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domingo, 8 de fevereiro de 2015 Política, Sociedade | 06:00

Reflexões sobre as manifestações no Brasil, os novos desafios dos jovens e a agenda contra irregularidades políticas

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Em junho de 2013, o Brasil parou com milhares de pessoas protestando nas ruas. O que começou com insatisfação contra o aumento da tarifa do transporte público expandiu-se para outras causas, transformando-se em grandes manifestações que se espalharam pelo País, refletindo uma indignação generalizada dos brasileiros. São ecos dos protestos que, na época, esperava-se que produzissem efeitos radicais nas eleições de 2014 – algo que não ocorreu.

Os acontecimentos de junho não foram inéditos. Nos anos anteriores, manifestações já tomavam as ruas para fazer uma série de reivindicações. O Movimento Passe Livre já havia organizado atos em outras ocasiões, contra o aumento da tarifa. “Junho de 2013 foi apenas uma espécie de encontro catártico de tudo o que estava acontecendo”, opina a arquiteta e urbanista Raquel Rolnik.

A artista Maria Borba, a pesquisadora Natasha Felizi e o ativista João Paulo Reys, observando esses movimentos, decidiram colocar no papel as discussões sobre o que estava acontecendo no País. A ideia era produzir um jornal, que seria distribuído nas manifestações. “Foi uma alegria muito grande ver que a insatisfação ganhava força a ponto de ser colocada para fora”, conta Maria Borba. A ideia cresceu e virou o livro Brasil em movimento – Reflexões a partir dos protestos de junho, publicado recentemente pela editora Rocco.

Brasil em movimento Maria Borba, Natasha Felizi E João Paulo Reys (organizadores) Editora Rocco 448 páginas, R$ 59,50

Brasil em movimento
Maria Borba, Natasha Felizi e João Paulo Reys (organizadores)
Editora Rocco
448 páginas, R$ 59,50

João Paulo Reys faz um panorama dos protestos no início do livro, abordando os pronunciamentos das autoridades políticas e a repressão policial que marcou as manifestações. Reys faz uma crítica ácida à mídia, apresentando editoriais da Folha de S. Paulo e do Estadão, que chegaram a usar termos pejorativos como “grupelho” e “baderneiros”.

Os organizadores convidaram um grupo diverso para integrar o livro, passando por historiadores, filósofos, políticos, economistas, arquitetos e outros especialistas que escreveram sobre as manifestações e sobre a situação atual do País, cada um contribuindo da forma como julgasse mais adequada, com textos ou entrevistas. De João Pedro Stédile, do MST, ao economista Carlos Lessa. Do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ) ao músico e compositor Jorge Mautner. Do economista Gustavo Franco ao historiador e político Vladimir Palmeira.

Alguns artistas optaram por participar mostrando trabalhos ligados ao tema. Cildo Meireles cedeu a obra Buraco para jogar políticos desonestos. De maneira irônica, a tela mostra uma fenda a partir do Senado, que leva diretamente ao centro da Terra. Carmela Gross apresenta seu trabalho Serpentes. As cobras, desenhadas em grafite, representam a população nas ruas. “Eu estava pensando num ponto de vista o mais baixo possível, o das serpentes, aquele ser mais baixo que se arrasta no chão”, explica a artista.

O que Carmela Gross chama de “serpentes”, Paulo Mendes da Rocha chama de “infecção”. Para o arquiteto, entrevistado para o livro, as manifestações são um movimento em massa de pessoas que buscam um modo de vida que nem sempre é conveniente à ordem estabelecida, causando incômodo, assim como uma infecção.

Alguns escritores contribuíram com artigos e crônicas. É o caso de André Sant’Anna, que faz uma crítica bem humorada sobre “a nova classe média” e os itens que a sociedade vem consumindo, de produtos vendidos como saudáveis até religiões e ideias na televisão.

O líder Yanomami Davi Kopenawa, que tem militado pela causa indígena e ambiental no Brasil, foi entrevistado para o livro e falou sobre a dificuldade que as lideranças de seu meio têm encontrado para levar suas propostas adiante e sobre a importância das manifestações nas grandes cidades: “O povo da cidade não pode parar, vamos reclamar juntos”.

Maria Borba (à esquerda) entrevista Paulo Mendes da Rocha, Raquel Rolnik, Lúcio Gregori e Carmela Gross em evento em São Paulo

Maria Borba (à esquerda) entrevista Paulo Mendes da Rocha, Raquel Rolnik, Lúcio Gregori e Carmela Gross em evento em São Paulo

Brasil em movimento acabou não saindo no calor das manifestações de 2013. Isso porque sempre surgiam novas ideias e novos entrevistados que os organizadores gostariam de incluir. “O Brasil é múltiplo. De algum modo instintivo, havia o desejo de escutar pessoas de muitos setores da sociedade”, diz Maria Borba.

Nem todos os que foram convidados a contribuir concordaram em participar e alguns questionaram a iniciativa dos organizadores. Foi o caso do cantor e compositor Gilberto Gil que, logo no início da entrevista, transcrita no livro, dispara: “Por que tão rápido, um livro?”. Ele achou “prematuro e precipitado” o trabalho, mas concordou em falar sobre as manifestações e o momento atual do Brasil. “A expectativa agora é de que finalmente vamos poder dobrar a institucionalidade política, do poder econômico, do poder cultural, das comunicações”, diz.

Maria Borba explica a impossibilidade de se cristalizar uma análise única sobre os acontecimentos e a necessidade de se reproduzirem pensamentos ainda em formação. “Nesse momento, é complexo discutir o que acontece nas ruas”, opina Raquel Rolnik. Para ela, o momento é o de interpretar os movimentos. “A disputa de discurso é tão importante quanto a rebelião na rua”, diz.

Além das tarifas

O anúncio do aumento das tarifas do transporte público no início de junho de 2013 causou protestos em São Paulo e no Rio de Janeiro, levando milhares de pessoas às ruas. Rapidamente, as manifestações se espalharam por todo o País e começaram a reunir também outras reivindicações.

O engenheiro Lúcio Gregori, entrevistado para o livro, lembra que o Brasil possui um dos maiores PIBs (produto interno bruto) do mundo. No entanto, os níveis de subsídio ao transporte público não passam dos 20%, enquanto que em outros países podem chegar a 70%.

O engenheiro defende a implantação da tarifa zero em etapas. No longo prazo, haveria vantagens como a movimentação do comércio e o incentivo ao uso do transporte público pela população, diminuindo congestionamentos e melhorando a qualidade de vida. “A catraca impede as pessoas de aproveitar a vida nas cidades”, opina.

Ao longo dos protestos, outras pautas foram levadas às ruas, como os questionamentos quanto aos gastos na área esportiva, com a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, sendo que setores como saúde e educação permanecem carentes de recursos.

Maria Borba avalia essa agregação de novas pautas como resultado de uma insatisfação geral no País. Para Raquel Rolnik, as tarifas foram apenas uma “fagulha” que despertou uma série de indignações. “Nós estamos vivendo a era das rebeliões. Isso não é apenas aqui no Brasil, isso é internacional”, diz.

Depois de junho

Raquel Rolnik afirma que tem notado a angústia por parte das pessoas que foram às manifestações e esperavam uma resposta imediata. Ela dá dois conselhos a essas pessoas: “Calma: não acabou em junho de 2013, tem muita coisa pela frente. E olho aberto: não vamos nos deixar enganar pelas interpretações fáceis do que está acontecendo”.

Para Maria Borba, a maior conquista foi a consciência da população de seu poder de realizar mudanças. “Há um desafio imenso no que diz respeito à qualidade básica de vida dessa população que dizemos que agora está inclusa”, opina.

Lúcio Gregori faz uma proposta: prestigiar a juventude brasileira e, em especial, o Movimento Passe Livre. Para ele, são jovens que têm propósitos objetivos e estão trabalhando para conquistá-los, destoando da imagem de jovens que é transmitida pelos canais de televisão. Paulo Mendes da Rocha complementa: “Nascemos para continuar, portanto jovens somos todos nós”.

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