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sexta-feira, 18 de abril de 2014 História, Literatura, Política | 11:59

“Hoje as pessoas têm muito mais liberdade em Cuba”

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Cuba está mudando. Pequenas mudanças, é certo, mas muitas o suficiente para, somadas, transformarem-se numa grande mudança. A estrutura do País pode ser a mesma, o sistema de partido único – o Partido Comunista acima de todas as coisas – continua vigente, os problemas e contradições seguem intensos, mas mudanças na economia e na realidade social vão provocar, cedo ou tarde, significativas mudanças políticas.

Cumprindo a sina de quase todo artista cubano quando está fora de seu país, o escritor Leonardo Padura precisou analisar o passado, o presente e o futuro de Cuba a partir do regime implantado pela revolução cubana, há mais de 50 anos. “Apesar dos problemas e limitações, hoje as pessoas têm muito mais liberdade de expressão do que tinham há alguns anos”, disse Padura.

É dele a avaliação das mudanças em Cuba, expressada esta semana, quando esteve na Casa do Saber do Rio, ao lado do colega brasileiro Frei Betto – foi um rico e bem humorado bate-papo sobre romance O homem que amava os cachorros, lançado no Brasil pela Boitempo Editorial.

Padura fez um périplo no Brasil nos últimos dias: primeiro esteve em Brasília, na Bienal Brasil do Livro e da Leitura; em seguida em São Paulo, num bate-papo com o escritor Ricardo Lísias, da jornalista Sylvia Colombo e do historiador Gilberto Maringoni. Por fim, no Rio com Frei Betto, com participação ainda do jornalista Leonardo Cazes, de O Globo.

No último, à certa altura, perguntado por que continua a viver em Cuba, apesar das dificuldades enfrentadas pelo país e das limitações de liberdade, por exemplo, Padura respondeu: “Moro em Cuba porque sou cubano”, seguido por muitos risos da plateia que lotou o auditório da Casa. “Vivo na mesma casa onde nasci, onde meu pai e meu avô viveram. Sou fundamentalmente um escritor cubano”, emendou, reconhecendo o vínculo não somente intelectual, mas também sentimental com o lugar em que se sente melhor para escrever.

Romance investigativo de fundo histórico

O homem que amava os cachorros Leonardo Padura Tradução Helena Pitta Boitempo Editorial 590 páginas; R$ 69,00

O homem que amava os cachorros
Autor: Leonardo Padura
Tradução: Helena Pitta
Boitempo Editorial
590 páginas; R$ 69,00

E como Padura escreve… O homem que amava os cachorros é um exemplo de uma literatura extraordinária. Nas quase 600 páginas da edição brasileira, o escritor narra magistralmente as trajetórias do líder soviético Leon Trotski (1879-1940) e de seu algoz, o militante espanhol Ramón Mercader. É um livro de ficção que narra fatos históricos, reais. Segue, portanto, a tendência contemporânea de romances investigativos de fundo histórico, mesclando ensaio, testemunho pessoal e realidade.

Ápice até aqui de sua literatura, O homem que amava os cachorros o levou à condição de um dos grandes escritores de língua espanhola – sendo comparado ao catalão Manuel Vásquez Montalbán. Nenhum exagero na comparação.

A referência onipresente a Cuba em todos os debates dos quais participou no Brasil não é gratuita. No pleno voo de uma imaginação ficcional conjugada com o rigor da pesquisa histórica, Padura transporta o leitor pela política dos anos 30 e 40 até Cuba dos nossos dias, depois do desmoronamento do bloco soviético.

“Quis utilizar a história do assassinato de Trotski para refletir sobre a perversão da grande utopia do século XX, esse processo em que muitos investiram as suas esperanças e tantos de nós perderam sonhos, anos e até sangue e vida”, explicou. É, portanto, uma obra de inquietação e desencanto com as utopias desfeitas pela realidade.

Antes que os anticastristas e chatos em geral se animem, convém alertar que, embora crítico da utopia socialista e cubana, Padura não adota maniqueísmos – atributo que faz do livro uma alta literatura.

Sua virtude foi não escrever um livro linear. Não fez de ninguém herói ou vilão. Retrata a sociedade cubana com vigor e talento ao mostrar as contradições do que significa a  tentativa de construção de uma sociedade socialista. Desmascara a vilania, o desrespeito, a violência desmedida e injustificável dos quais o socialismo não está livre.

Desmistifica a ideia poética de revolução – como disse Breno Altman num dos debates sobre o livro, promovido pela Boitempo em São Paulo, uma revolução é rara na história porque produz um preço muito alto em matéria de ruptura, estresse social e destruição, algo que poucas sociedades se dispõem a pagar.

Mas Padura faz tudo isso dando relevo ao que os personagens têm de humano. E como toda humanidade, repleta de contradições, complexidades, verso, reverso e anverso.

Mais política, menos arte

“Tenho pena de vocês, escritores cubanos”, disse-lhe Frei Betto no debate no Rio. “São vistos mais como pró ou contra o governo de Cuba do que como criadores de uma obra de arte. Você deve sofrer isso em muitos lugares”, completou, ao ressaltar que Padura não escreve para “dar recado”, e sim para pôr personagens dentro de “valores sérios, como a liberdade humana, a participação política, o amor, a diferença”.

Amigo de Fidel Castro, Frei Betto passou mais de uma década viajando anualmente a Cuba.  Durante o período construiu pontes entre o governo e a Igreja Católica cubana. Nenhum dos dois lados se bicava até o início dos anos 1980. Os bispos eram alguns dos maiores adversários de Fidel. Hoje Frei Betto concorda com o diagnóstico de Padura sobre as grandes pequenas mudanças de Cuba. Ele as vê de forma positiva, mas com preocupação:

“O principal inimigo não está fora de Cuba, não é o bloqueio econômico nem os EUA”, disse. “O maior inimigo é o absenteísmo, o autoritarismo, a dificuldade de reinventar e recriar a revolução cubana. Temo que Cuba venha a se tornar uma mini-China, guardadas todas as devidas proporções”. Por “mini-China” leia-se: um governo de caráter socialista com uma economia capitalista, capaz de trazer à sociedade cubana uma “série de anomalias”.

Trotski x Stalin

O escritor cubano Leonardo Padura: "A literatura é o reino da liberdade"

Leonardo Padura: “O romance é o reino da liberdade”

Leonardo Padura tinha 34 anos em outubro de 1989, momento em que o Muro de Berlim se inclinava perigosamente até começar a desmoronar e, semanas depois, desmilinguir-se. Padura acabara de visitar, na Cidade do México, a casa onde viveu e morreu Trotski. Transformada em museu, a casa parecia uma prisão, uma fortaleza onde a mão de Stalin foi capaz de chegar para assassiná-lo. O jovem escritor decidiu ali escrever um romance tendo Trotski como personagem.

Àquela altura, um dos principais líderes da Revolução Russa de 1917 ainda era um personagem desconhecido para a maioria dos cubanos da geração de Padura: quando Stalin se transformou no senhor absoluto da União Soviética e principal líder do que se convencionou chamar de movimento comunista internacional, Trotski virou o mais destacado dos hereges de um regime que não admitia dissidências. Tentou lugar com Stalin pela liderança da União Soviética após a morte de Vladimir Lênin em 1924. Perdeu, exilou-se em 1929 e se transformou no capeta em forma de gente pelo alto comando do Estado soviético. Estava marcado para morrer.

Até ali uma espécie de protetorado soviético, Cuba havia apagado dos cubanos qualquer vestígio de documento ou estudo sobre Trotski. “Em Cuba, não nos permitiam conhecer quase nada de Trotski”, lembra Padura, “e a única coisa que sabíamos é que tinha sido o grande inimigo da revolução, o grande traidor dos ideais bolcheviques. Isso despertou minha curiosidade”.

O romance, porém, só estaria pronto dez anos depois.

Uma trama policial com desfecho conhecido

Se um personagem é Trotski, sua saga errante no exílio até instalar-se no México, outro é o narrador, Ivan Cárdenas Maturell (o homem que amava os cachorros e, este sim, personagem fictício), vítima de uma atmosfera sufocante e de uma utopia frustrada. Para ele, porém, resta a esperança de que alguma vez a utopia inalcançada seja reconstruída.

O terceiro personagem-chave é, claro, o assassino de Trotski: Ramón Mercader (1914-1978), agente espanhol comunista que se infiltrou na casa do soviético na Cidade do México e cravou-lhe uma picareta na cabeça em agosto de 1940.

Soa curiosa uma trama policial cujo desfecho – o assassinato de Troski e suas circunstâncias histórica – é conhecido por todos. O talento ficcional de Padura salva o romance de um possível dilema de previsibilidade. Mesmo talento que o faz não tratar Mercader de maneira maniqueísta. Ele é algoz mas também é vítima.

Mercader era um lutador antifascista, tipo comum na Europa dos anos 1930. Participava da Guerra Civil espanhola quando foi selecionado pelos órgãos de inteligência soviéticos. Era um lutador normal convertido em outra pessoa, segundo Padura.

Mas Mercader não era um mero assassino de aluguel, um fanático a serviço das causas autoritárias de Stalin. Ele sabia o que estava fazendo e o fez por convicção e vontade. Foi um dos típicos militantes comunistas supostamente de boa-fé, acreditando que cumpriam uma exigência história para o desenvolvimento e triunfo da ideia socialista. Com isso, chegaram ao fanatismo e ao assassinato – Mercader e muitos outros.

Como afirmou Frei Betto no debate com o escritor cubano, a fé fundamentalista dos militantes comunistas é semelhante ao fundamentalismo religioso. Na União Soviética – país que visitou quatro vezes – constatou algo surpreendente: os revolucionários apenas haviam trocado o czar russo pelo secretário-geral do Partido Comunista. “A fé na autoridade passou a prevalecer sobre a fé na verdade”, disse. Para ele, Cuba nunca deu espaço para o pensamento fundamentalista, apesar de pagar todo o tributo que pagou à União Soviética.

Frei Betto garante que em Cuba não há mais hereges ou acusações, ameaças e punição a dissidentes. Padura reforçou: hoje há mais liberdade em Cuba. No seu argumento, até os anos 80 e 90, O homem que amava os cachorros não seria publicado por lá e possivelmente ele teria sido expulso do emprego. Tampouco ganharia prêmio no país, como ganhou – feito inédito em sua geração.

Sejamos simpáticos ou não à utopia cubana, é preciso reconhecer, no entanto, que a liberdade ainda incipiente faz naufragar a utopia do projeto da revolução tanto quanto o não cumprimento das expectativas criadas em torno dela.

 

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segunda-feira, 14 de abril de 2014 Economia, Política | 08:59

Sem utopias e com violência, o ano vai ser difícil, diz a economista Maria da Conceição Tavares

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A professora Maria da Conceição Tavares completará 84 anos no próximo dia 24. Ao seu modo, com um olhar sobre a economia brasileira, muitas hipérboles e uso desenfreado de palavrões, a economista costuma soltar sua birra contra os céticos – gente desabrida que, nos últimos anos, não enxergou as mudanças de um Brasil de pleno emprego, salário mínimo elevado e melhor distribuição de renda com ascensão social das bases (e lixe-se a questão se temos PIB ou “pibinho”).

Diz ter deixado de ler economia para não se irritar com o “festival de besteira”, admite possivelmente estar ultrapassada e velha e, há pouco tempo, afirmou que não dá para ser nem ultraotimista nem ultrapessimista, mas “moderadamente otimista”.

InteligenciaNum belo depoimento à revista Insight-Inteligência, no entanto, Maria da Conceição Tavares mostrou-se menos moderadamente otimista do que admite. “As pessoas estão perdidas, não sabem como se guiar do ponto de vista político, econômico”, afirmou à revista, cujo versão em blog é parceira do iG. “E com isso a história parece que não se move. O futuro fica ilegível, amorfo”.

É um desabafo a se enxergar não o estreito limite de 2014, da sucessão presidencial ou da avaliação de um governo. Antes, trata-se de um despejo de sombra sobre nossa época, o que ela chama de “era das distopias”.

A professora usa palavras conceitualmente duras para definir esses tempos fraturados (expressão emprestada do historiador marxista Eric Hobsbawn) e vê pouca luz na produção intelectual. O mundo reformista vai mal, e o mundo revolucionário também, afirma Conceição. Diz ela:

 “O pensamento social está muito atrasado, muito desminliguido. O pensamento reformista sumiu. Agora, o que há é uma espécie de naturalismo. (…) Naturalizou-se uma concepção de vida social a respeito da qual se passou um século inteiro combatendo. Mais: ao contrário do século XX, que organizou as massas, os sindicatos poderosos, organizações internacionais festejando o progresso, agora todos os interesses se fracionaram, se fragmentaram,”

Sem movimentos utópicos

Para a professora, a história não ilumina mais o futuro, na forma de uma ideologia. Desde o século XVIII, os movimentos políticos, sociais e econômicos deixaram de se orientar pela ideia de tradição, substituindo-a pela convicção de um futuro diferente e melhor. A história tinha um sentido, um objetivo, uma utopia: criar uma sociedade mais livre e igualitária.

O século XIX foi pautado pela busca da liberdade – liberdade do indivíduo, liberdade política, liberdade econômica. Depois, no século XX, veio a busca pela igualdade. Da Revolução Francesa e a promessas de liberdade do século anterior à Revolução Russa e a promessa do reino da igualdade.

Essa orientação histórica dupla – de um lado a liberdade; do outro a igualdade – acabou no final do século XX, conclui a professora. “A história deixou de iluminar o futuro para os economistas, os políticos, os ativistas”, disse ela à Inteligência. “As vanguardas desapareceram. Com o esboroamento das utopias, esvaíram-se também as ideias de socialismo, do Estado de bem-estar e o planejamento econômico”.

Ou seja, o mercado e o neoliberalismo mostraram-se incompatíveis com a ideia de sociedade organizada e de Estado planejador. Os antigos receituários perderam seu sentido. “Vemos a sociedade mexer-se, mas a forma superestrutural de fazer política parece não andar para lugar nenhum”.

Um exemplo? “Como se elege um negro nos Estados Unidos e não acontece nada?”, questiona Conceição. “Era para ter acontecido, bem ou mal, uma mudança de paradigma, de comportamento social”.

A presidente Dilma Rousseff entrega Prêmio Almirante Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia à professora Maria da Conceição Tavares: "Parece que tudo se esvai no arroz com feijão"

Maria da Conceição Tavares recebe da presidente Dilma Rousseff Prêmio Almirante Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia: “Parece que tudo se esvai no arroz com feijão”. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

O ódio no lugar da utopia

Planejamento pode significar um palavrão para liberais e neoliberais, mas a dificuldade, segundo ela, é pensar um guia de ação: “Parece que tudo se esvai no arroz com feijão”. Não há um plano no governo, mas também nos sindicatos – “todos aparvalhados” – e na classe média. “Não sei até que ponto o povo propriamente dito precisa de utopia. Mas a classe média precisa”, afirma a professora. “Não tendo, ela transforma sua mágoa em ódio”.

Segundo ela, quem promove a violência hoje não são os deserdados da terra, para quem as coisas melhoraram. A violência vem da classe média baixa. “Não tem energia utópica, só através da violência. Não tem utopia, só distopias. É só o aqui, agora; quero derrubar isto, quero derrubar aquilo. Não tem um objetivo programático”.

Conceição chama de “manifestações de araque” e acha tudo “coisa esquisitíssima, enlouquecida”. É uma fragmentação que, segundo ela, afeta partidos políticos, sindicatos e todas as demais organizações da sociedade que levaram muito tempo para serem criadas. “Esses garotos de merda vão para o pau pedir o quê?”, questiona, referindo-se aos “máscaras negras”, os black blocs.

Se os garotos de máscaras são “repugnantes”, a imprensa também não diz nada, completa. “Faz uma confusão” e torce “para que haja morte de um menino desses”.

Transição ou apodrecimento?

“Acho difícil saber para onde vamos”, afirma a professora. “O que ocorre hoje pode ser uma transição ou um apodrecimento. Transição não sei para o quê, porque não há uma utopia prévia”.

Conceição se vê diante de uma sensação de impotência, coisa de quem foi uma adolescente na primeira metade do século XX, uma época mais organizada em matéria de proposição.  Hoje, ela admite, parece difícil enxergar causas capazes de servir a tantos interesses fracionados. “Diga-me um autor relevante que não esteja pensando dessa maneira, prostrado pela falta de alternativas? Não há ousadia em nada, pelo menos do ponto de vista do pensar”.

Por isso, diz ela, não gosta de dar entrevistas: “Não quero engrossar o coro de lamentação dos intelectuais”.

A idade do ceticismo

Pode ser a idade, como ela diz, mas nos últimos tempos a professora nunca se mostrou exatamente otimista. Nem com os políticos, nem com os economistas, nem com os intelectuais.

Tive o privilégio de visitá-la três ou quatro vezes em seu apartamento, no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Sempre com a companhia de um amigo comum, o jornalista Luiz Cesar Faro (o artífice dos encontros, diga-se), as entrevistas destinavam-se a colher depoimentos sobre dois liberais – o economista Eugênio Gudin e o jurista Bulhões Pedreira – e um economista de quem foi discípula, o argentino Raúl Prébisch.

Em todos os encontros era inevitável tentar arrancar da professora análises sobre a conjuntura, o governo de plantão e o embate político-econômico do momento. Nunca faltaram palavrões contra alguns dos adversários e lamentos pelos intelectuais. (Uma vez afirmou que não sabia onde se escondiam os jovens intelectuais capazes de exibir ideias inovadoras).

No Brasil desde 1953, quando desembarcou aos 23 anos de idade e se deixou envolver pelo otimismo brasileiro daquela década e pela intelectualidade carioca, a portuguesa se apaixonou pelo Brasil, pelo sonho de Brasília, pela Bossa Nova e pelo desenvolvimentismo.

Desde então participou de quase todas as polêmicas econômicas, do Brasil e da América Latina. Ajudou a formar diversas gerações de economistas, sendo professora de Dilma Rousseff, José Serra, Pedro Malan e Aloizio Mercadante, entre outros. Foi aluna de economistas de visão radicalmente oposta à sua, como Octávio Gouvêa de Bulhões e Roberto Campos.

Por tudo isso, não é bom presságio ver uma pensadora provocadora e apaixonada enxergar um “futuro amorfo” para a nossa era. O melhor da professora, porém, não é quando ela dá uma de pitonisa. Mas há um alento: ela acha que esse ciclo vai passar – não se sabe quando, mas torce que não seja longo.

Leia o artigo de Maria da Conceição Tavares publicado na revista Insight-Inteligência na íntegra.

 

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terça-feira, 21 de janeiro de 2014 Filosofia do cotidiano | 02:09

A filosofia como alta ajuda para uma vida boa

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Cariocas que gostam de associar saber com prazer têm a chance de, a partir desta terça (21), apreciar o que paulistanos podem usufruir com razoável frequência: um curso conduzido por dois filósofos que exibem como poucos o talento de transmitir o seu conhecimento para não-especialistas. E se você não mora nem no Rio nem em São Paulo, resta-lhe a internet.

Busque dois nomes. Clóvis de Barros Filho, da USP, e Júlio Pompeu, da Universidade Federal do Espírito Santo, apresentam na Casa do Saber Rio “A filosofia explica as grandes questões da humanidade”. São apenas três encontros: Barros Filho abre a série, com o tema “Moral e virtude: reflexões para viver”; Pompeu prossegue na semana seguinte e fecha em seguida, respectivamente com “Poder e dominação: uma arte de relações e reações” e “A justiça e a lei: do sentimento à ideia”.

Filosofia_explica_as_grandes_questões_da_humanidadeO curso do Rio que começa esta semana é extensão de um livro que ambos publicaram no fim do ano passado pela coleção Casa do Saber da editora Casa da Palavra. O livro, por sua vez, é fruto de quase uma década de experiência bem-sucedida do curso “Grandes questões da humanidade”, da Casa do Saber em São Paulo. Trata-se de uma espécie de blockbuster da Casa do Saber, um típico caso de história de sucesso do conhecimento que vira um clássico para quem participou ou ouviu falar. Como “Os pensadores” (que também virou livro), é realizado desde o nascimento da Casa do Saber em São Paulo, com curadoria sempre primorosa do de Mario Vitor Santos, com extensão para o Rio, cujo conteúdo recebe os cuidados principalmente de Armando Strozenberg e Luiz Antônio Ryff.

Curso-livro-curso, portanto, formam um amálgama que traduz o estilo dos dois professores-autores. Aí, fala e escrita, palco e autoria, performance e academia se misturam e se realimentam mutuamente.

Clóvis e Júlio são dois amigos, parceiros de sala de aula e de escrita. De tão combinados, um mimetiza o outro nos gestos, na fala e até mesmo nos exemplos usados para os alunos. Eles conjugam o brilhantismo de catedráticos com o verbo certeiro dos professores performáticos. Mais do que isso, conseguem trazer o que a filosofia tem de melhor: a possibilidade elevar o espírito ao descer ao plano da vida cotidiana.

Ambos percorrem, em sala de aula e em suas obras, o trajeto imaginado pelos filósofos antigos, para quem a filosofia é, no fundo, uma maneira de alcançar uma vida boa, feliz e consciente.

É  como se o humor, os exemplos práticos, os dilemas, aflições e encantos do dia a dia pudessem – e podem – conviver com a fidelidade às ideias centrais de autores como Platão, Aristóteles, Hobbes, Maquiavel, Nietzsche e Foucault. Foi um modelo que se transformou em algo extraordinariamente bem-sucedido com filósofos como Luc Ferry e, com menor talento, Alain de Botton. Obras do gênero, especialmente de Ferry, pegam leitores de todos os níveis pela mão.

Não é pouco.

Se você quiser saber como funciona esse estilo, pode procurar o arquivo do Café Filosófico, da CPFL Cultura, ou uma curiosa e engraçada entrevista de Clóvis de Barros Filho a Jô Soares sobre felicidade e “a vida que vale a pena ser vivida”, tema de outro livro dele. O vídeo se espalhou pela internet. O entrevistado virou pop.

As grandes questões

O melhor, porém, está nas quase 200 páginas em formato quase de bolso, numa edição caprichada, como de praxe, da coleção da Casa da Palavra/Casa do Saber. A filosofia explica as grandes questões da humanidade, o livro, é um interessante guia filosófico sobre liberdade, felicidade, ética, fé, poder, esperança e conhecimento – as grandes questões da humanidade.

De uma ética para uma vida boa, eles escrevem, por exemplo: “Ética tem a ver com convivência. Eis o seu objeto. Mas seu entendimento e compreensão implicam também em esforço intelectual porque é pensamento sobre a vida partilhada, sobre as relações. É um saber que mobiliza, que vem pelo outro e que curiosamente está ausente de nossa educação formal”.

Nessa convivência, e na reflexão sobre a vida e vida praticada, algumas vidas de qualidade são convertidas em protocolo de qualidade de vida – “conversões conflituosas, que implicam quase sempre na luta pela legitimidade de definir o que é ético e o que não interessa que seja”.

Se a ética se dispõe ao estudo de um certo tipo de ação humana, esta ação é normatizável pela razão – denominada ato moral. Para qualquer ação há uma escolha, e para escolher convém a adoção de um critério, ou de um valor moral que nada mais é do que um critério existencial, explicam os autores.

Da moral para a liberdade e a definição do homem e suas consequências: somos ou não somos livres, podemos ou não ser livres? – questiona o livro, para explicar que isso implica, primeiramente, responder a duas perguntas preliminares: o que exatamente pode ou não ser livre? O que poderia impedi-la? Se não há liberdade, o quê ou quem pode ser o responsável por isso?

As respostas, ou as provocações a tais perguntas, estão lá.

Como a discussão sobre a identidade (quem somos nós?); o poder (“uma arte de relações e reações); a dominação (como diz Foucault, o poder é aquilo que alguém consegue infligir a outros, levando à dominação de um sobre outro ou outros); a justiça e a lei (“justiça é agir conforme a lei justa”, dizia Platão); e a virtude (o que faz o homem justo).

É uma forma inteligente de tentar dar um pouco de sentido à vida, mesmo que a vida talvez possa não ter sentido algum. Afinal, ainda que não tenha sentido, dificilmente conseguimos viver uma vida sem sentido, como prova a dupla de professores-autores.

Em sala de aula e no livro, estas duas formas prazerosas de dar utilidade àquilo que a muitos pode parecer inútil – a filosofia.

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Mais sobre o curso de ambos aqui

 

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