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sábado, 20 de dezembro de 2014 Política | 12:17

Antes do embargo, Cuba era tratada pelos EUA como bordel de luxo e paraíso fiscal

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“Pierre, preciso de sua ajuda”, disse um solene John Fitzgerald Kennedy para seu assessor Pierre Sallinger, ao chegar ao seu gabinete, na Casa Branca, no dia 7 de fevereiro de 1962. Era véspera do embargo que seria assinado pelo então presidente do Estados Unidos a Cuba de Fidel Castro.

“Ficaria encantado em ajudá-lo”, respondeu o assessor, pouco antes de ouvir um dos mais estranhos pedidos feitos por um inquilino da Casa Branca. “Necessito de muitos puros”, continuou o presidente.

Salinger teve um calafrio. Perguntou exatamente de quantos JFK precisaria. “Uns mil Petit Uppman”. Um calafrio ainda maior quando ouviu que a entrega deveria ser efetuada “ainda amanhã de manhã”.

O assessor se virou como pode e conseguiu notáveis 1.200 charutos cubanos da marca preferida de JFK. Ao tomar conhecimento da chegada da encomenda, Kennedy pegou um grande papel em sua gaveta e o assinou imediatamente.

A partir daquele momento, os charutos cubanos, como de resto todos os demais produtos cubanos, estavam proibidos nos Estados Unidos.

Esse era o tipo de hipocrisia, malandragem e pequenice a que os presidentes nos EUA estavam acostumados a tratar Cuba até então. A ilha, distante apenas 144 quilômetros da Flórida, era tratada como quintal, parque de diversões, bordéu a céu aberto.

E quem conhece de perto as entranhas do poder do regime cubano sabe que este é um dos grandes temores de uma eventual abertura ao capitalismo e, mais do que isso, às negociações com os EUA: evitar uma volta aos tempos pré-revolução. Um tempo de esbórnia para os endinheirados estadunidenses, amalgamados com corruptelas cubanas. Uma enxurrada de dólares, prostituição, jogatina e crime organizado.

Leia mais: Cubanos e castristas temem abertura econômica desenfreada

Bananas ou tirânicos

Desde 1898, quando livrou Cuba do domínio espanhol, até 1959, a América do Norte reinou absoluta naquela região do Caribe.  Os presidentes eleitos depois da desocupação militar da ilha, em 1902, resumiam-se a dois tipos bem característicos: ou eram frouxos e incompetentes ou tirânicos e corruptos.

JFK fuma um charuto em foto de 1963: um notável fã dos produtos cubanos, pediu mil charutos antes  de proibi-los em solo norte-americano.  Foto: Cecil Stoughton / White House/John F. Kennedy Presidential Library and Museum

JFK fuma um charuto em foto de 1963: um notável fã dos produtos cubanos, pediu mil charutos antes
de proibi-los em solo norte-americano.
Foto: Cecil Stoughton / White House/John F. Kennedy Presidential Library and Museum

Mas nem quando extrapolaram, desrespeitando direitos humanos e apelando para golpes (Fulgêncio Batista derrubou o ditador Gerardo Machado em 1933 e o banana Prío Socarrás em 1952), receberam críticas ou ameaças de Washington. Afinal, eram amigos, comparsas ou simplesmente úteis aos negócios norte-americanos, à consolidação do que apregoava uma estrofe de um sucesso musical da década de 1940: o rum e a Coca-Cola workin’ for the yankee dollar (trabalhando juntos para o dólar).

O sonho de uma “Cuba libre” resumiu-se ao drinque inventado pelos soldados enviados pelo presidente William McKinley para expulsar os espanhóis da ilha. José Martí, morto numa emboscada em 1895, não chegou a ver Cuba livre do secular ocupante europeu, mas alertou para a possível substituição dos espanhóis pelos norte-americanos.

Muitos anos mais tarde, os cubanos entravam com o rum, a cana-de-açúcar, os charutos, a música, as mulheres e a jogatina. Os norte-americanos com os investimentos, a Coca-Cola, os carros de última geração e todo o excedente da  produção industrial made in USA.

Cuba era um quintal. Um paraíso fiscal e um bordel de luxo.

Consta que o próprio JFK, então senador, andou por lá participando de uma orgia com três call-girls no Hotel Comodoro. Foi a convite do mafioso Santo Trafficante.

Com Batista no poder – que Fidel e Che Guevara derrubaram – o quintal conquistou fama internacional. Seus hotéis, cassinos e clubes noturnos atraíam astros de cinema, empresários, políticos, playboys e, digamos, damas. Sinatra e Ava Gardner eram habitués. A mordomia da elite-cubana-acasalada-com-endinheirados-estadunidenses, com Sinatra cantando ao fundo, era bancada pela Máfia.

Seu réquiem deu-se no réveillon de 1958. Foi inesquecível para os gringos, para os cubanos e para o Batista. Convencido de que não tinha mais como resistir ao avanço dos rebeldes barbudos comandados por Fidel, o ditador cubano interrompeu a festa, ergueu um brinde, anunciou sua renúncia e embarcou às pressas para a República Dominicana. Levou com ele 180 cupinchas e 300 milhões de dólares.

Fidel já era mito, herói e símbolo da oposição a Batista desde 1952. Em fevereiro de 1957 já aparecera na primeira página do The New York Times, na célebre série de reportagens feita pelo jornalista Herbert Matthews na Sierre Maestra.

Foi o melancólico desfecho de uma tirania que durou 25 anos – duas décadas e meia de poder do crime organizado sobre a economia, a política e a sociedade de Cuba. Batista era sócio de todas as negociatas, com a conivência da Casa Branca e seus sólidos motivos para considerar Cuba um protetorado.

Com cinco décadas de domínio de Fidel e Cuba amarrada dos pés à cabeça por um embargo, de um lado, e o fim da União Soviética que lhe dava dinheiro e apoio, de outro, ficou fácil para as gerações seguintes apontar o dedo em riste contra os castristas – ou simplesmente mitificar a revolução cubana.

Mas as lembranças da esbórnia pré-revolução se tornam tão fortes para alguns quanto os ideais revolucionários de uma ilha de liberdade, respeito integral aos direitos civis, justiça, igualdade, etc.. Os ideais podem ter ficado no plano dos ideais – tolhidos pelo embargo e pelos equívocos de percurso – mas os ecos do tempo em que a ilha era o quintal, o bordel de luxo e o paraíso fiscal dos EUA são bem reais. E um reforço a quem vê os dólares dos EUA como algo muito bem-vindo, mas um presente a ser recebido com cautela.

 

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Política | 10:31

Cubanos e castristas temem abertura econômica desenfreada

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Noves fora o histórico anúncio de reaproximação diplomática dos Estados Unidos e de Cuba, feito na quarta-feira por Barack Obama e Raúl Castro – primeiro passo para o fim de um embargo de 53 anos –, a abertura econômica cubana para o capitalismo seguirá o mesmo modelo adotado nos últimos anos: lenta, segura e gradual.

Tem sido esta a política definida, exibida e executada desde que, no dia 18 de fevereiro de 2008, o lendário e chapa branca Granma, principal periódico do País, trouxe a carta de renúncia ao poder do “Comandante-em-Chefe” Fidel Castro, após quase meio século à frente do governo da ilha e havia dois anos já afastado na prática devido aos seus problemas de saúde. Uma semana depois, os deputados da Assembleia Nacional elegeriam o irmão mais novo de Fidel como novo presidente de Cuba.

O fim da União Soviética já forçara o país a uma radical reorientação de sua economia, buscando novas formas de inserção no mercado internacional – basicamente, o incentivo ao turismo e à iniciativa privada estrangeira para compensar a perda dos subsídios soviéticos. Com Castro, vieram a autorização para a atuação de alguns profissionais liberais, a compra de imóveis, automóveis, computadores pessoais e celulares, ampliação da atividade agrícola privada, além da abertura para que cubanos viajem ao exterior. A cada ano, pequenas mudanças. Graduais, ora hesitantes, ora constantes.

Não será muito diferente a partir daqui, mesmo após o anúncio desta semana. Mas com a vantagem do fim do isolamento em relação aos EUA – e isso é muito.

Os presidentes Barack Obama e Raúl Castro

Os presidentes Barack Obama e Raúl Castro, protagonistas de um anúncio histórico esta semana. Foto: AP Photo/SABC Pool

Conforme Pensata tem ouvido de castristas convictos, fiéis amigos do regime cubano e analistas políticos que acompanham à distância a lenta, porém constante, inflexão econômica e política de Cuba, o maior temor da cúpula daquele País é uma abertura desenfreada: sem controle, Cuba se escancararia aos dólares capitalistas e ao que os socialistas cubanos consideram suas anomalias imediatas mais perversas, especialmente a desigualdade excessiva, a ambição individual desmedida e o fim da capacidade de manter as conquistas sociais nas áreas da saúde e da educação.

Não convém, portanto, esperar nada próximo à vertiginosa velocidade do modelo chinês de abertura, iniciada quando Deng Xiaoping assumiu o poder após a morte de Mao Tse-Tung, na segunda metade da década de 1970. Quem conhece, porém, a abertura chinesa, sabe que foi conduzida com mão de ferro: foram três décadas de passos velozes e firmes, de braços dados com o capitalismo e a globalização para transformações econômicas, sociais e políticas da sociedade chinesa, mas sem que nada passasse sem o crivo e controle das mãos do Estado.

Os 53 anos de embargo, o tamanho e a complexidade da pobreza do povo cubana, a lembrança do que ocorreu com a entrada do Leste europeu na órbita capitalista, o temor de uma invasão dos Estados Unidos e a memória dos tempos pré-revolução (quando Cuba era um parque de diversões dos estadunidenses endinheirados)  são os ingredientes para tornarem os castristas mais arredios do que os colegas chineses a uma abertura capitalista, mesmo dentro dos limites de manutenção do regime centralizado e monopartidário como foi o modelo da China.

Leia também: Cuba era tratada pelos EUA como bordel de luxo e paraíso fiscal 

Como afirma Frei Betto, amigo pessoal de Fidel Castro, Cuba não tem a intenção de voltar ao capitalismo. “Cuba deseja manter uma sociedade na qual os direitos sociais são garantidos acima dos direitos pessoais”, disse o frade dominicano, após o anúncio de Obama e Raúl Castro. Para ele, o maior interesse cubano é manter relações com os Estados Unidos.

Frei Betto sabe do que fala. Passou mais de uma década viajando anualmente a Cuba. Durante o período construiu pontes entre o governo e a Igreja Católica cubana. Nenhum dos dois lados se bicava até o início dos anos 1980. Os bispos eram alguns dos maiores adversários de Fidel. Betto ajudou a vencer a resistência dos bispos e ganhou a amizade eterna do líder cubano. É de Frei Betto o livro Fidel e a Religião, lançado em 1985.

Frei Betto e Fidel Castro em encontro este ano em Havana. Foto: CubaDebate

Frei Betto e Fidel Castro em encontro este ano em Havana. Foto: CubaDebate

Os dois se encontraram este ano em Havana. Com direito a uma nota publicada na capa do Granma, acompanhada de uma imagem dos dois juntos – a nota lembra as “fraternais relações” que Fidel mantém há anos com o brasileiro.

A menção à religião e aos católicos aqui não é sem propósito. Há simbologias por todos os lados. Primeiro porque a decisão anunciada esta semana teve a participação decisiva do Papa Francisco: o Vaticano e o Canadá facilitaram os contatos entre as duas partes oferecendo às delegações a discrição necessária ao longo de um processo de diálogo que durou cerca de 18 meses.

Segundo: como lembrou o escritor cubano Leonardo Padura, a cada 17 de dezembro, data do anúncio, os católicos cubanos e os crentes da santeria ioruba celebram o dia de São Lázaro ou o de Babalú Ayé. “Ou festejam os dois, o santo e o orixá, porque um cubano pode acreditar em muitas coisas ao mesmo tempo”. Pois num dia de um santo católico, com a enorme ajuda do papa católico, Padura se viu assistindo ao que muitos da geração dele já haviam perdido a esperança de assistir: que Cuba e EUA “passassem   por cima de todas as suas diferenças políticas e históricas e que seus governos se dispusessem a estender-se as mãos sobre as águas do estreito da Flórida”.

Há seis meses estive no Rio entre Padura e Frei Betto conversando justamente sobre Cuba e ali o escritor cubano sublinhava as transformações por que passava seu país. Assim começava a pensata escrita a partir daquele encontro, ocorrido na Casa do Saber do Rio:

O escritor cubano Leonardo Padura

Leonardo Padura: “Hoje as pessoas têm muito mais liberdade em Cuba”

“Cuba está mudando. Pequenas mudanças, é certo, mas muitas o suficiente para, somadas, transformarem-se numa grande mudança. A estrutura do País pode ser a mesma, o sistema de partido único – o Partido Comunista acima de todas as coisas – continua vigente, os problemas e contradições seguem intensos, mas mudanças na economia e na realidade social vão provocar, cedo ou tarde, significativas mudanças políticas.”

Tanto Padura quanto Frei Betto concordavam ali – e continuam a concordar hoje – que o maior temor é Cuba tornar-se uma “mini-China”, guardadas todas as devidas proporções. Por mini-China leia-se: um governo autoritário de economia capitalista, com suas anomalias e incapaz de recriar o que consideram as melhores aspirações revolução cubana. (Leia mais aqui)

Abertura, sim; capitalismo, não

Não seria, portanto, um discurso para agradar a plateia doméstica o tom adotado por Raúl Castro ao encerrar os trabalhos da Assembleia Nacional, mesmo quando anunciava políticas de distensão pró-mercado. Um no ferro, outro na ferradura: enquanto dizia coisas como “temos o dever fundamental de corrigir os erros que cometemos nessas cinco décadas de construção do socialismo em Cuba”, Raúl afirmava também não ter sido eleito presidente em Cuba “para restaurar o capitalismo”.

Mais: “O planejamento, e não o mercado, será o traço definitivo da economia e não se permitirá a concentração da propriedade. Mais claro que isso, nem água”, disse ao encerrar a Assembleia Nacional, há exatos quatro anos, ao defender abertura, e não capitalismo, em seu país.

O escritor Fernando Morais, outro fiel castrista, disse algo semelhante a Frei Betto, ao declarar à BBC não ver sinais  de mudanças ideológicas no regime, com um argumento razoável: “Eles não se curvaram debaixo de agressão militar, diplomática e comercial”, lembrou Morais. “Não vão fazer agora, que a retomada de relações está sendo feita pacificamente”.

(Curiosidade histórica: foi ele, Frei Betto e Chico Buarque o trio que organizou, em 1992, organizar um voo de solidariedade a Cuba, mais uma vez então ameaçada pelos Estados Unidos. Fretaram um avião de passageiros e ratearam o preço entre uma centena de artistas, intelectuais e militantes anônimos convidados por eles para a empreitada. O voo acabaria desencadeando uma polêmica pública: dias antes do embarque, o governo cubano condenou à morte e executou um homem que matara um soldado, ao tentar sequestrar um barco para fugir rumo aos Estados Unidos. Eles decidiram manter o voo, apesar da execução, e enfureceram a imprensa, que os surraram durante uma semana.)

Obama: embargo isolou EUA, não Cuba

A “agressão” a que se refere Morais, todos conhecem: Cuba resistiu a mais de 50 anos de bloqueio.  Hoje aos 88 anos de idade, Fidel Castro viu passar oito presidentes dos Estados Unidos – quatro dos quais ele enterrou – e mais de 20 diretores da CIA que tiveram o projeto de assassiná-lo.

Como afirmou o próprio Obama, a estratégia dos EUA não isolou Cuba, mas os próprios EUA. Durante a reunião anual da Assembleia Geral das Nações Unidas, em outubro, pelo 23o ano consecutivo, 188 países votaram contra as sanções impostas à população cubana. Da mesma maneira, os EUA são o único país do continente americano sem relações diplomáticas e comerciais normais com Cuba.

Obama lembrou essa realidade em seu discurso, quando afirmou que “nenhuma nação nos seguiu na imposição dessas sanções” e que “esses últimos 50 a anos demonstraram que o isolamento não funcionou. É tempo de adotar um novo enfoque”.

Múltiplas forças

O sociólogo Mauricio Font é um cubano radicado há décadas em Nova York. Estudei com ele na Universidade da Cidade de Nova York, a Cuny University, onde Font dá aulas sobre globalização e desenvolvimento. Amigo de Fernando Henrique Cardoso e de muitos cientistas sociais brasileiras, o professor é autor de Cuban Counterpoints e Transforming Brazil: a Reform Era in Perspective.

Há alguns acompanho suas análises sobre o regime cubano e seu olhar atento às mudanças na política e na economia. Como quase todos os analistas, é mais otimista nas transformações econômicas do que nas políticas, sublinhando que os caminhos russo e chinês são os menos improváveis nessa mudança, na sua avaliação. Mas Font acha que o pêndulo da revisão econômica depende em grande parte da morte de Fidel e dos envelhecidos rebeldes da Sierra Maestra. Sempre enxergou a lentidão hesitante de Raúl Castro à força da linha-dura ainda presente no governo cubano.

Eis um conjunto complexo de forças múltiplas que se movem o tempo inteiro: a dinâmica internacional, para a qual Barack Obama e o Papa Francisco acabam de dar uma enorme contribuição; a força da velha guarda linha dura cubana, que sempre se alimentou do embargo e do inimigo norte-americano, bandeira que tende a perder força a partir de agora; e os jovens cubanos e o que desejam fazer do legado de Fidel, incluindo o profundo nacionalismo contido nessa herança.

Tudo somado, há razões para otimismos. Não que tenha uma revolução à vista a começar da noite para o dia, mas mudanças consistentes a promover à moda cubana – lenta, gradual e segura.

 

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