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segunda-feira, 29 de setembro de 2014 Política | 10:01

Especialistas erraram previsões na campanha. Mas um alerta: eles costumam acertar quase tanto quanto o acaso

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Dilma Rousseff vai perder a disputa pela reeleição e os petistas serão, enfim, removidos do poder. A economia brasileira está muito mal, obrigado, encontra-se à beira do abismo, e imerge de maneira trôpega numa tragédia iminente que dura alguns anos e parece que, em breve, repintará em cores muito mais sombrias a débâcle já sofrida pelo País em outros tempos. Fato. Líquido e certo.

Aécio Neves, o candidato tucano, vai comandar a oposição rumo a uma vitória difícil, mas inevitável “diante de tudo o que está aí”. Apesar das poucas nuances e diferenças, acrescente-se, entre ele e o outro oposicionista relevante, Eduardo Campos – o esperto, boa praça porém inerte nas pesquisas candidato do PSB, amigo do ex-presidente Lula e mordaz adversário da presidenta Dilma.

Opa! Um acaso trágico vindo dos céus, Eduardo Campos morreu. Marina Silva, de aura imaculada, agora é a candidata do pacto eleitoral PSB-Rede. Dispara nas pesquisas, é inevitável sua vitória. Será a conquista da esperança por uma “nova forma de fazer política”. Não há como, é uma questão de tempo – precisamente agora é esperar o 5 de outubro. A campanha de Aécio também morreu. A de Dilma agoniza.

Mas eis que Marina chafurda diante da “desconstrução” (para uns) ou das “agressões” (para outros). Era o tal novo, atribuído pela virtuosa combinação entre a rejeição ao PT, rescaldo de votações passadas, baixa identificação de Aécio e morte de Campos. Suas contradições a tornaram mais vulnerável, Aécio viu sua esperança ressurgir, Dilma subiu e tornou-se, mais uma vez, a favorita absoluta. Petistas graúdos atestam: é possível até mesmo ganhar no primeiro turno. Um assombro de conquista.

Biruta de aeroporto

A soma de previsões definitivas, transitividades, surpresas, acasos, mudanças de rota e – pasmem – reafirmações de mais previsões definitivas é um exemplo de um vício crônico do Brasil (embora não restrito a nós): o mito das previsões dos especialistas. Uma pena, pois o histórico os desabona.

Nada contra os especialistas. A coluna recorre a eles sempre. Coleciona amigos especialistas, entre economistas, cientistas políticos, historiadores, sociólogos, filósofos, jornalistas e psicanalistas. Produzem conhecimento, estendem os limites da interpretação das mudanças presentes e discutem caminhos e possibilidades em formação no horizonte futuro.

E é no futuro que mora o problema. Nada contra quando se tenta antecipar os passos futuros – numa disputa eleitoral ou nos rumos da economia brasileira, por exemplo. O nó cego aparece quando levamos a sério demais tais previsões, quando elas são taxativas demais, como se viu nesta campanha até aqui, ou quando a mídia, em especial, credita, com ares de verdade, o que não passa de hipótese de trabalho. É o caso do pessimismo reinante que paira sobre a economia brasileira, em que certos setores da imprensa insistem em antecipar um ocaso generalizado, um estado sombrio e desesperador sem amparo na realidade da maior parte da sociedade.

Livro mostra que não há método confiável de acerto

Expert_Political_JudgmentUm livro fantástico, publicado há quase dez anos nos EUA e, infelizmente, sem tradução no Brasil, ajuda a sustentar a falácia das previsões dos especialistas. Chama-se Expert Political Judgment (Princeton University Press, US$ 17 na Amazon). Seu autor é Philip E. Tetlock, um professor de psicologia de Berkeley, Califórnia. Ele passou quase 20 anos analisando previsões de centenas de especialistas sobre o destino de dezenas de países. Foram 28 mil previsões coletadas.

Os números são desabonadores para os especialistas, e as conclusões, edificantes para quem se irrita com previsões. Do livro, extraem-se três lições essenciais: primeiro, especialistas (e colunistas como o que assina esta Pensata) sabem menos do que parecem saber. Segundo, falham com bastante frequência. Terceiro, nunca são penalizados por seus equívocos. “Nenhuma sociedade criou ainda um método confiável de pontuação de acerto dos especialistas”, afirma Tetlock.

Aos números. Entre os analistas de maior pessimismo, 70% das previsões se revelaram mais sombrias. Delas, só 12% terminaram por ocorrer. Entre os mais otimistas, 65% dos cenários traçados foram mais rosados. Destes, 15% se materializaram. Ou seja, o grau de acerto é uma lástima, com leve vantagem para os otimistas (mas leve mesmo). Especialistas são péssimos no cálculo de probabilidades, e segundo o estudo de Tetlock não importa se as previsões dizem respeito a economia, política interna ou assuntos internacionais. Suas avaliações são igualmente equivocadas em todo o espectro de temas.

Previsões servem para sistemas não complexos

Se os especialistas se saem um pouco melhor do que o acaso (ou tanto quanto um macaco jogando uma moeda para cima), por que eles insistem em fazê-lo e nós em ouvi-los? Dan Gardner, no livro Future Babble (Balbucio sobre o futuro, US$ 12,79 na Amazon) arrisca algumas explicações. Para Gardner, nos habituamos a ver a ciência prevendo com enorme sucesso fenômenos como eclipses e marés. Só que esses são sistemas não complexos. Neles, o todo não difere da soma das partes, o que permite montar equações que resultam em predições bastante acuradas. O problema é que quase todas as atividades humanas constituem sistemas complexos, nos quais o todo é mais do que a soma das partes.

Se aprendêssemos bem essa lição, talvez só devêssemos levar a sério experts que expressassem suas previsões do seguinte modo: “Há x% de probabilidade de que o cenário y se materialize”. No mundo real, porém, não é o que ocorre. As manchetes seriam mais enfadonhas. O leitor fugiria. O cérebro humano procura tão avidamente por padrões que os encontra até mesmo onde não existem. Mesmo num mundo sempre mais complexo, queremos narrativas cada vez mais simples e explicações cada vez mais lógicas para nossas preferências. Queremos encontrar sentido nas coisas, mesmo onde não há sentido aparente.

Por essa razão a mídia tem sua responsabilidade adicional. Diz Tetlock: “A mídia não só não consegue eliminar as más ideias mas muitas vezes favorece ideias ruins, especialmente quando a verdade é muito confusa para ser embalada ordenadamente”. A propósito, quanto mais entrevistas os especialistas haviam concedido à imprensa, descobriu Tetlock, piores tendiam a ser suas previsões.

Tem vida longa, porém, a tendência de buscar chaves explicativas definitivas quando, muitas vezes, não resta outra saída se não jogar uma dúvida no ar. Pode resultar em frustração do leitor ou espectador, mas se trata de ser feita uma avaliação de custos e danos. (Blogueiros e colunistas públicos da mídia tradicional, à esquerda e à direita,  e suas certezas absolutas certamente discordarão dessa análise.)

Pensem como a raposa

Tetlock dividiu seus especialistas ao longo de um espectro entre o que batizou de “porcos-espinhos” e de “raposas”. A referência aos animais vem do título de um ensaio de Isaia Berlin sobre o romancista russo Lev Tolstói, chamado “O Porco-Espinho e a Raposa”.

Porcos-espinhos são personalidades de tipo A, que acreditam em grandes ideias, em certos princípios que regem o mundo com o rigor de leis da física e que sustentam praticamente todas as interações que ocorrem na sociedade. Karl Marx e Freud são dois exemplos.

Raposas, por outro lado, são criaturas que gostam de fragmentos, acreditam numa infinidade de pequenas ideias e adotam abordagens distintas para um mesmo problema. São mais tolerantes às nuances, às incertezas, à complexidade e às opiniões discordantes.

Porcos-espinhos são caçadores e estão sempre em busca de uma presa grande. Raposas são animais coletores. Raposas, diz Tetlock, são muito melhores em fazer previsões do que porcos-espinhos. Por essa razão, Tetlock pede que experts tenham mais humildade. Desse modo, diz ele, o debate político poderia soar menos estridente.

O problema é que, como diria o poeta irlandês William Butler Yeats, “falta convicção aos melhores, enquanto os piores estão cheios de apaixonada intensidade”.

 

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quarta-feira, 13 de agosto de 2014 Jornalismo, Política | 13:13

“Os candidatos”: Dilma Rousseff, Aécio Neves e Eduardo Campos ganham perfis em livro

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São apenas 64 páginas. Sessenta e quatro bem escritas, consistentes e, por vezes, deliciosas páginas nas quais a jornalista Maria Cristina Fernandes perfila os três principais candidatos à Presidência da República. Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) são os personagens do livro digital Os candidatos, que a Companhia das Letras acaba de lançar pelo selo Breve Companhia.

Breves livros digitais têm sido uma estratégia adotada por algumas editoras para trazer ao leitor temas quentes do momento. Curtos na escrita, rápidos na edição. Na Companhia, foi iniciada em junho do ano passado, com Choque de democracia, de Marcos Nobre, sobre as manifestações de junho, e recentemente com A Copa como ela é, de Jamil Chade.

Os candidatos Maria Cristina Fernandes 64 páginas; R$ 9,90 Breve Companhia

Os candidatos
Maria Cristina Fernandes
64 páginas; R$ 9,90                     Breve Companhia (E-book)

Em Os candidatos, a política é o pano de fundo, o horizonte, a onipresença dos textos. Mas a observação e a análise das vidas de cada personagem são o esteio da autora para produzi-los, incluindo a formação política e literária dos presidenciáveis. O bom jornalismo, sua matéria-prima. Somas essenciais para conhecer um pouco mais de quem comandará os rumos do País nos próximos quatro anos.

Perfis pertencem a uma família jornalística adotada em larga escala, consumida com grande sucesso mas não tão fácil de produzir quanto parece à primeira vista. A revista New Yorker praticamente a inventou, seja no ramo dos perfis de anônimos, seja dos célebres e poderosos. Da divertida, irônica e casta New Yorker do fundador Harold Ross ao modelo heterogêneo adotado por David Remnick, passando pela picante e insolente gestão de Tina Brown, a revista ajudou a celebrizar o valor da reportagem com um quê literário de alta qualidade.

Os perfis de Maria Cristina Fernandes em Os candidatos não têm a vantagem que a New Yorker costuma ter – proximidade e longo convívio com o personagem, algo que João Moreira Salles teve no seu celebrado perfil de Fernando Henrique Cardoso, quando viajou durante onze dias com o ex-presidente pelos Estados Unidos e Europa para escrever “O andarilho” na revista Piauí.

Repórter e analista política

Mas na paisagem um tanto monótona da imprensa brasileira, Maria Cristina Fernandes costuma iluminar o horizonte com incrível competência e precisão.

Editora de Política do Valor, ela assina semanalmente uma coluna de opinião e análise, onde revela algumas de suas melhores qualidades: a profundidade sem os vícios do academicismo; a elegância sem empáfia estilística; a opinião e a análise consistentes, sem os achismos correntes dos colunistas públicos que infestam o jornalismo brasileiro; a sábia abertura para a dúvida, mesmo diante das hiperbólicas certezas a que costumam aderir os colunistas nativos; a honestidade intelectual que, entre a informação e suas opiniões, a faz ficar com a primeira.

Maria Cristina é também uma arguta entrevistadora, como revela em suas participações no programa Roda Viva ou nas reportagens que assina – é o caso dos perfis de Os candidatos. Não daquele tipo de entrevistador que estamos acostumados a ver na mídia brasileira: mais interessado em exibir-se em perguntas de duração eterna e cansativa, ou aquele que segue disparando perguntas, uma atrás da outra, tão atento à próxima e a si que chega a não escutar o que está sendo dito, perdendo assim preciosas chances de ir mais fundo e além.

Maria Cristina Fernandes: elegância sem empáfia

A jornalista Maria Cristina Fernandes, autora de “Os candidatos”: elegância sem empáfia

Essa conjugação rara de repórter e analista transforma Os candidatos numa leitura importante para este período eleitoral. Mostra, por exemplo, como Aécio Neves, conciliador por natureza, muda sua estratégia e parte para a briga. Como Dilma Rousseff, contumaz gestora, arregaça as mangas para se provar uma articuladora política. E como Eduardo Campos tenta projetar em âmbito nacional a imagem de renovação que soube cultivar como governador de Pernambuco.

Até aí, dito assim, nestes termos, nada demais.  Mas composto no texto de Maria Cristina, vêm as nuances, os entreatos, as trivialidades e mesmo os grandes gestos que fazem da política algo tão apaixonante e necessário – e também tão odioso aos olhos do cidadão comum. (Impossível não recordar uma máxima de um mestre do jornalismo político, Janio de Freitas, segundo a qual, no jornalismo político, notícia é tudo aquilo que alguém quer dizer e outro quer omitir.)

Quente e frio, mas nunca morno

Os perfis de Os candidatos não são frívolos, nem grandiloquentes. Não põem o dedo em riste sobre o personagem em questão, nem são puxa-saco. São simultaneamente quentes e frios, o que não quer dizer que sejam mornos. Esse estilo permite à autora ser honesta intelectualmente, elogiosa e crítica ao mesmo tempo.

A Dilma Rousseff, por exemplo, refere-se como uma presidente que pecou pelo excesso de coragem, mas também pelo medo de enfrentar seus erros ao tentar romper o pacto conservador de mudança estabelecido pelo antecessor e criador Luiz Inácio Lula da Silva. E radiografa sua dificuldade de ampliar o diálogo do seu governo “para além dos muros de sua cidadela”.

De Aécio, não se esquiva do assunto das drogas que cercam o candidato e o provoca pessoalmente sobre isso. “É do jogo, tem lendas para todos os gostos, não podia imaginar que chegaria aonde cheguei sem carregar várias delas”, afirma-lhe o tucano.

Sobre Eduardo Campos, Maria Cristina radiografa dois eixos sob conflito de sua candidatura: o Estado gerencial e a herança de esquerda. Dos três, Dilma foi a única que não lhe deu acesso (carência compensada pela clássica prática de ouvir o entorno do personagem).

Da tragédia grega à esbórnia carioca

Como uma excelente leitora que é, Maria Cristina sabe o quão importante é saber os livros de formação de qualquer personagem – e o que eles dizem desses livros nos informa muito sobre o que são e o que pensam. Os candidatos, neste quesito, traz surpresas curiosíssimas.

A principal delas é a eleição, por Aécio, de Noites tropicais, de Nelson Motta, como sua principal leitura, como obra literária que ajuda a entender sua vida. Publicado em 2000, o livro do produtor e crítico musical fala dos festivais de rock em Saquarema, onde Aécio costumava pegar onda no fim dos anos 1970, e das primeiras discotecas. “É o Rio no qual vivi”, define Aécio para Maria Cristina, que escreve:

“A ditadura tinha vencido e virado a página do rock’n’roll e do idealismo hippie. A música agora era feita para dançar em lugares como o Dancin’Days, na Gávea, que daria nome à novela de Sonia Braga, e o Noite Cariocas, no morro da Urca. É um indiscreto relato em primeira pessoa de um meio artístico movido a ‘Música Popular Brasileira’ e a drogas”.

Eduardo Campos cita Infância e Memórias do Cárcere, ambos de Graciliano Ramos. O filho do escritor Maximiano Campos – amigo de intelectuais e artistas de Pernambuco – conviveu também com escritores, mas a praia sempre foi a política também na literatura. “Gostava do ambiente, do debate sobre literatura, arte e música, mas eu não fazia poesia, não escrevia conto. Fui dar palpite quando comecei a ler Celso Furtado e Veias abertas da América Latina [Eduardo Galeano]. Era aquilo que eu queria”, diz o candidato do PSB.

E a empedernida presidente? Ao frequentar um curso de tragédia em 1993, conta o livro, Dilma Rousseff ficou fascinada pela epopeia da conquista do poder de Filoctetes, de Sófocles. Curiosidade: é uma das poucas tragédias gregas sem personagens mulheres.

Conta o livro:

“Melhor arqueiro da expedição rumo a Troia, Filoctetes foi deixado em ilha deserta depois de ser mordido por uma serpente. A ferida no pé e os gritos de dor o relegaram ao abandono e ao isolamento. Dez anos depois, Ulisses, sem conseguir vencer os troianos, manda Neoptólemo, filho de seu maior rival, Aquiles, persuadi-lo a qualquer preço a voltar ao navio. O jovem resiste a mentir para convencer Filoctetes, que, ferido no orgulho, se mantinha altivo na ilha sem querer curvar sua honra àqueles que o haviam desprezado. A honestidade de Neoptólemo o cativa, ele se reintegra à expedição, é curado e volta de Troia como herói.”

Uma amiga de Dilma conta à autora do fascínio da presidente pela oposição entre a ética grega e a judaico-cristã. Ulisses não tinha medo ou culpa de não fazer o bem. Se Filoctetes incomodava, que fosse deixado numa ilha deserta nem que, depois, fosse preciso resgatá-lo. A culpa, porém, não nos deixa agir assim, mas o exercício do poder exige que você a toureie.

 

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