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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014 Literatura, Sociedade | 16:29

Segredos de justiça revelados por uma juíza especialista no fim do amor

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É do escritor russo Liev Tolstói a afirmação de que as famílias felizes se parecem, e as infelizes são infelizes cada qual à sua maneira. Em Segredo de Justiça, livro lançado recentemente pela Agir (selo do Grupo Ediouro), a juíza e escritora Andréa Pachá ousa refutar a tese do autor de Guerra e paz e Anna Karenina. Com suas 45 histórias reunidas no livro – concebidas a partir de sua experiência como juíza da Vara de Família – Andréa intui que, tanto na felicidade quanto na infelicidade, cada história é única, cada dor é individualizada, “e as soluções não deveriam servir de parâmetro moral para quem quer que seja”, como escreve numa delas.

Andréa é uma juíza respeitadíssima, uma mulher de sensibilidade aguda e uma escritora de texto envolvente, humor inteligente, sutil ironia e notável compaixão. Ela consegue uma proeza ao unir ficção e realidade: revela segredos de justiça, sem violar os processos que tramitam em Varas de Família como a que a esteve durante mais de 15 anos. Andréa preserva, portanto, o direito de milhares de casais que passaram pelos seus olhos. São histórias de ficção, que emergiram de suas observações e de seu talento para transformar em literatura a riqueza do real.

Segredo de Justiça Andréa Pachá Editora Agir,  208 páginas, R$ 29,90

Segredo de Justiça
Andréa Pachá
Editora Agir,
208 páginas, R$ 29,90

Esta juíza que já se aventurou com enorme competência também pelo teatro é o que o diretor e amigo Aderbal Freire-Filho batizou de “especialista em fim do amor”. Afinal, pelas suas mãos e pelos seus juízos passaram incontáveis casais devastados pela dor do fim do amor.

A vida não é justa

Tive o privilégio de editar o seu livro anterior, publicado na primavera de 2012, também pela Agir: como Segredo de justiça, A vida não é justa também era uma espécie de literatura de não-ficção, ou reportagens de ficção, como queiram. (Edição, naquele caso, é um nome superestimado a classificar o trabalho de receber os textos prontos e primorosos e apenas reordená-los). Como este novo livro, agora editado por Carolina Chagas, o primeiro prendia igualmente a atenção do leitor do começo ao fim.

A diferença entre um e outro é que a A vida não é justa tratava mais diretamente do fim do amor. Segredo de Justiça, com os desdobramentos da vida depois do fim do amor. Concentra-se mais em como a vida continua depois, nas disputas de pensão e de paternidade, patrimônio, velhice, além de outros elementos desta fase, ainda que já presentes de passagem no primeiro.

A vida não é justa revelava a atitude angustiada de alguém sem chão que vê o seu homem ou sua mulher partir; que se depara com o fim inevitável de uma história iniciada tão apaixonada; que buscava, ainda inerte, o caminho depois do fim. Nesse conjunto, havia algumas histórias mais curiosas, como o senhor que pedira o divórcio da mulher de 65 anos, depois de descobrir que ela entrava na internet, cheia de tesão virtual, sob o pseudônimo de “Molhadinha 25”.

Segredo de justiça é um livro mais melancólico, porém talvez mais maduro e revelador da complexidade humana. A autora se choca, e o leitor também, com as disputas renhidas entre ex-casais, quase invariavelmente machucados pela separação. Assistimos, assim, aos registros de imaturidade afetiva, insensatez, egocentrismos. Vemos quão rara é a generosidade nesses casos presenciados pela narradora. “Eu só queria entender quem é essa pessoa sentada aqui, na minha frente”, diz uma atônita personagem diante da juíza e do homem com quem dividiu a vida por tantos anos. “Não acredito que você se transformou nesse lixo, Rico”.

Compreensível pela falência dos amores que pareciam eternos? Justificáveis porque os casais estão ali não para celebrar a alegria de estar juntos, mas para marcar o fim de sua união? Talvez. O que fica claro, é certo, é o tamanho e a forma da judicialização da vida – o quanto as pessoas esperam que a Justiça recomponha o que o amor acabou. E como não conseguem, saem dali com a sensação de injustiça reafirmada.

A juíza e escritora Andréa Pachá: a dor é individual, mas somos repetições nos afetos e nos desamores

A juíza e escritora Andréa Pachá: a dor é individual, mas somos repetições nos afetos e nos desamores. Foto: Divulgação

A juíza-terapeuta

Com a sabedoria, a sensibilidade, a razão e a experiência, a juíza-escritora-narradora tenta prometer que a dor passa. A vida segue, as pessoas se transformam, e a dor passa. E é aí que se retoma o dilema acertadamente apontada por Tostói: a dor individualizada. Nisto Segredo de Justiça concorda: não há dor maior do que a experiência individual.

Em várias histórias, a juíza é não só uma conciliadora mas alguém em busca de redução de danos. A uma mulher que lhe conta que “fez um câncer” e foi abandonada pelo marido, ela responde: “Não, não fez, não foi você que causou essa doença maligna ao ser abandonada, não se culpe por seu sofrimento”.

Não por outra razão, o filósofo Renato Janine Ribeiro, que apresenta o livro, mostra que Segredo de Justiça não se preocupa com a felicidade nem com a justiça, mas com a verdade. Diz ele:

“A vida não é justa: pessoas que foram boníssimas, que de tudo fizeram para serem ótimos companheiros ou genitores, nem sempre são reconhecidas ou premiadas – assim como quem foi ou é mau conhece, tantas vezes, o sucesso. A vida é indiferente à justiça. Pessoas ótimas padecem, pessoas más florescem.”

Felicidade, para Andréa Pachá, não está no rol dos direitos. Muito menos é uma obrigação. Para ela, abraçando a causa de bons filósofos, compreender nossa humanidade nos faz mais responsáveis pelo nosso destino – e isso significa reconhecer e encarar as dores e os sofrimentos. E reinventar-se para tanto. O agravamento da dor se deve em grande parte pela idealização da perfeição, incluída aí a idealização do amor e do casamento.

Há um paradoxo aí, e Andréa Pachá reconhece: a dor pode ser individualizada, mas somos todos iguais. Na alegria e na tristeza. Explica-se: há pouca originalidade nas nossas contradições, nos nossos afetos, nos nossos amores e desamores. Como ela diz, “somos todos, de alguma forma, repetições de histórias contadas por tantos quanto os que nos enxergam”. Alegrias extremas e tristezas profundas, portanto, compõem essa “montanha russa” de existência em que embarcamos todos: “humanos, desamparados e esperançosos”.

Amor traz dor, mas sem amor é paz de cinzas

Andréa Pachá não cita explicitamente, mas intuo que ela concorda com a existência de outro paradoxo: ao mesmo tempo em que precisamos negar esta idealização excessiva do amor romântico e da felicidade, sob pena de uma vida de frustrações e de peso demasiado sobre o outro, também não podemos abdicar de uma aspiração mais elevada, ou desumanizamos nossos afetos.

Pode-se adotar uma visão cética do amor, como o psicanalista Contardo Calligaris, para quem uma das boas razões para se casar é a seguinte: uma vez casados, podemos culpar o casal por boa parte de nossas covardias e impotências.

O marido, por exemplo, pode responsabilizar mulher, filhos e casamento por ele ter desistido de ser o aventureiro que ainda dorme, inquieto, em seu peito. A mulher tem a quem culpar por jamais ter tornado realidade o sonho romântico de amor avassalador e irresistível, do qual elas desistem por causa do marido, filhos e casamento.

(Dom Quixote se queixa de que sua mulher esconde seu livros de cavalaria e o impede de sair à cata de moinhos de vento, e Madame Bovary lamenta que seu marido esconde seus livros de amor e a impede de sair pelos bailes, em busca de paixões sublimes e elegantes.)

Pode-se, por outro lado, recorrer a uma perspectiva mais lírica, como a de José Miguel Wisnik, que uma vez se perguntou: “É permitido dizer que o mundo é pobre para quem jamais foi doente o bastante para a paixão?” Para Wisnik, o acorde entre o desejo de permanência (onde se inscreve o amor) e o fato de que essa permanência não pode se apoiar em nada senão no seu próprio desejo de permanência é um desafio aberto. Um luta constante.

Entre um e outro, pode-se recorrer novamente a uma ideia, já citada aqui, do psicanalista Jurandir Freire Costa, em seu livro Sem fraude nem favor: estudos sobre o amor romântico: “Sem amor estamos amputados de nossa melhor parte. A vida pode até ser mais tranquila e livre  de dores quando não amamos. Mas trata-se de uma paz de cinzas”.

Andréa Pachá sabe – e mostra muito bem em Segredo de Justiça – que se pode buscar uma vida mais feliz e mais justa, como lembra Janine Ribeiro, mas nunca uma vida plenamente feliz e justa. Sempre a pequenos passos. Com seus sabores e dissabores inevitáveis.

Para ler mais sobre o tema na coluna:

Aprenda a amar como os franceses

Os homens ainda podem sentir? 

Solução de um filósofo contra o fracasso do casamento: o “amor suave”

Tem um amor não correspondido? Escreva um livro

 

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sábado, 18 de outubro de 2014 Literatura | 11:31

“A casa cai”, de Marcelo Backes”, traz histórias de amor, urbanização e ruínas

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O cenário: Rio de Janeiro. Um apartamento vai passar por uma reforma ambiciosa e, para isso, precisa ser praticamente destruído antes de renascer. Na cidade, existem obras por toda parte, mas nem todos os edifícios resistem ao tempo. Dentro e fora desses lares, pessoas estão sempre começando e rompendo relacionamentos. Cartas podem ajudar a reconstruir o passado mas também a destruir alguns sentimentos e imagens formadas.

A casa cai Marcelo Backes Companhia das Letras 432 páginas, R$ 56

A casa cai
Marcelo Backes
Companhia das Letras
432 páginas, R$ 56

Essas construções e desconstruções permeiam A casa cai, ficção do escritor Marcelo Backes, recém-lançado pela Companhia das Letras. Ao tratar de temas da vida privada, o autor faz também um paralelo com a urbanização do Rio de Janeiro, trazendo à tona alguns pontos delicados dessa história.

“Enquanto uma casa é levantada, uma alma vai desmoronando”, diz o escritor em entrevista à coluna. O ficcionista Backes é também um dos mais respeitados tradutores do Brasil. Ainda professor de literatura dos mais competentes, verteu para o português obras de clássicos da literatura em língua alemã. Entre eles, Kafka, Goethe e Schiller.

Na zona sul do Rio

O personagem principal de A casa cai é o mesmo seminarista do livro anterior de Backes, O último minuto, publicado em 2013. Neste, o jovem missionário conta a história de um gaúcho na prisão. Em A casa cai, já fora do seminário, o personagem que narrava agora tem sua própria história contada. “É fundamental dizer que os dois romances são completamente independentes um do outro, histórias acabadas em si e fechadas sobre si mesmas”, esclarece.

O ponto de partida é o recebimento da herança paterna pelo ex-seminarista. Este acaba percebendo que, além das posses, a herança inclui uma série de revelações sobre o passado do pai, que permaneceram ocultas por muito tempo.

A história foge do ambiente sofisticado na zona sul do Rio de Janeiro para fazer passagens pela favela e por anos de história de destruição de comunidades pobres que deram lugar a novos e luxuosos condomínios.

Há também passagens por outras partes do Brasil (idas ao Rio Grande do Sul), por outros países (uma viagem à Alemanha e outra à Rússia) e pelo mundo das artes. Sempre construindo e desconstruindo uma teia delicada de relações pessoais.

A seguir, Marcelo Backes fala sobre seu novo livro.

* * *

O livro anterior foi concebido para ter uma continuação ou isso aconteceu depois? Não pensei em continuação enquanto estava escrevendo. Em determinado momento, já depois de terminado O último minuto, vi que seria interessante envolver o narrador daquele romance em uma história que eu já queria contar há muito tempo. O pai do seminarista inominado tinha estofo para ser um dos protagonistas da eliminação das favelas horizontais da Zona Sul do Rio de Janeiro e o próprio seminarista, já longe da batina, ainda mais estofo para meter os pés pelas mãos ao tentar segurar as rédeas da vida real. E assim, enquanto uma casa é levantada, uma alma vai desmoronando.

E como surgiu essa história? A casa cai surgiu da ideia de contar uma relação que vai desmoronando enquanto uma casa vai sendo construída , mostrando no pano de fundo como o Brasil e sobretudo o Rio de Janeiro foram erguidos. No âmbito público eu encaixei uma história que sempre me pareceu paradigmática: a da construção do Rio de Janeiro – e as duas histórias funcionam como espelho uma da outra, sem contar que na primeira é o filho que está envolvido, na segunda o pai, e que o próprio filho vai descobrindo aos poucos, ao abrir o cofre cheio de fantasmas do pai morto.

Marcelo Backes: "Há personagens reais interagindo com personagens ficcionais, envolvidos numa história de amor e desamor". Fotos: Divulgação

O escritor e tradutor Marcelo Backes. Foto: Divulgação

Qual foi a transformação pela qual o personagem principal de A casa cai passou desde O último minuto” Antes de mais nada, é fundamental dizer que os dois romances são completamente independentes um do outro, histórias acabadas em si e fechadas sobre si mesmas. É apenas circunstancial o fato de o seminarista que contou a vida terrível de João, o Vermelho, em “O último minuto”, agora contar a sua própria vida, mostrar como lidou com a morte de seu pai, com a obrigação de pela primeira vez, e isso já bem depois dos vinte anos, encarar a vida como ela é, ele que sempre viveu protegido no ventre da família e depois no seio de um seminário.

De que forma as duas histórias, a particular e a do Rio de Janeiro, se relacionam? O construtor e narrador do romance é um homem que fugiu da vida a vida inteira e de repente perde o pai, com quem nunca conseguiu se entender direito. E, sem nem mesmo saber como o mundo funciona, recebe uma herança vultosa, mas pantanosa, com a qual é obrigado a lidar. Ao mesmo tempo, esse homem constrói uma casa pra sua mulher. Se quisesse, ele poderia ter escolhido um apartamento na orla do Leblon, mas não, ele prefere a Selva de Pedra, erguida sobre os destroços daquilo que um dia foi a Praia do Pinto, uma das favelas aniquiladas. O homem reforma a casa escolhida e aos poucos descobre que o pai construiu a cidade, e que sem derramar sangue talvez não seja possível despejar argamassa num lugar que um dia foi tão naturalmente idílico.

O leitor só conhece o personagem central depois de folhear muitos capítulos. Como foi desenvolver esse personagem tão incógnito? Eu gosto de apresentar meus personagens aos poucos, de desnudá-los mais pelo comportamento e por aquilo que dizem do que por uma tosca frase de narrador que lhes dê o estofo físico e metafísico em duas pinceladas e meia. Na vida real, também somos mosaicos inconstantes, construídos pelos fragmentos que nós mesmos e os outros vão acrescentando.

E os demais personagens, como foi o processo de construção? O romance passeia por uma sociedade bem ampla do Rio de Janeiro, situada sobretudo na abastada Zona Sul e envolvida com a construção da cidade e o mundo das artes. Há personagens reais interagindo com personagens ficcionais, envolvidos numa história de amor e desamor, construção e desconstrução, edificações e ruínas, escombros e caprichos.

Qual o papel do círculo de artistas do Rio de Janeiro no desenrolar da história? Eu acho o universo das artes plásticas contemporâneas uma metáfora perfeita para entender o funcionamento do mundo contemporâneo. É só por isso o círculo de artistas, que é também paulista, tem um papel tão importante em A casa cai. De um lado há a tentativa de entender por que um metro quadrado na orla do Leblon pode custar R$ 80 mil, de outro a tela de uma garota de vinte e poucos anos que pinta a óleo e faz sua primeira exposição pode custar 25 mil, enquanto determinadas ações da Bolsa são pulverizadas em dois dias.

Ao escrever o livro, você chegou a ter alguma surpresa com os caminhos que a narrativa ia tomando? Eu sou um daqueles escritores que antes de começar esboça uma história mais ou menos básica, depois faz anotações, às vezes ao longo de anos, e de repente senta para escrever. E aí, eu viro o cavalo do diabo, ou o pégasus de uma demônia chamada musa, não sei, e não vejo mais nada no mundo à minha volta, entro num processo de imersão total, geralmente desenvolvido nuclearmente na Alemanha, onde fico pelo menos 45 dias durante o inverno. E tudo pode mudar, ganhar desenvolvimentos inesperados, os personagens literalmente fazem coisas que eu não imaginava.

O espaço principal da narrativa de A casa cai é o Rio de Janeiro, mas há passagens pelo Rio Grande do Sul, Moscou e Halberstadt, uma pequena cidade alemã. O que motivou essas escolhas geográficas? Meus personagens sempre foram muito cosmopolitas. Meu narrador carioca visita o Rio Grande do Sul apenas por razões afetivas. E se Moscou e Halberstadt, na Alemanha, aparecem, é porque são focos de metáforas interessantes no desenvolvimento do personagem, que referendam buscas de origem, tempos perdidos ou desideratos artísticos eternos.

Você já tem planos para novos livros? Tenho sim, eu sempre estou escrevendo. Fiz uma viagem maravilhosa de Pequim a Moscou recentemente, atravessando a Mongólia e a Sibéria num trem de luxo, e aconteceram coisas estrondosas nessa viagem, sem contar as que imaginei que aconteceram. E ainda repetirei essa viagem. Talvez desse um bom romance pícaro chamado, por exemplo, Os estrambóticos baques de Marcelo Polo numa volta ao mundo em pouco mais de oito dias e mil e uma noites.

 

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terça-feira, 31 de dezembro de 2013 Filosofia do cotidiano | 09:36

Réveillon reacende nossa esperança de felicidade

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Se o Carnaval é o tempo da alegria sem causa, da felicidade sem dia seguinte, e se o Natal nos informa sobre o amor fraterno e a amizade, o réveillon é provavelmente o momento que melhor espelha, traduz e renova a esperança. Na passagem do ano não vivemos exclusivamente o dia e a noite únicos, feito o carpe diem hedonístico carnavelesco, mas enxergamos o amanhã com as portas e o coração abertos para o que virá, como se nessa virada de tempo nossas vidas fossem mudar drástica e repentinamente – para melhor, evidentemente.

Faça o teste, observe à sua volta, recolha depoimentos de amigos e familiares, reveja a caixa de entrada do seu correio eletrônico, verifique todas as suas mensagens, instantâneas ou não: a poucas horas de passarmos a enquadrar 2013 em nosso retrovisor da memória e encararmos 2014 não mais com o mero estranhamento da novidade, serão raros aqueles desprovidos de mensagens de esperança e renovação próprios dessa época.

O poeta Carlos Drummond de Andrade publicou vários textos dignos de citação para o momento, e a editora Record transformou alguns deles num pequeno e belo volume em 2008: Receita de Ano Novo. Recebi Drummond de amigos que trabalham com a palavra – poetas, escritores, filósofos – ou que simplesmente têm a sensibilidade para entendê-las e compartilhá-las. Eu mesmo usei um desses textos e reproduzo aqui.

“Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial”, escreveu Drummond. “Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente.”

A industrialização da esperança de que tratou Drummond não parece um fenômeno exclusivo do réveillon, mas é no fechamento dos doze meses do ano que ela se manifesta de maneira mais enfática. E num país que se habituou a se enxergar como nação do futuro, a vocação para a esperança se revela ainda mais dramática.

Brasileiro, profissão esperança

Não é fácil manter a condição de País do futuro por tanto tempo. Há um enorme mérito nisso. Disso ingleses e portugueses talvez não entendam: nenhuma nação do mundo foi o país do futuro por tanto tempo como o Brasil. Por mais que um inglês force sua imaginação, jamais conseguirá acreditar que a Inglaterra seja, no futuro, algo superior ao que foi no passado, política, econômica e culturalmente. O mesmo império econômico e geopolítico produziu Shakespeare, Bacon e Newton; nenhum inglês acredita que ainda vá surgir outro Shakespeare, outro Bacon ou outro Newton.

Ingleses têm o centro de gravidade no passado. Aliás, como os portugueses, que também já foram um império, viveram momentos de glória e esperaram por muito tempo a volta de D. Sebastião, que os redimiria do ocaso, do ostracismo e da desesperança. Não à toa “saudade” foi uma palavra inventada pelos portugueses (embora o sentimento seja universal): o profundo sentimento de uma nação que teve seus dias de glória. Sua esperança olha para o passado, a fim de revivê-lo.

Enquanto isso, nossa saudade é inversa – talvez o que Fernando Pessoa chamou de uma “saudade imensa de um futuro melhor”. A condição brasileira ancora-se na ideia de que pouco fizemos no passado, ou tudo o que temos por fazer de valioso está mesmo no amanhã. É para o futuro que aponta o centro de gravidade de nossa imaginação. É-nos inconcebível um futuro que seja ainda pior do que o nosso passado.

Modesto no bolso, craque no pé

Dentre os muitos paradoxos do Brasil, um deles é a dissonância entre as condições materiais de existência e as diferentes percepções subjetivas – um cruel histórico de desigualdades, injustiças e precariedade de vida conviveu com uma exuberante autodefinição de povo feliz e esperançoso. Um terreno fértil para exageros de lado a lado, diga-se.

Em “breviário do patriotismo”, Afonso Celso destacou que a felicidade brasileira era fruto dos “motivos reais” que a pátria nos dá para amá-la e para que dela nos orgulhemos. Segundo ele, pode haver países mais prósperos, mais poderosos e mais brilhantes do que o Brasil, mas “nenhum mais digno, mais rico de fundadas promessas, mais invejável”. Para Afonso Celso, o clima e a mestiçagem garantiram um “tipo nacional” privilegiado.

No clássico Retrato do Brasil, Paulo Prado, por outro lado, considera que esses elementos constituem explicações suficientemente evidentes para a “tristeza brasileira”. Ele escreveu:

“A melancolia dos abusos venéreos e a melancolia dos que vivem na ideia fixa do enriquecimento – no absorto sem finalidade dessas paixões insaciáveis – são vincos fundos na nossa psique racial, paixões que não conhecem exceções no limitado viver instintivo do homem, mas aqui se desenvolveram de uma origem patogênica provocada sem dúvida pela ausência de sentimentos afetivos de ordem superior. […] No Brasil, o véu da tristeza se estende por todo o país, em todas as latitudes, apesar do esplendor da Natureza”.

Felicidade edênica

Há alguns anos a Fundação Getulio Vargas na qual perguntou aos entrevistados se eles sentiam orgulho de ser brasileiros e quais os motivos para o orgulho. Enquanto quase 60% responderam afirmativamente, somente 4% disseram sentir vergonha do país em que vivem. Em ordem decrescente, a natureza, o caráter do povo, as características do Brasil, esportes/música e carnaval foram os motivos enumerados para a razão de tanto orgulho. É o que o historiador José Murilo de Carvalho chamou de motivo edênico do orgulho nacional. O Éden somos nós.

Do Instituto Datafolha veio uma pesquisa segundo a qual quase metade dos brasileiros consideram o Brasil o país mais feliz do mundo. Estão satisfeitos com a própria vida, 65% dos entrevistados. Somente 3% se declaram infelizes. Curiosamente, no entanto, o Brasil foi ao mesmo tempo apontado como o segundo país mais infeliz do planeta, atrás apenas da África (genericamente) e da Etiópia – empatadas. A grande maioria dos entrevistados, não importando o nível de renda e o grau de escolaridade, mostrou-se feliz com a vida que levava.

Enquanto 65% dos entrevistados se sentem felizes consigo, apenas 23% acreditam que os brasileiros em geral são felizes. Em outras palavras, a imagem que temos de nós mesmos, cada um por si, não corresponde àquela que temos de nós mesmos como coletividade. Como entender duas percepções tão conflitantes?

Analisando os dados, o economista Eduardo Giannetti apresentou na época duas hipóteses. A primeira seria questionar a validade da imagem que cada um gosta de alimentar de si mesmo. “Por mais infeliz que alguém seja aos olhos dos outros, o indivíduo se defende como pode da dor de admitir perante si mesmo a própria infelicidade”.

A segunda hipótese é que os entrevistados talvez usem critérios distintos nos juízos que emitem: “Ao falarem de si, eles privilegiam a perspectiva interna e declaram o seu bem-estar subjetivo. Ao falarem dos demais, contudo, eles naturalmente adotam o ponto de vista externo e privilegiam as condições objetivas em que vive a maioria. A precariedade da vida vista de fora – renda, emprego, segurança, saúde, educação, moradia – domina a avaliação”.

Embora especulativa, a conclusão pareceu satisfatória: infelizes são os outros, não eu; aos olhos deles, no entanto, os outros somos nós. Acrescente-se ao raciocínio de Giannetti: Dizemo-nos felizes, individualmente, mas nossas felicidades individuais não se somam, não se multiplicam. É o afloramento do individualismo brasileiro, de sua dificuldade histórica de gestar uma dimensão coletiva, um espaço público, em que a busca de bem-estar subjetivo se conjugue com a aliança, o compromisso, o contrato. Essa premissa se confirma com o fato de a política brasileira trazer infelicidade para 37% dos entrevistados.

A política no lugar da religião como fonte de esperança

O número acima não surpreende, porque enquanto a felicidade é a prima rica da esperança, a frustração é a prima pobre. Contraditoriamente, depositamos uma enorme esperança na política, quase no mesmo compasso da profunda decepção que temos com ela – e com os políticos. Como disse o filósofo Luiz Felipe Pondé na última Flip, em Paraty: a relação com a política hoje é religiosa na raiz; esperamos que a política conserte o mundo. É essa convicção que alimenta os mais críticos da política, como aqueles que encheram as ruas de protesto no Brasil, nos EUA, na Turquia, na Síria e em tantos outros lugares.

E, no afã de esperar o futuro como algo melhor, corre-se o risco de ignorar o passado e a herança que nos foi legada. Voltando ao próprio Pondé, na mesma Flip: “A modernidade parece um adolescente de 17 anos, que acha que entende tudo sobre o mundo e que o passado não vale nada. Quando você aprende a respeitar o que veio antes de você, ajuda a baixar a bola sobre o que pensa de si mesmo.”

O avesso da esperança, no entanto, parece ser uma condição de vida de vazio, mesmo infernal. Em sua Divina Comédia, Dante Alighieri descreve os portais do inferno como marcados por um aviso que conclama aos visitantes a abandonar toda e qualquer forma de esperança. Esperamos o que não temos, e no modo mais cético de ver a vida seríamos tanto menos felizes quando mais esperamos ser felizes. Woody Allen resumiria numa fórmula: “Como eu seria feliz se fosse feliz!”.

Desconheço, no entanto, alguém que acredite na falta de esperança como meio de ser feliz – senão filósofos que usam o recurso como artifício teórico. Do mesmo modo que rejeitamos fórmulas para a felicidade. (Como escreveu o psicanalista Contardo Calligaris, a felicidade, para você, pode ser uma vida casta; para outro, pode ser um casamento monogâmico; para outro ainda, pode ser uma orgia promíscua. Para você, buscar a felicidade consiste em exercer uma rigorosa disciplina do corpo; para outros, é comilança e ociosidade. Alguns procuram o agito da vida urbana, e outros, o silêncio do deserto. Há os que querem simplicidade e os que preferem o luxo. Buscar a felicidade, para alguns, significa servir a grandes ideais ou a um deus; para outros, permitir-se os prazeres mais efêmeros.)

Eis o ponto: com ou sem religião, com ou sem filosofia, com ou sem leitura de qualquer autor que tenha se preocupado com tais questões, vivemos em algum lugar entre o campo do provável, do realizável e do desejável. E nesse lugar incerto cabe de tudo: esperança, medo, frustração, felicidade, desejo, vontade… Um caldeirão de afetos mais ou menos intensos, contraditórios e misturados, todos amplificados ainda mais pelas luzes e fogos do réveillon. E por essa razão, Drummond continua e continuará sendo importante nos últimos dias do ano.

Como neste poema de A rosa do povo, com o qual desejo ao leitor uma feliz – e esperançosa – passagem de ano:

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor [da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, [doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o [clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus… 

Recebe com simplicidade este presente do [acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos [séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras [espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

 O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles… e nenhum resolve. 

Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

 

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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013 Mulheres, Poesia | 13:50

Ana Cristina Cesar: mulher de muitos segredos, mas nenhum mistério

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Se pretendesse ser original, este texto deveria NÃO começar assim: há pouco mais de trinta anos, Ana Cristina César morreu; jogou-se da janela do apartamento dos pais, aos 31 anos, no Rio de Janeiro (era 29 de outubro). Em sua brevíssima passagem pela literatura brasileira do século XX, tornou-se um dos mais importantes nomes da poesia marginal que florescia na década de 1970.  Trinta anos que não apagaram – ao contrário, só alimentaram – o interesse pela herança poética deixada por Ana C. às gerações seguintes. Uma sobrevida maior que a vida.

Depois de algumas antologias e incontáveis obras sobre a poeta, agora a Companhia das Letras reúne a totalidade dos textos poéticos que ela publicou em vida, além uma seleção de fragmentos, rasuras, experimentais em verso e prosa, todos saídos dos papéis deixados por Ana Cristina.

Ana Cristina Cesar: deliciosa poesia com os embates de um feminino inquieto

Ana Cristina Cesar: deliciosa poesia com os embates de um feminino inquieto

Poética, editado com o esmero e a qualidade habituais da Companhia e lançado na semana passada, tem a curadoria editorial e apresentação do poeta e amigo Armando Freitas Filho, posfácio da professora Viviane Bosi e um robusto apêndice. São livros fora de catálogo há décadas, como A teus pés e Inéditos e dispersos, originalmente publicados pela Brasiliense.

Um carimbo póstumo

É um risco tratar de Ana Cristina Cesar, a carioca que, por sua história, montou uma armadilha para críticos, leitores e admiradores: a repetida e cansativa imagem da poeta precoce que se matou, a poeta genial, a mulher burguesa, a personagem quase mito transformada hoje muito mais em grife ou carimbo póstumo do que qualquer outra coisa, como já afirmou o poeta e crítico Manoel Ricardo de Lima.

Lima, a propósito, organizou em 2008 uma pequena e bem acabada edição chamada a nossos pés (Dantes Editora/Editora da Casa), na qual ele e outros 13 autores se uniram para escrever poemas e prosas breves a partir da autora de A teus pés, “para manter o sufoco da deliciosa poesia de Ana Cristina Cesar”, segundo palavras do organizador.

Não se pode dizer que lhe faltou originalidade, inclusive em seu texto de apresentação, onde Manoel Ricardo de Lima escreve: “Há 25 anos uma moça de olhos bonitos e mãos cobertas com luvas de pelica – Ana Cristina Cesar – interrompia um imprevisto e impunha outro”.

O que se viu dali em diante, lembra ele, foi um sem número de tentativas de juntar os cacos dos imprevistos: a reunião dos poemas deixados, as cartas apontadas para si mesma como uma correspondência secreta, alguma crítica, alguma tradução, algumas anotações num caderno distraído, etc. Nada que o sol não explique, diria Paulo Leminski.

Volume único

Nada de que padeça o lançamento organizado por Armando Freitas Filho. Seja nos textos delimitados pelo ponto final da poeta, seja nos inacabados (que Freitas Filho batizou de “visita à oficina”), Poética tem o mérito de reunir num volume único, de maneira inédita, a obra em poesia de Ana Cristina.

Freitas Filho era o melhor amigo de Ana Cristina: naquele 29 de outubro, ambos se falaram por volta de 12h30. Pouco depois das 13 horas, a mãe dela telefonou desesperada, contando que a filha se jogara da janela. Alguns dias mais tarde, levaria ao apartamento de Freitas Filho quatro caixas de papelão repletos de escritos. Ana Cristina deixara para ele a responsabilidade de cuidar postumamente de suas publicações.

Poética abre com Cenas de abril, de 1979. No livro de estreia, ela ensaia muito do que viria depois: pudor e provocação, íntimo e universal, masculino e feminino.

Noite de Natal.
Estou bonita que é um desperdício.
Não sinto nada
Não sinto nada, mamãe
Esqueci
Menti de dia
Antigamente eu sabia escrever
Hoje beijo os pacientes na entrada e na saída com desvelo técnico.
Freud e eu brigamos muito.
Irene no céu desmente: deixou de
trepar aos 45 anos
Entretanto sou moça
estreando um bico fino que anda feio,
pisa mais que deve,
me leva indesejável pra perto das
botas pretas
pudera

O livro prossegue com Correspondência completa, do mesmo ano, assinado como Ana Cristina C (assim mesmo). Um livreto bem humorado composto de uma só carta,  de Júlia para alguém não nomeado, tendo como “personagens confessos”, tirados da vida real, Mary e Gil.

Luvas de pelica (1980) reúne poemas escritos na Inglaterra, para onde ela foi fazer mestrado em tradução literária na Universidade de Essex. Ficam evidentes marcas de seu estilo: o sentimento de perda, melancolia e desnorteio.

Eu só enjoo quando olho o mar, me disse a comissária do sea-jet.
Estou partindo com suspiro de alívio.
A paixão, Reinaldo, é uma fera que hiberna precariamente.
Esquece a paixão, meu bem; nesses campos ingleses, nesse lago com patos, atrás das altas vidraças de onde leio os metafísicos, meu bem.
Não queira nada que perturbe este lago agora, bem.
Não pega mais o meu corpo; não pega mais o seu corpo.
Não pega.

(…)

Fico quieta.
Não escrevo mais. Estou desenhando numa vila que não me pertence.
Não penso na partida. Meus garranchos são hoje e se acabaram.

(…)

Explico mais ainda: falar não me tira da pauta; vou passar a desenhar; para sair da pauta.

A teus pés

Como afirma Freitas Filho, em A teus pés (1982) Ana Cristina Cesar voltaria assumida à sua assinatura oficial, eliminaria a abreviatura, tiraria a máscara dos óculos escuros e recuperaria a sua identidade como poeta sem disfarces. Aparecem sobretudo textos ultrassintéticos, mas desdobráveis em muitas leituras.

“Ana C. concede ao leitor”, escreveu o amigo Caio Fernando Abreu, “aquele delicioso prazer meio proibido de espiar a intimidade alheia pelo buraco da fechadura”.

Em “noite carioca”

Diálogo de surdos, não: amistoso no frio. Atravanco na
contramão. Suspiros no contrafluxo. Te apresento a mulher
mais discreta do mundo: essa que não tem nenhum segredo.

Em “cartilha da cura”:

As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios.

De um poema sem título:

Preciso voltar e olhar aqueles dois quartos vazios.

Outro sem título:

Do espelho em frente.
Ela instrui:
deixa a saudade em repouso
(em estação das águas)
tomando conta
desse objeto claro
e sem nome

Trecho de “duas antigas”:

Vamos fazer alguma coisa:
escreva cartas doces e azedas
Abre a boca, deusa
Aquela solenidade destransando leve
Linhas cruzando: as mulheres gostam
de provocação
Saboreando o privilégio
seu livro solta as folhas

Tocando as mulheres

Como se vê, Ana Cristina Cesar toca muito as mulheres. Moderna e liberta, fala abertamente de seu corpo e de sua sexualidade, ao mesmo tempo derramando-se numa delicadeza que, à primeira vista, poderia conflitar com o feminismo vigente na época. Embates de um feminino inquieto, como define o poeta e professor Italo Moriconi, ao apresentar Poética.

No capítulo de inéditos, “Visita à oficina”, há um material mais curto e certamente de menor relevância do que os já publicados. São também poemas inacabados, um deles escrito ainda na adolescência, aos 16 anos. Por ele recebeu nota 10 da professora e o elogio: “Lindo!”

Em outro exibe uma maturidade incomum para a idade: “Estar em fraude – não consigo mesmo, não consigo mesmo. Conseguir vislumbrar a fraude inerente – segui-la em conivência, vivê-la em seguimento a indicações envelhecidas pela chuva. Chamar sem querer as palavras delineadoras – é fácil criar-se a partir da energia que se cria”.

Que não se busquem em seus poemas sinais ou razões do suicídio. É um repúdio que a própria poeta deixava claro em “Três cartas a Navarro”, publicado em Antigos e soltos: “Te deixo meus textos póstumos. Só te peço isto: não permitas que digam que são produtos de uma mente doentia! Posso tolerar tudo menos esse obscurantismo biografílico.”

Pela densidade combinada com simplicidade (ou singeleza) na coloquialidade e no humor, Poética e Ana Cristina se abrem igualmente a leitores eruditos e iniciantes, porque exibe não sabedorias (pequenas ou grandes), mas desvios contínuos, fraturas, múltiplas falas, testemunho do inconcluso e do inacabado.

Como qualquer um de nós que se angustia, se encanta e mergulha na tormenta e na delícia das descontinuidades da vida.

 

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sexta-feira, 29 de novembro de 2013 Literatura, Psicanálise, Sociedade | 13:02

Aprenda a amar como os franceses

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Recomendado em diferentes momentos por dois psicanalistas que entendem como poucos de análise e de cultura (Contardo Calligaris e Marcia Neder), devorei prazerosamente as 370 páginas do fantástico livro Como os franceses inventaram o amor: nove séculos de romance e paixão (editora Prumo). A autora, Marilyn Yalom, é uma norte-americana que pesquisa gêneros em Stanford, EUA, e especialista em literatura francesa. Para ela, a França é a pátria do amor; e os franceses, compositores do melhor e mais completo repertório amoroso.

Ao  rastrear o amour à la française, do romance do século XII até aqui, Yalom conclui: deveríamos aprender com eles. “Um francês ou uma francesa sem desejo é considerado alguém imperfeito, como uma pessoa desprovida de paladar ou olfato”, afirma, hiperbolicamente. “Há séculos os franceses se consideram mestres da arte de amar por meio de sua literatura, sua pintura, suas canções, seu cinema”.

Capa do livro "Como os franceses inventaram o amor", de Marilyn YalomO fato é que usamos expressões como rendez-vous, tête-à-tête e ménage à trois para aludir a intimidades com certo sabor francês – e já nem nos damos conta dessa linhagem. A palavra “galanteio” vem diretamente do francês. Outra palavra, amour, nem precisa de tradução, mesmo para aqueles de língua inglesa, que usam um termo tão diferente como love. Diferentemente dos pudicos americanos, diz Yalom, uma característica definidora do amor à la française é a sua “decidida ênfase no prazer sexual” – ela cita pesquisas que mostram tal cultivo mesmo entre os franceses mais velhos.

(Pelo menos se acreditarmos no senso comum dos brasileiros, esse apetite pela carne se repete igualmente do lado de baixo do Equador.)

Mas a aptidão linguística é o de menos. A grande lição francesa está no retrato deixado pelos seus artistas – por meio deles se conhece a literatura e a história do amor na França, com os segredos de alcova da realeza, os romances dos salões intelectuais do século XVIII ou os intrincados relacionamentos entre personalidades do século XX, como o de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Segundo o livro, as relações sociais e os papéis sexuais modificaram-se com o passar do tempo, mas sem que as regras da sociedade fossem capazes de domar os desejos e as ambições amorosas individuais.

Tudo começa na chamada Idade Média, com as ardentes histórias de Lancelote e Guinevere ou as de Tristão e Isolda, e outras lendas de mulheres divididas entre o marido e o amante. O amor ali é sempre representado como um fatum – um irresistível fado contra o qual é inútil se rebelar. Assim como se dá num inevitável triângulo amoroso: Tristão escolta Isolda, a futura esposa de seu tio, e se apaixona por ela. Lancelote venera seu rei Artur, mas se apaixona pela rainha. (Em geral, os poetas do amor cortês são chegados a amar damas casadas e frequentemente fiéis a seus senhores.)

Vistos com os olhos de hoje, triângulos amorosos são foco batido e pisado na literatura desde Madame Bovary e Ana Karênina, mas o adultério se tornou moda pela primeira vez na França do século XII – mesmo século, diga-se, em que transcorreu a verídica e trágica história de Abelardo e Heloísa.

Não que o “inventaram” do título do livro de Yalom deva ser levado ao pé da letra. O amor romântico existe desde que homens e mulheres são homens e mulheres. Exemplos?

A Bíblia descreve o intenso desejo do rei Davi por Betsabá, ou o amor de Isaac pela esposa Rebeca. As antigas tragédias gregas nos apresentaram Fedra, que ardia em desejo por seu enteado Hipólito, e Medeia, que matou os filhos por causa do violento ciúme do marido, Jasão. A poeta Safo suplicou a Afrodite reciprocidade no amor a uma jovem.

Ou quem esquece a arrebatadora paixão de Orfeu e seu amor impedido por Eurídice? E Platão? – o filósofo que louvou o amor de rapazes por homens velhos como algo natural. Também não se deve ignorar as lições de A arte de amar, de Ovídio.

A novidade francesa, Yalom argumenta, foi a explosão cultural que proclamou os direitos dos amantes de viver sua paixão, apesar de todas as dificuldades criadas pela sociedade e pela religião. Um novo espírito que defendeu a própria causa do amor.

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres francesas

A invenção francesa também ajudou a “feminizar” o amor. “A senhora [dama] ocupou lugar central na cena e, creio, desde então passou a comandar o foco das atenções”, escreve Yalom. A mulher emergiu simultaneamente como objeto do desejo masculino e sujeito do seu próprio desejo: “Os franceses nunca acreditaram que as mulheres fossem menos apaixonadas do que os homens” (acrescento: os franceses e os homens de alma feminina).

A propósito, num recente best-seller, Le conflit: la femme et la mère (“O conflito: a mulher e a mãe”), a feminista francesa Elizabeth Badinter afirma que as mulheres não devem deixar que a “tirania da maternidade” esmague o papel da esposa. Tragédia comum a muitos casais, que padecem na alegria de ter um filho e na “deserotização” do relacionamento.

Do amor cortês ao amor cômico de Molière ou ao amor trágico de Racine, a feminização francesa do amor contrasta com o antigo ideal másculo dos gregos – noves fora a criação de personagens femininas grandiosas, como Antígona e Medeia, entre autores  gregos.

Yalom prossegue sua viagem pela sedução e sentimento de autores como Rousseau; pelas cartas de amor de Julie de Lespinasse; pelo amor republicano de Elisabeth Le Bas e Madame Roland; pela saudade da mãe de Constant, Stendhal e Balzac; pelo amor entre os românticos, como George Stand e Alfred de Musset; pelo amor romântico esvaziado de Madame Bovary; pelo amor entre os homens representados por Verlaine, Rimbaud, Oscar Wilde e André Gide; pelo amor desesperado e neurótico de Proust; pelo amor lésbico de Colette e Gertrude Stein; pelos existencialistas apaixonados Simone de Beauvoir e Sartre; até – ufa! – o amor no século XXI.

Uma vida inteira para dar conta dessa literatura – ou, para quem tiver pressa, um curso de Pedro Paulo de Sena Madureira na Casa do Saber sobre civilização francesa.

O amor se aprende com a literatura?

Volto a Contardo Calligaris, que acaba de lançar Todos os reis estão nus, reunião de crônicas publicadas semanalmente no jornal “Folha de S.Paulo” e selecionadas por Rafael Coriello para a editora Três Estrelas. O amor é tema usual dos textos do psicanalista e escritor.

Para ele, o amor é absolutamente indissociável da literatura amorosa. Três razões explicam essa relação. Primeiro, por aprendermos a amar e a declarar o amor pela literatura. A segunda razão é porque o amor se tornou relevante em nossa vida à força de ser descrito e idealizado pela literatura. E terceiro, o amor, como sentimento, “é um efeito das palavras que o expressam”, ou seja, a literatura nos instiga a amar tanto quanto nossas próprias declarações amorosas.

Contardo Calligaris é um pouco desconfiado do assunto. Ou melhor, desconfia das palavras com as quais manifestamos os sentimentos e sua intensidade. “Nunca sei se a gente se declara apaixonado porque de fato ama ou se diz que está apaixonado pelo prazer de se apaixonar”, escreve numa das crônicas do livro, intitulada “Amores silenciosos”.

Diz ainda nunca saber se as declarações de amor são constatativas (“Digo que amo porque constato que amo”) ou performativas (“Acabo amando à força de dizer que amo”). Em outras palavras, “externamos os nossos sentimentos para vivê-los mais intensamente – para encontrar as lágrimas que, sem isso, não jorrariam, ou a alegria que sem isso talvez fosse menor”.

Numa variação dessa ideia, José Miguel Wisnik compôs “A serpente”, canção feita para uma montagem da peça de Nelson Rodrigues do mesmo nome. Na peça, a personagem afirma: “O homem deseja sem amor, a mulher deseja sem amar”. No que Wisnik transformou, com maior acerto, em “se o homem ama por amar/ e a mulher ama por amor/ quem vai poder nos abraçar/ compreender nossa dor?”.

É de apaixonar.

Um amor para mudar, ou mudando para amar

Em nossa vã esperança, que costuma recorrer ao céu e ao inferno para escapar das dores da vida ordinária, o amor pode significar um enorme alento. Como questiona Calligaris em outra crônica (“Amores e mudanças”): quando a vida está emperrada (o que não é raro), será que faz sentido esperar que um encontro, um amor, uma paixão se encarreguem de nos dar um novo rumo? “Provavelmente sim – no mínimo é o que esperamos”, ele responde.

Duas possibilidades: ou o amor surge quando está na hora de a gente se transformar ou é por amor que a gente se transforma. Ou as duas possibilidades podem ser verdadeiras. “Volta e meia”, escreve Calligaris, “alguém me pede uma receita: como esbarrar num amor que nos transforme? A resposta trivial diz que os encontros acontecem a cada esquina: difícil é enxergá-los e deixar que eles nos transformem, ou seja, difícil é ter a coragem de vivê-los”.

Não é por outra razão talvez que muitas esquinas continuam e continuarão a se resumir a isto: a esquinas imaginárias.

Exceto, talvez, para os franceses radiografados por Marilyn Yalom.

 

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segunda-feira, 28 de outubro de 2013 Poesia | 02:58

Citação do dia: “Só as casas explicam que exista uma palavra como intimidade”

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Do poeta português Ruy Belo (1933-1978), que ganha este ano, no Brasil, os três primeiros volumes da sua bibliografia completa. Organizada pelo escritor e também poeta Manoel Ricardo de Lima, a coleção é editada pela 7Letras.

 

Oh as casas as casas as casas

as casas nascem vivem e morrem

Enquanto vivas distinguem-se umas das outras

distinguem-se designadamente pelo cheiro

variam até de sala pra sala

As casas que eu fazia em pequeno

onde estarei eu hoje em pequeno?

Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?

Terei eu casa onde reter tudo isto

ou serei sempre somente esta instabilidade?

As casas essas parecem estáveis

mas são tão frágeis as pobres casas

Oh as casas as casas as casas

mudas testemunhas da vida

elas morrem não só ao ser demolidas

ela morrem com a morte das pessoas

As casas de fora olham-nos pelas janelas

Não sabem nada de casas os construtores

os senhorios os procuradores

Os ricos vivem nos seus palácios

mas a casa dos pobres é todo o mundo

os pobres sim têm o conhecimento das casas

os pobres esses conhecem tudo

Eu amei as casas os recantos das casas

Visitei casas apalpei casas

Só as casas explicam que exista

uma palavra como intimidade

Sem casas não haveria ruas

as ruas onde passamos pelos outros

mas passamos principalmente por nós

Na casa nasci e hei-de morrer

na casa sofri convivi amei

na casa atravessei as estações

respirei – ó vida simples problema de respiração

Oh as casas as casas as casas

 

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