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quinta-feira, 23 de outubro de 2014 Política | 13:52

Uma nova jabuticaba a propor para Dilma e Aécio: um marco regulatório das conquistas sociais

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Eis aqui uma imodesta sugestão aos eleitores indecisos, aos partidários do PT e do PSDB, aos formuladores de seus programas de governo e, claro, aos próprios candidatos Aécio Neves e Dilma Rousseff: leiam o artigo O marco regulatório das conquistas sociais – A jabuticaba e o ajuste dos rentistas, de Luiz Cesar Faro e Rubeny Goulart. Ocupa 13 páginas da última edição da revista Insight-Inteligência, cuja versão em blog é parceira do iG.

Como o próprio título revela, o artigo propõe um marco regulatório das conquistas sociais: a criação, para o próximo governo, de metas sociais a serem perseguidas paralelamente à saúde macroeconômica. Um tripé social ao lado do badalado tripé macroeconômico.

capa66Bons na forma e no conteúdo, os autores sugerem inverter a ordem do modelo vigente no Brasil. Nele, as variáveis fiscal, monetária e cambial, além da gestão microeconômica, se adequariam à preservação das conquistas sociais, e não o contrário. (Com razão, eles entendem como conquista social uma inflação controlada em patamar razoável, no nível, por exemplo, das metais atuais.)

O artigo parte do pressuposto do cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, para quem “vivemos em um mundo de antipatia pelo social”, para defender a necessidade de construir um modelo de social target, “sistematizá-lo, protegê-lo e regulamentá-lo à luz das premissas dadas”.

Antes que as gralhas gritem, não se trata da constitucionalização de certos benefícios, repetindo o engessamento do que foi feito em 1988 com o contingenciamento de recursos no orçamento, tornando imutáveis certas prioridades. Também convém esquecer o superficial e rarefeito debate restrito à manutenção ou não do Bolsa Família. Bobice. A questão social brasileira é muito mais profunda.

O artigo é, acima de tudo, uma defesa ardente do que se convencionou chamar de “democracia social”, mas que no texto da revista ganha o epíteto de “economia da democracia social” – segundo a dupla de autores, “algo mais tenro, ainda em busca de sistematização, pertencimento e proteção”. Para eles, o principal benefício dessa economia humanizada “é a combinação entre aumento do bem-estar do povo, distribuição de renda e fortalecimento da democracia”.

Acrescentam: a economia da democracia social é um modelo híbrido, capaz de integrar “suaves matérias-primas da social-democracia de inspiração nórdica com espesso molho de jabuticaba, carregado de políticas de inclusão social, sobre as quais estão assentados o crescimento do salário mínimo real, taxas de desemprego baixas e um processo crescente de distribuição de renda, todos sem perder de vista o imperativo de um controle da inflação em um nível satisfatório”.

Uma nova métrica para avaliar a economia

A dupla lembra a inexistência de hoje de um índice ou coeficiente desta cesta de conquistas sociais calculado até os dias de hoje, embora proliferem métricas sobre felicidade e satisfação. Se existisse, o Brasil estaria em posição bem melhor do que os famosos rankings de competitividade global e, claro, os rankings globais de crescimento do Produto Interno Bruto.

Explica-se: dados oficiais apoiados exclusivamente em soma de riquezas (como o PIB), produtividade e eficiência econômica (competitividade global) torturam a realidade ao ignorar, por exemplo, melhorias significativas na remuneração da população (de baixa e média renda), na proteção social e na redução da desigualdade.

Tome-se o PIB, por exemplo. O Brasil sangra diante de países como Panamá, Bulgária, Paraguai, Haiti e Nicarágua, para citar os verdadeiros “tigres latino-americanos”. De acordo com as agências de classificação de risco, estamos na vice-lanterna, somente acima da Ucrânia. Grécia, Portugal e Espanha caíram menos no ranking que o Brasil, sublinha o artigo, e por isso devem estar muito felizes, todos com salários decrescentes, desemprego na casa dos 12%, pobres procurando fontes de renda como quem busca oxigênio e juventude desesperançada.

Enquanto isso, o Brasil do PIB magrinho e sofrível (mesmo mantendo-se como o sétimo PIB do mundo) se vê com a taxa de desemprego abaixo de 5%, algo notável até mesmo para os mais elevados padrões mundiais de pleno emprego. Em nove anos, como lembra a insuspeita Fundação Getulio Vargas, os 60% mais pobres da pirâmide social cresceram seis pontos percentuais na renda nacional, enquanto os 1% ais ricos, apenas um ponto – algo revolucionário.

Entre os famosos Brics, o Brasil foi o único a não exibir números exuberantes em matéria econômica que o “mercado” adora (crescimento alto e inflação baixa), mas foi o único que conseguiu ampliar a distribuição de renda, segundo estudo da igualmente insuspeita OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

O mesmo estudo avaliou o enigma da superprodutividade dos países da Ásia e da Região Oceânica do Pacífico. Na maioria deles, o grande crescimento econômico não foi transformado em distribuição de renda e políticas sociais relevantes. Já vimos esse filme antes nos plúmbeos anos do milagre econômico brasileiro – aqueles em que a economia ia bem, e o povo ia mal, nas palavras do ex-presidente Emílio Garrastazu Médici.

O marco regulatório

Faro e Goulart propõem um bicho de sete cabeças: um índice de crescimento necessário para a proteção dos avanços obtidos por meio da economia da democracia social. Seria algo como o “PIB de equilíbrio para manutenção das políticas sociais”.

A dizer: “a soma de riquezas capazes de atender as despesas com o crescimento do salario mínimo real, a taxa de desemprego próxima do pleno emprego e a distribuição de renda com inclusão social, além da poupança dirigida às necessidades de sempre voltadas ao crescimento do capital”. Em outras palavras, como diz a professora Maria da Conceição Tavares, não se trata mais de PIBão, nem de PIBinho, mas sim, o PIB no qual caibam as exigências de uma sociedade mais justa.

Como os autores afirmam, uma proposta com gosto de limonada amarga para os rentistas mais inveterados. Fica o desafio: criar uma métrica que incorpore esse tripé da economia da democracia social na soma das riquezas totais. Para quem gosta de pensar em inglês, substituir o alquebrado development target de hoje pelo social target, que perseguiria o tríptico do salário em alta, distribuição de renda e baixo desemprego.

Campanha eleitoral arrogante e sem criatividade

A ideia traz um pouco de inventividade à reta final de uma campanha que padeceu da falta de luz criativa. “Nos programas de campanha eleitoral”, lembram eles com propriedade, “o que se tem ouvido, invariavelmente com exuberante arrogância, é que tudo se cala em face da irrefutabilidade e da imponência do tripé da política macroeconômica – sistema de metas ide inflação, câmbio flutuante e uma política fiscal compatível com a sustentabilidade da dívida pública – e que o social será aquele que couber no fiscal”. Um determinismo da economia política asfixiante para quem considera que as políticas devem estar voltadas para que a população viva melhor.

A democracia social, conclui o artigo, do ponto de vista de quem governa, antes de ser ideológica, está no terreno da sabedoria política. À coluna, informa Luiz Cesar Faro: o artigo se dirige ao PT e ao PSDB. Vale para um futuro segundo governo Dilma, ou um novo governo Aécio. Serve para quem abraçar a causa do marco regulatório das conquistas sociais e perceber, com sensibilidade, que bem-estar dá voto.

Em tempo: para ler e degustar na íntegra as ideias e o primor do texto de Luiz Cesar Faro e Rubeny Goulart, acesse aqui.

 

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domingo, 19 de outubro de 2014 Política | 13:41

Debate restrito a ataques e bate-boca irrita o eleitor. Mas só com ideias de alto nível fica chato. Qual a saída?

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Em poucas horas, Dilma Rousseff e Aécio Neves voltarão a confrontar-se em novo debate, desta vez na Record. Depois dos encontros da Band e do SBT, a expectativa corrente é se ambos manterão a linha de ataques quase fratricidas ou se reduzirão o tom em busca de um equilíbrio maior entre as críticas severas a um e as propostas para o País.

Há quem acredite que, diante das reações negativas generalizadas de lado a lado, é bem possível que os dois baixem a guarda e aplaquem o ímpeto bélico. Com o perdão da obviedade, meu palpite é que os dois candidatos vão se estudar inicialmente, e os primeiros movimentos de cada um ditarão o tom a seguir. O nível de hoje dependerá, portanto, de quem vai tomar a iniciativa de ser mais ou menos agressivo, mais ou menos magnânimo.

Mas o foco desta pensata é outra. Instigado por um querido e refinado leitor da coluna, reflito: detestamos quando sai fogo do debate e quando este se restringe a ataques mútuos. Até aí ok. O debate franco, qualificado e profundo de ideias é o que de fato interessa ao País. Como afirmaram muitos blogueiros, situados à esquerda e à direita do espectro político e ideológico, estamos todos cansados de ver brigas entre Dilma e Aécio. Queremos propostas. Até aí ok também.

É lorota – “e das boa”, como diria o mestre do baião, Luiz Gonzaga – imaginar que assistiríamos sorridentes, iluminados e altivos, do começo ao fim (como se estivéssemos numa Ágora grega) a um debate de altíssimo nível o tempo inteiro. Ao contrário, ele seria modorrento, enfadonho, sonolento. A começar pela própria imprensa, que não raro descreve debates sem confrontos como “debate morno”.

Por outro lado, como sublinhou o amigo da coluna, o bate-boca é ruim para o debate, para o País e para a biografia dos próprios candidatos – mas neste caso todos assistem e comentam os momentos mais ruidosos do “confronto”.

“Qual o equilíbrio de um debate destes?”, eis a pergunta feita por este amigo, a mesma que muitos devem estar se fazendo hoje, à espera do terceiro e penúltimo debate do segundo turno. “O que está em jogo? As habilidades políticas? O passado de gestor? Afinal, o que o eleitor espera de verdade?”. São perguntas pertinentes, que provavelmente não encontram respostas únicas, tampouco consensuais. Mas ajudam a pensar se, neste tema, é pau, é pedra ou o fim do caminho.

Aécio Neves e Dilma Rousseff no debate do SBT. Foto: Reprodução

Aécio Neves e Dilma Rousseff no debate do SBT. Foto: Reprodução

Os ataques são pedagógicos. Mas até certo ponto

Com exceção talvez do jornalista Paulo Nogueira, do DCM (parceiro do iG), nenhum analista relevante enxergou méritos na agressividade dos dois primeiros encontros do segundo turno. De Josias de Souza – para quem foi o mais baixo nível de debate desde o confronto renhido entre Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva em 1989, na noviça democracia recém-descoberta – a Luis Nassif, que classificou de “circo de horrores”.

Paulo Nogueira, no entanto, acha que os debates acirrados como os dois últimos ajudam a dar clareza sobre o perfil dos candidatos. “A importância de um debate está em permitir ao leitor que conheça os candidatos. A alma dos candidatos, quero dizer”, escreveu ele em artigo.

Não só a agressividade revela a “essência do homem em si”, argumentou, como é impossível formular propostas para um país em dois minutos para o adversário rebatê-las em um minuto. “Você não discute sequer o seu casamento, ou namoro, em um minuto, que dirá os caminhos da educação ou da saúde, os remédios para a economia ou para o meio ambiente, e por aí vai. Mas em instantes, em fragmentos de instantes, você capta a alma do candidato, e isso acontece em geral em situações de tensão e confronto, quando a guarda está mais baixa e o nhenhenhém diplomático se esvai.”

Faz sentido.

Mas Dilma Rousseff e Aécio Neves não ganharão o salvo-conduto para restringirem 100% seus preciosos minutos dos debates da TV às brigas, bate-bocas, provocações, ironias. A razão: o baixo nível da campanha infelizmente não se limita ao debate, quando dispõem apenas de um minuto para respostas ou um minuto para réplicas ou tréplicas. A qualificação no ralo é generalizada; espalhou-se por quase todo o primeiro turno e tomou de assalto o segundo turno inteiro.

Em bom português: tanto nos debates da TV quanto nas entrevistas e nas inserções do programa eleitoral gratuito, trata-se de uma campanha feia e grosseira. Foram raros os instantes de brilho pessoal ou criatividade política. Quase ou nenhuma proposta capaz de distinguir-se do que tem composto o palavrório trocado entre oposição e governo.

Uma campanha feia e a campanha que não houve

Com uma pauta tão mofina assim, a taxa de abstenção, brancos e nulos tende a aumentar no segundo turno. O lamentável é que as duas candidaturas – Dilma/PT e Aécio/PSDB – têm o que apresentar, especialmente projetos de mudança em direções divergentes, porém reais.

Obviamente são necessários aí os olhares para o retrovisor, sim, comparando-se estratégias, contextos e consequências e dois modelos bastante diferentes de governar, demonstrados não só nos oito anos de Fernando Henrique Cardoso e nos dois 12 anos de Lula/Dilma, como também nas gestões estaduais tucanas e petistas.

(Ainda impressiona quando alguém afirma que PT e PSDB são mais próximos do que se imagina e deveriam caminhar juntos.)

O eleitor, porém, chega à última semana sem conseguir escapar da verborragia, de um lado, e numerologia, de outro. Pura e simplesmente. Dos mal informados radiografados recentemente pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso aos bem deformados identificados pelos seus críticos, poucos devem ter saído com uma visão clara do que de fato se imagina ser o cenário de mudanças concebido para o próximo governo – seja ele o governo reeleito de Dilma ou um novo governo tucano, com Aécio.

Até onde são mitificações ou verdadeiras as previsões sombrias sobre a economia brasileira?

A vasta leva de obras que se espalham pelo País – e sobre as quais pouco se fala – conduzirão a economia a novo patamar nos próximos anos?

Como o Brasil modernizará seu patamar de análise sobre os padrões de vida, comportamento e bem-estar, em algo que vá além do número puro e seco do Produto Interno Bruto?

Qual o equilíbrio ótimo entre eficiência econômica (que avançamos com FHC) e democracia social (cujo salto se deu especialmente com Lula), sem abdicarmos de uma e outra?

Que diferenças de planos para a educação e a inovação tecnológica existem entre os dois projetos?

Dilma e Aécio exibem condições de identificar, radiografar e dialogar com um tipo inédito de intervenção política? (Aqueles movimentos recentes constituídos pelo ajuntamento de atores menos abrangentes do que as classificações que conhecemos, como classes, corporações profissionais e grupos de interesse reconhecidos; refiro-me ao novo que se prolifera em pequenas coletividades, e sem denominador comum muito claro.)

Quais rumos o Brasil tomará em posições internacionais, cujo patamar foi reduzido após a saída de cena de Lula?

O que diferem Dilma e Aécio para sérias questões de valores da sociedade, como aborto, casamento gay, políticas afirmativas, violência contra minorias?

E em questões prioritárias como segurança pública e saúde?

Tudo isso poderia ter sido discutido sem que ambos abdicassem do necessário, pedagógico e fundamental direito de desconstruir o adversário – dos pelintras expostos na Petrobras, de um lado, às venturas e desventuras festivas, de outro.

Se tivessem buscado o equilíbrio, as duas candidaturas ainda ajudariam a aplacar a matéria-prima incrustrada no debate público atual: a intolerância com as ideias e as escolhas as alheias.

Não sairíamos tão menores do que chegamos até aqui.

 

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sexta-feira, 17 de outubro de 2014 Política | 11:43

O ódio ao outro explica o preconceito contra o voto nordestino

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Assim como fez no confronto da Band e tem repetido desde que a polêmica surgiu, o tucano Aécio Neves sublinhou nesta quinta-feira, no debate do SBT, a promessa de ser o candidato da integração nacional: nem para ricos, nem para pobres; se eleito, vai governar para todos, garantiu o candidato do PSDB.

Ao dizer isso, Aécio faz um movimento duplo, cujos resultados ainda não parecem evidentes se eficazes até o dia de votação do segundo turno. Primeiro, tenta desfazer a ideia – sedimentada no mínimo nos últimos 16 anos – de que o PSDB é um partido elitista, mais confortável no papel de representante dos bem nascidos, bem informados e bem ilustrados do que capaz de governar para ricos e pobres, incluídos e excluídos.

(Durante muitos anos o PSDB deu sucessivas mostras de ser o único partido social-democrata do mundo que abomina o Estado e o ativismo estatal, hostiliza o sindicalismo e acha movimento social coisa de gente menor, nada a ver portanto com a social-democracia que encantou a Europa a partir da primeira metade do século XX.)

O segundo movimento de Aécio ao apresentar-se como candidato de todos é tentar corrigir a rota dos rumos tomados pela declaração do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Respondendo a uma pergunta do jornalista Mário Magalhães, FHC disse: “O PT está fincado nos menos informados, que coincide de serem os mais pobres”, referindo-se à distribuição dos votos de PT e PSDB não só no primeiro turno mas também nas eleições de 2010 (Dilma vitoriosa) e 2006 (reeleição de Lula). Até aqui, o PT obteve melhor votação no Norte e no Nordeste; o PSDB, no Sudeste.

Para os petistas, tratou-se de uma nova prova do elitismo e do preconceito tucano. Um insulto aos nordestinos e aos pobres. Para os tucanos, a grita petista depois da declaração foi injusta, deturpada e eleitoreira. E vêm dizendo deste então que é o PT, e não o PSDB, o promotor de uma divisão preconceituosa do eleitorado.

O candidato do PSDB, Aécio Neves, posa ao lado do cantor Raimundo Fagner no Centro de Tradições Nordestinas, em São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Foto: jornal O Dia

O candidato do PSDB, Aécio Neves, posa ao lado do cantor Raimundo Fagner no Centro de Tradições Nordestinas, em São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Foto: Jornal O Dia

Uma pensata sobra a polêmica

De fato, o que o ex-presidente e Fernando Henrique Cardoso disse foi em parte uma verdade sociológica: o mapa dos mais pobres coincide com os menos educados; o dos mais ricos, com os mais educados. Como afirmou depois o cientista político Fernando Limongi, a distribuição regional do voto, a boa votação do PT no Nordeste e a do PSDB no Sudeste, não é senão outra forma de fazer a mesma constatação de outra maneira, porque é no Norte e no Nordeste que residem os mais pobres e os menos educados.

Mas FHC disse uma frase também reveladora do que pensa. Na transcrição completa:

“O PT está fincado nos menos informados, que coincide de ser os mais pobres. Não é porque são pobres que apoiam o PT, é porque são menos informados. Essa caminhada do PT dos centros urbanos para os grotões é um sinal preocupante do ponto de vista do PT porque é um sinal de perda de seiva ele estar apoiado em setores da sociedade que são, sobretudo, menos informados”.

Note o “sinal preocupante” da análise do presidente ao avaliar a migração do eleitorado petista dos centros urbanos (no tempo em que era oposição e o PSDB, governo, aliado com o PFL – hoje DEM). Na sua primeira eleição, FHC teve proporcionalmente mais votos entre os eleitores que não passaram do ensino fundamental. Também teve vitória folgada no Nordeste, no Norte e no Centro-Oeste. Isso se repetiu na reeleição tucana, em 1998.

O PT “migrou para os rincões” a partir de 2006. Na primeira eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (2002), seu voto majoritário ainda foi das pessoas mais escolarizadas (52% do eleitorado com ensino superior e 42% entre os menos instruídos, informava de véspera o instituto Datafolha).

Eis a “perda de seiva” petista apontada de maneira preocupante por Fernando Henrique.

Os tucanos pagam o preço porque a frase do ex-presidente abarca a ideia de que o voto no PT é atribuído a inferioridades culturais e sociais, não existentes nos eleitores de outros partidos – na ótica do tucano, especialmente do PSDB, claro.

Difícil enxergar mentira e equívoco em quem viu na frase uma divisão preconceituosa do eleitorado ou desvio de sentido, como FHC e Aécio Neves os acusam com a virulência sofisticada à moda tucana.

Para certos ditos bem esclarecidos, o eleitor inculto não sabe escolher. Equivocam-se porque não têm a sensibilidade de perceber que o pobre nordestino vota exatamente como o rico sudestino. Seu voto é igualmente racional. Ele vota buscando maximizar seu bem-estar. Em linguagem do povo: vota porque sua vida está melhor (se apoia o candidato governista) ou porque está insatisfeito e busca melhorar sua vida (quando ajuda a apear o partido governista do poder).

Menos informados? Na esmagadora maioria, certamente (noves fora não raro também encontremos no Leblon carioca e no Jardim Europa paulistano hordas imensas de pessoas que falam sem saber do que dizem). Maus eleitores? Um dado para responder: o crescimento econômico do Nordeste nos últimos três anos é de três a quatro pontos percentuais acima do crescimento nacional; o Centro-Oeste teve PIB chinês.

O tema do voto nordestino não foi levantado exclusivamente pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Houve aberrações, como o caso da comunidade médica que pregou o holocausto no Nordeste em campanha contra Dilma Rousseff, defendendo castrações químicas a eleitores do PT. Ao iG, a uma médica do grupo defendeu a página, disse que é usada “só” para desabafos e defendeu “a revolução do agir”.

O ódio aparece nas sombras, se verá a seguir.

Fazemos amor, não fazemos guerra

Doutor em história social pela USP e professor da Unicamp, o historiador Leandro Karnal tem uma análise sobre o ódio do brasileiro que ajuda a explicar certos sentimentos expostos nesse debate sobre preconceito e divisão do eleitorado do País. Ao traçar um histórico de como o brasileiro lida com a questão do ódio, Karnal mostra que temos muita resistência em assumir que fazemos guerras, que aqui há preconceito e racismo e, mais do que isso, que temos dificuldade em reconhecer o mal em nós. Segundo ele, acreditamos nas manifestações de ódio e de ira aparecem sempre no outro, no estrangeiro, no vizinho; nunca em nós.

O que essa característica revela?

Na tese da cordialidade do brasileiro (eternizada pelo historiador Sérgio Buarque de Hollanda nos anos 1930), seríamos o país da generosidade, da civilidade, da hospitalidade gratuita – a terra do coração. Negando a violência, a capacidade de manifestar nosso ódio, nosso racismo, nosso ressentimento social, agiríamos pelo coração, passionalmente. Inclusive quando odiamos.

Sérgio Buarque olhava naquele momento para a Alemanha nazista, onde havia estudado, e o Brasil parecia uma ilha de estabilidade num mundo cercado de ódio. O nó górdio é que isso ocultou passagens memoráveis do ódio, do preconceito e do ressentimento social presentes também no brasileiro: basta ver os desenhos de Debret, a repressão ao quilombo de Palmares (quando Zumbi foi morto e teve seu pênis amarrado de maneira infame à boca), a própria escravidão de três séculos e meio, a repressão a Canudos e a forma como o arraial foi executado, na Guerra do Contestado em pleno século XX, no fato de que o trânsito brasileiro mata um Vietnã inteiro por ano.

Há mais: gays sofrem violência porque… são gays. Mulheres sofrem violência porque… são mulheres. Nordestinos são chamados de paraíbas quase como um elogio carinhoso, ou como símbolos de sinais preocupantes de perda de seiva de um partido.

Voltando a Leandro Karnal, ele menciona um dos grandes preconceitos da história do Brasil: desconhecemos em nossos registros a expressão “guerra civil”. Guerra civil, lembra Karnal, é coisa de gringo; nós vivemos agitações, jamais guerra civil. Mesmo que o Rio Grande do Sul tenha se separado do Brasil por 10 anos. Mesmo que tenhamos em nossa história eventos como a Cabanagem, a Sabinada, a Balaiada, a Revolução de 1932 de São Paulo, luta armada e torturas praticadas pelo Estado durante a ditadura militar instalada em 1964.

A violência, repita-se, é sempre do outro, nunca a nossa. “É sempre um espanto e inexplicável. Só tem sentido no outro, longe de mim”, lembra Leandro Karnal. Ele ironiza: “Por incrível que pareça somos um povo profundamente pacífico cercado por pessoas violentas longe da minha comunidade, sejam elas cariocas, sertanejos, favelados, nordestinos ou quaisquer outros indivíduos que encarnem a violência contra mim, representante da brasilidade”.

Karnal trabalha com o que os acadêmicos chamam de alteridade: o “nós”. Em outras palavras, a valorização do “eu” em contraponto ao “nós”. Revelar capacidade de enxergar o “nós” é sempre mais difícil. Numa entrevista à revista Insight-Inteligência, alguns anos atrás,  eu e os jornalistas Luiz Cesar Faro e Cláudio Fernandez ouvimos dele a análise:

 “Todas as vezes que somos expostos ao outro, à alteridade, reforçamos a xenofobia, o racismo, o etnocentrismo e um certo darwinismo social. Ou seja: estou evoluindo mais do que o meu vizinho, logo estou mais à frente, sou melhor e mais civilizado. Havendo a ideia de que, entre o dia e a noite, há um período de crepúsculo, é nesse período que as sombras assumem formas fantasmagóricas”.

As sombras em questão são o ódio, a perversidade, a violência, a agressividade, os sentimentos racistas, homofóbicos e misóginos. O ódio, diz Leandro Karnal, é uma rara forma de comunicação universal com o outro, uma tentativa de diálogo. Acrescento: uma ação e uma reação, uma demonstração de superioridade ou inferioridade, poder ou conformação, decadência ou inveja, altivez ou resignação, ofensa ou ressentimento, desespero ou anseio de felicidade. “A natureza humana é violenta e, quando ele tem chance, exerce essa violência através do poder, da comparação cultural e de outras formas de exercício de superioridade. Deixamos à tona uma enormidade de sentimentos agressivos, comparativos racistas e assim por diante”, disse.

Não existe Deus sem o diabo

Mas é assim que alimentamos a nossa identidade. “O ódio é um elemento muito poderoso, que confere identidade”. O preconceito é expressão do ódio, repita-se.

Em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago, há uma passagem na qual o demônio se mostra espantado com tantas atrocidades cometidas na história do cristianismo, em nome de Deus Pai. E Deus diz: não posso ser Deus se não houver o diabo.

Não é por outra razão que as igrejas insistem na ação do demônio. Não há deus sem o diabo; certo sem o errado; esquerda sem a direita; prazer sem a dor; esperança sem o medo. E, em última instância, PT e PSDB não conseguem existir sem o outro.

 

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segunda-feira, 29 de setembro de 2014 Política | 10:01

Especialistas erraram previsões na campanha. Mas um alerta: eles costumam acertar quase tanto quanto o acaso

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Dilma Rousseff vai perder a disputa pela reeleição e os petistas serão, enfim, removidos do poder. A economia brasileira está muito mal, obrigado, encontra-se à beira do abismo, e imerge de maneira trôpega numa tragédia iminente que dura alguns anos e parece que, em breve, repintará em cores muito mais sombrias a débâcle já sofrida pelo País em outros tempos. Fato. Líquido e certo.

Aécio Neves, o candidato tucano, vai comandar a oposição rumo a uma vitória difícil, mas inevitável “diante de tudo o que está aí”. Apesar das poucas nuances e diferenças, acrescente-se, entre ele e o outro oposicionista relevante, Eduardo Campos – o esperto, boa praça porém inerte nas pesquisas candidato do PSB, amigo do ex-presidente Lula e mordaz adversário da presidenta Dilma.

Opa! Um acaso trágico vindo dos céus, Eduardo Campos morreu. Marina Silva, de aura imaculada, agora é a candidata do pacto eleitoral PSB-Rede. Dispara nas pesquisas, é inevitável sua vitória. Será a conquista da esperança por uma “nova forma de fazer política”. Não há como, é uma questão de tempo – precisamente agora é esperar o 5 de outubro. A campanha de Aécio também morreu. A de Dilma agoniza.

Mas eis que Marina chafurda diante da “desconstrução” (para uns) ou das “agressões” (para outros). Era o tal novo, atribuído pela virtuosa combinação entre a rejeição ao PT, rescaldo de votações passadas, baixa identificação de Aécio e morte de Campos. Suas contradições a tornaram mais vulnerável, Aécio viu sua esperança ressurgir, Dilma subiu e tornou-se, mais uma vez, a favorita absoluta. Petistas graúdos atestam: é possível até mesmo ganhar no primeiro turno. Um assombro de conquista.

Biruta de aeroporto

A soma de previsões definitivas, transitividades, surpresas, acasos, mudanças de rota e – pasmem – reafirmações de mais previsões definitivas é um exemplo de um vício crônico do Brasil (embora não restrito a nós): o mito das previsões dos especialistas. Uma pena, pois o histórico os desabona.

Nada contra os especialistas. A coluna recorre a eles sempre. Coleciona amigos especialistas, entre economistas, cientistas políticos, historiadores, sociólogos, filósofos, jornalistas e psicanalistas. Produzem conhecimento, estendem os limites da interpretação das mudanças presentes e discutem caminhos e possibilidades em formação no horizonte futuro.

E é no futuro que mora o problema. Nada contra quando se tenta antecipar os passos futuros – numa disputa eleitoral ou nos rumos da economia brasileira, por exemplo. O nó cego aparece quando levamos a sério demais tais previsões, quando elas são taxativas demais, como se viu nesta campanha até aqui, ou quando a mídia, em especial, credita, com ares de verdade, o que não passa de hipótese de trabalho. É o caso do pessimismo reinante que paira sobre a economia brasileira, em que certos setores da imprensa insistem em antecipar um ocaso generalizado, um estado sombrio e desesperador sem amparo na realidade da maior parte da sociedade.

Livro mostra que não há método confiável de acerto

Expert_Political_JudgmentUm livro fantástico, publicado há quase dez anos nos EUA e, infelizmente, sem tradução no Brasil, ajuda a sustentar a falácia das previsões dos especialistas. Chama-se Expert Political Judgment (Princeton University Press, US$ 17 na Amazon). Seu autor é Philip E. Tetlock, um professor de psicologia de Berkeley, Califórnia. Ele passou quase 20 anos analisando previsões de centenas de especialistas sobre o destino de dezenas de países. Foram 28 mil previsões coletadas.

Os números são desabonadores para os especialistas, e as conclusões, edificantes para quem se irrita com previsões. Do livro, extraem-se três lições essenciais: primeiro, especialistas (e colunistas como o que assina esta Pensata) sabem menos do que parecem saber. Segundo, falham com bastante frequência. Terceiro, nunca são penalizados por seus equívocos. “Nenhuma sociedade criou ainda um método confiável de pontuação de acerto dos especialistas”, afirma Tetlock.

Aos números. Entre os analistas de maior pessimismo, 70% das previsões se revelaram mais sombrias. Delas, só 12% terminaram por ocorrer. Entre os mais otimistas, 65% dos cenários traçados foram mais rosados. Destes, 15% se materializaram. Ou seja, o grau de acerto é uma lástima, com leve vantagem para os otimistas (mas leve mesmo). Especialistas são péssimos no cálculo de probabilidades, e segundo o estudo de Tetlock não importa se as previsões dizem respeito a economia, política interna ou assuntos internacionais. Suas avaliações são igualmente equivocadas em todo o espectro de temas.

Previsões servem para sistemas não complexos

Se os especialistas se saem um pouco melhor do que o acaso (ou tanto quanto um macaco jogando uma moeda para cima), por que eles insistem em fazê-lo e nós em ouvi-los? Dan Gardner, no livro Future Babble (Balbucio sobre o futuro, US$ 12,79 na Amazon) arrisca algumas explicações. Para Gardner, nos habituamos a ver a ciência prevendo com enorme sucesso fenômenos como eclipses e marés. Só que esses são sistemas não complexos. Neles, o todo não difere da soma das partes, o que permite montar equações que resultam em predições bastante acuradas. O problema é que quase todas as atividades humanas constituem sistemas complexos, nos quais o todo é mais do que a soma das partes.

Se aprendêssemos bem essa lição, talvez só devêssemos levar a sério experts que expressassem suas previsões do seguinte modo: “Há x% de probabilidade de que o cenário y se materialize”. No mundo real, porém, não é o que ocorre. As manchetes seriam mais enfadonhas. O leitor fugiria. O cérebro humano procura tão avidamente por padrões que os encontra até mesmo onde não existem. Mesmo num mundo sempre mais complexo, queremos narrativas cada vez mais simples e explicações cada vez mais lógicas para nossas preferências. Queremos encontrar sentido nas coisas, mesmo onde não há sentido aparente.

Por essa razão a mídia tem sua responsabilidade adicional. Diz Tetlock: “A mídia não só não consegue eliminar as más ideias mas muitas vezes favorece ideias ruins, especialmente quando a verdade é muito confusa para ser embalada ordenadamente”. A propósito, quanto mais entrevistas os especialistas haviam concedido à imprensa, descobriu Tetlock, piores tendiam a ser suas previsões.

Tem vida longa, porém, a tendência de buscar chaves explicativas definitivas quando, muitas vezes, não resta outra saída se não jogar uma dúvida no ar. Pode resultar em frustração do leitor ou espectador, mas se trata de ser feita uma avaliação de custos e danos. (Blogueiros e colunistas públicos da mídia tradicional, à esquerda e à direita,  e suas certezas absolutas certamente discordarão dessa análise.)

Pensem como a raposa

Tetlock dividiu seus especialistas ao longo de um espectro entre o que batizou de “porcos-espinhos” e de “raposas”. A referência aos animais vem do título de um ensaio de Isaia Berlin sobre o romancista russo Lev Tolstói, chamado “O Porco-Espinho e a Raposa”.

Porcos-espinhos são personalidades de tipo A, que acreditam em grandes ideias, em certos princípios que regem o mundo com o rigor de leis da física e que sustentam praticamente todas as interações que ocorrem na sociedade. Karl Marx e Freud são dois exemplos.

Raposas, por outro lado, são criaturas que gostam de fragmentos, acreditam numa infinidade de pequenas ideias e adotam abordagens distintas para um mesmo problema. São mais tolerantes às nuances, às incertezas, à complexidade e às opiniões discordantes.

Porcos-espinhos são caçadores e estão sempre em busca de uma presa grande. Raposas são animais coletores. Raposas, diz Tetlock, são muito melhores em fazer previsões do que porcos-espinhos. Por essa razão, Tetlock pede que experts tenham mais humildade. Desse modo, diz ele, o debate político poderia soar menos estridente.

O problema é que, como diria o poeta irlandês William Butler Yeats, “falta convicção aos melhores, enquanto os piores estão cheios de apaixonada intensidade”.

 

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quarta-feira, 13 de agosto de 2014 Jornalismo, Política | 13:13

“Os candidatos”: Dilma Rousseff, Aécio Neves e Eduardo Campos ganham perfis em livro

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São apenas 64 páginas. Sessenta e quatro bem escritas, consistentes e, por vezes, deliciosas páginas nas quais a jornalista Maria Cristina Fernandes perfila os três principais candidatos à Presidência da República. Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) são os personagens do livro digital Os candidatos, que a Companhia das Letras acaba de lançar pelo selo Breve Companhia.

Breves livros digitais têm sido uma estratégia adotada por algumas editoras para trazer ao leitor temas quentes do momento. Curtos na escrita, rápidos na edição. Na Companhia, foi iniciada em junho do ano passado, com Choque de democracia, de Marcos Nobre, sobre as manifestações de junho, e recentemente com A Copa como ela é, de Jamil Chade.

Os candidatos Maria Cristina Fernandes 64 páginas; R$ 9,90 Breve Companhia

Os candidatos
Maria Cristina Fernandes
64 páginas; R$ 9,90                     Breve Companhia (E-book)

Em Os candidatos, a política é o pano de fundo, o horizonte, a onipresença dos textos. Mas a observação e a análise das vidas de cada personagem são o esteio da autora para produzi-los, incluindo a formação política e literária dos presidenciáveis. O bom jornalismo, sua matéria-prima. Somas essenciais para conhecer um pouco mais de quem comandará os rumos do País nos próximos quatro anos.

Perfis pertencem a uma família jornalística adotada em larga escala, consumida com grande sucesso mas não tão fácil de produzir quanto parece à primeira vista. A revista New Yorker praticamente a inventou, seja no ramo dos perfis de anônimos, seja dos célebres e poderosos. Da divertida, irônica e casta New Yorker do fundador Harold Ross ao modelo heterogêneo adotado por David Remnick, passando pela picante e insolente gestão de Tina Brown, a revista ajudou a celebrizar o valor da reportagem com um quê literário de alta qualidade.

Os perfis de Maria Cristina Fernandes em Os candidatos não têm a vantagem que a New Yorker costuma ter – proximidade e longo convívio com o personagem, algo que João Moreira Salles teve no seu celebrado perfil de Fernando Henrique Cardoso, quando viajou durante onze dias com o ex-presidente pelos Estados Unidos e Europa para escrever “O andarilho” na revista Piauí.

Repórter e analista política

Mas na paisagem um tanto monótona da imprensa brasileira, Maria Cristina Fernandes costuma iluminar o horizonte com incrível competência e precisão.

Editora de Política do Valor, ela assina semanalmente uma coluna de opinião e análise, onde revela algumas de suas melhores qualidades: a profundidade sem os vícios do academicismo; a elegância sem empáfia estilística; a opinião e a análise consistentes, sem os achismos correntes dos colunistas públicos que infestam o jornalismo brasileiro; a sábia abertura para a dúvida, mesmo diante das hiperbólicas certezas a que costumam aderir os colunistas nativos; a honestidade intelectual que, entre a informação e suas opiniões, a faz ficar com a primeira.

Maria Cristina é também uma arguta entrevistadora, como revela em suas participações no programa Roda Viva ou nas reportagens que assina – é o caso dos perfis de Os candidatos. Não daquele tipo de entrevistador que estamos acostumados a ver na mídia brasileira: mais interessado em exibir-se em perguntas de duração eterna e cansativa, ou aquele que segue disparando perguntas, uma atrás da outra, tão atento à próxima e a si que chega a não escutar o que está sendo dito, perdendo assim preciosas chances de ir mais fundo e além.

Maria Cristina Fernandes: elegância sem empáfia

A jornalista Maria Cristina Fernandes, autora de “Os candidatos”: elegância sem empáfia

Essa conjugação rara de repórter e analista transforma Os candidatos numa leitura importante para este período eleitoral. Mostra, por exemplo, como Aécio Neves, conciliador por natureza, muda sua estratégia e parte para a briga. Como Dilma Rousseff, contumaz gestora, arregaça as mangas para se provar uma articuladora política. E como Eduardo Campos tenta projetar em âmbito nacional a imagem de renovação que soube cultivar como governador de Pernambuco.

Até aí, dito assim, nestes termos, nada demais.  Mas composto no texto de Maria Cristina, vêm as nuances, os entreatos, as trivialidades e mesmo os grandes gestos que fazem da política algo tão apaixonante e necessário – e também tão odioso aos olhos do cidadão comum. (Impossível não recordar uma máxima de um mestre do jornalismo político, Janio de Freitas, segundo a qual, no jornalismo político, notícia é tudo aquilo que alguém quer dizer e outro quer omitir.)

Quente e frio, mas nunca morno

Os perfis de Os candidatos não são frívolos, nem grandiloquentes. Não põem o dedo em riste sobre o personagem em questão, nem são puxa-saco. São simultaneamente quentes e frios, o que não quer dizer que sejam mornos. Esse estilo permite à autora ser honesta intelectualmente, elogiosa e crítica ao mesmo tempo.

A Dilma Rousseff, por exemplo, refere-se como uma presidente que pecou pelo excesso de coragem, mas também pelo medo de enfrentar seus erros ao tentar romper o pacto conservador de mudança estabelecido pelo antecessor e criador Luiz Inácio Lula da Silva. E radiografa sua dificuldade de ampliar o diálogo do seu governo “para além dos muros de sua cidadela”.

De Aécio, não se esquiva do assunto das drogas que cercam o candidato e o provoca pessoalmente sobre isso. “É do jogo, tem lendas para todos os gostos, não podia imaginar que chegaria aonde cheguei sem carregar várias delas”, afirma-lhe o tucano.

Sobre Eduardo Campos, Maria Cristina radiografa dois eixos sob conflito de sua candidatura: o Estado gerencial e a herança de esquerda. Dos três, Dilma foi a única que não lhe deu acesso (carência compensada pela clássica prática de ouvir o entorno do personagem).

Da tragédia grega à esbórnia carioca

Como uma excelente leitora que é, Maria Cristina sabe o quão importante é saber os livros de formação de qualquer personagem – e o que eles dizem desses livros nos informa muito sobre o que são e o que pensam. Os candidatos, neste quesito, traz surpresas curiosíssimas.

A principal delas é a eleição, por Aécio, de Noites tropicais, de Nelson Motta, como sua principal leitura, como obra literária que ajuda a entender sua vida. Publicado em 2000, o livro do produtor e crítico musical fala dos festivais de rock em Saquarema, onde Aécio costumava pegar onda no fim dos anos 1970, e das primeiras discotecas. “É o Rio no qual vivi”, define Aécio para Maria Cristina, que escreve:

“A ditadura tinha vencido e virado a página do rock’n’roll e do idealismo hippie. A música agora era feita para dançar em lugares como o Dancin’Days, na Gávea, que daria nome à novela de Sonia Braga, e o Noite Cariocas, no morro da Urca. É um indiscreto relato em primeira pessoa de um meio artístico movido a ‘Música Popular Brasileira’ e a drogas”.

Eduardo Campos cita Infância e Memórias do Cárcere, ambos de Graciliano Ramos. O filho do escritor Maximiano Campos – amigo de intelectuais e artistas de Pernambuco – conviveu também com escritores, mas a praia sempre foi a política também na literatura. “Gostava do ambiente, do debate sobre literatura, arte e música, mas eu não fazia poesia, não escrevia conto. Fui dar palpite quando comecei a ler Celso Furtado e Veias abertas da América Latina [Eduardo Galeano]. Era aquilo que eu queria”, diz o candidato do PSB.

E a empedernida presidente? Ao frequentar um curso de tragédia em 1993, conta o livro, Dilma Rousseff ficou fascinada pela epopeia da conquista do poder de Filoctetes, de Sófocles. Curiosidade: é uma das poucas tragédias gregas sem personagens mulheres.

Conta o livro:

“Melhor arqueiro da expedição rumo a Troia, Filoctetes foi deixado em ilha deserta depois de ser mordido por uma serpente. A ferida no pé e os gritos de dor o relegaram ao abandono e ao isolamento. Dez anos depois, Ulisses, sem conseguir vencer os troianos, manda Neoptólemo, filho de seu maior rival, Aquiles, persuadi-lo a qualquer preço a voltar ao navio. O jovem resiste a mentir para convencer Filoctetes, que, ferido no orgulho, se mantinha altivo na ilha sem querer curvar sua honra àqueles que o haviam desprezado. A honestidade de Neoptólemo o cativa, ele se reintegra à expedição, é curado e volta de Troia como herói.”

Uma amiga de Dilma conta à autora do fascínio da presidente pela oposição entre a ética grega e a judaico-cristã. Ulisses não tinha medo ou culpa de não fazer o bem. Se Filoctetes incomodava, que fosse deixado numa ilha deserta nem que, depois, fosse preciso resgatá-lo. A culpa, porém, não nos deixa agir assim, mas o exercício do poder exige que você a toureie.

 

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