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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014 Economia, Filosofia, História, Jornalismo, Literatura, Poesia, Política, Tecnologia | 14:03

Os melhores livros de 2014 (numa lista sem Chico Buarque)

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Todo ano o ciclo se repete. Com a mesma regularidade das fatalidades habituais de verão, somos induzidos nesta época a eleger aqueles que deverão ser conduzidos ao panteão dos melhores do ano – no cinema, na literatura, nas artes em geral, nos fatos e ideias que marcaram os 12 intensos e exaustivos meses precedentes. É como o surgimento de goteiras nos prédios de Oscar Niemeyer: a única dúvida é saber exatamente onde e como aparecerão. Mas elas surgirão, é fato.

A coluna sucumbe aos clichês e elege também os seus. Como os mais conhecidos prêmios literários do Brasil, Pensata cria categorias convenientes para caber suas obras de preferência e adequar seus gostos. Como qualquer lista do gênero, a única coisa que lhe falta é isenção. Os leitores estão convocados, portanto, a se pronunciar, criticar, acrescentar, apontar ausentes e argumentar em defesa dos injustiçados e esquecidos.

Nelson Rodrigues dizia que a nossa reputação é a soma dos palavrões que inspiramos nas esquinas, salas e botecos. Se fosse vivo, provavelmente completaria sua tese: e nos comentários dos internautas nos blogs, sites e portais. O silêncio, neste caso, poderá significar a concordância coletiva – o pior defeito de qualquer lista dos “melhores do ano”.

 

1. LIVRO DO ANO – FICÇÃO
Graça Infinita, de David Foster Wallace  (Companhia das Letras)

Graça infinita David Foster Wallace Companhia das Letras 1144 páginas R$ 111,90

Graça infinita
David Foster Wallace
Companhia das Letras
1144 páginas
R$ 111,90

Graça infinita é o livro do ano em qualquer categoria. Uma obra de superlativas: são quase mil páginas, 130 das quais composto por notas explicativas (ou disruptivas), uma trama vertiginosa, radical, bem humorada e sarcástica, uma edição caprichada e estranha que sequer traz o título na capa, num belo trabalho da Companhia das Letras: somente uma caveira com olhos de rolo de filme na capa, enquanto nas laterais abóbora das páginas, gravados em branco, aparecem os nomes da obra e do autor. Um visual enigmático como o autor e seu mais ambicioso romance.

David Foster Wallace lançou Infinite Jest em 1996, 12 anos antes de se suicidar, aos 46. Ganha tradução no Brasil, portanto, apenas duas décadas depois, num trabalho excepcional de Caetano W. Galindo, tradutor também de James Joyce. Nesse período, o livro tornou-se um marco das obras cultuadas pelo mundo pop (ou não. Apesar do tamanho e da complexidade, ganhou admiradores por todos os lados.

A narrativa gira em torno de um filme, com o mesmo título original, que promova um comportamento compulsivo a qualquer um que o assista. A ambiguidade de “jest” no título em inglês – piada ou divertimento – indica o alvo: assistir a esse filme dá tanto prazer que os espectadores não podem parar de vê-lo, e todas as demais atividades da vida deixam de fazer sentido, o que acaba levando-os à morte. (Há quem considerasse mais preciso ao título em português Piada Infinita, e não “graça”, dada a natureza “divina” do outro significado desta palavra no português, mas essa é uma controvérsia que não macula o excepcional trabalho do tradutor.)

Essa é a síntese do hedonismo contemporâneo: o hedonismo da mera sensação, cujos personagens fissurados levam a vida humana ao extremo da miserabilidade ética; uma vida de vícios, excessos e comportamentos aditivos, incluindo drogas, sexo e trabalho, tudo no superlativo; uma acumulação infinita de vertigens destrutivas; uma era de saturação e consumo desmedido; um tempo em que o tudo se equivale ao nada. Um prazer desconectado dos outros e do mundo. Um prazer sem prazer.

David Foster Wallace explora esse abismo em grandiosidade narrativa e transforma isso em literatura de alto nível. A melhor do ano.

 

2. LIVRO DO ANO – NÃO-FICÇÃO
O capital no século XXI, de Thomas Piketty (Intrínseca)

O capital no século XXI Thomas Piketty Intrínseca 672 páginas R$ 59,90

O capital no século XXI
Thomas Piketty
Intrínseca
672 páginas
R$ 59,90

Thomas Piketty atiçou o debate econômico do ano e possivelmente da década. Dificilmente se verá no curto prazo a súbita ascensão de um texto de 800 páginas à condição de best-seller com tamanho destaque nos círculos acadêmicos e não-acadêmicos como este francês recebeu este ano com seu O Capital no século XXI, publicado no Brasil pela Intrínseca. Seu estudo sobre a concentração de riqueza e a evolução da desigualdade ganhou manchetes, gerou debates nas redes sociais, colheu comentários, críticas e elogios de diversos ganhadores do Prêmio Nobel. Não ganhou unanimidade. Mas não fez pouco.

Resultado de 15 anos de pesquisas, o livro mostra com elegância e clareza que o mundo entrou numa espiral de concentração de renda. As pessoas e os países ficarão mais ricos. Para as nações emergentes, inclusive o Brasil, suspeita-se que crescerão a taxas menores. Segundo O Capital, o mundo caminha rumo a um capitalismo de maior acumulação de renda, numa trajetória explosiva de desigualdade fora de controle.

Piketty ainda desmonta um dos mitos mais amados pelos conservadores contemporâneos: a tese de que o mundo desenvolvido vive uma meritocracia, na qual grandes fortunas são conquistadas e merecidas. Segundo ele, a maior parte dos bilionários atuais têm fortuna herdada. Como lembrou em recente entrevista ao repórter Vitor Sorano,  do iG, chegar ao topo apenas com o trabalho está ficando cada vez mais difícil. E sublinhou o que chamou de ridícula taxação sobre herança. Para ele, os ricos brasileiros pagam imposto muito baixo.

Livro a ser lido como quem lê um polemista à la Marx (sem ser marxista) e um literato que cita Balzac e Jane Austen.

O que Pensata escreveu:
Por que os bilionários são odiados 

Para ler mais no iG:
Ricos brasileiros pagam imposto bastante baixo e taxação sobre herança é ridícula, afirma Piketty

 

3. BIOGRAFIA
Getúlio, de Lira Neto (Companhia das Letras)

Getúlio 3 (1945-1954) Lira Neto Companhia das Letras 464 páginas R$ 49,50

Getúlio 3 (1945-1954)
Lira Neto
Companhia das Letras
464 páginas
R$ 49,50

O primeiro volume saiu em maio de 2012, o segundo no ano seguinte, e a trilogia chegou ao fim em 2014, encerrando um trabalho de cinco anos de pesquisas do jornalista e escritor Lira Neto. Foi o menos relevante da série, mas Pensata o inclui na lista pela obra completa. Das cartas pessoais e diários íntimos, que compuseram o retrato minucioso dos anos de formação e da conquista do poder no primeiro volume, até a narrativa bem montada no terceiro volume, descrevendo os tempos conturbados que levaram Getúlio ao suicídio, Lira Neto realizou um trabalho primoroso, com o apoio do marketing profissionalíssimo da Companhia das Letras. Com a conveniência da efeméride completada em agosto de 2014: os 60 anos da morte do mais importante político brasileiro de todos os tempos.

Autor de outras biografias relevantes, como a de Maysa, Castello Branco, Padre Cícero e José de Alencar, Lira Neto conseguiu ainda outro feito: o que a turma do marketing costuma chamar de “mídia espontânea” – um sem-número de gente importante citando sua série ou sendo vista carregando um de seus volumes. Da presidente Dilma Rousseff ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Só ficaram amuados mesmo os mal-humorados, os invejosos e os ranhetas que esperam uma novidade a cada página nas biografias. Nas quase 2 mil páginas que publicou nos três volumes, Lira Neto traz muitas novidades, algo notável para um personagem exaustivamente radiografado como Getúlio Vargas. E adicionou a elas uma incrível capacidade de contar histórias.

Leia mais no iG:
Os vários getúlios de Lira Neto

Lira Neto: “Quem diz que todo político é ladrão propõe sem saber a ditadura” 

 

4. NÃO-BIOGRAFIA
O réu e o rei, de Paulo Cesar de Araújo (Companhia das Letras)

O réu e o rei Paulo Cesar de Araújo Companhia das Letras 528 páginas R$ 34,50

O réu e o rei
Paulo Cesar de Araújo
Companhia das Letras
528 páginas
R$ 34,50

Foi um gesto audacioso e genial, tanto do autor quanto de sua editora. Depois de ter a biografia Roberto Carlos em detalhes (Planeta) barrada na Justiça por ação de quem chamamos de Rei, obra retirada das livrarias em 2007, e passar alguns anos em batalha judicial pela publicação, eis que o jornalista Paulo César Araújo publica pela Companhia das Letras um livro em que conta os bastidores do processo. Lançado sem alarde, O réu e o rei é um relato objetivo, minucioso e corajoso da saga que levou à discricionária e imoral proibição da biografia de Roberto Carlos.

No livro, narra como virou fã do Rei, quando, aos 11 anos de idade, vestiu sua roupa domingueira e foi ao estádio em Vitória da Conquista, na Bahia, onde Roberto Carlos faria o primeiro show na cidade. Garoto pobre, Paulo Cesar de Araújo não tinha os 10 cruzeiros do ingresso. Ficou rondando o lugar, na esperança de conseguir uma brecha e entrar. Pouco antes do show, um simpático porteiro deixou os moleques negros e sem camisa que andavam por ali. Araújo, porém, foi barrado. Era branco e bem vestido. Tinha cara de quem poderia pagar.

O autor esmiúça os autos dos processos montados contra ele, e trata de tentar demonstrar imprecisões e distorções. E, no mais dramático capítulo do livro, reconstitui a tarde que passou frente a frente com Roberto Carlos, em um fórum de São Paulo. Abandonado por seus editores da Planeta e pressionado por seus advogados, aceitou assinar um acordo que bania Roberto Carlos em detalhes das livrarias.

Para a sorte de todos, sobretudo dos leitores, o Rei e seus advogados não resolveram barrar na Justiça mais este.

 

5. POLÍTICA
As ideias conservadoras, de João Pereira Coutinho  (Três Estrelas)

As ideias conservadoras João Pereira Coutinho Três Estrelas 200 páginas R$ 25,00

As ideias conservadoras
João Pereira Coutinho
Três Estrelas
200 páginas
R$ 25,00

Num país habituado a ter nos representantes da direita exemplos de desonestidade intelectual (Marco Antonio Villa), truculência (Reinaldo Azevedo), baixo índice de humanismo (Rodrigo Constantino), humor para não ser levado tão a sério (Luiz Felipe Pondé) e radicalismo típico de quem já foi um esquerdista radical (Demétrio Magnoli), nada como um bom livro de um conservador elegante, intelectualmente honesto, humanista e amigável cientista político.

As ideias conservadoras, de João Pereira Coutinho, apresenta-se com o subtítulo “Explicadas a revolucionários e reacionários” e, como tal, dirige-se aos profetas do pensamento de esquerda. Seguidor de Edmund Burke – onipresente nas breves 120 páginas do livro – o Coutinho mostra, com acerto, os equívocos do reacionarismo de esquerda e dos ditos revolucionários; descreve, sem afetação, o valor dos conservadorismos e sua doutrina em favor da preservação do que a sociedade criou de melhor para garantir a paz, a liberdade dos cidadãos e o vigor das instituições.

É um sopro a seus colegas em versão brasileira (Coutinho é português) e contra radicalismos crescentes à direita e à esquerda. Convém lembrar-lhes (inclusive a Coutinho): há conservadores e radicais de lado a lado; autoritários, idem. Este livro, porém, reforça a ideia, pregada pela revista Insight-Inteligência no verão de 2011, quando entrevistei o cientista político Luiz Felipe d’Ávila – um dos poucos cientistas políticos brasileiros de alma conservadora (na linguagem política brasileira: liberal, ou de direita) bem oxigenada. Ali, a revista defendia em editorial uma direita necessária ao Brasil – não oligárquica, não corrupta, não covarde, não mentirosa, não golpista.

Afinal, antagonismos de qualquer espécie se saudáveis, ajudam a mover a história. O vigor da democracia, dizia o mesmo editorial, é sua capacidade de racionalizar e controlar, em molduras legais, a violência da disputa entre ideias, homens e partidos. Sem antagonismos, é democracia pela metade, se muito.

João Pereira Coutinho (como Luiz Felipe d’Ávila) mostra o quão interessantes são os antagonismos de ideias.

 

6. TECNOLOGIA
Os inovadores, de Walter Isaacson (Companhia das Letras)

Os inovadores Walter Isaacson Companhia das Letras 568 páginas R$ 57,00

Os inovadores
Walter Isaacson
Companhia das Letras
568 páginas
R$ 57,00

Este é um livro sobre nerds. Mas dirigido não só a nerds. É a graça da maestria de Walter Isaacson, o biógrafo de Steve Jobs, e sua capacidade de contar histórias de personagens que ajudaram a moldar a revolução digital. Os inovadores – Uma biografia da revolução digital vai além dos nerds porque, no fundo, explica nossa relação com computadores e nos faz entender como a tecnologia chegou até aqui em softwares e internet.

Fruto de 15 anos de pesquisas – interrompidas para produzir a biografia do pai da Apple – o livro trata de figuras como John Von Neumann, que trabalhou com Einstein no desenvolvimento da bomba atômica, foi coautor da teoria dos jogos e do primeiro computador digital, nos anos 40.

Ou Ada Lovelace, uma das mulheres excluídas da história da computação: uma quase desconhecida que viveu de 1815 a 1852, matemática e escritora inglesa, ela escreveu o primeiro algoritmo de computador, propôs a ideia de que as humanidades e a tecnologia devem conviver e idealizou o conceito de inteligência artificial. Para Isaacson, Ada Lovelace definiu a era digital.

A grande sacada do autor é defender a ideia, com argumentos irrefutáveis, de que não houve um gênio na história da revolução digital que tenha trabalhado sem ajuda de muitos outros – ainda que reforce o papel dos gênios ao perfilar personalidades emblemáticas, como o próprio Jobs (Apple), Bill Gates (Microsoft), Sergey Brin e Larry Page (Google). Mas estes, lembra o autor, potencializaram a capacidade disruptiva em suas equipes, permitindo atingir novo patamar de inovação.

Outro grande mérito seu é construir uma narrativa que reforça a tese de que a inovação nas ciências exatas ocorre intimamente vinculada às humanidades.

 

7. FILOSOFIA
O silêncio e a prosa do mundo, organizado por Adauto Novaes (edições Sesc)

O silêncio e a prosa do mundo Adauto Novaes (organizador) Edições Sesc 515 páginas R$ 55

O silêncio e a prosa do mundo
Adauto Novaes (organizador)
Edições Sesc
515 páginas
R$ 55

Há quem olhe de lado, torça o nariz e sorria de maneira sarcástica ou desconfiada diante de temas filosóficos como este. Mas os desconsidere e aposte na leitura de O silêncio e a prosa do mundo, organizado por Adauto Novaes, o jornalista e professor que desde 2000 realiza magistrais ciclos de conferências que sempre resultam em livros igualmente interessante.

Quando organizou a edição do programa Mutações no ano passado – que originou o livro – Novaes tinha em mente a ideia de que nunca se falou tanto e se pensou tão pouco. Uma pesquisa feita pelo Centro da Indústria de Informação Global, da Universidade da Califórnia, foram trocadas 10,8 trilhões de palavras nos Estados Unidos em 2008, notáveis 140% a mais em relação aos 4,5 trilhões de palavras usadas em 1980. Um tsunami verborrágico radiografado graças a dados armazenados em texto de jornais, revistas, páginas de internet, áudios de filmes em cartaz, programas de TV e rádio e letras de músicas lançadas naquele ano.

Novaes e seus convidados – ensaístas, filósofos, jornalistas, cientistas sociais, poetas – se perguntam: o que tanto se fala? Qual a importância do silêncio para a criação da obra de arte e da obra de pensamento? Como separar o falatório insignificante daquele necessário e fundamental para não nos desumanizarmos?

Na impossibilidade de resgatar com precisão 24 ensaios em mais de 500 páginas, recomendam-se alguns nomes, com as devidas injustiças: Oswaldo Giacoia Junior (“Por horas mais silenciosas”), Pedro Duarte (“O silêncio que resta”), Eugênio Bucci (“O rumor da mídia”), Marcelo Jasmin (“Silêncios da história: experiência, acontecimento, narração”), Frédéric Gros (“Fazer calar e fazer falar o sexo”), Pascal Dibie (“O silêncio dos amantes e, mais particularmente, das mulheres…”), Antonio Cicero (“A poesia entre o silêncio e a prosa do mundo”), Guilherme Wisnik (“O silêncio e a sombra”), Francisco Bosco (“A descoberta da linguagem”) e Luiz Alberto Oliveira (“O silêncio de antes”).

 

8. LIVRO-REPORTAGEM
Sem lugar para se esconder, de Glenn Greenwald (Primeira Pessoa)

Sem lugar para se esconder Glenn Greenwald Primeira Pessoa 288 páginas R$ 39,90

Sem lugar para se esconder
Glenn Greenwald
Primeira Pessoa
288 páginas
R$ 39,90

Em meados de 2013, o jornal britânico The Guardian (sempre ele) publicou uma série de reportagens que desvendavam a vigilância ilimitada praticada pela NSA, a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos. Assinadas por Glenn Greenwald, as matérias mostravam que a inteligência norte-americana espionava em larga escala não apenas as comunicações domésticas, mas também as de outros países – inclusive os aliados. Edward Snowden, de 29 anos, um funcionário terceirizado da NSA, foi a fonte de Greenwald, e suas revelações abriram caminho para um enorme debate sobre direito à privacidade e o alcance da vigilância governamental.

Sem lugar para se esconder – Edward Snowden, a NSA e a espionagem do governo americano, lançado no Brasil pela Primeira Pessoa (selo da editora Sextante), tem pouca novidade para quem acompanhou de perto o caso pela imprensa. Mas esmiúça todas as peças da história. Com o mérito de organizar a narrativa em seu conjunto, detalhada e envolvente. Não à toa a Sony Pictures comprou os direitos para produzi-lo em filme.

O livro começa com um relato detalhado dos contatos de Greenwald e da documentarista Laura Poitras com Snowden, técnico que queria divulgar os documentos que coletara na NSA. O relato ocupa um terço do livro e destaca os esforços dos três para não serem flagrados. Há detalhamento de como Thomas Shannon, secretario de Estado assistente e depois embaixador no Brasil, agradece à NSA por relatórios de “inteligência de sinais” sobre “s outros participantes” da 5a Cúpula das Américas, documentos quanto ao “alvo” Petrobras, além do ataque de Greenwald à mídia, especialmente ao New York Times.

Uma curiosa nota de rodapé, não presente no livro: Greenwald deixou o Guardian para trabalhar para Pierre Omidyar, bilionário do eBay/PayPal, que participou do estrangulamento financeiro do WikiLeaks a pedido do governo americano. Mas qualquer trabalho seu é para ser lido com o respeito de quem lê um dos mais brilhantes jornalistas de seu tempo.

 

9. CRÔNICA

O livro das mulheres extraordinárias, de Xico Sá (Três estrelas)

O livro das mulheres extraordinárias Xico Sá Três Estrelas 264 páginas R$ 39,90

O livro das mulheres extraordinárias
Xico Sá
Três Estrelas
264 páginas
R$ 39,90

O jornalista e escritor Xico Sá deveria ser uma leitura de cabeceira dos homens que anseiam por uma mísera sensibilidade e sabedoria na arte de seduzir uma mulher. O livro das mulheres extraordinárias é uma ode a cada mulher que ele admira e aos desejos que elas despertam nele – e provavelmente na maioria dos homens. De obviedades como Luiza Brunet (“tesão nada nostálgico”) a delicadezas como Claudia Abreu (“O sorriso mais sexy de todos os tempos da TV”) e surpresas como Lea T. (“O belo e o cirúrgico drible nos gêneros”).

Qual o critério de Xico para a escolha das mulheres extraordinárias? “Foi o critério da comoção, do alumbramento – aquele impacto fundamental no primeiro olhar – e do tesão que deveras sinto. E, sobretudo, o critério da desordem. É que a gente nunca sabe, em momentos deliciosamente cruéis como o desta seleção, o lugar certo de colocar o desejo, como aprendi na música de Caetano Veloso que faz parte da trilha do filme A dama do lotação”.

É um livro, portanto, baseado em desejos reais, como ele próprio confessa. Um livro não de cabeceira, mas “da cabeça viajante de um homem que deseja, que ama de modo hiperbólico que se deve amar as fêmeas”. Como não sermos hiperbólicos diante de Maitê Proença – “a verdade acerca do amor” – que para além da beleza televisiva e cinematográfica ainda encanta na escrita? (Miguel Sousa Tavares escreveu sobre um de seus livros: “Aprendi neste livro de crônicas da Maitê Proença que as mulheres também choram, não são só os homens”). Ou diante de Mariana Ximenes – “todo canalha é um masoquista diante dela”, escreve Xico.

Como ele, acho que não são as mulheres que são complicadas – nós, homens, é que somos preguiçosos, uma mistura de Macunaíma com roqueiro emo. O homem, lembra Xico, não está perdido; ele tem uma preguiça eterna.

 

10. HISTÓRIA

O horror da guerra, de Niall Ferguson (Planeta)

O horror da Guerra Niall Ferguson Planeta R$ 89,90 768 páginas

O horror da Guerra
Niall Ferguson
Planeta
R$ 89,90
768 páginas

Esqueça a moda dos livros de história repletos de detalhes curiosos e picantes para tornar a leitura “interessante”. O escocês Niall Ferguson é um historiador da moda, mas sem os maneirismos que proliferam por aqui. Em O horror da guerra Ferguson (com marcada antipatia pela posição britânica) classifica a Primeira Guerra Mundial como o maior erro da história moderna e analisa os motivos que deflagraram o conflito.

Com o mérito de escapar do maniqueísmo anti-Alemanha, o historiador se pergunta: por que se lutava? A população apoiava o conflito? Que país era o mais militarista? Até que ponto o sacrifício europeu valeu a pena? Foi a primeira guerra total, e a mais sangrenta – um conflito que matou cerca de 8 milhões de homens e destruiu as finanças da Europa.

 

11. E-BOOK
Série Ilusões Armadas, de Elio Gaspari (Intrínseca)

Séries “As ilusões Armadas” e “O Sacerdote e o Feiticeiro” Elio Gaspari Intrínseca R$ 39,90 (edição impressa) e R$ 14,90 (e-book), cada livro

Séries “As ilusões Armadas” e “O Sacerdote e o Feiticeiro”
Elio Gaspari
Intrínseca
R$ 39,90 (edição impressa) e R$ 14,90 (e-book), cada livro

Elio Gaspari é uma espécie de Pelé do jornalismo brasileiro. Mesmo aqueles que não gostam de sua personalidade de Kid Megalô (“O sistema é eliocêntrico, e não fui eu quem disse, foi Copérnico”, costuma dizer) reconhecem nele o brilhante jornalista que é. Dono de uma memória privilegiada, uma insana capacidade de trabalho e, claro, seu eliocentrismo deram-lhe os atributos suficientes para compor uma obra monumental sobre a ditadura militar, que em 2014 teve um ano pródigo de reflexões por marca os 50 anos do seu início.

Pois  os quatro livros que começou a publicar em 2002 ganharam em 2014 a reedição do ano e, mais do que isso, o melhor trabalho em e-book: não só em novos volumes, desta vez publicados pela Intrínseca, como também em caprichadas versões eletrônicas. Tais versões trazem amostra preciosa do material que Gaspari pesquisou para produzir a série, retirados do arquivo acumulado por dois observadores privilegiados dos acontecimentos do período, o general Golbery do Couto e Silva e Heitor Aquino Ferreira, que foi secretario particular do presidente Ernesto Geisel e de Golbery.

A versão eletrônica dos livros traz cerca de 200 documentos que, se fossem impressos, dariam um volume com 670 páginas. Para cada documento há uma cópia do original com transcrição completa e os trechos mais relevantes destacados. Para leitores que têm iPad ou Kindle Fire, o pacote oferece também filmes de época e gravações, incluindo 17 trechos de entrevistas que Gaspari fez com Geisel nos anos 1990.

O autor fez ainda várias revisões no texto dos livros – A ditadura envergonhada, A ditadura escancarada (que compõem a série “As ilusões armadas”), A ditadura derrotada e A ditadura encurralada (série “O Sacerdote e o Feiticeiro”). Incorporou informações que obras mais recentes sobre o período trouxeram e acrescentou novas descobertas.

Por tudo isso, e por ser uma obra de Elio Gaspari, é obra para ler, reler e guardar.

O que Pensata escreveu:
De um torturador para uma jovem: “Você vai sofrer como Jesus Cristo” 

 

12. COLEÇÃO
Clássicos Zahar (Zahar)

A coluna faz aqui um reparo a uma injustiça cometida ao longo do ano: não ter falado na espetacular coleção de clássicos da Zahar – de longe a melhor coleção lançada por uma editora brasileira em 2014. São edições caprichadas em todos os sentidos: belas capas, miolo equilibrado e elegante, texto integral, notas históricas e literárias, cronologia de vida e obra do autor, posfácio com as grandes linhas da crítica sobre o livro e, em grande parte, um rico trabalho de ilustrações de época para os clássicos.

Não vi todos os volumes, mas a amostra constada pela Pensata é uma constatação da fidelidade do projeto: o campeão de venda Alice no País das Maravilhas (Lewis Carroll) Os Maias (Eça de Queirós), A besta humana (Émile Zola), Robin Hood (Alexandre Dumas), Os três mosqueteiros (Dumas), 20 mil léguas submarinas (Jules Verne), O corcunda de Notre Dame (Victor Hugo), A Terra da Bruma (Arthur Conan Doyle) e Persuasão (Jane Austen) são evidências de um rico padrão de qualidade do projeto. Edições de bolso, igualmente de luxo, completam a coleção.

Fez tanto sucesso que a Zahar criou um selo para ela e vai intensificar a produção em 2015. A incluir um autor brasileiro, Raul Pompeia, com O Ateneu, já no início do ano.

 

13. HOMENAGEM DO ANO
Millôr Fernandes

Humorista, escritor, tradutor, desenhista, dramaturgo, jornalista e polemista, Millôr Fernandes foi o homenageado do ano na Flip. O gesto do convescote de Paraty ajudou a recolocar no mercado vários dos livros do genial sujeito: The cow went to the swamp, Tempo e Contratempo, Esta é a verdadeira história do paraíso e Essa cara não me é estranha, todos da Companhia das Letras. Também estimulou o lançamento da antologia organizada por Sérgio Augusto e Loredano, publicada pelo Instituto Moreira Salles: Millôr 100 + 100: desenhos e frases.

Morto em 2012, aos 88 anos, Millôr era um desses raros casos de um sujeito que faz tudo bem. Sua assombrosa criatividade produzia, em palavras e imagens, gargalhadas abertas ou ironias amargas. Mas sempre brilhantes. Em livros ou nos debates na Flip com quem entende de Millôr (graças à curadoria de Paulo Werneck), fez-se jus àquele que se dizia “livre como um táxi”.

O que Pensata escreveu:
15 frases para falar mal da política, segundo Millôr

 

14. POESIA
Geografia aérea, de Manoel Ricardo de Lima (7Letras)

Geografia aérea Manoel Ricardo de Lima 7letras 142 págs. – R$ 35

Geografia aérea
Manoel Ricardo de Lima
7letras
142 páginas    R$ 35

Repita este nome: Manoel Ricardo de Lima. Professor de literatura e poeta da mesma geração de Carlito Azevedo, de quem é amigo e colega de encontros literários, Manoel Ricardo de Lima vem produzindo sistematicamente poesia e ensaio com a reinvenção de quem não se exaure com a própria criação. Geografia aérea, o livro em questão, publicado este ano pela 7Letras, é a síntese de sua poesia, uma espécie de reunião de sua obra poética. De Embrulho e Falas inacabadas, ambos de 2000, a Quando todos os acidentes acontecem, de 2009.

Ao ponto: Geografia aérea é, ao estilo de Manoel Ricardo (e do próprio Carlito Azevedo, o maior nome de sua geração e, portanto, da poesia contemporânea), uma reinvenção dos próprios poemas editados. Ele gosta de criar novos abismos, como gosta de dizer. Reescreve, revisa, reedita os poemas.

“alguém pode decidir outra/ coisa outro nome apenas porque apertou/ muito bem os olhos”,  escreve em “Quase”, um dos belos exemplos de Geografia aérea. É uma poesia em deslocamento, um acidente que pode transformar-se em outra coisa. Desse desvio alimenta-se sua obra – e sua vida também. Manoel Ricardo nasceu em Parnaíba, no Piauí, formou-se em Fortaleza e em Florianópolis e atualmente mora no Rio de Janeiro, onde é professor da UniRio.

Uma mobilidade que, na poesia, formam histórias-enigmas, aparentemente sem solução. Annita Costa Malufe, também poeta e também professora de literatura, escreve que nos poemas de Manoel Ricardo há sempre “uma história em jogo, ou muitas, mesmo que não saibamos quais são”, construindo imagens que estão longe de serem fixas, numa experiência instável e em constante mutação: “nenhuma/ imagem do presente e sempre/ de passagem a areia do lugar/ que você diz que é seu”, escreve ele no poema “as fotografias”.

Manoel Ricardo de Lima põe política em sua poesia, não no sentido panfletário, mas no que ela tem de reflexão sobre o mundo que nos cerca. Ele fala, por exemplo, em “cidades moribundas”, onde “tudo é buraco”, mas também onde “o que resta de amor/ e sobrevive/ salta”. Cidades de abismos sociais com cenários de guerra, mas que encontra na poesia uma forma de imaginário que se vincula a uma prática de vida, política e amorosamente. Como ele escreve, que sobrevive, salta.

 

15. FICÇÃO BRASILEIRA
O professor, de Cristovão Tezza (Record) e Os piores dias de minha vida foram todos, de Evandro Affonso Ferreira (Record)

O professor  Cristovão Tezza Record 240 páginas R$ 32

O professor
Cristovão Tezza
Record
240 páginas
R$ 32

Os piores dias de minha vida foram todos Evandro Affonso Ferreira Record 128 páginas R$ 30

Os piores dias de minha vida foram todos
Evandro Affonso Ferreira
Record
128 páginas
R$ 30

Na ausência de uma monumental e marcante ficção lançada em 2015, a coluna divide-se em dois autores da Record: Cristovão Tezza e Evandro Affonso Ferreira. Um Chico Buarque em excelente estágio literário atinge um bom Tezza.  Mas O professor não é um romance bom: é ótimo. A obra gira em torno de Heliseu, um professor de filologia românica de 70 anos, que está prestes a receber uma homenagem por sua carreira. Repassa sua vida – a medalha que receberá e o discurso que fará nada mais são do que a morte simbólica de sua trajetória setentona.

A percepção súbita da passagem do tempo, do personagem e do Brasil, estão no centro das preocupações do autor do exitoso O filho eterno, lançado em 2007. Como quase todo envelhecimento, Tezza constrói um quadro de amargura e realismo.

Ao lado dele, um lúgubre Evandro Affonso Ferreira e sua personagem: uma mulher que, à beira da morte, presa a uma cama de hospital, imagina-se vagando nua pelas ruas de São Paulo, cruzando com os personagens habituais da cidade. Narrado em um longo monólogo, o percurso íntimo é repleto de outras vozes: memórias e referências literárias, filosóficas e mitológicas, que tornam a leitura de Os piores dias de minha vida foram todos um tanto mais complexa. (O autor já disse uma vez que não se importa com a falta de leitores para seus livros, numa boutade de autodefesa contra o universo reduzido de leitores em contraponto a uma literatura de consumo fácil.)

Mas o exílio forçado da mulher expõe uma rica literatura: “Sei que neste quarto-desemparado”, diz ela, “procuro levar a imaginação até seu limite – jeito de driblar entre aspas desintegração contínua delas minhas entranhas” ou “Jeito é caminhar imaginosa nua pelas ruas desta cidade para fingir que ainda estou viva. Ilusão, sim, mas benéfica e libertadora”. É a personagem que se ergue quando pensa ver coisas, mesmo diante do malogro da vida, entre doença e reclusão.

 

 

 

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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013 Mulheres, Poesia | 13:50

Ana Cristina Cesar: mulher de muitos segredos, mas nenhum mistério

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Se pretendesse ser original, este texto deveria NÃO começar assim: há pouco mais de trinta anos, Ana Cristina César morreu; jogou-se da janela do apartamento dos pais, aos 31 anos, no Rio de Janeiro (era 29 de outubro). Em sua brevíssima passagem pela literatura brasileira do século XX, tornou-se um dos mais importantes nomes da poesia marginal que florescia na década de 1970.  Trinta anos que não apagaram – ao contrário, só alimentaram – o interesse pela herança poética deixada por Ana C. às gerações seguintes. Uma sobrevida maior que a vida.

Depois de algumas antologias e incontáveis obras sobre a poeta, agora a Companhia das Letras reúne a totalidade dos textos poéticos que ela publicou em vida, além uma seleção de fragmentos, rasuras, experimentais em verso e prosa, todos saídos dos papéis deixados por Ana Cristina.

Ana Cristina Cesar: deliciosa poesia com os embates de um feminino inquieto

Ana Cristina Cesar: deliciosa poesia com os embates de um feminino inquieto

Poética, editado com o esmero e a qualidade habituais da Companhia e lançado na semana passada, tem a curadoria editorial e apresentação do poeta e amigo Armando Freitas Filho, posfácio da professora Viviane Bosi e um robusto apêndice. São livros fora de catálogo há décadas, como A teus pés e Inéditos e dispersos, originalmente publicados pela Brasiliense.

Um carimbo póstumo

É um risco tratar de Ana Cristina Cesar, a carioca que, por sua história, montou uma armadilha para críticos, leitores e admiradores: a repetida e cansativa imagem da poeta precoce que se matou, a poeta genial, a mulher burguesa, a personagem quase mito transformada hoje muito mais em grife ou carimbo póstumo do que qualquer outra coisa, como já afirmou o poeta e crítico Manoel Ricardo de Lima.

Lima, a propósito, organizou em 2008 uma pequena e bem acabada edição chamada a nossos pés (Dantes Editora/Editora da Casa), na qual ele e outros 13 autores se uniram para escrever poemas e prosas breves a partir da autora de A teus pés, “para manter o sufoco da deliciosa poesia de Ana Cristina Cesar”, segundo palavras do organizador.

Não se pode dizer que lhe faltou originalidade, inclusive em seu texto de apresentação, onde Manoel Ricardo de Lima escreve: “Há 25 anos uma moça de olhos bonitos e mãos cobertas com luvas de pelica – Ana Cristina Cesar – interrompia um imprevisto e impunha outro”.

O que se viu dali em diante, lembra ele, foi um sem número de tentativas de juntar os cacos dos imprevistos: a reunião dos poemas deixados, as cartas apontadas para si mesma como uma correspondência secreta, alguma crítica, alguma tradução, algumas anotações num caderno distraído, etc. Nada que o sol não explique, diria Paulo Leminski.

Volume único

Nada de que padeça o lançamento organizado por Armando Freitas Filho. Seja nos textos delimitados pelo ponto final da poeta, seja nos inacabados (que Freitas Filho batizou de “visita à oficina”), Poética tem o mérito de reunir num volume único, de maneira inédita, a obra em poesia de Ana Cristina.

Freitas Filho era o melhor amigo de Ana Cristina: naquele 29 de outubro, ambos se falaram por volta de 12h30. Pouco depois das 13 horas, a mãe dela telefonou desesperada, contando que a filha se jogara da janela. Alguns dias mais tarde, levaria ao apartamento de Freitas Filho quatro caixas de papelão repletos de escritos. Ana Cristina deixara para ele a responsabilidade de cuidar postumamente de suas publicações.

Poética abre com Cenas de abril, de 1979. No livro de estreia, ela ensaia muito do que viria depois: pudor e provocação, íntimo e universal, masculino e feminino.

Noite de Natal.
Estou bonita que é um desperdício.
Não sinto nada
Não sinto nada, mamãe
Esqueci
Menti de dia
Antigamente eu sabia escrever
Hoje beijo os pacientes na entrada e na saída com desvelo técnico.
Freud e eu brigamos muito.
Irene no céu desmente: deixou de
trepar aos 45 anos
Entretanto sou moça
estreando um bico fino que anda feio,
pisa mais que deve,
me leva indesejável pra perto das
botas pretas
pudera

O livro prossegue com Correspondência completa, do mesmo ano, assinado como Ana Cristina C (assim mesmo). Um livreto bem humorado composto de uma só carta,  de Júlia para alguém não nomeado, tendo como “personagens confessos”, tirados da vida real, Mary e Gil.

Luvas de pelica (1980) reúne poemas escritos na Inglaterra, para onde ela foi fazer mestrado em tradução literária na Universidade de Essex. Ficam evidentes marcas de seu estilo: o sentimento de perda, melancolia e desnorteio.

Eu só enjoo quando olho o mar, me disse a comissária do sea-jet.
Estou partindo com suspiro de alívio.
A paixão, Reinaldo, é uma fera que hiberna precariamente.
Esquece a paixão, meu bem; nesses campos ingleses, nesse lago com patos, atrás das altas vidraças de onde leio os metafísicos, meu bem.
Não queira nada que perturbe este lago agora, bem.
Não pega mais o meu corpo; não pega mais o seu corpo.
Não pega.

(…)

Fico quieta.
Não escrevo mais. Estou desenhando numa vila que não me pertence.
Não penso na partida. Meus garranchos são hoje e se acabaram.

(…)

Explico mais ainda: falar não me tira da pauta; vou passar a desenhar; para sair da pauta.

A teus pés

Como afirma Freitas Filho, em A teus pés (1982) Ana Cristina Cesar voltaria assumida à sua assinatura oficial, eliminaria a abreviatura, tiraria a máscara dos óculos escuros e recuperaria a sua identidade como poeta sem disfarces. Aparecem sobretudo textos ultrassintéticos, mas desdobráveis em muitas leituras.

“Ana C. concede ao leitor”, escreveu o amigo Caio Fernando Abreu, “aquele delicioso prazer meio proibido de espiar a intimidade alheia pelo buraco da fechadura”.

Em “noite carioca”

Diálogo de surdos, não: amistoso no frio. Atravanco na
contramão. Suspiros no contrafluxo. Te apresento a mulher
mais discreta do mundo: essa que não tem nenhum segredo.

Em “cartilha da cura”:

As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios.

De um poema sem título:

Preciso voltar e olhar aqueles dois quartos vazios.

Outro sem título:

Do espelho em frente.
Ela instrui:
deixa a saudade em repouso
(em estação das águas)
tomando conta
desse objeto claro
e sem nome

Trecho de “duas antigas”:

Vamos fazer alguma coisa:
escreva cartas doces e azedas
Abre a boca, deusa
Aquela solenidade destransando leve
Linhas cruzando: as mulheres gostam
de provocação
Saboreando o privilégio
seu livro solta as folhas

Tocando as mulheres

Como se vê, Ana Cristina Cesar toca muito as mulheres. Moderna e liberta, fala abertamente de seu corpo e de sua sexualidade, ao mesmo tempo derramando-se numa delicadeza que, à primeira vista, poderia conflitar com o feminismo vigente na época. Embates de um feminino inquieto, como define o poeta e professor Italo Moriconi, ao apresentar Poética.

No capítulo de inéditos, “Visita à oficina”, há um material mais curto e certamente de menor relevância do que os já publicados. São também poemas inacabados, um deles escrito ainda na adolescência, aos 16 anos. Por ele recebeu nota 10 da professora e o elogio: “Lindo!”

Em outro exibe uma maturidade incomum para a idade: “Estar em fraude – não consigo mesmo, não consigo mesmo. Conseguir vislumbrar a fraude inerente – segui-la em conivência, vivê-la em seguimento a indicações envelhecidas pela chuva. Chamar sem querer as palavras delineadoras – é fácil criar-se a partir da energia que se cria”.

Que não se busquem em seus poemas sinais ou razões do suicídio. É um repúdio que a própria poeta deixava claro em “Três cartas a Navarro”, publicado em Antigos e soltos: “Te deixo meus textos póstumos. Só te peço isto: não permitas que digam que são produtos de uma mente doentia! Posso tolerar tudo menos esse obscurantismo biografílico.”

Pela densidade combinada com simplicidade (ou singeleza) na coloquialidade e no humor, Poética e Ana Cristina se abrem igualmente a leitores eruditos e iniciantes, porque exibe não sabedorias (pequenas ou grandes), mas desvios contínuos, fraturas, múltiplas falas, testemunho do inconcluso e do inacabado.

Como qualquer um de nós que se angustia, se encanta e mergulha na tormenta e na delícia das descontinuidades da vida.

 

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