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domingo, 8 de fevereiro de 2015 Política, Sociedade | 06:00

Reflexões sobre as manifestações no Brasil, os novos desafios dos jovens e a agenda contra irregularidades políticas

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Em junho de 2013, o Brasil parou com milhares de pessoas protestando nas ruas. O que começou com insatisfação contra o aumento da tarifa do transporte público expandiu-se para outras causas, transformando-se em grandes manifestações que se espalharam pelo País, refletindo uma indignação generalizada dos brasileiros. São ecos dos protestos que, na época, esperava-se que produzissem efeitos radicais nas eleições de 2014 – algo que não ocorreu.

Os acontecimentos de junho não foram inéditos. Nos anos anteriores, manifestações já tomavam as ruas para fazer uma série de reivindicações. O Movimento Passe Livre já havia organizado atos em outras ocasiões, contra o aumento da tarifa. “Junho de 2013 foi apenas uma espécie de encontro catártico de tudo o que estava acontecendo”, opina a arquiteta e urbanista Raquel Rolnik.

A artista Maria Borba, a pesquisadora Natasha Felizi e o ativista João Paulo Reys, observando esses movimentos, decidiram colocar no papel as discussões sobre o que estava acontecendo no País. A ideia era produzir um jornal, que seria distribuído nas manifestações. “Foi uma alegria muito grande ver que a insatisfação ganhava força a ponto de ser colocada para fora”, conta Maria Borba. A ideia cresceu e virou o livro Brasil em movimento – Reflexões a partir dos protestos de junho, publicado recentemente pela editora Rocco.

Brasil em movimento Maria Borba, Natasha Felizi E João Paulo Reys (organizadores) Editora Rocco 448 páginas, R$ 59,50

Brasil em movimento
Maria Borba, Natasha Felizi e João Paulo Reys (organizadores)
Editora Rocco
448 páginas, R$ 59,50

João Paulo Reys faz um panorama dos protestos no início do livro, abordando os pronunciamentos das autoridades políticas e a repressão policial que marcou as manifestações. Reys faz uma crítica ácida à mídia, apresentando editoriais da Folha de S. Paulo e do Estadão, que chegaram a usar termos pejorativos como “grupelho” e “baderneiros”.

Os organizadores convidaram um grupo diverso para integrar o livro, passando por historiadores, filósofos, políticos, economistas, arquitetos e outros especialistas que escreveram sobre as manifestações e sobre a situação atual do País, cada um contribuindo da forma como julgasse mais adequada, com textos ou entrevistas. De João Pedro Stédile, do MST, ao economista Carlos Lessa. Do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ) ao músico e compositor Jorge Mautner. Do economista Gustavo Franco ao historiador e político Vladimir Palmeira.

Alguns artistas optaram por participar mostrando trabalhos ligados ao tema. Cildo Meireles cedeu a obra Buraco para jogar políticos desonestos. De maneira irônica, a tela mostra uma fenda a partir do Senado, que leva diretamente ao centro da Terra. Carmela Gross apresenta seu trabalho Serpentes. As cobras, desenhadas em grafite, representam a população nas ruas. “Eu estava pensando num ponto de vista o mais baixo possível, o das serpentes, aquele ser mais baixo que se arrasta no chão”, explica a artista.

O que Carmela Gross chama de “serpentes”, Paulo Mendes da Rocha chama de “infecção”. Para o arquiteto, entrevistado para o livro, as manifestações são um movimento em massa de pessoas que buscam um modo de vida que nem sempre é conveniente à ordem estabelecida, causando incômodo, assim como uma infecção.

Alguns escritores contribuíram com artigos e crônicas. É o caso de André Sant’Anna, que faz uma crítica bem humorada sobre “a nova classe média” e os itens que a sociedade vem consumindo, de produtos vendidos como saudáveis até religiões e ideias na televisão.

O líder Yanomami Davi Kopenawa, que tem militado pela causa indígena e ambiental no Brasil, foi entrevistado para o livro e falou sobre a dificuldade que as lideranças de seu meio têm encontrado para levar suas propostas adiante e sobre a importância das manifestações nas grandes cidades: “O povo da cidade não pode parar, vamos reclamar juntos”.

Maria Borba (à esquerda) entrevista Paulo Mendes da Rocha, Raquel Rolnik, Lúcio Gregori e Carmela Gross em evento em São Paulo

Maria Borba (à esquerda) entrevista Paulo Mendes da Rocha, Raquel Rolnik, Lúcio Gregori e Carmela Gross em evento em São Paulo

Brasil em movimento acabou não saindo no calor das manifestações de 2013. Isso porque sempre surgiam novas ideias e novos entrevistados que os organizadores gostariam de incluir. “O Brasil é múltiplo. De algum modo instintivo, havia o desejo de escutar pessoas de muitos setores da sociedade”, diz Maria Borba.

Nem todos os que foram convidados a contribuir concordaram em participar e alguns questionaram a iniciativa dos organizadores. Foi o caso do cantor e compositor Gilberto Gil que, logo no início da entrevista, transcrita no livro, dispara: “Por que tão rápido, um livro?”. Ele achou “prematuro e precipitado” o trabalho, mas concordou em falar sobre as manifestações e o momento atual do Brasil. “A expectativa agora é de que finalmente vamos poder dobrar a institucionalidade política, do poder econômico, do poder cultural, das comunicações”, diz.

Maria Borba explica a impossibilidade de se cristalizar uma análise única sobre os acontecimentos e a necessidade de se reproduzirem pensamentos ainda em formação. “Nesse momento, é complexo discutir o que acontece nas ruas”, opina Raquel Rolnik. Para ela, o momento é o de interpretar os movimentos. “A disputa de discurso é tão importante quanto a rebelião na rua”, diz.

Além das tarifas

O anúncio do aumento das tarifas do transporte público no início de junho de 2013 causou protestos em São Paulo e no Rio de Janeiro, levando milhares de pessoas às ruas. Rapidamente, as manifestações se espalharam por todo o País e começaram a reunir também outras reivindicações.

O engenheiro Lúcio Gregori, entrevistado para o livro, lembra que o Brasil possui um dos maiores PIBs (produto interno bruto) do mundo. No entanto, os níveis de subsídio ao transporte público não passam dos 20%, enquanto que em outros países podem chegar a 70%.

O engenheiro defende a implantação da tarifa zero em etapas. No longo prazo, haveria vantagens como a movimentação do comércio e o incentivo ao uso do transporte público pela população, diminuindo congestionamentos e melhorando a qualidade de vida. “A catraca impede as pessoas de aproveitar a vida nas cidades”, opina.

Ao longo dos protestos, outras pautas foram levadas às ruas, como os questionamentos quanto aos gastos na área esportiva, com a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, sendo que setores como saúde e educação permanecem carentes de recursos.

Maria Borba avalia essa agregação de novas pautas como resultado de uma insatisfação geral no País. Para Raquel Rolnik, as tarifas foram apenas uma “fagulha” que despertou uma série de indignações. “Nós estamos vivendo a era das rebeliões. Isso não é apenas aqui no Brasil, isso é internacional”, diz.

Depois de junho

Raquel Rolnik afirma que tem notado a angústia por parte das pessoas que foram às manifestações e esperavam uma resposta imediata. Ela dá dois conselhos a essas pessoas: “Calma: não acabou em junho de 2013, tem muita coisa pela frente. E olho aberto: não vamos nos deixar enganar pelas interpretações fáceis do que está acontecendo”.

Para Maria Borba, a maior conquista foi a consciência da população de seu poder de realizar mudanças. “Há um desafio imenso no que diz respeito à qualidade básica de vida dessa população que dizemos que agora está inclusa”, opina.

Lúcio Gregori faz uma proposta: prestigiar a juventude brasileira e, em especial, o Movimento Passe Livre. Para ele, são jovens que têm propósitos objetivos e estão trabalhando para conquistá-los, destoando da imagem de jovens que é transmitida pelos canais de televisão. Paulo Mendes da Rocha complementa: “Nascemos para continuar, portanto jovens somos todos nós”.

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terça-feira, 30 de setembro de 2014 História, Sociedade | 10:39

“Há uma guerra social em andamento”, diz filósofo da USP sobre novo tempo do Brasil e do mundo

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Manifestações contra a Copa do Mundo por todo o Brasil, inclusive durante os jogos. Ônibus incendiados. Greves. Atos de violência pelo País. Movimentos de ocupação. Manifestantes e policiais enfrentam-se com truculência.

O Novo tempo do mundo Paulo Arantes 464 páginas, R$ 52 Boitempo Editorial

O Novo tempo do mundo
Paulo Arantes
464 páginas, R$ 52
Boitempo Editorial

O parágrafo anterior é um recorte do primeiro semestre de 2014 no Brasil. São exemplos de um novo tempo, que Paulo Arantes aborda em O Novo Tempo do Mundo, lançado recentemente pela editora Boitempo.

O autor afirma que existe uma “guerra social” em andamento. “É só acompanhar os jornais”, diz. O título é inspirado na obra Le Temps du Monde (“O Tempo do Mundo”), do historiador francês Fernand Braudel.

“Há um clima geral de insegurança e ainda não temos um conceito adequado para isso. Paulo Arantes arrisca encontrar caminhos”, afirma a doutora em Filosofia Isabel Loureiro, que esteve em debate com o escritor na semana passada na USP.

Em seu livro, Arantes estuda fatos recentes no Brasil e no mundo, buscando paralelos na história. O que Arantes chama de “tempo do mundo” no título de seu livro é o momento seguinte a um grande acontecimento. “É o fim de uma trégua”, diz.

Guerra, paz e consumo

A palavra “trégua” é empregada por Arantes de maneira intencionalmente provocativa, segundo ele. O grifo é emprestado de outro escritor, o italiano Primo Levi, autor de “A Trégua”.

Sobrevivente de Auschwitz, Levi trata justamente do pós-Segunda Guerra Mundial. O regime nazista foi derrubado, mas não as hostilidades que vieram com este.

Esse momento, em que grandes eventos acabaram de acontecer e existe a possibilidade de a configuração mudar a qualquer momento, se assemelha ao atual, na visão de Arantes. “Temos de nos preparar para um ‘second strike’”, afirma.

Ainda que o mundo não viva uma guerra generalizada como foi a Segunda Guerra Mundial, conflitos ocorrem em diversas partes do mundo desde então. “Não há possibilidade de democracia depois da bomba atômica”, diz Arantes.

Paulo Arantes em debate na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

Paulo Arantes em debate na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

No estado de emergência atual que o autor aborda, a guerra e a sociedade de consumo convivem juntas. “Welfare e warfare são uma só”, afirma. Em sua visão, “as pessoas que recebem as mercadorias” (os consumidores) têm a consciência de fazerem parte de um processo maior, uma mobilização para a guerra.

Essa sociedade de consumo, moldada desde antes do “welfare state”, é alimentada por campanhas publicitárias que apresentam produtos ao consumidor como altamente necessários, sem os quais a vida se tornaria impraticável.

Contra as mazelas sociais, são fornecidos benefícios que não corrigem a situação, mas “sossegam” os indivíduos, explica Arantes. O autor faz um paralelo com o Plano Beveridge, na década de 1940, criado para amparar os sobreviventes que trabalharam durante a Segunda Guerra Mundial, para os quais foram oferecidos planos de saúde e educação.

“Vocês vão para a guerra e os que voltarem terão saúde, educação, bolsa-moradia, bolsa-isso, bolsa-aquilo”, brincou Arantes, arrancando risos de uma plateia formada principalmente por estudantes universitários. O meio estudantil está familiarizado com termos como bolsa-alimentação, bolsa-moradia, bolsa-livros e outras bolsas.

Depois de junho…

O último ensaio de O Novo Tempo do Mundo tem como título “Depois de junho a paz será total”. Após tratar do “tempo do mundo” no plano geral, Arantes fecha sua obra com o caso brasileiro, partindo das manifestações que tomaram as ruas em junho de 2013.

“Nós começamos numa guerra total e continuamos numa paz total”. É assim que Arantes se refere ao estado de trégua, um momento delicado em que existe uma linha tênue entre guerra e paz. “Sabemos que estamos no olho do furacão e é uma situação generalizada”, diz Isabel Loureiro.

O autor usa como exemplo o caso das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) no Rio de Janeiro. Apesar do nome, “pacificadora”, a atuação desses órgãos tem sido questionada por criar uma “guerra” entre policiais e traficantes, por vezes envolvendo civis e acabando em mortes.

A cidade passou a conviver com operações policiais semanalmente. “O que significa que o Rio de Janeiro tenha uma gestão armada de sua vida social e as pessoas achem isso natural?”, questiona Arantes.

Em 2013, o que começou como uma manifestação contra o aumento das tarifas do transporte público (aumento de 20 centavos, no caso de São Paulo), culminou em manifestações que reuniram milhares, fecharam rodovias e foram marcadas por atos de violência.

O aumento da tarifa e as primeiras manifestações trouxeram à tona uma série de incômodos sociais, que levaram a novas manifestações. Um ano depois, em junho de 2014, o Brasil sediou a Copa do Mundo.  As pessoas novamente foram às ruas para protestar contra o investimento em um evento esportivo mundial, em detrimento de áreas como Educação e Saúde.

O que mudou? Para Arantes, o Brasil não é um País democrático, igualitário, pacificado e praticamente sem pobreza, como se imaginava. O autor explica que o “tempo do mundo” do título é o tempo vivido por sociedades como a brasileira, que estão orientadas pelo futuro. No entanto, ao encontro dessas sociedades, o que vem é um “futuro explosivo”.

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segunda-feira, 14 de abril de 2014 Economia, Política | 08:59

Sem utopias e com violência, o ano vai ser difícil, diz a economista Maria da Conceição Tavares

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A professora Maria da Conceição Tavares completará 84 anos no próximo dia 24. Ao seu modo, com um olhar sobre a economia brasileira, muitas hipérboles e uso desenfreado de palavrões, a economista costuma soltar sua birra contra os céticos – gente desabrida que, nos últimos anos, não enxergou as mudanças de um Brasil de pleno emprego, salário mínimo elevado e melhor distribuição de renda com ascensão social das bases (e lixe-se a questão se temos PIB ou “pibinho”).

Diz ter deixado de ler economia para não se irritar com o “festival de besteira”, admite possivelmente estar ultrapassada e velha e, há pouco tempo, afirmou que não dá para ser nem ultraotimista nem ultrapessimista, mas “moderadamente otimista”.

InteligenciaNum belo depoimento à revista Insight-Inteligência, no entanto, Maria da Conceição Tavares mostrou-se menos moderadamente otimista do que admite. “As pessoas estão perdidas, não sabem como se guiar do ponto de vista político, econômico”, afirmou à revista, cujo versão em blog é parceira do iG. “E com isso a história parece que não se move. O futuro fica ilegível, amorfo”.

É um desabafo a se enxergar não o estreito limite de 2014, da sucessão presidencial ou da avaliação de um governo. Antes, trata-se de um despejo de sombra sobre nossa época, o que ela chama de “era das distopias”.

A professora usa palavras conceitualmente duras para definir esses tempos fraturados (expressão emprestada do historiador marxista Eric Hobsbawn) e vê pouca luz na produção intelectual. O mundo reformista vai mal, e o mundo revolucionário também, afirma Conceição. Diz ela:

 “O pensamento social está muito atrasado, muito desminliguido. O pensamento reformista sumiu. Agora, o que há é uma espécie de naturalismo. (…) Naturalizou-se uma concepção de vida social a respeito da qual se passou um século inteiro combatendo. Mais: ao contrário do século XX, que organizou as massas, os sindicatos poderosos, organizações internacionais festejando o progresso, agora todos os interesses se fracionaram, se fragmentaram,”

Sem movimentos utópicos

Para a professora, a história não ilumina mais o futuro, na forma de uma ideologia. Desde o século XVIII, os movimentos políticos, sociais e econômicos deixaram de se orientar pela ideia de tradição, substituindo-a pela convicção de um futuro diferente e melhor. A história tinha um sentido, um objetivo, uma utopia: criar uma sociedade mais livre e igualitária.

O século XIX foi pautado pela busca da liberdade – liberdade do indivíduo, liberdade política, liberdade econômica. Depois, no século XX, veio a busca pela igualdade. Da Revolução Francesa e a promessas de liberdade do século anterior à Revolução Russa e a promessa do reino da igualdade.

Essa orientação histórica dupla – de um lado a liberdade; do outro a igualdade – acabou no final do século XX, conclui a professora. “A história deixou de iluminar o futuro para os economistas, os políticos, os ativistas”, disse ela à Inteligência. “As vanguardas desapareceram. Com o esboroamento das utopias, esvaíram-se também as ideias de socialismo, do Estado de bem-estar e o planejamento econômico”.

Ou seja, o mercado e o neoliberalismo mostraram-se incompatíveis com a ideia de sociedade organizada e de Estado planejador. Os antigos receituários perderam seu sentido. “Vemos a sociedade mexer-se, mas a forma superestrutural de fazer política parece não andar para lugar nenhum”.

Um exemplo? “Como se elege um negro nos Estados Unidos e não acontece nada?”, questiona Conceição. “Era para ter acontecido, bem ou mal, uma mudança de paradigma, de comportamento social”.

A presidente Dilma Rousseff entrega Prêmio Almirante Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia à professora Maria da Conceição Tavares: "Parece que tudo se esvai no arroz com feijão"

Maria da Conceição Tavares recebe da presidente Dilma Rousseff Prêmio Almirante Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia: “Parece que tudo se esvai no arroz com feijão”. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

O ódio no lugar da utopia

Planejamento pode significar um palavrão para liberais e neoliberais, mas a dificuldade, segundo ela, é pensar um guia de ação: “Parece que tudo se esvai no arroz com feijão”. Não há um plano no governo, mas também nos sindicatos – “todos aparvalhados” – e na classe média. “Não sei até que ponto o povo propriamente dito precisa de utopia. Mas a classe média precisa”, afirma a professora. “Não tendo, ela transforma sua mágoa em ódio”.

Segundo ela, quem promove a violência hoje não são os deserdados da terra, para quem as coisas melhoraram. A violência vem da classe média baixa. “Não tem energia utópica, só através da violência. Não tem utopia, só distopias. É só o aqui, agora; quero derrubar isto, quero derrubar aquilo. Não tem um objetivo programático”.

Conceição chama de “manifestações de araque” e acha tudo “coisa esquisitíssima, enlouquecida”. É uma fragmentação que, segundo ela, afeta partidos políticos, sindicatos e todas as demais organizações da sociedade que levaram muito tempo para serem criadas. “Esses garotos de merda vão para o pau pedir o quê?”, questiona, referindo-se aos “máscaras negras”, os black blocs.

Se os garotos de máscaras são “repugnantes”, a imprensa também não diz nada, completa. “Faz uma confusão” e torce “para que haja morte de um menino desses”.

Transição ou apodrecimento?

“Acho difícil saber para onde vamos”, afirma a professora. “O que ocorre hoje pode ser uma transição ou um apodrecimento. Transição não sei para o quê, porque não há uma utopia prévia”.

Conceição se vê diante de uma sensação de impotência, coisa de quem foi uma adolescente na primeira metade do século XX, uma época mais organizada em matéria de proposição.  Hoje, ela admite, parece difícil enxergar causas capazes de servir a tantos interesses fracionados. “Diga-me um autor relevante que não esteja pensando dessa maneira, prostrado pela falta de alternativas? Não há ousadia em nada, pelo menos do ponto de vista do pensar”.

Por isso, diz ela, não gosta de dar entrevistas: “Não quero engrossar o coro de lamentação dos intelectuais”.

A idade do ceticismo

Pode ser a idade, como ela diz, mas nos últimos tempos a professora nunca se mostrou exatamente otimista. Nem com os políticos, nem com os economistas, nem com os intelectuais.

Tive o privilégio de visitá-la três ou quatro vezes em seu apartamento, no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Sempre com a companhia de um amigo comum, o jornalista Luiz Cesar Faro (o artífice dos encontros, diga-se), as entrevistas destinavam-se a colher depoimentos sobre dois liberais – o economista Eugênio Gudin e o jurista Bulhões Pedreira – e um economista de quem foi discípula, o argentino Raúl Prébisch.

Em todos os encontros era inevitável tentar arrancar da professora análises sobre a conjuntura, o governo de plantão e o embate político-econômico do momento. Nunca faltaram palavrões contra alguns dos adversários e lamentos pelos intelectuais. (Uma vez afirmou que não sabia onde se escondiam os jovens intelectuais capazes de exibir ideias inovadoras).

No Brasil desde 1953, quando desembarcou aos 23 anos de idade e se deixou envolver pelo otimismo brasileiro daquela década e pela intelectualidade carioca, a portuguesa se apaixonou pelo Brasil, pelo sonho de Brasília, pela Bossa Nova e pelo desenvolvimentismo.

Desde então participou de quase todas as polêmicas econômicas, do Brasil e da América Latina. Ajudou a formar diversas gerações de economistas, sendo professora de Dilma Rousseff, José Serra, Pedro Malan e Aloizio Mercadante, entre outros. Foi aluna de economistas de visão radicalmente oposta à sua, como Octávio Gouvêa de Bulhões e Roberto Campos.

Por tudo isso, não é bom presságio ver uma pensadora provocadora e apaixonada enxergar um “futuro amorfo” para a nossa era. O melhor da professora, porém, não é quando ela dá uma de pitonisa. Mas há um alento: ela acha que esse ciclo vai passar – não se sabe quando, mas torce que não seja longo.

Leia o artigo de Maria da Conceição Tavares publicado na revista Insight-Inteligência na íntegra.

 

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domingo, 17 de novembro de 2013 Política, Sociedade | 10:21

Brasil namora com a intolerância e uma nova versão de fascismo?

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Machado de Assis, 1885. “Há folgas extraordinárias na Câmara, dias de repouso, dias de chuva, e todo sábado vale domingo”, escreve o cronista, descrevendo as maiores queixas sobre os hábitos parlamentares de então. “É isto novo”?, pergunta.

Não, já não era novo naquela época. Tanto que Machado recua 44 anos no tempo, para buscar um discurso feito por Teófilo Otoni, com denúncia semelhante. Em 1841, o deputado mineiro reclamara que muitos deputados gostavam de ficar em suas chácaras, enquanto outros iam “patuscar na Praia Grande”, nome pela qual Niterói era conhecida. Bastavam também uns pingos de chuva para não irem trabalhar.

Malandragens parlamentares, já havia aos montes ali no Império. Uma delas era marcar para o sábado o debate sobre as iniciativas da oposição. Como a sessão dos sábados só existia em tese, e na prática ninguém ia, a oposição ficava sem debate.

Política em descrédito?

A fama dos políticos brasileiros nunca foi boa. Daí porque soa meio míope, meio desmemoriada, a afirmação tão repetida entre colunistas públicos de que as instituições democráticas e nossos representantes estão em situação inédita de descrédito. Uma falência múltipla e escandalosa que explicaria a crise de representatividade capaz de abalar os alicerces construídos por anos e anos de má-fé, corrupção e indiferença diante dos ideais e expectativas da população.

O cientista político Fabiano Santos, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Uerj, é um dos mais notáveis pesquisadores da ciência política do País. Dirige o Núcleo de Estudos do Congresso (NECON), um importante centro de referência, análises e pesquisas sobre a atividade parlamentar, sobre os partidos e sobre a democracia brasileira. Ele está cadastrado na pasta dos que não temem discordar do tenebroso discurso que põe no lixo as instituições, os políticos, os partidos e o sistema eleitoral brasileiros.

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Capa da Inteligência: Do que sorri essa democracia?

Santos foi um dos autores presentes num instigante dossiê da Insight-Inteligência – revista cuja versão em blog é parceira do iG – sobre os levantes de junho e o impacto sobre a democracia brasileira. “Tento me lembrar de um momento desde que leio jornais e acompanho a política no qual Congresso e partidos estivessem em situação de ‘crédito’”, diz ele, no artigo “Primavera brasileira ou outono democrático?”, no fundo uma defesa de nossas instituições.

O ataque sofrido pelos políticas e pela política poderia ser obra de uma juventude niilista.

Poderia ser também a vocalização histriônica de analistas e colunistas raivosos ou de cidadãos organizados e desorganizados em legítima grita contra seus representantes. Ou também a reação de uma classe média insatisfeita com aquilo que a democracia brasileira lhe tem oferecido.

(A propósito, é de outro Santos, o cientista político Wanderley Guilherme, a lembrança segundo a qual a democracia é o único regime existente que trata como legítimas demandas que não é capaz de atender).

O mais sério, no entanto, é aquilo que Fabiano Santos cita no seu estudo: o perigoso risco de despolitização que uma sistemática onda de “escândalos” pode causar no País, aguçado pelo episódio do Mensalão e o julgamento da Ação Penal 470. “O que de mais grave ficou foi o modo degradante e distorcido por meio do qual as instituições partidárias foram tratadas em diversos momentos do processo”, escreve o professor.

A cobertura da imprensa, segundo ele, conferiu “respeitabilidade” e “despudor” às visões segundo as quais “os políticos eleitos seriam criminosos, ‘quadrilheiros’, membros de organizações mafiosas dotadas do único intuito de assaltar os cofres públicos e o bolso dos contribuintes”.

“Manifestações fascistas”

Não surpreende – afirma Santos – que pouco tempo depois milhares de manifestantes tenham saído às ruas em protesto cuja escala e diversidade de pautas ninguém havia visto em solo pátrio.

O artigo faz um ataque polêmico às manifestações ao mencionar “ensaios de aproximação das ruas com o fascismo”. Cita o triunfalismo (um dos cartazes, por exemplo, dizia “Desculpem o transtorno, estamos mudando o Brasil”); a agressão física e moral sofrida por manifestantes vinculados a partidos políticos, que viram suas bandeiras e cartazes destruídos; e, principalmente, o discurso generalista e simplista de que tudo vai mal e melhor a remoção do sistema do que seu aperfeiçoamento.

Escreve Santos no paper: “A equação fascista brasileira é muito simples, tão simples e primária quanto dizer que educação e saúde no Brasil vão mal porque o governo gastou muito nas obras dos estádios onde serão realizadas as partidas da Copa do Mundo de 2014”.

O argumento “fascista” apóia-se na ideia de que o problema brasileiro é político, ou melhor, é “a política” ou são “os políticos”. No Brasil, dirigentes eleitos, partidos, candidatos, governantes, parlamentares, todos seriam corruptos. Uma terra arrasada da qual poucos escapariam.

Congresso, Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais não seriam mais do que quadrilhas organizadas para assaltar os cofres públicos. (Não deixa de ser irônico que Luiz Inácio Lula da Silva tenha sido um dos autores originais dessa linha de pensamento, quando na oposição e ainda deputado federal, mencionava o Congresso e seus “picaretas”.)

O voto, por outro lado, nada mais seria do que fator determinante a nos conduzir a um cenário de decadência e degradação institucional.

Fabiano Santos conclui:

“Nada mais legítimo numa democracia do que a existência de protestos e manifestações de desagrado. O problema colocado no Brasil na atual conjuntura é o de sua intensidade, magnitude e reiteração, a ponto de se colocar sob risco valores democráticos importantes, como da tolerância, da não violência e das liberdades mútuas. Trata-se, portanto, de uma questão de se repensarem os canais de interlocução entre setores, que por algum motivo não se sentem representados em suas preocupações básicas pela coalizão predominante no governo, e as entidades do Estado responsáveis pela elaboração e efetividade de políticas públicas fundamentais”.

Acrescento outro exemplo desses riscos: a avaliação, para muitos manifestantes (incluindo muitos dos ídolos que emergiram das ruas) que o Brasil vive numa ditadura; que o autoritarismo, e não a democracia, estejam vigendo no País.

Foi o que ouvi no mês passado, no debate do YouPix, sobre os protestos, o jornalismo e a mudança do poder da mídia no Brasil. Jovens brilhantes como o videomaker Rafucko e o mídia ninja Felipe Peçanha disseram com clareza: não há democracia no País, vivemos um regime autoritário.

Ao afirmar coisas do gênero, eles atacam a profunda desigualdade de renda e de direitos, a violência que impera entre nas comunidades pobres e outras mazelas. Por outro lado, ignoram a imensa liberdade de que se goza, a pluralidade de opinião e de difusão da informação em escala inédita, a universalização do voto que faz do Brasil uma das maiores democracias eleitorais do mundo, e outros indicadores que fazem uma democracia digna do nome. Incompleta, sim senhor (e há alguma democracia plena?), mas muito longe de autoritarismos.

Possivelmente, como muitos, sejam iludidos por jornalistas e pensadores semi-cultos que ignoram como funcionaria uma democracia direta e que acreditam na versão de que Atenas era governada pelo Ágora. A saber: os Ágoras só tratavam de assuntos locais de uma das dez tribos atenienses. Em outras três instituições eram tratados os assuntos gerais da cidade.

Uma delas, Pnyx, acolhia os primeiros seis mil atenienses homens que por ali chegassem. Falava quem desejasse. Apresentavam as propostas que lhe ocorressem e depois se votava. O nome dos proponentes ficava registrado, e um conselho avaliava aquilo se o que foi aprovado fez bem ou mal à cidade. Se mal, seu proponente original era julgado, podendo ser condenado ao confisco de bens, exílio ou mesmo a morte.

Seria o exemplo de uma boa fé a alimentar o monstro do fanatismo e da intolerância? Opine.

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