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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014 Literatura, Sociedade | 16:29

Segredos de justiça revelados por uma juíza especialista no fim do amor

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É do escritor russo Liev Tolstói a afirmação de que as famílias felizes se parecem, e as infelizes são infelizes cada qual à sua maneira. Em Segredo de Justiça, livro lançado recentemente pela Agir (selo do Grupo Ediouro), a juíza e escritora Andréa Pachá ousa refutar a tese do autor de Guerra e paz e Anna Karenina. Com suas 45 histórias reunidas no livro – concebidas a partir de sua experiência como juíza da Vara de Família – Andréa intui que, tanto na felicidade quanto na infelicidade, cada história é única, cada dor é individualizada, “e as soluções não deveriam servir de parâmetro moral para quem quer que seja”, como escreve numa delas.

Andréa é uma juíza respeitadíssima, uma mulher de sensibilidade aguda e uma escritora de texto envolvente, humor inteligente, sutil ironia e notável compaixão. Ela consegue uma proeza ao unir ficção e realidade: revela segredos de justiça, sem violar os processos que tramitam em Varas de Família como a que a esteve durante mais de 15 anos. Andréa preserva, portanto, o direito de milhares de casais que passaram pelos seus olhos. São histórias de ficção, que emergiram de suas observações e de seu talento para transformar em literatura a riqueza do real.

Segredo de Justiça Andréa Pachá Editora Agir,  208 páginas, R$ 29,90

Segredo de Justiça
Andréa Pachá
Editora Agir,
208 páginas, R$ 29,90

Esta juíza que já se aventurou com enorme competência também pelo teatro é o que o diretor e amigo Aderbal Freire-Filho batizou de “especialista em fim do amor”. Afinal, pelas suas mãos e pelos seus juízos passaram incontáveis casais devastados pela dor do fim do amor.

A vida não é justa

Tive o privilégio de editar o seu livro anterior, publicado na primavera de 2012, também pela Agir: como Segredo de justiça, A vida não é justa também era uma espécie de literatura de não-ficção, ou reportagens de ficção, como queiram. (Edição, naquele caso, é um nome superestimado a classificar o trabalho de receber os textos prontos e primorosos e apenas reordená-los). Como este novo livro, agora editado por Carolina Chagas, o primeiro prendia igualmente a atenção do leitor do começo ao fim.

A diferença entre um e outro é que a A vida não é justa tratava mais diretamente do fim do amor. Segredo de Justiça, com os desdobramentos da vida depois do fim do amor. Concentra-se mais em como a vida continua depois, nas disputas de pensão e de paternidade, patrimônio, velhice, além de outros elementos desta fase, ainda que já presentes de passagem no primeiro.

A vida não é justa revelava a atitude angustiada de alguém sem chão que vê o seu homem ou sua mulher partir; que se depara com o fim inevitável de uma história iniciada tão apaixonada; que buscava, ainda inerte, o caminho depois do fim. Nesse conjunto, havia algumas histórias mais curiosas, como o senhor que pedira o divórcio da mulher de 65 anos, depois de descobrir que ela entrava na internet, cheia de tesão virtual, sob o pseudônimo de “Molhadinha 25”.

Segredo de justiça é um livro mais melancólico, porém talvez mais maduro e revelador da complexidade humana. A autora se choca, e o leitor também, com as disputas renhidas entre ex-casais, quase invariavelmente machucados pela separação. Assistimos, assim, aos registros de imaturidade afetiva, insensatez, egocentrismos. Vemos quão rara é a generosidade nesses casos presenciados pela narradora. “Eu só queria entender quem é essa pessoa sentada aqui, na minha frente”, diz uma atônita personagem diante da juíza e do homem com quem dividiu a vida por tantos anos. “Não acredito que você se transformou nesse lixo, Rico”.

Compreensível pela falência dos amores que pareciam eternos? Justificáveis porque os casais estão ali não para celebrar a alegria de estar juntos, mas para marcar o fim de sua união? Talvez. O que fica claro, é certo, é o tamanho e a forma da judicialização da vida – o quanto as pessoas esperam que a Justiça recomponha o que o amor acabou. E como não conseguem, saem dali com a sensação de injustiça reafirmada.

A juíza e escritora Andréa Pachá: a dor é individual, mas somos repetições nos afetos e nos desamores

A juíza e escritora Andréa Pachá: a dor é individual, mas somos repetições nos afetos e nos desamores. Foto: Divulgação

A juíza-terapeuta

Com a sabedoria, a sensibilidade, a razão e a experiência, a juíza-escritora-narradora tenta prometer que a dor passa. A vida segue, as pessoas se transformam, e a dor passa. E é aí que se retoma o dilema acertadamente apontada por Tostói: a dor individualizada. Nisto Segredo de Justiça concorda: não há dor maior do que a experiência individual.

Em várias histórias, a juíza é não só uma conciliadora mas alguém em busca de redução de danos. A uma mulher que lhe conta que “fez um câncer” e foi abandonada pelo marido, ela responde: “Não, não fez, não foi você que causou essa doença maligna ao ser abandonada, não se culpe por seu sofrimento”.

Não por outra razão, o filósofo Renato Janine Ribeiro, que apresenta o livro, mostra que Segredo de Justiça não se preocupa com a felicidade nem com a justiça, mas com a verdade. Diz ele:

“A vida não é justa: pessoas que foram boníssimas, que de tudo fizeram para serem ótimos companheiros ou genitores, nem sempre são reconhecidas ou premiadas – assim como quem foi ou é mau conhece, tantas vezes, o sucesso. A vida é indiferente à justiça. Pessoas ótimas padecem, pessoas más florescem.”

Felicidade, para Andréa Pachá, não está no rol dos direitos. Muito menos é uma obrigação. Para ela, abraçando a causa de bons filósofos, compreender nossa humanidade nos faz mais responsáveis pelo nosso destino – e isso significa reconhecer e encarar as dores e os sofrimentos. E reinventar-se para tanto. O agravamento da dor se deve em grande parte pela idealização da perfeição, incluída aí a idealização do amor e do casamento.

Há um paradoxo aí, e Andréa Pachá reconhece: a dor pode ser individualizada, mas somos todos iguais. Na alegria e na tristeza. Explica-se: há pouca originalidade nas nossas contradições, nos nossos afetos, nos nossos amores e desamores. Como ela diz, “somos todos, de alguma forma, repetições de histórias contadas por tantos quanto os que nos enxergam”. Alegrias extremas e tristezas profundas, portanto, compõem essa “montanha russa” de existência em que embarcamos todos: “humanos, desamparados e esperançosos”.

Amor traz dor, mas sem amor é paz de cinzas

Andréa Pachá não cita explicitamente, mas intuo que ela concorda com a existência de outro paradoxo: ao mesmo tempo em que precisamos negar esta idealização excessiva do amor romântico e da felicidade, sob pena de uma vida de frustrações e de peso demasiado sobre o outro, também não podemos abdicar de uma aspiração mais elevada, ou desumanizamos nossos afetos.

Pode-se adotar uma visão cética do amor, como o psicanalista Contardo Calligaris, para quem uma das boas razões para se casar é a seguinte: uma vez casados, podemos culpar o casal por boa parte de nossas covardias e impotências.

O marido, por exemplo, pode responsabilizar mulher, filhos e casamento por ele ter desistido de ser o aventureiro que ainda dorme, inquieto, em seu peito. A mulher tem a quem culpar por jamais ter tornado realidade o sonho romântico de amor avassalador e irresistível, do qual elas desistem por causa do marido, filhos e casamento.

(Dom Quixote se queixa de que sua mulher esconde seu livros de cavalaria e o impede de sair à cata de moinhos de vento, e Madame Bovary lamenta que seu marido esconde seus livros de amor e a impede de sair pelos bailes, em busca de paixões sublimes e elegantes.)

Pode-se, por outro lado, recorrer a uma perspectiva mais lírica, como a de José Miguel Wisnik, que uma vez se perguntou: “É permitido dizer que o mundo é pobre para quem jamais foi doente o bastante para a paixão?” Para Wisnik, o acorde entre o desejo de permanência (onde se inscreve o amor) e o fato de que essa permanência não pode se apoiar em nada senão no seu próprio desejo de permanência é um desafio aberto. Um luta constante.

Entre um e outro, pode-se recorrer novamente a uma ideia, já citada aqui, do psicanalista Jurandir Freire Costa, em seu livro Sem fraude nem favor: estudos sobre o amor romântico: “Sem amor estamos amputados de nossa melhor parte. A vida pode até ser mais tranquila e livre  de dores quando não amamos. Mas trata-se de uma paz de cinzas”.

Andréa Pachá sabe – e mostra muito bem em Segredo de Justiça – que se pode buscar uma vida mais feliz e mais justa, como lembra Janine Ribeiro, mas nunca uma vida plenamente feliz e justa. Sempre a pequenos passos. Com seus sabores e dissabores inevitáveis.

Para ler mais sobre o tema na coluna:

Aprenda a amar como os franceses

Os homens ainda podem sentir? 

Solução de um filósofo contra o fracasso do casamento: o “amor suave”

Tem um amor não correspondido? Escreva um livro

 

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terça-feira, 18 de novembro de 2014 Jornalismo, Literatura | 10:02

Em “Nem a morte nos separa”, jornalista retrata a luta do seu filho contra o câncer

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Num dia você está no paraíso ao lado de seu filho de 21 anos. No outro, mergulha nas sombras, de mãos atadas, sem poder salvar-lhe a vida. O que fazer diante do desespero aterrador frente ao sofrimento do garoto? No livro Nem a morte nos separa, o jornalista Ricardo Gonzalez relata a experiência do calvário vivido ao lado do filho – dez meses entre a descoberta do câncer, as errâncias médicas, o doloroso tratamento e a morte de Rafael, um soberbo garoto de 21 anos que encarou a doença com a maturidade e a racionalidade de poucos. Gonzalez lança e autografa seu livro hoje, terça-feira, na livraria Argumento, do Leblon, zona sul do Rio, a partir das 18h.

Nem a morte nos separa Ricardo Gonzalez Editora Mauad 232 páginas, R$ 54

Nem a morte nos separa
Ricardo Gonzalez
Editora Mauad
232 páginas, R$ 54

Um dos mais talentosos e éticos jornalistas esportivos do País, com passagem pelas principais redações brasileiras (entre as quais O Globo, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo e O Dia), Ricardo Gonzalez é hoje editor de texto do canal SporTV. Boa praça, ele consegue exibir simultaneamente a altivez aguerrida de um espanhol e a emotividade esparramada e sensível de um brasileiro. E o faz com galhardia e beleza tanto numa redação, onde colecionou uma pletora de amigos, quanto no livro que acaba de lançar. Das duas formas, tocante.

Com orelha assinada por Lucinha Araújo, a incansável mãe de Cazuza, Nem a morte nos separa é um livro a ser lido com o coração na mão. São “bytes de dor”, na feliz expressão com que Lucinha encerra seu texto de apresentação do livro, capazes de amolecer os leitores mais empedernidos, pais presentes ou futuros. Lucinha lembra:

“Existem aqueles que se trancam dentro da dor, como João meu marido fez, e os que vasculham os escombros à procura dos vestígios de um futuro que se foi. Encontrei no relato de Ricardo Gonzalez a mesma perplexidade, dor, desespero e incredulidade com os quais convivo. Ele descreve como seu mundo foi ruindo como um terremoto. O medo inicial, o momento em que tudo parece parar e tentamos fazer um balanço dos estragos e, quando nos damos contato, a casa cai sobre nossa cabeça. Os sintomas, as idas a vários médicos que viram num jovem de 21 anos gânglios nada preocupantes, a falta de diagnóstico, o dia em que encontrou o filho numa emergência médica sentado numa cadeira de rodas, o diagnóstico de câncer e a perda.”

A saudade

A perda – essa é profunda, e Gonzalez não teme retratá-la em seu sentido mais pleno nas 232 páginas que compõem o livro. Impossível não recordar a máxima eternizada por Chico Buarque na música “Pedaço de mim”, em que ele oferece talvez a definição mais precisa da palavra saudade – curiosamente esta palavra que só existe na língua portuguesa (Gonzalez tem origem espanhola). “A saudade”, escreveu Chico, “é arrumar o quarto do filho que já morreu”.

Rafael, o filho do jornalista, morreu de câncer linfático, aos 21 anos de idade, em 2010. É um câncer que ataca brutalmente o sistema imunológico do paciente. Como lembra o autor, trata-se de uma doença perversamente democrática: não escolhe endereço, nem classe social, cor, gênero ou idade. Em várias passagens do livro, o autor e pai revela sua perplexidade e inconformismo com a iminência da morte do filho tão jovem, com uma vida inteira para ser vivida.

Hoje deve passar-lhe pela cabeça outro verso, de Fernando Pessoa, que se refere a uma “saudade imensa de um futuro melhor”. A “saudade do futuro” deve ser mais dolorosa quando o futuro era mais futuro, sobretudo quando pai e filho exibiam um amor e uma amizade especiais, o tipo de dupla que se comunica até mesmo sem palavras, em gestos entregues num “amor infinito”, como define o autor.

Amor infinito

Não é filosofia paterna barata, convém esclarecer. Um dos maiores filósofos da atualidade, o francês Luc Ferry, enxerga esse tipo de entrega como um novo humanismo para o século XXI, dando ao amor um sentido central na existência. Segundo ele, muitos homens já sacrificaram suas vidas em guerras em nome de Deus, da nação, da revolução, da liberdade. Mas poucos morreriam hoje – pelo menos no mundo Ocidental – por Deus, pela pátria ou pela democracia. São ideais que no passado deram sentido à vida mas que hoje estão em declínio. Ainda é possível, porém, morrer por alguém que se ama.

Pergunte a um pai ou uma mãe verdadeiramente ligado a um filho ou uma filha se preferiam estar no seu lugar na hora do encontro com a morte.

Não por outra razão, talvez, Gonzalez escreveu o livro com dois veios. De um lado, como uma homenagem a Rafael; de outro, como um grito de alerta a outros pais. Como quem diz: amem seus filhos o máximo que possam. Entreguem-se. Antecipem-se à dor deles. Pois o fim de tudo pode estar no minuto seguinte.

Travessia

Nem a morte nos separa é um livro tocante, mas há passagens difíceis de atravessar. Chora-se junto com seus protagonistas. Como no momento em que os pais, desesperados, são consolados pelo filho doente e racional.

Choca-se e se revolta também, ao acompanhar a incrível passagem em que um residente do “hospital cinzento” – como a família chama o hospital – é escalado para informar mãe e filho da desistência de prosseguir adiante no tratamento quimioterápico.

Emociona-se e chega-se à torcida inútil pela cura, quando vão a São Paulo para uma derradeira tentativa junto a um médico competente e arrogante.

Desaba-se no momento da partida.

Exaure-se.

E se você tiver um filho, interrompa o quanto antes a leitura – na dúvida, para aproveitar sua companhia mais um pouco antes de voltar ao trabalho. Afinal, como o livro de Ricardo Gonzalez nos mostra, o tempo, assim como a saudade e o amor, podem ser encantadores, mas às vezes revelam-se angustiantes.

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sábado, 18 de outubro de 2014 Literatura | 11:31

“A casa cai”, de Marcelo Backes”, traz histórias de amor, urbanização e ruínas

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O cenário: Rio de Janeiro. Um apartamento vai passar por uma reforma ambiciosa e, para isso, precisa ser praticamente destruído antes de renascer. Na cidade, existem obras por toda parte, mas nem todos os edifícios resistem ao tempo. Dentro e fora desses lares, pessoas estão sempre começando e rompendo relacionamentos. Cartas podem ajudar a reconstruir o passado mas também a destruir alguns sentimentos e imagens formadas.

A casa cai Marcelo Backes Companhia das Letras 432 páginas, R$ 56

A casa cai
Marcelo Backes
Companhia das Letras
432 páginas, R$ 56

Essas construções e desconstruções permeiam A casa cai, ficção do escritor Marcelo Backes, recém-lançado pela Companhia das Letras. Ao tratar de temas da vida privada, o autor faz também um paralelo com a urbanização do Rio de Janeiro, trazendo à tona alguns pontos delicados dessa história.

“Enquanto uma casa é levantada, uma alma vai desmoronando”, diz o escritor em entrevista à coluna. O ficcionista Backes é também um dos mais respeitados tradutores do Brasil. Ainda professor de literatura dos mais competentes, verteu para o português obras de clássicos da literatura em língua alemã. Entre eles, Kafka, Goethe e Schiller.

Na zona sul do Rio

O personagem principal de A casa cai é o mesmo seminarista do livro anterior de Backes, O último minuto, publicado em 2013. Neste, o jovem missionário conta a história de um gaúcho na prisão. Em A casa cai, já fora do seminário, o personagem que narrava agora tem sua própria história contada. “É fundamental dizer que os dois romances são completamente independentes um do outro, histórias acabadas em si e fechadas sobre si mesmas”, esclarece.

O ponto de partida é o recebimento da herança paterna pelo ex-seminarista. Este acaba percebendo que, além das posses, a herança inclui uma série de revelações sobre o passado do pai, que permaneceram ocultas por muito tempo.

A história foge do ambiente sofisticado na zona sul do Rio de Janeiro para fazer passagens pela favela e por anos de história de destruição de comunidades pobres que deram lugar a novos e luxuosos condomínios.

Há também passagens por outras partes do Brasil (idas ao Rio Grande do Sul), por outros países (uma viagem à Alemanha e outra à Rússia) e pelo mundo das artes. Sempre construindo e desconstruindo uma teia delicada de relações pessoais.

A seguir, Marcelo Backes fala sobre seu novo livro.

* * *

O livro anterior foi concebido para ter uma continuação ou isso aconteceu depois? Não pensei em continuação enquanto estava escrevendo. Em determinado momento, já depois de terminado O último minuto, vi que seria interessante envolver o narrador daquele romance em uma história que eu já queria contar há muito tempo. O pai do seminarista inominado tinha estofo para ser um dos protagonistas da eliminação das favelas horizontais da Zona Sul do Rio de Janeiro e o próprio seminarista, já longe da batina, ainda mais estofo para meter os pés pelas mãos ao tentar segurar as rédeas da vida real. E assim, enquanto uma casa é levantada, uma alma vai desmoronando.

E como surgiu essa história? A casa cai surgiu da ideia de contar uma relação que vai desmoronando enquanto uma casa vai sendo construída , mostrando no pano de fundo como o Brasil e sobretudo o Rio de Janeiro foram erguidos. No âmbito público eu encaixei uma história que sempre me pareceu paradigmática: a da construção do Rio de Janeiro – e as duas histórias funcionam como espelho uma da outra, sem contar que na primeira é o filho que está envolvido, na segunda o pai, e que o próprio filho vai descobrindo aos poucos, ao abrir o cofre cheio de fantasmas do pai morto.

Marcelo Backes: "Há personagens reais interagindo com personagens ficcionais, envolvidos numa história de amor e desamor". Fotos: Divulgação

O escritor e tradutor Marcelo Backes. Foto: Divulgação

Qual foi a transformação pela qual o personagem principal de A casa cai passou desde O último minuto” Antes de mais nada, é fundamental dizer que os dois romances são completamente independentes um do outro, histórias acabadas em si e fechadas sobre si mesmas. É apenas circunstancial o fato de o seminarista que contou a vida terrível de João, o Vermelho, em “O último minuto”, agora contar a sua própria vida, mostrar como lidou com a morte de seu pai, com a obrigação de pela primeira vez, e isso já bem depois dos vinte anos, encarar a vida como ela é, ele que sempre viveu protegido no ventre da família e depois no seio de um seminário.

De que forma as duas histórias, a particular e a do Rio de Janeiro, se relacionam? O construtor e narrador do romance é um homem que fugiu da vida a vida inteira e de repente perde o pai, com quem nunca conseguiu se entender direito. E, sem nem mesmo saber como o mundo funciona, recebe uma herança vultosa, mas pantanosa, com a qual é obrigado a lidar. Ao mesmo tempo, esse homem constrói uma casa pra sua mulher. Se quisesse, ele poderia ter escolhido um apartamento na orla do Leblon, mas não, ele prefere a Selva de Pedra, erguida sobre os destroços daquilo que um dia foi a Praia do Pinto, uma das favelas aniquiladas. O homem reforma a casa escolhida e aos poucos descobre que o pai construiu a cidade, e que sem derramar sangue talvez não seja possível despejar argamassa num lugar que um dia foi tão naturalmente idílico.

O leitor só conhece o personagem central depois de folhear muitos capítulos. Como foi desenvolver esse personagem tão incógnito? Eu gosto de apresentar meus personagens aos poucos, de desnudá-los mais pelo comportamento e por aquilo que dizem do que por uma tosca frase de narrador que lhes dê o estofo físico e metafísico em duas pinceladas e meia. Na vida real, também somos mosaicos inconstantes, construídos pelos fragmentos que nós mesmos e os outros vão acrescentando.

E os demais personagens, como foi o processo de construção? O romance passeia por uma sociedade bem ampla do Rio de Janeiro, situada sobretudo na abastada Zona Sul e envolvida com a construção da cidade e o mundo das artes. Há personagens reais interagindo com personagens ficcionais, envolvidos numa história de amor e desamor, construção e desconstrução, edificações e ruínas, escombros e caprichos.

Qual o papel do círculo de artistas do Rio de Janeiro no desenrolar da história? Eu acho o universo das artes plásticas contemporâneas uma metáfora perfeita para entender o funcionamento do mundo contemporâneo. É só por isso o círculo de artistas, que é também paulista, tem um papel tão importante em A casa cai. De um lado há a tentativa de entender por que um metro quadrado na orla do Leblon pode custar R$ 80 mil, de outro a tela de uma garota de vinte e poucos anos que pinta a óleo e faz sua primeira exposição pode custar 25 mil, enquanto determinadas ações da Bolsa são pulverizadas em dois dias.

Ao escrever o livro, você chegou a ter alguma surpresa com os caminhos que a narrativa ia tomando? Eu sou um daqueles escritores que antes de começar esboça uma história mais ou menos básica, depois faz anotações, às vezes ao longo de anos, e de repente senta para escrever. E aí, eu viro o cavalo do diabo, ou o pégasus de uma demônia chamada musa, não sei, e não vejo mais nada no mundo à minha volta, entro num processo de imersão total, geralmente desenvolvido nuclearmente na Alemanha, onde fico pelo menos 45 dias durante o inverno. E tudo pode mudar, ganhar desenvolvimentos inesperados, os personagens literalmente fazem coisas que eu não imaginava.

O espaço principal da narrativa de A casa cai é o Rio de Janeiro, mas há passagens pelo Rio Grande do Sul, Moscou e Halberstadt, uma pequena cidade alemã. O que motivou essas escolhas geográficas? Meus personagens sempre foram muito cosmopolitas. Meu narrador carioca visita o Rio Grande do Sul apenas por razões afetivas. E se Moscou e Halberstadt, na Alemanha, aparecem, é porque são focos de metáforas interessantes no desenvolvimento do personagem, que referendam buscas de origem, tempos perdidos ou desideratos artísticos eternos.

Você já tem planos para novos livros? Tenho sim, eu sempre estou escrevendo. Fiz uma viagem maravilhosa de Pequim a Moscou recentemente, atravessando a Mongólia e a Sibéria num trem de luxo, e aconteceram coisas estrondosas nessa viagem, sem contar as que imaginei que aconteceram. E ainda repetirei essa viagem. Talvez desse um bom romance pícaro chamado, por exemplo, Os estrambóticos baques de Marcelo Polo numa volta ao mundo em pouco mais de oito dias e mil e uma noites.

 

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domingo, 4 de maio de 2014 Filosofia do cotidiano, Literatura | 13:43

Tem um amor não correspondido? Escreva um livro

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A garota de Ipanema, moça cheia de graça e do corpo dourado, é aquela que vem e que passa, não a que fica. Ela é um dos exemplos populares, vindo da música, para um dilema filosófico que atormenta o ser humano desde os antigos: sonhamos com o que nos falta; idealizamos o que não temos ou o que desejamos. A máxima vale não só para o amor, mas para qualquer campo da vida humana. Afinal, o exílio engrandece a pátria. Os pobres não riem da riqueza dos ricos. O cárcere amplifica a força e a beleza da liberdade. O paraíso é a aspiração máxima dos que agonizam no inferno.

Procurando Mônica - O maior caso de amor de Rio das Flores José Trajano Editora Paralela 112 páginas; R$ 19,90

Procurando Mônica – O maior caso de amor de Rio das Flores
José Trajano
Editora Paralela
112 páginas; R$ 19,90

O jornalista e agora também escritor profissional José Trajano não filosofa sobre a existência, mas a história que protagonizou e transformou em livro é uma bela mostra da filosofia do amor. Ou da paixão (ou ainda da paixão amorosa). Pensata chega com atraso a ele (a editora Paralela levou-o às livrarias há dois meses, ou mais), mas eis aqui o reparo ainda que tardio: Procurando Mônica é uma deliciosa, bem humorada, doce e trágica história de uma paixão impossível – um relato real mas com doses de ficção.

A Mônica dessa história é uma paixão mal-resolvida de adolescência no interior fluminense, época e local em que Zezinho, como era chamado, nem sonhava com o jornalismo esportivo que o tornaria conhecido. Paixão mal-resolvida, no fim das contas, pode soar como um pleonasmo. Como diria outro jornalista, Alvaro Costa e Silva, que não é o Xico Sá mas entende do assunto, se é paixão é naturalmente mal-resolvida.

Assim caminha a paixão

Trajano – ou melhor, Zezinho – mal largara as calças curtas para descobrir a paixão nas festas e nos bares de Rio das Flores, onde passava o verão com a família. A pequena cidade já havia sido palco de sua infância, nas férias passadas na fazenda Forquilha, aonde seus pais o levavam desde que era um bebê.

A entrada de Mônica no salão do Clube Recreativo 17 de Março mudaria o cenário da adolescência de Zezinho. Era o Carnaval de 1963. Ele tinha 17 anos. Ela, 13.

Estonteante, fantasiada de pirata, Mônica pisava no salão com a convicção tipicamente feminina de quem sabe que está bagunçando a cabeça masculina. Zezinho passou a noite escorado em uma pilastra, olhando de longe, fazendo o tipo solitário, testando a tática do desprezo – especialidade que costuma dar errado, mas ele fingia que não estava nem aí, como se estivesse apaixonado por alguém ausente, cópia malfeita de James Dean arrastando a asa para Elizabeth Taylor em Assim caminha a humanidade.

“A folia terminou com o dia clareando, e Mônica foi embora antes do fim, para decepção de quem ainda enxergava alguma coisa. Nenhum de nós falou com ela além de alguns minutos. No dia seguinte haveria mais…”

Nas manhãs seguintes, descreve o narrador-Trajano, o programa era ir à piscina do Patronato de Menores. E foi ali, vendo-a à beira da piscina de água barrenta, que ele se apaixonou definitiva e loucamente por Mônica. “Não que Mônica tivesse um corpo escultural. Pelo contrário. Tinha uma discreta bunda, os seios pequenininhos e as coxas um pouco finas. Sua beleza, seu mistério, estava no rosto, mais precisamente na boca, que formava um desenho único, especial. Quando sorria, os lábios ficavam como uma canoa, como uma rede esticada na varanda. Uma luz forte surgia de seus lábios e me hipnotizava”.

(A paixão não nasce de explicações racionais, tampouco de obviedades físicas ou decoro romântico; a paixão surge do inexplicável, sabemos.)

Os anos seguintes sedimentaram a paixão de Zezinho fincada no peito do apaixonado sem que houvesse nenhuma reciprocidade aparente. Descreve-se no livro:

“Durante anos a fio, a população rio-florense – e cada paralelepípedo da avenida Getúlio Vargas, além da cachorrada vadia das ruas, como diria Nelson Rodrigues – sabia de cor e salteado de minha paixão. Eu esperava dela um aviso, um piscar de olhos, um gesto, uma mensagem, um assobio, um ‘oi’ diferente. Nada!”

Como todo amor impossível, Mônica fez gato e sapato de Zezinho. Ignorou-lhe a presença em todas as férias seguintes, não deu bola nem sequer quando ele quase se afogou para encontrá-la.

A frustração definitiva

O ápice da narrativa – e da paixão de Zezinho – deu-se no fim de 1967, ele já um jornalista de redação. Ali o moço apaixonado soube que Mônica passaria dois meses em um cruzeiro pela Europa. Trajano não fraquejou: pegou empréstimo no banco, conseguiu folga no Jornal do Brasil e comprou sua passagem.

Não são muitos os apaixonados que, conduzidos por uma paixão, correriam o mundo para localizá-la e tentar um reencontro maluco. Mas Trajano é um deles.

Era chegada sua hora? Talvez sim, se não aparecesse na história Cadu, rival que conquistou Mônica. Depois do desembarque, Trajano a perdeu de vista.

No ano passado, Trajano resolveu que era hora de registrar a história do amor impossível em livro. Uma história cujos detalhes os amigos ouviam repetidamente há 40 anos passaria ao crivo do público, e o resultado está em Procurando Mônica – o maior caso de amor de Rio das Flores.

Esperto, o autor usa recursos típicos de quem deseja enganar o leitor: sua narrativa contém elementos que deixam o leitor sem saber tratar-se de algo efetivamente real ou se há detalhes puramente ficcionais. Como ficção ou como real, o resultado é adorável.

Com o livro quase concluído, Trajano descobriu uma pista do paradeiro de Mônica – e incrivelmente a história acabou ganhando mais um capítulo. Final feliz com o reencontro de ambos? Não convém contar aqui.

Mas a (re)visita à história deixa claro outro componente inevitável da paixão amorosa: a explicitação pública do caso  constitui o retrato não só do alvo de uma paixão (Mônica, claro), mas também do alvo que o apaixonado fantasiou por todos esses anos.

Um desejo que se apóia só em si mesmo

Fantasia que se manteve viva e em corrida paralela ao mundo “real” de Trajano.

Como se sabe, ele se tornou um dos principais comentaristas esportivos do País. Casou-se duas vezes e teve filhos. A propósito, num de seus aforismos, Nietzsche diz que “o casamento foi inventado para os seres humanos medianos, que não são aptos nem para o grande amor nem para a grande amizade, portanto para a maioria. Mas também para aqueles, raríssimos, que são aptos tanto para o grande amor quanto para a grande amizade”.

Durante muito tempo, de uma maneira que remonta às mais antigas relações entre a ideia de amor e a de casamento, o princípio da paixão se opõe ao do matrimônio, como o da estabilidade da órbita dos planetas se opõe ao desgarramento e à ruptura. Foi só a partir do século XVIII que se sancionou, jurídica e religiosamente, o casamento por amor.

A nossa herança ocidental contém a expectativa de conciliação entre a singularidade errática do amor-paixão com a estabilidade duradoura do casamento. Mas, como afirmou José Miguel Wisnik num texto de longa data sobre a paixão, o acorde entre o desejo de permanência (onde se inscreve o amor) e o fato de que essa permanência não pode se apoiar em nada senão no seu próprio desejo de permanência é um desafio aberto. Uma luta constante, mutável, irracional.

Gilberto Gil tem uma letra apropriada sobre isso, Drão, na qual se canta “[…] não pense na separação/ o verdadeiro amor é vão/ estende-se infinito/ imenso monólito/ nossa arquitetura/ quem poderá fazer/ aquele amor morrer/ nossa caminhadora/ dura caminhada/ pela estrada escura”. É a trama mortal do amor, embevecida numa tradição de alguém imerso na falta, no aniquilamento que o amor contém: “Quem poderá fazer aquele amor morrer/ se o amor é como um grão/ morre e nasce trigo/ vive e morre pão”.

 

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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014 Cinema, Filosofia, Psicanálise | 08:06

Do filme “Ela” aos livros sobre o amor: a questão não é se as máquinas pensam, mas se os homens ainda podem sentir

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“Nosso mundo está cada vez mais amável. No entanto, cada vez mais nos sentimos isolados”, disse o cineasta Spike Jonze, ao divulgar o seu novo filme: Ela, a tocante, alegre e simultaneamente triste história de amor de um escritor solitário por um sistema operacional.

Samantha, o sistema-operacional-objeto-do-amor, é uma espécie de tábua da salvação para Theodore, recém-separado de sua mulher. Faz-lhe companhia, organiza sua vida, interessa-se por ele com aparente sinceridade e fala com a voz encantadoramente sexy de Scarlett Johansson.

Sim, Spike Jonze diz, com delicadeza e inquietação: estamos mais amáveis, porém mais isolados. “Apesar de tudo o que precisa”, afirmou, “nossa sociedade sente-se cada vez mais só”.

Apesar de a história se passar numa Los Angeles do futuro, Ela supostamente espelha nosso tempo: tenta nos mostrar que a tecnologia parece nos conectar, mas nos afasta, numa força centrífuga e centrípeta, efeito similar ao que a globalização, já há muitos anos, deu à cultura, às relações sociais e econômicas, aos sentimentos. O protagonista do filme mal enxerga, por exemplo, a amiga que mora no apartamento vizinho (que, a propósito, também se apaixona por um sistema operacional).

Joaquin Phoenix no filme "Ela": o escritor solitário ouve (e ama) Samantha, um sistema operacional

Joaquin Phoenix no filme “Ela”: o escritor se apaixona por um OS e parece mostrar o quanto a tecnologia nos aproxima e nos deixa mais solitários

Como no filme, protagonizamos um tempo em que muita coisa parece simultaneamente familiar e estranho. Uma sensibilidade difusa, geradora tanto de frustração quanto de autocontemplação ou autoconhecimento. Uma crescente e preocupante incapacidade para lidar com a realidade, em contraposição ao auge da simplificação das relações virtuais.

Um tempo sem tempo, em que a pressa, a velocidade e a instantaneidade pedem, em contraponto, mais calma, mais freio, mais simplicidade. Menos hipérboles e mais minimalismos. Uma escala modesta e serena, como o ritmo, a música e as não-ações exibidas por Spike Jonze. Como escreveu Manohla Diggs no New York Times, Ela é um filme que se deseja tocar e acariciar.

Mas a grande questão em Ela talvez seja não se as máquinas podem pensar, como defenderam muitos críticos ao analisar o filme, mas se os seres humanos ainda podem sentir.

O amor sagrado

O filósofo francês Luc Ferry publicou no fim do ano passado, pela Difel, o livro Do amor – uma conversa com o escritor e amigo Claude Capelier e espécie de continuidade de um outro livro seu de bastante sucesso, A revolução no amor (Objetiva). Em ambos, Ferry mostra como atualmente o amor exibe um quê de sagrado. Um sagrado não no sentido de oposto do profano, mas um princípio pelo qual daríamos a vida.

DoAmor_Luc FerryMuitos homens, segundo ele, já sacrificaram suas vidas em guerras em nome de Deus, da nação, da revolução, da liberdade. Mas poucos morreriam hoje, pelo menos no mundo ocidental, por Deus, pela pátria ou pela democracia. São ideais que no passado deram sentido à vida mas que hoje estão em declínio. Mas ainda é possível morrer por alguém que se ama.

A passagem do casamento tradicional para o moderno deu ao amor um sentido central na existência, lembra Ferry. Uma centralidade capaz de transformar nossas vidas sem que percebamos. Ferry o enxerga assim como um novo humanismo no século XXI: trata-se de preparar o futuro para quem amamos.

Juntos e sozinhos

O futuro, porém, revela mais surpresas do que supõe nosso projeto de existência. Nos anos 90, a psicóloga e pesquisadora do MIT Sherry Turkle escrevia com otimismo e entusiasmo sobre o mundo da tecnologia: “Os computadores são o novo palco de nossas fantasias, erotismo e intelectualidade. Estamos usando a vida em rede para nos adaptar a novas maneiras de pensar relacionamento, sexualidade, política e identidade”.

Em 2011, publicou o livro “Alone Together – Why we expect more from technology and less from each other” (algo como Juntos sozinhos – Por que esperamos mais da tecnologia e menos de cada um de nós). Para ela, no mundo virtual as relações são menos profundas e até ilusórias, e as múltiplas amizades das redes sociais são, na verdade, uma redução da amizade.

Para ela, a conexão constante – aquela que nos leva a postar, compartilhar, enviar e receber e-mails e sms enquanto assistimos a uma aula ou participamos de uma reunião – resulta numa confusão individual sobre intimidade e solidão.

A psicóloga do MIT Sherry Turkle em palestra no TED: "Quem não aprende a ficar sozinho só saberá se sentir abandonado”

Sherry Turkle: “Quem não aprende a ficar sozinho só saberá se sentir abandonado”

Numa palestra famosa e bastante compartilhada nas redes sociais, dada por ela no TED Talks, em fevereiro de 2012, Turkle retomou o tema para dizer que esse modo de usar a tecnologia pode acabar “nos escondendo uns dos outros”. Mais do que isso, os dispositivos móveis e as personalidades online alimentam o que ela chamou de “três fantasias gratificantes”:

1. A fantasia de que podemos concentrar nossa atenção, onde quer que estejamos e com quem estejamos;

2. A fantasia de que seremos sempre ouvidos;

3. A fantasia de que nunca precisaremos ficar sozinhos.

A última fantasia altera profundamente nossa psique, afirma Turkle, pois nos deixa ansiosos e inquietos ao menor sinal de solidão. “Estar sozinho é um problema a ser resolvido”, diz ela, defendendo o aprendizado desde cedo a ficarmos sozinhos.“Quem não aprende a ficar sozinho só saberá se sentir abandonado”, afirma. A conexão, neste caso, seria mais sintoma do que cura, expressando um problema explícito: ela muda a maneira como as pessoas pensam de si mesmas. É como se pensássemos: eu compartilho, portanto existo.

Ao mesmo tempo, Turkle intui que a tecnologia nos seduz porque responde a nossas fraquezas. Em outras palavras: não gostamos de estar sozinhos, mas temos medo da intimidade; com isso, a tecnologia permite a ilusão de uma companhia sem as exigências excessivas da amizade. Robôs, siris ou sistemas operacionais como a Samantha de Ela se tornariam assim os companheiros de nossos sonhos.

A paixão amorosa em tempos de coma

Num estudo publicado recentemente na revista Insight-Inteligência, a psicanalista Marcia Neder oferece uma boa reflexão que talvez ajude os Theodores existentes no presente. A “paixão amorosa em tempos de coma” recupera a lição deixada pelo psicanalista Erich Fromm em seu livro A arte de amar. Para ele, o amor é uma reposta a uma necessidade fundamental do humano: a de “superar seu estado de separação, de deixar a prisão da sua solidão”. O amor, reforça Neder, é a solução que o homem dá para esse problema que é dele em qualquer tempo e lugar: amando ele supera sua separação do outro.

Em síntese, superamos a solidão e aproximamo-nos do outro. A intimidade com o outro, no entanto, não é sinônimo de felicidade; é também ameaçadora, e tão angustiante quanto o medo da separação. Ou seja, o amor apaixonado não é só alegria, da mesma maneira que a sexualidade é também fonte de angústia.

Padecemos com nossa ambivalência diante do amor apaixonado: desejamos amar apaixonadamente, ao mesmo tempo em que tememos essa fusão com o outro porque significa nossa dissolução como indivíduos; queremos então o contrário, o afastamento.

O problema é que nestes “tempos de coma” não queremos sofrer em hipótese alguma. Vivemos numa cultura analgésica, anestésica e mimada (definições de psicanalistas diversos), que não suporta a dor. Parecemos ignorar que o pacote do amor apaixonado necessariamente inclui dores e delícias, sabido e saboreado por seres imperfeitos e, por que não, loucos.

Cena de "Annie Hall": o amor é para os neuróticos e nervosos

Cena de “Annie Hall”: o amor é para os neuróticos e nervosos

Como lembra Marcia Neder, no filme Annie Hall Woody Allen encerra seu clássico romântico com uma piada-metáfora nos relacionamentos a uma resposta à pergunta “por que nós amamos?”:

“Percebi a pessoa incrível que ela é, e como era bom poder conhecê-la. E pensei na velha piada: um cara vai ao psiquiatra e diz: ‘doutor, meu irmão é louco. Ele acha que é uma galinha.’ E o doutor diz: ‘Por que não o trata?’ Ele responde: ‘Deveria, mas preciso dos ovos’.”Conclui: “É assim que eu vejo os relacionamentos, eles são totalmente irracionais, loucos e absurdos. Mas nós continuamos tentando porque precisamos dos ovos.”

Somos todos virtuais

Se você é adepto da loucura dos apaixonados, constatará que a oposição entre real e virtual revela-se tão simplória quanto a que existe entre normal e patológico, ou entre infantil e adulto (algo que Freud tanto apreciou). Claro que há uma diferença entre as duas coisas, mas uma diferença não significa separação nem oposição. Como afirma Marcia Neder em seu artigo, a loucura ri das distinções mais evidentes, das separações cartesianas entre o “eu” e o “outro” ou entre fantasia e realidade – logo, entre o real e o virtual.

Ou seja, em qualquer paixão amorosa ou qualquer relacionamento de modo geral, já estaremos impregnados de nós mesmos e de nossas fantasias. Portanto, já significa a presença forte de virtualidade no jogo amoroso. Daí porque as críticas ao modo de se relacionar por meio da tecnologia terminam por ter um alcance limitado – que nos perdoe o sociólogo Zygmunt Bauman e sua série sobre os tempos líquidos.

Como também parece equivocada a suposição nostálgica de Turkle de que os amores virtuais seriam tristes substitutos dos amores reais – como já sublinhou Contardo Calligaris em crônica recente sobre o filme Ela. (No baile de máscaras das relações amorosas, ele escreveu, é difícil saber a diferença entre parceiros que se falam e parceiros que se teclam).

Em síntese, todos nós somos virtuais, porque ambos somos tecidos por nossas fantasias inconscientes, nossas subjetividades. Eis o amor em tempos de coma: a paixão amorosa, como lembra Neder, é um terremoto que arrebenta os marcos da identidade dos amantes e derruba as fronteiras da individualidade. Essa intimidade provoca um intenso prazer e uma atordoante e paralisante angústia.

Daí porque, repita-se, a questão central no filme Ela e na reflexão contemporânea sobre o amor (como filosofia, como literatura ou como psicanálise) não é se as máquinas podem pensar. Mas se os humanos podem (ou querem) sentir.

 

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terça-feira, 17 de dezembro de 2013 Filosofia do cotidiano | 03:23

Solução de um filósofo contra o fracasso do casamento: “amor suave”

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Numa de suas frases incomparáveis, o dramaturgo irlandês Oscar Wilde disse: “Quando querem nos punir, os deuses atendem às nossas preces”. Muito tempo antes dele, filósofos como Platão e Pascal afirmaram o que depois seria repetido por Schopenhauer e Sartre: desejo é falta. “O que não temos, o que não somos, o que nos falta, eis os objetos do desejo e do amor”, escreveu Platão. Em outras palavras, se só desejamos o que não temos, nunca temos o que desejamos; tão logo um desejo seja satisfeito, já não há falta, e assim também já não há desejo.

Fracassou o casamento por amor?As citações acima parecem apropriadas para quem se interessar pela leitura do novo livro do filósofo francês Pascal Bruckner: Fracassou o casamento por amor?. Recém-lançado pela Difel, selo da editora Record, o livro parece ter um título saído dos códigos de autoajuda, mas é mais instigante. Um dos expoentes do grupo dos novos filósofos franceses, Bruckner busca aplacar as consequências geradas pelo ideal platônico – afinal, se Platão estivesse certo, a vida oscilaria para todos num pêndulo cruel que seguiria invariavelmente do desejo à frustração, da esperança ao sofrimento. (E não são poucos, infelizmente, a padecer dessa agonia de existência.)

A um problema conhecido e objetivo da vida prática moderna – o aumento progressivo do número de divórcios e a queda sistemática dos casamentos – Bruckner acrescenta um problema filosófico: os limites da idealização (no caso, os limites da união hiperidealizada como fusão amorosa). Da soma resulta uma saída de natureza igualmente filosófica, mesmo para aqueles que nunca leram Pascal ou para quem Platão não passa de uma superficial referência em torno de um certo “amor platônico” – aquele distante, idealizado e dificilmente realizado.

Amor total ou separação? Nenhum dos dois

A saída para esse problema, sugere Bruckner, é uma espécie de “amor suave”, em que o casal aceite a ideia de companheirismo, tolerância e respeito mútuo, uma relação da qual não se avance muito além de valores como amizade, afinidades e compreensão. Para bom entendedor: menos paixão, menos sexo, menos intensidade. Estes não passariam de “imperativos categóricos” do casamento, uma profecia autoanunciada para o fracasso.

Eis o estranho paradoxo de nosso tempo: há muito tempo já foi vencida a tarefa de valorizar os sentimentos, pôr abaixo o tabu da virgindade e desdramatizar o divórcio; a adesão às paixões tornou-se gesto comum entre nós; a liberdade amorosa exerce seu poder de sedução sobre boa parte das sociedades tradicionais (como as dos países muçulmanos ou da Índia e China); gays e lésbicas desejam obter direito ao casamento; justamente no momento em que tudo isso é fato, o casamento passa por uma crise de legitimidade.

Volta ao passado? Retorno ao casamento clássico, aquele tão repetidamente atacado por limitar o casal a uma vida de interesse e não de amor, por impor a resignação, a repulsa ou a reclusão conjugal? Quase isso, propõe Bruckner. Durante tanto tempo lutou-se contra a ideia, cristalizada no modelo clássico de casamento, de que o amor era algo proibido e a que se deveria combater. O problema, diz o filósofo, é que do amor proibido seguiu-se equivocadamente para o amor obrigatório. Um grande sonho se transformou em falência da instituição que ele deveria proteger.

O amor ideal é uma divindade que traz sofrimento

“Por que ele [o amor ideal] parece tão difícil de ser vivido nos dias de hoje?”, pergunta-se Bruckner, para responder em seguida: “Porque o veneramos como a uma divindade, por ter se tornado, assim como a felicidade, o alfa e o ômega das sociedades ocidentais”. (Em outro livro, publicado no Brasil como A euforia perpétua, Bruckner analisa e questiona o que chama “dever de felicidade”, a crítica ao culto e à obrigação de ser feliz como marca do Ocidente).

O filósofo acha que as pessoas hoje se imaginam infelizes por não serem felizes ou se preocupam por nunca protagonizar uma grande paixão. Para quem pensa assim, a paixão que não é louca não merece ser vivida. Confunde-se o amor e casamento, flexibilizando o primeiro e domesticando o último. Resultado: casamos menos e nos divorciamos mais. O que deveria gerar mais felicidade causa também aflição. “O amor triunfou no casamento antes de destruí-lo por dentro”, escreve Bruckner.

Para ele, a forma contemporânea do casamento combateu o modelo clássico que impunha às mulheres a infelicidade e a humilhação protagonizada por maridos despóticos, mas criou outros fragelos, sem se livrar dos antigos. Estabeleceu uma espécie de “tudo ou nada”: a busca de conciliar tudo, o sentimento e o erotismo, a educação das crianças e o êxito social, a efervescência e a permanência. (Sobre essa cruel exigência imposta aos casais, leia a instrutiva entrevista do psicanalista Contardo Calligaris ao iG).

“Os casais de hoje não morrem por egoísmo ou materialismo, morrem por um heroísmo fatal, uma ideia ampla demais de si mesmos”, escreve Bruckner. “Cada mulher se sente obrigada a ser, ao mesmo tempo mãe, puta, amiga e ‘ter atitude’; cada homem, pai, amante, marido e vencedor: pobre de quem não preencher essas condições”.

Amar demais é platonismo demente

Como numa filosofia de guerrilha, Bruckner chama de “platonismo demente” aqueles que amam o amor em demasia; para ele, significa amar mais o amor do que amar as pessoas propriamente. A vida de um casal, segundo o filósofo, tornou-se mais difícil desde que, de todas as suas funções, guardou-se apenas a da satisfação plena. “Por querer dar certo a qualquer preço, o casal se consome em ansiedades, teme a lei da entropia, a aridez das horas mortas. A menor queda de tensão é vivenciada como um fiasco, um descumprimento da promessa”.

Em síntese, espera-se volúpia demais no casamento, diz ele. Na acepção idealizada, o amor permanece como um fetiche inviolável, um tipo de liberdade forçada. Em resposta ao amor-paixão, mais breve e fugidio, Pascal Bruckner propõe procurar a felicidade possível a partir de uma coexistência harmoniosa. No lugar de êxtases estrondosos, regularidade e entusiasmo. Diante da possibilidade de exuberância e arrebatamento, opte-se pela indulgência e delicadeza, equilíbrio e ponderação.

Não pergunte sobre o amor para não sofrer ao amar

Convém prudência ler este feroz ataque ao amor, mesmo ao amor idealizado. Como qualquer debate em torno de temas complexos, deve-se ler com cautela as pregações de Bruckner. Ele não admite, mas é o que se pode chamar de um estoico. Os gregos antigos adeptos do estoicismo pregavam a virtude como algo suficiente para a felicidade; um sábio era imune aos infortúnios e ao sofrimento. A racionalidade, a harmonia e a indiferença seriam marcas de uma vida serena e, portanto, sábia e feliz. Sem escravizar-se pelas emoções e pelas paixões – em geral destrutivas, alertavam.

Houve muitos estoicos na história das ideias, mas não necessariamente tiveram razão. O que é a felicidade para eles? É não perguntar em que consiste a felicidade, porque existe na interrogação o princípio da infelicidade (John Stuart Mill). O que é a riqueza? É não desejar mais do que aquilo que se tem, conselho central dos clássicos, de Epicuro a Platão. O contrário não é apenas uma causa de infelicidade; a ambição desmedida da acumulação material é, como Baudelaire avisa, a raiz da vulgaridade.

No caso de Pascal Bruckner e seu livro sobre o fracasso do casamento por amor, o diagnóstico parece correto – todos se queixam de não conseguir satisfazer-se amorosamente apesar de o amor ser colocado “no topo da expectativa”. Mas recorro a duas outras citações para aplacar a intensidade da crítica de Bruckner (em seu diálogo O crítico como artista, Oscar Wilde – ele de novo – afirmava que para dizermos aquilo em que verdadeiramente acreditamos é preciso falar através de lábios alheios).

De José Miguel Wisnik, num ensaio publicado no livro O sentido das paixões, organizado há mais de 20 anos por Adauto Novaes, veio a pergunta: “É permitido dizer que o mundo é pobre para quem jamais foi doente o bastante para a paixão?”. E do psicanalista Jurandir Freire Costa, em seu livro Sem fraude nem favor: estudos sobre o amor romântico, surgiu a instigante ideia: “Sem amor estamos amputados de nossa melhor parte. A vida pode até ser mais tranquila e livre de dores quando não amamos. Mas trata-se de uma paz de cinzas”.

Eis um bom motivo para retomar o tema. Em outro artigo.

 

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sexta-feira, 29 de novembro de 2013 Literatura, Psicanálise, Sociedade | 13:02

Aprenda a amar como os franceses

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Recomendado em diferentes momentos por dois psicanalistas que entendem como poucos de análise e de cultura (Contardo Calligaris e Marcia Neder), devorei prazerosamente as 370 páginas do fantástico livro Como os franceses inventaram o amor: nove séculos de romance e paixão (editora Prumo). A autora, Marilyn Yalom, é uma norte-americana que pesquisa gêneros em Stanford, EUA, e especialista em literatura francesa. Para ela, a França é a pátria do amor; e os franceses, compositores do melhor e mais completo repertório amoroso.

Ao  rastrear o amour à la française, do romance do século XII até aqui, Yalom conclui: deveríamos aprender com eles. “Um francês ou uma francesa sem desejo é considerado alguém imperfeito, como uma pessoa desprovida de paladar ou olfato”, afirma, hiperbolicamente. “Há séculos os franceses se consideram mestres da arte de amar por meio de sua literatura, sua pintura, suas canções, seu cinema”.

Capa do livro "Como os franceses inventaram o amor", de Marilyn YalomO fato é que usamos expressões como rendez-vous, tête-à-tête e ménage à trois para aludir a intimidades com certo sabor francês – e já nem nos damos conta dessa linhagem. A palavra “galanteio” vem diretamente do francês. Outra palavra, amour, nem precisa de tradução, mesmo para aqueles de língua inglesa, que usam um termo tão diferente como love. Diferentemente dos pudicos americanos, diz Yalom, uma característica definidora do amor à la française é a sua “decidida ênfase no prazer sexual” – ela cita pesquisas que mostram tal cultivo mesmo entre os franceses mais velhos.

(Pelo menos se acreditarmos no senso comum dos brasileiros, esse apetite pela carne se repete igualmente do lado de baixo do Equador.)

Mas a aptidão linguística é o de menos. A grande lição francesa está no retrato deixado pelos seus artistas – por meio deles se conhece a literatura e a história do amor na França, com os segredos de alcova da realeza, os romances dos salões intelectuais do século XVIII ou os intrincados relacionamentos entre personalidades do século XX, como o de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Segundo o livro, as relações sociais e os papéis sexuais modificaram-se com o passar do tempo, mas sem que as regras da sociedade fossem capazes de domar os desejos e as ambições amorosas individuais.

Tudo começa na chamada Idade Média, com as ardentes histórias de Lancelote e Guinevere ou as de Tristão e Isolda, e outras lendas de mulheres divididas entre o marido e o amante. O amor ali é sempre representado como um fatum – um irresistível fado contra o qual é inútil se rebelar. Assim como se dá num inevitável triângulo amoroso: Tristão escolta Isolda, a futura esposa de seu tio, e se apaixona por ela. Lancelote venera seu rei Artur, mas se apaixona pela rainha. (Em geral, os poetas do amor cortês são chegados a amar damas casadas e frequentemente fiéis a seus senhores.)

Vistos com os olhos de hoje, triângulos amorosos são foco batido e pisado na literatura desde Madame Bovary e Ana Karênina, mas o adultério se tornou moda pela primeira vez na França do século XII – mesmo século, diga-se, em que transcorreu a verídica e trágica história de Abelardo e Heloísa.

Não que o “inventaram” do título do livro de Yalom deva ser levado ao pé da letra. O amor romântico existe desde que homens e mulheres são homens e mulheres. Exemplos?

A Bíblia descreve o intenso desejo do rei Davi por Betsabá, ou o amor de Isaac pela esposa Rebeca. As antigas tragédias gregas nos apresentaram Fedra, que ardia em desejo por seu enteado Hipólito, e Medeia, que matou os filhos por causa do violento ciúme do marido, Jasão. A poeta Safo suplicou a Afrodite reciprocidade no amor a uma jovem.

Ou quem esquece a arrebatadora paixão de Orfeu e seu amor impedido por Eurídice? E Platão? – o filósofo que louvou o amor de rapazes por homens velhos como algo natural. Também não se deve ignorar as lições de A arte de amar, de Ovídio.

A novidade francesa, Yalom argumenta, foi a explosão cultural que proclamou os direitos dos amantes de viver sua paixão, apesar de todas as dificuldades criadas pela sociedade e pela religião. Um novo espírito que defendeu a própria causa do amor.

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres francesas

A invenção francesa também ajudou a “feminizar” o amor. “A senhora [dama] ocupou lugar central na cena e, creio, desde então passou a comandar o foco das atenções”, escreve Yalom. A mulher emergiu simultaneamente como objeto do desejo masculino e sujeito do seu próprio desejo: “Os franceses nunca acreditaram que as mulheres fossem menos apaixonadas do que os homens” (acrescento: os franceses e os homens de alma feminina).

A propósito, num recente best-seller, Le conflit: la femme et la mère (“O conflito: a mulher e a mãe”), a feminista francesa Elizabeth Badinter afirma que as mulheres não devem deixar que a “tirania da maternidade” esmague o papel da esposa. Tragédia comum a muitos casais, que padecem na alegria de ter um filho e na “deserotização” do relacionamento.

Do amor cortês ao amor cômico de Molière ou ao amor trágico de Racine, a feminização francesa do amor contrasta com o antigo ideal másculo dos gregos – noves fora a criação de personagens femininas grandiosas, como Antígona e Medeia, entre autores  gregos.

Yalom prossegue sua viagem pela sedução e sentimento de autores como Rousseau; pelas cartas de amor de Julie de Lespinasse; pelo amor republicano de Elisabeth Le Bas e Madame Roland; pela saudade da mãe de Constant, Stendhal e Balzac; pelo amor entre os românticos, como George Stand e Alfred de Musset; pelo amor romântico esvaziado de Madame Bovary; pelo amor entre os homens representados por Verlaine, Rimbaud, Oscar Wilde e André Gide; pelo amor desesperado e neurótico de Proust; pelo amor lésbico de Colette e Gertrude Stein; pelos existencialistas apaixonados Simone de Beauvoir e Sartre; até – ufa! – o amor no século XXI.

Uma vida inteira para dar conta dessa literatura – ou, para quem tiver pressa, um curso de Pedro Paulo de Sena Madureira na Casa do Saber sobre civilização francesa.

O amor se aprende com a literatura?

Volto a Contardo Calligaris, que acaba de lançar Todos os reis estão nus, reunião de crônicas publicadas semanalmente no jornal “Folha de S.Paulo” e selecionadas por Rafael Coriello para a editora Três Estrelas. O amor é tema usual dos textos do psicanalista e escritor.

Para ele, o amor é absolutamente indissociável da literatura amorosa. Três razões explicam essa relação. Primeiro, por aprendermos a amar e a declarar o amor pela literatura. A segunda razão é porque o amor se tornou relevante em nossa vida à força de ser descrito e idealizado pela literatura. E terceiro, o amor, como sentimento, “é um efeito das palavras que o expressam”, ou seja, a literatura nos instiga a amar tanto quanto nossas próprias declarações amorosas.

Contardo Calligaris é um pouco desconfiado do assunto. Ou melhor, desconfia das palavras com as quais manifestamos os sentimentos e sua intensidade. “Nunca sei se a gente se declara apaixonado porque de fato ama ou se diz que está apaixonado pelo prazer de se apaixonar”, escreve numa das crônicas do livro, intitulada “Amores silenciosos”.

Diz ainda nunca saber se as declarações de amor são constatativas (“Digo que amo porque constato que amo”) ou performativas (“Acabo amando à força de dizer que amo”). Em outras palavras, “externamos os nossos sentimentos para vivê-los mais intensamente – para encontrar as lágrimas que, sem isso, não jorrariam, ou a alegria que sem isso talvez fosse menor”.

Numa variação dessa ideia, José Miguel Wisnik compôs “A serpente”, canção feita para uma montagem da peça de Nelson Rodrigues do mesmo nome. Na peça, a personagem afirma: “O homem deseja sem amor, a mulher deseja sem amar”. No que Wisnik transformou, com maior acerto, em “se o homem ama por amar/ e a mulher ama por amor/ quem vai poder nos abraçar/ compreender nossa dor?”.

É de apaixonar.

Um amor para mudar, ou mudando para amar

Em nossa vã esperança, que costuma recorrer ao céu e ao inferno para escapar das dores da vida ordinária, o amor pode significar um enorme alento. Como questiona Calligaris em outra crônica (“Amores e mudanças”): quando a vida está emperrada (o que não é raro), será que faz sentido esperar que um encontro, um amor, uma paixão se encarreguem de nos dar um novo rumo? “Provavelmente sim – no mínimo é o que esperamos”, ele responde.

Duas possibilidades: ou o amor surge quando está na hora de a gente se transformar ou é por amor que a gente se transforma. Ou as duas possibilidades podem ser verdadeiras. “Volta e meia”, escreve Calligaris, “alguém me pede uma receita: como esbarrar num amor que nos transforme? A resposta trivial diz que os encontros acontecem a cada esquina: difícil é enxergá-los e deixar que eles nos transformem, ou seja, difícil é ter a coragem de vivê-los”.

Não é por outra razão talvez que muitas esquinas continuam e continuarão a se resumir a isto: a esquinas imaginárias.

Exceto, talvez, para os franceses radiografados por Marilyn Yalom.

 

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terça-feira, 22 de outubro de 2013 Filosofia | 23:10

Citação do dia: O amor, segundo Nietzsche

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Do livro “100 aforismos sobre o amor e a morte”, de Nietzsche (que faz parte da coleção Grandes Ideias, da Penguin & Companhia das Letras, com seleção e tradução de Paulo Cézar de Souza), separo três aforismos:

27. Amor e reverência
O amor deseja, o medo evita. Por causa disso não podemos ser amados e reverenciados pela mesma pessoa, não no mesmo período de tempo, pelo menos. Pois quem reverencia reconhece o poder, isto é, o teme: seu estado é de medo-respeito. Mas o amor não reconhece nenhum poder, nada que separe, distinga, sobreponha ou submeta. E, como ele não reverencia, pessoas ávidas de reverência resistem aberta ou secretamente a serem amadas.

37. A fonte do grande amor
De onde se origina a súbita paixão de um homem por uma mulher, aquela profunda, interior? Apenas da sensualidade, certamente não: mas, se o homem encontra debilidade, necessidade de ajuda e petulância ao mesmo tempo, nele sucede como se a sua alma quisesse transbordar: no mesmo instante ele se sente tocado e ofendido. Nesse ponto é que brota a fonte do grande amor.

47. Amostra de reflexão antes do casamento
Supondo que ela me ame, como se tornaria incômoda para mim, com o passar do tempo! E supondo que não me ame, como aí então se tornaria incômoda para mim, com o passar do tempo! – Trata-se apenas de duas diferentes espécies de incômodo: – casemos, portanto!

 

 

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