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sábado, 20 de dezembro de 2014 Política | 10:31

Cubanos e castristas temem abertura econômica desenfreada

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Noves fora o histórico anúncio de reaproximação diplomática dos Estados Unidos e de Cuba, feito na quarta-feira por Barack Obama e Raúl Castro – primeiro passo para o fim de um embargo de 53 anos –, a abertura econômica cubana para o capitalismo seguirá o mesmo modelo adotado nos últimos anos: lenta, segura e gradual.

Tem sido esta a política definida, exibida e executada desde que, no dia 18 de fevereiro de 2008, o lendário e chapa branca Granma, principal periódico do País, trouxe a carta de renúncia ao poder do “Comandante-em-Chefe” Fidel Castro, após quase meio século à frente do governo da ilha e havia dois anos já afastado na prática devido aos seus problemas de saúde. Uma semana depois, os deputados da Assembleia Nacional elegeriam o irmão mais novo de Fidel como novo presidente de Cuba.

O fim da União Soviética já forçara o país a uma radical reorientação de sua economia, buscando novas formas de inserção no mercado internacional – basicamente, o incentivo ao turismo e à iniciativa privada estrangeira para compensar a perda dos subsídios soviéticos. Com Castro, vieram a autorização para a atuação de alguns profissionais liberais, a compra de imóveis, automóveis, computadores pessoais e celulares, ampliação da atividade agrícola privada, além da abertura para que cubanos viajem ao exterior. A cada ano, pequenas mudanças. Graduais, ora hesitantes, ora constantes.

Não será muito diferente a partir daqui, mesmo após o anúncio desta semana. Mas com a vantagem do fim do isolamento em relação aos EUA – e isso é muito.

Os presidentes Barack Obama e Raúl Castro

Os presidentes Barack Obama e Raúl Castro, protagonistas de um anúncio histórico esta semana. Foto: AP Photo/SABC Pool

Conforme Pensata tem ouvido de castristas convictos, fiéis amigos do regime cubano e analistas políticos que acompanham à distância a lenta, porém constante, inflexão econômica e política de Cuba, o maior temor da cúpula daquele País é uma abertura desenfreada: sem controle, Cuba se escancararia aos dólares capitalistas e ao que os socialistas cubanos consideram suas anomalias imediatas mais perversas, especialmente a desigualdade excessiva, a ambição individual desmedida e o fim da capacidade de manter as conquistas sociais nas áreas da saúde e da educação.

Não convém, portanto, esperar nada próximo à vertiginosa velocidade do modelo chinês de abertura, iniciada quando Deng Xiaoping assumiu o poder após a morte de Mao Tse-Tung, na segunda metade da década de 1970. Quem conhece, porém, a abertura chinesa, sabe que foi conduzida com mão de ferro: foram três décadas de passos velozes e firmes, de braços dados com o capitalismo e a globalização para transformações econômicas, sociais e políticas da sociedade chinesa, mas sem que nada passasse sem o crivo e controle das mãos do Estado.

Os 53 anos de embargo, o tamanho e a complexidade da pobreza do povo cubana, a lembrança do que ocorreu com a entrada do Leste europeu na órbita capitalista, o temor de uma invasão dos Estados Unidos e a memória dos tempos pré-revolução (quando Cuba era um parque de diversões dos estadunidenses endinheirados)  são os ingredientes para tornarem os castristas mais arredios do que os colegas chineses a uma abertura capitalista, mesmo dentro dos limites de manutenção do regime centralizado e monopartidário como foi o modelo da China.

Leia também: Cuba era tratada pelos EUA como bordel de luxo e paraíso fiscal 

Como afirma Frei Betto, amigo pessoal de Fidel Castro, Cuba não tem a intenção de voltar ao capitalismo. “Cuba deseja manter uma sociedade na qual os direitos sociais são garantidos acima dos direitos pessoais”, disse o frade dominicano, após o anúncio de Obama e Raúl Castro. Para ele, o maior interesse cubano é manter relações com os Estados Unidos.

Frei Betto sabe do que fala. Passou mais de uma década viajando anualmente a Cuba. Durante o período construiu pontes entre o governo e a Igreja Católica cubana. Nenhum dos dois lados se bicava até o início dos anos 1980. Os bispos eram alguns dos maiores adversários de Fidel. Betto ajudou a vencer a resistência dos bispos e ganhou a amizade eterna do líder cubano. É de Frei Betto o livro Fidel e a Religião, lançado em 1985.

Frei Betto e Fidel Castro em encontro este ano em Havana. Foto: CubaDebate

Frei Betto e Fidel Castro em encontro este ano em Havana. Foto: CubaDebate

Os dois se encontraram este ano em Havana. Com direito a uma nota publicada na capa do Granma, acompanhada de uma imagem dos dois juntos – a nota lembra as “fraternais relações” que Fidel mantém há anos com o brasileiro.

A menção à religião e aos católicos aqui não é sem propósito. Há simbologias por todos os lados. Primeiro porque a decisão anunciada esta semana teve a participação decisiva do Papa Francisco: o Vaticano e o Canadá facilitaram os contatos entre as duas partes oferecendo às delegações a discrição necessária ao longo de um processo de diálogo que durou cerca de 18 meses.

Segundo: como lembrou o escritor cubano Leonardo Padura, a cada 17 de dezembro, data do anúncio, os católicos cubanos e os crentes da santeria ioruba celebram o dia de São Lázaro ou o de Babalú Ayé. “Ou festejam os dois, o santo e o orixá, porque um cubano pode acreditar em muitas coisas ao mesmo tempo”. Pois num dia de um santo católico, com a enorme ajuda do papa católico, Padura se viu assistindo ao que muitos da geração dele já haviam perdido a esperança de assistir: que Cuba e EUA “passassem   por cima de todas as suas diferenças políticas e históricas e que seus governos se dispusessem a estender-se as mãos sobre as águas do estreito da Flórida”.

Há seis meses estive no Rio entre Padura e Frei Betto conversando justamente sobre Cuba e ali o escritor cubano sublinhava as transformações por que passava seu país. Assim começava a pensata escrita a partir daquele encontro, ocorrido na Casa do Saber do Rio:

O escritor cubano Leonardo Padura

Leonardo Padura: “Hoje as pessoas têm muito mais liberdade em Cuba”

“Cuba está mudando. Pequenas mudanças, é certo, mas muitas o suficiente para, somadas, transformarem-se numa grande mudança. A estrutura do País pode ser a mesma, o sistema de partido único – o Partido Comunista acima de todas as coisas – continua vigente, os problemas e contradições seguem intensos, mas mudanças na economia e na realidade social vão provocar, cedo ou tarde, significativas mudanças políticas.”

Tanto Padura quanto Frei Betto concordavam ali – e continuam a concordar hoje – que o maior temor é Cuba tornar-se uma “mini-China”, guardadas todas as devidas proporções. Por mini-China leia-se: um governo autoritário de economia capitalista, com suas anomalias e incapaz de recriar o que consideram as melhores aspirações revolução cubana. (Leia mais aqui)

Abertura, sim; capitalismo, não

Não seria, portanto, um discurso para agradar a plateia doméstica o tom adotado por Raúl Castro ao encerrar os trabalhos da Assembleia Nacional, mesmo quando anunciava políticas de distensão pró-mercado. Um no ferro, outro na ferradura: enquanto dizia coisas como “temos o dever fundamental de corrigir os erros que cometemos nessas cinco décadas de construção do socialismo em Cuba”, Raúl afirmava também não ter sido eleito presidente em Cuba “para restaurar o capitalismo”.

Mais: “O planejamento, e não o mercado, será o traço definitivo da economia e não se permitirá a concentração da propriedade. Mais claro que isso, nem água”, disse ao encerrar a Assembleia Nacional, há exatos quatro anos, ao defender abertura, e não capitalismo, em seu país.

O escritor Fernando Morais, outro fiel castrista, disse algo semelhante a Frei Betto, ao declarar à BBC não ver sinais  de mudanças ideológicas no regime, com um argumento razoável: “Eles não se curvaram debaixo de agressão militar, diplomática e comercial”, lembrou Morais. “Não vão fazer agora, que a retomada de relações está sendo feita pacificamente”.

(Curiosidade histórica: foi ele, Frei Betto e Chico Buarque o trio que organizou, em 1992, organizar um voo de solidariedade a Cuba, mais uma vez então ameaçada pelos Estados Unidos. Fretaram um avião de passageiros e ratearam o preço entre uma centena de artistas, intelectuais e militantes anônimos convidados por eles para a empreitada. O voo acabaria desencadeando uma polêmica pública: dias antes do embarque, o governo cubano condenou à morte e executou um homem que matara um soldado, ao tentar sequestrar um barco para fugir rumo aos Estados Unidos. Eles decidiram manter o voo, apesar da execução, e enfureceram a imprensa, que os surraram durante uma semana.)

Obama: embargo isolou EUA, não Cuba

A “agressão” a que se refere Morais, todos conhecem: Cuba resistiu a mais de 50 anos de bloqueio.  Hoje aos 88 anos de idade, Fidel Castro viu passar oito presidentes dos Estados Unidos – quatro dos quais ele enterrou – e mais de 20 diretores da CIA que tiveram o projeto de assassiná-lo.

Como afirmou o próprio Obama, a estratégia dos EUA não isolou Cuba, mas os próprios EUA. Durante a reunião anual da Assembleia Geral das Nações Unidas, em outubro, pelo 23o ano consecutivo, 188 países votaram contra as sanções impostas à população cubana. Da mesma maneira, os EUA são o único país do continente americano sem relações diplomáticas e comerciais normais com Cuba.

Obama lembrou essa realidade em seu discurso, quando afirmou que “nenhuma nação nos seguiu na imposição dessas sanções” e que “esses últimos 50 a anos demonstraram que o isolamento não funcionou. É tempo de adotar um novo enfoque”.

Múltiplas forças

O sociólogo Mauricio Font é um cubano radicado há décadas em Nova York. Estudei com ele na Universidade da Cidade de Nova York, a Cuny University, onde Font dá aulas sobre globalização e desenvolvimento. Amigo de Fernando Henrique Cardoso e de muitos cientistas sociais brasileiras, o professor é autor de Cuban Counterpoints e Transforming Brazil: a Reform Era in Perspective.

Há alguns acompanho suas análises sobre o regime cubano e seu olhar atento às mudanças na política e na economia. Como quase todos os analistas, é mais otimista nas transformações econômicas do que nas políticas, sublinhando que os caminhos russo e chinês são os menos improváveis nessa mudança, na sua avaliação. Mas Font acha que o pêndulo da revisão econômica depende em grande parte da morte de Fidel e dos envelhecidos rebeldes da Sierra Maestra. Sempre enxergou a lentidão hesitante de Raúl Castro à força da linha-dura ainda presente no governo cubano.

Eis um conjunto complexo de forças múltiplas que se movem o tempo inteiro: a dinâmica internacional, para a qual Barack Obama e o Papa Francisco acabam de dar uma enorme contribuição; a força da velha guarda linha dura cubana, que sempre se alimentou do embargo e do inimigo norte-americano, bandeira que tende a perder força a partir de agora; e os jovens cubanos e o que desejam fazer do legado de Fidel, incluindo o profundo nacionalismo contido nessa herança.

Tudo somado, há razões para otimismos. Não que tenha uma revolução à vista a começar da noite para o dia, mas mudanças consistentes a promover à moda cubana – lenta, gradual e segura.

 

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sexta-feira, 18 de abril de 2014 História, Literatura, Política | 11:59

“Hoje as pessoas têm muito mais liberdade em Cuba”

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Cuba está mudando. Pequenas mudanças, é certo, mas muitas o suficiente para, somadas, transformarem-se numa grande mudança. A estrutura do País pode ser a mesma, o sistema de partido único – o Partido Comunista acima de todas as coisas – continua vigente, os problemas e contradições seguem intensos, mas mudanças na economia e na realidade social vão provocar, cedo ou tarde, significativas mudanças políticas.

Cumprindo a sina de quase todo artista cubano quando está fora de seu país, o escritor Leonardo Padura precisou analisar o passado, o presente e o futuro de Cuba a partir do regime implantado pela revolução cubana, há mais de 50 anos. “Apesar dos problemas e limitações, hoje as pessoas têm muito mais liberdade de expressão do que tinham há alguns anos”, disse Padura.

É dele a avaliação das mudanças em Cuba, expressada esta semana, quando esteve na Casa do Saber do Rio, ao lado do colega brasileiro Frei Betto – foi um rico e bem humorado bate-papo sobre romance O homem que amava os cachorros, lançado no Brasil pela Boitempo Editorial.

Padura fez um périplo no Brasil nos últimos dias: primeiro esteve em Brasília, na Bienal Brasil do Livro e da Leitura; em seguida em São Paulo, num bate-papo com o escritor Ricardo Lísias, da jornalista Sylvia Colombo e do historiador Gilberto Maringoni. Por fim, no Rio com Frei Betto, com participação ainda do jornalista Leonardo Cazes, de O Globo.

No último, à certa altura, perguntado por que continua a viver em Cuba, apesar das dificuldades enfrentadas pelo país e das limitações de liberdade, por exemplo, Padura respondeu: “Moro em Cuba porque sou cubano”, seguido por muitos risos da plateia que lotou o auditório da Casa. “Vivo na mesma casa onde nasci, onde meu pai e meu avô viveram. Sou fundamentalmente um escritor cubano”, emendou, reconhecendo o vínculo não somente intelectual, mas também sentimental com o lugar em que se sente melhor para escrever.

Romance investigativo de fundo histórico

O homem que amava os cachorros Leonardo Padura Tradução Helena Pitta Boitempo Editorial 590 páginas; R$ 69,00

O homem que amava os cachorros
Autor: Leonardo Padura
Tradução: Helena Pitta
Boitempo Editorial
590 páginas; R$ 69,00

E como Padura escreve… O homem que amava os cachorros é um exemplo de uma literatura extraordinária. Nas quase 600 páginas da edição brasileira, o escritor narra magistralmente as trajetórias do líder soviético Leon Trotski (1879-1940) e de seu algoz, o militante espanhol Ramón Mercader. É um livro de ficção que narra fatos históricos, reais. Segue, portanto, a tendência contemporânea de romances investigativos de fundo histórico, mesclando ensaio, testemunho pessoal e realidade.

Ápice até aqui de sua literatura, O homem que amava os cachorros o levou à condição de um dos grandes escritores de língua espanhola – sendo comparado ao catalão Manuel Vásquez Montalbán. Nenhum exagero na comparação.

A referência onipresente a Cuba em todos os debates dos quais participou no Brasil não é gratuita. No pleno voo de uma imaginação ficcional conjugada com o rigor da pesquisa histórica, Padura transporta o leitor pela política dos anos 30 e 40 até Cuba dos nossos dias, depois do desmoronamento do bloco soviético.

“Quis utilizar a história do assassinato de Trotski para refletir sobre a perversão da grande utopia do século XX, esse processo em que muitos investiram as suas esperanças e tantos de nós perderam sonhos, anos e até sangue e vida”, explicou. É, portanto, uma obra de inquietação e desencanto com as utopias desfeitas pela realidade.

Antes que os anticastristas e chatos em geral se animem, convém alertar que, embora crítico da utopia socialista e cubana, Padura não adota maniqueísmos – atributo que faz do livro uma alta literatura.

Sua virtude foi não escrever um livro linear. Não fez de ninguém herói ou vilão. Retrata a sociedade cubana com vigor e talento ao mostrar as contradições do que significa a  tentativa de construção de uma sociedade socialista. Desmascara a vilania, o desrespeito, a violência desmedida e injustificável dos quais o socialismo não está livre.

Desmistifica a ideia poética de revolução – como disse Breno Altman num dos debates sobre o livro, promovido pela Boitempo em São Paulo, uma revolução é rara na história porque produz um preço muito alto em matéria de ruptura, estresse social e destruição, algo que poucas sociedades se dispõem a pagar.

Mas Padura faz tudo isso dando relevo ao que os personagens têm de humano. E como toda humanidade, repleta de contradições, complexidades, verso, reverso e anverso.

Mais política, menos arte

“Tenho pena de vocês, escritores cubanos”, disse-lhe Frei Betto no debate no Rio. “São vistos mais como pró ou contra o governo de Cuba do que como criadores de uma obra de arte. Você deve sofrer isso em muitos lugares”, completou, ao ressaltar que Padura não escreve para “dar recado”, e sim para pôr personagens dentro de “valores sérios, como a liberdade humana, a participação política, o amor, a diferença”.

Amigo de Fidel Castro, Frei Betto passou mais de uma década viajando anualmente a Cuba.  Durante o período construiu pontes entre o governo e a Igreja Católica cubana. Nenhum dos dois lados se bicava até o início dos anos 1980. Os bispos eram alguns dos maiores adversários de Fidel. Hoje Frei Betto concorda com o diagnóstico de Padura sobre as grandes pequenas mudanças de Cuba. Ele as vê de forma positiva, mas com preocupação:

“O principal inimigo não está fora de Cuba, não é o bloqueio econômico nem os EUA”, disse. “O maior inimigo é o absenteísmo, o autoritarismo, a dificuldade de reinventar e recriar a revolução cubana. Temo que Cuba venha a se tornar uma mini-China, guardadas todas as devidas proporções”. Por “mini-China” leia-se: um governo de caráter socialista com uma economia capitalista, capaz de trazer à sociedade cubana uma “série de anomalias”.

Trotski x Stalin

O escritor cubano Leonardo Padura: "A literatura é o reino da liberdade"

Leonardo Padura: “O romance é o reino da liberdade”

Leonardo Padura tinha 34 anos em outubro de 1989, momento em que o Muro de Berlim se inclinava perigosamente até começar a desmoronar e, semanas depois, desmilinguir-se. Padura acabara de visitar, na Cidade do México, a casa onde viveu e morreu Trotski. Transformada em museu, a casa parecia uma prisão, uma fortaleza onde a mão de Stalin foi capaz de chegar para assassiná-lo. O jovem escritor decidiu ali escrever um romance tendo Trotski como personagem.

Àquela altura, um dos principais líderes da Revolução Russa de 1917 ainda era um personagem desconhecido para a maioria dos cubanos da geração de Padura: quando Stalin se transformou no senhor absoluto da União Soviética e principal líder do que se convencionou chamar de movimento comunista internacional, Trotski virou o mais destacado dos hereges de um regime que não admitia dissidências. Tentou lugar com Stalin pela liderança da União Soviética após a morte de Vladimir Lênin em 1924. Perdeu, exilou-se em 1929 e se transformou no capeta em forma de gente pelo alto comando do Estado soviético. Estava marcado para morrer.

Até ali uma espécie de protetorado soviético, Cuba havia apagado dos cubanos qualquer vestígio de documento ou estudo sobre Trotski. “Em Cuba, não nos permitiam conhecer quase nada de Trotski”, lembra Padura, “e a única coisa que sabíamos é que tinha sido o grande inimigo da revolução, o grande traidor dos ideais bolcheviques. Isso despertou minha curiosidade”.

O romance, porém, só estaria pronto dez anos depois.

Uma trama policial com desfecho conhecido

Se um personagem é Trotski, sua saga errante no exílio até instalar-se no México, outro é o narrador, Ivan Cárdenas Maturell (o homem que amava os cachorros e, este sim, personagem fictício), vítima de uma atmosfera sufocante e de uma utopia frustrada. Para ele, porém, resta a esperança de que alguma vez a utopia inalcançada seja reconstruída.

O terceiro personagem-chave é, claro, o assassino de Trotski: Ramón Mercader (1914-1978), agente espanhol comunista que se infiltrou na casa do soviético na Cidade do México e cravou-lhe uma picareta na cabeça em agosto de 1940.

Soa curiosa uma trama policial cujo desfecho – o assassinato de Troski e suas circunstâncias histórica – é conhecido por todos. O talento ficcional de Padura salva o romance de um possível dilema de previsibilidade. Mesmo talento que o faz não tratar Mercader de maneira maniqueísta. Ele é algoz mas também é vítima.

Mercader era um lutador antifascista, tipo comum na Europa dos anos 1930. Participava da Guerra Civil espanhola quando foi selecionado pelos órgãos de inteligência soviéticos. Era um lutador normal convertido em outra pessoa, segundo Padura.

Mas Mercader não era um mero assassino de aluguel, um fanático a serviço das causas autoritárias de Stalin. Ele sabia o que estava fazendo e o fez por convicção e vontade. Foi um dos típicos militantes comunistas supostamente de boa-fé, acreditando que cumpriam uma exigência história para o desenvolvimento e triunfo da ideia socialista. Com isso, chegaram ao fanatismo e ao assassinato – Mercader e muitos outros.

Como afirmou Frei Betto no debate com o escritor cubano, a fé fundamentalista dos militantes comunistas é semelhante ao fundamentalismo religioso. Na União Soviética – país que visitou quatro vezes – constatou algo surpreendente: os revolucionários apenas haviam trocado o czar russo pelo secretário-geral do Partido Comunista. “A fé na autoridade passou a prevalecer sobre a fé na verdade”, disse. Para ele, Cuba nunca deu espaço para o pensamento fundamentalista, apesar de pagar todo o tributo que pagou à União Soviética.

Frei Betto garante que em Cuba não há mais hereges ou acusações, ameaças e punição a dissidentes. Padura reforçou: hoje há mais liberdade em Cuba. No seu argumento, até os anos 80 e 90, O homem que amava os cachorros não seria publicado por lá e possivelmente ele teria sido expulso do emprego. Tampouco ganharia prêmio no país, como ganhou – feito inédito em sua geração.

Sejamos simpáticos ou não à utopia cubana, é preciso reconhecer, no entanto, que a liberdade ainda incipiente faz naufragar a utopia do projeto da revolução tanto quanto o não cumprimento das expectativas criadas em torno dela.

 

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