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sexta-feira, 22 de novembro de 2013 Política, Sociedade | 10:36

Histeria ética derruba apoio à democracia. Você concorda?

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Cada vez que ressurge no País uma onda de críticas em defesa da ética, da moral e dos bons costumes na política, o efeito esperado seria um grau maior de maturidade de eleitores e políticos, e daí a consequência natural seria a maior confiança na democracia. Certo? Nem tanto: eis um caso típico no qual a teoria, na prática, é outra.

Pouca gente deu a atenção devida, mas este mês saiu o “Latinobarômetro 2013”. Produzida pelo instituto de pesquisa de maior conceito internacional sobre a América Latina, a pesquisa detecta a cada dois anos o pensamento dos latino-americanos. Em 2013 os pesquisadores foram às ruas entre 31 de maio e 30 de junho, com mais de 20 mil entrevistas em 18 países (bem no meio, portanto, das jornadas de protesto no Brasil).

Alguns dos resultados da pesquisa no Brasil são apreensíveis:

1. O apoio à democracia pelos brasileiros, numa média entre 1995 e 2013, só parece ser maior que na Guatemala: 49% acham que a democracia é preferível a qualquer outra forma de governo.

2. Quase 20% dos brasileiros preferem um governo autoritário.

3. A democracia pode funcionar sem partidos políticos para 34%; mesmo índice para aqueles que acham que o Congresso pode ir às favas que a democracia continuará funcionando.

4. Apenas 26% se dizem satisfeitos ou muito satisfeitos com a democracia. Muito ou algum interesse na política? Nem 30%.

Pesquisa completa dos 18 países (em espanhol ou inglês) aqui

Crise da política

Em primeiro lugar, convém dar aos próprios políticos, aos partidos e aos governos (sobretudo o governo da presidente Dilma Rousseff) a responsabilidade devida pelo incômodo popular. Em outras palavras, é deles a principal culpa pela desconfiança na democracia.

O modesto resultado dos programas destinados a garantir oferta de melhores serviços públicos nas cidades; a dificuldade de atender à pletora de demandas; as sucessivas derrotas na comunicação com a sociedade; uma certa tibieza ao lidar com os aliados mais famintos por verbas e cargos. Eis algumas das facetas dessa responsabilidade.

Tanto o PT quanto o seu principal adversário, o PSDB, revelaram-se nos últimos anos meio ensurdecidos pela histeria ética. Revezaram-se no poder nos últimos 18 anos e, no fundo, como saldo geral, ajudaram a desmobilizar cidadãos. Não à toa parece iminente o surgimento de uma terceira via.

Onde grassa a desconfiança…

Eis o ponto principal dessa desconfiança detectada pelo Latinobarômetro: um país de desconfiados tem a tendência a se despolitizar. Como escreveu o cientista político Fernando Filgueiras, doutor em Ciência Política pelo Iuperj e professor da Universidade Federal de Minas Gerais: onde grassa a desconfiança, o interesse público não prospera como finalidade da política.

Filgueiras faz parte de um grupo de pesquisadores do Centro de Referência do Interesse Público da UFMG e já há algum tempo vem revelando em suas pesquisas que, na esteira dos sucessivos escândalos que têm pautado a agenda nacional, a percepção do contribuinte acaba sobrepondo-se à do cidadão. Isso, segundo ele, enfraquece a capacidade do brasileiro de cobrar responsabilidade e mudança. Acrescento: a população média pode gritar muito na forma, mas soa vazio o conteúdo dessa cobrança.

Os números mostram que a despolitização é um dos males mais perigosos e ameaçadores para o desejo civilizatório de uma nação – daí porque convém cautela diante da histeria coletiva em favor da ética, da moral e dos costumes, amplificada com a transformação em herói do ministro Joaquim Barbosa.

A consequência, como mostra o Latinobarômetro, é o esvaziamento da política como arena de debates e caminho para as soluções que o País espera para seus problemas. Um exemplo é a crítica generalizada ao Congresso. Muitos desconhecem o quanto o eleitor brasileiro exerce seu protesto pelo voto.

Quem acha que a vida de um deputado é fácil no Brasil, observe as taxas de renovação de mandato: é maior do que na maior parte das democracias do mundo.

A coluna recorre novamente à jornalista Maria Cristina Fernandes, que escreveu: “Se a cada legislatura renovam-se os vícios da leva que se foi é porque a indignação provocada (…) permite ao eleitor discernir aquilo que rejeita na política, mas não geram valores nem cultura cívica para a escolha de um representante”.

Ela disse mais: “No caldeirão de defensores de uma moralidade pública estéril interesses espúrios misturam-se ao oportunismo e à ingenuidade que se move pela biruta de aeroporto”.

Onde há corruptos há também corruptores

Eis o ponto: o esbravejo público contra os vícios privados de servidores ignora o papel dos corruptores que avançam não só no ambiente de governos e legislativos, mas no dia a dia da população.

Se há uma cultura que prevalece é aquela segundo a qual uma ilegalidade promove outra. Tomem-se exemplos do jovem motorista que insinua uma gorjeta ao policial que o multa por excesso de velocidade, ou um proprietário de estabelecimento comercial que oferece propina para que o fiscal ignore as frágeis condições de segurança de incêndio do seu negócio.

Ou você desconhece pessoas que já tenham recebido sugestões de médicos, advogados ou analistas para não entregar-lhe recibos? Na prática, quem aceita isso torna-se cúmplice de crimes fiscais.

Corruptores e corruptos às vezes também podem estar unidos na demanda por ética na política. E na denúncia implacável dos malfeitos da democracia. Dá nisto: quase 20% da população acreditando ser melhor um governo autoritário.

A democracia dá trabalho.

 

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quarta-feira, 20 de novembro de 2013 Política, Sociedade | 11:36

O dia em que o professor Joaquim Barbosa enganou seus alunos

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O enfático, barulhento e maniqueísta debate instaurado entre leitores da coluna a partir do post anterior escancara o clima de guerra entre facções existente no País. Noves fora, claro, algumas exceções que, concordando ou divergindo frente às observações sobre o lado positivo da política, dos políticos e, sobretudo, das instituições, conseguiram escapar do tom de agressividade da maioria dos comentários.

Joaquim Barbosa: Enganos na análise dos partidos e do Congresso?

O ministro Joaquim Barbosa, presidente do STF: engano na análise dos partidos e do Congresso?

Um refinado amigo da coluna anotou algo a se pensar: “Não existe mais uma opinião, mas uma militância de opinião”, referindo-se à onda de resumir o debate a uma batalha entre petralhas e privataria. No meio do bolo, as teorias conspiratórias, as grosserias puras e simples, a necessidade de diminuir o autor ou o comentarista ao lado.

Há algum tempo a polarização política no Brasil nos deu, e a internet amplificou, a sensação de que, por aqui, é pau, é pedra ou o fim do caminho. Um mundo preto ou branco, sem tons de cinza.

Esta coluna não pretende assumir um dos lados mas, pretensiosamente, ajudar a encontrar matizes perdidos entre preconceitos carbonários.

E talvez aqui inspire mais raiva em muitos.

Um Joaquim Barbosa para chamar de seu

Um exemplo?

Joaquim Barbosa é hoje para muitos um Deus em forma de toga. Quando o iG publicou um perfil do ministro, dentro da série “Os 60 mais poderosos do País”, e afirmou coisas mais duras do que a média pretendia ler, quase 2 mil comentários empanturraram a página com agressões verbais ao texto – contra algumas centenas de comentários críticos às demonstrações de autoritarismo exibidas por Barbosa.

Com o julgamento do mensalão, o presidente do Supremo Tribunal Federal teria se transformado no ícone da luta contra a corrupção.

Como há alguns meses afirmou Maria Cristina Fernandes (uma das grandes jornalistas políticas do País), cada um tem um Joaquim Barbosa para chamar de seu.

Para os defensores das minorias e das liberdades individuais, o presidente do STF faz diferença no avanço das políticas de cotas, do reconhecimento do casamento gay e do direito ao aborto de anencéfalos.

Com o mensalão, os rebelados contra os conluios do poder aplaudem a “cadeia para os poderosos corruptos”. Também se regozijam com o enquadramento de juízes e advogados.

Terreno perigoso, este.

A ida dos presos de São Paulo, Belo Horizonte e Goiânia, cidades de suas residências, para cadeias em Brasília foi não só sem sentido como sem amparo legal, dizem alguns juristas. Um retrato da determinação de Joaquim Barbosa de  colocar algemas nos réus dos mensalão, cujo desfecho foi a conturbada sessão do STF de uma semana atrás, quando decididas as prisões sem esperar pelo fim dos recursos de defesa e surgido o revelador incidente envolvendo Barbosa e o procurador-geral Rodrigo Janot e o caso do despacho de um novo documento do processo sem o presidente da Corte os ler.

O fato é que mais uma vez Barbosa colheu palmas por meio de seu engenhoso e competente talento de montar argumentos para o distinto público – e não à toa tem recebido afagos e tentativas de sedução eleitoral do PSDB e seu pré-candidato presidencial, Aécio Neves (PSDB).

Digo mais uma vez porque, em maio, o presidente do Supremo já montara um outro plano, ao embarcar no terreno político-partidário. Ali ele conquistou mais uma tribo que não aquela das minorias, da toada conservadora ou da grita anticorrupção. Barbosa passou a mirar também naqueles que enxergam na inconsistência programática dos partidos brasileiros e  na prevalência do Executivo sobre o Congresso a fonte de muitos males da nação.

Uma mentirinha de Barbosa

Numa aula que deu no Instituto de Educação Superior de Brasília (IESB), naquele mês, Barbosa disse que as propostas de iniciativa de parlamentares aprovadas pelo Congresso não devem chegar a 15%, quando deveriam ser de 90%. Isso não só fomentaria partidos de “mentirinha” como explicaria ainda sua tese em torno da excepcional fraqueza do Legislativo – tese já apoiada por considerável maioria popular, incluindo radicais livres à esquerda e à direita, jovens manifestantes contra “tudo o que está aí”, classe média desiludida, senhores e senhoras insatisfeitos com as instituições representativas e a democracia brasileira.

Barbosa disse mais: afirmou que o Congresso é “ineficiente” e incapaz de deliberar, que não nos identificamos com os partidos que estão no Parlamento. Em sua verve de analista político, ainda defendeu a mudança no atual sistema político, pregando o sistema distrital.

Barbosa estava enganado. Como professor ou como presidente da Corte, despreza não só os ritos, mas também os fatos. (Algo, sublinhe-se, que a população insatisfeita com o Congresso e os políticos, por exemplo, não tem obrigação de saber.)

Quem tiver a paciência de buscar estudos sobre as atividades parlamentares mundo afora vai saber que o Executivo tem o poder de agenda sobre a maior parte dos legislativos do planeta. Portanto, Barbosa se equivoca ao imaginar que deveria ser o Legislativo o grande predominante das iniciativas de propostas aprovadas.

Há várias décadas assiste-se a uma crescente perda de autonomia dos parlamentares frente aos governos. As duas grandes guerras mundiais exacerbaram essa concentração de poderes.

Hoje, estudos legislativos mostram que tanto a taxa de sucesso dos governos em fazer aprovar seus projetos quanto a predominância de iniciativas do Executivo na pauta aprovada rondam os 90%. Em outras palavras: o contrário do que defendeu o presidente do Supremo.

De um estudo do Banco Mundial, é possível extrair uma frase exemplar: “O Parlamento é um corpo que reage às medidas do Executivo. Esse contexto do Executivo forte e Parlamento reativo limita a modernização sem mudanças constitucionais sísmicas”. Não se refere ao Brasil – lamentaria Barbosa – mas ao Reino Unido, berço da democracia representativa. John Stuart Mill deve estar se contorcendo no túmulo.

Sistema político podre e singular no Brasil? Nem tanto

E no Brasil? O leitor pode ir ao que escreveu o cientista político Fernando Limongi, da USP. Quando se dizia que o País precisava de reforma política para se tornar governável, o professor publicou “Executivo e Legislativo na Nova Ordem Constitucional”. Era 1999, e Limongi mostrava ali, voto a voto, que o Executivo não tinha embaraços para formar maioria – logo, a relação com o Congresso não deixava o Brasil ingovernável.

Em 2008, quando o debate havia migrado para a fisiologia paralisante das comissões de Orçamento, ele e Argelina Figueiredo, do Iuperj (hoje IESP), escreveram “Política orçamentária no presidencialismo de coalizão”. O tema é chatíssimo para a maioria dos (e)leitores, mas a dupla mostrou algo pedagógico: as emendas comprometem migalhas do investimento; e, ao rifá-las da lei orçamentária, arriscava-se ao empobrecimento da representação.

Em outro estudo, Limongi apresentava outras evidências e concluía: “Nada autoriza a tratar o sistema político brasileiro como singular. Coalizões obedecem e são regidas pelo princípio partidário. Não há paralisia ou síndrome a contornar”.

Ou: “É equivocado insistir em caracterizar nosso sistema por suas alegadas falhas, pelas suas carências. Inverter a perspectiva, no entanto, só torna a tarefa mais difícil, pois implica aceitar a necessidade de explicar o real, não de condená-lo ou censurá-lo. Para fazê-lo, para apreender como de fato opera o sistema político brasileiro, é preciso (…) reconhecer que não existem diferentes tradições ou idiomas em disputa”.

Em outro texto, Limongi afirma:

“Não há nada de novo na insatisfação com a mesmice da política. Mais do que isto, a crítica à rotina de uma vida democrática destituída de opções reais não é propriamente nova ou específica ao Brasil. Sentimentos desta natureza estão presentes em todos os regimes democráticos ao redor do mundo. Parte desta frustração, paradoxalmente, é consequência direta da própria democratização dos governos representativos que trouxe consigo os partidos políticos e a profissionalização da atividade política. Porque vivemos em um regime democrático, somos governados por estes personagens mesquinhos, menores, que vivem da política, que só fazem isto para viver, incluindo correr atrás de dinheiro para financiar suas campanhas eleitorais. Muito do que passa por novo ou é visto como específico ao Brasil não é senão a manifestação de velhas tensões inerentes ao governo representativo. Não é demais pedir cautela. Nem tudo está errado. Insatisfação e demandas por mudanças não é o mesmo que revolução”.

O título deste artigo diz muito a quem acredita em tinturas de democracia direta para varrer do mapa o atual modelo de democracia representativa: “Vontade popular pronta e acabada é presunção”. 

São bons textos para o professor Barbosa ler e reconhecer pelo menos que sistemas políticos não forjam caráter.

 

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domingo, 17 de novembro de 2013 Política, Sociedade | 10:21

Brasil namora com a intolerância e uma nova versão de fascismo?

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Machado de Assis, 1885. “Há folgas extraordinárias na Câmara, dias de repouso, dias de chuva, e todo sábado vale domingo”, escreve o cronista, descrevendo as maiores queixas sobre os hábitos parlamentares de então. “É isto novo”?, pergunta.

Não, já não era novo naquela época. Tanto que Machado recua 44 anos no tempo, para buscar um discurso feito por Teófilo Otoni, com denúncia semelhante. Em 1841, o deputado mineiro reclamara que muitos deputados gostavam de ficar em suas chácaras, enquanto outros iam “patuscar na Praia Grande”, nome pela qual Niterói era conhecida. Bastavam também uns pingos de chuva para não irem trabalhar.

Malandragens parlamentares, já havia aos montes ali no Império. Uma delas era marcar para o sábado o debate sobre as iniciativas da oposição. Como a sessão dos sábados só existia em tese, e na prática ninguém ia, a oposição ficava sem debate.

Política em descrédito?

A fama dos políticos brasileiros nunca foi boa. Daí porque soa meio míope, meio desmemoriada, a afirmação tão repetida entre colunistas públicos de que as instituições democráticas e nossos representantes estão em situação inédita de descrédito. Uma falência múltipla e escandalosa que explicaria a crise de representatividade capaz de abalar os alicerces construídos por anos e anos de má-fé, corrupção e indiferença diante dos ideais e expectativas da população.

O cientista político Fabiano Santos, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Uerj, é um dos mais notáveis pesquisadores da ciência política do País. Dirige o Núcleo de Estudos do Congresso (NECON), um importante centro de referência, análises e pesquisas sobre a atividade parlamentar, sobre os partidos e sobre a democracia brasileira. Ele está cadastrado na pasta dos que não temem discordar do tenebroso discurso que põe no lixo as instituições, os políticos, os partidos e o sistema eleitoral brasileiros.

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Capa da Inteligência: Do que sorri essa democracia?

Santos foi um dos autores presentes num instigante dossiê da Insight-Inteligência – revista cuja versão em blog é parceira do iG – sobre os levantes de junho e o impacto sobre a democracia brasileira. “Tento me lembrar de um momento desde que leio jornais e acompanho a política no qual Congresso e partidos estivessem em situação de ‘crédito’”, diz ele, no artigo “Primavera brasileira ou outono democrático?”, no fundo uma defesa de nossas instituições.

O ataque sofrido pelos políticas e pela política poderia ser obra de uma juventude niilista.

Poderia ser também a vocalização histriônica de analistas e colunistas raivosos ou de cidadãos organizados e desorganizados em legítima grita contra seus representantes. Ou também a reação de uma classe média insatisfeita com aquilo que a democracia brasileira lhe tem oferecido.

(A propósito, é de outro Santos, o cientista político Wanderley Guilherme, a lembrança segundo a qual a democracia é o único regime existente que trata como legítimas demandas que não é capaz de atender).

O mais sério, no entanto, é aquilo que Fabiano Santos cita no seu estudo: o perigoso risco de despolitização que uma sistemática onda de “escândalos” pode causar no País, aguçado pelo episódio do Mensalão e o julgamento da Ação Penal 470. “O que de mais grave ficou foi o modo degradante e distorcido por meio do qual as instituições partidárias foram tratadas em diversos momentos do processo”, escreve o professor.

A cobertura da imprensa, segundo ele, conferiu “respeitabilidade” e “despudor” às visões segundo as quais “os políticos eleitos seriam criminosos, ‘quadrilheiros’, membros de organizações mafiosas dotadas do único intuito de assaltar os cofres públicos e o bolso dos contribuintes”.

“Manifestações fascistas”

Não surpreende – afirma Santos – que pouco tempo depois milhares de manifestantes tenham saído às ruas em protesto cuja escala e diversidade de pautas ninguém havia visto em solo pátrio.

O artigo faz um ataque polêmico às manifestações ao mencionar “ensaios de aproximação das ruas com o fascismo”. Cita o triunfalismo (um dos cartazes, por exemplo, dizia “Desculpem o transtorno, estamos mudando o Brasil”); a agressão física e moral sofrida por manifestantes vinculados a partidos políticos, que viram suas bandeiras e cartazes destruídos; e, principalmente, o discurso generalista e simplista de que tudo vai mal e melhor a remoção do sistema do que seu aperfeiçoamento.

Escreve Santos no paper: “A equação fascista brasileira é muito simples, tão simples e primária quanto dizer que educação e saúde no Brasil vão mal porque o governo gastou muito nas obras dos estádios onde serão realizadas as partidas da Copa do Mundo de 2014”.

O argumento “fascista” apóia-se na ideia de que o problema brasileiro é político, ou melhor, é “a política” ou são “os políticos”. No Brasil, dirigentes eleitos, partidos, candidatos, governantes, parlamentares, todos seriam corruptos. Uma terra arrasada da qual poucos escapariam.

Congresso, Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais não seriam mais do que quadrilhas organizadas para assaltar os cofres públicos. (Não deixa de ser irônico que Luiz Inácio Lula da Silva tenha sido um dos autores originais dessa linha de pensamento, quando na oposição e ainda deputado federal, mencionava o Congresso e seus “picaretas”.)

O voto, por outro lado, nada mais seria do que fator determinante a nos conduzir a um cenário de decadência e degradação institucional.

Fabiano Santos conclui:

“Nada mais legítimo numa democracia do que a existência de protestos e manifestações de desagrado. O problema colocado no Brasil na atual conjuntura é o de sua intensidade, magnitude e reiteração, a ponto de se colocar sob risco valores democráticos importantes, como da tolerância, da não violência e das liberdades mútuas. Trata-se, portanto, de uma questão de se repensarem os canais de interlocução entre setores, que por algum motivo não se sentem representados em suas preocupações básicas pela coalizão predominante no governo, e as entidades do Estado responsáveis pela elaboração e efetividade de políticas públicas fundamentais”.

Acrescento outro exemplo desses riscos: a avaliação, para muitos manifestantes (incluindo muitos dos ídolos que emergiram das ruas) que o Brasil vive numa ditadura; que o autoritarismo, e não a democracia, estejam vigendo no País.

Foi o que ouvi no mês passado, no debate do YouPix, sobre os protestos, o jornalismo e a mudança do poder da mídia no Brasil. Jovens brilhantes como o videomaker Rafucko e o mídia ninja Felipe Peçanha disseram com clareza: não há democracia no País, vivemos um regime autoritário.

Ao afirmar coisas do gênero, eles atacam a profunda desigualdade de renda e de direitos, a violência que impera entre nas comunidades pobres e outras mazelas. Por outro lado, ignoram a imensa liberdade de que se goza, a pluralidade de opinião e de difusão da informação em escala inédita, a universalização do voto que faz do Brasil uma das maiores democracias eleitorais do mundo, e outros indicadores que fazem uma democracia digna do nome. Incompleta, sim senhor (e há alguma democracia plena?), mas muito longe de autoritarismos.

Possivelmente, como muitos, sejam iludidos por jornalistas e pensadores semi-cultos que ignoram como funcionaria uma democracia direta e que acreditam na versão de que Atenas era governada pelo Ágora. A saber: os Ágoras só tratavam de assuntos locais de uma das dez tribos atenienses. Em outras três instituições eram tratados os assuntos gerais da cidade.

Uma delas, Pnyx, acolhia os primeiros seis mil atenienses homens que por ali chegassem. Falava quem desejasse. Apresentavam as propostas que lhe ocorressem e depois se votava. O nome dos proponentes ficava registrado, e um conselho avaliava aquilo se o que foi aprovado fez bem ou mal à cidade. Se mal, seu proponente original era julgado, podendo ser condenado ao confisco de bens, exílio ou mesmo a morte.

Seria o exemplo de uma boa fé a alimentar o monstro do fanatismo e da intolerância? Opine.

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segunda-feira, 28 de outubro de 2013 Poesia | 02:58

Citação do dia: “Só as casas explicam que exista uma palavra como intimidade”

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Do poeta português Ruy Belo (1933-1978), que ganha este ano, no Brasil, os três primeiros volumes da sua bibliografia completa. Organizada pelo escritor e também poeta Manoel Ricardo de Lima, a coleção é editada pela 7Letras.

 

Oh as casas as casas as casas

as casas nascem vivem e morrem

Enquanto vivas distinguem-se umas das outras

distinguem-se designadamente pelo cheiro

variam até de sala pra sala

As casas que eu fazia em pequeno

onde estarei eu hoje em pequeno?

Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?

Terei eu casa onde reter tudo isto

ou serei sempre somente esta instabilidade?

As casas essas parecem estáveis

mas são tão frágeis as pobres casas

Oh as casas as casas as casas

mudas testemunhas da vida

elas morrem não só ao ser demolidas

ela morrem com a morte das pessoas

As casas de fora olham-nos pelas janelas

Não sabem nada de casas os construtores

os senhorios os procuradores

Os ricos vivem nos seus palácios

mas a casa dos pobres é todo o mundo

os pobres sim têm o conhecimento das casas

os pobres esses conhecem tudo

Eu amei as casas os recantos das casas

Visitei casas apalpei casas

Só as casas explicam que exista

uma palavra como intimidade

Sem casas não haveria ruas

as ruas onde passamos pelos outros

mas passamos principalmente por nós

Na casa nasci e hei-de morrer

na casa sofri convivi amei

na casa atravessei as estações

respirei – ó vida simples problema de respiração

Oh as casas as casas as casas

 

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domingo, 27 de outubro de 2013 Psicanálise | 13:50

Psicanálise no século XXI: Pare de culpar seus pais; a responsabilidade é sua

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O mundo é triste, trágico e cruel, o futuro parece cada vez mais sombrio, as relações humanas são trabalhosas, falsas e frágeis, a esperança se revela a característica mais vã dos desinformados e, para completar, tudo o que você imaginava que sabia já não vale mais. Deslocado e perdido, restam-lhe o salvacionismo das novas religiões, o controle imposto pelo conservadorismo e a psiquiatria medicamentosa, sempre ansiosa por antidepressivos.

Será?

Se quiser questionar ou relativizar essas premissas, leia o livro “Inconsciente e Responsabilidade: psicanálise do século XXI”, do psicanalista Jorge Forbes. Lançado em 2012, a boa notícia para Forbes chegou há pouco mais de uma semana: sua obra foi uma das vencedoras do Prêmio Jabuti 2013, categoria Psicologia e Psicanálise. Editado pela Manole, o livro expõe o que Forbes pensa como uma psicanálise para o século XXI.

Como explica: “A grande maioria das pessoas ainda imagina que uma psicanálise sirva para se conhecer melhor. ‘Primeiro, eu me conheço e, em seguida, garantido nesse conhecimento, eu ajo’. Pois bem, não me parece mais sustentável essa forma de compreensão nos dias de hoje.”

Em tempos complexos, de fratura nas certezas, de mudanças vertiginosas, a profilaxia precisa ser vasta. É que Forbes faz. Contra o catastrofismo, o autocontrole. Contra o lugar-comum ancorado na visão do pandemônio público, a convicção de que não estamos assim tão desorientados. Contra o diagnóstico, a ação. Contra a culpa (e a falta dela, estampada na indiferença), a responsabilidade.

É uma espécie de chamamento à responsabilidade de cada um – Forbes ataca as psicanálises que cruzam Marx e Freud e se fixa nos embates do sujeito consigo mesmo, antes que com o objeto.  Como Jacques Lacan – de quem frequentou os seminários em Paris, entre 1976 e 1981, e se tornou um dos principais introdutores no Brasil – Forbes se apoia numa ideia elementar, porém complexa: não se trata de buscar nos outros a saída para nós mesmos. Os outros, que Lacan chamou de O Grande Outro, são a voz do senso comum. E senso comum é o contrário da libertação.

No século XXI, diz ele, não se faz análise para “se conhecer melhor”. Ao contrário. É para suportar o impossível de conhecer e de dar sentido ao mais fundamental de uma vida. A vida é risco, afirma, para quem não quer ser genérico, plastificado, irrelevante. A chamada “segunda clínica de Lacan” faz isso. A primeira clínica era a do significante, do simbólico, própria do mundo moderno, vertical, iluminista. A segunda clínica, por outro lado,  é a do real, que seria, na visão de Forbes, mais compatível com os novos sintomas da contemporaneidade – um mundo de relações mais horizontais, sem a presença dominadora da autoridade paterna detectada por Freud.

Responsabilidade 

O mal-estar, convém dizer, não é uma invenção pós-moderna (Freud e o seu livro “O mal-estar na civilização” que o digam). Mas a clínica psicanalítica para o século XXI, sugere Forbes, precisa levar-nos à libertação da culpa. Ele usa “responsabilidade” no lugar da “ética” e da “moral”. Acha o termo menos culpabilizante e melhor administradora da angústia que toda chamada à moralidade desencadeia em quem é chamado. (Não é uma tese consensual. Nomes respeitáveis como o psicanalista Jurandir Freire Costa, por exemplo, argumentam que nosso ideário ético fundamental, baseado nos valores judaico-cristãos, não foi perdido, e que essa matriz deve ser apropriada com veemência.)

Um trecho do livro de Forbes é ilustrativo de sua escolha: “O título Inconsciente e Responsabilidade junta duas palavras que habitualmente não se frequentam, a ponto de ser comum ouvirmos, frente a um questionamento, uma pessoa se defender dizendo: ‘Ah, só se foi o meu inconsciente’, como se o inconsciente não fosse de sua responsabilidade.” Pois bem, continua ele, somos, sim, responsáveis frente ao acaso e à surpresa.

Um exemplo prático dessa visão: ouvindo alguém dizer, em uma sessão de segunda-feira, que ficou pensando no fim de semana e que concluiu ser “um péssimo marido, um pai meia-boca e um amante infeliz”, o analista clássico perguntaria “O que o levou a essa conclusão?”. A psicanálise do século XXI não traria uma pergunta, mas um comentário mais ou menos assim: “O fato de o senhor dizer que é um péssimo marido, um pai meia-boca e um amante infeliz não diminui em nada o fato de o senhor ser um péssimo marido, um pai meia-boca e um amante infeliz”.

Jorge Forbes acha que o homem “desbussolado” do presente (como bom lacaniano com formação francesa, ele tirou do coloquial “déboussolé”) continuará sem rumo se não lhe oferecermos a responsabilidade diante do acaso, da surpresa, do seu inconsciente, da sua família, do trabalho.

Nada de explicar seus erros e seus problemas, portanto, com o dedo em riste para seus pais. A responsabilidade é sua.

 

 

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terça-feira, 22 de outubro de 2013 Filosofia | 23:10

Citação do dia: O amor, segundo Nietzsche

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Do livro “100 aforismos sobre o amor e a morte”, de Nietzsche (que faz parte da coleção Grandes Ideias, da Penguin & Companhia das Letras, com seleção e tradução de Paulo Cézar de Souza), separo três aforismos:

27. Amor e reverência
O amor deseja, o medo evita. Por causa disso não podemos ser amados e reverenciados pela mesma pessoa, não no mesmo período de tempo, pelo menos. Pois quem reverencia reconhece o poder, isto é, o teme: seu estado é de medo-respeito. Mas o amor não reconhece nenhum poder, nada que separe, distinga, sobreponha ou submeta. E, como ele não reverencia, pessoas ávidas de reverência resistem aberta ou secretamente a serem amadas.

37. A fonte do grande amor
De onde se origina a súbita paixão de um homem por uma mulher, aquela profunda, interior? Apenas da sensualidade, certamente não: mas, se o homem encontra debilidade, necessidade de ajuda e petulância ao mesmo tempo, nele sucede como se a sua alma quisesse transbordar: no mesmo instante ele se sente tocado e ofendido. Nesse ponto é que brota a fonte do grande amor.

47. Amostra de reflexão antes do casamento
Supondo que ela me ame, como se tornaria incômoda para mim, com o passar do tempo! E supondo que não me ame, como aí então se tornaria incômoda para mim, com o passar do tempo! – Trata-se apenas de duas diferentes espécies de incômodo: – casemos, portanto!

 

 

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segunda-feira, 21 de outubro de 2013 Filosofia do cotidiano | 21:44

Citação do dia: “Beleza exposta dá tédio”

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Do livro “A filosofia da adúltera”, do filósofo Luiz Felipe Pondé, recém-lançado pela editora Leya. O capítulo chama-se “Uma mulher interessante”, iniciado a partir de Nelson Rodrigues, seu guru intelectual:

(…)”O desejo precisa de seu claustro”. A beleza é sempre necessária, mas escondida por detrás de sua discrição. As pernas das mulheres são mais lindas quando pressentidas na sua totalidade do que quando expostas ao sol. Por isso, mulheres belas na mídia acabam por nos entediar, assim como todas aquelas que vivem graças à indústria da beleza.

Mas isso tampouco significa que devemos nos esquecer da necessidade da beleza sufocando em definições “cabeça” de mulher bonita. Uma mulher bonita dispensa manuais. O silêncio e a reverência bastam. E o desejo que pinga sobre ela. Se você der sorte.

Quando se esquece que a beleza é melhor vista fora da luz, esquece-se que a beleza exposta dá tédio, e o corpo é o órgão por excelência do tédio. Nele, o tédio não é uma ideia da falta de sentido da vida, é a matéria mesma por onde passam as horas da falta de sentido.

 

 

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Política, Sociedade | 13:57

Cid Benjamin e as memórias de um militante torturado: “Pessoas normais são capazes de torturar”

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Narrativa envolvente e objetiva, detalhes cruéis de uma memória prodigiosa, histórias surpreendentes e análise que revisa, com crítica e autocrítica, premissas e atos desde a luta contra a ditadura militar (1964-1985) até a política posterior à redemocratização – eis o que o jornalista e escritor Cid Benjamin exibe no sensacional “Gracias a la vida: Memórias de um militante”, livro editado pela José Olympio, que ele lança nesta terça-feira (22), na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, Rio de Janeiro.

Está tudo lá: pesquisa, lembranças em detalhes das torturas que ele e seus companheiros de luta sofreram nas mãos dos militares, memória em torno dos nove anos de exílio e reflexões sobre o PT e a política partidária. O iG publica amanhã uma entrevista com Cid Benjamin sobre o livro e suas memórias, portanto a coluna se concentra aqui em dois momentos-chave de sua narrativa: a prisão e a tortura.

O jornalista Cid Benjamin:  Enquanto torturadores não forem punidos, haverá quem a pratique

O jornalista Cid Benjamin: “Enquanto torturadores não forem punidos, haverá quem a pratique” (Foto: Divulgação)

A descrição do inferno parte da sala principal de torturas do temido DOI-Codi, do I Exército. Rua Barão de Mesquita, bairro da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro. Espaço amplo, sem janelas. Encostado a uma parede, um pau-de-arara. Uma mesa,  cadeiras e um falso espelho por onde se poderia acompanhar, sem ser visto, o que acontecia ali dentro. Sobre a mesa, telefones de campanha, que funcionavam com manivela. Fios compridos com as pontas desencapadas eram presos aos aparelhos, usados para dar choques elétricos. “Aqui é o lugar em que o filho chora e a mãe não vê”, dizia um dos cartazes desenhados à mão. “Advogado aqui só entra preso”, anunciava outro.

Tenebroso, mas leia mais. O preso recebe um capuz de lona grossa, preto. Malcheiroso, tinha resquícios de sangue, vômito e saliva. Os torturadores começam a sessão, com choques longos, ora com os telefones, ora com uma das extremidades dos fios amarrados em parte do corpo do torturado com as outras extremidades enfiadas diretamente na tomada – o “choque de parede”. Se o preso estivesse no chão, dava saltos como vítima de uma convulsão. Se pendurado no pau-de-arara, corcoveava, num rodeio às avessas. “Esse vai ficar brocha pelo resto da vida”, diziam os torturadores.

Ato de uma alma monstruosa?

Um monstro? Nem tanto, diz, surpreendentemente, o autor do livro. Para ele, a tortura que sofreu não foi praticada apenas por psicopatas sádicos, jovens militares obcecados pelo “combate ao comunismo”, policiais civis experientes que já haviam torturado presos comuns e passaram a torturar presos políticos. Os torturadores eram também cidadãos “normais”: bons maridos, pais amorosos, vizinhos simpáticos, descreve Cid. Gente comum que passou a achar a tortura uma prática natural, mas que encontrou no suplício e até assassinato de seus semelhantes sua rotina profissional.

Pode levar uma vida “normal”, mas derrotado ou vitorioso o algoz jamais se afirmará como ser humano, sublinha Cid, lembrando que o único papel do torturador ali é o de tentar esmagar a humanidade alheia. Antes de viver a experiência, diz ele, achava que eram princípios ideológicos que faziam um torturado calar-se para não denunciar amigos e dar informações úteis ao torturador. “Já não creio que seja só isso”, afirma. “Muitas vezes é algo mais primário: o sentido de lealdade pessoal, a dignidade e – por que não? – o amor próprio.

A análise exposta no livro sobre a figura do torturador leva à lembrança da descrição de um burocrata banal feita pela filósofa Hannah Arendt para o criminoso nazista Adolph Eichmann. Verdugos que, em alguns casos, se permitiam até sinais de admiração por suas vítimas, pela coragem que demonstravam diante da dor – mesmo que não deixassem de fazê-las sofrer mais. Na síntese de Cid: “Pessoas normais são capazes de torturar”.

Esse reconhecimento não significa relevar o que seus algozes fizeram. “Enquanto torturadores não forem punidos, haverá quem a pratique. Por isso, é importante que os executores diretos e, ainda com mais razão, os mandantes sejam levados ao banco dos réus”, escreve ele, para quem “queiramos ou não,  o futuro da tortura está ligado ao futuro dos torturadores”. Palavra de quem, de tão torturado, reconhecia o suplício pelo tipo de gemido da vítima. Os gritos de quem estava levando choque eram longos e muito fortes. Quando eram pancadas, os gritos não se mostravam contínuos. No caso de afogamento, não havia gritos, mas soluções e tosse, muita tosse.

A prisão

Cid Benjamin começa sua envolvente narrativa no dia 21 de abril de 1970. Tinha 21 anos e exibia o codinome Paulo Alves. Não era um estudante qualquer, mas o chefe da Frente de Trabalho Armado (FTA) do Movimento Revolucionário 8 de Outubro, o MR-8. Era, na verdade, a bola da vez: tratava-se do principal dirigente da organização e um dos cabeças da linha de frente na luta armada – na contabilidade militar, o recordista na participação de ações de guerrilha urbana no Rio até aquele momento, incluindo o sequestro do embaixador dos Estados Unidos, Charles Elbrick.

“Tá em cana”, ouviu ao ser agarrado por trás numa gravata por um sujeito forte. Em reação, Cid aplicou-lhe um golpe de judô com a eficiência de um faixa preta (fora campeão brasileiro juvenil). Ao que se seguiu uma longa briga contra “15 ou 20 sujeitos”, a maioria com fuzis, que destruiu a padaria no Lins de Vasconcelos, Zona Norte do Rio, “aparelho” onde Cid se encontraria com um companheiro.

Brigou muito antes de, ensanguentado, ser jogado em um carro. Foram 20 minutos, segundo seus captores – todos agentes à paisana do DOI-Codi do I Exército. Suas ordens eram pegá-lo vivo. “Eles queriam me prender vivo, em busca de informações que pudessem ser extraídas na tortura”, escreve Cid. “Por isso não atiraram. Os fuzis foram usados como porretes, para me desferir pancadas, principalmente na cabeça”. Com gritos de triunfo, narra Cid, a caravana partiu em direção ao quartel da Polícia do Exército, na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, onde funcionava o DOI-Codi. “Se não temia a morte, eu temia a tortura. Mais do que o sofrimento físico, temia acabar dando informações que pudessem levar à prisão ou à morte de companheiros. Preferiria morrer”.

Cid conheceria o inferno naquela noite.

Engana-se, porém, quem achar que tais descrições equivalem à autocelebração. Como afirma o colega Milton Temer no prefácio, Cid não mitifica a valentia, nem supervaloriza a coragem; não produz um texto de arrependido ou derrotado, tampouco renega seu período de luta armada, embora avalie criticamente os erros cometidos. E o faz com “racionalidade e distanciamento”, nas palavras de Temer, que ataca as “fábulas que chegaram a gerar filmes”, as “lendas sobre falsos autores de textos que a guerrilha impôs à ditadura ler em cadeia nacional” e a “autopromoção de falsos protagonismos dos episódios mais marcantes”.

Quem conhece os meandros dessa história sabe a que companheiros Temer se refere.

Cid reconhece que o caminho da guerrilha foi um equívoco, pela impossibilidade de vitória. Deixa claro quando retrata, com as cores de hoje, a imaturidade política e as temeridades cometidas por ele e seus companheiros de guerrilhe urbana. Mas considerou um “gol de placa” o sequestro do embaixador norte-americano. (E mesmo na prisão, onde esteve na solitária onde só podia dormir na diagonal, ajudou a elaborar a lista de presos a serem libertados em troca do então embaixador da Alemanha Ocidental, Ehrenfried Von Holleben.)

Mais do que isso, noves fora os erros cometidos, acha, com razão, que estava do lado certo – não o da guerrilha, mas o lado de quem acredita na política como orientação pela “justiça social e fraternidade”.

 

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