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domingo, 19 de outubro de 2014 Política | 13:41

Debate restrito a ataques e bate-boca irrita o eleitor. Mas só com ideias de alto nível fica chato. Qual a saída?

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Em poucas horas, Dilma Rousseff e Aécio Neves voltarão a confrontar-se em novo debate, desta vez na Record. Depois dos encontros da Band e do SBT, a expectativa corrente é se ambos manterão a linha de ataques quase fratricidas ou se reduzirão o tom em busca de um equilíbrio maior entre as críticas severas a um e as propostas para o País.

Há quem acredite que, diante das reações negativas generalizadas de lado a lado, é bem possível que os dois baixem a guarda e aplaquem o ímpeto bélico. Com o perdão da obviedade, meu palpite é que os dois candidatos vão se estudar inicialmente, e os primeiros movimentos de cada um ditarão o tom a seguir. O nível de hoje dependerá, portanto, de quem vai tomar a iniciativa de ser mais ou menos agressivo, mais ou menos magnânimo.

Mas o foco desta pensata é outra. Instigado por um querido e refinado leitor da coluna, reflito: detestamos quando sai fogo do debate e quando este se restringe a ataques mútuos. Até aí ok. O debate franco, qualificado e profundo de ideias é o que de fato interessa ao País. Como afirmaram muitos blogueiros, situados à esquerda e à direita do espectro político e ideológico, estamos todos cansados de ver brigas entre Dilma e Aécio. Queremos propostas. Até aí ok também.

É lorota – “e das boa”, como diria o mestre do baião, Luiz Gonzaga – imaginar que assistiríamos sorridentes, iluminados e altivos, do começo ao fim (como se estivéssemos numa Ágora grega) a um debate de altíssimo nível o tempo inteiro. Ao contrário, ele seria modorrento, enfadonho, sonolento. A começar pela própria imprensa, que não raro descreve debates sem confrontos como “debate morno”.

Por outro lado, como sublinhou o amigo da coluna, o bate-boca é ruim para o debate, para o País e para a biografia dos próprios candidatos – mas neste caso todos assistem e comentam os momentos mais ruidosos do “confronto”.

“Qual o equilíbrio de um debate destes?”, eis a pergunta feita por este amigo, a mesma que muitos devem estar se fazendo hoje, à espera do terceiro e penúltimo debate do segundo turno. “O que está em jogo? As habilidades políticas? O passado de gestor? Afinal, o que o eleitor espera de verdade?”. São perguntas pertinentes, que provavelmente não encontram respostas únicas, tampouco consensuais. Mas ajudam a pensar se, neste tema, é pau, é pedra ou o fim do caminho.

Aécio Neves e Dilma Rousseff no debate do SBT. Foto: Reprodução

Aécio Neves e Dilma Rousseff no debate do SBT. Foto: Reprodução

Os ataques são pedagógicos. Mas até certo ponto

Com exceção talvez do jornalista Paulo Nogueira, do DCM (parceiro do iG), nenhum analista relevante enxergou méritos na agressividade dos dois primeiros encontros do segundo turno. De Josias de Souza – para quem foi o mais baixo nível de debate desde o confronto renhido entre Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva em 1989, na noviça democracia recém-descoberta – a Luis Nassif, que classificou de “circo de horrores”.

Paulo Nogueira, no entanto, acha que os debates acirrados como os dois últimos ajudam a dar clareza sobre o perfil dos candidatos. “A importância de um debate está em permitir ao leitor que conheça os candidatos. A alma dos candidatos, quero dizer”, escreveu ele em artigo.

Não só a agressividade revela a “essência do homem em si”, argumentou, como é impossível formular propostas para um país em dois minutos para o adversário rebatê-las em um minuto. “Você não discute sequer o seu casamento, ou namoro, em um minuto, que dirá os caminhos da educação ou da saúde, os remédios para a economia ou para o meio ambiente, e por aí vai. Mas em instantes, em fragmentos de instantes, você capta a alma do candidato, e isso acontece em geral em situações de tensão e confronto, quando a guarda está mais baixa e o nhenhenhém diplomático se esvai.”

Faz sentido.

Mas Dilma Rousseff e Aécio Neves não ganharão o salvo-conduto para restringirem 100% seus preciosos minutos dos debates da TV às brigas, bate-bocas, provocações, ironias. A razão: o baixo nível da campanha infelizmente não se limita ao debate, quando dispõem apenas de um minuto para respostas ou um minuto para réplicas ou tréplicas. A qualificação no ralo é generalizada; espalhou-se por quase todo o primeiro turno e tomou de assalto o segundo turno inteiro.

Em bom português: tanto nos debates da TV quanto nas entrevistas e nas inserções do programa eleitoral gratuito, trata-se de uma campanha feia e grosseira. Foram raros os instantes de brilho pessoal ou criatividade política. Quase ou nenhuma proposta capaz de distinguir-se do que tem composto o palavrório trocado entre oposição e governo.

Uma campanha feia e a campanha que não houve

Com uma pauta tão mofina assim, a taxa de abstenção, brancos e nulos tende a aumentar no segundo turno. O lamentável é que as duas candidaturas – Dilma/PT e Aécio/PSDB – têm o que apresentar, especialmente projetos de mudança em direções divergentes, porém reais.

Obviamente são necessários aí os olhares para o retrovisor, sim, comparando-se estratégias, contextos e consequências e dois modelos bastante diferentes de governar, demonstrados não só nos oito anos de Fernando Henrique Cardoso e nos dois 12 anos de Lula/Dilma, como também nas gestões estaduais tucanas e petistas.

(Ainda impressiona quando alguém afirma que PT e PSDB são mais próximos do que se imagina e deveriam caminhar juntos.)

O eleitor, porém, chega à última semana sem conseguir escapar da verborragia, de um lado, e numerologia, de outro. Pura e simplesmente. Dos mal informados radiografados recentemente pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso aos bem deformados identificados pelos seus críticos, poucos devem ter saído com uma visão clara do que de fato se imagina ser o cenário de mudanças concebido para o próximo governo – seja ele o governo reeleito de Dilma ou um novo governo tucano, com Aécio.

Até onde são mitificações ou verdadeiras as previsões sombrias sobre a economia brasileira?

A vasta leva de obras que se espalham pelo País – e sobre as quais pouco se fala – conduzirão a economia a novo patamar nos próximos anos?

Como o Brasil modernizará seu patamar de análise sobre os padrões de vida, comportamento e bem-estar, em algo que vá além do número puro e seco do Produto Interno Bruto?

Qual o equilíbrio ótimo entre eficiência econômica (que avançamos com FHC) e democracia social (cujo salto se deu especialmente com Lula), sem abdicarmos de uma e outra?

Que diferenças de planos para a educação e a inovação tecnológica existem entre os dois projetos?

Dilma e Aécio exibem condições de identificar, radiografar e dialogar com um tipo inédito de intervenção política? (Aqueles movimentos recentes constituídos pelo ajuntamento de atores menos abrangentes do que as classificações que conhecemos, como classes, corporações profissionais e grupos de interesse reconhecidos; refiro-me ao novo que se prolifera em pequenas coletividades, e sem denominador comum muito claro.)

Quais rumos o Brasil tomará em posições internacionais, cujo patamar foi reduzido após a saída de cena de Lula?

O que diferem Dilma e Aécio para sérias questões de valores da sociedade, como aborto, casamento gay, políticas afirmativas, violência contra minorias?

E em questões prioritárias como segurança pública e saúde?

Tudo isso poderia ter sido discutido sem que ambos abdicassem do necessário, pedagógico e fundamental direito de desconstruir o adversário – dos pelintras expostos na Petrobras, de um lado, às venturas e desventuras festivas, de outro.

Se tivessem buscado o equilíbrio, as duas candidaturas ainda ajudariam a aplacar a matéria-prima incrustrada no debate público atual: a intolerância com as ideias e as escolhas as alheias.

Não sairíamos tão menores do que chegamos até aqui.

 

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