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sexta-feira, 17 de outubro de 2014 Política | 11:43

O ódio ao outro explica o preconceito contra o voto nordestino

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Assim como fez no confronto da Band e tem repetido desde que a polêmica surgiu, o tucano Aécio Neves sublinhou nesta quinta-feira, no debate do SBT, a promessa de ser o candidato da integração nacional: nem para ricos, nem para pobres; se eleito, vai governar para todos, garantiu o candidato do PSDB.

Ao dizer isso, Aécio faz um movimento duplo, cujos resultados ainda não parecem evidentes se eficazes até o dia de votação do segundo turno. Primeiro, tenta desfazer a ideia – sedimentada no mínimo nos últimos 16 anos – de que o PSDB é um partido elitista, mais confortável no papel de representante dos bem nascidos, bem informados e bem ilustrados do que capaz de governar para ricos e pobres, incluídos e excluídos.

(Durante muitos anos o PSDB deu sucessivas mostras de ser o único partido social-democrata do mundo que abomina o Estado e o ativismo estatal, hostiliza o sindicalismo e acha movimento social coisa de gente menor, nada a ver portanto com a social-democracia que encantou a Europa a partir da primeira metade do século XX.)

O segundo movimento de Aécio ao apresentar-se como candidato de todos é tentar corrigir a rota dos rumos tomados pela declaração do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Respondendo a uma pergunta do jornalista Mário Magalhães, FHC disse: “O PT está fincado nos menos informados, que coincide de serem os mais pobres”, referindo-se à distribuição dos votos de PT e PSDB não só no primeiro turno mas também nas eleições de 2010 (Dilma vitoriosa) e 2006 (reeleição de Lula). Até aqui, o PT obteve melhor votação no Norte e no Nordeste; o PSDB, no Sudeste.

Para os petistas, tratou-se de uma nova prova do elitismo e do preconceito tucano. Um insulto aos nordestinos e aos pobres. Para os tucanos, a grita petista depois da declaração foi injusta, deturpada e eleitoreira. E vêm dizendo deste então que é o PT, e não o PSDB, o promotor de uma divisão preconceituosa do eleitorado.

O candidato do PSDB, Aécio Neves, posa ao lado do cantor Raimundo Fagner no Centro de Tradições Nordestinas, em São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Foto: jornal O Dia

O candidato do PSDB, Aécio Neves, posa ao lado do cantor Raimundo Fagner no Centro de Tradições Nordestinas, em São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Foto: Jornal O Dia

Uma pensata sobra a polêmica

De fato, o que o ex-presidente e Fernando Henrique Cardoso disse foi em parte uma verdade sociológica: o mapa dos mais pobres coincide com os menos educados; o dos mais ricos, com os mais educados. Como afirmou depois o cientista político Fernando Limongi, a distribuição regional do voto, a boa votação do PT no Nordeste e a do PSDB no Sudeste, não é senão outra forma de fazer a mesma constatação de outra maneira, porque é no Norte e no Nordeste que residem os mais pobres e os menos educados.

Mas FHC disse uma frase também reveladora do que pensa. Na transcrição completa:

“O PT está fincado nos menos informados, que coincide de ser os mais pobres. Não é porque são pobres que apoiam o PT, é porque são menos informados. Essa caminhada do PT dos centros urbanos para os grotões é um sinal preocupante do ponto de vista do PT porque é um sinal de perda de seiva ele estar apoiado em setores da sociedade que são, sobretudo, menos informados”.

Note o “sinal preocupante” da análise do presidente ao avaliar a migração do eleitorado petista dos centros urbanos (no tempo em que era oposição e o PSDB, governo, aliado com o PFL – hoje DEM). Na sua primeira eleição, FHC teve proporcionalmente mais votos entre os eleitores que não passaram do ensino fundamental. Também teve vitória folgada no Nordeste, no Norte e no Centro-Oeste. Isso se repetiu na reeleição tucana, em 1998.

O PT “migrou para os rincões” a partir de 2006. Na primeira eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (2002), seu voto majoritário ainda foi das pessoas mais escolarizadas (52% do eleitorado com ensino superior e 42% entre os menos instruídos, informava de véspera o instituto Datafolha).

Eis a “perda de seiva” petista apontada de maneira preocupante por Fernando Henrique.

Os tucanos pagam o preço porque a frase do ex-presidente abarca a ideia de que o voto no PT é atribuído a inferioridades culturais e sociais, não existentes nos eleitores de outros partidos – na ótica do tucano, especialmente do PSDB, claro.

Difícil enxergar mentira e equívoco em quem viu na frase uma divisão preconceituosa do eleitorado ou desvio de sentido, como FHC e Aécio Neves os acusam com a virulência sofisticada à moda tucana.

Para certos ditos bem esclarecidos, o eleitor inculto não sabe escolher. Equivocam-se porque não têm a sensibilidade de perceber que o pobre nordestino vota exatamente como o rico sudestino. Seu voto é igualmente racional. Ele vota buscando maximizar seu bem-estar. Em linguagem do povo: vota porque sua vida está melhor (se apoia o candidato governista) ou porque está insatisfeito e busca melhorar sua vida (quando ajuda a apear o partido governista do poder).

Menos informados? Na esmagadora maioria, certamente (noves fora não raro também encontremos no Leblon carioca e no Jardim Europa paulistano hordas imensas de pessoas que falam sem saber do que dizem). Maus eleitores? Um dado para responder: o crescimento econômico do Nordeste nos últimos três anos é de três a quatro pontos percentuais acima do crescimento nacional; o Centro-Oeste teve PIB chinês.

O tema do voto nordestino não foi levantado exclusivamente pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Houve aberrações, como o caso da comunidade médica que pregou o holocausto no Nordeste em campanha contra Dilma Rousseff, defendendo castrações químicas a eleitores do PT. Ao iG, a uma médica do grupo defendeu a página, disse que é usada “só” para desabafos e defendeu “a revolução do agir”.

O ódio aparece nas sombras, se verá a seguir.

Fazemos amor, não fazemos guerra

Doutor em história social pela USP e professor da Unicamp, o historiador Leandro Karnal tem uma análise sobre o ódio do brasileiro que ajuda a explicar certos sentimentos expostos nesse debate sobre preconceito e divisão do eleitorado do País. Ao traçar um histórico de como o brasileiro lida com a questão do ódio, Karnal mostra que temos muita resistência em assumir que fazemos guerras, que aqui há preconceito e racismo e, mais do que isso, que temos dificuldade em reconhecer o mal em nós. Segundo ele, acreditamos nas manifestações de ódio e de ira aparecem sempre no outro, no estrangeiro, no vizinho; nunca em nós.

O que essa característica revela?

Na tese da cordialidade do brasileiro (eternizada pelo historiador Sérgio Buarque de Hollanda nos anos 1930), seríamos o país da generosidade, da civilidade, da hospitalidade gratuita – a terra do coração. Negando a violência, a capacidade de manifestar nosso ódio, nosso racismo, nosso ressentimento social, agiríamos pelo coração, passionalmente. Inclusive quando odiamos.

Sérgio Buarque olhava naquele momento para a Alemanha nazista, onde havia estudado, e o Brasil parecia uma ilha de estabilidade num mundo cercado de ódio. O nó górdio é que isso ocultou passagens memoráveis do ódio, do preconceito e do ressentimento social presentes também no brasileiro: basta ver os desenhos de Debret, a repressão ao quilombo de Palmares (quando Zumbi foi morto e teve seu pênis amarrado de maneira infame à boca), a própria escravidão de três séculos e meio, a repressão a Canudos e a forma como o arraial foi executado, na Guerra do Contestado em pleno século XX, no fato de que o trânsito brasileiro mata um Vietnã inteiro por ano.

Há mais: gays sofrem violência porque… são gays. Mulheres sofrem violência porque… são mulheres. Nordestinos são chamados de paraíbas quase como um elogio carinhoso, ou como símbolos de sinais preocupantes de perda de seiva de um partido.

Voltando a Leandro Karnal, ele menciona um dos grandes preconceitos da história do Brasil: desconhecemos em nossos registros a expressão “guerra civil”. Guerra civil, lembra Karnal, é coisa de gringo; nós vivemos agitações, jamais guerra civil. Mesmo que o Rio Grande do Sul tenha se separado do Brasil por 10 anos. Mesmo que tenhamos em nossa história eventos como a Cabanagem, a Sabinada, a Balaiada, a Revolução de 1932 de São Paulo, luta armada e torturas praticadas pelo Estado durante a ditadura militar instalada em 1964.

A violência, repita-se, é sempre do outro, nunca a nossa. “É sempre um espanto e inexplicável. Só tem sentido no outro, longe de mim”, lembra Leandro Karnal. Ele ironiza: “Por incrível que pareça somos um povo profundamente pacífico cercado por pessoas violentas longe da minha comunidade, sejam elas cariocas, sertanejos, favelados, nordestinos ou quaisquer outros indivíduos que encarnem a violência contra mim, representante da brasilidade”.

Karnal trabalha com o que os acadêmicos chamam de alteridade: o “nós”. Em outras palavras, a valorização do “eu” em contraponto ao “nós”. Revelar capacidade de enxergar o “nós” é sempre mais difícil. Numa entrevista à revista Insight-Inteligência, alguns anos atrás,  eu e os jornalistas Luiz Cesar Faro e Cláudio Fernandez ouvimos dele a análise:

 “Todas as vezes que somos expostos ao outro, à alteridade, reforçamos a xenofobia, o racismo, o etnocentrismo e um certo darwinismo social. Ou seja: estou evoluindo mais do que o meu vizinho, logo estou mais à frente, sou melhor e mais civilizado. Havendo a ideia de que, entre o dia e a noite, há um período de crepúsculo, é nesse período que as sombras assumem formas fantasmagóricas”.

As sombras em questão são o ódio, a perversidade, a violência, a agressividade, os sentimentos racistas, homofóbicos e misóginos. O ódio, diz Leandro Karnal, é uma rara forma de comunicação universal com o outro, uma tentativa de diálogo. Acrescento: uma ação e uma reação, uma demonstração de superioridade ou inferioridade, poder ou conformação, decadência ou inveja, altivez ou resignação, ofensa ou ressentimento, desespero ou anseio de felicidade. “A natureza humana é violenta e, quando ele tem chance, exerce essa violência através do poder, da comparação cultural e de outras formas de exercício de superioridade. Deixamos à tona uma enormidade de sentimentos agressivos, comparativos racistas e assim por diante”, disse.

Não existe Deus sem o diabo

Mas é assim que alimentamos a nossa identidade. “O ódio é um elemento muito poderoso, que confere identidade”. O preconceito é expressão do ódio, repita-se.

Em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago, há uma passagem na qual o demônio se mostra espantado com tantas atrocidades cometidas na história do cristianismo, em nome de Deus Pai. E Deus diz: não posso ser Deus se não houver o diabo.

Não é por outra razão que as igrejas insistem na ação do demônio. Não há deus sem o diabo; certo sem o errado; esquerda sem a direita; prazer sem a dor; esperança sem o medo. E, em última instância, PT e PSDB não conseguem existir sem o outro.

 

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quarta-feira, 13 de agosto de 2014 Jornalismo, Política | 13:13

“Os candidatos”: Dilma Rousseff, Aécio Neves e Eduardo Campos ganham perfis em livro

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São apenas 64 páginas. Sessenta e quatro bem escritas, consistentes e, por vezes, deliciosas páginas nas quais a jornalista Maria Cristina Fernandes perfila os três principais candidatos à Presidência da República. Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) são os personagens do livro digital Os candidatos, que a Companhia das Letras acaba de lançar pelo selo Breve Companhia.

Breves livros digitais têm sido uma estratégia adotada por algumas editoras para trazer ao leitor temas quentes do momento. Curtos na escrita, rápidos na edição. Na Companhia, foi iniciada em junho do ano passado, com Choque de democracia, de Marcos Nobre, sobre as manifestações de junho, e recentemente com A Copa como ela é, de Jamil Chade.

Os candidatos Maria Cristina Fernandes 64 páginas; R$ 9,90 Breve Companhia

Os candidatos
Maria Cristina Fernandes
64 páginas; R$ 9,90                     Breve Companhia (E-book)

Em Os candidatos, a política é o pano de fundo, o horizonte, a onipresença dos textos. Mas a observação e a análise das vidas de cada personagem são o esteio da autora para produzi-los, incluindo a formação política e literária dos presidenciáveis. O bom jornalismo, sua matéria-prima. Somas essenciais para conhecer um pouco mais de quem comandará os rumos do País nos próximos quatro anos.

Perfis pertencem a uma família jornalística adotada em larga escala, consumida com grande sucesso mas não tão fácil de produzir quanto parece à primeira vista. A revista New Yorker praticamente a inventou, seja no ramo dos perfis de anônimos, seja dos célebres e poderosos. Da divertida, irônica e casta New Yorker do fundador Harold Ross ao modelo heterogêneo adotado por David Remnick, passando pela picante e insolente gestão de Tina Brown, a revista ajudou a celebrizar o valor da reportagem com um quê literário de alta qualidade.

Os perfis de Maria Cristina Fernandes em Os candidatos não têm a vantagem que a New Yorker costuma ter – proximidade e longo convívio com o personagem, algo que João Moreira Salles teve no seu celebrado perfil de Fernando Henrique Cardoso, quando viajou durante onze dias com o ex-presidente pelos Estados Unidos e Europa para escrever “O andarilho” na revista Piauí.

Repórter e analista política

Mas na paisagem um tanto monótona da imprensa brasileira, Maria Cristina Fernandes costuma iluminar o horizonte com incrível competência e precisão.

Editora de Política do Valor, ela assina semanalmente uma coluna de opinião e análise, onde revela algumas de suas melhores qualidades: a profundidade sem os vícios do academicismo; a elegância sem empáfia estilística; a opinião e a análise consistentes, sem os achismos correntes dos colunistas públicos que infestam o jornalismo brasileiro; a sábia abertura para a dúvida, mesmo diante das hiperbólicas certezas a que costumam aderir os colunistas nativos; a honestidade intelectual que, entre a informação e suas opiniões, a faz ficar com a primeira.

Maria Cristina é também uma arguta entrevistadora, como revela em suas participações no programa Roda Viva ou nas reportagens que assina – é o caso dos perfis de Os candidatos. Não daquele tipo de entrevistador que estamos acostumados a ver na mídia brasileira: mais interessado em exibir-se em perguntas de duração eterna e cansativa, ou aquele que segue disparando perguntas, uma atrás da outra, tão atento à próxima e a si que chega a não escutar o que está sendo dito, perdendo assim preciosas chances de ir mais fundo e além.

Maria Cristina Fernandes: elegância sem empáfia

A jornalista Maria Cristina Fernandes, autora de “Os candidatos”: elegância sem empáfia

Essa conjugação rara de repórter e analista transforma Os candidatos numa leitura importante para este período eleitoral. Mostra, por exemplo, como Aécio Neves, conciliador por natureza, muda sua estratégia e parte para a briga. Como Dilma Rousseff, contumaz gestora, arregaça as mangas para se provar uma articuladora política. E como Eduardo Campos tenta projetar em âmbito nacional a imagem de renovação que soube cultivar como governador de Pernambuco.

Até aí, dito assim, nestes termos, nada demais.  Mas composto no texto de Maria Cristina, vêm as nuances, os entreatos, as trivialidades e mesmo os grandes gestos que fazem da política algo tão apaixonante e necessário – e também tão odioso aos olhos do cidadão comum. (Impossível não recordar uma máxima de um mestre do jornalismo político, Janio de Freitas, segundo a qual, no jornalismo político, notícia é tudo aquilo que alguém quer dizer e outro quer omitir.)

Quente e frio, mas nunca morno

Os perfis de Os candidatos não são frívolos, nem grandiloquentes. Não põem o dedo em riste sobre o personagem em questão, nem são puxa-saco. São simultaneamente quentes e frios, o que não quer dizer que sejam mornos. Esse estilo permite à autora ser honesta intelectualmente, elogiosa e crítica ao mesmo tempo.

A Dilma Rousseff, por exemplo, refere-se como uma presidente que pecou pelo excesso de coragem, mas também pelo medo de enfrentar seus erros ao tentar romper o pacto conservador de mudança estabelecido pelo antecessor e criador Luiz Inácio Lula da Silva. E radiografa sua dificuldade de ampliar o diálogo do seu governo “para além dos muros de sua cidadela”.

De Aécio, não se esquiva do assunto das drogas que cercam o candidato e o provoca pessoalmente sobre isso. “É do jogo, tem lendas para todos os gostos, não podia imaginar que chegaria aonde cheguei sem carregar várias delas”, afirma-lhe o tucano.

Sobre Eduardo Campos, Maria Cristina radiografa dois eixos sob conflito de sua candidatura: o Estado gerencial e a herança de esquerda. Dos três, Dilma foi a única que não lhe deu acesso (carência compensada pela clássica prática de ouvir o entorno do personagem).

Da tragédia grega à esbórnia carioca

Como uma excelente leitora que é, Maria Cristina sabe o quão importante é saber os livros de formação de qualquer personagem – e o que eles dizem desses livros nos informa muito sobre o que são e o que pensam. Os candidatos, neste quesito, traz surpresas curiosíssimas.

A principal delas é a eleição, por Aécio, de Noites tropicais, de Nelson Motta, como sua principal leitura, como obra literária que ajuda a entender sua vida. Publicado em 2000, o livro do produtor e crítico musical fala dos festivais de rock em Saquarema, onde Aécio costumava pegar onda no fim dos anos 1970, e das primeiras discotecas. “É o Rio no qual vivi”, define Aécio para Maria Cristina, que escreve:

“A ditadura tinha vencido e virado a página do rock’n’roll e do idealismo hippie. A música agora era feita para dançar em lugares como o Dancin’Days, na Gávea, que daria nome à novela de Sonia Braga, e o Noite Cariocas, no morro da Urca. É um indiscreto relato em primeira pessoa de um meio artístico movido a ‘Música Popular Brasileira’ e a drogas”.

Eduardo Campos cita Infância e Memórias do Cárcere, ambos de Graciliano Ramos. O filho do escritor Maximiano Campos – amigo de intelectuais e artistas de Pernambuco – conviveu também com escritores, mas a praia sempre foi a política também na literatura. “Gostava do ambiente, do debate sobre literatura, arte e música, mas eu não fazia poesia, não escrevia conto. Fui dar palpite quando comecei a ler Celso Furtado e Veias abertas da América Latina [Eduardo Galeano]. Era aquilo que eu queria”, diz o candidato do PSB.

E a empedernida presidente? Ao frequentar um curso de tragédia em 1993, conta o livro, Dilma Rousseff ficou fascinada pela epopeia da conquista do poder de Filoctetes, de Sófocles. Curiosidade: é uma das poucas tragédias gregas sem personagens mulheres.

Conta o livro:

“Melhor arqueiro da expedição rumo a Troia, Filoctetes foi deixado em ilha deserta depois de ser mordido por uma serpente. A ferida no pé e os gritos de dor o relegaram ao abandono e ao isolamento. Dez anos depois, Ulisses, sem conseguir vencer os troianos, manda Neoptólemo, filho de seu maior rival, Aquiles, persuadi-lo a qualquer preço a voltar ao navio. O jovem resiste a mentir para convencer Filoctetes, que, ferido no orgulho, se mantinha altivo na ilha sem querer curvar sua honra àqueles que o haviam desprezado. A honestidade de Neoptólemo o cativa, ele se reintegra à expedição, é curado e volta de Troia como herói.”

Uma amiga de Dilma conta à autora do fascínio da presidente pela oposição entre a ética grega e a judaico-cristã. Ulisses não tinha medo ou culpa de não fazer o bem. Se Filoctetes incomodava, que fosse deixado numa ilha deserta nem que, depois, fosse preciso resgatá-lo. A culpa, porém, não nos deixa agir assim, mas o exercício do poder exige que você a toureie.

 

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