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quarta-feira, 13 de agosto de 2014 Jornalismo, Política | 13:13

“Os candidatos”: Dilma Rousseff, Aécio Neves e Eduardo Campos ganham perfis em livro

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São apenas 64 páginas. Sessenta e quatro bem escritas, consistentes e, por vezes, deliciosas páginas nas quais a jornalista Maria Cristina Fernandes perfila os três principais candidatos à Presidência da República. Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) são os personagens do livro digital Os candidatos, que a Companhia das Letras acaba de lançar pelo selo Breve Companhia.

Breves livros digitais têm sido uma estratégia adotada por algumas editoras para trazer ao leitor temas quentes do momento. Curtos na escrita, rápidos na edição. Na Companhia, foi iniciada em junho do ano passado, com Choque de democracia, de Marcos Nobre, sobre as manifestações de junho, e recentemente com A Copa como ela é, de Jamil Chade.

Os candidatos Maria Cristina Fernandes 64 páginas; R$ 9,90 Breve Companhia

Os candidatos
Maria Cristina Fernandes
64 páginas; R$ 9,90                     Breve Companhia (E-book)

Em Os candidatos, a política é o pano de fundo, o horizonte, a onipresença dos textos. Mas a observação e a análise das vidas de cada personagem são o esteio da autora para produzi-los, incluindo a formação política e literária dos presidenciáveis. O bom jornalismo, sua matéria-prima. Somas essenciais para conhecer um pouco mais de quem comandará os rumos do País nos próximos quatro anos.

Perfis pertencem a uma família jornalística adotada em larga escala, consumida com grande sucesso mas não tão fácil de produzir quanto parece à primeira vista. A revista New Yorker praticamente a inventou, seja no ramo dos perfis de anônimos, seja dos célebres e poderosos. Da divertida, irônica e casta New Yorker do fundador Harold Ross ao modelo heterogêneo adotado por David Remnick, passando pela picante e insolente gestão de Tina Brown, a revista ajudou a celebrizar o valor da reportagem com um quê literário de alta qualidade.

Os perfis de Maria Cristina Fernandes em Os candidatos não têm a vantagem que a New Yorker costuma ter – proximidade e longo convívio com o personagem, algo que João Moreira Salles teve no seu celebrado perfil de Fernando Henrique Cardoso, quando viajou durante onze dias com o ex-presidente pelos Estados Unidos e Europa para escrever “O andarilho” na revista Piauí.

Repórter e analista política

Mas na paisagem um tanto monótona da imprensa brasileira, Maria Cristina Fernandes costuma iluminar o horizonte com incrível competência e precisão.

Editora de Política do Valor, ela assina semanalmente uma coluna de opinião e análise, onde revela algumas de suas melhores qualidades: a profundidade sem os vícios do academicismo; a elegância sem empáfia estilística; a opinião e a análise consistentes, sem os achismos correntes dos colunistas públicos que infestam o jornalismo brasileiro; a sábia abertura para a dúvida, mesmo diante das hiperbólicas certezas a que costumam aderir os colunistas nativos; a honestidade intelectual que, entre a informação e suas opiniões, a faz ficar com a primeira.

Maria Cristina é também uma arguta entrevistadora, como revela em suas participações no programa Roda Viva ou nas reportagens que assina – é o caso dos perfis de Os candidatos. Não daquele tipo de entrevistador que estamos acostumados a ver na mídia brasileira: mais interessado em exibir-se em perguntas de duração eterna e cansativa, ou aquele que segue disparando perguntas, uma atrás da outra, tão atento à próxima e a si que chega a não escutar o que está sendo dito, perdendo assim preciosas chances de ir mais fundo e além.

Maria Cristina Fernandes: elegância sem empáfia

A jornalista Maria Cristina Fernandes, autora de “Os candidatos”: elegância sem empáfia

Essa conjugação rara de repórter e analista transforma Os candidatos numa leitura importante para este período eleitoral. Mostra, por exemplo, como Aécio Neves, conciliador por natureza, muda sua estratégia e parte para a briga. Como Dilma Rousseff, contumaz gestora, arregaça as mangas para se provar uma articuladora política. E como Eduardo Campos tenta projetar em âmbito nacional a imagem de renovação que soube cultivar como governador de Pernambuco.

Até aí, dito assim, nestes termos, nada demais.  Mas composto no texto de Maria Cristina, vêm as nuances, os entreatos, as trivialidades e mesmo os grandes gestos que fazem da política algo tão apaixonante e necessário – e também tão odioso aos olhos do cidadão comum. (Impossível não recordar uma máxima de um mestre do jornalismo político, Janio de Freitas, segundo a qual, no jornalismo político, notícia é tudo aquilo que alguém quer dizer e outro quer omitir.)

Quente e frio, mas nunca morno

Os perfis de Os candidatos não são frívolos, nem grandiloquentes. Não põem o dedo em riste sobre o personagem em questão, nem são puxa-saco. São simultaneamente quentes e frios, o que não quer dizer que sejam mornos. Esse estilo permite à autora ser honesta intelectualmente, elogiosa e crítica ao mesmo tempo.

A Dilma Rousseff, por exemplo, refere-se como uma presidente que pecou pelo excesso de coragem, mas também pelo medo de enfrentar seus erros ao tentar romper o pacto conservador de mudança estabelecido pelo antecessor e criador Luiz Inácio Lula da Silva. E radiografa sua dificuldade de ampliar o diálogo do seu governo “para além dos muros de sua cidadela”.

De Aécio, não se esquiva do assunto das drogas que cercam o candidato e o provoca pessoalmente sobre isso. “É do jogo, tem lendas para todos os gostos, não podia imaginar que chegaria aonde cheguei sem carregar várias delas”, afirma-lhe o tucano.

Sobre Eduardo Campos, Maria Cristina radiografa dois eixos sob conflito de sua candidatura: o Estado gerencial e a herança de esquerda. Dos três, Dilma foi a única que não lhe deu acesso (carência compensada pela clássica prática de ouvir o entorno do personagem).

Da tragédia grega à esbórnia carioca

Como uma excelente leitora que é, Maria Cristina sabe o quão importante é saber os livros de formação de qualquer personagem – e o que eles dizem desses livros nos informa muito sobre o que são e o que pensam. Os candidatos, neste quesito, traz surpresas curiosíssimas.

A principal delas é a eleição, por Aécio, de Noites tropicais, de Nelson Motta, como sua principal leitura, como obra literária que ajuda a entender sua vida. Publicado em 2000, o livro do produtor e crítico musical fala dos festivais de rock em Saquarema, onde Aécio costumava pegar onda no fim dos anos 1970, e das primeiras discotecas. “É o Rio no qual vivi”, define Aécio para Maria Cristina, que escreve:

“A ditadura tinha vencido e virado a página do rock’n’roll e do idealismo hippie. A música agora era feita para dançar em lugares como o Dancin’Days, na Gávea, que daria nome à novela de Sonia Braga, e o Noite Cariocas, no morro da Urca. É um indiscreto relato em primeira pessoa de um meio artístico movido a ‘Música Popular Brasileira’ e a drogas”.

Eduardo Campos cita Infância e Memórias do Cárcere, ambos de Graciliano Ramos. O filho do escritor Maximiano Campos – amigo de intelectuais e artistas de Pernambuco – conviveu também com escritores, mas a praia sempre foi a política também na literatura. “Gostava do ambiente, do debate sobre literatura, arte e música, mas eu não fazia poesia, não escrevia conto. Fui dar palpite quando comecei a ler Celso Furtado e Veias abertas da América Latina [Eduardo Galeano]. Era aquilo que eu queria”, diz o candidato do PSB.

E a empedernida presidente? Ao frequentar um curso de tragédia em 1993, conta o livro, Dilma Rousseff ficou fascinada pela epopeia da conquista do poder de Filoctetes, de Sófocles. Curiosidade: é uma das poucas tragédias gregas sem personagens mulheres.

Conta o livro:

“Melhor arqueiro da expedição rumo a Troia, Filoctetes foi deixado em ilha deserta depois de ser mordido por uma serpente. A ferida no pé e os gritos de dor o relegaram ao abandono e ao isolamento. Dez anos depois, Ulisses, sem conseguir vencer os troianos, manda Neoptólemo, filho de seu maior rival, Aquiles, persuadi-lo a qualquer preço a voltar ao navio. O jovem resiste a mentir para convencer Filoctetes, que, ferido no orgulho, se mantinha altivo na ilha sem querer curvar sua honra àqueles que o haviam desprezado. A honestidade de Neoptólemo o cativa, ele se reintegra à expedição, é curado e volta de Troia como herói.”

Uma amiga de Dilma conta à autora do fascínio da presidente pela oposição entre a ética grega e a judaico-cristã. Ulisses não tinha medo ou culpa de não fazer o bem. Se Filoctetes incomodava, que fosse deixado numa ilha deserta nem que, depois, fosse preciso resgatá-lo. A culpa, porém, não nos deixa agir assim, mas o exercício do poder exige que você a toureie.

 

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sexta-feira, 22 de novembro de 2013 Política, Sociedade | 10:36

Histeria ética derruba apoio à democracia. Você concorda?

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Cada vez que ressurge no País uma onda de críticas em defesa da ética, da moral e dos bons costumes na política, o efeito esperado seria um grau maior de maturidade de eleitores e políticos, e daí a consequência natural seria a maior confiança na democracia. Certo? Nem tanto: eis um caso típico no qual a teoria, na prática, é outra.

Pouca gente deu a atenção devida, mas este mês saiu o “Latinobarômetro 2013”. Produzida pelo instituto de pesquisa de maior conceito internacional sobre a América Latina, a pesquisa detecta a cada dois anos o pensamento dos latino-americanos. Em 2013 os pesquisadores foram às ruas entre 31 de maio e 30 de junho, com mais de 20 mil entrevistas em 18 países (bem no meio, portanto, das jornadas de protesto no Brasil).

Alguns dos resultados da pesquisa no Brasil são apreensíveis:

1. O apoio à democracia pelos brasileiros, numa média entre 1995 e 2013, só parece ser maior que na Guatemala: 49% acham que a democracia é preferível a qualquer outra forma de governo.

2. Quase 20% dos brasileiros preferem um governo autoritário.

3. A democracia pode funcionar sem partidos políticos para 34%; mesmo índice para aqueles que acham que o Congresso pode ir às favas que a democracia continuará funcionando.

4. Apenas 26% se dizem satisfeitos ou muito satisfeitos com a democracia. Muito ou algum interesse na política? Nem 30%.

Pesquisa completa dos 18 países (em espanhol ou inglês) aqui

Crise da política

Em primeiro lugar, convém dar aos próprios políticos, aos partidos e aos governos (sobretudo o governo da presidente Dilma Rousseff) a responsabilidade devida pelo incômodo popular. Em outras palavras, é deles a principal culpa pela desconfiança na democracia.

O modesto resultado dos programas destinados a garantir oferta de melhores serviços públicos nas cidades; a dificuldade de atender à pletora de demandas; as sucessivas derrotas na comunicação com a sociedade; uma certa tibieza ao lidar com os aliados mais famintos por verbas e cargos. Eis algumas das facetas dessa responsabilidade.

Tanto o PT quanto o seu principal adversário, o PSDB, revelaram-se nos últimos anos meio ensurdecidos pela histeria ética. Revezaram-se no poder nos últimos 18 anos e, no fundo, como saldo geral, ajudaram a desmobilizar cidadãos. Não à toa parece iminente o surgimento de uma terceira via.

Onde grassa a desconfiança…

Eis o ponto principal dessa desconfiança detectada pelo Latinobarômetro: um país de desconfiados tem a tendência a se despolitizar. Como escreveu o cientista político Fernando Filgueiras, doutor em Ciência Política pelo Iuperj e professor da Universidade Federal de Minas Gerais: onde grassa a desconfiança, o interesse público não prospera como finalidade da política.

Filgueiras faz parte de um grupo de pesquisadores do Centro de Referência do Interesse Público da UFMG e já há algum tempo vem revelando em suas pesquisas que, na esteira dos sucessivos escândalos que têm pautado a agenda nacional, a percepção do contribuinte acaba sobrepondo-se à do cidadão. Isso, segundo ele, enfraquece a capacidade do brasileiro de cobrar responsabilidade e mudança. Acrescento: a população média pode gritar muito na forma, mas soa vazio o conteúdo dessa cobrança.

Os números mostram que a despolitização é um dos males mais perigosos e ameaçadores para o desejo civilizatório de uma nação – daí porque convém cautela diante da histeria coletiva em favor da ética, da moral e dos costumes, amplificada com a transformação em herói do ministro Joaquim Barbosa.

A consequência, como mostra o Latinobarômetro, é o esvaziamento da política como arena de debates e caminho para as soluções que o País espera para seus problemas. Um exemplo é a crítica generalizada ao Congresso. Muitos desconhecem o quanto o eleitor brasileiro exerce seu protesto pelo voto.

Quem acha que a vida de um deputado é fácil no Brasil, observe as taxas de renovação de mandato: é maior do que na maior parte das democracias do mundo.

A coluna recorre novamente à jornalista Maria Cristina Fernandes, que escreveu: “Se a cada legislatura renovam-se os vícios da leva que se foi é porque a indignação provocada (…) permite ao eleitor discernir aquilo que rejeita na política, mas não geram valores nem cultura cívica para a escolha de um representante”.

Ela disse mais: “No caldeirão de defensores de uma moralidade pública estéril interesses espúrios misturam-se ao oportunismo e à ingenuidade que se move pela biruta de aeroporto”.

Onde há corruptos há também corruptores

Eis o ponto: o esbravejo público contra os vícios privados de servidores ignora o papel dos corruptores que avançam não só no ambiente de governos e legislativos, mas no dia a dia da população.

Se há uma cultura que prevalece é aquela segundo a qual uma ilegalidade promove outra. Tomem-se exemplos do jovem motorista que insinua uma gorjeta ao policial que o multa por excesso de velocidade, ou um proprietário de estabelecimento comercial que oferece propina para que o fiscal ignore as frágeis condições de segurança de incêndio do seu negócio.

Ou você desconhece pessoas que já tenham recebido sugestões de médicos, advogados ou analistas para não entregar-lhe recibos? Na prática, quem aceita isso torna-se cúmplice de crimes fiscais.

Corruptores e corruptos às vezes também podem estar unidos na demanda por ética na política. E na denúncia implacável dos malfeitos da democracia. Dá nisto: quase 20% da população acreditando ser melhor um governo autoritário.

A democracia dá trabalho.

 

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