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segunda-feira, 5 de janeiro de 2015 Jornalismo, Literatura | 09:12

Por que o escritor Chico Buarque é superestimado

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Até o penúltimo livro de Chico Buarque, Leite derramado, ficava combinado assim: quando ele tivesse uma obra publicada, o mais tradicional de nossos galardões – o Prêmio Jabuti – tinha destino certo. O resto que chiasse. Até que a coisa ficou explícita demais em 2010.

Naquele ano, segundo colocado na categoria romance, Chico levou para a sua cobertura, no Alto Leblon, no Rio, o grande prêmio da noite – obra e graça de um complicado regulamento, que previa uma confusa segunda etapa, na qual os três primeiros colocados nas principais categorias concorriam ao título do ano de ficção e de não-ficção. E em vez do júri especializado da primeira fase, a escolha dos vencedores cabia aos representantes da Câmara Brasileira do Livro (livreiros, editores, agentes, distribuidores e demais representantes do setor editorial), em geral pouco afeitos ao exercício da crítica literária.

O bafafá irrompeu com a vitória de Leite derramado, nos mesmos moldes que já ocorrera em 2004, com Budapeste (terceiro lugar na categoria romance e em seguida escolhido como livro do ano de ficção). E se a grita de editores vinha de longe mas permanecia nas coxias, em 2010 um peso-pesado do mercado editorial, o editor Sérgio Machado, do Grupo Record, sentiu-se indignado com o que chamou de situação “esdrúxula”. Editor do primeiro colocado na categoria romance daquele ano, o estreante Edney Silvestre e seu E se eu fechar os olhos agora, Machado saiu atirando: para ele, o Prêmio Jabuti seria uma “comédia de erros”, e anunciou que não mais inscreveria os livros da editora a partir dali.

O editor de Chico, Luiz Schwarcz (Companhia das Letras), respondeu em tom severo, muita gente opinou, a crise se instalou e, no fim das contas, a CBL mudou as regras do jogo a partir do ano seguinte. “Antes os escritores eram prestigiados pelos prêmios, agora são os prêmios que precisam dos escritores para ter prestígio”, resumiu na época o editor José Mário Pereira, da Topbooks.

Convém lembrar: aquele foi o terceiro Jabuti de Chico. Ele também já vencera com Benjamim. Em outras palavras, desconsiderando Fazenda modelo, até publicar no fim de 2014 O irmão alemão, o filho de Sérgio Buarque de Hollanda tinha quatro romances e três Jabuti. Um Schumacher das letras.

O ídolo precede o escritor

O episódio vem à memória para sublinhar a dura vida do Chico Buarque escritor. Como afirmou com a sabedoria de sempre o jornalista Paulo Roberto Pires, no blog do Instituto Moreira Salles, é muito fácil gostar de um livro de Chico Buarque; e é muito fácil detestá-lo. A despeito de si mesmo, o ídolo precede o escritor, no que resulta uma conclusão natural: num ambiente de culto à celebridade, do qual Chico não consegue mais escapar, o escritor termina por ser excessivamente superestimado e celebrado.

Assim sugeriu Paulo Roberto Pires: para os fãs, tudo o que vem dele é genial, mesmo que muita gente boa tenha que suar a camisa para enfrentar sua prosa intrincada fingindo que é o refrão de “Vai passar”. Para os detratores, parece continuar valendo a sentença de um crítico, que em 1991 recebeu Estorvo lembrando que “literatura” era coisa de “escritor” e não de “cantor” (!). Ao genial responsável por nossas grandes paixões e dores de cotovelo que pareciam eternas não seria concedido o direito de ingressar no complexo mundo da literatura – e vender mais do que qualquer outro escritor brasileiro vivo, então, isto já seria uma heresia.

Chico Buarque é um bom escritor. Em seus momentos mais maduros, exibiu obras razoáveis. Concebeu romances de estrutura inteligente. Conseguiu momentos incrivelmente divertidos. Produziu trechos notáveis do ponto de vista literário.

O culto excessivo e ostensivo à imagem de Chico Buarque torna-se inevitavelmente o maior algoz do escritor. Ele pode ser um bom escritor, a leitura agrada em alguns momentos, mas quase sempre, mesmo nos melhores momentos, o todo é muito menor do que a soma das partes – razão pela qual ainda lhe falta “a” grande obra literária.

A irregularidade é sua marca. Um momento brilhante, de algum rigor na escrita, sem palavras mal escolhidas ou frases fora de ritmo, é invariavelmente sucedido por um lampejo de fraqueza estilística ou por armadilhas da própria trama que criou.

As armadilhas do irmão alemão

O Irmão Alemão Chico Buarque Companhia das Letras 240 páginas R$ 39,90

O irmão alemão
Chico Buarque
Companhia das Letras
240 páginas
R$ 39,90

Assim ocorre no seu mais recente livro, O irmão alemão, no qual Chico transforma em literatura a descoberta, ainda jovem, de que seu pai, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, tivera um filho na Alemanha em 1930. Embaralha invenção e biografia, realizando o que virou moda chamar-se de “autoficção”.

Dos muitos elogios exagerados que recebeu, prefiro a crítica sensata do professor Alcir Pécora, em artigo publicado na Folha de S.Paulo: “A novela poderia guardar o encanto secreto das narrativas de busca (…) não caísse em armadilhas fatais, que a tornam basicamente insossa”.

Convém destacar aqui duas duas dessas armadilhas.

A primeira: a incapacidade de ajustar o tom picaresco da narração, associado à rivalidade sexual dos irmãos,  ao pitoresco italiano da mãe e ao caricato alheamento intelectual do pai, com o tema dos desaparecimentos.

A segunda: a forma de construir o passado com um “realismo postiço” (expressão de Pécora), composto de marcas de carros, nomes de ruas, bares de moda, artistas e restaurantes de uma São Paulo de 1968. Um excesso de detalhamento didático que não passa de uma etiqueta de um burocrático retrô, não uma imagem convincente da cidade da época.

Nas últimas páginas de seu livro, Chico enumera informações sobre a vida de Sergio Gunther, o irmão alemão que sobreviveu à guerra e se tornou cantor e compositor. E faz uma nota sobre como foram as investigações na Alemanha. Troca a literatura pelo relatório puro e simples, o que deixa o leitor menos fã intrigado: não teria colhido melhor resultado se fosse o Chico, e não o personagem-narrador Ciccio – a narrar essa história maravilhosa?

Com mais biografia e menos ficção que lhe trazem armadilhas, repletas de repetições e gracinhas tolas, a narrativa de O irmão alemão sairia tão menor que a história que o inspirou?

A generosidade excessiva da mídia

Embora seja um bom escritor, certamente não seria agraciado com tantas linhas, tanto espaço e tanta generosidade não fosse ele quem é. E nisto não reside uma constatação melancólica, ácida ou desesperada, e sim uma obviedade de quem enxerga o mundo com as devidas variáveis comercial, mercadológica e mesmo psicanalítica.

Chico vende. Chico é amigo da imprensa. Chico é gênio. Chico tem boas relações. Chico é ídolo. A mídia precisa de ídolos.

Com essa soma de atributos e com a magnífica contribuição do marketing preciso e profissional da Companhia das Letras, Chico não precisa dar entrevistas para que jornais e revistas dediquem-lhe generosos espaços. A cada lançamento seu, jornalistas se esforçam pela maior amplitude possível que não se vê em muitas obras – um jornal chega a tratar como regra convidar três ou quatro resenhistas; outro não dispensa  a ideia de percorrer os locais em que suas tramas se passam.

Este foi um dos desserviços prestados pela imprensa a O irmão alemão. Foram tantos os textos sobre as árvores genealógicas dos Buarque de Hollanda, sobre as referencias a W. G. Sebald, sobre as motivações da obra, que o livro passou a ser compreendido demais, codificado demais – associações extraliterárias das quais escaparam suas obras anteriores.

Mas não se engane: Chico demonstra uma atitude blasé diante da imprensa, finge não gostar até, mas costumar ficar atentíssimo a tudo o que sai sobre ele, sobretudo na mídia tradicional. Se algo lhe desagrada, aciona seus amigos nas escalas mais altas das redações ou, se for o caso, recorre a um competentíssimo assessor de imprensa, com quem trabalha há muitos anos. Quando deseja dizer algo, escolhe a dedo os jornalistas que lhe servirão de interlocutores, em geral amigos de confiança.

Mais recluso, mais celebridade

Eis o que talvez seja um paradoxo de nosso tempo. Tanto na obra do compositor e cantor de 1987 em diante – quando mergulhou numa musicalidade mais intimista – quanto na obra literária, seus trabalhos se tornaram menos empolgados, menos comunicativos. Nesse tempo, Chico quis ser cada vez menos celebridade, mas nunca parou de crescer como celebridade. (Além do culto em torno de si, não deixa de ser uma atitude de celebridade destes tempos um autor ou um cantor resolver não conceder entrevistas à época de lançar sua obra.)

Foi justamente o período em que Chico Buarque se tornou cada vez mais escritor. A literatura, em especial, pareceu tornar-se o veio mais adequado para essa fase em que se fechou mais para si ou para uma atitude de resistência contra a dureza da realidade, em favor da proteção de um universo paralelo irreal, feito de sonhos e pesadelos. Não à toa, o imaginário literário flutua em sonhos confusos, como mostram os  narradores de Estorvo, Benjamin e Budapeste.

Se prevalecer a sina de sua trajetória literária, outros prêmios virão. Ainda que uma grande história tenha chegado ao fim diluída numa prosa quase jornalística, O irmão alemão tem como autor um bom escritor que, por se chamar Chico Buarque, larga com enorme vantagem contra qualquer romancista de sua geração.

 

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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013 Mulheres, Poesia | 13:50

Ana Cristina Cesar: mulher de muitos segredos, mas nenhum mistério

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Se pretendesse ser original, este texto deveria NÃO começar assim: há pouco mais de trinta anos, Ana Cristina César morreu; jogou-se da janela do apartamento dos pais, aos 31 anos, no Rio de Janeiro (era 29 de outubro). Em sua brevíssima passagem pela literatura brasileira do século XX, tornou-se um dos mais importantes nomes da poesia marginal que florescia na década de 1970.  Trinta anos que não apagaram – ao contrário, só alimentaram – o interesse pela herança poética deixada por Ana C. às gerações seguintes. Uma sobrevida maior que a vida.

Depois de algumas antologias e incontáveis obras sobre a poeta, agora a Companhia das Letras reúne a totalidade dos textos poéticos que ela publicou em vida, além uma seleção de fragmentos, rasuras, experimentais em verso e prosa, todos saídos dos papéis deixados por Ana Cristina.

Ana Cristina Cesar: deliciosa poesia com os embates de um feminino inquieto

Ana Cristina Cesar: deliciosa poesia com os embates de um feminino inquieto

Poética, editado com o esmero e a qualidade habituais da Companhia e lançado na semana passada, tem a curadoria editorial e apresentação do poeta e amigo Armando Freitas Filho, posfácio da professora Viviane Bosi e um robusto apêndice. São livros fora de catálogo há décadas, como A teus pés e Inéditos e dispersos, originalmente publicados pela Brasiliense.

Um carimbo póstumo

É um risco tratar de Ana Cristina Cesar, a carioca que, por sua história, montou uma armadilha para críticos, leitores e admiradores: a repetida e cansativa imagem da poeta precoce que se matou, a poeta genial, a mulher burguesa, a personagem quase mito transformada hoje muito mais em grife ou carimbo póstumo do que qualquer outra coisa, como já afirmou o poeta e crítico Manoel Ricardo de Lima.

Lima, a propósito, organizou em 2008 uma pequena e bem acabada edição chamada a nossos pés (Dantes Editora/Editora da Casa), na qual ele e outros 13 autores se uniram para escrever poemas e prosas breves a partir da autora de A teus pés, “para manter o sufoco da deliciosa poesia de Ana Cristina Cesar”, segundo palavras do organizador.

Não se pode dizer que lhe faltou originalidade, inclusive em seu texto de apresentação, onde Manoel Ricardo de Lima escreve: “Há 25 anos uma moça de olhos bonitos e mãos cobertas com luvas de pelica – Ana Cristina Cesar – interrompia um imprevisto e impunha outro”.

O que se viu dali em diante, lembra ele, foi um sem número de tentativas de juntar os cacos dos imprevistos: a reunião dos poemas deixados, as cartas apontadas para si mesma como uma correspondência secreta, alguma crítica, alguma tradução, algumas anotações num caderno distraído, etc. Nada que o sol não explique, diria Paulo Leminski.

Volume único

Nada de que padeça o lançamento organizado por Armando Freitas Filho. Seja nos textos delimitados pelo ponto final da poeta, seja nos inacabados (que Freitas Filho batizou de “visita à oficina”), Poética tem o mérito de reunir num volume único, de maneira inédita, a obra em poesia de Ana Cristina.

Freitas Filho era o melhor amigo de Ana Cristina: naquele 29 de outubro, ambos se falaram por volta de 12h30. Pouco depois das 13 horas, a mãe dela telefonou desesperada, contando que a filha se jogara da janela. Alguns dias mais tarde, levaria ao apartamento de Freitas Filho quatro caixas de papelão repletos de escritos. Ana Cristina deixara para ele a responsabilidade de cuidar postumamente de suas publicações.

Poética abre com Cenas de abril, de 1979. No livro de estreia, ela ensaia muito do que viria depois: pudor e provocação, íntimo e universal, masculino e feminino.

Noite de Natal.
Estou bonita que é um desperdício.
Não sinto nada
Não sinto nada, mamãe
Esqueci
Menti de dia
Antigamente eu sabia escrever
Hoje beijo os pacientes na entrada e na saída com desvelo técnico.
Freud e eu brigamos muito.
Irene no céu desmente: deixou de
trepar aos 45 anos
Entretanto sou moça
estreando um bico fino que anda feio,
pisa mais que deve,
me leva indesejável pra perto das
botas pretas
pudera

O livro prossegue com Correspondência completa, do mesmo ano, assinado como Ana Cristina C (assim mesmo). Um livreto bem humorado composto de uma só carta,  de Júlia para alguém não nomeado, tendo como “personagens confessos”, tirados da vida real, Mary e Gil.

Luvas de pelica (1980) reúne poemas escritos na Inglaterra, para onde ela foi fazer mestrado em tradução literária na Universidade de Essex. Ficam evidentes marcas de seu estilo: o sentimento de perda, melancolia e desnorteio.

Eu só enjoo quando olho o mar, me disse a comissária do sea-jet.
Estou partindo com suspiro de alívio.
A paixão, Reinaldo, é uma fera que hiberna precariamente.
Esquece a paixão, meu bem; nesses campos ingleses, nesse lago com patos, atrás das altas vidraças de onde leio os metafísicos, meu bem.
Não queira nada que perturbe este lago agora, bem.
Não pega mais o meu corpo; não pega mais o seu corpo.
Não pega.

(…)

Fico quieta.
Não escrevo mais. Estou desenhando numa vila que não me pertence.
Não penso na partida. Meus garranchos são hoje e se acabaram.

(…)

Explico mais ainda: falar não me tira da pauta; vou passar a desenhar; para sair da pauta.

A teus pés

Como afirma Freitas Filho, em A teus pés (1982) Ana Cristina Cesar voltaria assumida à sua assinatura oficial, eliminaria a abreviatura, tiraria a máscara dos óculos escuros e recuperaria a sua identidade como poeta sem disfarces. Aparecem sobretudo textos ultrassintéticos, mas desdobráveis em muitas leituras.

“Ana C. concede ao leitor”, escreveu o amigo Caio Fernando Abreu, “aquele delicioso prazer meio proibido de espiar a intimidade alheia pelo buraco da fechadura”.

Em “noite carioca”

Diálogo de surdos, não: amistoso no frio. Atravanco na
contramão. Suspiros no contrafluxo. Te apresento a mulher
mais discreta do mundo: essa que não tem nenhum segredo.

Em “cartilha da cura”:

As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios.

De um poema sem título:

Preciso voltar e olhar aqueles dois quartos vazios.

Outro sem título:

Do espelho em frente.
Ela instrui:
deixa a saudade em repouso
(em estação das águas)
tomando conta
desse objeto claro
e sem nome

Trecho de “duas antigas”:

Vamos fazer alguma coisa:
escreva cartas doces e azedas
Abre a boca, deusa
Aquela solenidade destransando leve
Linhas cruzando: as mulheres gostam
de provocação
Saboreando o privilégio
seu livro solta as folhas

Tocando as mulheres

Como se vê, Ana Cristina Cesar toca muito as mulheres. Moderna e liberta, fala abertamente de seu corpo e de sua sexualidade, ao mesmo tempo derramando-se numa delicadeza que, à primeira vista, poderia conflitar com o feminismo vigente na época. Embates de um feminino inquieto, como define o poeta e professor Italo Moriconi, ao apresentar Poética.

No capítulo de inéditos, “Visita à oficina”, há um material mais curto e certamente de menor relevância do que os já publicados. São também poemas inacabados, um deles escrito ainda na adolescência, aos 16 anos. Por ele recebeu nota 10 da professora e o elogio: “Lindo!”

Em outro exibe uma maturidade incomum para a idade: “Estar em fraude – não consigo mesmo, não consigo mesmo. Conseguir vislumbrar a fraude inerente – segui-la em conivência, vivê-la em seguimento a indicações envelhecidas pela chuva. Chamar sem querer as palavras delineadoras – é fácil criar-se a partir da energia que se cria”.

Que não se busquem em seus poemas sinais ou razões do suicídio. É um repúdio que a própria poeta deixava claro em “Três cartas a Navarro”, publicado em Antigos e soltos: “Te deixo meus textos póstumos. Só te peço isto: não permitas que digam que são produtos de uma mente doentia! Posso tolerar tudo menos esse obscurantismo biografílico.”

Pela densidade combinada com simplicidade (ou singeleza) na coloquialidade e no humor, Poética e Ana Cristina se abrem igualmente a leitores eruditos e iniciantes, porque exibe não sabedorias (pequenas ou grandes), mas desvios contínuos, fraturas, múltiplas falas, testemunho do inconcluso e do inacabado.

Como qualquer um de nós que se angustia, se encanta e mergulha na tormenta e na delícia das descontinuidades da vida.

 

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