados este ano

Como afirma Gaspari, a história ensina que a tortura é filha do poder, não da malvadeza. A natureza imoral dos suplícios, lembra ele, desaparece aos olhos daqueles que os fazem funcionar, confundindo-se primeiro com as razões de Estado e depois com a qualidade do desempenho que dá às investigações. “Confissões não se conseguem com bombons”, argumentava o bispo de Diamantina, d. Geraldo Proença Sigaud.

Em outras palavras, o que torna a tortura atraente é o fato de que ela funciona, e muito:

O preso não quer falar. O preso apanha. O preso fala.

A teoria da funcionalidade levou o regime a defender a ação policial da ditadura como resposta adequada e necessária à ameaça terrorista. No raciocínio justificativo do general Ernesto Geisel, em depoimento aos historiadores Maria Celina d’Araújo e Celso Castro: “Era essencial reprimir. Não posso discutir o método de repressão se foi adequado, se foi o melhor que se podia adotar. O fato é que a subversão acabou”.

Não há dúvida de que acabou de fato: as principais organizações da luta armada foram liquidadas em pouco tempo, com seus militantes presos, mortos ou desaparecidos. Chefe do Codi do Rio nos anos 70, o general Adyr Fiúza de Castro reconheceu o quão desigual era aquele combate: “Foi a mesma coisa que matar uma mosca com um martelo-pilão”.

Em números e fatos: a destruição das organizações armadas começou em julho de 1969; em junho de 1970 todas as organizações que algum dia chegaram a ter mais de 100 militantes estavam desestruturadas. O porão garantiu o sucesso da “tigrada”: segundo Elio Gaspari, entre 1964 e 1968, foram 308 denúncias de torturas apresentadas por presos políticos às cortes militares. Durante o ano de 1969 elas somaram 1.027. Em 1970, 1.206. De 1964 a 1968 instauraram-se 60 inquéritos militares contra organizações de esquerda; só em 1969 abriram-se 83.

Antes que as gralhas gritem, convém admitir: as ações da esquerda armada também fizeram vítimas. Mas não tiveram nem de longe a mesma dimensão dos assassinatos e da tortura praticada nos porões.

Leia mais na Pensata:

Por que os militares de hoje não admitem os crimes cometidos pela ditadura?

De um torturador para uma jovem: “Você vai sofrer como Jesus Cristo”

Tortura, o livro, enxerga o crime com um olho na psique do torturador e outro na história. Detalha, por exemplo, a barbárie nazista, as torturas da Inquisição e a ação dos franceses na Guerra da Argélia, que se tornaram uma espécie de polo aglutinador da violência política nas décadas seguintes, usada principalmente pelos EUA na guerra do Vietnã e pelos militares latino-americanos que, com amplo apoio dos EUA, instituíram ditaduras civis-militares na década de 1960.

Maria Auxiliadora baseia-se  no depoimento do general Paul Aussaresses que, na Argélia, foi um dos comandantes do destacamento de paraquedistas (foi o braço direito do comandante dos paraquedistas, general Massu).  Aussaresses, desde meados da década de 1950, a tortura e as execuções sumárias faziam parte da política de guerra francesa, e chegou a vangloriar-se por elas.

Aussaresses se instalou na Carolina do Norte (EUA) onde, disse, “ensinava as técnicas que havia aprendido durante minha carreira”. Esteve no Brasil em 1973, a convite da ditadura, tendo sido adido militar à embaixada da França. Um de seus amigos mais íntimos era o então coronel João Batista Figueiredo, do Serviço Nacional de Informações, o mal afamado SNI. Além de Figueiredo – que viria a ser o último general presidente da ditadura de 1964 – o general francês também conviveu com o delegado Fleury, um dos facínoras do regime. E deu aulas de tortura e desaparecimento de opositores políticos em Brasília.

Depoimento

Para quem não tem o coração empedernido diante do assunto da tortura, o livro de Maria Auxiliadora – assim como o de Elio Gaspari – expõe, com riqueza de detalhes, depoimentos de torturados. Ou recolhidos pela própria autora ou reproduzidos de depoimentos públicos.

A coluna escolhe um deles, o de Alípio Freire, militante preso aos 23 anos de idade no domingo 31 de agosto de 1969, data em que o general Arthur da Costa e Silva sofreu o derrame cerebral que o tiraria do poder logo em seguida. Foi preso sem mandado judicial e mantido em cárcere clandestino quando chegava a uma casa no Bairro da Previdência, em São Paulo. Quinze homens o prenderam, todos integrantes da Operação Bandeirante, a temida Oban, núcleo do Exército contra a luta armada financiado por empresários.

O depoimento sobre o que sofreu nas mãos daqueles homens é um documento público disponível nos arquivos do Ministério da Justiça. Acima de tudo, testemunha a tortura como prática do Estado brasileiro e do governo instalado cinco anos por meio do golpe militar (com amplo apoio civil) que derrubou o então presidente João Goulart.

Alípio escreveu:

“Um dos meus sequestradores segurava a ponta da corda que me prendia os pulsos (como se me levasse por uma coleira) e um segundo mantinha o cano de uma pistola automática, engatilhada, encostada em minha nuca. Assim, e acompanhado de uma comitiva de uma meia dúzia de membros daquela equipe, me retiraram da casa pelo quintal dos fundos, (…)  e sair pela rua de trás, onde fui embarcado numa caminhonete veraneio C-14. (…) Fui conduzido (sempre encapuzado) ao quartel do Batalhão de Reconhecimento Mecanizado – Rec-Mec, do II Exército. Era nesse quartel que, então, funcionava a Oban, centro de torturas e interrogatórios de revolucionários e outros opositores do regime.

(…) Despido, fui alçado no pau de arara. Pendurado, amarraram-me um fio descascado no artelho maior esquerdo e, com outro polo, iam percorrendo várias partes do meu corpo: ouvidos, boca, língua, narinas, cantos dos olhos, mamilos, todo o tórax (com uma atenção especial para a região onde se localiza o coração), pernas, braços, umbigo, pênis, testículos e ânus. A corrente elétrica era puxada de uma tomada (naquele dia, 110 volts). Concomitantemente, além de murros, tapas e “telefone”, era surrado com bastões e com uma tira de lona dobrada e molhada. Vez por outra, derramavam água ou algum refrigerante sobre todo o meu corpo, com o objetivo de potencializar os efeitos dos choques, aumentando a condutibilidade da corrente. Nessas ocasiões, fizeram várias vezes escorrer para dentro das minhas narinas o líquido (ora água, ora refrigerante) com que me molhavam o corpo, provocando fortes afogamentos. Em determinado momento – uma vez que não obtinham informações – disseram que iriam buscar minha mãe para torturar.

(…) Numa tarde (…) conheci dois novos instrumentos de tortura, aos  quais fui submetido: a cadeira do dragão, chamada também de trono do dragão ou de “cadeira elétrica”, e o choque de televisão. (…) O trono do dragão era uma cadeira grande, de estrutura de madeira (caibros) e com assento, encosto e parte superior dos braços de metal; uma trava móvel entre as duas pernas dianteiras permitia que as pernas do torturado fossem imobilizadas e presas para trás, na altura das canelas; nos braços (da cadeira), tirantes – com os quais eram atados e também imobilizados, pelos pulsos, os nossos braços. (…) Utilizado fundamentalmente para torturas com choques elétricos, no trono do dragão voltei a experimentar as correntes puxadas de tomadas e de um telefone de campanha. A novidade veio em seguida: plugaram a cadeira num aparelho de televisão que emitia violentas descargas.”

 

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segunda-feira, 17 de março de 2014 Literatura | 05:09

Um inventário da infância e da memória afetiva

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“Vejo um poste que passa e vai embora até que vejo outro poste que passa e vai embora, mas nunca totalmente, porque na ida deixa um rastro. O rastro é o poste em movimento, o poste corrido, varrido, que continua numa fileira de postes-fantasmas de pé entre poste e poste verdadeiro. O verdadeiro segue na forma de vários fantasmas até que outro verdadeiro anuncia que há algo real, afinal de contas. Amanhece. Às vezes no alto de um poste há um ninho de joão-de-barro. É a interrupção do ritmo sequencial de postes. Entre um e outro (entre poste e poste) há fios: eletricidade. Fios pretos e tensionados no alto, desenhando uma partitura de linhas que sobem e descem, como num monitor de eletrocardiograma.”

E assim começa a delicada, breve e sensorial narrativa de Um, dois e já, livro da escritora uruguaia Inés Bortagaray que a editora Cosac Naify levou às livrarias brasileiras este mês. A narradora, no caso, é a segunda mais jovem de quatro irmãos que, com pai e mãe à frente, viajam no banco de trás de um Renault 12, numa viagem de Salto a La Paloma, no Uruguai.

Uma viagem-síntese, desta família e também das nossas. Síntese porque difícil não sentir o beliscão da memória ao acompanhar a narrativa, que nos fisga de tão raro alguém não já ter vivido também a ação e a sensação de uma viagem dessas. Ou que não sejamos tomados pelas referências visuais carregadas por toda a vida.

Inés Bortagaray, autora de "Um, dois e já":

Inés Bortagaray: “Quando alguém lembra, inventa ou desenha as bordas dessa memória com cores diferentes das que tinham quando vivemos.”

Estreante no Brasil, com envolvente tradução de Miguel Del Castillo, Inés Bortagaray exibe, por meio da voz da narradora, uma espécie de memória sem saudosismo, ou uma melancolia sem tristeza, uma nostalgia sem alegria ou dor, diante da paisagem visual, mental e verbal que observa da janela do carro. (O geógrafo francês Jean-Marc Besse escreveu que a paisagem é da ordem da imagem, seja esta imagem mental, verbal, inscrita sobre uma tela ou realizada sobre o território.)

Abrindo portas para uma viagem sem sustos

“Um, dois e já” sugere um elemento que está por aparecer e surpreender o leitor. No Uruguai, dizem “Prontos, já”; como se estivéssemos preparados ou cada um em suas marcas. O título, portanto, se mostra como uma espécie de prólogo, algo fora de campo, mas integralmente correspondente com o que vem depois. Um elemento, uma paisagem, um gesto, um ato ou um sentimento que abrem as portas para que a viagem aconteça.

A trama, no entanto, se passa sem susto, como hoje parece sem susto nossa infância – exceto, talvez, o medo angustiante diante da demora da mãe que insiste em não voltar à casa; ou o trem-fantasma no parque de diversões; ou ainda o apavorante primeiro dia de aula numa escola estranha. A infância é isto, um conto de Guimarães Rosa como “As margens da alegria”: um momento de inocência ontológica, em que a vida é ao mesmo tempo firme e misteriosa, sólida e enigmática.

A narrativa dura poucas horas: as horas abarcadas pelo tempo da menina narradora, lírica, jovial e destemida; as horas decisivas, para uma criança, de um trajeto em direção às férias com a família.

As sensações descritas na viagem-narrativa são aparentemente insignificantes. Resumem-se a pouca coisa: as brigas para quem senta na janela, as brincadeiras de palavras, o adormecimento da menina, as comidas providenciadas pela mãe, as paradas para o xixi, o vômito inesperado, o rádio, uma lembrança qualquer. Reafirme-se: insignificantes só na aparência.

Diante da monotonia da viagem, criativamente ela vê o amanhecer brutal com seus raios de sol por trás das nuvens como a “testa franzida de Deus” ou um pintinho saindo da casca; os postes com seus fios são linhas num monitor de eletrocardiograma; a atenção alternada entre os cabos dos postes, que margeiam a estrada subindo e descendo, como uma partitura musical, e a nuca do pai ocupado com o volante; e assim a vida segue.

A imaginação é irmã da memória

Ao estilo uruguaio – discreto e afetivo, como sugere o escritor e compositor Vitor Ramil ao apresentar o livro de Inés – a menina-narradora deixa entrever uma paisagem mais complexa, mas com imensa sutileza. É o Uruguai do início da ditadura dos anos 80. Mesmo implícito, o país está lá. Os pais, descobre-se também sutilmente, são militantes de esquerda. Há uma guerra nas Malvinas.

É como se a autora quisesse nos lembrar que uma história pode simultaneamente provocar sensações e remeter à consciência histórica. Como nossa memória visual e afetiva, também embaçamos o que é autobiográfico, supostamente real, e o universo ficcional. Como Inés Bortagaray disse recentemente numa entrevista, “quando alguém lembra, também inventa ou desenha as bordas dessa memória com cores diferentes das que tinham quando vivemos”. A imaginação, lembra ela, é irmã da memória.

Pode-se imaginar a narradora de Inés como irmã literária de Holden Caufield de J. D. Salinger, ou do Huck Finn de Mark Twain, mas ela escolheu o jovem de A próxima aldeia, de Franz Kafka, como epígrafe do livro: no relato do checo, a angústia sobre a impossibilidade de se cumprir uma travessia e se chegar à próxima aldeia.

Há um medo constante de que lhe aconteça algo, admite, sem dizer, a menina-narradora uruguaia: “O assento está reto. Meu pai é reto. Dirige depressa, mas com cuidado. Travo o pino da porte dele. Agora sim, ele está a salvo. Eu também, porque meu pai não vai despencar na estrada, e vou continuar a ter pai, porque ele não vai despencar”.

Da angústia pela travessa impossível, porém, surge um desejo de estender indefinidamente o prazer de estar ali: “Às vezes a viagem é tão comprida que me acostumo, e depois não quero chegar. Por mim, poderíamos ficar aqui para sempre, para sempre nesse banco de couro bebe, com esse cheiro de pijama no ar e migalhas de empanada entre as pernas”.

É o cheiro da intimidade, tão cara a uma família. (O poeta português Ruy Belo tem um lindo poema, no qual escreve: “Só as casas explicam que exista uma palavra como intimidade”.)

Nunca vivemos, mas esperamos viver

Intimidade combina com afeto, e este em geral namora com o tempo, que diz respeito ao passado, ao presente e ao futuro. À certa altura, diz a menina-narradora: “Os postes se movem e estou quieta. Avançam para trás, em direção ao que já passou. Mesmo que meu pai parasse de dirigir, se ele se negasse a acelerar, freasse de repente, esses postes e essas linhas seguiriam viagem”. Em outras palavras, pode-se suspender o tempo, sugere ela, mas não nossas referências visuais e mentais, estejamos olhando para trás ou para frente.

Santo Agostinho escreveu: “O que é o tempo? Se ninguém me fizer essa pergunta, eu sei; mas se eu quisesse esclarecer o que ele é para alguém que desejasse uma explicação, não sei”. Para o autor de Confissões, se nada passa, não há passado; se nada está por vir, não há futuro; se nada existe, não há presente. O passado já não é futuro; o futuro ainda não é”.

Há uma evidente nostalgia lembrar o passado no banco de trás, numa viagem de férias em família. E parece difícil não enxergar o futuro com os olhos de esperança de quem busca uma paisagem ainda estranha, porém mais encantadora, sublime ou simplesmente melhor do que a do presente. Esse vícios não é de hoje, e filósofos como Blaise Pascal viam nisso um sinal inevitável de fraqueza humana – “imprudentes, erramos nos tempos que não são os nossos e não pensamos no único que nos pertence (…). Assim nunca vivemos, mas esperamos viver”.

capa_umdoisejaVista hoje, sobretudo do alto dos 38 anos de Inés e do signatário, uma das coisas fascinantes na infância é ausência desse dilema que atormentava Santo Agostinho ou Pascal. É quando a imaginação está a serviço não de um futuro distante, ou quando a saudade ancora-se não num passado perdido. Imaginação e saudade, futuro e passado são elementos de um só tempo, o presente.

Um presente em que podemos, com nossos jogos de infância,  ir até Acapulco tomar uma água de coco que nos faz ser imortais ou ir até Honolulu e, num mergulho no fundo do mar, encontrar Atlântida, a Cidade Perdida dos Mares – ensinamentos da narradora de Inés Bortagaray. Ou podemos ficar para sempre em algum lugar, com o cheiro de pijama no ar de que fala Um, dois e já.

Um livro que dá vontade de conhecer a Rambla de Montevidéu, observar as paisagens despovoadas do Uruguai e ouvir Franny Glass.

 

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