Publicidade

Posts com a Tag O frio aqui fora

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015 Literatura | 06:00

Coletânea de contos traz cenas do dia a dia recheadas de mistérios

Compartilhe: Twitter

O leitor corriqueiro, que lê entre uma atividade e outra e se perde facilmente, terá de redobrar a atenção ao ler Dez centímetros acima do chão, publicado recentemente pela Cosac Naify. Isso porque o autor, Flavio Cafiero, inseriu uma série de armadilhas que podem enganar facilmente em uma leitura desatenta.

O escritor publicou seu primeiro livro em 2013, O frio aqui fora, também pela Cosac Naify, após trocar a carreira no mundo corporativo pela literatura (leia mais na entrevista abaixo). O livro de estreia foi finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura.

Dez centímetros acima do chão é sua primeira coletânea de contos, escritos ao longo de mais de cinco anos. São ambientados em locais do cotidiano da maioria das pessoas, como um apartamento, um escritório ou o transporte público.

Dez centímetros acima do chão Flavio Cafiero Cosac Naify 160 páginas, R$ 32,00

Dez centímetros acima do chão
Flavio Cafiero
Cosac Naify
160 páginas, R$ 32,00

As narrativas, simples apenas na aparência, escondem provocações que contribuem para formar uma teia complexa. É o caso de O atirador de facas, que parte de um jantar entre amigos de longa data que se reencontram. As notas de rodapé deste conto criam uma história paralela, que pode ser entendida como um complemento à história principal. Ou seriam essas notas a narrativa principal? Fica a dúvida. Este e outros contos trazem mistérios e ideias que ficam suspensas.

Em contos como Arabescos, as notas de rodapé fazem a tradução para o português de falas em outros idiomas. Em determinado momento, as notas passam a traduzir os próprios pensamentos e as críticas dos personagens. “A ideia era tratar o rodapé de forma diferente de sua função habitual”, explica Cafiero.

O mistério se intensifica em A última aventura do herói. O que se assemelha a um script de reality show acaba com diversas tarjas pretas recobrindo o que parecem ser partes essenciais do texto, mas permanecem incógnitas ao leitor.

As situações são corriqueiras, como um passeio pela cidade ou um dia no trabalho. Mas se engana quem imagina conflitos fáceis de serem resolvidos. A decisão de não passar mais creme hidratante na pele, no conto Orcas, evolui para uma situação de desespero do personagem, que fica imaginando todo o caos que pequenas decisões suas podem provocar.

A seguir, Flavio Cafiero conta como se tornou escritor e como foi a criação de Dez centímetros acima do chão.

***

Como foi seu início na literatura?
Escrever, como em muitos casos conhecidos, foi sonho de infância, adiado por muitos anos em prol de uma carreira que me sustentasse. Tornei-me publicitário, executivo de uma multinacional de varejo. E o sonho de ser escritor acabou voltando depois de um tempo congelado. Acho que todo sonho de infância retorna, um dia, para assombrar a gente. Tive um momento de crise profissional na empresa em que trabalhei por quase 14 anos e a ideia de tentar a carreira nas artes veio à tona. Aproveitei a deixa. Era naquele momento ou nunca, tinha 35 anos. Essa transição serviu de inspiração para meu primeiro romance, O frio aqui fora. Arrisquei, estudei, fiz cursos de escrita criativa e dramaturgia, e agora começo a colher os primeiros frutos, com dois livros pela Cosac Naify (O frio aqui fora e Dez centímetros acima do chão), um e-book pela e-Galáxia (O capricórnio se aproxima) e uma peça de teatro (Antes de mais nada, com direção de Zé Henrique de Paula).

O escritor Flavio Cafiero

O escritor Flavio Cafiero

Como foi o processo de elaboração de Dez centímetros acima do chão?
O livro é uma compilação de contos escritos ao longo de cinco ou seis anos. Alguns são versões retrabalhadas de contos que escrevi logo no primeiro ano depois de me demitir da empresa. Outros foram escritos numa segunda etapa, ao longo do curso de escrita criativa que fiz com Noemi Jaffe. Uma terceira parte é mais recente, já de um período pós-publicação.

Os contos sofreram alguma mudança desde o início desse processo?
Retrabalhei muito. Reescrevi. Acredito nesse trabalho de reescrita, de tentativa e erro, de buscar novas formas de dizer o que já disse. É fundamental pra mim. Só fico satisfeito quando chego num ponto que não sei bem qual é, mas parece com um estado de imperfeição, de incômodo, de susto. Quando consigo me assustar com meu próprio texto, começa a ficar bom. Mas é trabalho, é suor. Alguns contos também foram cortados, saíram na etapa final, porque penso que uma coleção precisa de certa unidade, precisa ficar de pé, ter solidez de obra.

Que ambientes serviram de inspiração para os contos?
O Rio de Janeiro é muito presente. Moro há 19 anos em São Paulo, mas o Rio sempre me pega pelo pescoço. A inspiração sempre vem de lugares recônditos, não vem do ar, não é espiritual. É a escrita que puxa, e puxa de lugares escondidos. E o que tem nos lugares escondidos? Geralmente, a infância.

Em contos como O atirador de facas, as notas de rodapé constituem em si uma narrativa. Comente a inserção dessa e de outras provocações.
A ideia era tratar o rodapé de forma diferente de sua função habitual. Geralmente os rodapés acrescentam informações que, de certa forma, são dispensáveis para a compreensão do texto. Quis que fosse o contrário, que o rodapé modificasse totalmente o sentido da história, acrescentando camadas até mesmo discordantes. Em O Atirador de facas, o rodapé resgata o passado e ilumina o presente, modificando o olhar do leitor sobre os personagens. Em Cavo varo, o rodapé é uma voz dissonante, uma espécie de camada esquizofrênica. Em Arabescos é um clássico subtexto teatral, brincando com a ideia de tradução. Em A última aventura do herói, o rodapé vem mimetizado de rodapé tradicional, mas complica, lança uma história maior dentro de uma realidade menor, e põe em dúvida o corpo do texto. São experiências, brincadeiras. Mas os rodapés são partes inseparáveis dos contos. Lê-los com displicência, como fazemos geralmente com as notas, é exatamente a armadilha. Quem cai na armadilha, perde o conto.

Fale sobre as ironias em As últimas aventuras do herói.
Ah, esse conto é doido. Joguei ali um repertório de leituras afetivas, de Campbell, de Jung, de Sartre e Camus, de Borges e Cortázar. Ficou uma salada contemporânea, confusa e fragmentada, e era essa a intenção. A ideia era tratar um esboço de roteiro de um reality show como se fosse um artefato arqueológico encontrado daqui a séculos. A partir daí, me debruço sobre o que penso que é viver nesse início de século 21. É complicada, essa vida sem amarras, sem alicerces. É bom, mas é angustiante. É disso que tento falar no conto.

Qual é a imagem do herói hoje?
Na minha visão, a imagem do herói perdeu o sentido no mundo atual. Estamos na era da celebridade, do instantâneo. Todos somos heróis, ou nos enxergamos assim, e, desta forma, ninguém o é. O herói acabou, é ruim, sua morte nos dissocia de uma tradição milenar que é muito valiosa, nos divorcia da ideia de tempo, maturação, descoberta, transformação, processo. É uma longa conversa, uma conversa triste. 

Você tem observado cotidianos como o de Orcas, em que a rotina pode levar a um estado de desespero?
O tempo todo. O próprio clichê do “tô surtando”, que todo mundo repete todo dia, nasce de uma realidade angustiante, de crise de identidade diária, um estar no mundo sem chaves pré-definidas de compreensão, um avião sem manual, uma orca sem adestrador. É o grito do Munch.

Autor: Tags: , , , , , , ,