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quarta-feira, 29 de outubro de 2014 Literatura | 11:55

Quase romance recria sete quase encontros com a morte

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Um quarto de hospital pequeno, escuro e frio. Não se sabe quem é o doente nem qual a doença em questão. É assim, in media res, que tem início O oitavo selo, de Heloisa Seixas, lançado recentemente pela Cosac Naify.

Em O oitavo selo, ela conta sobre as situações entre a vida e a morte pelas quais passou o jornalista e escritor Ruy Castro, com quem é casada. Misturando ficção e não-ficção, o resultado é o que a própria autora chamou de “quase romance”. São episódios em que o escritor teve de encarar, direta ou indiretamente, a morte.

O oitavo selo Heloisa Seixas Cosac Naify 192 páginas, R$ 39,90

O oitavo selo
Heloisa Seixas
Cosac Naify
192 páginas, R$ 39,90

Heloisa Seixas é autora de livros de ficção, entre romances e contos, como A porta (Record, 1996) e Pérolas absolutas (Record, 2003), ambos finalistas do prêmio Jabuti, uma das principais premiações literárias no Brasil. É autora também de O lugar escuro (Objetiva, 2007), livro de não-ficção que trata do mal de Alzheimer de sua mãe.

Os “sete selos” de seu novo livro são uma referência a uma das principais obras do cineasta sueco Ingmar Bergman, O sétimo selo. No filme, o personagem principal tem um encontro com a Morte, que anuncia o fim próximo. A fim de ganhar tempo, o personagem propõe um jogo de xadrez, que vai se estendendo ao longo do filme.

Além de conversas com o cinema, a autora buscou referências também na música e na própria literatura. Uma delas é o livro das Mil e uma noites, em que Sherazade conta histórias para o sultão, que matava as mulheres com quem se casava logo após as núpcias. Contar histórias, portanto, foi a forma que Sherazade encontrou para enganar a morte.

“Esses fantasmas permeiam o livro todo e a vida de todos nós: o medo da morte”, explica a escritora. Alguns dos confrontos com a morte contados no livro são também momentos de intensa produção literária para Ruy Castro. “É como se ter um livro incompleto fosse uma ‘desculpa’ para não se deixar morrer”, conta.

A gestação do livro, desde a ideia até a finalização, durou cerca de um ano e meio. A seguir, Heloisa Seixas fala sobre esse processo e o resultado final.

***

De que forma ficção e realidade se misturam no texto?
Não adianta procurar as fronteiras. O limite entre ficção e realidade é incerto, e eu quis que fosse assim. Isso me deu total liberdade, porque não é fácil você escrever sobre o passado de uma pessoa tão íntima sua, sendo um passado do qual você não fez parte. E isso se aplica aos três primeiros capítulos.

Em que momento você decidiu escrever o livro?
Eu sempre admirei a energia do Ruy (Castro), a capacidade dele de se jogar no trabalho e de dar a volta por cima das armadilhas do destino. Intimamente, eu o comparava à Sherazade, a personagem das Mil e uma noites que conta histórias para não morrer. O Ruy também me parecia assim: sempre com um livro por terminar. Enfim, eu já tinha essa ideia no fundo da cabeça quando, em uma conversa com a escritora Guiomar de Grammont (durante a Flip de 2012), ela começou a falar em “mitos eróticos” e citou Sherazade. Aí a ideia apareceu inteira na minha cabeça. Logo veio a constatação de que Ruy tivera sete confrontos com a morte e, em consequência a ideia de dividir o livro em “selos”.

A escritora Heloisa Seixas. Foto: Bruno Veiga

A escritora Heloisa Seixas.
Foto: Bruno Veiga

Ao longo do livro, há diversas menções ao cinema (a começar pelo título), à música e à própria literatura. Fale um pouco sobre essas fontes e como elas inspiraram o trabalho.
Assim que eu percebi que os confrontos eram sete, logo me veio à mente a lembrança do filme O sétimo selo, de Bergman, justamente por ser a história de um homem que tenta negociar com a Morte, jogando xadrez com ela. Isso também se encaixava na história do Ruy. As demais citações vieram naturalmente, já que Ruy (e eu também) vive cercado de filmes, livros, música.

Os títulos dados aos selos fazem um passeio pelo corpo humano. Comente essa escolha.
As duas ideias surgiram para mim de forma simultânea. Os livros são assim, eles se escrevem, cada um de uma forma peculiar. Assim que eu percebi que eram sete confrontos, e que chamei esses confrontos com a morte de “selos”, ou marcas, eu percebi que cada um se referia a um elemento do corpo. Não havia repetições, eram elementos diferentes: sangue, nariz, fígado, língua, coração, sexo e cérebro. De repente, tudo se encaixou.

Escrever sobre o sofrimento do marido pressupõe revivê-lo. Quais foram as dificuldades nessa revisita à dor real para recriá-la de forma quase ficcional?
Foi difícil não só pelo sofrimento envolvido, mas também pelas cenas de sexo e sedução, pertencentes a um passado do qual eu não participei. Mas a partir do momento em que você se deixa levar pela ficção, deixa a mão correr livremente, aí já não é mais do seu marido ou de qualquer pessoa de carne e osso que você está falando. Vira um personagem mesmo. E você fica livre para escrever o que quiser, sem medo.

No final do livro, existe menção a um período que foi esquecido, o que faz lembrar o seu livro O lugar escuro. Qual a relação entre este e O oitavo selo?
Os fatos narrados em O lugar escuro (aí, sim, todos reais) aconteceram simultaneamente aos últimos “selos” do Ruy. Foi muito difícil para mim, claro. Eu, que me acho uma pessoa frágil, nada corajosa, tive de enfrentar tudo ao mesmo tempo. Mas foi um aprendizado, para mim. E para o Ruy também, claro.

Enquanto o prólogo começa já em um ambiente de hospital, algumas explicações vêm somente no final. Como foi a construção da estrutura do livro?
Pensei nos confrontos, pensei nos selos. E comecei a escrever, sempre misturando real e ficção. Escrevi na ordem em que aconteceram, na ordem em que estão no livro. O prólogo é extraído de um dos selos, o que ficará claro quando chegar a hora. Uma vez criada a estrutura inicial, não houve mudanças.

Em algumas partes do livro, o texto é interrompido para dar lugar a outro. A mulher e o homem deixam Heloisa e Ruy falarem. Como foi o processo de inserir essas falas no livro?
Essa ideia também surgiu naturalmente. Eu fiz algumas entrevistas com o Ruy, sobre acontecimentos da infância e da juventude dele, da época em que eu não o conhecia. Para usar ou não no livro. Aí veio a ideia de misturar essas vozes. Mas quem pensa que aquelas respostas, as vozes do Ruy e da Heloisa, são o real, pode se enganar. Há tintas ficcionais também nessas respostas.

Como foi trabalhar temas difíceis, como drogas e o alcoolismo?
São assuntos fáceis para mim, já que nunca enfrentei nada parecido. O mais difícil foi falar sobre o medo, aquele lobo que estava sempre à espreita, o tempo todo, durante a narrativa.

O homem de O oitavo selo escreve por necessidade. Você também sente essa necessidade de escrever?
Sem dúvida. Quando acabei de escrever O oitavo selo senti um alívio tão grande, uma tal leveza, que fiquei pensando: eu também escrevo para não pensar na morte. Donde, eu também sou Sherazade.

Você tem novos projetos em andamento?
Muitos! Ainda estou às voltas com a minha peça O lugar escuro (que escrevi a partir do livro) e que está em sua segunda temporada, agora viajando. Vamos nos próximos dias 31 de outubro, e 1 e 2 de novembro, fazer apresentações em Fortaleza, na Caixa Cultural. No dia 24 de novembro, haverá uma leitura dramática de uma nova peça que escrevi, É proibido envelhecer, no Centro Cultural Midrash, no Rio de Janeiro. Em dezembro, ocorre o lançamento do livro infantil A grande Pequena Notável, que fiz em parceria com minha filha, Julia Romeu (uma biografia da Carmen Miranda para crianças). E em janeiro estreia um novo musical que escrevemos, também eu e a Julia, chamado Bilac vê estrelas, com músicas do Nei Lopes e direção do João Fonseca.

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