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segunda-feira, 20 de outubro de 2014 Jornalismo, Política | 11:12

15 frases para falar mal da política, segundo Millôr

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Numa campanha presidencial tisnada por debates amuados, ataques de alto, médio e baixo calibre, além de ódio e intolerância por parte das torcidas organizadas e desorganizadas, nada como resgatar o bom humor de Millôr Fernandes.

Do livro Millôr 100 + 100 – Desenhos e frases, editado pelo Instituto Moreira Salles (depositário de sua obra), extraem-se primorosos exemplos de sua notável (e assombrosa) criatividade, capaz de produzir, em palavra e imagem, gargalhadas abertas ou travo amargo da ironia. A coluna recolheu do livro frases sobre política, ideologia, corrupção e democracia.

 

Millôr 100 + 100: Desenhos e frases Organizadores: Sérgio Augusto e Cássio Loredano Instituto Moreira Salles R$ 500

Millôr 100 + 100: Desenhos e frases
Organizadores: Sérgio Augusto e Cássio Loredano
Instituto Moreira Salles
R$ 50

Lançado na Flip deste ano, o livro reúne 100 frases selecionadas por Sérgio Augusto e 100 desenhos escolhidos por Cássio Loredano. Uma dupla genial que trabalhou à altura do gênio homenageado, autor de inesquecíveis tiradas, máximas, aforismos, pensamentos, meditações, apotegmas, gnomas, perguntas cretinas, chistes, brincadeiras, fábulas e adágios virados pelo avesso e trocadilhos infames (Um dos melhores: “Brasil, país do faturo”).

Cético, Millôr desprezava todas as ideologias (“livre como um táxi” era sua divisa favorita), o que explica muitas das frases abaixo.  Ou melhor, tiradas. Quinze tiradas.

* * *

1. Político é um sujeito que convence todo mundo a fazer uma coisa da qual ele não tem a menor convicção.

2. Os corruptos são encontrados em várias partes do mundo, quase todas no Brasil.

3. Nas noites de Brasília, cheias de mordomia, todos os gatos são pardos.

4. A ociosidade é a mãe de todos os vices.

5.  Desconfio de todo idealista que lucra com seu ideal.

6. A probidade não tem cúmplices.

7. Não gosto da direita porque ela é de direita, e não gosto da esquerda porque ela é de direita.

8. O problema da democracia é que quando o povo toma o palácio, não sabe puxar a descarga.

9. Os socialistas são contra o lucro. Os capitalistas são apenas contra o prejuízo.

10. Cada ideologia tem a Inquisição que merece.

11. Quando uma ideologia fica bem velhinha vem morar no Brasil.

12. Os pássaros voam porque não têm ideologia.

13. A credibilidade do país é inversamente proporcional aos juros que os banqueiros internacionais lhe cobram.

14. Quem se curva aos opressores mostra a bunda aos oprimidos.

15. Todo líder acaba empregado de sua liderança.

millor6

 

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segunda-feira, 29 de setembro de 2014 Política | 10:01

Especialistas erraram previsões na campanha. Mas um alerta: eles costumam acertar quase tanto quanto o acaso

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Dilma Rousseff vai perder a disputa pela reeleição e os petistas serão, enfim, removidos do poder. A economia brasileira está muito mal, obrigado, encontra-se à beira do abismo, e imerge de maneira trôpega numa tragédia iminente que dura alguns anos e parece que, em breve, repintará em cores muito mais sombrias a débâcle já sofrida pelo País em outros tempos. Fato. Líquido e certo.

Aécio Neves, o candidato tucano, vai comandar a oposição rumo a uma vitória difícil, mas inevitável “diante de tudo o que está aí”. Apesar das poucas nuances e diferenças, acrescente-se, entre ele e o outro oposicionista relevante, Eduardo Campos – o esperto, boa praça porém inerte nas pesquisas candidato do PSB, amigo do ex-presidente Lula e mordaz adversário da presidenta Dilma.

Opa! Um acaso trágico vindo dos céus, Eduardo Campos morreu. Marina Silva, de aura imaculada, agora é a candidata do pacto eleitoral PSB-Rede. Dispara nas pesquisas, é inevitável sua vitória. Será a conquista da esperança por uma “nova forma de fazer política”. Não há como, é uma questão de tempo – precisamente agora é esperar o 5 de outubro. A campanha de Aécio também morreu. A de Dilma agoniza.

Mas eis que Marina chafurda diante da “desconstrução” (para uns) ou das “agressões” (para outros). Era o tal novo, atribuído pela virtuosa combinação entre a rejeição ao PT, rescaldo de votações passadas, baixa identificação de Aécio e morte de Campos. Suas contradições a tornaram mais vulnerável, Aécio viu sua esperança ressurgir, Dilma subiu e tornou-se, mais uma vez, a favorita absoluta. Petistas graúdos atestam: é possível até mesmo ganhar no primeiro turno. Um assombro de conquista.

Biruta de aeroporto

A soma de previsões definitivas, transitividades, surpresas, acasos, mudanças de rota e – pasmem – reafirmações de mais previsões definitivas é um exemplo de um vício crônico do Brasil (embora não restrito a nós): o mito das previsões dos especialistas. Uma pena, pois o histórico os desabona.

Nada contra os especialistas. A coluna recorre a eles sempre. Coleciona amigos especialistas, entre economistas, cientistas políticos, historiadores, sociólogos, filósofos, jornalistas e psicanalistas. Produzem conhecimento, estendem os limites da interpretação das mudanças presentes e discutem caminhos e possibilidades em formação no horizonte futuro.

E é no futuro que mora o problema. Nada contra quando se tenta antecipar os passos futuros – numa disputa eleitoral ou nos rumos da economia brasileira, por exemplo. O nó cego aparece quando levamos a sério demais tais previsões, quando elas são taxativas demais, como se viu nesta campanha até aqui, ou quando a mídia, em especial, credita, com ares de verdade, o que não passa de hipótese de trabalho. É o caso do pessimismo reinante que paira sobre a economia brasileira, em que certos setores da imprensa insistem em antecipar um ocaso generalizado, um estado sombrio e desesperador sem amparo na realidade da maior parte da sociedade.

Livro mostra que não há método confiável de acerto

Expert_Political_JudgmentUm livro fantástico, publicado há quase dez anos nos EUA e, infelizmente, sem tradução no Brasil, ajuda a sustentar a falácia das previsões dos especialistas. Chama-se Expert Political Judgment (Princeton University Press, US$ 17 na Amazon). Seu autor é Philip E. Tetlock, um professor de psicologia de Berkeley, Califórnia. Ele passou quase 20 anos analisando previsões de centenas de especialistas sobre o destino de dezenas de países. Foram 28 mil previsões coletadas.

Os números são desabonadores para os especialistas, e as conclusões, edificantes para quem se irrita com previsões. Do livro, extraem-se três lições essenciais: primeiro, especialistas (e colunistas como o que assina esta Pensata) sabem menos do que parecem saber. Segundo, falham com bastante frequência. Terceiro, nunca são penalizados por seus equívocos. “Nenhuma sociedade criou ainda um método confiável de pontuação de acerto dos especialistas”, afirma Tetlock.

Aos números. Entre os analistas de maior pessimismo, 70% das previsões se revelaram mais sombrias. Delas, só 12% terminaram por ocorrer. Entre os mais otimistas, 65% dos cenários traçados foram mais rosados. Destes, 15% se materializaram. Ou seja, o grau de acerto é uma lástima, com leve vantagem para os otimistas (mas leve mesmo). Especialistas são péssimos no cálculo de probabilidades, e segundo o estudo de Tetlock não importa se as previsões dizem respeito a economia, política interna ou assuntos internacionais. Suas avaliações são igualmente equivocadas em todo o espectro de temas.

Previsões servem para sistemas não complexos

Se os especialistas se saem um pouco melhor do que o acaso (ou tanto quanto um macaco jogando uma moeda para cima), por que eles insistem em fazê-lo e nós em ouvi-los? Dan Gardner, no livro Future Babble (Balbucio sobre o futuro, US$ 12,79 na Amazon) arrisca algumas explicações. Para Gardner, nos habituamos a ver a ciência prevendo com enorme sucesso fenômenos como eclipses e marés. Só que esses são sistemas não complexos. Neles, o todo não difere da soma das partes, o que permite montar equações que resultam em predições bastante acuradas. O problema é que quase todas as atividades humanas constituem sistemas complexos, nos quais o todo é mais do que a soma das partes.

Se aprendêssemos bem essa lição, talvez só devêssemos levar a sério experts que expressassem suas previsões do seguinte modo: “Há x% de probabilidade de que o cenário y se materialize”. No mundo real, porém, não é o que ocorre. As manchetes seriam mais enfadonhas. O leitor fugiria. O cérebro humano procura tão avidamente por padrões que os encontra até mesmo onde não existem. Mesmo num mundo sempre mais complexo, queremos narrativas cada vez mais simples e explicações cada vez mais lógicas para nossas preferências. Queremos encontrar sentido nas coisas, mesmo onde não há sentido aparente.

Por essa razão a mídia tem sua responsabilidade adicional. Diz Tetlock: “A mídia não só não consegue eliminar as más ideias mas muitas vezes favorece ideias ruins, especialmente quando a verdade é muito confusa para ser embalada ordenadamente”. A propósito, quanto mais entrevistas os especialistas haviam concedido à imprensa, descobriu Tetlock, piores tendiam a ser suas previsões.

Tem vida longa, porém, a tendência de buscar chaves explicativas definitivas quando, muitas vezes, não resta outra saída se não jogar uma dúvida no ar. Pode resultar em frustração do leitor ou espectador, mas se trata de ser feita uma avaliação de custos e danos. (Blogueiros e colunistas públicos da mídia tradicional, à esquerda e à direita,  e suas certezas absolutas certamente discordarão dessa análise.)

Pensem como a raposa

Tetlock dividiu seus especialistas ao longo de um espectro entre o que batizou de “porcos-espinhos” e de “raposas”. A referência aos animais vem do título de um ensaio de Isaia Berlin sobre o romancista russo Lev Tolstói, chamado “O Porco-Espinho e a Raposa”.

Porcos-espinhos são personalidades de tipo A, que acreditam em grandes ideias, em certos princípios que regem o mundo com o rigor de leis da física e que sustentam praticamente todas as interações que ocorrem na sociedade. Karl Marx e Freud são dois exemplos.

Raposas, por outro lado, são criaturas que gostam de fragmentos, acreditam numa infinidade de pequenas ideias e adotam abordagens distintas para um mesmo problema. São mais tolerantes às nuances, às incertezas, à complexidade e às opiniões discordantes.

Porcos-espinhos são caçadores e estão sempre em busca de uma presa grande. Raposas são animais coletores. Raposas, diz Tetlock, são muito melhores em fazer previsões do que porcos-espinhos. Por essa razão, Tetlock pede que experts tenham mais humildade. Desse modo, diz ele, o debate político poderia soar menos estridente.

O problema é que, como diria o poeta irlandês William Butler Yeats, “falta convicção aos melhores, enquanto os piores estão cheios de apaixonada intensidade”.

 

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terça-feira, 31 de dezembro de 2013 Filosofia do cotidiano | 09:36

Réveillon reacende nossa esperança de felicidade

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Se o Carnaval é o tempo da alegria sem causa, da felicidade sem dia seguinte, e se o Natal nos informa sobre o amor fraterno e a amizade, o réveillon é provavelmente o momento que melhor espelha, traduz e renova a esperança. Na passagem do ano não vivemos exclusivamente o dia e a noite únicos, feito o carpe diem hedonístico carnavelesco, mas enxergamos o amanhã com as portas e o coração abertos para o que virá, como se nessa virada de tempo nossas vidas fossem mudar drástica e repentinamente – para melhor, evidentemente.

Faça o teste, observe à sua volta, recolha depoimentos de amigos e familiares, reveja a caixa de entrada do seu correio eletrônico, verifique todas as suas mensagens, instantâneas ou não: a poucas horas de passarmos a enquadrar 2013 em nosso retrovisor da memória e encararmos 2014 não mais com o mero estranhamento da novidade, serão raros aqueles desprovidos de mensagens de esperança e renovação próprios dessa época.

O poeta Carlos Drummond de Andrade publicou vários textos dignos de citação para o momento, e a editora Record transformou alguns deles num pequeno e belo volume em 2008: Receita de Ano Novo. Recebi Drummond de amigos que trabalham com a palavra – poetas, escritores, filósofos – ou que simplesmente têm a sensibilidade para entendê-las e compartilhá-las. Eu mesmo usei um desses textos e reproduzo aqui.

“Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial”, escreveu Drummond. “Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente.”

A industrialização da esperança de que tratou Drummond não parece um fenômeno exclusivo do réveillon, mas é no fechamento dos doze meses do ano que ela se manifesta de maneira mais enfática. E num país que se habituou a se enxergar como nação do futuro, a vocação para a esperança se revela ainda mais dramática.

Brasileiro, profissão esperança

Não é fácil manter a condição de País do futuro por tanto tempo. Há um enorme mérito nisso. Disso ingleses e portugueses talvez não entendam: nenhuma nação do mundo foi o país do futuro por tanto tempo como o Brasil. Por mais que um inglês force sua imaginação, jamais conseguirá acreditar que a Inglaterra seja, no futuro, algo superior ao que foi no passado, política, econômica e culturalmente. O mesmo império econômico e geopolítico produziu Shakespeare, Bacon e Newton; nenhum inglês acredita que ainda vá surgir outro Shakespeare, outro Bacon ou outro Newton.

Ingleses têm o centro de gravidade no passado. Aliás, como os portugueses, que também já foram um império, viveram momentos de glória e esperaram por muito tempo a volta de D. Sebastião, que os redimiria do ocaso, do ostracismo e da desesperança. Não à toa “saudade” foi uma palavra inventada pelos portugueses (embora o sentimento seja universal): o profundo sentimento de uma nação que teve seus dias de glória. Sua esperança olha para o passado, a fim de revivê-lo.

Enquanto isso, nossa saudade é inversa – talvez o que Fernando Pessoa chamou de uma “saudade imensa de um futuro melhor”. A condição brasileira ancora-se na ideia de que pouco fizemos no passado, ou tudo o que temos por fazer de valioso está mesmo no amanhã. É para o futuro que aponta o centro de gravidade de nossa imaginação. É-nos inconcebível um futuro que seja ainda pior do que o nosso passado.

Modesto no bolso, craque no pé

Dentre os muitos paradoxos do Brasil, um deles é a dissonância entre as condições materiais de existência e as diferentes percepções subjetivas – um cruel histórico de desigualdades, injustiças e precariedade de vida conviveu com uma exuberante autodefinição de povo feliz e esperançoso. Um terreno fértil para exageros de lado a lado, diga-se.

Em “breviário do patriotismo”, Afonso Celso destacou que a felicidade brasileira era fruto dos “motivos reais” que a pátria nos dá para amá-la e para que dela nos orgulhemos. Segundo ele, pode haver países mais prósperos, mais poderosos e mais brilhantes do que o Brasil, mas “nenhum mais digno, mais rico de fundadas promessas, mais invejável”. Para Afonso Celso, o clima e a mestiçagem garantiram um “tipo nacional” privilegiado.

No clássico Retrato do Brasil, Paulo Prado, por outro lado, considera que esses elementos constituem explicações suficientemente evidentes para a “tristeza brasileira”. Ele escreveu:

“A melancolia dos abusos venéreos e a melancolia dos que vivem na ideia fixa do enriquecimento – no absorto sem finalidade dessas paixões insaciáveis – são vincos fundos na nossa psique racial, paixões que não conhecem exceções no limitado viver instintivo do homem, mas aqui se desenvolveram de uma origem patogênica provocada sem dúvida pela ausência de sentimentos afetivos de ordem superior. […] No Brasil, o véu da tristeza se estende por todo o país, em todas as latitudes, apesar do esplendor da Natureza”.

Felicidade edênica

Há alguns anos a Fundação Getulio Vargas na qual perguntou aos entrevistados se eles sentiam orgulho de ser brasileiros e quais os motivos para o orgulho. Enquanto quase 60% responderam afirmativamente, somente 4% disseram sentir vergonha do país em que vivem. Em ordem decrescente, a natureza, o caráter do povo, as características do Brasil, esportes/música e carnaval foram os motivos enumerados para a razão de tanto orgulho. É o que o historiador José Murilo de Carvalho chamou de motivo edênico do orgulho nacional. O Éden somos nós.

Do Instituto Datafolha veio uma pesquisa segundo a qual quase metade dos brasileiros consideram o Brasil o país mais feliz do mundo. Estão satisfeitos com a própria vida, 65% dos entrevistados. Somente 3% se declaram infelizes. Curiosamente, no entanto, o Brasil foi ao mesmo tempo apontado como o segundo país mais infeliz do planeta, atrás apenas da África (genericamente) e da Etiópia – empatadas. A grande maioria dos entrevistados, não importando o nível de renda e o grau de escolaridade, mostrou-se feliz com a vida que levava.

Enquanto 65% dos entrevistados se sentem felizes consigo, apenas 23% acreditam que os brasileiros em geral são felizes. Em outras palavras, a imagem que temos de nós mesmos, cada um por si, não corresponde àquela que temos de nós mesmos como coletividade. Como entender duas percepções tão conflitantes?

Analisando os dados, o economista Eduardo Giannetti apresentou na época duas hipóteses. A primeira seria questionar a validade da imagem que cada um gosta de alimentar de si mesmo. “Por mais infeliz que alguém seja aos olhos dos outros, o indivíduo se defende como pode da dor de admitir perante si mesmo a própria infelicidade”.

A segunda hipótese é que os entrevistados talvez usem critérios distintos nos juízos que emitem: “Ao falarem de si, eles privilegiam a perspectiva interna e declaram o seu bem-estar subjetivo. Ao falarem dos demais, contudo, eles naturalmente adotam o ponto de vista externo e privilegiam as condições objetivas em que vive a maioria. A precariedade da vida vista de fora – renda, emprego, segurança, saúde, educação, moradia – domina a avaliação”.

Embora especulativa, a conclusão pareceu satisfatória: infelizes são os outros, não eu; aos olhos deles, no entanto, os outros somos nós. Acrescente-se ao raciocínio de Giannetti: Dizemo-nos felizes, individualmente, mas nossas felicidades individuais não se somam, não se multiplicam. É o afloramento do individualismo brasileiro, de sua dificuldade histórica de gestar uma dimensão coletiva, um espaço público, em que a busca de bem-estar subjetivo se conjugue com a aliança, o compromisso, o contrato. Essa premissa se confirma com o fato de a política brasileira trazer infelicidade para 37% dos entrevistados.

A política no lugar da religião como fonte de esperança

O número acima não surpreende, porque enquanto a felicidade é a prima rica da esperança, a frustração é a prima pobre. Contraditoriamente, depositamos uma enorme esperança na política, quase no mesmo compasso da profunda decepção que temos com ela – e com os políticos. Como disse o filósofo Luiz Felipe Pondé na última Flip, em Paraty: a relação com a política hoje é religiosa na raiz; esperamos que a política conserte o mundo. É essa convicção que alimenta os mais críticos da política, como aqueles que encheram as ruas de protesto no Brasil, nos EUA, na Turquia, na Síria e em tantos outros lugares.

E, no afã de esperar o futuro como algo melhor, corre-se o risco de ignorar o passado e a herança que nos foi legada. Voltando ao próprio Pondé, na mesma Flip: “A modernidade parece um adolescente de 17 anos, que acha que entende tudo sobre o mundo e que o passado não vale nada. Quando você aprende a respeitar o que veio antes de você, ajuda a baixar a bola sobre o que pensa de si mesmo.”

O avesso da esperança, no entanto, parece ser uma condição de vida de vazio, mesmo infernal. Em sua Divina Comédia, Dante Alighieri descreve os portais do inferno como marcados por um aviso que conclama aos visitantes a abandonar toda e qualquer forma de esperança. Esperamos o que não temos, e no modo mais cético de ver a vida seríamos tanto menos felizes quando mais esperamos ser felizes. Woody Allen resumiria numa fórmula: “Como eu seria feliz se fosse feliz!”.

Desconheço, no entanto, alguém que acredite na falta de esperança como meio de ser feliz – senão filósofos que usam o recurso como artifício teórico. Do mesmo modo que rejeitamos fórmulas para a felicidade. (Como escreveu o psicanalista Contardo Calligaris, a felicidade, para você, pode ser uma vida casta; para outro, pode ser um casamento monogâmico; para outro ainda, pode ser uma orgia promíscua. Para você, buscar a felicidade consiste em exercer uma rigorosa disciplina do corpo; para outros, é comilança e ociosidade. Alguns procuram o agito da vida urbana, e outros, o silêncio do deserto. Há os que querem simplicidade e os que preferem o luxo. Buscar a felicidade, para alguns, significa servir a grandes ideais ou a um deus; para outros, permitir-se os prazeres mais efêmeros.)

Eis o ponto: com ou sem religião, com ou sem filosofia, com ou sem leitura de qualquer autor que tenha se preocupado com tais questões, vivemos em algum lugar entre o campo do provável, do realizável e do desejável. E nesse lugar incerto cabe de tudo: esperança, medo, frustração, felicidade, desejo, vontade… Um caldeirão de afetos mais ou menos intensos, contraditórios e misturados, todos amplificados ainda mais pelas luzes e fogos do réveillon. E por essa razão, Drummond continua e continuará sendo importante nos últimos dias do ano.

Como neste poema de A rosa do povo, com o qual desejo ao leitor uma feliz – e esperançosa – passagem de ano:

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor [da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, [doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o [clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus… 

Recebe com simplicidade este presente do [acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos [séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras [espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

 O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles… e nenhum resolve. 

Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

 

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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013 História, Política, Sociedade | 04:30

Humanidade é má por inclinação e corrupta por oportunidade

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Para quem acha que a corrupção brasileira começou com o chamado mensalão, e que a má imagem dos funcionários e agentes públicos teve início com Fernando Collor de Mello (o presidente “caçador de marajás”), convém dar uma lida em alguns dos artigos presentes no livro História do Brasil para ocupados.

1Lançado no mês passado pela editora carioca Casa da Palavra e organizado pelo professor Luciano Figueiredo, da Universidade Federal Fluminense, o livro reúne textos de 66 pesquisadores, jornalistas, economistas e historiadores que recontam passagens importantes dos últimos cinco séculos “de um jeito original”, como prega o subtítulo da obra. Leves na forma, certeiro no conteúdo, sugere o organizador.

Alguns dos textos conseguem isso, como a historiadora Mary del Priore ao tratar do uso de afrodisíacos e anafrodisíacos nos séculos XVI e XVII (motivo para outro artigo sobre este livro, quem sabe) e ao escrever o perfil de D. Pedro I, um imperador “impulsivo, louco por mulheres e que não escondia suas traições. Ou ainda o economista Gustavo Franco, em artigo sobre um Machado de Assis pouco conhecido: o talentoso cronista das questões econômicas que afligiam o Brasil na passagem da monarquia para a República (tema já esmiuçado pelo ex-presidente do Banco Central no excelente livro Machado de Assis e a economia, publicado pela Zahar).

Mesmo em textos classudos, outros mostram por que são referencia, como Luiz Felipe de Alencastro e Rubens Ricupero.

Mas passemos. O que interessa aqui é a corrupção, tema dos artigos do jornalista Eduardo Bueno (“Ficha suja”) e José Murilo de Carvalho (“Basta de corrupção”).

O primeiro ficha-suja da história do Brasil

Com seu habitual jeito criativo, Eduardo Bueno mostra que burocracia, favorecimentos, nepotismo e atividades escusas fazem parte da herança deixada pelos tempos coloniais no Brasil. O jornalista fala do Brasil de meio século depois de “descoberto” por Pedro Álvares Cabral – uma terra remota, quase despovoada (de europeus) e pouco lucrativa para a metrópole.

Apesar da grave crise financeira que atingia Portugal, o rei D. João III e seus conselheiros decidiram investir muito dinheiro do Tesouro Real para estabelecer um governo-geral no Brasil. Em março de 1549 desembarcariam no País as primeiras autoridades: o ouvidor-geral (cargo equivalente ao de ministro da Justiça), desembargador Pero Borges, e o provedor-mor (quase um ministro da Economia), Antônio Cardoso de Barros.

Borges se transformaria no que Eduardo Bueno classifica como o primeiro funcionário público ficha-suja de nossa história. Seis anos antes, fora condenado em Portugal por desvio de verba para construir um aqueduto – obra inviabilizada pelo roubo.

Borges recebia indevidamente quantias de dinheiro “que lhe eram levadas a casa, provenientes das obras do aquedo, sem que fossem presentes nem o depositário nem o escrivão”, segundo trecho de Elementos para um Dicionário de Geografia e História Portuguesa, de 1887, reproduzido no livro.

A vinda para a colônia se deu como parte de sua punição. Mas com privilégios: Borges tinha poder (inclusive condenar índios e escravos à morte), um ótimo salário e pensão para a mulher manter-se em Lisboa.

Desembarcando no Brasil, mostrou-se chocado com a “pública ladroíce e grande malícia”. Lorota: o ouvidor-geral se beneficiou do erário em solo brasileiro, ao adiantar os salários dos empregados mais graduados e suspender, sem explicação, a remuneração dos menos qualificados.

Quando o bem público era propriedade do rei

Em outro artigo (“A arte da subtração”), Ronaldo Vainfas mostra que o que chamamos de peculato – apropriação de dinheiro público em proveito próprio – não chegava a ser uma irregularidade. Pelo contrário, era prática institucionalizada. Conta ele:

“Era comum a Coroa arrendar a particulares o direito de cobrar impostos, assim como o direito de explorar produtos monopolizados pelo Estado. O regime de capitanias hereditárias foi um modelo desse esquema, no qual os donatários eram oficiais do rei recompensados com privilégios particulares, incluindo terras e parte da receita fiscal devido ao monarca. O que chamamos de bem público era, então, propriedade do rei”.

Naquela época, lembra o artigo, o que se proibia não era a prática em si, mas o excesso. Não chegava a ser um crime de lesa-majestade mas um delito passível de punição.

Leis variadas para corrupção variada

Punição prevista em lei foi o que não faltou na história do Brasil e, em especial, na história republicana. É o que informa o artigo de José Murilo de Carvalho, prescrito para quem acha que nunca se roubou tanto na história deste País. Resume o historiador:

“No século XIX, os republicanos acusavam o sistema imperial de corrupto e despótico. Em 1930, a Primeira República e seus políticos foram chamados de carcomidos. Getulio Vargas foi derrubado em 1954 sob acusação de ter criado um mar de lama no Catete. A ditadura militar chegou ao fim sob acusações de corrupção, despotismo, desrespeito pela coisa pública”.

Os termos, porém, mudaram ao longo do tempo, razão pela qual os republicanos no final do Império não queriam dizer que D. Pedro II era corrupto. Ao contrário, reconheciam nele uma virtude: a da correção pessoal. Ou o carcomido sistema da República Velha. “Corruptos eram os sistemas, monárquico ou republicano, por serem, na visão dos acusadores, despóticos, oligárquicos, e não promoverem o bem público.

Foi o udenismo de oposição a Vargas, nos anos 1950, quem deu à corrupção a marca da traquinagem individual. Era a falta de moralidade das pessoas a maior fonte de problemas de corrupção, pregaram os udenistas. Corruptos, a partir dali, passaram a ser os indivíduos – os pelintras getulistas e o próprio Getulio. Foram também os indivíduos que serviram de justificativa para o golpe de 1964 e mais tarde inspiraram o grito de guerra de Collor.

(Qualquer semelhança com os neoudenistas que odeiam o lulismo e o petismo não será mera coincidência, pois a linhagem teórica atual é uma versão atualizada do passado. Carvalho provavelmente discorda dessa tese.)

“O Brasil sempre foi um país de leis e de legistas”, escreve José Murilo de Carvalho. Simples: herdeiros, por Portugal, da tradição jurídica romano-germânica, somos um dos maiores produtores de leis. (Não à toa, por aqui a eficácia e a produtividade de um parlamentar são equivocadamente avaliadas pela imprensa com base no número de leis aprovadas.)

O artigo mostra que formular a legislação perfeita foi sempre a aspiração maior dos juristas que compuseram a quase totalidade da elite política durante a formação nacional do século XIX. Leis e mais leis capazes de enquadrar toda a realidade e evitar qualquer brecha por onde possa escapar o transgressor. “Nosso jurista se vê com um demiurgo, organizador do mundo, reformador universal. Feita a lei, o problema para ele está resolvido, não lhe interessando sua execução”, afirma Carvalho.

É uma visão oposta à da tradição da Common Law anglo-saxônica, segundo a qual a lei apenas regula o comportamento costumeiro.

No argumento de José Murilo de Carvalho, nosso cipoal de leis incita à transgressão e elitiza a justiça. “A tentativa de fechar qualquer porta ao potencial transgressor, baseada no pressuposto de que todos são desonestos, acaba tornando impossível a vida do cidadão honesto. A saída que este tem é, naturalmente, buscar meios de fugir ao cerco. Cria-se um círculo vicioso: excesso de lei leva à transgressão, que leva a mais lei, que leva a mais transgressão.”

Para o historiador, se não existe uma tradição de respeito à lei, não será com apelos moralistas que ela será criada.

Não há sistema imune ao caráter humano

Muitos historiadores – e não só eles, infelizmente – veem a corrupção do País como um problema do sistema. Um vício endêmico do Estado brasileiro. Outros, incluindo juristas, enxergam a corrupção brasileira como resultado direto da herança ibérica. De novo, um vício endêmico do Estado, mas fruto da transgressão costumeira entre os portugueses, pródigos em confundir os negócios privados com os bens públicos.

Esses pensadores devem ter lido J.J. Rousseau em excesso – o suíço para quem os homens são bons, mas viram maus por obra e graça da civilização. Ou os historiadores representam o sentimento radiografado por Nelson Rodrigues, o da síndrome de vira-lata que acomete o brasileiro quando olha para o quintal estrangeiro.

A história mostrou que a humanidade, ao contrário do desejo de Rousseau, é má por natureza. E que a corrupção é um dos atributos mais democraticamente disseminados entre povos de todos os tipos e todos os tempos. A começar pela corrupção que interditou o Paraíso aos mortais – como se sabe, a queda responsável pela condição humana pós-Éden se deu como resultado da cumplicidade e do envolvimento entre Adão e Eva.

Desde os relatos do “Velho” e do “Novo Testamento” não faltam histórias de chantagens, subornos, intrigas, espionagens, assassinatos e perfídias em geral – Oriente incluído, fique bem entendido.

Vale da Odisséia de Homero ao Príncipe de Maquiavel e ao fisiologismo espiritual no Renascimento (quando os bispos negociavam absolvições e um lugar no céu ou a queima de mártires com a desenvoltura do toma-lá-dá dos sistemas eleitorais ou partidários contemporâneos). Do problema “endêmico” brasileiro à ação dos lobbies nos EUA, na Rússia e na China.

Dos escândalos na Alemanha e no Japão aos da Argentina e Brasil, não há sistema imune ao caráter humano.

Por essa razão se pode dizer que a humanidade é corrupta por inclinação e oportunidade.

Punição para essa humanidade corrupta e má? Como diz um intelectual amigo da coluna, a punição já existe, e é vivermos no meio uns dos outros.

 

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sexta-feira, 22 de novembro de 2013 Política, Sociedade | 10:36

Histeria ética derruba apoio à democracia. Você concorda?

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Cada vez que ressurge no País uma onda de críticas em defesa da ética, da moral e dos bons costumes na política, o efeito esperado seria um grau maior de maturidade de eleitores e políticos, e daí a consequência natural seria a maior confiança na democracia. Certo? Nem tanto: eis um caso típico no qual a teoria, na prática, é outra.

Pouca gente deu a atenção devida, mas este mês saiu o “Latinobarômetro 2013”. Produzida pelo instituto de pesquisa de maior conceito internacional sobre a América Latina, a pesquisa detecta a cada dois anos o pensamento dos latino-americanos. Em 2013 os pesquisadores foram às ruas entre 31 de maio e 30 de junho, com mais de 20 mil entrevistas em 18 países (bem no meio, portanto, das jornadas de protesto no Brasil).

Alguns dos resultados da pesquisa no Brasil são apreensíveis:

1. O apoio à democracia pelos brasileiros, numa média entre 1995 e 2013, só parece ser maior que na Guatemala: 49% acham que a democracia é preferível a qualquer outra forma de governo.

2. Quase 20% dos brasileiros preferem um governo autoritário.

3. A democracia pode funcionar sem partidos políticos para 34%; mesmo índice para aqueles que acham que o Congresso pode ir às favas que a democracia continuará funcionando.

4. Apenas 26% se dizem satisfeitos ou muito satisfeitos com a democracia. Muito ou algum interesse na política? Nem 30%.

Pesquisa completa dos 18 países (em espanhol ou inglês) aqui

Crise da política

Em primeiro lugar, convém dar aos próprios políticos, aos partidos e aos governos (sobretudo o governo da presidente Dilma Rousseff) a responsabilidade devida pelo incômodo popular. Em outras palavras, é deles a principal culpa pela desconfiança na democracia.

O modesto resultado dos programas destinados a garantir oferta de melhores serviços públicos nas cidades; a dificuldade de atender à pletora de demandas; as sucessivas derrotas na comunicação com a sociedade; uma certa tibieza ao lidar com os aliados mais famintos por verbas e cargos. Eis algumas das facetas dessa responsabilidade.

Tanto o PT quanto o seu principal adversário, o PSDB, revelaram-se nos últimos anos meio ensurdecidos pela histeria ética. Revezaram-se no poder nos últimos 18 anos e, no fundo, como saldo geral, ajudaram a desmobilizar cidadãos. Não à toa parece iminente o surgimento de uma terceira via.

Onde grassa a desconfiança…

Eis o ponto principal dessa desconfiança detectada pelo Latinobarômetro: um país de desconfiados tem a tendência a se despolitizar. Como escreveu o cientista político Fernando Filgueiras, doutor em Ciência Política pelo Iuperj e professor da Universidade Federal de Minas Gerais: onde grassa a desconfiança, o interesse público não prospera como finalidade da política.

Filgueiras faz parte de um grupo de pesquisadores do Centro de Referência do Interesse Público da UFMG e já há algum tempo vem revelando em suas pesquisas que, na esteira dos sucessivos escândalos que têm pautado a agenda nacional, a percepção do contribuinte acaba sobrepondo-se à do cidadão. Isso, segundo ele, enfraquece a capacidade do brasileiro de cobrar responsabilidade e mudança. Acrescento: a população média pode gritar muito na forma, mas soa vazio o conteúdo dessa cobrança.

Os números mostram que a despolitização é um dos males mais perigosos e ameaçadores para o desejo civilizatório de uma nação – daí porque convém cautela diante da histeria coletiva em favor da ética, da moral e dos costumes, amplificada com a transformação em herói do ministro Joaquim Barbosa.

A consequência, como mostra o Latinobarômetro, é o esvaziamento da política como arena de debates e caminho para as soluções que o País espera para seus problemas. Um exemplo é a crítica generalizada ao Congresso. Muitos desconhecem o quanto o eleitor brasileiro exerce seu protesto pelo voto.

Quem acha que a vida de um deputado é fácil no Brasil, observe as taxas de renovação de mandato: é maior do que na maior parte das democracias do mundo.

A coluna recorre novamente à jornalista Maria Cristina Fernandes, que escreveu: “Se a cada legislatura renovam-se os vícios da leva que se foi é porque a indignação provocada (…) permite ao eleitor discernir aquilo que rejeita na política, mas não geram valores nem cultura cívica para a escolha de um representante”.

Ela disse mais: “No caldeirão de defensores de uma moralidade pública estéril interesses espúrios misturam-se ao oportunismo e à ingenuidade que se move pela biruta de aeroporto”.

Onde há corruptos há também corruptores

Eis o ponto: o esbravejo público contra os vícios privados de servidores ignora o papel dos corruptores que avançam não só no ambiente de governos e legislativos, mas no dia a dia da população.

Se há uma cultura que prevalece é aquela segundo a qual uma ilegalidade promove outra. Tomem-se exemplos do jovem motorista que insinua uma gorjeta ao policial que o multa por excesso de velocidade, ou um proprietário de estabelecimento comercial que oferece propina para que o fiscal ignore as frágeis condições de segurança de incêndio do seu negócio.

Ou você desconhece pessoas que já tenham recebido sugestões de médicos, advogados ou analistas para não entregar-lhe recibos? Na prática, quem aceita isso torna-se cúmplice de crimes fiscais.

Corruptores e corruptos às vezes também podem estar unidos na demanda por ética na política. E na denúncia implacável dos malfeitos da democracia. Dá nisto: quase 20% da população acreditando ser melhor um governo autoritário.

A democracia dá trabalho.

 

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