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sábado, 20 de dezembro de 2014 História, Literatura, Política | 07:00

Coletânea conta a ditadura na voz de 18 autores e organizador se choca com quem prega hoje a volta dos militares

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Perseguição política, violência, medo e o peso de chumbo imposto pelo regime instaurado em 31 de março 1964 são alguns dos temas dos 18 contos que compõem Nos idos de março, antologia publicada recentemente pela Geração Editorial. O livro tem organização do escritor Luiz Ruffato e traz autores que tiveram diferentes relações com a ditadura militar no Brasil. São 18 vozes da literatura que viveram durante e após o golpe e, juntos, fazem uma espécie de desfecho de um ano que marcou o cinquentenário do início da ditadura que duraria longos 21 anos.

Nos idos de março Luiz Ruffato Geração Editorial 288 páginas; R$ 29,90

Nos idos de março
Luiz Ruffato
Geração Editorial
288 páginas; R$ 29,90

Foi um 2014 repleto de lançamentos relevantes (Pensata analisou alguns deles; veja lista ao fim deste post). O tema se somou a um ano de forte calor eleitoral, graças à sucessão presidencial, o que escancarou preconceitos e opiniões polêmicas nas redes sociais.

“Temos hoje algumas pessoas ignorantes ou desavisadas que pregam a volta da ditadura”, opina Ruffato sobre o que se viu nas redes sociais durante o ano. Não só com a pregação pró-ditadura mas também com o nível dos debates e a intolerância às ideias diferentes. Ele diz ver seu livro como uma forma de propor reflexões sobre esse período.

Ruffato é autor de uma série de antologias temáticas, como Sabe com quem está falando? – Contos sobre corrupção e poder e Fora da Ordem e do Progresso. Também publicou dois livros sobre as mulheres que estão fazendo a nova Literatura Brasileira. Escreveu ainda romances como Eles eram muitos cavalos, de 2001, que recebeu prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte e o Prêmio Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional.

Um tema, diferentes visões

Os contos de Nos idos de março foram escritos na época da ditadura militar ou por autores que tiveram suas vidas afetadas de alguma forma pelos acontecimentos. “A ditadura militar foi apreendida de diferentes formas por diferentes gerações”, diz Ruffato. E alguns desses pontos de vista aparecem no livro.

Reunir contos e não depoimentos para abordar o tema foi uma escolha do organizador, que acredita que essas pequenas narrativas espelham a situação de forma mais realista e “acabam dando um quadro mais complexo”.

Os contos trazem personagens como Mara, uma adolescente militante que, como tantos outros jovens, é vítima do regime e acaba sendo morta. Neste conto, de Maria José Silveira, tem-se uma fotografia da juventude da época, com suas roupas e seus costumes. “Eram os anos da ditadura. Os tempos de Garrastazu Médici”, situa o narrador. O apartamento de Mara funciona como um ponto de encontro, por onde circulam outras pessoas que fazem parte da militância. Tem-se uma ideia da estrutura das organizações de esquerda, com suas hierarquias e funções bem delimitadas para cada membro.

Ruffato escolheu contos relacionados ao período ditatorial cujos autores fossem conhecidos pela qualidade de suas obras e já tivessem um repertório literário, como Antonio Callado e Nélida Piñon. “Esses autores que estão no livro cobrem um período bastante largo de maneiras diferentes”.

O escritor Luiz Ruffato. Crédito: Márcia Zoet

O escritor Luiz Ruffato. Crédito: Márcia Zoet

O primeiro conto do livro é O homem cordial, de Antonio Callado. O personagem principal vê um Brasil idealizado por ele desabar. No conto, o intelectual, historiador e sociólogo está prestes a publicar o livro O homem cordial, sobre o povo brasileiro, quando tem seus direitos políticos cassados, embora seus amigos íntimos saibam que ele não tem “nada de comunista”. Esse conto inicial reflete a arbitrariedade do regime, que podia classificar como suspeitos pessoas de variadas ideologias e de todas as classes sociais.

O último conto é também o mais recente, publicado por Paloma Vidal em 2008. Intitulado Viagens, o conto é narrado em primeira pessoa e relata as viagens de uma vida: viagens ao passado, viagens nacionais e internacionais e a viagem da Argentina ao Brasil. A escritora veio exilada com os pais para o Brasil ainda criança, em 1977.

“Qué lengua hablan?”: essa interrogação que aparece no conto ilustra a situação de uma criança que, do dia para a noite, é submetida à outra língua e aos costumes de outro país. A rapidez com que se fazem as malas mostra a pressa de fugir da repressão política, assunto complexo demais para ser compreendidos por alguém tão jovem.

Nem todos os contos falam diretamente sobre a ditadura, mas sobre um espírito do tempo. É o caso de A morte de D.J. em Paris, de Roberto Drummond. D.J. (somente as iniciais de seu nome são apresentadas) é julgado após sua morte, tendo sido acusado de “inventar uma história fantástica sobre uma Mulher Azul que fala com uma voz de frevo tocando”. Essa mulher enigmática aparece ao longo de todo o conto como um acontecimento suspeito que não chega a ser esclarecido, bem como a morte do personagem.

Outros contos mostram a exploração do trabalho, como A mão esquerda, de Roniwalter Jatobá. O personagem central, um funcionário exemplar de uma fábrica, tem um acidente com uma máquina e perde parte dos dedos de uma das mãos. Inutilizado para o trabalho, é dispensado pela fábrica e substituído por outro funcionário.

A maior ponte do mundo, de Domingos Pellegrini, aborda o tratamento desumano aos trabalhadores que atuaram na construção da ponte Rio-Niterói. Os eletricistas, não identificados ou nomeados por apelidos como “50 Volts”, vivem uma jornada exaustiva que não podem abandonar, sofrendo ameaças em caso de cogitarem fazê-lo. Com a finalização da ponte, quando já não se assemelham a homens, os funcionários são convidados às comemorações de sua inauguração.

Experiência com a ditadura

Ruffato vivenciou o fim do período ditatorial, ainda jovem. Em 1979, foi estudar Comunicação na Universidade Federal de Juiz de Fora, em Minas Gerais. “Era um período ainda de bastante repressão, muito conturbado. Mas certamente não era nada comparado ao que aconteceu antes”, diz.

O escritor não chegou a ser preso, mas conta que vivenciou a tensão da perseguição política. Participou de atividades de poesia em Juiz de Fora e teve amigos presos. “Havia uma ligação entre poesia, teatro e política muito forte”, diz. Estudantes eram vigiados o tempo todo.

“Não posso dizer que eu pessoalmente tenha sofrido”, avalia. Independentemente de ter sofrido uma relação “íntima” com a ditadura militar, Ruffato diz se sentir no dever de propor reflexões sobre o período, que ele classifica como “época de atrocidades, de repressão brutal e de censuras”. “É um período que espero que nunca mais volte. É por isso que não consigo entender pessoas que se lembram com nostalgia da ditadura”, afirma.

Ruffato recomenda Nos idos de março para essas pessoas e para todos os que tiverem interesse em conhecer o regime ditatorial no Brasil: “O leitor pode ter nesses contos uma boa amostra do que foi a ditadura. Cada conto expressa isso à sua maneira”.

Leia mais na Pensata sobre livros que tratam da ditadura e do golpe de 1964:

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1964: crescimento e repressão andaram juntos nas universidades brasileiras

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domingo, 6 de abril de 2014 Educação, História, Política | 19:01

1964: crescimento e repressão andaram juntos nas universidades brasileiras

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Eis um dos paradoxos da ditadura militar brasileira: ao mesmo tempo em que  ocupavam o epicentro da resistência ao regime iniciado em 1964, as universidades tiveram um papel central no projeto dos governos que muitos estudantes e acadêmicos ajudaram a combater. Se a mão que apedreja é a mesma que afaga, isso parece ter sido levado ao paroxismo no caso da relação entre os militares e as universidades durante a ditadura.

Arte-Universidades_RM02.inddCom seis anos de pesquisa em arquivos brasileiros e norte-americanos, cerca de 50 entrevistas e um texto repleto de informações, o historiador Rodrigo Patto Sá Motta, da Universidade Federal Fluminense (UFF), mostra essa contradição no livro As universidades e o regime militar, lançado pela Zahar em março.

O livro integra o conjunto de obras que a Zahar publicou nos últimos três meses no cinquentenário do golpe, sob o selo 1964, cinquenta anos depois. Da série fazem parte Ditadura e democracia no Brasil, de Daniel Aarão Reis (leia pensata anterior), e A ditadura que mudou o Brasil, coletânea de artigos sob organização dos próprios Aarão Reis e Rodrigo Patto Sá Motta, ao lado de Marcelo Ridenti.

A contradição exposta nas universidades é a faceta acadêmica ao que, na economia, convencionou-se chamar de modernização autoritária, ao se lembrar que governos militares foram duros e conservadores na política, liberais e modernizadores na economia.

Um regime destrutivo e construtivo ao mesmo tempo

A ambiguidade típica daquele regime se manifestou plenamente na política universitária, explica o autor: destrutivo e construtivo ao mesmo tempo; repressivo e modernizador.

O regime, afinal, prendeu e demitiu professores opositores ao regime ou simplesmente considerados ideologicamente suspeitos.

Afastou líderes estudantis e líderes docentes acusados de cumplicidade com a “subversão estudantil”.

Torturou os mais “perigosos”, numa limpeza ideológica afeita ao bloqueio da livre circulação de ideias e de textos.

Criou assessorias de segurança e informação dentro dos campi, que abriam caminho para triagens nas contratações, concessões de bolsa, autorizações para estágios no exterior.

Impôs “cassação branca” a muitos professores que se opunham àquele estado de coisas, como atrasos infindáveis de salario e outras pequenas perversidades que transformavam a vida de muitos acadêmicos num inferno.

Do outro lado da moeda, porém, esteve a política de investimentos na formação local de mão de obra e em pesquisa autônoma. Os governos militares permitiram um impulso modernizante nas instituições de ensino superior, adaptando-as ao modelo dos Estados Unidos: organização departamental, professores em regime de trabalho de tempo integral, investimento em cursos de pós-graduação, ciclos básicos por áreas de saber, entre outras medidas.

Se é verdade que Deus precisa do Diabo para existir, se não há inferno sem a imagem do seu avesso, o paraíso, os dois lados da moeda, descritos acima, também não existiriam um sem o outro.

“Quando assumiram o poder (…)”, explica o autor, “os militares e seus aliados civis encontraram uma situação conturbada nos meios universitários”. O movimento estudantil se tornara “aguerrido e bem-estruturado”; as universidades haviam se tornado centros importantes da mobilização de esquerda; os estudantes constituíam forte grupo de pressão política.

Ele continua: “Para além do fato de as universidades reunirem inimigos do novo regime, ‘credenciando-se’, portanto, como alvos privilegiados das primeiras operações de expurgo, elas ocupavam lugar estratégico na formação das elites intelectuais e políticas do país, e, secundariamente, dos dirigentes econômicos”.

Primeiro, para fazer a economia crescer rapidamente as universidades eram indispensáveis. Segundo, investir nas universidades era parte de uma estratégia mas também resposta às crescentes demandas da juventude nos anos 60. Os documentos a que o autor teve acesso mostram um incrível temor do regime diante do movimento estudantil.

“Americanização parcial”

Havia dois caminhos a seguir, defendidos por diferentes setores do regime: uma linha liberal defendia a redução do papel do Estado, aumento do papel da iniciativa privada e do mercado, o que implicaria na cobrança de taxa dos alunos, numa “americanização”.

Outra linha pregava um modelo próximo da tradição brasileira e europeia, de universidades ligadas ao Estado, sem cobrar de alunos e sem muita abertura ao mercado. Prevaleceu o segundo modelo, em função do medo que os estudantes provocavam nos militares e da própria linhagem nacionalista de muitos generais.

O livro mostra em detalhes o processo de “americanização” parcial das universidades brasileiras. “Tratava-se de forjar uma mística, uma ideologia que competisse com os projetos revolucionários, principalmente o marxismo”, escreve Motta. “Daí o papel central conferida pelas agências do governo americano – com destaque na Usaid [United States Agency for International Development], mas também em instituições privadas, como as fundações Ford e Rockefeller – à modernização das instituições educacionais brasileiras”.

Espiões

Um dos achados de Rodrigo Patto Sá Motta são os documentos da máquina de vigilância política. A partir de 1970, o governo criou órgãos de informação dentro das universidades, as Assessorias Especiais de Segurança e Informações (Aesis ou ASIs). Eram um braço do Sistema Nacional de Informações (Sisni), uma espécie de correia de transmissão. De um lado faziam chegar determinações e pressões políticas vindas de escalões superiores; de outro, vigiavam a comunidade universitária e os próprios dirigentes, nem sempre fiéis ao regime.

Não eram raros espiões nos campi. “Às vezes os professores eram avisados pelos estudantes quando aparecia alguém novo na turma, com tipo suspeito”, conta o autor. O porte físico, o corte de cabelo, a idade e as roupas eram marcas diferenciadoras dos agentes infiltrados. Em outros casos, eram estudantes recrutados como informantes.

No MEC, a Divisão de Segurança e Informação (DSI/MEC) não tinha poder formal para censurar publicações ou eventos, mas fez pressões indiretas para isso. Um exemplo: em abril de 1971, a DSI enviou informe a todas as Aesis com uma análise sobre as publicações de algumas editoras brasileiras. O texto acusava as editoras Herder, Vozes, Civilização Brasileira, Paz e Terra e Zahar de publicar obras marxistas e filocomunistas. O relatório exibia uma extensa lista de livros considerados inconvenientes.

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Relatório acusando editoras brasileiras de ação ideológica e antidemocrática, encaminhado às universidades federais pela DSI do MEC

Relatório acusando editoras de ação ideológica, encaminhado às universidades pela DSI do MEC

De volta às contradições

As reformas implantadas pelo regime militar mudaram a face do sistema de ensino superior. O livro de Rodrigo Patto Sá Motta dá luz e forma a essa mudança: “Antes de 1964 não havia universidades na plena acepção do termo, apenas agregados de faculdades praticamente autônomas, com reitorias que desempenhavam papel decorativo”. Com o “advento do projeto modernizador-autoritário”, escreve ele, “as então modestas universidades receberam recursos e equipamentos que as tornaram instituições mais relevantes para o país”.

Antes que as gralhas se empolguem em demasia com essa conclusão, convém sublinhar outras conclusões do autor:

1. O projeto militar resultou da apropriação dos debates e demandas produzidos por professores e estudantes dos anos 1960

2. Os militares não tinham um projeto para o ensino superior; foram civis os formuladores dos planos

3. Um dos principais objetivos desse projeto foi aplacar o descontentamento de intelectuais e acadêmicos e, sobretudo, o ativismo radical dos estudantes;

4. As reformas implantadas pelo regime militar não corresponderam plenamente aos sonhos de nenhum dos grupos envolvidos

5. A faceta violenta do regime militar deixou marcas nas instituições e levou grande prejuízo e sofrimento às pessoas atingidas: carreiras foram ceifadas ou truncadas; centenas de estudantes tiveram sua vida escolar abruptamente interrompida; houve tortura e morte.

 

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