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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015 Literatura | 12:17

Raul Pompeia inaugura série de autores brasileiros em coleção de clássicos da Zahar

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Após publicar clássicos internacionais como Sherlock HolmesO mágico de Oz  e O conde de Monte Cristo, a editora Zahar traz a nova edição de O Ateneu, de Raul Pompeia, primeiro título brasileiro a integrar a coleção Clássicos Zahar. Esta edição traz as 44 ilustrações originais do autor, com apresentação de Ivan Marques e notas de Aluizio Leite.

O Ateneu Raul Pompeia Editora Zahar 264 páginas R$ 39,90; R$ 19,90 (e-book)

O Ateneu
Raul Pompeia
Editora Zahar
264 páginas
R$ 39,90; R$ 19,90 (e-book)

Publicado originalmente em folhetim na Gazeta de NotíciasO Ateneu foi escrito entre janeiro e março de 1888. O livro traz a história de Sérgio, menino de onze anos pertencente a uma família bem posicionada na aristocracia do Rio de Janeiro do fim do século XIX, e seu ingresso no colégio interno Ateneu, coincidindo com o período de transição da infância à adolescência.

Trata-se de um livro de difícil classificação, visto que possui aspectos do naturalismo fundidos ao memorialismo e a impressões subjetivas. “O Ateneu é de fato inclassificável, não só porque não se filiou a nenhuma escola, mas também por ter escapado da escravidão dos gêneros, transitando livremente entre a ficção, a poesia e o ensaio”, afirma Ivan Marques na apresentação desta edição.

Fica clara a inserção do ensaio ao longo do livro nas palestras de Dr. Cláudio, professor do Ateneu que ministra conferências semanais aos alunos, as quais o crítico Lêdo Ivo chama de “ilhas ensaísticas”. Na boca desse personagem, Raul Pompeia tem a oportunidade de expor reflexões sobre temas como arte e o sistema de ensino.

Os críticos levantam o possível caráter autobiográfico da obra, sendo que Raul Pompeia mudou-se ainda criança para o Rio de Janeiro e, aos dez anos de idade, ingressou como interno no Colégio Abílio, dirigido pelo barão de Macaúbas, que seria inspiração para o diretor do Ateneu, Aristarco. No livro, este é apresentado em forma próxima à divina, podendo assumir desde o aspecto de um pai amoroso até atingir “a fúria tonante de Júpiter-diretor”.

O Ateneu, narrado pelo adulto que recorda os tempos de criança, não pode ser considerado um exemplo típico de memorialismo. Silviano Santiago, em seu livro Uma literatura nos trópicos, atenta para a peculiar separação entre o Sérgio-narrador e aquele que atua, o Sérgio-personagem. Essa distinção fica nítida com o estilo sofisticado e a linguagem rebuscada que o narrador escolhe, improváveis a uma criança de apenas onze anos.

Alfredo Bosi, no livro Céu, inferno, fala na existência de um “juiz-narrador” em O Ateneu, que faz uma crítica feroz do colégio e de seus membros, destoando do tímido e amedrontado Sérgio enquanto criança e aluno.

Silviano Santiago afirma que, após as primeiras páginas, “o livro deixa de ser de memórias, introspectivo, para se apresentar tecnicamente como um agressivo romance em que o narrador se esquece de si para analisar imaginariamente os sentimentos e as emoções do outro”.

Dentro dos muros da escola

“Ateneu era o grande colégio da época. Afamado por um sistema de nutrido reclame”, informa o narrador logo no início do livro. Os pais de famílias mais abastadas enviam seus filhos ao internato mais por uma questão de prestígio do que de qualidade de ensino.

A experiência escolar de Sérgio antes do Ateneu resume-se a alguns meses em uma escola familiar não muito rígida: “Entrava às nove horas, timidamente, ignorando as lições com a maior regularidade, e bocejava até as duas”.

O primeiro contato de Sérgio com o Ateneu é em uma festa de encerramento das atividades escolares, em que são apresentados contos, discursos e poesias declamadas em diversas línguas. A segunda visita é durante a festa da educação física, em que são exibidas demonstrações de força e acrobacias.

Dessa forma, as duas primeiras impressões são de admiração pelas exibições dos alunos, a primeira de ordem intelectual e a segunda, física. Esses primeiros contatos servem para que a criança situe o colégio próximo da perfeição. “É fácil conceber a atração que me chamava para aquele mundo tão altamente interessante, no conceito das minhas impressões”, diz o personagem.

Dentro do colégio, Sérgio percebe que nem todos os dias são brilhantes no Ateneu: “Desiludi-me dos bastidores da gloriosa parada, vendo-a pelo avesso. Nem todos os dias do militarismo enfeitam-se com a animação dos assaltos e das voltas triunfais”.

No internato, vale a “lei do mais forte”. Os novatos são agredidos “fraternalmente” pelos veteranos.  Num colégio a que somente meninos têm acesso, com professores homens e um diretor que se diz o exemplo paterno para seus alunos, as aparições femininas são raras e resumem-se praticamente à mulher do diretor, que encarna a figura materna, e à criada da casa, erotizada no livro.

Com a quase ausência de mulheres, os meninos são divididos entre fracos e fortes. “Nada de protetor” é o conselho que o mais velho da turma dá a Sérgio. Ter um protetor equivale a ocupar a posição de “mais frágil”, submisso a alguém superior.

O diretor fica dividido entre expulsar ou não os maus alunos. É necessário manter intactas as bases morais da instituição, grande propaganda do Ateneu. Por outro lado, expulsões significam menos alunos pagando mensalidades, o que poderia levar à falência. Assim, alguns delitos acabam sendo tolerados. Outros, como as manifestações homossexuais, são punidos com a exposição pública dos envolvidos. “A imoralidade entrou nesta casa”, brada Aristarco em um desses casos, em que um romance entre dois alunos é descoberto. O casal é humilhado diante de todos os outros estudantes.

O livro das notas é “a mais terrível das instituições do Ateneu”. Lido em público, traz elogios a alguns alunos, mas também as últimas ocorrências e anotações sobre os alunos cujo desempenho está em decadência. As reclamações (e as penas subsequentes) variam, entre outros fatores, de acordo com a situação social da família do aluno.

A primeira punição é o julgamento dos demais, que Bosi chama de “fenomenologia do olhar”. O medo dos olhares dos outros aparece nas primeiras cenas de convivência escolar, em que Sérgio é convidado a ir à frente da sala e enfrenta um momento de pânico.

Narrativa de destruições

O livro faz um recorte da vida de Sérgio, relatando o ingresso no internato, acompanhado do fim da infância. Ao apresentar-se para a matrícula, o diretor pede que o menino corte seus cabelos, compridos e em cachos. As mechas são símbolo da infância sendo retirada. A mulher do diretor aconselha que o menino ofereça-as à mãe: “É a infância que ali fica, nos cabelos louros”.

A frase de abertura do livro, dita pelo pai ao filho diante do colégio, também alude ao rompimento com a infância: “Vais encontrar o mundo. Coragem para a luta”. O que se segue é o choque de trocar o ambiente familiar por um internato. “Não havia mais a mão querida para acalentar-me o primeiro sono”, reclama Sérgio.

As recordações infantis dialogam com a história do Brasil. O livro foi escrito em 1888, próximo do fim do período imperial. Alguns traços da campanha republicana podem ser observados no livro. Na festa da educação física, o filho do diretor recusa-se a beijar a mão da princesa Isabel, presente à cerimônia. A manifestação republicana do filho causa a vergonha e a reprovação de Aristarco.

O colégio, assim como o período imperial, caminha para o fim. No momento da matrícula de Sérgio, este nota uma “pontinha de aborrecimento” no semblante do diretor e supõe se tratar de uma decepção relacionada às finanças: “O número dos estudantes novos não compensando o número dos perdidos, as novas entradas não contrabalançando as despesas do fim do ano”.

Ao longo das páginas, vai sendo exposta a decadência da instituição, representativa de uma sociedade que seria repensada e reorganizada com a República. A glória do colégio, bem como a do período imperial, é mostrada em seu último suspiro. Aristarco, que tem um busto fundido em sua homenagem, vê sua soberania se esvaindo, assim como os últimos representantes do Império no Brasil.

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domingo, 6 de abril de 2014 Educação, História, Política | 19:01

1964: crescimento e repressão andaram juntos nas universidades brasileiras

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Eis um dos paradoxos da ditadura militar brasileira: ao mesmo tempo em que  ocupavam o epicentro da resistência ao regime iniciado em 1964, as universidades tiveram um papel central no projeto dos governos que muitos estudantes e acadêmicos ajudaram a combater. Se a mão que apedreja é a mesma que afaga, isso parece ter sido levado ao paroxismo no caso da relação entre os militares e as universidades durante a ditadura.

Arte-Universidades_RM02.inddCom seis anos de pesquisa em arquivos brasileiros e norte-americanos, cerca de 50 entrevistas e um texto repleto de informações, o historiador Rodrigo Patto Sá Motta, da Universidade Federal Fluminense (UFF), mostra essa contradição no livro As universidades e o regime militar, lançado pela Zahar em março.

O livro integra o conjunto de obras que a Zahar publicou nos últimos três meses no cinquentenário do golpe, sob o selo 1964, cinquenta anos depois. Da série fazem parte Ditadura e democracia no Brasil, de Daniel Aarão Reis (leia pensata anterior), e A ditadura que mudou o Brasil, coletânea de artigos sob organização dos próprios Aarão Reis e Rodrigo Patto Sá Motta, ao lado de Marcelo Ridenti.

A contradição exposta nas universidades é a faceta acadêmica ao que, na economia, convencionou-se chamar de modernização autoritária, ao se lembrar que governos militares foram duros e conservadores na política, liberais e modernizadores na economia.

Um regime destrutivo e construtivo ao mesmo tempo

A ambiguidade típica daquele regime se manifestou plenamente na política universitária, explica o autor: destrutivo e construtivo ao mesmo tempo; repressivo e modernizador.

O regime, afinal, prendeu e demitiu professores opositores ao regime ou simplesmente considerados ideologicamente suspeitos.

Afastou líderes estudantis e líderes docentes acusados de cumplicidade com a “subversão estudantil”.

Torturou os mais “perigosos”, numa limpeza ideológica afeita ao bloqueio da livre circulação de ideias e de textos.

Criou assessorias de segurança e informação dentro dos campi, que abriam caminho para triagens nas contratações, concessões de bolsa, autorizações para estágios no exterior.

Impôs “cassação branca” a muitos professores que se opunham àquele estado de coisas, como atrasos infindáveis de salario e outras pequenas perversidades que transformavam a vida de muitos acadêmicos num inferno.

Do outro lado da moeda, porém, esteve a política de investimentos na formação local de mão de obra e em pesquisa autônoma. Os governos militares permitiram um impulso modernizante nas instituições de ensino superior, adaptando-as ao modelo dos Estados Unidos: organização departamental, professores em regime de trabalho de tempo integral, investimento em cursos de pós-graduação, ciclos básicos por áreas de saber, entre outras medidas.

Se é verdade que Deus precisa do Diabo para existir, se não há inferno sem a imagem do seu avesso, o paraíso, os dois lados da moeda, descritos acima, também não existiriam um sem o outro.

“Quando assumiram o poder (…)”, explica o autor, “os militares e seus aliados civis encontraram uma situação conturbada nos meios universitários”. O movimento estudantil se tornara “aguerrido e bem-estruturado”; as universidades haviam se tornado centros importantes da mobilização de esquerda; os estudantes constituíam forte grupo de pressão política.

Ele continua: “Para além do fato de as universidades reunirem inimigos do novo regime, ‘credenciando-se’, portanto, como alvos privilegiados das primeiras operações de expurgo, elas ocupavam lugar estratégico na formação das elites intelectuais e políticas do país, e, secundariamente, dos dirigentes econômicos”.

Primeiro, para fazer a economia crescer rapidamente as universidades eram indispensáveis. Segundo, investir nas universidades era parte de uma estratégia mas também resposta às crescentes demandas da juventude nos anos 60. Os documentos a que o autor teve acesso mostram um incrível temor do regime diante do movimento estudantil.

“Americanização parcial”

Havia dois caminhos a seguir, defendidos por diferentes setores do regime: uma linha liberal defendia a redução do papel do Estado, aumento do papel da iniciativa privada e do mercado, o que implicaria na cobrança de taxa dos alunos, numa “americanização”.

Outra linha pregava um modelo próximo da tradição brasileira e europeia, de universidades ligadas ao Estado, sem cobrar de alunos e sem muita abertura ao mercado. Prevaleceu o segundo modelo, em função do medo que os estudantes provocavam nos militares e da própria linhagem nacionalista de muitos generais.

O livro mostra em detalhes o processo de “americanização” parcial das universidades brasileiras. “Tratava-se de forjar uma mística, uma ideologia que competisse com os projetos revolucionários, principalmente o marxismo”, escreve Motta. “Daí o papel central conferida pelas agências do governo americano – com destaque na Usaid [United States Agency for International Development], mas também em instituições privadas, como as fundações Ford e Rockefeller – à modernização das instituições educacionais brasileiras”.

Espiões

Um dos achados de Rodrigo Patto Sá Motta são os documentos da máquina de vigilância política. A partir de 1970, o governo criou órgãos de informação dentro das universidades, as Assessorias Especiais de Segurança e Informações (Aesis ou ASIs). Eram um braço do Sistema Nacional de Informações (Sisni), uma espécie de correia de transmissão. De um lado faziam chegar determinações e pressões políticas vindas de escalões superiores; de outro, vigiavam a comunidade universitária e os próprios dirigentes, nem sempre fiéis ao regime.

Não eram raros espiões nos campi. “Às vezes os professores eram avisados pelos estudantes quando aparecia alguém novo na turma, com tipo suspeito”, conta o autor. O porte físico, o corte de cabelo, a idade e as roupas eram marcas diferenciadoras dos agentes infiltrados. Em outros casos, eram estudantes recrutados como informantes.

No MEC, a Divisão de Segurança e Informação (DSI/MEC) não tinha poder formal para censurar publicações ou eventos, mas fez pressões indiretas para isso. Um exemplo: em abril de 1971, a DSI enviou informe a todas as Aesis com uma análise sobre as publicações de algumas editoras brasileiras. O texto acusava as editoras Herder, Vozes, Civilização Brasileira, Paz e Terra e Zahar de publicar obras marxistas e filocomunistas. O relatório exibia uma extensa lista de livros considerados inconvenientes.

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Relatório acusando editoras brasileiras de ação ideológica e antidemocrática, encaminhado às universidades federais pela DSI do MEC

Relatório acusando editoras de ação ideológica, encaminhado às universidades pela DSI do MEC

De volta às contradições

As reformas implantadas pelo regime militar mudaram a face do sistema de ensino superior. O livro de Rodrigo Patto Sá Motta dá luz e forma a essa mudança: “Antes de 1964 não havia universidades na plena acepção do termo, apenas agregados de faculdades praticamente autônomas, com reitorias que desempenhavam papel decorativo”. Com o “advento do projeto modernizador-autoritário”, escreve ele, “as então modestas universidades receberam recursos e equipamentos que as tornaram instituições mais relevantes para o país”.

Antes que as gralhas se empolguem em demasia com essa conclusão, convém sublinhar outras conclusões do autor:

1. O projeto militar resultou da apropriação dos debates e demandas produzidos por professores e estudantes dos anos 1960

2. Os militares não tinham um projeto para o ensino superior; foram civis os formuladores dos planos

3. Um dos principais objetivos desse projeto foi aplacar o descontentamento de intelectuais e acadêmicos e, sobretudo, o ativismo radical dos estudantes;

4. As reformas implantadas pelo regime militar não corresponderam plenamente aos sonhos de nenhum dos grupos envolvidos

5. A faceta violenta do regime militar deixou marcas nas instituições e levou grande prejuízo e sofrimento às pessoas atingidas: carreiras foram ceifadas ou truncadas; centenas de estudantes tiveram sua vida escolar abruptamente interrompida; houve tortura e morte.

 

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História, Sociedade | 14:02

Golpe militar ou civil-militar?

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É do historiador Daniel Aarão Reis uma das melhores contribuições dentro da notável leva de lançamentos e reedições do livros que buscam contar, relembrar e explicar a ditadura instalada no golpe de 1964. Pelo menos 15 livros lançados neste aniversário de 50 anos do golpe ganharam destaque no País, oferecendo um amplo e rico painel de análises sobre o tema, sobretudo para as novas gerações (inclui-se na lista, obviamente, a monumental tetralogia de Elio Gaspari, já tratada aqui).

DitaduraEDemocraciaNoBrasilProfessor de história contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF), Aarão Reis se destaca entre esses lançamentos por uma abordagem que muitas vezes se costuma deixar em segundo plano: o papel da sociedade civil no regime instaurado em 1964. Em Ditadura e democracia no Brasil, lançado pela Zahar, o professor mostra como o governo militar e a sociedade se amalgamavam muito mais do que os opositores à ditadura gostariam.

Para ele, falar em “ditadura militar” é um equívoco que esconde as bases sociais do golpe, erro fruto de um hábito adquirido com o passar dos anos, uma certa preguiça intelectual e uma indesejável memória seletiva. “Tendeu a predominar a versão”, escreve Aarão Reis, “de que a sociedade brasileira apenas suportara a ditadura, como alguém que tolera condições ruins  que se tornaram de algum modo inevitáveis”.

Lorota. A história oficial das lutas contra a ditadura, diz ele, acabou ocultando as complexas e profundas relações entre o regime de 1964 e a sociedade brasileira. Antes e depois, o apoio de muitos setores da sociedade foi claro e forte o suficiente para sustentar a ditadura não apenas pela força bruta. Escreve:

“Como já ocorreu muitas vezes na história, ao virar as costas para o passado ditatorial e empreender a construção de uma alternativa, grande parte da sociedade brasileira preferiu demonizar a ditadura vigente nos anos anteriores e celebrar novos valores – democráticos. Tais valores, aliás, segundo diferentes, mas convergentes, versões, nunca teriam sido revogados da consciência nacional. O país fora, pura e simplesmente, subjugado e reprimido por um regime ditatorial denunciado agora como uma espécie de força estranha. Como uma chapa de metal pesado, caída sobre vontades e pensamentos que aspiravam à liberdade.”

Uma multidão de civis em apoio ao golpe

As incontáveis reportagens sobre o assunto durante os últimos meses mostram, no entanto, que essa zona de sombra criticada pelo historiador começou a ser removida. Lembre-se, por exemplo, da série de marchas que mobilizaram milhões de pessoas, de todas as classes sociais, contra o governo João Goulart: a primeira Marcha da Família com Deus e pela Liberdade ocorreu em São Paulo, em 19 de março daquele ano, e reuniu 500 mil pessoas. Foi convocada em reação ao Comício pelas Reformas ocorrido uma semana antes, com 350 mil pessoas.

Primeira página do Jornal do Brasil noticia a primeira Marcha da Família com Deus e pela Liberdade, em São Paulo

Primeira página do JB noticia a primeira Marcha da Família com Deus e pela Liberdade, em São Paulo

Depois houve a Marcha da Vitória, para comemorar o triunfo do golpe, no Rio de Janeiro, em 2 de abril. Esteve ali, no mínimo, a mesma quantidade de pessoas que em São Paulo. A ela sucederam-se marchas  nas capitais dos estados e em cidades menores. Até setembro de 1964, marchou-se como nunca no País. Sem descanso e com fervor.

Estiveram com essas marchas a maioria dos partidos, líderes empresariais, políticos e religiosos, entidades como a OAB e a CNBB, e a direita de todo tipo. A favor das reformas de Jango, uma parte considerável dos sindicatos de trabalhadores urbanos e rurais, alguns partidos, as esquerdas.

Para Aarão Reis, pode-se ficar em dúvida quem tinha a maioria, mas algo é inegável: impossível não enxergar as multidões de civis que apoiaram a deposição de Jango e a instauração da ditadura.

A frente de apoio ao golpe, recorde-se, era heterogênea, mas nela se abrigavam nomes que mais tarde foram para a oposição aos militares: Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e… sim, Ulysses Guimarães – ano depois, o Senhor Diretas e presidente da Constituinte.

Pouca gente sabe, mas Ulysses foi um dos líderes da Marcha da Família com Deus pela Liberdade a apoiou o golpe. Fez parte da comissão do Congresso que tentou elaborar o primeiro Ato Institucional, cujo texto os militares não gostaram e deixaram de lado para assumir a responsabilidade do que de fato virou o AI-1.

O apoio, explique-se, tem a ver com o discurso que se fazia para justificar o golpe (ou contra-golpe, como queriam os “revolucionários” e querem, ainda hoje, suas viúvas). A ditadura se instaurou em nome da democracia e contra a corrupção que as vassouras de Jânio Quadros, antecessor de Jango, não conseguira limpar.

Democracia em baixa na época

Essa é uma das diferenças entre as ditaduras anteriores e posteriores à Segunda Guerra Mundial. No Estado Novo, Getulio não tinha problema algum em dizer que aquele regime era autoritário. A democracia não tinha o charme nem o apoio de hoje. A União Soviética se desenvolvia e não era uma democracia. O nazifascismo aparecia como uma alternativa universal e recusava a democracia. Muitos regimes na Ásia, na África e na América Latina adotaram formas corporativistas autoritárias – como o Brasil.

Tanto Lacerda, JK e Ulysses quanto os governadores Magalhães Pinto e Adhemar de Barros aceitavam que os militares fizessem o jogo sujo de prender e cassar.  Achavam que fariam isso de maneira rápida e abririam alas para as eleições presidenciais de 1965. Logo depois, portanto, se retomaria o jogo político – excluídos, claro, os radicais livres da esquerda.

Como se sabe, não foi isso que aconteceu. Os militares gostaram de estar no poder e assumiram o protagonismo do regime.

Ditadura terminou em 1979 ou 1985?

Aarão Reis escreve que a obsessão de caracterizar a ditadura como apenas militar levou o Brasil até hoje a marcar o ano de 1985 como o fim do regime ditatorial do período. Ali se encerrou o mandato do último general-presidente. (Há quem antecipe este fim para 1979, quando cessaram os Atos Institucionais; ou atrase para 1988, quando foi aprovada uma nova Constituição.) “Estender a ditadura até 1985 não seria uma incongruência?”, questiona-se o professor, ao lembrar que o presidente empossado, José Sarney, desde o início apoiara o regime e se tornara um dos seus principais dirigentes… civis.

Desde 1979, porém, o estado de exceção estava encerrado. Com ele, os governantes poderiam editar ou revogar as leis pelo exercício arbitrário de sua vontade.

Também não foi preciso esperar 1985 para que não mais existissem presos políticos. O Poder Judiciário também recuperara a autonomia.

Desde o início dos anos 1980 passara a existir certo pluralismo político-partidário e sindical, liberdade de expressão e liberdade de imprensa. E, por fim, grandes movimentos puderam ocorrer livremente, como a própria campanha pelas Diretas Já, que mobilizou milhões de pessoas entre 1983 e 1984.

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