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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014 Cinema, Filosofia, Psicanálise | 08:06

Do filme “Ela” aos livros sobre o amor: a questão não é se as máquinas pensam, mas se os homens ainda podem sentir

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“Nosso mundo está cada vez mais amável. No entanto, cada vez mais nos sentimos isolados”, disse o cineasta Spike Jonze, ao divulgar o seu novo filme: Ela, a tocante, alegre e simultaneamente triste história de amor de um escritor solitário por um sistema operacional.

Samantha, o sistema-operacional-objeto-do-amor, é uma espécie de tábua da salvação para Theodore, recém-separado de sua mulher. Faz-lhe companhia, organiza sua vida, interessa-se por ele com aparente sinceridade e fala com a voz encantadoramente sexy de Scarlett Johansson.

Sim, Spike Jonze diz, com delicadeza e inquietação: estamos mais amáveis, porém mais isolados. “Apesar de tudo o que precisa”, afirmou, “nossa sociedade sente-se cada vez mais só”.

Apesar de a história se passar numa Los Angeles do futuro, Ela supostamente espelha nosso tempo: tenta nos mostrar que a tecnologia parece nos conectar, mas nos afasta, numa força centrífuga e centrípeta, efeito similar ao que a globalização, já há muitos anos, deu à cultura, às relações sociais e econômicas, aos sentimentos. O protagonista do filme mal enxerga, por exemplo, a amiga que mora no apartamento vizinho (que, a propósito, também se apaixona por um sistema operacional).

Joaquin Phoenix no filme "Ela": o escritor solitário ouve (e ama) Samantha, um sistema operacional

Joaquin Phoenix no filme “Ela”: o escritor se apaixona por um OS e parece mostrar o quanto a tecnologia nos aproxima e nos deixa mais solitários

Como no filme, protagonizamos um tempo em que muita coisa parece simultaneamente familiar e estranho. Uma sensibilidade difusa, geradora tanto de frustração quanto de autocontemplação ou autoconhecimento. Uma crescente e preocupante incapacidade para lidar com a realidade, em contraposição ao auge da simplificação das relações virtuais.

Um tempo sem tempo, em que a pressa, a velocidade e a instantaneidade pedem, em contraponto, mais calma, mais freio, mais simplicidade. Menos hipérboles e mais minimalismos. Uma escala modesta e serena, como o ritmo, a música e as não-ações exibidas por Spike Jonze. Como escreveu Manohla Diggs no New York Times, Ela é um filme que se deseja tocar e acariciar.

Mas a grande questão em Ela talvez seja não se as máquinas podem pensar, como defenderam muitos críticos ao analisar o filme, mas se os seres humanos ainda podem sentir.

O amor sagrado

O filósofo francês Luc Ferry publicou no fim do ano passado, pela Difel, o livro Do amor – uma conversa com o escritor e amigo Claude Capelier e espécie de continuidade de um outro livro seu de bastante sucesso, A revolução no amor (Objetiva). Em ambos, Ferry mostra como atualmente o amor exibe um quê de sagrado. Um sagrado não no sentido de oposto do profano, mas um princípio pelo qual daríamos a vida.

DoAmor_Luc FerryMuitos homens, segundo ele, já sacrificaram suas vidas em guerras em nome de Deus, da nação, da revolução, da liberdade. Mas poucos morreriam hoje, pelo menos no mundo ocidental, por Deus, pela pátria ou pela democracia. São ideais que no passado deram sentido à vida mas que hoje estão em declínio. Mas ainda é possível morrer por alguém que se ama.

A passagem do casamento tradicional para o moderno deu ao amor um sentido central na existência, lembra Ferry. Uma centralidade capaz de transformar nossas vidas sem que percebamos. Ferry o enxerga assim como um novo humanismo no século XXI: trata-se de preparar o futuro para quem amamos.

Juntos e sozinhos

O futuro, porém, revela mais surpresas do que supõe nosso projeto de existência. Nos anos 90, a psicóloga e pesquisadora do MIT Sherry Turkle escrevia com otimismo e entusiasmo sobre o mundo da tecnologia: “Os computadores são o novo palco de nossas fantasias, erotismo e intelectualidade. Estamos usando a vida em rede para nos adaptar a novas maneiras de pensar relacionamento, sexualidade, política e identidade”.

Em 2011, publicou o livro “Alone Together – Why we expect more from technology and less from each other” (algo como Juntos sozinhos – Por que esperamos mais da tecnologia e menos de cada um de nós). Para ela, no mundo virtual as relações são menos profundas e até ilusórias, e as múltiplas amizades das redes sociais são, na verdade, uma redução da amizade.

Para ela, a conexão constante – aquela que nos leva a postar, compartilhar, enviar e receber e-mails e sms enquanto assistimos a uma aula ou participamos de uma reunião – resulta numa confusão individual sobre intimidade e solidão.

A psicóloga do MIT Sherry Turkle em palestra no TED: "Quem não aprende a ficar sozinho só saberá se sentir abandonado”

Sherry Turkle: “Quem não aprende a ficar sozinho só saberá se sentir abandonado”

Numa palestra famosa e bastante compartilhada nas redes sociais, dada por ela no TED Talks, em fevereiro de 2012, Turkle retomou o tema para dizer que esse modo de usar a tecnologia pode acabar “nos escondendo uns dos outros”. Mais do que isso, os dispositivos móveis e as personalidades online alimentam o que ela chamou de “três fantasias gratificantes”:

1. A fantasia de que podemos concentrar nossa atenção, onde quer que estejamos e com quem estejamos;

2. A fantasia de que seremos sempre ouvidos;

3. A fantasia de que nunca precisaremos ficar sozinhos.

A última fantasia altera profundamente nossa psique, afirma Turkle, pois nos deixa ansiosos e inquietos ao menor sinal de solidão. “Estar sozinho é um problema a ser resolvido”, diz ela, defendendo o aprendizado desde cedo a ficarmos sozinhos.“Quem não aprende a ficar sozinho só saberá se sentir abandonado”, afirma. A conexão, neste caso, seria mais sintoma do que cura, expressando um problema explícito: ela muda a maneira como as pessoas pensam de si mesmas. É como se pensássemos: eu compartilho, portanto existo.

Ao mesmo tempo, Turkle intui que a tecnologia nos seduz porque responde a nossas fraquezas. Em outras palavras: não gostamos de estar sozinhos, mas temos medo da intimidade; com isso, a tecnologia permite a ilusão de uma companhia sem as exigências excessivas da amizade. Robôs, siris ou sistemas operacionais como a Samantha de Ela se tornariam assim os companheiros de nossos sonhos.

A paixão amorosa em tempos de coma

Num estudo publicado recentemente na revista Insight-Inteligência, a psicanalista Marcia Neder oferece uma boa reflexão que talvez ajude os Theodores existentes no presente. A “paixão amorosa em tempos de coma” recupera a lição deixada pelo psicanalista Erich Fromm em seu livro A arte de amar. Para ele, o amor é uma reposta a uma necessidade fundamental do humano: a de “superar seu estado de separação, de deixar a prisão da sua solidão”. O amor, reforça Neder, é a solução que o homem dá para esse problema que é dele em qualquer tempo e lugar: amando ele supera sua separação do outro.

Em síntese, superamos a solidão e aproximamo-nos do outro. A intimidade com o outro, no entanto, não é sinônimo de felicidade; é também ameaçadora, e tão angustiante quanto o medo da separação. Ou seja, o amor apaixonado não é só alegria, da mesma maneira que a sexualidade é também fonte de angústia.

Padecemos com nossa ambivalência diante do amor apaixonado: desejamos amar apaixonadamente, ao mesmo tempo em que tememos essa fusão com o outro porque significa nossa dissolução como indivíduos; queremos então o contrário, o afastamento.

O problema é que nestes “tempos de coma” não queremos sofrer em hipótese alguma. Vivemos numa cultura analgésica, anestésica e mimada (definições de psicanalistas diversos), que não suporta a dor. Parecemos ignorar que o pacote do amor apaixonado necessariamente inclui dores e delícias, sabido e saboreado por seres imperfeitos e, por que não, loucos.

Cena de "Annie Hall": o amor é para os neuróticos e nervosos

Cena de “Annie Hall”: o amor é para os neuróticos e nervosos

Como lembra Marcia Neder, no filme Annie Hall Woody Allen encerra seu clássico romântico com uma piada-metáfora nos relacionamentos a uma resposta à pergunta “por que nós amamos?”:

“Percebi a pessoa incrível que ela é, e como era bom poder conhecê-la. E pensei na velha piada: um cara vai ao psiquiatra e diz: ‘doutor, meu irmão é louco. Ele acha que é uma galinha.’ E o doutor diz: ‘Por que não o trata?’ Ele responde: ‘Deveria, mas preciso dos ovos’.”Conclui: “É assim que eu vejo os relacionamentos, eles são totalmente irracionais, loucos e absurdos. Mas nós continuamos tentando porque precisamos dos ovos.”

Somos todos virtuais

Se você é adepto da loucura dos apaixonados, constatará que a oposição entre real e virtual revela-se tão simplória quanto a que existe entre normal e patológico, ou entre infantil e adulto (algo que Freud tanto apreciou). Claro que há uma diferença entre as duas coisas, mas uma diferença não significa separação nem oposição. Como afirma Marcia Neder em seu artigo, a loucura ri das distinções mais evidentes, das separações cartesianas entre o “eu” e o “outro” ou entre fantasia e realidade – logo, entre o real e o virtual.

Ou seja, em qualquer paixão amorosa ou qualquer relacionamento de modo geral, já estaremos impregnados de nós mesmos e de nossas fantasias. Portanto, já significa a presença forte de virtualidade no jogo amoroso. Daí porque as críticas ao modo de se relacionar por meio da tecnologia terminam por ter um alcance limitado – que nos perdoe o sociólogo Zygmunt Bauman e sua série sobre os tempos líquidos.

Como também parece equivocada a suposição nostálgica de Turkle de que os amores virtuais seriam tristes substitutos dos amores reais – como já sublinhou Contardo Calligaris em crônica recente sobre o filme Ela. (No baile de máscaras das relações amorosas, ele escreveu, é difícil saber a diferença entre parceiros que se falam e parceiros que se teclam).

Em síntese, todos nós somos virtuais, porque ambos somos tecidos por nossas fantasias inconscientes, nossas subjetividades. Eis o amor em tempos de coma: a paixão amorosa, como lembra Neder, é um terremoto que arrebenta os marcos da identidade dos amantes e derruba as fronteiras da individualidade. Essa intimidade provoca um intenso prazer e uma atordoante e paralisante angústia.

Daí porque, repita-se, a questão central no filme Ela e na reflexão contemporânea sobre o amor (como filosofia, como literatura ou como psicanálise) não é se as máquinas podem pensar. Mas se os humanos podem (ou querem) sentir.

 

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terça-feira, 21 de janeiro de 2014 Filosofia do cotidiano | 02:09

A filosofia como alta ajuda para uma vida boa

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Cariocas que gostam de associar saber com prazer têm a chance de, a partir desta terça (21), apreciar o que paulistanos podem usufruir com razoável frequência: um curso conduzido por dois filósofos que exibem como poucos o talento de transmitir o seu conhecimento para não-especialistas. E se você não mora nem no Rio nem em São Paulo, resta-lhe a internet.

Busque dois nomes. Clóvis de Barros Filho, da USP, e Júlio Pompeu, da Universidade Federal do Espírito Santo, apresentam na Casa do Saber Rio “A filosofia explica as grandes questões da humanidade”. São apenas três encontros: Barros Filho abre a série, com o tema “Moral e virtude: reflexões para viver”; Pompeu prossegue na semana seguinte e fecha em seguida, respectivamente com “Poder e dominação: uma arte de relações e reações” e “A justiça e a lei: do sentimento à ideia”.

Filosofia_explica_as_grandes_questões_da_humanidadeO curso do Rio que começa esta semana é extensão de um livro que ambos publicaram no fim do ano passado pela coleção Casa do Saber da editora Casa da Palavra. O livro, por sua vez, é fruto de quase uma década de experiência bem-sucedida do curso “Grandes questões da humanidade”, da Casa do Saber em São Paulo. Trata-se de uma espécie de blockbuster da Casa do Saber, um típico caso de história de sucesso do conhecimento que vira um clássico para quem participou ou ouviu falar. Como “Os pensadores” (que também virou livro), é realizado desde o nascimento da Casa do Saber em São Paulo, com curadoria sempre primorosa do de Mario Vitor Santos, com extensão para o Rio, cujo conteúdo recebe os cuidados principalmente de Armando Strozenberg e Luiz Antônio Ryff.

Curso-livro-curso, portanto, formam um amálgama que traduz o estilo dos dois professores-autores. Aí, fala e escrita, palco e autoria, performance e academia se misturam e se realimentam mutuamente.

Clóvis e Júlio são dois amigos, parceiros de sala de aula e de escrita. De tão combinados, um mimetiza o outro nos gestos, na fala e até mesmo nos exemplos usados para os alunos. Eles conjugam o brilhantismo de catedráticos com o verbo certeiro dos professores performáticos. Mais do que isso, conseguem trazer o que a filosofia tem de melhor: a possibilidade elevar o espírito ao descer ao plano da vida cotidiana.

Ambos percorrem, em sala de aula e em suas obras, o trajeto imaginado pelos filósofos antigos, para quem a filosofia é, no fundo, uma maneira de alcançar uma vida boa, feliz e consciente.

É  como se o humor, os exemplos práticos, os dilemas, aflições e encantos do dia a dia pudessem – e podem – conviver com a fidelidade às ideias centrais de autores como Platão, Aristóteles, Hobbes, Maquiavel, Nietzsche e Foucault. Foi um modelo que se transformou em algo extraordinariamente bem-sucedido com filósofos como Luc Ferry e, com menor talento, Alain de Botton. Obras do gênero, especialmente de Ferry, pegam leitores de todos os níveis pela mão.

Não é pouco.

Se você quiser saber como funciona esse estilo, pode procurar o arquivo do Café Filosófico, da CPFL Cultura, ou uma curiosa e engraçada entrevista de Clóvis de Barros Filho a Jô Soares sobre felicidade e “a vida que vale a pena ser vivida”, tema de outro livro dele. O vídeo se espalhou pela internet. O entrevistado virou pop.

As grandes questões

O melhor, porém, está nas quase 200 páginas em formato quase de bolso, numa edição caprichada, como de praxe, da coleção da Casa da Palavra/Casa do Saber. A filosofia explica as grandes questões da humanidade, o livro, é um interessante guia filosófico sobre liberdade, felicidade, ética, fé, poder, esperança e conhecimento – as grandes questões da humanidade.

De uma ética para uma vida boa, eles escrevem, por exemplo: “Ética tem a ver com convivência. Eis o seu objeto. Mas seu entendimento e compreensão implicam também em esforço intelectual porque é pensamento sobre a vida partilhada, sobre as relações. É um saber que mobiliza, que vem pelo outro e que curiosamente está ausente de nossa educação formal”.

Nessa convivência, e na reflexão sobre a vida e vida praticada, algumas vidas de qualidade são convertidas em protocolo de qualidade de vida – “conversões conflituosas, que implicam quase sempre na luta pela legitimidade de definir o que é ético e o que não interessa que seja”.

Se a ética se dispõe ao estudo de um certo tipo de ação humana, esta ação é normatizável pela razão – denominada ato moral. Para qualquer ação há uma escolha, e para escolher convém a adoção de um critério, ou de um valor moral que nada mais é do que um critério existencial, explicam os autores.

Da moral para a liberdade e a definição do homem e suas consequências: somos ou não somos livres, podemos ou não ser livres? – questiona o livro, para explicar que isso implica, primeiramente, responder a duas perguntas preliminares: o que exatamente pode ou não ser livre? O que poderia impedi-la? Se não há liberdade, o quê ou quem pode ser o responsável por isso?

As respostas, ou as provocações a tais perguntas, estão lá.

Como a discussão sobre a identidade (quem somos nós?); o poder (“uma arte de relações e reações); a dominação (como diz Foucault, o poder é aquilo que alguém consegue infligir a outros, levando à dominação de um sobre outro ou outros); a justiça e a lei (“justiça é agir conforme a lei justa”, dizia Platão); e a virtude (o que faz o homem justo).

É uma forma inteligente de tentar dar um pouco de sentido à vida, mesmo que a vida talvez possa não ter sentido algum. Afinal, ainda que não tenha sentido, dificilmente conseguimos viver uma vida sem sentido, como prova a dupla de professores-autores.

Em sala de aula e no livro, estas duas formas prazerosas de dar utilidade àquilo que a muitos pode parecer inútil – a filosofia.

* * *

Mais sobre o curso de ambos aqui

 

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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014 História, Política | 00:45

De um torturador para uma jovem: “Você vai sofrer como Jesus Cristo”

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As centenas de comentaristas que, enfurecidos, criticaram duramente o artigo anterior (Por que os militares de hoje não admitem os crimes cometidos pela ditadura)  precisam ler – ou reler – a série de quatro livros do jornalista Elio Gaspari sobre a ditadura, relançados este ano pela editora Intrínseca: A ditadura envergonhada, A ditadura escancarada, A ditadura encurralada e A ditadura derrotada. Não são as únicas, claro, mas possivelmente são as mais completas obras sobre o regime militar, sua violência e sua anarquia, do nascimento à morte.

Aqueles que se expressaram protegidos por nomes ou e-mails falsos, ou a maioria corajosa que escancarou seu apoio aos militares e à ditadura de 21 anos, podem debruçar-se especialmente sobre o segundo volume, A ditadura escancarada. Há ali algumas histórias que lhes podem ser instrutivas.

O Inferno, segundo Gustave Doré para a obra de Dante: para torturadores e torturados, o inferno eram o porões

O Inferno, segundo Gustave Doré para a obra de Dante: para torturadores e torturados, o inferno eram o porões

As 53 marcas de Chael

Uma dessas histórias é de Chael Charles Schreier, estudante da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia, em São Paulo, abandonara o curso em 1968 para tornar-se o Joaquim, da organização armada VAR-Palmares. Tinha 23 anos e participara de pelo menos um assalto a banco. Foi preso em novembro de 1969, junto com dois companheiros de organização, o casal Maria Auxiliadora (ou Francisca) e Antonio Roberto Espinosa (ou Bento).

A primeira sessão de tortura foi coletiva: Chael foi obrigado a beijar o corpo de Maria Auxiliadora. Espinosa teve a cabeça empurrada entre os seus seios. Levaram os dois rapazes para outra sala. Francisca foi deitada no chão molhado, e assim aplicaram-lhe os primeiros choques elétricos. Ela recebia golpes de palmatória nos seios, e uma pancada abriu-lhe um ferimento na cabeça. Espinosa tomou choques com fios ligados à corrente elétrica de uma tomada de parede, amarraram-lhe a genitália numa corda e fizeram-no correr pela sala. A pancadaria acabou na madrugada, quando Chael parou de gritar.

No dia seguinte havia um cadáver na 1a Companhia da Polícia do Exército.

Quando isso ocorria, normalmente fechava-se o caixão, proclamava-se o suicídio e sepultava-se o morto. Mas com o corpo de Chael o procedimento rotineiro não pôde ser seguido: o diretor do Hospital Central do Exército, general Galeno da Penha Fraco, não aceitou o corpo como se tivesse entrado vivo e determinou que se procedesse à autópsia.

Foi a mais detalhada necropsia do regime, assinado pelo major-médico Oswaldo Caymmi Ferreira, chefe do serviço legista do HCE, e pelo capitão Guilherme Achilles de Faria Mello. Segundo os legistas, Chael Schreier tinha 53 marcas de pancada. Estava todo lanhado, com um corte no queixo suturado por cinco pontos. Tinha uma hemorragia na cabeça e sangue “em todos os espaços” do abdômen. O intestino foi extensamente rompido. O tórax estava deprimido. Dez costelas, quebradas.

A descrição do torturador

Num depoimento ao repórter Alexandre Oltramari, da revista Veja, em dezembro de 1998, o tenente Marcelo Paixão de Araújo, torturador do 12o Regimento de Infantaria  de Belo Horizonte de 1968 a 1971, descrevia o método do aparelho de repressão:

“A primeira coisa era jogar o sujeito no meio de uma sala, tirar a roupa dele e começar a gritar para ele entregar o ponto (lugar marcado para encontros), os militantes do grupo. Era o primeiro estágio. Se ele resistisse, tinha um segundo estágio, que era, vamos dizer assim, mais porrada. Um dava tapa na cara. Outro, soco na boca do estômago. Um terceiro, soco no rim. Tudo para ver se ele falava. Se ele não falava, tinha dois caminhos. Dependia muito de quem aplicava a tortura. Eu gostava muito de aplicar a palmatória. É muito doloroso, mas faz o sujeito falar. Eu era muito bom na palmatória. (…) Você manda o sujeito abrir a mão. O pior é que, de tão desmoralizado, ele abre. Aí se aplicam dez, quinze bolos na mão dele com força. A mão fica roxa. Ele fala. A etapa seguinte era o famoso telefone das Forças Armadas. (…) É uma corrente de baixa amperagem e alta voltagem. (…) Eu gostava muito de ligar nas duas pontas dos dedos. Pode ligar numa mão e na orelha, mas sempre do mesmo lado do corpo. O sujeito fica arrasado. O que não se pode fazer é deixar a corrente passar pelo coração. Aí mata. (…) O último estágio em que cheguei foi o pau-de-arara com o choque. Isso era para o queixo-duro, o cara que não abria nas etapas anteriores. Mas pau-de-arara é um negócio meio complicado. (…) O pau-de-arara não é vantagem. Primeiro, porque deixa marca. Depois, porque é trabalhoso. Tem de montar a estrutura. E terceiro, é necessário tomar conta do indivíduo porque ele pode passar mal.”

O arquivo de Gaspari

Os quatro livros da série do jornalista Elio Gaspari sobre a ditadura militar, relançados este ano

Os quatro livros da série do jornalista Elio Gaspari sobre a ditadura militar, relançados este ano

Inicialmente lançados em 2002 e 2004 pela Companhia das Letras, os livros foram levados por Gaspari para a editora Intrínseca, que encarou o projeto do site “Arquivos da Ditadura” e deu peso à reedição, revista e ampliada, tanto impressas quanto em e-books. Os quatro volumes — que se dividem em duas partes, As ilusões armadas e O Sacerdote e o Feiticeiro — já estão disponíveis em formato eletrônico, enriquecidos de documentos, fotos adicionais, áudios inéditos e vídeos. E, em fevereiro, sairão os livros impressos.

Gaspari é um dos gênios da raça do jornalismo brasileiro. Além da independência intelectual diante de partidos e políticos — o que lhe garante credibilidade para ser levado a sério e lhe permite espaço e autoridade para criticar e elogiar situação e oposição — ele tem uma memória prodigiosa, paciência exemplar e incomparável apego a detalhes que passariam despercebidos ao mais detalhista dos repórteres.

Durante mais de 30 anos de pesquisa, Gaspari reuniu um enorme acervo de documentos. Graças também às suas relações com o general Golbery do Couto e Silva, o poderoso chefe da Casa Civil do presidente Ernesto Geisel e artífice, com este, do processo de abertura “lenta, gradual e segura” do regime que ajudaram a criar. O jornalista herdou o diário do secretário de Golbery, Heitor de Aquino Ferreira, e o próprio Arquivo Golbery.

Os documentos de Gaspari estarão integralmente disponíveis no site Arquivos da Ditadura, mas alguns já começaram a aparecer no projeto. É o caso da gravação, revelada no início deste ano, em que o presidente norte-americano John Kennedy questiona, numa reunião na Casa Branca, se os Estados Unidos poderiam “intervir militarmente” no Brasil para depor o presidente João Goulart.

O ódio

Há mais. O próprio Centro de Informações do Exército, numa referência elíptica aos suplícios, qualificou-os como “ações que qualquer justiça do mundo qualificaria de crime”.

Oficiais do DOI do Rio atendiam ao telefone em nome da “Funerária Boa Morte” e nele um torturador disse a uma jovem, durante uma Sexta-feira Santa, que sofreria como Jesus Cristo.

Em São Paulo, o agente Campão informava: “Meu nome é Lúcifer”. E, no Ceará, um torturador disse: “Aqui não é o exército, nem marinha, nem aeronáutica. Aqui é o inferno”.

Na Polícia do Exército da Vila Militar, um sargento mostrava a cancela do quartel e dizia: “Dali pra dentro Deus não entra. Se entrar, a gente dependura no pau-de-arara”.

É possível que tais histórias (e muitas outras que se contam em detalhes ainda mais graves, como no livro resultado do projeto Brasil: nunca mais) soem coisa pequena para os comentaristas enfurecidos — a maioria defensora da volta da ditadura militar e crítica ardente da democracia conduzida pelo PT.

O que impressiona não é a rudeza dos comentários, nem as palavras virulentas para descrever o colunista e o autor do artigo da revista Brasileiros, no qual a coluna se baseou.

É curioso e divertido ler referências até a idade do colunista e a impossibilidade, na visão de alguns comentaristas, de tratar de um assunto em cujo contexto não se viveu. (Pedindo perdão por ter nascido tão tarde e de ter menos de 40 anos, o colunista questiona: se estiver certa tal tese, não pode haver, no presente, biógrafo de Abraham Lincoln ou especialistas em assuntos do Império brasileiro?).

Também não chega a surpreender a convicção com que se desmerece qualquer pedido de revisão do passado. Tampouco a tradicional exigência de condicionar essa revisão à aceitação dos crimes cometidos pelo terrorismo das organizações.

Chama a atenção é o ódio instalado no território livre do debate político nacional. Não foram poucos os que não só pediram a volta dos militares ao poder, como também os que criticaram o regime militar por ter feito o “serviço incompleto”. Defenderam a tortura e mesmo a morte dos militares terroristas do passado e dos governantes petistas do presente. Se adotadas tais práticas, estaríamos livres, segundo esse argumento, da “bandalheira” atual.

Um deles diz torcer para que aqueles “que deveriam ser mortos fiquem bem vivos para estuprar sua mãe, mulher e filhas e dar um tom de realidade as (sic) palavras erronia (sic) que consegue dizer”.

A tortura quebrou o terror

É preciso reconhecer: a tortura nos porões da ditadura ajudou a destruir as organizações armadas. A quebra do terror começou em julho de 1969, a partir da centralização das atividades de polícia política dentro do Exército.

No fim de junho de 1970 estavam desestruturadas todas as organizações que algum dia chegaram a ter mais de cem militantes. “A unificação de esforços colaborou para o trabalho da ‘tigrada’”, escreve Elio Gaspari em A ditadura escancarada, “mas foi o porão que lhe garantiu o sucesso”.

Segundo o projeto Brasil: nunca mais (tomo V, volume 1: a tortura), foram 308 as denúncias de torturas apresentadas por presos políticos às cortes militares. Em 1969 elas somaram 1027. Em 70, 1206.

Nos 23 meses que vão de agosto de 1968 ao fim do primeiro semestre de 1970 houve ações terroristas de grande escala: o assalto ao trem pagador da ferrovia Santos-Jundiaí, pela ALN; o ataque ao QG do II Exército, pela VPR; o assassinato do capitão Chandler, pela VPR; o roubo do cofre do governador Adhemar de Barros, pela VAR-Palmares, derivada da VPR e do Colina; e o sequestro do embaixador Charles Elbrick, pelo condomínio da Dissidência Universitária com a ALN.

Essas cinco ações foram organizadas por quatro grupos, e delas participaram 46 militantes. Elio Gaspari fez um levantamento do destino de 44 deles, cuja conclusão é reveladora: no fim de junho de 1970, seis estavam mortos, 21 presos e dez haviam deixado o Brasil. Dos sete restantes, dois morreriam e um seria capturado antes do final de 1970. Sobravam quatro. Dois estavam desconectados das organizações e outro exilou-se em 1971. Vivo e atuante, só um, que seguira para Cuba. Retornou ao Brasil e foi assassinado em 1972.

A repressão, sabemos, venceu.

“Confissões não se conseguem com bombons”

Os defensores da repressão como resposta às ações terroristas de combate à ditadura adotam argumentos falaciosos.

Em primeiro lugar, uma observação: a tortura tornou-se matéria de ensino e prática rotineira dentro da máquina militar de pressão política da ditadura por conta de uma antiga associação de dois conceitos. O primeiro relaciona-se com a concepção absolutista da segurança da sociedade. Vindo da Roma antiga (“A segurança pública é a lei suprema”), esse conceito desemboca nos porões: “Contra a Pátria não há direitos”, informava uma placa pendurada no saguão dos elevadores da polícia paulista. Ou seja, o País está acima de tudo, portanto tudo vale contra aqueles que o ameaçam.

O segundo conceito associa-se à funcionalidade do suplício. A retórica dos vencedores sugere uma equação simples: havendo terroristas, os militares entram em cena, o pau canta, os presos falam, e o terrorismo acaba.

A argumentação pró-tortura e antiterrorismo, sugere Gaspari, confunde método com resultado. Apresenta o desfecho (o fim do terrorismo) como justificativa do meio que o regime não explicitava (a tortura). Arma um silogismo: é preciso acabar com o terrorismo, a tortura acabou com o terrorismo, logo fez-se o que era preciso.

Para presidentes, ministros, generais e torcionários, o crime não estava na tortura, mas na conduta do prisioneiro. É o silêncio, acreditavam eles, que lhe causa os sofrimentos inúteis que podem ser instantaneamente suspensos através da confissão. Como argumentava o bispo de Diamantina, d. Geraldo de Proença Sigaud, “confissões não se conseguem com bombons”.

Quando internautas pedem punição similar aos militantes armados, ignoram um detalhe importante: os torturadores raramente são mencionados nos inquéritos, e em certos casos nem sequer suas identidades são conhecidas. Seus crimes, porém, entram nos autos pela narrativa das vítimas ou mesmo pelas análises periciais.

Muitas vezes, a ponta da verdade emerge da mentira encoberta por histórias inverossímeis. É casos do preso que morreu num tiroteio numa determinada esquina enquanto os moradores do lugar testemunharam que nela jamais se disparou um tiro. Ou ainda o cidadão de mais de 1,80m de altura, pesando quase cem quilos, que teria conseguido fugir do banco traseiro de um Volkswagen enquanto era escoltado por três soldados da Polícia do Exército.

 

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domingo, 19 de janeiro de 2014 História, Política | 09:23

Por que os militares de hoje não admitem os crimes cometidos pela ditadura

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É do jornalista Luiz Cláudio Cunha o extenso, hiperbólico e contundente artigo publicado na última edição da revista Brasileiros, no qual mostra por que os militares brasileiros de hoje se recusam a fazer o mea culpa pelos crimes da ditadura.

São 20 páginas que, na íntegra, somam mais de 12 mil palavras. Nelas, Cunha cobra dos militares o mesmo gesto feito pelo jornal O Globo em setembro do ano passado – a histórica admissão do erro do veículo-âncora das Organizações Globo para o apoio dado ao golpe militar de 1964 e aos 21 anos subsequentes que fizeram o País imergir no mais longo período autoritário de sua história.

O momento é propício para cobranças e gestos do gênero. Afinal, 2014 não será apenas o ano da Copa do Mundo no Brasil: em 31 de março (ou 1o de abril, dependendo do intérprete daqueles dias confusos), completam-se 50 anos do golpe; abril também marcará os 30 anos da importantíssima e derrotada campanha das Diretas Já; e, em novembro, se chegará aos 25 anos da primeira eleição direta para a Presidência da República depois das décadas de ditadura.

Protesto contra a ditadura no Rio, em 1964: a foto de Evandro Teixeira é uma das imagens mais reproduzidas do período

Protesto contra a ditadura no Rio, em 1964: a foto de Evandro Teixeira é uma das imagens mais reproduzidas do período

Acrescente-se à galeria de efemérides a conclusão das atividades da Comissão Nacional da Verdade, que deve publicar seu relatório final no segundo semestre.

Tudo somado, pode-se ter um ano-marco dos processos de verdade, memória e justiça, e da consolidação dos direitos humanos no Brasil.

Não é pouca coisa, e o artigo de Cunha oferece uma relevante contribuição para entender sérios entraves nesse terreno. Seu título é direto na contraposição da inércia dos militares ao gesto do Globo: “Por que os generais não imitam a Rede Globo”.

Cunha é o experiente repórter que chegou a ser consultor da Comissão Nacional da Verdade, e dali foi afastado por criticar alguns dos seus integrantes e a falta de empenho do ministro da Defesa e dos comandantes do Exército e da Marinha no esclarecimento de crimes da ditadura.

Embora crítico das Organizações Globo, o exemplo do mea culpa a que recorre é justificável: para ele, a Globo foi o principal sustentáculo civil do regime autoritário. “Não cabe discutir se o gesto da Globo envolve puro marketing, medo velado das manifestações, mero oportunismo político ou um genuíno arrependimento”, afirma o artigo. “O que importa é o inédito, amadurecido, eloquente reconhecimento de um memorável, irremediável erro pelo mais poderoso grupo de comunicação do País”.

O jornal O Globo – lembra Cunha – fez dura oposição ao governo de João Goulart e “já em 1965, no ano seguinte à sua deposição, inaugurou a rede de televisão que se forjou e se consolidou à sombra do regime militar que a Rede Globo apoiou com o fervor de fã de auditório”. (Ele não cita, mas convém lembrar que a esmagadora maioria dos grandes jornais, incluindo aqueles que mais tarde seriam vistos como opositores do regime, Estadão e Jornal do Brasil, fez o mesmo em 1964: apoiou a derruba de Jango.)

Em setembro de 2013, O Globo publicou duas páginas e um editorial em que reconheceu, com solenidade e sem disfarces, o equívoco do apoio ao golpe militar e à ditadura subsequente. Não foi a única confissão. O jornal também admitiu que a tíbia cobertura da campanha das Diretas Já resultou de um erro de avaliação político-jornalístico.

Os militares fingem que nada fizeram

Por que os militares não fazem o mesmo? Porque “fingem que nada fizeram ou nada têm a se desculpar”, responde Luiz Cláudio Cunha em seu artigo, contabilizando o balanço de 21 anos de uma ditatura que atuou “sem o povo, apesar do povo, contra o povo”:

– 500 mil cidadãos investigados pelos órgãos de segurança;

– 200 mil detidos por suspeita de subversão;

– 11 mil acusados nos inquéritos das Auditorias Militares, cinco mil deles condenados;

– Dez mil torturados nos porões do DOI-Codi;

– Dez mil brasileiros exilados;

– 4.862 mandatos cassados, com suspensão de direitos políticos, de presidentes a vereadores;

– 1.202 sindicatos sob intervenção;

– Três ministros do Supremo afastados;

– Congresso Nacional fechado três vezes;

– Censura prévia;

– 400 mortos pela repressão, 144 dos quais desaparecidos até hoje.

“A mentalidade dominante dos generais brasileiros (…) rechaça qualquer avaliação do passado recente, escorregando pelo raciocínio simplório e fácil do ‘revanchismo’”, afirma Cunha.

Pressões como a da revista Brasileiros, da Comissão Nacional da Verdade ou do projeto Arquivos da Ditadura, do jornalista Elio Gaspari, ajudam a iluminar as sombras existentes sobre o papel dos militares na violação de direitos humanos naquele período.

Vladimir Herzog, morto sob tortura no DOI-Codi: a tese do suicídio foi vendida pelos militares

Vladimir Herzog, morto sob tortura no DOI-Codi: a tese do suicídio foi vendida pelos militares

São alvos, por exemplo, a localização dos restos mortais dos guerrilheiros do Araguaia, a violência contra povos indígenas, os assassinatos dos jornalistas Vladimir Herzog e do ex-deputado Rubens Paiva, as suspeitas sobre as mortes dos presidentes João Goulart e Juscelino Kubitschek e o desaparecimento de milhares de presos políticos enquanto estavam nas mãos do Estado.

E a tortura. A tortura foi  o instrumento extremo de coerção e extermínio, último recurso da repressão política que o Ato Institucional n° 5 libertou das amarras da legalidade.

Para usar uma expressão celebrizada por Elio Gaspari, foi quando a ditadura envergonhada transformou-se em ditadura escancarada; quando a primeira foi substituída por um regime anárquico nos quartéis e violento nas prisões: foram os Anos de Chumbo, que conviviam com o Milagre Brasileiro. Ambos reais, coexistiram negando-se. (Para muitos, houve mais chumbo do que milagre, uma vez que a tortura e a coerção dominaram o período.)

Em seu artigo na revista Brasileiros, Luiz Cláudio Cunha lembra os exemplos de generais argentinos e uruguaios, que assumiram publicamente as atrocidades cometidas. Igualmente as comissões daqueles países, que ajudaram a Argentina e o Uruguai a não temer abrir cicatrizes fechadas do passado.

(O artigo não cita, mas é possível lembrar outros exemplos notáveis de reavaliação do legado de violência do passado, como a África do Sul do apartheid, o Peru de Fujimori e o Chile de Pinochet.)

O silêncio que diz muito

O texto de Luiz Cláudio Cunha põe o dedo em riste para os três comandantes das Forças Armadas: o general Enzo Martins Peri, o almirante Júlio Soares de Moura Neto e o brigadeiro Juniti Salto. Sem qualquer ligação com as sombras deixadas pelos colegas de farda da ditadura, os três deixam claro a discordância com a ideia de exumação do passado.

Em 18 de novembro de 2011, ao sancionar a lei que criava a Comissão Nacional da Verdade em cerimônia no Palácio do Planalto, a presidente Dilma Rousseff (ex-guerrilheira) era aplaudida por toda a plateia ao sublinhar aquele “dia histórico”, segundo suas palavras. Aplauso seguido por todos os presentes, exceto por quatro pessoas: justamente os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica e do chefe do Estado-Maior Conjunto.

Foi uma cena curiosa: todos eles contidos, mãos sobre o colo, imóveis. No código consentido dos comandantes militares, a ausência do aplauso foi uma das maneiras de dizer pouco e insinuar muito.

A resistência da banda fardada

O artigo de Cunha cita outras evidências que refutam prognósticos otimistas quanto a possível mea culpa dos militares:

– Mentiras expostas em livros didáticos usados por 14 mil alunos matriculados em escolas militares do País;

– O excesso de escolas que homenageiam presidentes e comandantes militares;

– O “sumiço” de documentos como explicação de oficiais para defender a impossibilidade de elucidação de casos de tortura e desaparecimento da época da ditadura;

– A dificuldade que militares ainda demonstram para aceitar a prevalência da autoridade civil (como o espantoso incidente envolvendo o ministro da Defesa, Celso Amorim, e seus assessores civis, barrados na entrada do CIE, o Centro de Informações do Exército, sob o argumento de que ali não entram civis, apenas militares; só o ministro, calado, pôde entrar).

Diante dessa resistência, o mais provável, diz ele, é que “incapazes de reconhecerem suas culpas, os militares brasileiros comprometidos com os abusos da ditadura sejam compelidos a prestar contas à Justiça”, segundo afirma Luiz Cláudio Cunha. Ele acredita na revisão da Lei da Anistia.

Jurisprudência para punir torturadores

Como lembrou, em entrevista publicada no iG, o cientista político Mauricio Santoro, assessor de Direitos Humanos da Anistia Internacional no Brasil, há jurisprudência internacional para punir agentes do Estado envolvidos em atos de violação dos direitos humanos. Depois de estudar os casos de comissões da verdade em cerca de 40 países, Santoro constatou que, mesmo em locais onde as leis de anistia não foram revistas, condenações têm ocorrido.

Há também o conceito de justiça de transição, que no Conselho de Segurança da ONU abarca mecanismos e estratégias (judiciais ou não) para avaliar o legado de violência do passado, atribuir fortalecer a democracia e garantir que não se repitam as atrocidades. responsabilidades, tornar eficaz o direito à memória e à verdade.

Para resumir claramente: oficinais-generais que ordenaram, estimularam e defenderam a tortura levaram as Forças Armadas brasileiras ao maior erro de sua história. Os crimes da época envenenaram a conduta dos encarregados da segurança pública, desvirtuaram a atividade dos militares da época e macularam, até hoje, a sua imagem.

Como pergunta Luiz Cláudio Cunha, por que os generais de hoje não admitem os erros dos seus colegas de farda do passado?

 

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terça-feira, 31 de dezembro de 2013 Filosofia do cotidiano | 09:36

Réveillon reacende nossa esperança de felicidade

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Se o Carnaval é o tempo da alegria sem causa, da felicidade sem dia seguinte, e se o Natal nos informa sobre o amor fraterno e a amizade, o réveillon é provavelmente o momento que melhor espelha, traduz e renova a esperança. Na passagem do ano não vivemos exclusivamente o dia e a noite únicos, feito o carpe diem hedonístico carnavelesco, mas enxergamos o amanhã com as portas e o coração abertos para o que virá, como se nessa virada de tempo nossas vidas fossem mudar drástica e repentinamente – para melhor, evidentemente.

Faça o teste, observe à sua volta, recolha depoimentos de amigos e familiares, reveja a caixa de entrada do seu correio eletrônico, verifique todas as suas mensagens, instantâneas ou não: a poucas horas de passarmos a enquadrar 2013 em nosso retrovisor da memória e encararmos 2014 não mais com o mero estranhamento da novidade, serão raros aqueles desprovidos de mensagens de esperança e renovação próprios dessa época.

O poeta Carlos Drummond de Andrade publicou vários textos dignos de citação para o momento, e a editora Record transformou alguns deles num pequeno e belo volume em 2008: Receita de Ano Novo. Recebi Drummond de amigos que trabalham com a palavra – poetas, escritores, filósofos – ou que simplesmente têm a sensibilidade para entendê-las e compartilhá-las. Eu mesmo usei um desses textos e reproduzo aqui.

“Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial”, escreveu Drummond. “Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente.”

A industrialização da esperança de que tratou Drummond não parece um fenômeno exclusivo do réveillon, mas é no fechamento dos doze meses do ano que ela se manifesta de maneira mais enfática. E num país que se habituou a se enxergar como nação do futuro, a vocação para a esperança se revela ainda mais dramática.

Brasileiro, profissão esperança

Não é fácil manter a condição de País do futuro por tanto tempo. Há um enorme mérito nisso. Disso ingleses e portugueses talvez não entendam: nenhuma nação do mundo foi o país do futuro por tanto tempo como o Brasil. Por mais que um inglês force sua imaginação, jamais conseguirá acreditar que a Inglaterra seja, no futuro, algo superior ao que foi no passado, política, econômica e culturalmente. O mesmo império econômico e geopolítico produziu Shakespeare, Bacon e Newton; nenhum inglês acredita que ainda vá surgir outro Shakespeare, outro Bacon ou outro Newton.

Ingleses têm o centro de gravidade no passado. Aliás, como os portugueses, que também já foram um império, viveram momentos de glória e esperaram por muito tempo a volta de D. Sebastião, que os redimiria do ocaso, do ostracismo e da desesperança. Não à toa “saudade” foi uma palavra inventada pelos portugueses (embora o sentimento seja universal): o profundo sentimento de uma nação que teve seus dias de glória. Sua esperança olha para o passado, a fim de revivê-lo.

Enquanto isso, nossa saudade é inversa – talvez o que Fernando Pessoa chamou de uma “saudade imensa de um futuro melhor”. A condição brasileira ancora-se na ideia de que pouco fizemos no passado, ou tudo o que temos por fazer de valioso está mesmo no amanhã. É para o futuro que aponta o centro de gravidade de nossa imaginação. É-nos inconcebível um futuro que seja ainda pior do que o nosso passado.

Modesto no bolso, craque no pé

Dentre os muitos paradoxos do Brasil, um deles é a dissonância entre as condições materiais de existência e as diferentes percepções subjetivas – um cruel histórico de desigualdades, injustiças e precariedade de vida conviveu com uma exuberante autodefinição de povo feliz e esperançoso. Um terreno fértil para exageros de lado a lado, diga-se.

Em “breviário do patriotismo”, Afonso Celso destacou que a felicidade brasileira era fruto dos “motivos reais” que a pátria nos dá para amá-la e para que dela nos orgulhemos. Segundo ele, pode haver países mais prósperos, mais poderosos e mais brilhantes do que o Brasil, mas “nenhum mais digno, mais rico de fundadas promessas, mais invejável”. Para Afonso Celso, o clima e a mestiçagem garantiram um “tipo nacional” privilegiado.

No clássico Retrato do Brasil, Paulo Prado, por outro lado, considera que esses elementos constituem explicações suficientemente evidentes para a “tristeza brasileira”. Ele escreveu:

“A melancolia dos abusos venéreos e a melancolia dos que vivem na ideia fixa do enriquecimento – no absorto sem finalidade dessas paixões insaciáveis – são vincos fundos na nossa psique racial, paixões que não conhecem exceções no limitado viver instintivo do homem, mas aqui se desenvolveram de uma origem patogênica provocada sem dúvida pela ausência de sentimentos afetivos de ordem superior. […] No Brasil, o véu da tristeza se estende por todo o país, em todas as latitudes, apesar do esplendor da Natureza”.

Felicidade edênica

Há alguns anos a Fundação Getulio Vargas na qual perguntou aos entrevistados se eles sentiam orgulho de ser brasileiros e quais os motivos para o orgulho. Enquanto quase 60% responderam afirmativamente, somente 4% disseram sentir vergonha do país em que vivem. Em ordem decrescente, a natureza, o caráter do povo, as características do Brasil, esportes/música e carnaval foram os motivos enumerados para a razão de tanto orgulho. É o que o historiador José Murilo de Carvalho chamou de motivo edênico do orgulho nacional. O Éden somos nós.

Do Instituto Datafolha veio uma pesquisa segundo a qual quase metade dos brasileiros consideram o Brasil o país mais feliz do mundo. Estão satisfeitos com a própria vida, 65% dos entrevistados. Somente 3% se declaram infelizes. Curiosamente, no entanto, o Brasil foi ao mesmo tempo apontado como o segundo país mais infeliz do planeta, atrás apenas da África (genericamente) e da Etiópia – empatadas. A grande maioria dos entrevistados, não importando o nível de renda e o grau de escolaridade, mostrou-se feliz com a vida que levava.

Enquanto 65% dos entrevistados se sentem felizes consigo, apenas 23% acreditam que os brasileiros em geral são felizes. Em outras palavras, a imagem que temos de nós mesmos, cada um por si, não corresponde àquela que temos de nós mesmos como coletividade. Como entender duas percepções tão conflitantes?

Analisando os dados, o economista Eduardo Giannetti apresentou na época duas hipóteses. A primeira seria questionar a validade da imagem que cada um gosta de alimentar de si mesmo. “Por mais infeliz que alguém seja aos olhos dos outros, o indivíduo se defende como pode da dor de admitir perante si mesmo a própria infelicidade”.

A segunda hipótese é que os entrevistados talvez usem critérios distintos nos juízos que emitem: “Ao falarem de si, eles privilegiam a perspectiva interna e declaram o seu bem-estar subjetivo. Ao falarem dos demais, contudo, eles naturalmente adotam o ponto de vista externo e privilegiam as condições objetivas em que vive a maioria. A precariedade da vida vista de fora – renda, emprego, segurança, saúde, educação, moradia – domina a avaliação”.

Embora especulativa, a conclusão pareceu satisfatória: infelizes são os outros, não eu; aos olhos deles, no entanto, os outros somos nós. Acrescente-se ao raciocínio de Giannetti: Dizemo-nos felizes, individualmente, mas nossas felicidades individuais não se somam, não se multiplicam. É o afloramento do individualismo brasileiro, de sua dificuldade histórica de gestar uma dimensão coletiva, um espaço público, em que a busca de bem-estar subjetivo se conjugue com a aliança, o compromisso, o contrato. Essa premissa se confirma com o fato de a política brasileira trazer infelicidade para 37% dos entrevistados.

A política no lugar da religião como fonte de esperança

O número acima não surpreende, porque enquanto a felicidade é a prima rica da esperança, a frustração é a prima pobre. Contraditoriamente, depositamos uma enorme esperança na política, quase no mesmo compasso da profunda decepção que temos com ela – e com os políticos. Como disse o filósofo Luiz Felipe Pondé na última Flip, em Paraty: a relação com a política hoje é religiosa na raiz; esperamos que a política conserte o mundo. É essa convicção que alimenta os mais críticos da política, como aqueles que encheram as ruas de protesto no Brasil, nos EUA, na Turquia, na Síria e em tantos outros lugares.

E, no afã de esperar o futuro como algo melhor, corre-se o risco de ignorar o passado e a herança que nos foi legada. Voltando ao próprio Pondé, na mesma Flip: “A modernidade parece um adolescente de 17 anos, que acha que entende tudo sobre o mundo e que o passado não vale nada. Quando você aprende a respeitar o que veio antes de você, ajuda a baixar a bola sobre o que pensa de si mesmo.”

O avesso da esperança, no entanto, parece ser uma condição de vida de vazio, mesmo infernal. Em sua Divina Comédia, Dante Alighieri descreve os portais do inferno como marcados por um aviso que conclama aos visitantes a abandonar toda e qualquer forma de esperança. Esperamos o que não temos, e no modo mais cético de ver a vida seríamos tanto menos felizes quando mais esperamos ser felizes. Woody Allen resumiria numa fórmula: “Como eu seria feliz se fosse feliz!”.

Desconheço, no entanto, alguém que acredite na falta de esperança como meio de ser feliz – senão filósofos que usam o recurso como artifício teórico. Do mesmo modo que rejeitamos fórmulas para a felicidade. (Como escreveu o psicanalista Contardo Calligaris, a felicidade, para você, pode ser uma vida casta; para outro, pode ser um casamento monogâmico; para outro ainda, pode ser uma orgia promíscua. Para você, buscar a felicidade consiste em exercer uma rigorosa disciplina do corpo; para outros, é comilança e ociosidade. Alguns procuram o agito da vida urbana, e outros, o silêncio do deserto. Há os que querem simplicidade e os que preferem o luxo. Buscar a felicidade, para alguns, significa servir a grandes ideais ou a um deus; para outros, permitir-se os prazeres mais efêmeros.)

Eis o ponto: com ou sem religião, com ou sem filosofia, com ou sem leitura de qualquer autor que tenha se preocupado com tais questões, vivemos em algum lugar entre o campo do provável, do realizável e do desejável. E nesse lugar incerto cabe de tudo: esperança, medo, frustração, felicidade, desejo, vontade… Um caldeirão de afetos mais ou menos intensos, contraditórios e misturados, todos amplificados ainda mais pelas luzes e fogos do réveillon. E por essa razão, Drummond continua e continuará sendo importante nos últimos dias do ano.

Como neste poema de A rosa do povo, com o qual desejo ao leitor uma feliz – e esperançosa – passagem de ano:

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor [da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, [doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o [clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus… 

Recebe com simplicidade este presente do [acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos [séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras [espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

 O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles… e nenhum resolve. 

Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

 

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terça-feira, 17 de dezembro de 2013 Filosofia do cotidiano | 03:23

Solução de um filósofo contra o fracasso do casamento: “amor suave”

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Numa de suas frases incomparáveis, o dramaturgo irlandês Oscar Wilde disse: “Quando querem nos punir, os deuses atendem às nossas preces”. Muito tempo antes dele, filósofos como Platão e Pascal afirmaram o que depois seria repetido por Schopenhauer e Sartre: desejo é falta. “O que não temos, o que não somos, o que nos falta, eis os objetos do desejo e do amor”, escreveu Platão. Em outras palavras, se só desejamos o que não temos, nunca temos o que desejamos; tão logo um desejo seja satisfeito, já não há falta, e assim também já não há desejo.

Fracassou o casamento por amor?As citações acima parecem apropriadas para quem se interessar pela leitura do novo livro do filósofo francês Pascal Bruckner: Fracassou o casamento por amor?. Recém-lançado pela Difel, selo da editora Record, o livro parece ter um título saído dos códigos de autoajuda, mas é mais instigante. Um dos expoentes do grupo dos novos filósofos franceses, Bruckner busca aplacar as consequências geradas pelo ideal platônico – afinal, se Platão estivesse certo, a vida oscilaria para todos num pêndulo cruel que seguiria invariavelmente do desejo à frustração, da esperança ao sofrimento. (E não são poucos, infelizmente, a padecer dessa agonia de existência.)

A um problema conhecido e objetivo da vida prática moderna – o aumento progressivo do número de divórcios e a queda sistemática dos casamentos – Bruckner acrescenta um problema filosófico: os limites da idealização (no caso, os limites da união hiperidealizada como fusão amorosa). Da soma resulta uma saída de natureza igualmente filosófica, mesmo para aqueles que nunca leram Pascal ou para quem Platão não passa de uma superficial referência em torno de um certo “amor platônico” – aquele distante, idealizado e dificilmente realizado.

Amor total ou separação? Nenhum dos dois

A saída para esse problema, sugere Bruckner, é uma espécie de “amor suave”, em que o casal aceite a ideia de companheirismo, tolerância e respeito mútuo, uma relação da qual não se avance muito além de valores como amizade, afinidades e compreensão. Para bom entendedor: menos paixão, menos sexo, menos intensidade. Estes não passariam de “imperativos categóricos” do casamento, uma profecia autoanunciada para o fracasso.

Eis o estranho paradoxo de nosso tempo: há muito tempo já foi vencida a tarefa de valorizar os sentimentos, pôr abaixo o tabu da virgindade e desdramatizar o divórcio; a adesão às paixões tornou-se gesto comum entre nós; a liberdade amorosa exerce seu poder de sedução sobre boa parte das sociedades tradicionais (como as dos países muçulmanos ou da Índia e China); gays e lésbicas desejam obter direito ao casamento; justamente no momento em que tudo isso é fato, o casamento passa por uma crise de legitimidade.

Volta ao passado? Retorno ao casamento clássico, aquele tão repetidamente atacado por limitar o casal a uma vida de interesse e não de amor, por impor a resignação, a repulsa ou a reclusão conjugal? Quase isso, propõe Bruckner. Durante tanto tempo lutou-se contra a ideia, cristalizada no modelo clássico de casamento, de que o amor era algo proibido e a que se deveria combater. O problema, diz o filósofo, é que do amor proibido seguiu-se equivocadamente para o amor obrigatório. Um grande sonho se transformou em falência da instituição que ele deveria proteger.

O amor ideal é uma divindade que traz sofrimento

“Por que ele [o amor ideal] parece tão difícil de ser vivido nos dias de hoje?”, pergunta-se Bruckner, para responder em seguida: “Porque o veneramos como a uma divindade, por ter se tornado, assim como a felicidade, o alfa e o ômega das sociedades ocidentais”. (Em outro livro, publicado no Brasil como A euforia perpétua, Bruckner analisa e questiona o que chama “dever de felicidade”, a crítica ao culto e à obrigação de ser feliz como marca do Ocidente).

O filósofo acha que as pessoas hoje se imaginam infelizes por não serem felizes ou se preocupam por nunca protagonizar uma grande paixão. Para quem pensa assim, a paixão que não é louca não merece ser vivida. Confunde-se o amor e casamento, flexibilizando o primeiro e domesticando o último. Resultado: casamos menos e nos divorciamos mais. O que deveria gerar mais felicidade causa também aflição. “O amor triunfou no casamento antes de destruí-lo por dentro”, escreve Bruckner.

Para ele, a forma contemporânea do casamento combateu o modelo clássico que impunha às mulheres a infelicidade e a humilhação protagonizada por maridos despóticos, mas criou outros fragelos, sem se livrar dos antigos. Estabeleceu uma espécie de “tudo ou nada”: a busca de conciliar tudo, o sentimento e o erotismo, a educação das crianças e o êxito social, a efervescência e a permanência. (Sobre essa cruel exigência imposta aos casais, leia a instrutiva entrevista do psicanalista Contardo Calligaris ao iG).

“Os casais de hoje não morrem por egoísmo ou materialismo, morrem por um heroísmo fatal, uma ideia ampla demais de si mesmos”, escreve Bruckner. “Cada mulher se sente obrigada a ser, ao mesmo tempo mãe, puta, amiga e ‘ter atitude’; cada homem, pai, amante, marido e vencedor: pobre de quem não preencher essas condições”.

Amar demais é platonismo demente

Como numa filosofia de guerrilha, Bruckner chama de “platonismo demente” aqueles que amam o amor em demasia; para ele, significa amar mais o amor do que amar as pessoas propriamente. A vida de um casal, segundo o filósofo, tornou-se mais difícil desde que, de todas as suas funções, guardou-se apenas a da satisfação plena. “Por querer dar certo a qualquer preço, o casal se consome em ansiedades, teme a lei da entropia, a aridez das horas mortas. A menor queda de tensão é vivenciada como um fiasco, um descumprimento da promessa”.

Em síntese, espera-se volúpia demais no casamento, diz ele. Na acepção idealizada, o amor permanece como um fetiche inviolável, um tipo de liberdade forçada. Em resposta ao amor-paixão, mais breve e fugidio, Pascal Bruckner propõe procurar a felicidade possível a partir de uma coexistência harmoniosa. No lugar de êxtases estrondosos, regularidade e entusiasmo. Diante da possibilidade de exuberância e arrebatamento, opte-se pela indulgência e delicadeza, equilíbrio e ponderação.

Não pergunte sobre o amor para não sofrer ao amar

Convém prudência ler este feroz ataque ao amor, mesmo ao amor idealizado. Como qualquer debate em torno de temas complexos, deve-se ler com cautela as pregações de Bruckner. Ele não admite, mas é o que se pode chamar de um estoico. Os gregos antigos adeptos do estoicismo pregavam a virtude como algo suficiente para a felicidade; um sábio era imune aos infortúnios e ao sofrimento. A racionalidade, a harmonia e a indiferença seriam marcas de uma vida serena e, portanto, sábia e feliz. Sem escravizar-se pelas emoções e pelas paixões – em geral destrutivas, alertavam.

Houve muitos estoicos na história das ideias, mas não necessariamente tiveram razão. O que é a felicidade para eles? É não perguntar em que consiste a felicidade, porque existe na interrogação o princípio da infelicidade (John Stuart Mill). O que é a riqueza? É não desejar mais do que aquilo que se tem, conselho central dos clássicos, de Epicuro a Platão. O contrário não é apenas uma causa de infelicidade; a ambição desmedida da acumulação material é, como Baudelaire avisa, a raiz da vulgaridade.

No caso de Pascal Bruckner e seu livro sobre o fracasso do casamento por amor, o diagnóstico parece correto – todos se queixam de não conseguir satisfazer-se amorosamente apesar de o amor ser colocado “no topo da expectativa”. Mas recorro a duas outras citações para aplacar a intensidade da crítica de Bruckner (em seu diálogo O crítico como artista, Oscar Wilde – ele de novo – afirmava que para dizermos aquilo em que verdadeiramente acreditamos é preciso falar através de lábios alheios).

De José Miguel Wisnik, num ensaio publicado no livro O sentido das paixões, organizado há mais de 20 anos por Adauto Novaes, veio a pergunta: “É permitido dizer que o mundo é pobre para quem jamais foi doente o bastante para a paixão?”. E do psicanalista Jurandir Freire Costa, em seu livro Sem fraude nem favor: estudos sobre o amor romântico, surgiu a instigante ideia: “Sem amor estamos amputados de nossa melhor parte. A vida pode até ser mais tranquila e livre de dores quando não amamos. Mas trata-se de uma paz de cinzas”.

Eis um bom motivo para retomar o tema. Em outro artigo.

 

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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013 História, Política, Sociedade | 04:30

Humanidade é má por inclinação e corrupta por oportunidade

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Para quem acha que a corrupção brasileira começou com o chamado mensalão, e que a má imagem dos funcionários e agentes públicos teve início com Fernando Collor de Mello (o presidente “caçador de marajás”), convém dar uma lida em alguns dos artigos presentes no livro História do Brasil para ocupados.

1Lançado no mês passado pela editora carioca Casa da Palavra e organizado pelo professor Luciano Figueiredo, da Universidade Federal Fluminense, o livro reúne textos de 66 pesquisadores, jornalistas, economistas e historiadores que recontam passagens importantes dos últimos cinco séculos “de um jeito original”, como prega o subtítulo da obra. Leves na forma, certeiro no conteúdo, sugere o organizador.

Alguns dos textos conseguem isso, como a historiadora Mary del Priore ao tratar do uso de afrodisíacos e anafrodisíacos nos séculos XVI e XVII (motivo para outro artigo sobre este livro, quem sabe) e ao escrever o perfil de D. Pedro I, um imperador “impulsivo, louco por mulheres e que não escondia suas traições. Ou ainda o economista Gustavo Franco, em artigo sobre um Machado de Assis pouco conhecido: o talentoso cronista das questões econômicas que afligiam o Brasil na passagem da monarquia para a República (tema já esmiuçado pelo ex-presidente do Banco Central no excelente livro Machado de Assis e a economia, publicado pela Zahar).

Mesmo em textos classudos, outros mostram por que são referencia, como Luiz Felipe de Alencastro e Rubens Ricupero.

Mas passemos. O que interessa aqui é a corrupção, tema dos artigos do jornalista Eduardo Bueno (“Ficha suja”) e José Murilo de Carvalho (“Basta de corrupção”).

O primeiro ficha-suja da história do Brasil

Com seu habitual jeito criativo, Eduardo Bueno mostra que burocracia, favorecimentos, nepotismo e atividades escusas fazem parte da herança deixada pelos tempos coloniais no Brasil. O jornalista fala do Brasil de meio século depois de “descoberto” por Pedro Álvares Cabral – uma terra remota, quase despovoada (de europeus) e pouco lucrativa para a metrópole.

Apesar da grave crise financeira que atingia Portugal, o rei D. João III e seus conselheiros decidiram investir muito dinheiro do Tesouro Real para estabelecer um governo-geral no Brasil. Em março de 1549 desembarcariam no País as primeiras autoridades: o ouvidor-geral (cargo equivalente ao de ministro da Justiça), desembargador Pero Borges, e o provedor-mor (quase um ministro da Economia), Antônio Cardoso de Barros.

Borges se transformaria no que Eduardo Bueno classifica como o primeiro funcionário público ficha-suja de nossa história. Seis anos antes, fora condenado em Portugal por desvio de verba para construir um aqueduto – obra inviabilizada pelo roubo.

Borges recebia indevidamente quantias de dinheiro “que lhe eram levadas a casa, provenientes das obras do aquedo, sem que fossem presentes nem o depositário nem o escrivão”, segundo trecho de Elementos para um Dicionário de Geografia e História Portuguesa, de 1887, reproduzido no livro.

A vinda para a colônia se deu como parte de sua punição. Mas com privilégios: Borges tinha poder (inclusive condenar índios e escravos à morte), um ótimo salário e pensão para a mulher manter-se em Lisboa.

Desembarcando no Brasil, mostrou-se chocado com a “pública ladroíce e grande malícia”. Lorota: o ouvidor-geral se beneficiou do erário em solo brasileiro, ao adiantar os salários dos empregados mais graduados e suspender, sem explicação, a remuneração dos menos qualificados.

Quando o bem público era propriedade do rei

Em outro artigo (“A arte da subtração”), Ronaldo Vainfas mostra que o que chamamos de peculato – apropriação de dinheiro público em proveito próprio – não chegava a ser uma irregularidade. Pelo contrário, era prática institucionalizada. Conta ele:

“Era comum a Coroa arrendar a particulares o direito de cobrar impostos, assim como o direito de explorar produtos monopolizados pelo Estado. O regime de capitanias hereditárias foi um modelo desse esquema, no qual os donatários eram oficiais do rei recompensados com privilégios particulares, incluindo terras e parte da receita fiscal devido ao monarca. O que chamamos de bem público era, então, propriedade do rei”.

Naquela época, lembra o artigo, o que se proibia não era a prática em si, mas o excesso. Não chegava a ser um crime de lesa-majestade mas um delito passível de punição.

Leis variadas para corrupção variada

Punição prevista em lei foi o que não faltou na história do Brasil e, em especial, na história republicana. É o que informa o artigo de José Murilo de Carvalho, prescrito para quem acha que nunca se roubou tanto na história deste País. Resume o historiador:

“No século XIX, os republicanos acusavam o sistema imperial de corrupto e despótico. Em 1930, a Primeira República e seus políticos foram chamados de carcomidos. Getulio Vargas foi derrubado em 1954 sob acusação de ter criado um mar de lama no Catete. A ditadura militar chegou ao fim sob acusações de corrupção, despotismo, desrespeito pela coisa pública”.

Os termos, porém, mudaram ao longo do tempo, razão pela qual os republicanos no final do Império não queriam dizer que D. Pedro II era corrupto. Ao contrário, reconheciam nele uma virtude: a da correção pessoal. Ou o carcomido sistema da República Velha. “Corruptos eram os sistemas, monárquico ou republicano, por serem, na visão dos acusadores, despóticos, oligárquicos, e não promoverem o bem público.

Foi o udenismo de oposição a Vargas, nos anos 1950, quem deu à corrupção a marca da traquinagem individual. Era a falta de moralidade das pessoas a maior fonte de problemas de corrupção, pregaram os udenistas. Corruptos, a partir dali, passaram a ser os indivíduos – os pelintras getulistas e o próprio Getulio. Foram também os indivíduos que serviram de justificativa para o golpe de 1964 e mais tarde inspiraram o grito de guerra de Collor.

(Qualquer semelhança com os neoudenistas que odeiam o lulismo e o petismo não será mera coincidência, pois a linhagem teórica atual é uma versão atualizada do passado. Carvalho provavelmente discorda dessa tese.)

“O Brasil sempre foi um país de leis e de legistas”, escreve José Murilo de Carvalho. Simples: herdeiros, por Portugal, da tradição jurídica romano-germânica, somos um dos maiores produtores de leis. (Não à toa, por aqui a eficácia e a produtividade de um parlamentar são equivocadamente avaliadas pela imprensa com base no número de leis aprovadas.)

O artigo mostra que formular a legislação perfeita foi sempre a aspiração maior dos juristas que compuseram a quase totalidade da elite política durante a formação nacional do século XIX. Leis e mais leis capazes de enquadrar toda a realidade e evitar qualquer brecha por onde possa escapar o transgressor. “Nosso jurista se vê com um demiurgo, organizador do mundo, reformador universal. Feita a lei, o problema para ele está resolvido, não lhe interessando sua execução”, afirma Carvalho.

É uma visão oposta à da tradição da Common Law anglo-saxônica, segundo a qual a lei apenas regula o comportamento costumeiro.

No argumento de José Murilo de Carvalho, nosso cipoal de leis incita à transgressão e elitiza a justiça. “A tentativa de fechar qualquer porta ao potencial transgressor, baseada no pressuposto de que todos são desonestos, acaba tornando impossível a vida do cidadão honesto. A saída que este tem é, naturalmente, buscar meios de fugir ao cerco. Cria-se um círculo vicioso: excesso de lei leva à transgressão, que leva a mais lei, que leva a mais transgressão.”

Para o historiador, se não existe uma tradição de respeito à lei, não será com apelos moralistas que ela será criada.

Não há sistema imune ao caráter humano

Muitos historiadores – e não só eles, infelizmente – veem a corrupção do País como um problema do sistema. Um vício endêmico do Estado brasileiro. Outros, incluindo juristas, enxergam a corrupção brasileira como resultado direto da herança ibérica. De novo, um vício endêmico do Estado, mas fruto da transgressão costumeira entre os portugueses, pródigos em confundir os negócios privados com os bens públicos.

Esses pensadores devem ter lido J.J. Rousseau em excesso – o suíço para quem os homens são bons, mas viram maus por obra e graça da civilização. Ou os historiadores representam o sentimento radiografado por Nelson Rodrigues, o da síndrome de vira-lata que acomete o brasileiro quando olha para o quintal estrangeiro.

A história mostrou que a humanidade, ao contrário do desejo de Rousseau, é má por natureza. E que a corrupção é um dos atributos mais democraticamente disseminados entre povos de todos os tipos e todos os tempos. A começar pela corrupção que interditou o Paraíso aos mortais – como se sabe, a queda responsável pela condição humana pós-Éden se deu como resultado da cumplicidade e do envolvimento entre Adão e Eva.

Desde os relatos do “Velho” e do “Novo Testamento” não faltam histórias de chantagens, subornos, intrigas, espionagens, assassinatos e perfídias em geral – Oriente incluído, fique bem entendido.

Vale da Odisséia de Homero ao Príncipe de Maquiavel e ao fisiologismo espiritual no Renascimento (quando os bispos negociavam absolvições e um lugar no céu ou a queima de mártires com a desenvoltura do toma-lá-dá dos sistemas eleitorais ou partidários contemporâneos). Do problema “endêmico” brasileiro à ação dos lobbies nos EUA, na Rússia e na China.

Dos escândalos na Alemanha e no Japão aos da Argentina e Brasil, não há sistema imune ao caráter humano.

Por essa razão se pode dizer que a humanidade é corrupta por inclinação e oportunidade.

Punição para essa humanidade corrupta e má? Como diz um intelectual amigo da coluna, a punição já existe, e é vivermos no meio uns dos outros.

 

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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013 Mulheres, Poesia | 13:50

Ana Cristina Cesar: mulher de muitos segredos, mas nenhum mistério

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Se pretendesse ser original, este texto deveria NÃO começar assim: há pouco mais de trinta anos, Ana Cristina César morreu; jogou-se da janela do apartamento dos pais, aos 31 anos, no Rio de Janeiro (era 29 de outubro). Em sua brevíssima passagem pela literatura brasileira do século XX, tornou-se um dos mais importantes nomes da poesia marginal que florescia na década de 1970.  Trinta anos que não apagaram – ao contrário, só alimentaram – o interesse pela herança poética deixada por Ana C. às gerações seguintes. Uma sobrevida maior que a vida.

Depois de algumas antologias e incontáveis obras sobre a poeta, agora a Companhia das Letras reúne a totalidade dos textos poéticos que ela publicou em vida, além uma seleção de fragmentos, rasuras, experimentais em verso e prosa, todos saídos dos papéis deixados por Ana Cristina.

Ana Cristina Cesar: deliciosa poesia com os embates de um feminino inquieto

Ana Cristina Cesar: deliciosa poesia com os embates de um feminino inquieto

Poética, editado com o esmero e a qualidade habituais da Companhia e lançado na semana passada, tem a curadoria editorial e apresentação do poeta e amigo Armando Freitas Filho, posfácio da professora Viviane Bosi e um robusto apêndice. São livros fora de catálogo há décadas, como A teus pés e Inéditos e dispersos, originalmente publicados pela Brasiliense.

Um carimbo póstumo

É um risco tratar de Ana Cristina Cesar, a carioca que, por sua história, montou uma armadilha para críticos, leitores e admiradores: a repetida e cansativa imagem da poeta precoce que se matou, a poeta genial, a mulher burguesa, a personagem quase mito transformada hoje muito mais em grife ou carimbo póstumo do que qualquer outra coisa, como já afirmou o poeta e crítico Manoel Ricardo de Lima.

Lima, a propósito, organizou em 2008 uma pequena e bem acabada edição chamada a nossos pés (Dantes Editora/Editora da Casa), na qual ele e outros 13 autores se uniram para escrever poemas e prosas breves a partir da autora de A teus pés, “para manter o sufoco da deliciosa poesia de Ana Cristina Cesar”, segundo palavras do organizador.

Não se pode dizer que lhe faltou originalidade, inclusive em seu texto de apresentação, onde Manoel Ricardo de Lima escreve: “Há 25 anos uma moça de olhos bonitos e mãos cobertas com luvas de pelica – Ana Cristina Cesar – interrompia um imprevisto e impunha outro”.

O que se viu dali em diante, lembra ele, foi um sem número de tentativas de juntar os cacos dos imprevistos: a reunião dos poemas deixados, as cartas apontadas para si mesma como uma correspondência secreta, alguma crítica, alguma tradução, algumas anotações num caderno distraído, etc. Nada que o sol não explique, diria Paulo Leminski.

Volume único

Nada de que padeça o lançamento organizado por Armando Freitas Filho. Seja nos textos delimitados pelo ponto final da poeta, seja nos inacabados (que Freitas Filho batizou de “visita à oficina”), Poética tem o mérito de reunir num volume único, de maneira inédita, a obra em poesia de Ana Cristina.

Freitas Filho era o melhor amigo de Ana Cristina: naquele 29 de outubro, ambos se falaram por volta de 12h30. Pouco depois das 13 horas, a mãe dela telefonou desesperada, contando que a filha se jogara da janela. Alguns dias mais tarde, levaria ao apartamento de Freitas Filho quatro caixas de papelão repletos de escritos. Ana Cristina deixara para ele a responsabilidade de cuidar postumamente de suas publicações.

Poética abre com Cenas de abril, de 1979. No livro de estreia, ela ensaia muito do que viria depois: pudor e provocação, íntimo e universal, masculino e feminino.

Noite de Natal.
Estou bonita que é um desperdício.
Não sinto nada
Não sinto nada, mamãe
Esqueci
Menti de dia
Antigamente eu sabia escrever
Hoje beijo os pacientes na entrada e na saída com desvelo técnico.
Freud e eu brigamos muito.
Irene no céu desmente: deixou de
trepar aos 45 anos
Entretanto sou moça
estreando um bico fino que anda feio,
pisa mais que deve,
me leva indesejável pra perto das
botas pretas
pudera

O livro prossegue com Correspondência completa, do mesmo ano, assinado como Ana Cristina C (assim mesmo). Um livreto bem humorado composto de uma só carta,  de Júlia para alguém não nomeado, tendo como “personagens confessos”, tirados da vida real, Mary e Gil.

Luvas de pelica (1980) reúne poemas escritos na Inglaterra, para onde ela foi fazer mestrado em tradução literária na Universidade de Essex. Ficam evidentes marcas de seu estilo: o sentimento de perda, melancolia e desnorteio.

Eu só enjoo quando olho o mar, me disse a comissária do sea-jet.
Estou partindo com suspiro de alívio.
A paixão, Reinaldo, é uma fera que hiberna precariamente.
Esquece a paixão, meu bem; nesses campos ingleses, nesse lago com patos, atrás das altas vidraças de onde leio os metafísicos, meu bem.
Não queira nada que perturbe este lago agora, bem.
Não pega mais o meu corpo; não pega mais o seu corpo.
Não pega.

(…)

Fico quieta.
Não escrevo mais. Estou desenhando numa vila que não me pertence.
Não penso na partida. Meus garranchos são hoje e se acabaram.

(…)

Explico mais ainda: falar não me tira da pauta; vou passar a desenhar; para sair da pauta.

A teus pés

Como afirma Freitas Filho, em A teus pés (1982) Ana Cristina Cesar voltaria assumida à sua assinatura oficial, eliminaria a abreviatura, tiraria a máscara dos óculos escuros e recuperaria a sua identidade como poeta sem disfarces. Aparecem sobretudo textos ultrassintéticos, mas desdobráveis em muitas leituras.

“Ana C. concede ao leitor”, escreveu o amigo Caio Fernando Abreu, “aquele delicioso prazer meio proibido de espiar a intimidade alheia pelo buraco da fechadura”.

Em “noite carioca”

Diálogo de surdos, não: amistoso no frio. Atravanco na
contramão. Suspiros no contrafluxo. Te apresento a mulher
mais discreta do mundo: essa que não tem nenhum segredo.

Em “cartilha da cura”:

As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios.

De um poema sem título:

Preciso voltar e olhar aqueles dois quartos vazios.

Outro sem título:

Do espelho em frente.
Ela instrui:
deixa a saudade em repouso
(em estação das águas)
tomando conta
desse objeto claro
e sem nome

Trecho de “duas antigas”:

Vamos fazer alguma coisa:
escreva cartas doces e azedas
Abre a boca, deusa
Aquela solenidade destransando leve
Linhas cruzando: as mulheres gostam
de provocação
Saboreando o privilégio
seu livro solta as folhas

Tocando as mulheres

Como se vê, Ana Cristina Cesar toca muito as mulheres. Moderna e liberta, fala abertamente de seu corpo e de sua sexualidade, ao mesmo tempo derramando-se numa delicadeza que, à primeira vista, poderia conflitar com o feminismo vigente na época. Embates de um feminino inquieto, como define o poeta e professor Italo Moriconi, ao apresentar Poética.

No capítulo de inéditos, “Visita à oficina”, há um material mais curto e certamente de menor relevância do que os já publicados. São também poemas inacabados, um deles escrito ainda na adolescência, aos 16 anos. Por ele recebeu nota 10 da professora e o elogio: “Lindo!”

Em outro exibe uma maturidade incomum para a idade: “Estar em fraude – não consigo mesmo, não consigo mesmo. Conseguir vislumbrar a fraude inerente – segui-la em conivência, vivê-la em seguimento a indicações envelhecidas pela chuva. Chamar sem querer as palavras delineadoras – é fácil criar-se a partir da energia que se cria”.

Que não se busquem em seus poemas sinais ou razões do suicídio. É um repúdio que a própria poeta deixava claro em “Três cartas a Navarro”, publicado em Antigos e soltos: “Te deixo meus textos póstumos. Só te peço isto: não permitas que digam que são produtos de uma mente doentia! Posso tolerar tudo menos esse obscurantismo biografílico.”

Pela densidade combinada com simplicidade (ou singeleza) na coloquialidade e no humor, Poética e Ana Cristina se abrem igualmente a leitores eruditos e iniciantes, porque exibe não sabedorias (pequenas ou grandes), mas desvios contínuos, fraturas, múltiplas falas, testemunho do inconcluso e do inacabado.

Como qualquer um de nós que se angustia, se encanta e mergulha na tormenta e na delícia das descontinuidades da vida.

 

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sexta-feira, 29 de novembro de 2013 Literatura, Psicanálise, Sociedade | 13:02

Aprenda a amar como os franceses

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Recomendado em diferentes momentos por dois psicanalistas que entendem como poucos de análise e de cultura (Contardo Calligaris e Marcia Neder), devorei prazerosamente as 370 páginas do fantástico livro Como os franceses inventaram o amor: nove séculos de romance e paixão (editora Prumo). A autora, Marilyn Yalom, é uma norte-americana que pesquisa gêneros em Stanford, EUA, e especialista em literatura francesa. Para ela, a França é a pátria do amor; e os franceses, compositores do melhor e mais completo repertório amoroso.

Ao  rastrear o amour à la française, do romance do século XII até aqui, Yalom conclui: deveríamos aprender com eles. “Um francês ou uma francesa sem desejo é considerado alguém imperfeito, como uma pessoa desprovida de paladar ou olfato”, afirma, hiperbolicamente. “Há séculos os franceses se consideram mestres da arte de amar por meio de sua literatura, sua pintura, suas canções, seu cinema”.

Capa do livro "Como os franceses inventaram o amor", de Marilyn YalomO fato é que usamos expressões como rendez-vous, tête-à-tête e ménage à trois para aludir a intimidades com certo sabor francês – e já nem nos damos conta dessa linhagem. A palavra “galanteio” vem diretamente do francês. Outra palavra, amour, nem precisa de tradução, mesmo para aqueles de língua inglesa, que usam um termo tão diferente como love. Diferentemente dos pudicos americanos, diz Yalom, uma característica definidora do amor à la française é a sua “decidida ênfase no prazer sexual” – ela cita pesquisas que mostram tal cultivo mesmo entre os franceses mais velhos.

(Pelo menos se acreditarmos no senso comum dos brasileiros, esse apetite pela carne se repete igualmente do lado de baixo do Equador.)

Mas a aptidão linguística é o de menos. A grande lição francesa está no retrato deixado pelos seus artistas – por meio deles se conhece a literatura e a história do amor na França, com os segredos de alcova da realeza, os romances dos salões intelectuais do século XVIII ou os intrincados relacionamentos entre personalidades do século XX, como o de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Segundo o livro, as relações sociais e os papéis sexuais modificaram-se com o passar do tempo, mas sem que as regras da sociedade fossem capazes de domar os desejos e as ambições amorosas individuais.

Tudo começa na chamada Idade Média, com as ardentes histórias de Lancelote e Guinevere ou as de Tristão e Isolda, e outras lendas de mulheres divididas entre o marido e o amante. O amor ali é sempre representado como um fatum – um irresistível fado contra o qual é inútil se rebelar. Assim como se dá num inevitável triângulo amoroso: Tristão escolta Isolda, a futura esposa de seu tio, e se apaixona por ela. Lancelote venera seu rei Artur, mas se apaixona pela rainha. (Em geral, os poetas do amor cortês são chegados a amar damas casadas e frequentemente fiéis a seus senhores.)

Vistos com os olhos de hoje, triângulos amorosos são foco batido e pisado na literatura desde Madame Bovary e Ana Karênina, mas o adultério se tornou moda pela primeira vez na França do século XII – mesmo século, diga-se, em que transcorreu a verídica e trágica história de Abelardo e Heloísa.

Não que o “inventaram” do título do livro de Yalom deva ser levado ao pé da letra. O amor romântico existe desde que homens e mulheres são homens e mulheres. Exemplos?

A Bíblia descreve o intenso desejo do rei Davi por Betsabá, ou o amor de Isaac pela esposa Rebeca. As antigas tragédias gregas nos apresentaram Fedra, que ardia em desejo por seu enteado Hipólito, e Medeia, que matou os filhos por causa do violento ciúme do marido, Jasão. A poeta Safo suplicou a Afrodite reciprocidade no amor a uma jovem.

Ou quem esquece a arrebatadora paixão de Orfeu e seu amor impedido por Eurídice? E Platão? – o filósofo que louvou o amor de rapazes por homens velhos como algo natural. Também não se deve ignorar as lições de A arte de amar, de Ovídio.

A novidade francesa, Yalom argumenta, foi a explosão cultural que proclamou os direitos dos amantes de viver sua paixão, apesar de todas as dificuldades criadas pela sociedade e pela religião. Um novo espírito que defendeu a própria causa do amor.

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres francesas

A invenção francesa também ajudou a “feminizar” o amor. “A senhora [dama] ocupou lugar central na cena e, creio, desde então passou a comandar o foco das atenções”, escreve Yalom. A mulher emergiu simultaneamente como objeto do desejo masculino e sujeito do seu próprio desejo: “Os franceses nunca acreditaram que as mulheres fossem menos apaixonadas do que os homens” (acrescento: os franceses e os homens de alma feminina).

A propósito, num recente best-seller, Le conflit: la femme et la mère (“O conflito: a mulher e a mãe”), a feminista francesa Elizabeth Badinter afirma que as mulheres não devem deixar que a “tirania da maternidade” esmague o papel da esposa. Tragédia comum a muitos casais, que padecem na alegria de ter um filho e na “deserotização” do relacionamento.

Do amor cortês ao amor cômico de Molière ou ao amor trágico de Racine, a feminização francesa do amor contrasta com o antigo ideal másculo dos gregos – noves fora a criação de personagens femininas grandiosas, como Antígona e Medeia, entre autores  gregos.

Yalom prossegue sua viagem pela sedução e sentimento de autores como Rousseau; pelas cartas de amor de Julie de Lespinasse; pelo amor republicano de Elisabeth Le Bas e Madame Roland; pela saudade da mãe de Constant, Stendhal e Balzac; pelo amor entre os românticos, como George Stand e Alfred de Musset; pelo amor romântico esvaziado de Madame Bovary; pelo amor entre os homens representados por Verlaine, Rimbaud, Oscar Wilde e André Gide; pelo amor desesperado e neurótico de Proust; pelo amor lésbico de Colette e Gertrude Stein; pelos existencialistas apaixonados Simone de Beauvoir e Sartre; até – ufa! – o amor no século XXI.

Uma vida inteira para dar conta dessa literatura – ou, para quem tiver pressa, um curso de Pedro Paulo de Sena Madureira na Casa do Saber sobre civilização francesa.

O amor se aprende com a literatura?

Volto a Contardo Calligaris, que acaba de lançar Todos os reis estão nus, reunião de crônicas publicadas semanalmente no jornal “Folha de S.Paulo” e selecionadas por Rafael Coriello para a editora Três Estrelas. O amor é tema usual dos textos do psicanalista e escritor.

Para ele, o amor é absolutamente indissociável da literatura amorosa. Três razões explicam essa relação. Primeiro, por aprendermos a amar e a declarar o amor pela literatura. A segunda razão é porque o amor se tornou relevante em nossa vida à força de ser descrito e idealizado pela literatura. E terceiro, o amor, como sentimento, “é um efeito das palavras que o expressam”, ou seja, a literatura nos instiga a amar tanto quanto nossas próprias declarações amorosas.

Contardo Calligaris é um pouco desconfiado do assunto. Ou melhor, desconfia das palavras com as quais manifestamos os sentimentos e sua intensidade. “Nunca sei se a gente se declara apaixonado porque de fato ama ou se diz que está apaixonado pelo prazer de se apaixonar”, escreve numa das crônicas do livro, intitulada “Amores silenciosos”.

Diz ainda nunca saber se as declarações de amor são constatativas (“Digo que amo porque constato que amo”) ou performativas (“Acabo amando à força de dizer que amo”). Em outras palavras, “externamos os nossos sentimentos para vivê-los mais intensamente – para encontrar as lágrimas que, sem isso, não jorrariam, ou a alegria que sem isso talvez fosse menor”.

Numa variação dessa ideia, José Miguel Wisnik compôs “A serpente”, canção feita para uma montagem da peça de Nelson Rodrigues do mesmo nome. Na peça, a personagem afirma: “O homem deseja sem amor, a mulher deseja sem amar”. No que Wisnik transformou, com maior acerto, em “se o homem ama por amar/ e a mulher ama por amor/ quem vai poder nos abraçar/ compreender nossa dor?”.

É de apaixonar.

Um amor para mudar, ou mudando para amar

Em nossa vã esperança, que costuma recorrer ao céu e ao inferno para escapar das dores da vida ordinária, o amor pode significar um enorme alento. Como questiona Calligaris em outra crônica (“Amores e mudanças”): quando a vida está emperrada (o que não é raro), será que faz sentido esperar que um encontro, um amor, uma paixão se encarreguem de nos dar um novo rumo? “Provavelmente sim – no mínimo é o que esperamos”, ele responde.

Duas possibilidades: ou o amor surge quando está na hora de a gente se transformar ou é por amor que a gente se transforma. Ou as duas possibilidades podem ser verdadeiras. “Volta e meia”, escreve Calligaris, “alguém me pede uma receita: como esbarrar num amor que nos transforme? A resposta trivial diz que os encontros acontecem a cada esquina: difícil é enxergá-los e deixar que eles nos transformem, ou seja, difícil é ter a coragem de vivê-los”.

Não é por outra razão talvez que muitas esquinas continuam e continuarão a se resumir a isto: a esquinas imaginárias.

Exceto, talvez, para os franceses radiografados por Marilyn Yalom.

 

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segunda-feira, 25 de novembro de 2013 Psicanálise, Psiquiatria | 01:05

Por que estamos todos mais doentes?

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Sim, estamos mais doentes. Todos mergulhados num mundo em que tristeza virou depressão clínica, e que daqui a pouco um eloquente e imprescindível sentimento chamado amor passará a ser classificado de “transtorno monoerótico imaginário”. Trata-se de um mundo no qual rejeitamos a ideia de sermos normais.

Identificamos certos transtornos de forma caseira, enxergamos nossas próprias “disfunções” e nos apressamos a ir a um médico (ou a uma farmácia, nos casos mais simples) em busca de remédios, antes mesmo de serem prescritos. Invadem nossas vidas cotidianas incontáveis síndromes ligadas ao trabalho, à religião, às artes, à política – a qualquer coisa, enfim, que aparentemente nos tire da condição de “normalidade”.

Livro Dale ArcherEsse crescente estreitamento da noção de normalidade em nossas cabeças e o excesso de diagnóstico de doenças mentais são o principal alvo de um livro curioso, fácil e provocativo, escrito pelo psiquiatra norte-americano Dale Archer. Best-seller nos EUA como “Better than normal: how what makes you different can make you exceptional”, o livro foi recém-lançado no Brasil pela editora Sextante com o título Quem disse que é bom ser normal?.

Em oito capítulos, Archer descreve oito traços de personalidade habitualmente associados a transtornos, como a ansiedade, a personalidade histriônica e o narcisismo, e afirma que não há nada errado com essas características – podem ser meros sinônimos de alguém hiperalerta, dramático (ou carismático) e autocentrado, respectivamente. Errado mesmo, só se forem características muito exacerbadas, diz o psiquiatra.

Alívio para quem, como o signatário, é impaciente e não consegue se concentrar em uma tarefa por muito tempo. Ou para quem tem variações constantes de humor. Ou para aqueles que adoram ser o centro das atenções. Enquanto isso, a psiquiatria e a medicalização da vida dão a essas pessoas o status de portadoras de sintomas de transtornos de personalidade – déficit de atenção, bipolaridade ou similares.

“Como psiquiatra, constatei que precisava olhar de forma crítica os excessos de diagnóstico e de medicação”, escreve Archer. “Mais do que isso, sinto-me na obrigação de divulgar uma mensagem nova e libertadora sobre transtornos mentais que devolve ao lugar certo – as suas mãos – o controle de sua personalidade e de sua saúde mental”.

Para ele, o remédio tem de ser o último recurso: “As pessoas entram em um consultório e saem com uma receita médica. A psicoterapia é subestimada”.

Dr. Archer não está sozinho. Há uma “euforia da depressão”, como define o psicanalista brasileiro Jorge Forbes, para quem a serotonina ficou tão popular e íntima de nós quanto o colesterol. (Se você desembarcou agora neste planeta ou, sensatamente, caminha à margem dessa “anormalidade”, convém explicar: a falta de serotonina no seu organismo pode levar a problemas como depressão, enxaqueca e insônia, males típicos deste século).

Isso vale tanto para os EUA, foco da atenção de Archer, como para o Brasil, onde o mercado de antidepressivos e estabilizadores de humor cresceu mais de 60% nos últimos cinco anos. Um mercado felicíssimo como o mundo da melancolia – cerca de R$ 2 bilhões foram movimentados de um ano para cá, segundo a consultoria IMS Health.

Mal-estar coletivo

Quem disse que é bom ser normal? pode soar bem-humorado num tema de densidade e tensão especiais. Mas o assunto é sério, como atesta a polêmica gerada pela publicação, poucos meses atrás, da nova edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM), pela Associação Psiquiátrica Norte-americana (APA). A APA é a mais importante e influente entidade de psiquiatria do mundo. O DSM é considerado a “bíblia da psiquiatria”.

O chamado DSM-5 desencadeou uma série de artigos e livros questionando o caráter normativo de suas classificações – para muitos fundadas justamente num vertiginoso movimento de psiquiatrização da vida cotidiana. O documento amplia ainda mais o número de doenças mentais e, por tabela, aumenta as chances de alguém ser diagnosticado com os transtornos já existentes. Também reduz o número de sintomas necessários para que um paciente se encaixe em determinado diagnóstico.

Ou seja, mais pessoas tratadas com medicamentos destinados a transtornos mentais, sorriso aberto para a indústria farmacêutica. A propósito, 70% dos experts que trabalharam para o DSM-5 tiveram, em sua carreira recente, vínculos financeiros com essa indústria.

O avanço das doenças mentais é assombroso: o mundo da psiquiatria reconhecia 182 patologias em 1968, com a publicação do DSM-2. Doze anos depois, o DSM-3 trazia 265. Agora o número de patologias mentais se eleva a 450 categorias diagnósticas.

Poderia ser o resultado do avanço da ciência e da criação de critérios específicos para descobrir enfermidades da alma. Mas, no limite, é um discurso que, segundo os psicanalistas Gilson Iannini e Antonio Teixeira, organiza a crença mercantil da associação entre demanda e produto – no caso, doença mental e arsenal terapêutico.

Para cada classificação, uma pílula com promessa de bem-estar. É uma espécie de epidemia às avessas: as pessoas, com seus desamparos e desordens, agarram-se aos males diagnosticados e se sentem aliviadas de poder descobrir o que têm. Acham o rótulo perdido. Buscam a salvação no diagnóstico oficial. Por outro lado, são classificadas, estigmatizadas e, muitas vezes, marcadas para a vida inteira.

Definições políticas

Assunto restrito ao meio psi? Num instigante dossiê sobre o assunto, publicado na revista Cult, o filósofo Vladimir Safatle mostrou que não. Escreveu o professor da USP:

“Tudo isso poderia interessar apenas a uma comunidade limitada, composta por todos aqueles profissionais designados para tratar de problemas de saúde mental (…). Mas talvez seja o caso de colocar algumas questões. Pois, e se categorias como ‘saúde’, ‘doença’, ‘normal’ e ‘patológico’, principalmente quando aplicadas ao sofrimento psíquico, não forem meros conceito de um discurso científico, mas definições carregadas de forte potência política?”.

A pensar. Um exemplo da utilidade prática desse debate para os não-especialistas é quando o assunto chega ao Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade, o TDAH. Entre seus sintomas estão incapacidade de se concentrar, atitudes impulsivas e agitação constante. O que no passado não muito distante seria considerada uma travessura infantil hoje provavelmente vira motivo para ir a um médico, que não hesita em prescrever remédios à criança ou ao adolescente.

Os critérios de diagnóstico de TDAH esperam uma criança capaz de brincar calmamente e mostram-se inversamente proporcionais aos estímulos e à  competitividade a que é exposta atualmente.

Ao mesmo tempo, e paradoxalmente, raros são os pais que não se preocupam dia e noite em como garantir aos filhos ocupação permanente: das brincadeiras coletivas a games; de televisão a passeios, dos tablets ao inglês e à natação, qualquer coisa é necessária para evitar que a criança conheça a solidão, a pausa e o tédio.

(Num livro recente, “The distraction addiction”, Alex Pang, um professor da Califórnia, afirmou que a vontade de se distrair é um vício, uma forma de dependência).

O fato é que tem parecido equivocada a muitos a ideia de transformar toda experiência de sofrimento em uma patologia a ser tratada. Uma vida, como diz Vladimir Safatle, cada vez mais enfraquecida e incapaz de lidar com conflitos, contradições e reconfigurações necessárias. Acrescento: uma vida de busca irrefreável da felicidade, mas incapaz de olhar de frente a tristeza e a frustração inerentes à condição de estarmos vivos.

 

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